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terça-feira, 1 de março de 2011

O unimog da PSP caiu ao Rio

Já o disse várias vezes: o Rivungo era uma circunscrição com Administrador, PSP, tropa, marinha e um rio caudaloso. Pode parecer pouca coisa, mas marcava a fronteira entre, digamos, um buraco e um local onde se poderia viver. Era uma localidade com população civil própria, autóctone, mas própria, enquanto a Neriquinha não passava de um acampamento militar cujas tendas haviam sido substituídas por barracões, um par de anos antes, atraindo uma população mais ou menos nómada que se fixou logo ali, a seguir ao arame farpado, beneficiando de alguma segurança (se é que dela precisavam) e das facilidades propiciadas pela logística militar. Entre elas, a água canalizada a partir de um depósito metálico encavalitado numa estrutura de ferro e uma pista de terra batida onde, de quando em quando, aterravam aviões que faziam a ligação ao mundo exterior.
No Rivungo não havia pista, pelo menos coisa que fosse digna desse nome. Apenas uma pequena clareira no meio da mata a cerca de dois ou três quilómetros da periferia, permitia a aterragem dos pequenos puxa-empurra que nos traziam o correio e pouco mais. Era uma chatice, já que, sempre que estava para chegar o avião, era destacada para a necessária segurança uma equipa composta por quatro militares, chefiados por um furriel. É verdade, todas as terças e quintas e sempre que qualquer pequena aeronave por ali aportasse, a equipa de prevenção encavalitava-se no pequeno unimog que acelerava pela picada irregular procurando chegar ao local de aterragem antes da aproximação do avião, postando-se aí em formação defensiva para que aterrasse em segurança. Na verdade, nunca me pareceu que protegesse grande coisa. Eram apenas quatro homens que só conseguiam cobrir a zona onde o avião se imobilizava, ficando todo o comprimento da pista desprotegido. De qualquer forma, se nos atrasássemos, o Barros não aterrava, voando em círculos até que chegássemos ao local. Noutras alturas, aterrava mesmo assim.
A sorte era haver sempre voluntários. Desejosos de tocar o correio metido dentro do saco cinzento que o piloto entregava ao furriel, estavam sempre prontos. Mal chegava a mensagem via rádio, agarravam na G3 e corriam para o pequeno unimog. Ali chegados e sempre no local onde se sabia que sistematicamente o avião parava, dispunham-se os escassos homens dos dois lados do campo e esperava-se com alguma impaciência a chegado do Cessna. Toda a manobra de aterragem, entrega do correio e levantar voo de novo, não demorava mais de cinco minutos; noutro ponto, outros aguardavam ansiosos a chegada das preciosas notícias. Assim, mal o avião ganhava velocidade, subia-se para a viatura aí se aguardando que o avião se elevasse no ar, iniciando-se de imediato o regresso, no máximo da velocidade permitida pela picada esburacada em direcção ao aquartelamento, com pressa de ler as notícias.
Até que um dia chegaram ao Rivungo vários camiões transportando máquinas, escavadoras, niveladoras, pás basculantes, um cilindro e homens para trabalhar. Uma equipa de construtores e toda uma parafernália de geringonças que começaram, logo ali ao lado do Kimbo, na orla da mata, a deitar abaixo árvores, limpar e aplanar o terreno livrando-o de tudo o que pudesse atrapalhar. Enfim, um corrupio e uma azáfama nunca vistos por aquelas bandas.
É verdade, fora decidido construir uma pista de aviação a sério, grande, e ali pertinho, o que iria dispensar a correria pela mata em direcção à clareira isolada. Sim, uma pista de terra, mas nova, bem construída, de propósito e não uma simples clareira que tinha de ser capinada sempre que as ervas, regadas pelas abundantes chuvas, se atreviam a brotar com maior viço.
No Rivungo, também não havia água canalizada. Provavelmente a proximidade do rio e a abundância de água fresca, potável e acessível, não motivou ninguém a exigir a construção de um qualquer sistema que permitisse esse luxo e as autoridades administrativas, por seu turno, também nunca tomaram a iniciativa. Nem sequer um simples depósito, por mais artesanal que fosse. O da Neriquinha não era lá grande coisa, mas servia na perfeição.
Água no Rivungo tinha de ser retirada do rio, em baldes e transferida para bidões estrategicamente colocados onde fosse necessário. Se a memória não me atraiçoa, nas nossas instalações havia uns três e chegavam para o gasto. A proximidade do Rio facilitava o seu enchimento feito a poder de trabalho braçal do garoto da messe e ajudantes da cozinha num vai e vem, encosta abaixo, encosta acima.
A tropa, porque instalada mesmo à beira do rio, tinha o acesso facilitado, mas a PSP, não. Costumavam abastecer-se nas cercanias do ancoradouro da Lancha, dentro do perímetro da marinha, no local que elegemos como a nossa estância de veraneio privativa. Ali tomava-se banho, nadava-se e mergulhava-se de uma prancha de saltos improvisada. O caudal era forte e garantia a recolha de água não estagnada, muito embora, a pujança do Cuando trouxesse em permanência água fresca sempre renovada a qualquer ponto da sua passagem serpenteante.
Utilizavam quatro ou cinco bidões de 200 litros que carregavam, vazios, na pequena carroçaria do unimog que descia em marcha-atrás pelo declive até à babugem. Aí, com recurso a baldes e ajuda dos serviçais, iam lentamente enchendo os bidões até ficarem a transbordar. Depois, com o motor na sua máxima força, arrancavam lentamente encosta acima, transportando o precioso líquido para as suas instalações no outro lado da localidade.
Naquele dia, as coisas não correram bem ao condutor, um PSP negro e corpulento, espécie de amanuense, com funções de cozinheiro que se encarregava das tarefas com características mais domésticas.
Por razões que as leis da física poderiam explicar, a estrutura da viatura foi cedendo à medida que o aumento gradual do peso da água foi exercendo pressão sobre o velho unimog.
De repente, os travões cederam e o unimog moveu-se, desequilibrando os bidões que rolaram sobre a carroçaria precipitando-os no rio e obrigando a viatura a descair até os rodados traseiros galgarem o degrau barrento da margem. Só não capotou, porque a queda de dois ou três dos bidões aliviou o esforço da viatura que ficou em equilíbrio instável quase na vertical, com um rodado da frente no ar e os dois traseiros dentro de água, assentes na espécie de plataforma com cerca de 20 cm de água que antecedia a profundeza do leito do rio.
Do sítio onde estava, já não sairia pelos seus próprios meios e a posição em que ficou piorava as coisas. Sá havia uma solução: o recurso às máquinas de serviço às obras da nova pista. Felizmente que estavam ali, à mão, e qualquer delas com força suficiente para resgatar do rio o velho unimog.
Para o efeito, foi escolhida uma caterpillar, de pá basculante e pneus enormes, estacionada logo acima, junto com algumas das demais. Era fim do dia, os trabalhos tinham sido interrompidos e as máquinas deixadas em descanso. O manobrador, chamado para a prestação de auxílio, se calhar habituado a operar a máquina nas infindáveis planuras do Cuando Cubango, esqueceu-se que naquele local o terreno não era plano nem arenoso como tudo o resto e que os travões a ar precisavam de algum tempo para ficarem operacionais. E o pior é que estivera parada durante todo o dia, provavelmente por não ter sido necessária.
Ligou a máquina, elevou a pá, manobrou-a e dirigiu-se às arrecuas em direcção ao rio. Mal começou a descida, ganhou velocidade e no momento em que precisou dos travões, não tinha. A máquina descontrolada ganhou vida própria, saltando e balouçando perigosamente a cada acidente do percurso, perante o ar assustado do homem que, carregando desenfreadamente do pedal do travão, nada podia fazer para a deter.
Cá em baixo, no intervalo de um mergulho, apercebemo-nos que a máquina não iria parar. A velocidade cada vez maior e o ar de desespero do manobrador eram disso sinal evidente. Na dúvida, cada um fugiu para seu lado, procurando adivinhar a trajectória da besta, deixando-lhe caminho livre.
Excepto o infeliz Unimog. Impossibilitado de sair dali, foi abandonado à sua sorte. Ainda assim, valeu-lhe alguma perícia do manobrador da máquina que, no último momento, com um golpe no volante, evitou o abalroamento.
Mas não foi suficiente. Um dos grandes rodados atingiu de raspão o unimog e a pá, no seu balanço descoordenado, deu-lhe um último safanão empurrando-o perigosamente para a água.
Não sei como, mas a verdade é que, no momento em que toda a gente pensava ver a máquina no fundo do rio, esta imobilizou-se, beneficiando talvez da ajuda, sabe-se lá como, oferecida pela resistência do vulnerável unimog, que travou de alguma forma a sua marcha desenfreada, acabando por ficar perigosamente semi-submersa, com o motor a resfolegar ofegante como que a refazer-se do susto.
Foi preciso uma segunda máquina, esta de lagartas que, oferecendo a segurança de se sentir bem em qualquer terreno, desceu lentamente o declive e rebocou as viaturas acidentadas, retirando-as da sua posição incómoda: primeiro a máquina antes que o rio a levasse e depois o unimog.
Não me lembro como o pessoal da PSP se desenrascou naquele dia sem água, mas sei que os bidões que caíram lá ficaram, submersos, na parte mais funda do leito do rio e de onde nunca mais saíram. Se calhar ainda lá estão.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

De volta ao Rivungo

Muito lentamente, é verdade, mas de forma inexorável o tempo ia passando. Cada dia se sucedia ao anterior numa repetição monocórdica que ia deixando aquela sensação de contínuo voltar ao ponto de partida, embora os ponteiros do relógio seguissem paulatinamente o seu ritmo. Assim, como quem não quer a coisa, já levávamos um ano de Neriquinha.
Para nós, a savana já não tinha segredos. Conhecíamos as armadilhas da chana, sabíamos dos melhores lugares para caçar, identificávamos ao longe qualquer animal da rica e variada fauna, desde a gigantesca gunga à pequenina cabra do mato, tratavam-se os mosquitos por tu e percebemos finalmente que a única forma de correr com os percevejos da cama era regá-la com gasolina e deitar-lhe fogo.
Entretanto, já todos os grupos de combate tinham passado pelo destacamento do Rivungo. Com excepção do primeiro, mas como este não entrava na rotação, a volta estava completa e chegava de novo a nossa vez. Mais uma missão comandada pelo alferes Fausto Oliveira, secundado por três furriéis: eu, o Silva e o Ramires que, já lá estando, continuaria a comissão em substituição do Palúdico que fora evacuado para o Cuito Cuanavale. A fraca resistência do Duarte ao paludismo teria determinado da sua colocação na sede do batalhão, se bem que eu nunca tivesse conseguido ver qual a diferença entre a Neriquinha e o Cuito no que toca à maior ou menor exposição às picadas das fêmeas dos mosquitos transmissores da doença.
É verdade, apenas as fêmeas do Anopheles eram portadoras da doença e como nunca fui infectado, só posso concluir que não queriam nada comigo. Razão tinha eu para as detestar; fêmeas promíscuas, infectadas e ainda por cima não gostavam de mim. Ou seria ao contrário?
Mas, adiante. Embora todos concordassem que estar no Rivungo era sempre mais agradável que na Neriquinha, lembro-me de não fazer muita questão. Para mim era indiferente. Já criara a rotina e conformei os meus hábitos com a monotonia diária, quebrada de quando em vez por este ou aquele episódio que nos desviava a atenção da paisagem circundante. Sempre a mesma, embora mudasse para um verde luxuriante com a chegada das chuvas e voltasse ao amarelo ocre e poeirento com o avanço do cacimbo.
A verdade é que, não podendo sair dali, tanto se me dava um sítio como o outro se bem que o Rivungo, mais aprazível, acabasse por ganhar a preferência e vencer a minha frágil e aparente indiferença.
Empacotei as poucas tralhas, acomodei-me na berliet com o resto do pessoal e metemo-nos a caminho, seguindo o mesmo itinerário que fizera quando ali cheguei. Só que agora a picada era sobejamente conhecida, as chanas não tinham segredos e sabíamos mais ou menos o que vinha a seguir a cada curva. Aqui um buraco feito no último atascanço, ali um troço de picada a evitar, acolá onde se poderia apanhar alguma peça de caça, mas sempre sob o mesmo calor tórrido acompanhado dos irritantes insectos indiferentes ao pó que nos entrava pelas narinas e a que já não se dava importância. Aquele era agora o nosso mundo e a viagem era igual a tantas outras que já fizéramos. Na verdade, sentia-me perfeitamente adaptado, autêntico alter-ego nascido naquela terra de ninguém, indiferente à dureza dos elementos e capaz de aproveitar o que de melhor se pudesse tirar daquela natureza inóspita e agreste.
A viagem correu sem incidentes, pela picada sinuosa, passando pelas bem conhecidas pontes do Cúbia, seguindo-se a chana extensa que abraça o rio do mesmo nome e despontando umas horas depois na charca semi-pantanosa que antecedia o Liahona. Desta vez o Alexandre já não nos esperava de cerveja na mão e sorriso franco. O Liahana estava agora deserto, restando apenas cubatas envelhecidas, abandonadas pela população. As autoridades administrativas haviam decidido mudar a localização do kimbo para perto das margens do Rio Cuando. Aí foram construídas novas cubatas, fazendo nascer um kimbo novo em folha. Diziam que ficava mais perto das zonas agrícolas que a população utilizava.
Contudo, ficava fora do trajecto normal que ligava a Neriquinha e o Rivungo. Ir lá, implicava fazer um desvio ou deslocação propositada, coisa que não fizemos, nem daquela nem de outra vez. Preferimos o caminho do costume que seguia em frente passando pelo Mugamba e pelo Demba aproveitando-se para amenizar um pouco o isolamento monótono dos dois polícias ali destacados numa vida de miséria, no cumprimento de uma missão espinhosa: garantir algum apoio às populações já que, falar de segurança era exagero, dada a sua fraca capacidade de resistência a qualquer incursão que os turras pudessem fazer. A sorte é que, pelo menos enquanto por ali estivemos, apenas o Mugamba foi atacado uma vez e mesmo essa, só para chatear.
Chegámos ao Rivungo dentro do previsto, após sete horas de solavancos e sacudidelas pela picada caprichosa que mudava frequentemente de aspecto, consistência e traçado. Umas vezes sinuosa, outras correndo a direito, nuns sítios mergulhando em terrenos pantanosos, noutros plana e transitável para de seguida se transformar inopinadamente em regos arenosos onde as berliets se enterravam escoiceando para se livrarem da armadilha.
Confesso que na altura já considerava tudo isso, normal; o longo tempo do percurso, o desconforto da estrada, a paisagem variada, ora monótona ora extasiante, o silêncio circundante apenas perturbado pelo roncar dos motores, os animais que surgiam aqui e ali, ora mirando-nos indiferentes ora fugindo num galope desordenado, os bandos de rolas debandando por sobre as árvores, as infernais moscas minúsculas que não nos largavam e sempre aquele sol implacável, ferindo os olhos, queimando a pele e desidratando os corpos.
A chegada, após as costumeiras mais de sete horas de viagem, pareceu-me uma espécie de retorno a um local familiar. Tão diferente de quando ali aportei pela primeira vez. Nessa altura, o temor pelo desconhecido e a surpresa do inesperado deixaram um certo amargo de boca. Agora não. Conhecia as pessoas, os recantos, até alguns da população. O Administrador Litenda apareceu logo a dar-nos as boas vindas e com pressa de apresentar o seu substituto que a idade já ia avançada e a reforma estava à vista. O Chefe França da PSP continuava com o seu bom humor e o aspecto seráfico dos dois pides não se alterara; ainda assim continuavam simpáticos se assim se pode dizer. O Camassango já se tinha ido, com um fim de comissão atribulado. O pequeno avião que, numa boleia de ocasião, utilizou para deixar aquele local remoto onde tinha sido colocado, cairia algum tempo depois de levantar voo, num local qualquer perdido na savana. Decorreram 3 ou quatro dias antes que uma equipe de busca da Força Aérea os encontrasse, famintos e quase a soçobrar.
Lá estava o destacamento da Marinha, mas agora exibindo um posto de vigia, bem alto, construído com paus cortados na mata e encimado por um nicho coberto de capim. Era de facto um bom posto de sentinela e que propiciava uma vista privilegiada sobre as redondezas. A lancha, encostada e ainda incapacitada pelo ataque que sofrera, quedava-se imóvel no pequeno ancoradouro escavado na margem do rio, aguardando que de Luanda viessem as peças e os técnicos para a necessária reparação. Na verdade nunca mais a vi navegar. Sei apenas que foi reparada mais tarde quando já andávamos por outras paragens.
Muitos dos fuzileiros que conheci, nos meus primeiros três meses de Rivungo, já tinham dali saído uma vez acabada a comissão que lhes fora imposta. Mas ainda restavam alguns, entre eles, o Jorge, artilheiro da lancha.
As instalações da tropa, continuavam no mesmo local, debruçadas sobre o pequeno charco de água em tons de âmbar, com o mesmo aspecto de sempre, numa quietude serena, embora continuamente renovada pelo caudal do Rio Cuando correndo ali perto, sinuoso, tocando terra firme nos mesmos locais, para logo se afastar perdendo-se caprichoso no meio dos caniços da chana imensa como se fizesse questão de dar um salto ao outro lado da fronteira onde, difusa pela distância, a silhueta esbranquiçada das casas da vila zambiana de Shangombo, nos espiava de território inimigo.
Sentia-me bem. Era o retornar a um sítio já conhecido onde tinha passado momentos agradáveis. Larguei os meus haveres, assinei a papelada que me tornava desta vez responsável pelas coisas do depósito de géneros e da cozinha e fui mergulhar nas águas frescas do rio, dar umas braçadas e livrar-me do sarro da viagem. Já tinha saudades, na Neriquinha havia duches mas nada onde se pudesse mergulhar, nem perto nem longe. E num sítio onde as temperaturas são sempre elevadas, isso não é coisa que se possa descartar.
Naquela noite, dormi profundamente numa cama em tudo igual à da Neriquinha, só que esta não tinha percevejos. Só os mosquitos a tentar penetrar a barreira da rede mosquiteira, mas nada que me tirasse o sono como da primeira vez. O dia seguinte seria dedicado a procurar a mulher que me lavava a roupa e a rever os amigos que ali deixara.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O Ataque à LDP

Por: Egídio Cardoso
Os três meses passados no Rivungo amenizaram de alguma forma o desconforto de uma comissão a levar a cabo num local que nos parecia o mais remoto à face da terra. A sensação de abandono que senti quando ali aportei foi sendo mitigada pelos poucos atractivos que fui descobrindo.
A proximidade do rio, as amizades que se foram cimentando e a habituação paulatina ao local, construíram um novo modo de vida que minimizava as agruras da missão espinhosa que nos atirou para aquele pedaço inóspito da imensa África selvagem.
Hoje, passado tanto tempo, continuo convencido de que as privações por que passei integram certamente uma parte importante das razões que me levaram a dar valor a pequenas insignificâncias, fossem elas as que resultavam das histórias do Administrador Litenda ou dos misteriosos silêncios dos dois agentes da DGS, passando pela boa disposição do Chefe França, acompanhando o sargento Rodrigues da Marinha na sua interminável luta com a cerveja. Depois, eram as partidas de futebol, os serões ocupados em renhidas disputas de monopólio ou intermináveis jogos de king e tudo o mais que se inventava para passar o tempo.
Até um arremedo de programa radiofónico se ensaiou, com recurso a duas pequenas colunas de som que o Vilela desencantou não sei onde e que a sua habilidade para a electrónica fez com que funcionassem. Reparou ainda um velho gira discos avariado que se encontrou nas instalações da marinha e durante algum tempo difundiu-se música pelo aquartelamento. O disco é que era sempre o mesmo que ali não havia onde comprar outros.
A relação com o pessoal do Destacamento de Marinha preenchia boa parte dos momentos agradáveis, a começar pela forma como cada um dos seus elementos se relacionou com a tropa recém-chegada. Foi uma agradável convivência que despertou e fortaleceu amizades, a começar no seu comandante e acabando no marinheiro mais novo - o Ruço - que, com a sua cara de menino, ganhara a alcunha devido à farta e desalinhada cabeleira loura.
Com esta malta, passei algumas aventuras inesquecíveis, desde as incursões de caça, levadas a cabo por quatro inconscientes armados em aventureiros: eu, o Silva, um dos marinheiros (de quem infelizmente não recordo o nome) e o condutor Comandos com um jeito muito especial para fazer coisas impensáveis ao volante do Unimog. Ainda hoje me arrepio quando me lembro de algumas.
Saíamos sempre muito cedo em direcção às chanas do Caxoxo. Aí, quando o sol ainda mal despontava no horizonte, recrutava-se um guia e partíamos à aventura, avançando muito para além de onde terminava a picada, perseguindo a caça numa correria louca através da terra de ninguém.
No fim, com duas ou três peças de caça carregadas, procurava-se o caminho de regresso sem saber para que lado seguir. Era aí que a importância do guia se revelava crucial. Como se tivesse um mapa genético acoplado, avaliava o local, determinava o rumo e com a mão esticada ia indicando o caminho que nos levava direitinhos ao Caxoxo.
Mas também eram aventuras as explorações que se faziam aos meandros do Rio Cuando e aos seus recantos labirínticos, montados no pequeno bote utilizado nos patrulhamentos mais curtos.
Só não deu para andar na lancha. A LDP 210 do Rivungo, de fundo chato e proa basculante, como todas as Lanchas de Desembarque, era a razão da existência de marinheiros em local tão impróprio. Equipada com uma velha metralhadora pesada OERLIKON, tinha por missão o patrulhamento rio abaixo até às imediações do Luiana.
Mas, a manutenção desta simbiose de laços de amizade e rotinas de vivência começou a ser ameaçada.
Primeiro, a comissão do sargento Rodrigues chegou ao fim e regressou a Luanda, deixando o Chefe França sem competidor à altura. Depois, o meu grupo voltou à Neriquinha sendo substituído pelo do Alferes Correia. O Tenente da Marinha foi substituído pelo guarda-marinha Valério que, desde logo, se incompatibilizou com os homens que se supunha dever comandar.
Quando, algum tempo depois, voltei ao Rivungo em missão de reabastecimento, as guerras entre o pessoal da Marinha e o seu novo comandante, tinham atingido o ponto de ruptura, degradando irremediavelmente o ambiente de camaradagem e os tempos bem passados que conhecia.
Mas parece que a quezília não iria durar. Diziam-me que a comissão da maior parte do grupo estava no fim. Dentro de pouco tempo regressariam a Luanda e o Valério que se entendesse com a nova guarnição que estava para chegar.
Não presenciei a história. Os poucos pormenores chegaram-me à Neriquinha, já um pouco requentados. Parece que o Valério, num arremedo de fúria e quando já pouco faltava para o fim da comissão daquele punhado de homens, decidiu levar a cabo uma operação de patrulhamento até ao limite sul da área navegável do Rio.
- Foi só para chatear. Disseram.
Começaram os preparativos, afinaram o motor, abasteceram de combustível, reuniram as rações de combate, olearam e limparam as armas, carregaram munições e o Jorge tratou com desvelo da eficaz Oerlikon. Parece que os turras temiam os efeitos devastadores da metralhadora. Disparava rajadas de projécteis de grosso calibre que explodiam por impacto, varrendo tudo o que aparecesse pela frente.
Com tudo a postos e com uma guarnição contrariada, a LDP começou a descer o Rio, lentamente, em marcha ziguezagueante, aproveitando a corrente, seguindo o curso do rio no seu passeio pela chana imensa até desaparecer das vistas engolida pelos caniçais.
A progressão sinuosa seguiu, navegando lentamente, que mais depressa não podia ser, até onde o Valério entendeu, bem lá para baixo, até que decidiu ordenar as manobras que deram início à viagem de regresso, encetando o mesmo percurso, mas agora rio acima, exigindo um maior esforço do motor para vencer a resistência da corrente.
Durante todo o percurso, havia um único local onde se formava uma espécie de ravina sobre o Rio. Talvez o único barranco em toda aquela região. Era um sítio perigoso, propício a uma emboscada.
Nada aconteceu aquando da ida. Mas, no regresso, de repente, naquele exacto local, caiu sobre a lancha uma saraivada de balas disparadas em rajadas contínuas por um grupo de guerrilheiros emboscado entre as árvores, exactamente por cima do local onde a lancha navegava. Provavelmente já ali estavam, à coca, quando ainda desciam o rio, mas disso ninguém se apercebera.
No meio da confusão, enquanto cada um procurava reagir, teria sido o Ruço, de arma em punho, o primeiro a sair para o convés.
Foi apanhado pelo fogo inimigo que o projectou borda fora, ao mesmo tempo que o Jorge fazia a Oerlikon cumprir a sua missão dirigindo uma resposta eficaz aos atacantes. O efeito devastador das balas explosivas da velha metralhadora, pôs de imediato os turras em debandada, cessando a fuzilaria.
Gerou-se um silêncio pesado e por algum tempo ninguém saiu do local onde estava, ao mesmo tempo que iam tomando consciência do acontecido. Fora tudo tão rápido que nem se aperceberam que, com maior ou menor gravidade, quase todos haviam sofrido mazelas: balas de raspão, arranhões da refrega, uma ou outra entorse, umas quantas nódoas negras, enfim, ferimentos uns mais ligeiros do que outros, mas sem incapacitar ninguém. Apenas o Jorge, por qualquer razão, nem um arranhão sofreu.
Contudo, o Ruço não aparecia. Alguém disse que o vira ser atingido pela rajada e cuspido borda fora.
Enquanto o Jorge agarrado à Orlikon mantendo-a apontada à mata, não tirava os olhos do que quer que se movesse, os outros deitaram-se à procura do companheiro desaparecido. Voltaram para trás, navegaram para jusante depois para montante, revolveram desesperadamente os caniços de um lado e outro. Mas o corpo não aparecia em lado nenhum.
Chamaram, gritaram, podia ter nadado para a margem, ficado atascado na chana pantanosa. Revolveram de novo as margens. Mas nada, em vão. Do Ruço nem sinal.
Interrogaram-se:
Que fazer?
Continuar ali?
Mergulhar?
Mas onde?
E para ver o quê no meio das escuras águas?
Conferenciaram, discutiram, praguejaram e decidiram:
Sair dali nunca! O Ruço, ou o seu corpo, teria de aparecer.
Durante algumas horas por ali andaram. Podia ser que estivesse inconsciente e quando voltasse a si responderia aos chamamentos incessantes.
Não sei quanto tempo por ali andaram. Penso que passaram a noite no local e voltaram às buscas no dia seguinte. Mas o facto é que o Ruço nunca apareceu.
Regressaram cabisbaixos, desolados, amargurados, derrotados, revoltados com o Valério. No momento, foi quem levou com a culpa toda. Afinal fora ele que forçara a operação.
Só falei com eles algum tempo depois, aquando da sua passagem pela Neriqinha a caminho de Luanda, finda a comissão no Cuando.
Aquele grupo de fuzileiros navais que eu conhecera activo, alegre e brincalhão, caminhava cabisbaixo, atravessando a parada em direcção à messe, uns enfaixados, um ou dois de muletas, outros apenas com uns pensos na cabeça, nos braços ou nas pernas, alguns de chinelas, que o pé ferido não tolerava sapatos. Enfim, um cenário desolador.
Ainda hoje retenho a imagem de um grupo que fez parte de alguns bons momentos que passei no Rivungo. Com ar de derrotados, pouco falavam e recusavam dar pormenores sobre a tragédia. Se calhar não tinham pormenores para contar ou então a tristeza misturada com a revolta impedia-os de falar.
Claramente o Ruço fazia ali falta.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O regresso à Neriquinha

Após três meses de estada no Rivungo, chegou a vez de nos mudarmos para a Neriquinha. A regra vigente determinava que cada grupo de combate ali passasse 3 meses. Decorrido esse tempo, seria rendido por outro, este por sua vez pelo seguinte e assim sucessivamente. Só o primeiro pelotão não entrava no contrato. O respectivo alferes era, por inerência, o segundo comandante da companhia. Daí que o alferes Torres fosse o substituto do capitão Cabrita nas suas faltas, ausências e impedimentos. Só não se percebia porque teria de ser exactamente o alferes mais novo em idade e também em antiguidade na tropa. Penso que isso se devia ao facto de o Torres ser o oficial de operações especiais, pressupondo-se ser entendimento de quem definia as regras, que a passagem por Lamego (onde se formavam as tropas especiais) conferia o discernimento e as capacidades que garantiam as necessárias qualidades de comando.
Era mais ou menos óbvio que o Cabrita confiava muito mais no alferes Fausto do que em qualquer outro dos quatro alferes da companhia. Aliás, teria sido essa a razão pela qual o meu pelotão foi escolhido para a primeira comissão no Rivungo. Ficava distante da Neriquinha e importava que ali estivesse alguém de confiança e com capacidade de liderança e o Fausto demonstrara bastas vezes que as possuía todas, ou quase.
Na verdade, não creio que, por ser o pelotão dos homens das operações especiais (o alferes Torres e o furriel Peixoto) fosse justificação para a sua permanência a tempo inteiro junto do comando da Companhia. Nunca me apercebi da existência de razões especiais que justificassem a atribuição da responsabilidade desta ou daquela operação a este ou àquele grupo e consequentemente a este ou àquele alferes, pelo facto de ser ou não especialista em operações especiais. Cada um alinhava de acordo com as ordens do Capitão ou segundo uma escala que se regia pelo seguinte princípio:
- Da última vez fui eu, agora vais tu.
De qualquer forma, também não me recordo de alguma vez alguém ter questionado a regra ou a ordem de marcha para o destacamento. Aliás, na tropa, não era aconselhável discutir decisões superiores e parece-me que, por esta ou por aquela razão e ainda por mais aqueloutra, quase todos preferiam o Rivungo à Neriquinha.
A outrora Santa Cruz do Cuando oferecia vários atractivos a que se podia acrescentar a vantagem de haver pouca probabilidade do Comandante de Batalhão aparecer por ali, o que não era razão de somenos importância. É que, o comandante Mendonça não era flor que se cheirasse e não me lembro de ter ouvido, em toda a comissão, uma única palavra de lisonja ao homem. Por ali apenas uma vez ou outra aparecia o comandante da companhia. Mas o capitão Cabrita não era homem de chatear sem motivo e não me parece que a notícia da sua visita fosse razão para pôr o pessoal em alvoroço.
O facto é que criei ali amizades e algum apego ao local. As agruras da missão eram suavizadas pelas rotinas criadas e a tendência para as quebrar apimentava a monotonia. Ao fim e ao cabo, tudo contribuía para que os dias passassem sem contratempos, relegando a angústia para segundo plano.
Na verdade, a transição de cada dia para o seguinte, era muitas vezes suavizada por ninharias.
Uma partida de Monopólio planeada para as instalações da Marinha, era suficiente para, muitas das vezes, contribuir para uma noite bem passada, onde uma equipa de jogadores, numa espécie de vício saudável e usando dinheiro de brincar, se desunhava pela compra de mais um prédio na Avenida da Liberdade ou na dos Aliados, seguindo-se a construção de mais um hotel virtual numa das ruas linearmente desenhadas sobre a cartolina, ali transformada em urbanização de ficção.
Certa noite, por ocasião da sua visita de acompanhamento religioso das tropas do batalhão, o alferes Capelão integrou um grupo de gente adulta e responsável (eu, o alferes Fausto, o tenente da Marinha e o Silva) que se manteve entretido até altas horas da Madrugada, num empolgante jogo de monopólio onde cada um procurava enriquecer o mais possível, levando os outros à falência. O vencedor só veio a ser declarado já sobre a madrugada, sem que alguém tenha dado pelo tempo passar ou se tenha sequer preocupado com isso. Não havendo nada de especial planeado para o dia seguinte, o tempo não contava. Desde que passasse sem se dar por ele, tudo estava bem.
Mas o Rivungo tinha ainda outras coisas. Por exemplo, o Rio Cuando. Ter tanta abundância de água, mesmo ali à mão, num sítio que não dispunha de água canalizada, não era propriamente algo a que não se desse importância. Para além do mais, podíamos mergulhar, dar uns passeios de bote e aventurarmo-nos em incursões nocturnas pelos seus meandros à caça de jacarés bebés. Com cuidado porque, mesmo minúsculos, se conseguissem apanhar um dedo entre os seus afiados dentes, não o deixavam em boas condições.
Enfim, aventuras que a juventude transformava em excitação, relegando privações para segundo plano.
Também não posso esquecer a sempre bem-vinda companhia do chefe França com a sua permanente boa disposição e laracha na ponta da língua. E o administrador Litenda, com mais uma história serôdia de feitos africanos, ou descrições de grandes caçadas e de explorações pelos recantos da savana profunda, onde não faltava a referência à sua especial destreza para conduzir por caminhos inexplorados ou impossíveis. Coisas difíceis para condutores normais. Não para ele.
- Nunca tive um acidente. Alardeava com frequência.
É verdade! Ainda não partira e já começava a sentir saudades. Mas apenas porque o destino era a Neriquinha. Se a opção fosse o regresso ao puto, tudo seria diferente e como mais tarde ficou demonstrado, a saudade daquele lugar foi mandada às urtigas. Hoje são apenas recordações.
Havia ainda a preocupação com a cadelita que adoptámos como mascote. Déramos-lhe o nome de Riquinha, numa espécie de alusão à sede da companhia. Era ainda pequenita, tropeçando amiúde, em resultado do pouco domínio que tinha das tenras patas. Rebolava por aqui e por ali e entretinha-se mordiscando as botas de cada um, ou saltitando à procura de um afago.
- Levamo-la connosco! Sentenciou o alferes Fausto.
Pela hora do almoço, ou pouco antes, chegaram duas berliets vindas da Neriquinha. Carregavam mantimentos, cerveja, tabaco e o grupo que nos renderia, exactamente aquele a que pertencia o meu amigo Gonçalves.
Seguiu-se a transferência das responsabilidades, dos stocks e equipamentos, fizeram-se as apresentações, incluíram-se recomendações, avisos e indicações de quem já dominava o espaço e arredores. Um último mergulho no rio e de novo com as poucas tralhas pessoais a tiracolo, rumámos de volta à sede da companhia, encavalitados no desconforto das berliets. Connosco seguia a cadelita, fazendo a maior viagem da sua vida.
Nem olhei para trás. Francamente, não me pareceu um adeus. Afinal, para além de não ter havido tempo de criar raízes, as saudades daqueles sítios não faziam parte dos nossos sentimentos. De qualquer forma, haveria de ali voltar, muitas vezes e mais uma comissão de três meses. Sim, regressava à Neriquinha, mas continuava a preferir o Rivungo.
Só não me passou pela cabeça que só voltaria a ver o Zé Maria, fugazmente, apenas mais umas duas ou três vezes.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O Rivungo

Acordei estremunhado, com a desagradável sensação de que acabara de adormecer. O vozeirão do Silva serviu de despertador e o Alferes exigia o cumprimento dos horários militares. Saltei da cama. Era necessário içar a bandeira e o corneteiro Rogério já estava a postos. A bandeira lá subiu ao poste plantado no canteiro em frente, devagar, como mandam as regras, ao som roufenho da corneta, que o Rogério não era músico e como todos ali, também ele aprendera a sua especialidade em tempo recorde. Creio que foi a primeira e última vez que a solenidade do acto foi cumprida ao som da corneta. O alferes Fausto era homem exigente, disciplinador e cumpridor das regras, mas o seu bom senso sobrepunha-se a tudo. A partir daí, não obstante a bandeira tenha sido içada todos os dias, o acto foi sempre cumprido silenciosamente por quem estivesse à mão, respeitando o horário mas sem aquele rigor austero que caracterizava o formalismo.
A verdade é que a bandeira nacional subiu sempre ao poste, a horas adequadas e nunca lá ficou para além do pôr-do-sol. A corneta, essa, foi doravante deixada em descanso.
O pequeno-almoço estava na mesa. Um cântaro de café, pão e uma fatia de goiabada - compota de goiaba semelhante à marmelada - tudo servido silenciosamente pelo moço da messe, um negrinho local armado em serviçal que herdáramos da companhia anterior e que tinha também a seu cargo o arrumo dos quartos, a lavagem da roupa, a limpeza do espaço e ainda garantir que o bidão da casa de banho estivesse sempre cheio de água que recolhia de um remanso do rio Cuando localizado nas traseiras. Como paga, recebia de cada um de nós uma importância em dinheiro, cujo montante não recordo, usufruindo ainda de refeições gratuitas. Enfim, um luxo, como se costumava dizer. Para ele, a comida era um autêntico manjar quando comparada com o que tinha disponível na cubata que habitava. Quanto ao dinheiro, servia para muito pouco. A lojeca, à beira da picada, na entrada da localidade, propriedade de um velhote já em fim de estação, vendia uns panos e algumas tralhas apenas úteis à população local, mas sem interesse para os miúdos, o que significa que não havia onde gastar o dinheiro.
Não obstante a noite mal dormida e a devastadora jornada dos dias anteriores, os deveres militares e as tarefas do dia a dia obrigaram a um lançar urgente de mãos à obra. Não estávamos ali de férias e a missão de um exército em tempo de guerra tinha as suas exigências. Havia que fazer o reconhecimento do local, definir estratégias, distribuir tarefas e assegurar a preparação do almoço. Por outro lado, a cantina tinha de ser aberta, já que a cerveja e o cigarro eram quase tão importantes como a comida ou a água. Para quase tudo, o alferes Fausto demonstrou que ele era o comandante e não deixou os seus préstimos por mãos alheias. Nomeei o cabo Almeida responsável pela cantina, dei instruções sobre os preços a praticar com base na listagem passada pelos velhinhos, definiram-se as horas em que estaria aberta e assim se iniciou uma nova etapa das nossas vidas, recheada de novidades e sujeita a muitos improvisos, adaptações e ajustamentos frequentes.
A curiosidade em explorar o local sobrepôs-se ao cansaço e à necessidade de dormir, lançando-me decididamente ao reconhecimento das instalações e arredores. O edifício, construído sobre o comprido, incluía, para além da messe, com os seus quatro pequenos quartos (um autêntico luxo naquelas paragens) a cantina, no topo norte, constituída por um pequeno alpendre dotado de um improvisado balcão e a enfermaria, uma divisão estreita, equipada com três camas, uma das quais, a do próprio enfermeiro e outras duas, em beliche, para os doentes que exigissem vigilância mais apertada.
A caserna dos praças e o refeitório, constituindo uma estrutura mais baixa, rematava o edifício, denunciando uma construção posterior encostada ao corpo principal. Separada deste bloco, uma pequena construção, mais recente, albergava o posto de transmissões, onde o Vilela, cabo radiotelegrafista, transmitia e recebia mensagens, utilizando com mestria o velho sistema Morse. Este equipamento era a nossa única ligação com a Neriquinha e com o mundo exterior. Por ali se recebiam ordens e notícias e por ali se pediam instruções e ajuda, se fosse o caso. Na verdade era o único elo de ligação rápido com tudo aquilo que ultrapassasse o perímetro da povoação. Finalmente, um pequeno paiol guardava diversos tipos de granadas e vários cunhetes de munições.
A curiosidade espicaçada pelo aviso feito na noite anterior relativamente ao perigo de queda ao rio, levou-me às traseiras. Afinal, havia alguma razão para tal recomendação, se bem que, exagerada. A cozinha ficava a poucos metros do barranco que caía abruptamente sobre uma espécie de mini praia que se formava na borda de um pequeno lago de águas quietas, ali deixadas em sossego pelo caudal do Cuando, na sua passagem serpenteante por entre os caniçais da chana de alguns quilómetros de largura, terra de ninguém que definia a fronteira entre o território angolano e a Zâmbia, na outra margem. Apenas à noite, se divisava, muito ao longe, umas trémulas luzinhas da pequena povoação zambiana (Shangombo), que se pressupunha albergar o inimigo. A cozinha parecia ser o que restava de algo que, algures no passado, tinha sido improvisado para desenrascar umas refeições, como que a atestar que os arquitectos (militares?) que gizaram o edifício, se esqueceram de a incluir no projecto. Uns paus ao alto, arrumados contra a parede traseira das instalações, suportavam as folhas de zinco que cobriam o espaço, protegendo-o do sol e da chuva. Um murete de suporte aos tachos e panelas permitia enfiar a lenha por debaixo, único material de queima disponível e abundante na mata próxima. Ao lado, um pequeno forno artesanal, explicava o pão que comera ao pequeno-almoço, se bem que não tenha percebido quem o preparou, já que o Lourenço era cozinheiro de fracos recursos e da arte da panificação não percebia mesmo nada.
Não foi preciso sair dali para conhecer as forças vivas que constituíam aquela micro sociedade. Aos poucos, foram chegando para as apresentações: o Administrador, o chefe da PSP, os dois agentes da Pide DGS, o pessoal da marinha e o Camassango. Não levei muito tempo a perceber a importância do bom relacionamento entre estes representantes daquela comunidade e da prontidão com que se apresentaram. O local era pequeno e todos constituíam uma família sui generis, no seio da qual se criaram e desenvolveram amizades verdadeiramente importantes para mitigar o isolamento e compensar a ausência dos amigos e entes queridos. Por outro lado, a união faz a força e todos juntos valiam mais do que cada um de per si.
O primeiro a chegar foi o Administrador do Rivungo, uma figura que faria as delícias de qualquer caricaturista. Magro, talvez de mais, usando uma farda cor de caqui, calça apertada, realçando os genitais, justa pelos artelhos, alongando o sapato e salientando ainda mais a magreza. Pele tisnada pela exposição ao sol, mais escuro que um mulato, embora os traços fisionómicos não confirmassem a miscigenação de raças. Idade indefinida, talvez rondando a casa dos 60. Tinha um olho de vidro, rapidamente identificável e exibia uma careca luzidia que lhe deu o nome pelo qual era conhecido - Litenda - vocábulo que, no dialecto local, significava careca. Acho que nunca soube o seu verdadeiro nome. Na sua presença, tratávamo-lo sempre por Sr. Administrador. Quando ausente, era o Litenda. Na sua apresentação, sem formalismos ou salamaleques, o Litenda mostrou-se um homem vaidoso, muito orgulhoso do seu saber africano e dos costumes e defeitos da populaça que parecia não respeitar muito. Na altura, atribuí a pose a uma encenação para impressionar europeus recém chegados do “puto”. Sempre acompanhado pelo fiel Sipaio, espécie de funcionário administrativo recrutado entre a população autóctone, que o seguia dois respeitosos passos atrás, habitava uma das casas no outro lado do campo de futebol, construído alguns metros à frente das instalações militares.
No Rivungo havia apenas dois arremedos de ruas, semelhantes a picadas (até na sua consistência arenosa) mas bastante mais largas. Uma, que começava em frente às instalações da Marinha, à entrada da localidade, era ladeada à esquerda pelo campo de futebol e à direita por 3 casas, uma das quais a do Administrador, estando desabitada pelo menos uma das restantes. A outra, no topo, correndo na perpendicular a esta, terminava abruptamente na periferia da mata. Dotada de separador central, talvez fruto de ideias megalómanas de quem a projectou, estava permanentemente atolada de areia. Albergava de um lado as instalações da PSP e da DGS e do outro a residência do Camassango, um funciónário para as questões agrícolas, cujas atribuições nunca cheguei a perceber. Mulato, vivia sozinho, mas tinha uma grande facilidade em fazer amizades, pelo que era mais fácil encontrá-lo junto da tropa ou da marinha ou a cavaquear com os elementos da PSP.
As únicas estruturas pré-fabricadas, com evidente aspecto de provisório, eram exactamente a casa do Camassango e em frente, no outro lado da rua, as instalações da PSP. Eram também as últimas estruturas da rua, fazendo directamente fronteira com a orla da mata. A missão da PSP, quer ali, quer em qualquer pequena localidade do interior profundo do território, não era a de patrulhar as ruas. As duas que ali existiam não tinham trânsito; eram apenas acessos. Menos ainda garantir a ordem; o movimento era inexistente e os desacatos que pudessem surgir teriam de ser resolvidos pelas hierarquias (militares ou civis). O posto era apenas a base logística. Os seus agentes estavam distribuídos pelos Kimbos dali dependentes, dois em cada um. Eram comandados por uma personagem muito especial - O Chefe França. Fisicamente, uma fraca figura, o que conferia maior visibilidade ao farto bigode de pontas retorcidas que adornava uma cara esguia marcada pela longa exposição ao sol africano. A sua personalidade era oposta à ideia que se costuma fazer de um polícia.
Era um verdadeiro compincha, o protótipo do pândego e do gajo porreiro, sempre com uma laracha pronta a sair, acompanhada de uma gargalhada a propósito de tudo e de pouca coisa. Passe o exagero, creio que, no primeiro dia, ficou amigo de todos os recém chegados. Por companhia permanente, uma cerveja na mão, dando razão à fama de inveterado bebedor que o perseguia, ilustrada por histórias como as que se contavam da parceria que fazia com o sargento Rodrigues da marinha. O sargento Rodrigues tinha fama de grande bebedor. E físico também. Dotado de uma barriga proeminente e corpo volumoso, ninguém o batia quer na quantidade quer na rapidez com que, de um só trago, engolia cerveja após cerveja. O único que lhe conseguia dar luta era o chefe França. Contava-se que um dia, no Mugamba, ao pequeno-almoço, os dois, sentados sobre um banco, comeram trinta ovos estrelados e beberam duas grades de cerveja (o equivalente a 48 garrafas). Não consta que tenham sofrido qualquer indigestão ou perdido o apetite para o almoço, mas ficou demonstrado que o corpo franzino do França pedia meças a qualquer alarve encartado.
A delegação da omnipresente DGS era constituída apenas por dois agentes que ocupavam uma casa próxima do kimbo dos "flechas", no mesmo lado da PSP. Chocava-me a qualidade da “vivenda” dos pides que, por comparação, transformava as instalações da PSP num barracão de lata. Os Pides, com quem não foi difícil conviver, tinham uma actividade invisível. Muitas vezes me perguntei o que faziam ali aqueles dois elementos, para além de desaparecerem, de quando em vez, dentro de casa, por largas horas. Provavelmente apenas gozavam a sesta, fugindo ao calor tórrido. Contudo, diziam alguns, que a casa possuía umas catacumbas onde se dedicariam a actividades ultra secretas, histórias em que nunca acreditei, por me parecer inverosímil a existência de catacumbas. Creio que o resultado das suas investigações seguia secretamente para Serpa Pinto, retornando, via Cuito Cuanavale e desaguando em Mavinga e Neriquinha, até chegarem às bases sobre a forma de operações que a tropa tinha de cumprir, na demanda do inimigo que não se deixava ver.
Junto à entrada do Rivungo, no cimo de um suave declive que levava ao rio, estavam implantadas as instalações do Destacamento de Marinha do Cuando. Nunca imaginei que pudessem existir marinheiros onde não havia mar. Mas assim era. Mais ou menos uma dúzia, parte dos quais fuzileiros navais, logo tropa especial. Comandados por um tenente, o grupo incluía ainda um sargento e um cabo. Tinham por missão patrulhar o Rio numa extensão que podia ir desde a Neriquinha Velha até ao Luiana, seguindo o caudal preguiçosamente sinuoso do Cuando. Para o efeito, dispunham de uma LDP (Lancha de Desembarque Pequena) que para ali fora transportada aos bocados e montada no local. As LDP’s são lanchas de desembarque, de fundo chato, possibilitando a navegação em águas pouco profundas, o que, não sendo o caso do Cuando, sempre facilitava o acesso a zonas fora do caudal principal. Para isso, a proa era basculante, permitindo o desembarque de tropas numa acostagem de frente para as margens. Esta, talvez por erro dos soldadores ou decisão de natureza táctica, não tinha essa funcionalidade. Na operação de junção das partes, soldaram também a rampa de desembarque. Dispunham ainda de um pequeno bote a motor que permitia pequenas incursões militares e que se utilizava para alguns passeios até à Missão ou para percorrer os labirínticos recantos do Cuando. O local não fora escolhido por acaso. Era um ponto estratégico em que o caudal principal do Rio abandonava o seu território pantanoso e tocava terreno firme. Aí ficavam amarrados, a LDP e o bote. Aquela curva do rio permitiu também a montagem de uma tábua, fazendo a vez de prancha de salto. Ali tomávamos banho, com um ritual simples. Mergulhava-se, nadava-se para a margem para passar demoradamente sabonete pelo corpo. Um segundo mergulho retirava o sabão e só depois é que se desfrutava daquela espécie de resort, dando umas braçadas, mas procurando não desafiar a corrente que, a alguns metros da margem, tinha força mais do que suficiente para vencer a nossa resistência de nadadores amadores.
E assim, todos os dias, fato de banho vestido, toalha sobre os ombros e chinelos nos pés, percorríamos a distância que nos separava das instalações da marinha, para o banho diário, dispensando-se a utilidade do balde que equipava a casa de banho.
A verdadeira população do Rivundo, era a que habitava os dois Kimbos. Um deles, o que se espraiava em frente à marinha e constituído por palhotas alinhadas, albergava a população Ganguela, a maioria autóctone daquelas paragens. O outro, que exibia umas cubatas desalinhadas e improvisadas, era habitado exclusivamente por uma das etnias mais características do sul de Angola e ocupava o espaço por detrás da sede da DGS. Os Bosquímanos (corruptela da palavra inglesa Bushmen) gente pequena, com aspecto de garotos e idade impossível de adivinhar, congregavam um povo essencialmente nómada, que a guerra obrigou à sedentarização. A Pide-DGS, aproveitou o seu espírito guerreiro, recrutando as suas tropas (os Flechas) entre os homens deste povo que comunicavam entre si usando um dialecto impossível de imitar e de perceber. Falavam por estalidos produzidos pela língua, como os garotos a brincar.
A apresentação da localidade não ficaria completa sem a referência ao aeródromo e à Missão. Relativamente ao aeródromo ou pista (qualquer dos termos é exagerado) não passava de um espaço, no meio do mato, afastado cerca de 2 km do Rivungo, que se procurava manter desarborizado. Ali aterrava duas vezes por semana (terças e quintas) um pequenino avião da TASA (Transportes Aéreos do Sul de Angola) que nos trazia o que de mais precioso tínhamos para receber - o correio. Iria decorrer mais de um ano até que fosse construída uma pista a sério. De terra batida sim, mas extensa e logo ali, no limite do Kimbo. Até lá manteve-se a correria, em cima de um pequeno Unimog que acelerava saltitante pela picada, procurando chegar à pista antes da aterragem. Era necessário garantir a segurança da pista e receber notícias de casa. Quanto à Missão, pouco mais era do que uns restos de ruínas de umas instalações de missionários, cuja memória se perdera no tempo. De qualquer forma, o local aprazível, localizado na margem do Rio, a cerca de 2 ou 3 km, convidava a uma visita. Ali não havia nada, mas se alguma vez decidisse fazer vida de Robinson Crusoé, seria aquele o local onde assentaria arraiais.