quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Do mar às Terras do Fim do Mundo

Ao fim de nove dias a lutar contra o grande oceano, o Vera Cruz estava de novo imóvel, bem agarrado ao cais de Luanda, tal como o havíamos encontrado à partida, em Lisboa. Não obstante esse facto, continuava estranhamente a sentir o balançar a que quase me habituara, sensação que se manteve por algum tempo, mesmo quando em terra firme. Por razões de logística, continuaríamos hospedados no navio até à manhã do dia seguinte, sendo bem vinda a dispensa concedida, que provocou uma autêntica debandada, ficando o Vera Cruz em sossego durante o resto do dia. Apresentei-me à cidade, percorrendo sem pressa toda a marginal que, partindo da zona portuária, parecia desaparecer ao longe, apontando o centro da cidade, espraiando-se como se desenhasse a compasso o suave arco que definia o contorno da baía, impondo-se decidida e caprichosamente sob a sombra de fileiras de esguias palmeiras, geometricamente alinhadas. Debruçados sobre o passeio, no lado esquerdo, mirando a ilha, uma correnteza de edifícios altaneiros conferia uma imagem de modernidade e fulgor, de entre os quais, o edifício do Banco Comercial de Angola que, erguendo-se majestosamente bem acima dos demais, exibia lá no topo a sigla BCA, a que alguém, com graça e imaginação, atribuíra outro significado. Bai Continuar Ainda, era uma referência à sua altura, especialmente quando comparada com os restantes edifícios da cidade. A curiosidade óbvia, associada ao ar aprazível da avenida, retardou o passo, adiando o encontro com o coração da cidade cheia de vida e animação. O movimento das ruas, as pitorescas esplanadas estrategicamente montadas à sombra de frondosos jacarandás, frequentadas em permanência por cauteleiros, engraxadores e cambistas apregoando condições vantajosas no câmbio de escudos portugueses por angolares, a animação, o barulho dos aparelhos de ar condicionado que equipavam qualquer estabelecimento - já que o calor não se anulava com uma simples sombra ou soprar de ventoinhas - compunham um cenário bem africano e estranhamente luminoso. A cerveja fresca, bem tirada e servida numa das esplanadas onde abanquei, acompanhada de saborosos camarões oferecidos em vez do tradicional tremoço, juntavam-se à sede a exigir outra rodada. Fiquei na dúvida se a oferta dos camarões era gentileza da casa, ou se, por ali, o camarão era mais barato que o tremoço. O desembarque formal, após a derradeira noite a bordo, deu início a uma nova etapa de uma viagem, ainda longe do fim, com o transporte para o Grafanil num estranho e indolente comboio, que nos transferiu para outra realidade, diferente, quente, colorida, porém não exótica e muito menos requintada. Cheiros até então não experimentados, davam-nos a conhecer fragrâncias exóticas numa mistura desconhecida de dem-dem fresco com o intenso perfume dos mangais, conluiando-se num desafio aos nossos sentidos olfactivos, à medida que o comboio rolava por carris que pareciam de brincar, contornando a urbe desde o porto e transmi-tindo uma ideia peculiar da cidade. A Luanda que passava perante os meus olhos, era marginal, diferente da que visitara no dia anterior. Em vez de prédios, tinha barracões, cubatas e putos seminus, com pele da cor da terra avermelhada que, numa correria desigual, tentavam competir com a marcha do comboio. Uma ou outra bananeira, que a ilusão da marcha projectava para trás, era motivo de espanto. A maior parte dos que agora chegavam nunca tinha visto uma. E também os cocos, encastrados lá no alto entre as folhas das palmeiras ou as mangas caprichosamente dependuradas de grandes árvores frondosas, vergando os ramos sob o seu peso. E os mamoeiros com os seus enormes frutos pendentes, mais alongados do que as papaias que eu conhecia. Esta espécie de letargia foi interrompida pela chiadeira que antecedeu a paragem do comboio, anunciando a chegada ao Grafanil, um entreposto militar a lembrar Santa Margarida, local de passagem das unidades para o interior, onde apenas estivemos o tempo suficiente para receber as armas (G3 novinhas em folha) e demais equipamento: cinturão, cantil, cartucheiras, carregadores, respectivas munições e porta granadas. Enfim, o suficiente para ficar convencido que ia para a guerra. De manhã, bem cedo, o sol ainda não despontara, arrumados em camiões de carroçaria entaipada, partimos em direcção ao sul. Neriquinha, sabíamos agora, era o nosso destino, um ponto no mapa a sueste, bem junto à fronteira com a Zâmbia. A curiosidade levou-nos a calcular a distância. Dois mil quilómetros em linha recta, mais coisa menos coisa, numa diagonal desenhada desde Luanda. O nascer do dia revelou a linha escura de asfalto que, abrindo-se ao avanço das viaturas, desenhava uma estrada feita de rectas infindáveis, num percurso ondulante, ladeado de viçosa vegetação alimentada pelas chuvas tropicais da época, deixando ver parcelas de terra de um vermelho acastanhado forte, onde aqui e ali, grupos de negros aravam culturas de subsistência. Era já noite quando alcançámos Nova Lisboa. Arrumados numas instalações militares nos arredores da cidade, dali saímos, a meio da manhã seguinte, em direcção à estação do caminho-de-ferro, após uma noite mal dormida, mas prontos para a próxima etapa que seria feita de comboio, inflectindo ligeiramente o sentido do percurso de sueste para leste. Levados com antecedência para a estação, por ali andámos, aguardando o momento da partida, numa espécie de habituação às relíquias ferroviárias dos Caminhos de Ferro de Benguela, enquanto a máquina a vapor ia devorando lenha, como que ganhando forças para rebocar uma infindável fila de carruagens e vagões que lhe tinham sido atrelados, numa prévia concentração para mais uma ligação entre a capital do Huambo e a longínqua cidade do Luso, atravessando uma zona que se dizia infestada de terroristas, o que gerou nervosismo e alguma apreensão. A eventualidade de um ataque durante a viagem, levou-me a, disfarçadamente, esquadrinhar a carruagem, dedicando maior atenção ao pormenor dos recantos da cabine onde me instalei, à procura de refúgio ou protecção para as balas que pudessem por ali passar. Rapidamente me apercebi que a carruagem não exibia qualquer buraco, maleita ou sinal de que alguma vez tivesse estado debaixo de fogo, concluindo que a frequência dos ataques ao comboio era treta, não passando provavelmente de histórias para amedrontar maçaricos recém-chegados. Fiquei mais tranquilo, especialmente depois de saber que, na frente do comboio, abrindo caminho, com alguma distância, seguia uma máquina rebenta minas, preparada para accionar qualquer engenho explosivo que tivesse sido colocado na linha. Mesmo assim, o temor de algum desses artefactos poder ser accionado por controlo remoto e logo, não anulável pelo estratagema do rebenta minas, deixou-me uma réstia de apreensão que me levou a explorar melhor os canais de fuga, designadamente as janelas ou a localização exacta das portas. Pareceu-me que, em caso de necessidade, seria mais fácil encontrar um abrigo mais seguro fora do comboio, num qualquer buraco ou atrás de um tronco que por ali pudesse existir. A viagem decorreu monótona, como monótona era a paisagem que, com o coração em sobressalto, os olhos vasculhavam de longe à procura do improvável inimigo, na inútil tentativa de identificar movimentos suspeitos para lá do verde incerto da vegetação que pudesse acoitar o atacante. Mas nada. Nem gente, nem movimento. Nem casario ou cubata. Nem estrada ou picada, vereda ou trilho que pudesse ser percorrido por quem quer que fosse. Pelo menos, da estreita janela da carruagem, não se divisava nada que pudesse constituir ameaça. O cair da noite determinou uma paragem na estação de Silva Porto, permitindo uma incursão pelo casario do povoado. Mas, naquele local, a noite tornava desertas as escassas ruas, pelo que o regresso ao comboio foi a decisão mais acertada, cada um procurando algum descanso numas horitas de sono, no desconforto disponível. Ainda era noite quando a máquina reiniciou a sua missão de reboque, parando finalmente resfolegante, como que exausta, na estação da cidade do Luso, aí nos entregando, sãos e salvos, quase trinta horas após a saída de Nova Lisboa. A paragem no Luso foi efémera, já que, no local de destino, os mais de 150 homens que iríamos substituir, aguardavam ansiosos a rendição. Os derradeiros quilómetros da jornada seriam feitos por via aérea, a bordo de uma aeronave até então desconhecida, pelo menos para mim. O Nord Atlas, concebido fundamentalmente para transporte de carga e lançamento de tropas pára-quedistas, teria de fazer várias viagens, levando uns e trazendo outros na volta, já que havia que rentabilizar meios e a lotação das instalações na Neriquinha era limitada. O meu pelotão, que fora incumbido de fazer a rendição do destacamento no Rivungo, integrou a primeira leva, juntamente com os especialistas a quem competia receber, da companhia rendida, equipamentos, material de guerra, viaturas, tachos, panelas e géneros, para além de outros artigos, artefactos, utensílios e quejandos que por ali existiam, constituindo uma multiplicidade de coisas difíceis de imaginar. Com algum receio, não sei se maior se menor, mas certamente diferente do que sentira ao acomodar-me no comboio em Nova Lisboa, tomei lugar num dos assentos de lona presos longitudinalmente à barriga do Nord, que levantou voo, no meio de um barulho ensurdecedor, num esforço para arrancar do solo toda aquela fuselagem recheada de vários contrapesos, iniciando uma viagem que ficou até agora gravada na memória. Num sacudir permanente, ora por efeito da trepidação dos motores, ora pelas manifestações atmosféricas e outros fenómenos similares, dava a estranha sensação de que viajávamos num qualquer veículo todo o terreno, percorrendo uma estrada esburacada que, não permitindo sequer a veleidade de um enjoo, ora pairava a alturas consideráveis ora, descendo abruptamente, rasava a copa das árvores, num arrepiante teste à nossa resistência, sobre uma paisagem de um verde desigual. Durante todo o percurso, não se viram povoações, construções ou outro sinal de vida, ficando a desagradável impressão de que voávamos com destino ao fim do mundo, como que a conferir validade ao nome pelo qual era conhecida a província do Cuando Cubango. De repente, no meio da paisagem plana, surgiu um minúsculo espaço, constituído por meia dúzia de barracões que, vistos lá do alto, pareciam ruínas desertas, não se divisando mais nada em redor, pelo menos até onde a vista alcançava. O coração bateu forte quando me apercebi que a Neriquinha era aquilo: o nosso destino e morada durante os longos meses que se seguiriam. Pensei que, mesmo sem guerra, deveria ser traumatizante viver ali. Se a isso juntarmos, a distância a que estávamos da civilização, o stress do isolamento, o temor do desconhecido e da eventualidade de um ataque, não andaríamos longe da definição de inferno. Estranho é que, volvidos alguns meses, passei a ver tão inóspito local como um lugar aprazível, familiar, de certa forma agradável. O homem, de facto, é um ser sensacional - habitua-se aos lugares onde tem de viver, mesmo que isso pareça impossível. O Nord aterrou finalmente na pista de terra batida de cor avermelhada, que corria paralela à cerca de arame farpado que delimitava o local, no meio de uma nuvem de pó vermelho levantado pelo rodopio das hélices, imobilizando-se em frente do que parecia ser a entrada daquele espaço, ocupado por meia dúzia de barracões cobertos com folhas de zinco e que constituíam, não só as instalações militares, mas toda a localidade a que chamavam de Neriquinha. A recepção que nos foi dispensada, pela sua peculiaridade e que eu interpretei como um “estão lixados”, deixou-me preocupado, especialmente depois de reparar numa pequena placa de madeira, rudimentar, estropiada, apontando uma direcção indefinida. Continha a inscrição: Lisboa 13999 Km.

sábado, 5 de julho de 2008

A TRAVESSIA

Das andanças da companhia na sua jornada em direcção a Angola, apenas restavam as escassas centenas de metros que distavam da Estação de Santa Apolónia até ao cais de embarque. A coluna de viaturas militares que se encarregou do transbordo, ocupando parte substancial da avenida 24 de Julho, virou à esquerda sobre a passagem de nível que levava ao porto, deixando ver, a pouca distância, a silhueta amarelo-esverdeada do Vera Cruz, firmemente agarrado aos pontos de amarração do Cais da Rocha Conde de Óbidos, aguardando imóvel por mais um punhado de gente trajando de igual, que em breve sobrelotaria a espécie de quartel flutuante em que fora transformado.
Outrora um dos símbolos da importante frota da marinha mercante portuguesa, passeara-se imponente pelas águas dos grandes oceanos, calcorreando as rotas migratórias portuguesas para o Brasil e América Central, no transporte de gente à procura de vida melhor, episódio da diáspora, na qual desempenhou um papel fundamental. Estava agora confinado à humilde tarefa de transportar tropas de e para África, soltando sem timidez o seu sonoro apito, num prolongado chinfrim que condizia com a sua altaneira figura. Pouco tempo depois, despediu-se dessas lides: Em 1973 foi vendido à Formosa onde acabou os seus dias.
A chegada ao cais deu lugar a um frenético corrupio, qual cenário teatral que se repetia sistematicamente há duas décadas e a que eu nunca assistira - são ambientes onde eu só poderia estar por ser um dos figurantes por imposição. Reinava uma espécie de confusão organizada, em que cada um procurava acomodar-se e às suas tralhas, no lugar do navio que lhe havia sido destinado: os soldados e cabos nos porões, em beliches improvisados de seis camas umas sobre as outras e os sargentos e oficiais, nos camarotes disponíveis, tudo numa correria de impaciência, na vã tentativa de esticar os derradeiros minutos, para os gastar no último adeus a familiares e amores que compunham a pequena multidão que se formara para as despedidas.
Cumprido o ritual, o Vera Cruz separou-se do paredão. Liberto das amarras que o prendiam, afastou-se lentamente, deixando para trás um esvoaçar de lenços e braços, no meio de um soluçar colectivo humedecido pelo rolar de lágrimas não contidas. Para a maioria, iriam decorrer mais de dois anos até que se reencontrassem.
À medida que, lentamente, iam ficando para trás, a Ponte Salazar, os Jerónimos, Torre de Belém e finalmente o Bugio, ainda retinha na lembrança o perfume e o quente sabor do último beijo da namoradita engatada na vizinhança do quarto que, enquanto estudante, ocupara em Lisboa, derradeira oportunidade para o apetecido contacto feminino que, durante os treze meses que já levava de vida militar, se limitara a encontros fugazes e esporádicos. Obrigado a interromper o curso para ingressar no exército, o namoro ficara sujeito a um jejum intermitente, entrecortado de quando em vez, ao ritmo das raras escapadelas a Lisboa, conseguidas ao sabor de uma boleia de ocasião, já que a viagem de comboio consumia parte substancial do fim de semana e o dinheiro do bilhete fazia falta.
Assim, a despedida feita reencontro justificava o maior calor e entusiasmo postos nos beijos de adeus. Foram também os últimos. É que, o namoro acabou quando ainda não estava cumprida metade da comissão. Na minha ausência, alguém ocupara o lugar, sinal de que a relação não tinha pés para andar - apenas foi boa enquanto durou. Via eu assim uma vantagem onde outros carpiam mágoas, não obstante a notícia ter-me feito ingerir, durante alguns dias, uma quantidade de álcool, para além da que seria razoável.
A silhueta escura das primeiras escarpas da costa Madeirense, que ao longe se desenhava, anunciava o fim da primeira etapa da viagem que duraria nove longos dias. O embarque de uma companhia independente formada na Madeira obrigara a uma escala no Funchal, propiciando, a mim e ao Gonçalves, um regresso à terra, ainda que fugaz, enquanto que, para uma grande parte daqueles turistas à força, constituiu a primeira e única oportunidade de conhecer a tão badalada pérola do atlântico.
Recostados na amurada, comentávamos a ironia do estar de volta, quando apenas tinham decorrido escassos dias desde que dali saíramos uma vez esgotadas as curtas férias de mobilização. Naquela curta estada, o Gonçalves tinha finalmente conseguido conquistar os amores da rapariga que, havia meses, pintava de cor-de-rosa os seus sonhos.
O Zé Maria, (tratava-o pelo nome próprio) não era de se gabar das suas conquistas, mas o sim que recebera, na sequência da ousadia de se declarar e a relação de amizade que nos unia – éramos os únicos madeirenses entre os cento e sessenta homens da companhia - soltou-lhe a língua, nomeando-me confidente. Quando se está feliz, não se resiste a contar e a aproximação da Madeira trouxe ao de cima recordações que a iminência do reencontro obrigou a exteriorizar, numa não disfarçada, porém contida euforia, bem visível no brilho dos olhos e entusiasmo posto nas palavras.
E não era para menos. Eu conhecia a razão de tão óbvia felicidade, como aliás, quase toda a gente na Madeira. A sua amada tinha sido recentemente eleita a mulher mais bonita da ilha, num concurso de misses muito popular na altura. Imagina-se, assim, o que ia na alma e na cabeça do Gonçalves, raispartando contra o andamento do navio, que a ansiedade retardava, pouco valendo ter-lhe feito compreender que a velocidade era superior ao que parecia.
Quatro horas, foi muito pouco tempo para quem acabara de chegar e já tinha de partir, mas suficiente para umas quantas despedidas. Para mim, a oportunidade para, num saltinho a casa, dar um último beijo à mãe - surpreendida porque já me fazia em terras angolanas - e ouvir o meu pai repetir mais uma e outra vez: “vê lá, tem cuidado”. O meu pai não era muito efusivo nem dado a dramas. Apenas quem o conhecia bem, perceberia, por detrás daquele simples conselho, o desgosto que lhe ia na alma.
Para o Gonçalves, a certeza de que o amor era coisa boa. Nunca cheguei a saber se isso tornou a viagem mais leve ou mais penosa. Por mim, inclino-me para a segunda hipótese, que isto de ser obrigado a deixar à mercê de uns quantos galifões, uma beleza daquelas, não é coisa fácil de superar e, honestamente, não se faz a ninguém. Com efeito, tal como aconteceu comigo, também alguém ocupou a vaga deixada pelo Zé Maria, quando ainda apenas tinham decorrido alguns meses. Não sei se isso lhe causou alguma mossa ou desgosto. Morreu num acidente inexplicável, lá para os lados do Rivungo, antes de ter tido tempo de me contar.
A aproximação da hora do jantar precipitou o regresso a bordo, caindo a noite quando se retomou a viagem, não demorando muito até que, da costa madeirense, apenas restasse uma sombra difusa no horizonte, dissolvendo-se lentamente na noite até desaparecer como num passe de mágica, à medida que nos afastávamos em direcção ao desconhecido, mergulhados numa escuridão que não deixava ver, nem o que nos rodeava, nem para onde seguíamos.
Com o amanhecer, mantinha-se o desnorte. Apenas o escuro da noite fora substituído por aquela imensidão de água, monótona, sempre igual, como se tivéssemos sido largados no meio de um nada rasgado pela proa do navio que, apontando uma direcção indefinida, mais parecia lutar contra forças invisíveis, escoltado por cardumes de peixes voadores que emergiam da superfície do oceano para logo desaparecerem, como se, após terem sido cuspidos pelo mar, teimassem em regressar apressadamente à fresquidão da água, fugindo ao calor.
A falta de pontos de referência dava a sensação de que não se saía do mesmo sítio, num vai e vem balouçante, que desequilibrava o andar e fazia nascer um enjoo, convidando ao vómito e condicionando o apetite, à medida que o agradável frio europeu do início de Novembro ia sendo gradualmente substituído por um calor insuportável, que aumentava de dia para dia, surgindo de braço dado com uma humidade espessa e persistente, que nos untava a pele de um não sei quê de gorduroso que só desaparecia com uns mergulhos na piscina em formato de tanque metálico, mas apetecivelmente cheia de água fresca sugada ao mar.
Nove dias, uns monótonos, outros nem tanto, um episódio aqui outro acolá, a chatice das inúteis formaturas no convés, marcadas para horas impróprias, limitadas a uma espécie de ensino teórico, baseado em recomendações sem sentido, que faziam ricochete na indiferença, visível no bocejo incontido, numa mal disfarçada ansiedade pela ordem de destroçar que, qual bênção, desencadeava uma correria à procura de uns momentos de lazer bem mais apreciados.
As noites eram preenchidas com jogatinas de lerpa ou king, jogos de cartas que muitas vezes se prolongavam pela madrugada, ou então com os inenarráveis serões, animados pelo grupo musical de bordo, tocando modinhas da época. Entre os seus membros, uma espécie de caricatura, semelhante a uma barbie com mais de sessenta anos, era o único elemento feminino a bordo. Com óbvios sinais de já ter ultrapassado o prazo de validade, exibia uma rala cabeleira loira, colocada sobre uma máscara de rímel, onde sobressaía uma boca desenhada a baton vermelho vivo, nitidamente esborratado nos cantos, encimando um corpo esquelético que se contorcia ao ritmo das batidas nas teclas do piano colocado estrategicamente à sua frente. O grupo esforçava-se por fazer com que a música convidasse à dança, onde a falta do elemento feminino, não obstava a que alguns foliões, ou porque toldados pelo álcool ou porque a galhofa a isso levava, arrancassem gargalhadas da geral, com as teatralizações improvisadas de danças de salão, com uns a tentar fazer de damas desajeitadas e outros de cavalheiros abusadores.
Magicando com os meus botões, perguntava-me, o que fazia ali aquela mulher, sozinha, no meio de um mar de tropas semi-alcoolizados, que despejavam um permanente chorrilho de palavrões. É que, na tropa, não se falava de outra maneira. Naquele ambiente, a forma mais educada de alguém se dirigir a outro, começava sempre por, "Oh seu cabrão...!"
A passagem do equador, anunciou-se sob a forma de um aumento do calor e da humidade do ar, sem que a tão falada linha mítica se deixasse ver, continuando a paisagem rigorosamente igual, quer em cor quer em textura, à medida que se povoava a imaginação de cenários de uma África desconhecida, numa tentativa de antecipação virtual das paisagens que nos aguardavam.
Os primeiros sinais de terra precipitaram uma correria à amurada, à vista da silhueta que, lentamente, em esboço, começou a desenhar-se na linha do horizonte, enquanto a monotonia azul aquática foi dando lugar a uma mancha difusa e acinzentada. A costa africana ganhava nitidez e cor a cada minuto que passava, até se transformar num castanho avermelhado, pincelado de verde, mas ainda insuficiente para satisfazer a curiosidade que nos assolava.
Luanda descobriu-se bem diferente dos cenários que virtualmente foram sendo desenhados no nosso imaginário. Por um lado, a inegável beleza dos contornos da baía, atapetada de água de um azul cristalino, numa quietude contagiante. Por outro lado, o multicolorido das típicas vestes africanas, à mistura com um trajar europeu a passar de moda, no meio de uma dominante cor de caqui, que caracterizava a indumentária do europeu transformado em africano. A temperatura, essa, continuava elevada, mas agradavelmente liberta daquela humidade irritante que nos acompanhou durante toda a viagem, como que a confirmar que, naquelas paragens, Novembro é verão e faz parte do trio de meses mais quentes do ano. Perceberíamos, mais tarde, que é também a época das chuvas diluvianas, criando um contraste climatérico até então desconhecido. Esta primeira impressão era estranha.
Pisar terreno africano pareceu-me surreal, assaltando-me um turbilhão de sentimentos, odores, cores e sons, que atropelavam os cinco sentidos, impedindo o fluir do pensamento e condicionando o raciocínio. Não era exactamente o que esperava mas, estranhamente, gostava, sem saber bem porquê, como numa espécie de amor à primeira vista que confirmava um lugar comum: ninguém fica indiferente a África. Com o tempo, confirmou-se que assim é. A relação com África foi sempre muito intensa e, como se demonstra, dificilmente se esquece.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Ainda cá estás...sabes?

O sotaque, inescondível, marcava-o desde a primeira luz da sua curta vida e levava-nos á terra da semelha com beselha, dos candeeiros e das abelhinhas.
O bronzeado permanente e natural, marcava-lhe na pele, o mar e o sol.
A calma da fala e a ponderação do gesto identificava-o como ilhéu - que o remanso da solidão e o barulho das ondas lacra na alma dos donos do oceano.
Chamava-se Gonçalves, Furriel José Maria Nóbrega Gonçalves, natural de Valparaíso, freguesia da Camacha, concelho de Santa Cruz, na ilha da Madeira.
Faleceu - vai fazer 36 anos - a 8 de Julho de 1972, no Rivungo num acidente estúpido, como estúpidos são todos os acidentes com armas de guerra na mão de militares.
O fogo da arma, roubou-lhe a chama da vida.
Ainda cá estás, entre nós!
Parece que foi ontem, sabes?

quarta-feira, 18 de junho de 2008

DE ÉVORA A SANTA MARGARIDA

O calor tórrido daquele verão alentejano, tornava penoso cada dia daqueles longos três meses de instrução, derretendo esforços, calcinando tudo e imprimindo um efeito retardador no tempo, à medida que paulatinamente iam sendo cimentadas amizades, conhecimentos e afinidades, primeiro passo para uma convivência de proximidade que comandaria, nos próximos dois anos e tal, a vivência deste punhado de homens recém-reunido.
Arrastava-se o tempo preenchido com frequentes marchas, corridas e exercícios vários, cumpridos a contra gosto, sob um sol sufocante e impiedoso, normal neste recanto lusíada, mas parecendo mais severo do que seria de esperar, percebendo-se o seu efeito no dia-a-dia de quem quer que por ali viva ou esteja de passagem, impondo de forma enfática uma drástica desaceleração de todo e qualquer movimento, secando tudo num afã impiedoso, com excepção do copioso suor dos corpos em permanente processo de desidratação. Se efectivamente África era tão quente e soalheira como constava dos compêndios de geografia, este era o melhor local para uma adequada adaptação, se é que isso alguma vez fora previsto nos gizados planos de instrução militar.
Foi ali, debaixo da inclemência do sol alentejano que a arte da guerra foi sendo ensinada em ritmo acelerado com transmissão de conhecimentos em catadupa, sob a forma de técnicas, práticas, procedimentos e toda uma panóplia de esquemas, tácticas, métodos evasivos, de defesa e ataque, num esgotante plano de instrução, repetido vezes sem conta a grupos formados em “U” ocupando cada um dos cantinhos menos castigados pelos implacáveis raios solares, numa tentativa nem sempre conseguida de transmitir a uns conhecimentos há pouco adquiridos por outros.
A liberdade chegava a conta gotas em cada fim de dia (para quem não estava de serviço) e com ela a oportunidade de, na tasca mais à mão ou numa esplanada da Praça do Giraldo, re-hidratar o corpo com meia dúzia de imperiais e regalar os olhos nas roliças moçoilas passantes, autênticos colírios para a vista de tropas que, num pavloviano salivar, sofriam com o jejum ditado pela distância das respectivas amadas deixadas em sossego (ou talvez não) na santa terrinha.
Com o fim da instrução, companhia formada, seguiu-se a derradeira etapa que finalmente nos tornaria aptos para o que desse e viesse na luta, que se queria feroz e sem tréguas, contra um inimigo distante e desconhecido. Designada por IAO (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional) era destinada apenas a militares em vias de embarque para terras do ultramar, decorrendo esta espécie de ensaio geral no campo militar de Santa Margarida (perto de Abrantes) para onde havíamos sido transferidos numa autêntica demonstração de eficiência da logística de transportes.
Aqui, o efectivo foi engrossado com os especialistas vindos dos quatro cantos do território, também estes formados com a mesma rapidez e eficiência, em enfermeiros, mecânicos, vagomestres, cozinheiros, padeiros, radiotelegrafistas e técnicos de transmissões, já que, carpinteiros, pedreiros, barbeiros, pintores, electricistas, escriturários e contabilistas, homens honestos e alguns aldrabões, sisudos e foliões, esses compunham, mais uns do que outros, os cerca de 160 homens, metidos nesta aventura à força. Enfim, um conjunto de artífices que tornariam a 3441 auto-suficiente, no que toca às habilidades humanas que formam uma sociedade, verdadeira micro comunidade pronta a povoar qualquer deserto onde fosse largada, mas que ainda não tomara consciência do que a esperava.
Neste incaracterístico local de passagem efémera a caminho da guerra, plantado de barracões a fazer lembrar acampamentos militares exibidos em múltiplos filmes de acção, receberam-se as últimas dicas e executaram-se novos exercícios, desde acções na mata, a assaltos encenados com emboscadas e emboscados, uns fazendo de NT (nossas tropas) e outros de IN (o inimigo) exercitando e praticando o salto de viatura em andamento que, pelo menos para mim, acabava sempre com um joelho, uma perna ou outra parte do corpo ensanguentada, esfacelada ou pelo menos sem parte da pele, já que o solo não era relvado e os seixos abundavam, em resultado do permanente rodar, resvalar e derrapar dos Unimogs utilizados.
A sessão terminava com o salto do helicóptero que, para o efeito, pairava a alguns metros do solo, obrigando-nos a uma autêntica simulação de lançamento de tropas heli-transportadas para o assalto ao “objectivo”.
Completadas estas derradeiras semanas de exercício intenso entremeadas por idas ao enfermeiro que, de cada vez, nos perfurava a pele, injectando antídotos que nos dariam (deram) a resistência possível à chusma de maleitas e doenças tropicais a que ficaríamos expostos, com particular referência para a que nos imunizaria contra as picadas da mosca tsé-tsé, primeira pista objectiva relativamente ao local do território angolano onde seríamos largados, mas ainda não divulgado (a mosca tsé-tsé só enxameia certas partes do território). Aliás, só após a chegada a Luanda, seríamos informados do local que nos esperava, um recanto remoto do sueste angolano, muito a propósito apelidado de Terras-do-Fim-do-Mundo. Diziam alguns que tal sigilo era para nos proteger. Não sabendo pormenores, o inimigo estaria impossibilitado de armar uma qualquer emboscada aos "maçaricos" que chegavam. Se calhar era mesmo por isso. Durante o tempo que por ali vagueou, a 3441 nunca sofreu um desses ataques, contra os quais ensaiara, vezes sem conta, as técnicas reactivas.
Preparados para o que desse e viesse, chegou finalmente a tão esperada e prometida benesse final, para muitos a primeira oportunidade de voltar à terra após a incorporação. O direito a gozar dez dias de férias junto da família, incluía o pagamento do transporte para o local de naturalidade, quer fosse de comboio, camioneta, barco ou avião, tudo a expensas do exército.
O dia da partida chegou e com ele um verdadeiro reboliço nas casernas e camaratas, ocupando cada um num afã de arrumar malas e sacos, encafuando da melhor forma os parcos pertences de homens pouco habituados a tratar de roupas e demais preparos de viagem, tarefa que começava a tornar-se um hábito, acontecendo sempre que se mudava de local.
- Já me cheira a palha!
Gritava o Braga no meio da confusão, numa alusão aos apalpanços com que presentearia a namorada mal a tivesse a jeito.
Na camarata dos sargentos, a confusão não era menor. Apenas ligeiramente diferente, porque sempre havia mais peças de vestuário. Os praças não podiam nunca trajar à civil. Os sargentos e oficiais sim, quando não estavam em serviço.
- Vou apanhar o comboio das duas e com um bocado de sorte estarei amanhã em casa antes do almoço.
Anunciou o Silva.
- Se não houver problema nas ligações no Entroncamento e em Campanhã.
Emendou, sem querer lamentar-se por não viver mais perto.
- Cá por mim … penso estar em casa dentro de três horitas.
Retorquiu o Ramirez, confiante na capacidade e potência do seu Fiat 6oo, carinhosamente arrumado no parque destinado aos mais abastados e com o qual previa vencer os quilómetros que nos separavam de Lisboa.
Alguém alvitrou que umas cervejolas, ajudariam a encurtar o tempo e a distância.
- Cerveja, não sei … mas tenho ali uma garrafita de Brandy que pode dar uma ajuda.
Disse o Silva, numa clara atitude de concordância com a solução alcoólica para minimizar o efeito temporal do obstáculo.
- O ideal, é beberes a garrafa toda de uma vez.
Desafiou o Duarte em tom provocatório, no intervalo de duas chupadelas, naquele seu trejeito beijoqueiro com que sofregamente atacava a boquilha do cigarro que cuidava de manter sempre aceso.
- Se pensas que não sou capaz, estás muito enganado.
Respondeu em tom de desafio.
E, num crescendo estúpido de … não és capaz … sou pois … queres apostar, a teima foi arrematada. O Silva beberia a garrafa de Brandy, de uma assentada, sem nada em troca, apenas pelo desafio, naquela recorrente tendência da juventude de não medir as consequências de palavras e actos impensados.
Desenroscou a tampa, levou a garrafa à boca e sem a mínima hesitação engoliu todo o líquido, num glu glu ritmado, até não restar gota.
- Vês, como fui capaz! Vangloriou-se da façanha.
A aparente lucidez exibida, cessou de repente. O corpo atarracado do Silva foi repentinamente acometido de um frenesim louco. Atirava-se contra tudo o que o rodeava, cabeceava violentamente paredes e armários, ao mesmo tempo que soltava gritos roucos de autêntica demência. A loucura acabou em pouco mais de dois minutos, com um par de cabeçadas no velho e frágil roupeiro que compunha a escassa mobília da camarata, destruindo-o parcialmente. Caiu desamparado no chão e não mais se mexeu, em evidente coma alcoólico.
Fez-se um breve silêncio de imediato quebrado por alguém que exclamou:
- Não há problema! … respira!
Numa altura em que todos aguardavam ansiosamente o transporte que nos levaria ao comboio, gerou-se uma certa apreensão.
- E agora?
Diz o ditado que "ao menino e ao borracho, põe sempre Deus a mão por baixo”. No caso do Silva, valeu-lhe o facto de existir um pequeno grupo de praças que, residindo para os mesmos lados, já tinham mais ou menos combinado fazer a viagem em conjunto. Um segurou-o pelos sovacos, outro pelas pernas, os restantes carregaram os pertences e assim o levaram inanimado. Contaram-nos depois, já em pleno alto mar, que o Silva dormiu o caminho todo e nem acordou quando o comboio parou na derradeira estação. Quanto ao efeito … foi drástico. Penso que nunca mais ninguém o viu beber uma só gota de álcool. Deve ter sido o único da companhia que nunca se embebedou durante os dois longos anos em que nos mantivemos juntos por terras de além-mar.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

ADEUS, ATÉ AO MEU REGRESSO!

Foi num domingo a noite.
-Até pr’a semana!Dois beijos na mãe, um abraço ao pai, mais apertado desta vez, um carolo no caçula e, ala, porta fora, atordoado com as saudades que só mataria daí a mais de um ano de distância.
Saltei a meia dúzia de degraus para a rua e, sem revirar o olhar para a moldura da porta onde eu sabia estarem a absorver uma última imagem, entrei no carro que me deu boleia até Mangualde onde apanharia o comboio para uma viagem, cuja incógnita do regresso, esmagaria os meus pais, caso soubessem o meu novo destino. Lágrimas, não; mas um vazio opressivo teimou em me acompanhar toda a viagem. Ficara alguma coisa por fazer, ou, no mínimo, por dizer. Esta injustiça viria a perseguir-me toda a vida.
Aquele
-Até p’ra a semana!
foi a melhor mentira que encontrei para os livrar da dor que eu já sentia há semanas.
Estava mobilizado para Angola e ninguém sabia, excepto uns quantos amigos de peito: a Ivone, o Jorge, o Vítor Cravo e a namorada da ocasião. Não era notícia que agradasse dar, fosse a quem fosse, muito menos à família. Souberam-no através de um postal, enviado do Funchal, onde o Vera Cruz atracou a caminho de Luanda. O que escrevi, que a coragem e o aperto d’alma não dava para mais, foi curto, abreviando, em desenhos de má caligrafia, pressurosos e envergonhados, os dizeres da fuga e do silêncio que há dois dias me consumia
“Vou a caminho de Angola. Depois telefono. Beijos”.
Nunca telefonei.
Aerogramava, como todos, e, sempre em curtas, evasivas e saudosas mensagens.
A folia contínua no barco não permitia que as ideias fluíssem com serenidade, comendo-nos o raciocínio e fazendo pairar, sobre todos nós, a dose de inconsciência necessária ao sonho de aventuras heróicas numa terra e numa guerra de que apenas conhecíamos o nome. Neste vazio doce e involuntário, ocupava-se o tempo com coisas para encher coisa nenhuma: a viagem de barco (como vomitei durante dia e meio!), o tempo passado na jogatina da lerpa (jogo oficial dos militares no Ultramar), os copos (que iam diluindo, tal como a distância, a temporã saudade dos mais próximos), a euforia juvenil do guerrilheiro (que escondia mágoas à espera do tempo de carpir), as caras dos militares da 3441 em rápido processo de conhecimento (e que durante dois anos seriam a nossa família mais chegada), a expectativa de ver África pela primeira vez (cheia de perigos das doenças tropicais, feras e terroristas, pensávamos nós) e o medo do desconhecido. E logo ali se foram definindo e forjando as amizades sólidas, que o futuro veio a confirmar, nos palpites de ocasião sobre a compra, naquele supermercado ambulante, de máquinas fotográficas Cannon, relógios Orient e outros artigos “livres de impostos”, com que os Sargentos da Marinha nos comiam os últimos escudos do subsídio de mobilização (7.000 escudos, que fortuna, naquele tempo!).
E, assim, naquele balouçar de sonolência e enjoo, e, na visão surpreendente do voo dos peixes voadores, que planavam umas dezenas de metros acompanhando a linha d’água roubando a glória às gaivotas e albatrozes, se foram encurtando as milhas que nos aproximavam do destino.
Luanda, a Baía de Luanda, apareceu difusamente no horizonte e uma curiosidade quase sobrenatural cometeu o milagre de silenciar centenas de bocas e paralisar os gestos dolentes, aferroados pelo calor tropical, trazendo-nos à realidade e ao receio de, finalmente, a grande aventura das nossas vidas, começar a delinear-se naquelas curvas suaves da terra que se avistava ao longe e que crescia lentamente aos nossos olhos.
Atracámos, carregados de sacos e recordações. Desfilámos, inchados de coragem e escondendo os receios que nos assaltavam em catadupa. Encomboiaram-nos para o Grafanil e tudo foi novidade, para mim, na mais pequena e espantosa viajem da minha vida: os miúdos, milhares, numa infindável corrente humana que corria ao longo da linha gritando, para estupor de todos nós; aquele calor abafado e húmido que nos enchia o peito e secava a boca; a cor barrenta da terra e o cheiro forte e adocicado do ar, criando novas sensações olfactivas ainda hoje presentes e reconhecíveis nos sonhos em que viajo pelo passado. Esta marca, a primeira verdadeiramente africana, colou-se, até hoje á minha pele e permanece, violenta e real, em todos os dias da minha vida.
Ensanduichados nas barracas de campanha, distribuíram-nos as G-3 (o lema era: come com ela, dorme com ela, e, se fores às putas, leva-a contigo, porque sempre atacas com duas armas!) justificando, assim, a nossa mobilização para esta campanha guerreira.
Numa coluna gigante, formada por camiões de gado, nos quais nós fazíamos do dito, galgámos quilómetros a caminho de Nova Lisboa, tendo, como destino final, o Kuando-Kubango, Leste de Angola.
Vinte e cinco tostões, dois e quinhentos, custaram os abacaxis que alambazámos pelo caminho, fazendo companhia e complemento às rações de combate com que nos haviam despachado para esta viagem, ao quase interior de Angola e que terminaria na cidade do Luso, após uma memorável e nunca olvidada viagem por caminho de ferro, numa composição com mais de quinhentos metros de comprimento puxada por duas locomotivas a vapor, uma à frente e outra à retaguarda, antecedidas por um vagão rebenta-minas.
Angola, ia-nos comendo a alma com novos medos até aí desconhecidos. Travávamos conhecimento com dimensões e sentimentos fora dos nossos parâmetros cognitivos: aquelas terras sem fim e a perder de vista, as florestas intermináveis e densas, as distâncias, que o cansaço tornava maiores, as conversas em surdina sobre coisas até aí nunca faladas, as justificações e razões díspares, cautelosas, mas já tardias. Ao fundo do túnel das nossas vidas neste novo mundo, o vazio do futuro, esse buraco nunca tapado e sempre presente.
Na cidade do Luso, a estadia, foi como uma miragem: breve e fugaz. Os Nord-Atlas, uma espécie de elefantes com asas, encarregaram-se de nos colocar no centro do nosso novo Universo: N’Riquinha, a poucos quilómetros da fronteira com a Zâmbia.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Toque a reunir

Após o fim da instrução e uma vez graduados no posto de Cabo Miliciano, espécie de limbo na hierarquia militar, inventado pelos estrategas de então para justificar o pagamento de um “pré” miserável a um sargento, vinha a colocação numa unidade o mais distante possível dos locais cuja preferência dávamos a conhecer, de forma criteriosa, por inscrição em impresso devidamente homologado.
Sendo natural da Madeira, inscrevi em primeiro e segundo lugares, unidades instaladas nas cidades do Funchal e Lisboa, colocando Caldas da Rainha em terceiro lugar, apenas porque, para além de já conhecer o local – fiz ali a recruta ‑ tinha a vantagem de, estando perto de Lisboa, poder usufruir da oportunidade para, aproveitando folgas, ir fazendo umas cadeiras do curso abruptamente interrompido.
Sem surpresa, fui colocado no RI-16 em Évora e destacado para Caçadores 6 na longínqua e então, para mim, desconhecida cidade de Castelo Branco, constituindo um sinal de que a mobilização para África era certa e iminente. É que, a colocação em locais tão díspares dos escolhidos, por regra o mais longe possível, assegurava o corte com os elos familiares e de amizade que compõem os afectos próprios do ser humano, constituindo como um primeiro tirocínio de habituação à longa ausência que se avizinhava.
Para já, no BC-6, foi o primeiro impacto com uma realidade diferente, o que significa a passagem da condição de cumpridor de ordens, muitas vezes ditadas por quem nem sequer sabia da arte de mandar, para uma outra, em que, mutatis mutandis, se fazia exactamente aquilo que antes, em surdina se condenava, num quase exercício de imitação, impondo a homens recém-chegados a esta etapa da vida dos jovens de então, um conjunto de ordens e contra ordens, regras, estratégias e afins, entremeadas com exercícios físicos diários, mandados executar sem consciência das capacidades do corpo humano ou do malefício que daí poderia resultar para a integridade física de cada um.
É que, pelo menos naquele tempo, era entendido que seis meses era tempo mais do que suficiente para transformar gente recém saída da adolescência em militares graduados, colocando-lhes sobre os ombros uma responsabilidade do tamanho do mundo, sem que disso, sequer, se apercebessem.
E foi assim, que os novos recrutas daquela unidade serviram na perfeição como cobaias para testar a minha capacidade de ensinar a recém-adquirida panóplia de conhecimentos, técnicas e minudências da arte de uma guerra onde nunca tinha estado, devidamente condimentadas com as qualidades de comando necessárias ao bom desempenho da missão de mandar.
A já esperada notícia chegou, comunicada de forma peculiar pelo Cabo Miliciano Leitão, então colocado no aconchego da secretaria da unidade, a quem os quase 18 meses que já levava de tropa o colocavam entre os “velhinhos” que tinham vindo a escapar de uma mobilização para África.
- Foste mobilizado!
Gritou de longe, esbracejando na minha direcção.
- Quem? Eu?
Retorqui com idiota e redundante pergunta.
Sim! E eu também. Vamos na mesma companhia … para Angola!
E continuou, no típico desabafo que caracterizava o linguajar da tropa.
- F…., lixaram-me! Estou quase a ser promovido a Furriel e já não esperava bater com os costados em África.
Com efeito, pelo menos até então, era quase certo livrar-se de um passeio pelo ultramar, se a mobilização não chegasse antes de completados 18 meses de vida militar, altura em que, finalmente, eram substituídas as divisas de Cabo Miliciano, pelas de Furriel. No caso do Leitão, apanharam-no no limite. Mais umas semanitas e com a promoção talvez conseguisse escapar.
Na semana seguinte, munidos da guia de marcha e necessária requisição de transporte, rumámos à nossa unidade de origem. O Leitão, aproveitando ao máximo a proximidade da terra, saiu no dia seguinte. Eu, aproveitei a borla do comboio e meti-me ao caminho na companhia de uns quantos soldados com o mesmo destino, uma boa parte dos quais, naturais de Cabo Verde, integrando um contingente de novos recursos, em cumprimento de uma nova ideia do regime – Incorporar nas fileiras, naturais de uma colónia que passou de receptora a fornecedora de contingentes militares. Esta nova ideia gerou entre os Cabo-verdianos um sentimento de revolta, com algumas consequências desagradáveis, que vieram dar algum sal e animação à estada no Regimento de Infantaria de Évora.
E ali nos juntámos todos, reunidos para “formar companhia”, prontos para conhecer aqueles que passariam a ser, nos dois anos em que andaríamos por terras longínquas, superiores e subalternos, amigos e companheiros, uns mandando, outros obedecendo e alguns refilando, confinados a alguns metros quadrados delimitados por uma frágil cerca de arame farpado, numa vivência diária cujos contornos, na verdade, ninguém conhecia ou fazia a mínima ideia do que seria. A mim, nem me ocorreu pensar nisso. Quanto ao Leitão, como prémio e recepção de boas vindas, foi informado que, no dia seguinte, estaria de sargento-de-dia.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Fala de Capitão...

Tinha 23 anos quando me apresentei em Évora para formar a Companhia de Caçadores 3441.
Chegado a meio da tarde, estacionei o meu Datsun 1200 verde alface à porta do RI-16, cumprimentei a sentinela e entrei pelo gabinete do oficial de dia adentro. Após as burocracias do costume, acompanhou-me ao primeiro andar. Pelo caminho foi-me prevenindo da extrema rigidez do Comandante do Regimento quanto ao atavio. Fiz-me uma leitura e algumas correcções. A última, instintiva, foi passar com os dedos pelos sobrolhos, procurando alinhar os pelos.
Depois de anunciado, fui presente ao Comandante do Regimento para a apresentação protocolar.
Depois de uma tremenda palada e um sonoro bater de calcanhares (havia sido prevenido que o nosso Comandante gostava das coisas assim...), proferi um firme "Apresenta-se o Tenente Miliciano nº 13376769, colocado nesta unidade" e levei a primeira "piçada" militar, ainda não tinha dado mais de dois passos no interior do gabinete: tinha um botão quase a desabotoar-se...
Prometi que não voltaria a acontecer.
Olhou-me com inusitada curiosidade. Fechou o rosto numa impenetrável máscara militar. Percorreu-me de alto a baixo. Parou na minha cara de menino, acentuada pelo escanhoado perfurante até à raíz dos pelos. Respirou fundo, recostou-se resignado (pareceu-me..) e fez um curto silêncio.
Fiquei um tanto perplexo cogitando para mim próprio: será que falhei nalgum elemento protocolar? Bem, não devo ter que me ajoelhar... Ou será que não estou à distância e ângulo certos relativo ao Cmdt, conforme por certo deverá estar prescrito nas NEP's?
Num salto, seguido de postura militarizada um pouco diferente da habitual (punhos cerrados e braços estendidos e meio arqueados para trás), colocou-se em pé e deixou sair em tom firme: está apresentado.
Mantive-me em sentido, claramente intimidado pela atmosfera criada, e sem saber bem que atitude tomar.
Voltou a sentar-se e olhou-me de novo. Eu continuava imóvel e nem sei se respirava. O ambiente criado, a postura do Cmdt e o vozeirão (que me pareceu mais teatral que natural) pesavam sobre os meus 23 aninhos recentemente conquistados.
Deixou passar mais uns breves momentos, como se usufruindo de um poder que quase me poderia enviar para a frente de um pelotão de fuzilamento (a invectiva dura e quase fulminante do botão quase desabotoado ainda me burilava nos ouvidos), determinou, qual César num breve acesso de boa disposição: podes descansar...!
Afastei os calcanhares, cruzei as mãos atrás das costas, tudo com determinação copiada da postura recente do Cmdt.
Em Roma sê romano. E respirei, devagarinho... O silêncio estabelecido a isso me aconselhava.
Baixou os olhos e leu os meus papéis. Teve um leve esgar de sorriso, pareceu-me. O semblante militar nem sempre permitia ler sinais de emoções civis naturais.
Tens 23 anos...?!
Sim, meu Cmdt. - atrevi-me a responder sem saber se era uma pergunta se era uma constatação.
Pois! É o que consta aqui. Já estiveste na guerra?
Quatro meses nos Dembos.
Onde?
Mucondo, Stª Eulália.
Quem era o Cmdt de Batalhão?
Tenente-coronel Duarte Silva.
Hum... Cavaleiro. Foste atacado?
Um ataque e uma mina anti pessoal.
Morreu alguém?
Três pessoas.
Pessoas como? Militares ou inimigos?
Três elementos da população que acompanhavam os guerrilheiros.
Então, três inimigos...!
...!
Tens consciência da responsabilidade que vais assumir? Tens consciência do que te pede a Pátria?
Julgo que sim, meu Cmdt. - proferi com consciência da pouca convicção com que o afirmava.
Julgas, ou tens a certeza?
Tenho alguma consciência da responsabilidade, mas poucas certezas daquilo que me espera.
Olhou-me em silêncio durante o tempo suficiente para que eu admitisse que me ia cair uma tempestade em cima. Quem sabe se não me daria por inapto, tendo em conta as minhas poucas certezas e menores convicções. A do botão ainda não se tinha desvanecido.
Retomou aos papéis por longos segundos. O semblante continuava impenetrável. O calor já intenso daquele verão de 71 fazia-se sentir no rosto do Cmdt em forma de gotículas de suor que amiudadamente limpava ora com a mão, ora com um lenço imaculadamente branco. Por fim rompeu abruptamente aquele silêncio e atirou:
Gostas de vinho branco ou tinto?
Embatuquei. O ambiente deve ter-me transtornado de tal forma que já não entendo bem aquilo que ouço, pensei. Pedir para repetir? Desaconselhável. Rompeu-me a ideia de que um "nim" talvez resolvesse, ou me safasse.
É-me indiferente, meu Cmdt. - balbuciei receoso.
Indiferente como? Ou gostas de branco, ou de tinto.
Bem, afinal tinha ouvido correctamente.
Por vezes vai bem um tinto e outras gosto de um branco bem fresco. No Algarve, donde sou natural, no calor do Verão sabe bem um...
... branco bem fresco, não é? É desse mesmo que eu gosto. Esta noite jantas comigo - rematou o Cmdt levantando-se e encaminhando-se para a porta, não sem antes se postar bem à minha frente, naquela nova postura para mim, esperando mais uma tremenda de uma palada que me esmerei por satiafazer. No momento acrescentou:
A partir de hoje a posição de sentido será assim - disse mantendo aquela nova posição por alguns momentos, esperando obviamente que eu o seguisse.
Tomei a postura, após a continência.
Corrigiu-me.
Punhos mais cerrados e posição mais agressiva. E a partir de hoje vais envergar sempre uma camisola preta debaixo do fardamento. É um distintivo de comando que caracteriza esta unidade.
Desfazendo a postura indicou-me a porta.
Lá fora, o oficial de dia que me havia conduzido até à porta, esperava-me.
Então, como correu?
Não sei. Normal, acho eu.
Não te beliscou com o fardamento?
Um sacana de um botão quase a desabotoar-se que eu tenho a certeza que tinha abotoado, conforme me preveniste.
Só o botão? Estás com sorte. Os atacadores dos meus sapatos não estavam atados de forma parelha...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

O REPTO

Caro Amigo:
A Companhia de Caçadores 3441 (Angola 1971-1974) deu origem a 4 livros, já publicados, e escritos por participantes na mesma: o capitão Cabrita (2), o alferes Aranha e o cabo Joaquim Sousa.
Esta circunstância, talvez única, de uma pequena unidade militar portuguesa da Guerra do Ultramar dar origem a tanta literatura, onde pontuam as experiências, os anseios, as desilusões, as lágrimas e as alegrias, o sofrimento, as derrotas e vitórias de cada um, fez-me surgir uma ideia, que, de momento, não passa disso mesmo: lançar um desafio a todos os militares da 3441. Um desafio que, a ser aceite, dará origem, pela primeira vez (que eu saiba), a um acontecimento na história da literatura: um livro escrito por dezenas de protagonistas, descrevendo as mesmas situações e, por isso, vistas por personalidades diferentes. No final, resultaria um livro, escrito por muitas mãos, numa sinfonia de sentimentos comuns e contradições, desnudando almas que jamais se libertaram do passado e da juventude vivida longe da família e amigos, em condições que nunca tinham sonhado.
No final, se a tanto ajudasse "o engenho e a arte" publicar-se-ia outro livro, com um autor apenas: COMPANHIA DE CAÇADORES 3441.
Levar a cabo esta original iniciativa, apenas será possível com a colaboração de um número substancial de participantes. Cada um colocaria neste blog os seus posts depois de fornecido o mote para o capítulo que estivesse na calha, por exemplo: a viagem de Lisboa a N'Riquinha; a primeira sensação de África; o mato; as operações; o dia a dia na caserna; as histórias de amores adiados; etc, etc. Tudo visto e relatado por uma multiplicidade de homens, todos na casa dos "quase 60" e a trinta e muitos anos de distância.
Para que tal fosse possível, todos os interessados teriam acesso livre ao blog, fornecendo eu, o username e a password.
Este primeiro passo, terá continuidade se encontrar da vossa parte, a vontade de colaborar e com regras que em tempo e em conjunto, definiremos.
No fundo, reviveríamos com muito mais frequência os nossos encontros anuais.
Como primeiro acto, sugiro a todos os que acederem a este blog, que passem a informação aos camaradas de armas que estiverem ao seu alcance, devendo cada um, pedir, através dos comentários e indicando um endereço electrónico, os códigos para participar.
A ideia é simples, e, por mail ou através do blog, ajustaríamos cada vez melhor a forma de se levar a cabo esta ideia. Por isso, peço sugestões, sendo certo que não será fácil a empreitada.