Mostrar mensagens com a etiqueta Zâmbia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Zâmbia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

JOHN INGLÊS. O aprendiz de espião


A guerra naquele canto esquecido do fim-do-mundo dava sinais de estar adormecida. Pelo menos era o que nos parecia. Se havia informações sobre as manobras do inimigo, o mais certo era que apenas chegassem à cúpula do comando poupando as bases ao stress da eventual iminência de um ataque das forças turras, deixando-nos gozar o sossego que, aos poucos, nos foi fazendo esquecer que estávamos em guerra enquanto, aos poucos ia ficando no ar aquela falsa ilusão de paz que se arrastava ao sabor das inclemências do clima.
Antes assim. Confesso que nunca me passou pela cabeça achar que a monotonia chata e pastosa da nossa desinteressante missão devesse ser animada por umas quantas fogachadas que os nossos amigos do outro lado da barricada entendessem despejar sobre nós. Animação dessa é dispensável. Certamente que nós, os “sapos da Neriquinha” (como nos apelidava a radialista Maria Turra nas emissões radiofónicas clandestinas vindas do outro lado da fronteira) preferiamos mil vezes viver o vazio desgastante do dia-a-dia modorrento e sensaborão, do que ter de enfrentar os riscos da animação de qualquer atrevimento bélico do inimigo.
A verdade é que, na Neriquinha, as nossas guerras mais ferozes tinham mosquitos e percevejos como opositores o que não quer dizer que por ali se vivia em paz e harmonia com guerrilheiros que, verdade seja dita, nunca nos vieram visitar. Com o tempo aprendemos a conhecer o meio e com isso perceber as movimentações dos grupos que se sabia activos, até porque, sendo capitaneados pelo Kuenho, não seriam propriamente meninos de coro. Terem-nos deixado em paz ao longo do tempo que por ali andámos faria parte da sua estratégia, a qual teria como principal objectivo garantir que o campo ficava livre para as suas movimentações clandestinas entre a fronteira e a suas bases no interior remoto da Kirongosa.
Neriquinha estava situada perto da fronteira com a Zâmbia. Dali até às grandes chanas do Kuando não distariam mais de 20 Km e dizia-se que, por alturas do Chicove, existiam carreiros dissimulados pelos caniços que ajudavam os então nossos inimigos a esconder as canoas artesanais utilizadas para vencer o volumoso caudal do rio que ali estabelecia a linha divisória com a vizinha Zâmbia onde assentavam os seus apoios de retaguarda. Importava manter a discrição nas andanças de cá para lá e chatear a tropa que por ali andava, não seria propriamente a melhor forma de passarem despercebidos.
E ainda bem para nós que, em abono da verdade, não nos podemos queixar muito da guerra que nos calhou em sorte. As duas únicas vezes que a 3441 chegou perto dos grupos activos na zona, resumem-se à incursão ao esquadrão e à grande operação ao Tossi que resultou na morte de treze GE´s, entre eles o Fulay, no confronto com o grupo do Kuenho que se dizia ser seu meio irmão.
Como em qualquer guerra, as informações sobre as actividades inimigas eram importantes. E, sem que déssemos por isso, condicionavam a nossa vida. Era em função delas que os estrategas militares decidiam, desenhavam e montavam as operações que teríamos de executar no rigoroso cumprimento de instruções sigilosas, sitrep´s cifrados, e outros meios que chegavam ao comando da companhia vindas das cúpulas do quartel general ou do batalhão no Cuito Cuanavale. É claro que a inteligence militar não era coisa com que nos devêssemos preocupar; isso era tarefa da PIDE-DGS e outros espiões. Mas isso não quer dizer que fossem ignoradas as informações que chegassem vindas de candidatos a espiões. Contudo sendo matéria delicada e compreensivelmente reservada, é natural que apenas chegariam ao comando da companhia, trazidas por elementos da população ou pelos prestimosos GE’s, sem que tais informações se tornassem públicas. Em boa verdade eram assuntos que nos passavam ao lado e deles só vim a conhecer alguns pormenores, anos depois de terminada a guerra.
Havia contudo uma excepção: o John Inglês. Com residência no Samejuto e passando temporadas na Neriquinha, ganhou este pomposo nome por constar que conhecia algumas palavras de inglês, vocábulos dispersos que dizia ter aprendido no outro lado da fronteira, fruto dos contactos que, segundo ele, manteria com conhecidos seus em terras zambianas. O facto é que, falando ou não inglês, distinguia-se da restante população cuja maioria nem português falava.
Ainda que sem pormenores, sabia-se que o John Inglês trazia e levava informações. Não sei donde as trazia e para quem as levava mas o facto é que da fama de agente duplo não se livrava, já que ninguém acreditava na sua incondicional adesão à nossa causa. Acreditar nisso seria pura ingenuidade: nas suas propaladas idas e vindas ao território zambiano utilizaria obrigatoriamente os mesmos itinerários do inimigo e certamente que esses saberiam onde ele vivia e com quem falava.
Nunca me interessei em saber o que o atraía ao território zambiano, mas é provável que tivesse lá gente conhecida ou familiares distantes que gostava de visitar. Ou então, o seu espírito aventureiro impelia-o a fugir da pasmaceira da Neriquinha. O que é certo, é que tinha fama de se movimentar livremente pelos caminhos pantanosos e esconsos da fronteira o que explicava as suas prolongadas ausências.
Quando aparecia, insinuava-se junto do comandante da companhia, mercadejando informações sobre alegadas movimentações do inimigo. Era atrevido e desenvolto, sabendo-se que obtinha quase sempre uma modesta paga pelas novidades que fazia questão de classificar de exclusivas e cuja utilidade estratégica nunca cheguei a conhecer. O certo é que, com alguma arte e persuasão, vendia informações condimentadas com os pormenores que visavam conferir-lhe a necessária credibilidade.
Usufruiu assim, por algum tempo, de algumas mordomias, coisas insignificantes que lhe conferiam estatuto e a que dava importância. Em certas alturas, o simples facto de ser recebido pelo capitão já era recompensa suficiente. Mas, mais importante do que isso, estavam as recompensas materiais. Não falo de dinheiro que certamente não lhe interessaria muito e não creio que houvesse para lhe pagar, mas acredito em pagamentos em espécie. Por exemplo, não resistia a umas caixas de ração de combate. Aliás, tudo fazia para as receber, atrevendo-se até a alegar que delas precisava para se alimentar nas suas idas e vindas através da chana pantanosa que separava o território angolano da vizinha Zâmbia.
Mas um dia, um GE descobriu-lhe a careca. Quando se pensava que o John Inglês se encontrava por terras da Zâmbia no cumprimento de mais uma missão de espionagem, foi encontrado ali bem perto, no kimbo no Samejuto, em total relax, preguiçando na companhia das suas mulheres. Parece que, a seu lado, ainda eram visíveis os restos das rações de combate que recentemente recebera para mais uma grande viagem ao outro lado da fronteira. O John Inglês fora desmascarado.
Afinal parece que as suas informações eram pura invenção. Até pode ser que, de vez em quando, se deslocasse à Zâmbia, mas até isso perdeu credibilidade. Se sim, certamente que não seria com a frequência que publicitava. O facto é que ficou provado que as informações que trazia não passavam de invencionice o que, paradoxalmente, não deixa de constituir um elogio à sua esperteza.
Ainda hoje estou para saber se o fazia apenas para se insinuar junto da tropa e com isso obter alguns favores, ou se, afinal, era um aliado do inimigo que lhe venderia informações falsas para nos despistar. O facto é que, a partir daí, o homem desapareceu e nunca mais foi visto por aquelas paragens.