sábado, 18 de dezembro de 2010

OS PUTOS

Putos, há-os em todo o lado. E na Neriquinha havia-os às dúzias e de todas as idades.






















Eram engraçados, como aliás são os putos de qualquer raça ou credo.
Pequenitos, de olhos vivos a brilharem nas suas caras escuras.
E também corriam, gritavam, riam e brincavam como todos os outros. E choravam como se compreende.













Geralmente nus ou quase, com o corpo normalmente coberto de sujidade, visível em desenhos aleatórios riscados na sua pele baça de pó.













Alguns de barriga proeminente, sinal evidente de alimentação deficiente. Mas, a maioria já não apresentava tal característica. A proximidade da tropa garantia-lhes uma alimentação diferente daquela a que os seus pais se habituaram.
Era vê-los a rondar a cozinha, especialmente no fim do almoço.
Enfim, miúdos nascidos na savana mas que cresceram habituados à proximidade de tropas. Um dia dei por mim a pensar que, se calhar, na cabeça daqueles garotos um homem branco era alguém de pele clara, vestindo por regra uma farda camuflada e sempre com um barrete esquisito na cabeça.
Como em qualquer comunidade, eram todos diferentes e ao mesmo tempo todos iguais. Lembro-me que cheguei a perguntar-me como é que as respectivas mães reconheciam os seus. Seria por isso que andavam permanentemente com os mais pequenitos encafuados em bolsas de panos num imaginativa criação de alcofas portáteis? É que nunca os largavam.
Mas era apenas uma estupidez minha, de primeira impressão. Como é bom de ver, são todos diferentes uns dos outros, como quaisquer outras crianças.
Mas havia um que se distinguia dos demais. Era a prova, o sinal evidente da passagem da tropa por ali. As mulheres Ganguelas não eram esquisitas e pelos vistos os brancos, também não. Especialmente os loiros.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

De volta ao Rivungo

Muito lentamente, é verdade, mas de forma inexorável o tempo ia passando. Cada dia se sucedia ao anterior numa repetição monocórdica que ia deixando aquela sensação de contínuo voltar ao ponto de partida, embora os ponteiros do relógio seguissem paulatinamente o seu ritmo. Assim, como quem não quer a coisa, já levávamos um ano de Neriquinha.
Para nós, a savana já não tinha segredos. Conhecíamos as armadilhas da chana, sabíamos dos melhores lugares para caçar, identificávamos ao longe qualquer animal da rica e variada fauna, desde a gigantesca gunga à pequenina cabra do mato, tratavam-se os mosquitos por tu e percebemos finalmente que a única forma de correr com os percevejos da cama era regá-la com gasolina e deitar-lhe fogo.
Entretanto, já todos os grupos de combate tinham passado pelo destacamento do Rivungo. Com excepção do primeiro, mas como este não entrava na rotação, a volta estava completa e chegava de novo a nossa vez. Mais uma missão comandada pelo alferes Fausto Oliveira, secundado por três furriéis: eu, o Silva e o Ramires que, já lá estando, continuaria a comissão em substituição do Palúdico que fora evacuado para o Cuito Cuanavale. A fraca resistência do Duarte ao paludismo teria determinado da sua colocação na sede do batalhão, se bem que eu nunca tivesse conseguido ver qual a diferença entre a Neriquinha e o Cuito no que toca à maior ou menor exposição às picadas das fêmeas dos mosquitos transmissores da doença.
É verdade, apenas as fêmeas do Anopheles eram portadoras da doença e como nunca fui infectado, só posso concluir que não queriam nada comigo. Razão tinha eu para as detestar; fêmeas promíscuas, infectadas e ainda por cima não gostavam de mim. Ou seria ao contrário?
Mas, adiante. Embora todos concordassem que estar no Rivungo era sempre mais agradável que na Neriquinha, lembro-me de não fazer muita questão. Para mim era indiferente. Já criara a rotina e conformei os meus hábitos com a monotonia diária, quebrada de quando em vez por este ou aquele episódio que nos desviava a atenção da paisagem circundante. Sempre a mesma, embora mudasse para um verde luxuriante com a chegada das chuvas e voltasse ao amarelo ocre e poeirento com o avanço do cacimbo.
A verdade é que, não podendo sair dali, tanto se me dava um sítio como o outro se bem que o Rivungo, mais aprazível, acabasse por ganhar a preferência e vencer a minha frágil e aparente indiferença.
Empacotei as poucas tralhas, acomodei-me na berliet com o resto do pessoal e metemo-nos a caminho, seguindo o mesmo itinerário que fizera quando ali cheguei. Só que agora a picada era sobejamente conhecida, as chanas não tinham segredos e sabíamos mais ou menos o que vinha a seguir a cada curva. Aqui um buraco feito no último atascanço, ali um troço de picada a evitar, acolá onde se poderia apanhar alguma peça de caça, mas sempre sob o mesmo calor tórrido acompanhado dos irritantes insectos indiferentes ao pó que nos entrava pelas narinas e a que já não se dava importância. Aquele era agora o nosso mundo e a viagem era igual a tantas outras que já fizéramos. Na verdade, sentia-me perfeitamente adaptado, autêntico alter-ego nascido naquela terra de ninguém, indiferente à dureza dos elementos e capaz de aproveitar o que de melhor se pudesse tirar daquela natureza inóspita e agreste.
A viagem correu sem incidentes, pela picada sinuosa, passando pelas bem conhecidas pontes do Cúbia, seguindo-se a chana extensa que abraça o rio do mesmo nome e despontando umas horas depois na charca semi-pantanosa que antecedia o Liahona. Desta vez o Alexandre já não nos esperava de cerveja na mão e sorriso franco. O Liahana estava agora deserto, restando apenas cubatas envelhecidas, abandonadas pela população. As autoridades administrativas haviam decidido mudar a localização do kimbo para perto das margens do Rio Cuando. Aí foram construídas novas cubatas, fazendo nascer um kimbo novo em folha. Diziam que ficava mais perto das zonas agrícolas que a população utilizava.
Contudo, ficava fora do trajecto normal que ligava a Neriquinha e o Rivungo. Ir lá, implicava fazer um desvio ou deslocação propositada, coisa que não fizemos, nem daquela nem de outra vez. Preferimos o caminho do costume que seguia em frente passando pelo Mugamba e pelo Demba aproveitando-se para amenizar um pouco o isolamento monótono dos dois polícias ali destacados numa vida de miséria, no cumprimento de uma missão espinhosa: garantir algum apoio às populações já que, falar de segurança era exagero, dada a sua fraca capacidade de resistência a qualquer incursão que os turras pudessem fazer. A sorte é que, pelo menos enquanto por ali estivemos, apenas o Mugamba foi atacado uma vez e mesmo essa, só para chatear.
Chegámos ao Rivungo dentro do previsto, após sete horas de solavancos e sacudidelas pela picada caprichosa que mudava frequentemente de aspecto, consistência e traçado. Umas vezes sinuosa, outras correndo a direito, nuns sítios mergulhando em terrenos pantanosos, noutros plana e transitável para de seguida se transformar inopinadamente em regos arenosos onde as berliets se enterravam escoiceando para se livrarem da armadilha.
Confesso que na altura já considerava tudo isso, normal; o longo tempo do percurso, o desconforto da estrada, a paisagem variada, ora monótona ora extasiante, o silêncio circundante apenas perturbado pelo roncar dos motores, os animais que surgiam aqui e ali, ora mirando-nos indiferentes ora fugindo num galope desordenado, os bandos de rolas debandando por sobre as árvores, as infernais moscas minúsculas que não nos largavam e sempre aquele sol implacável, ferindo os olhos, queimando a pele e desidratando os corpos.
A chegada, após as costumeiras mais de sete horas de viagem, pareceu-me uma espécie de retorno a um local familiar. Tão diferente de quando ali aportei pela primeira vez. Nessa altura, o temor pelo desconhecido e a surpresa do inesperado deixaram um certo amargo de boca. Agora não. Conhecia as pessoas, os recantos, até alguns da população. O Administrador Litenda apareceu logo a dar-nos as boas vindas e com pressa de apresentar o seu substituto que a idade já ia avançada e a reforma estava à vista. O Chefe França da PSP continuava com o seu bom humor e o aspecto seráfico dos dois pides não se alterara; ainda assim continuavam simpáticos se assim se pode dizer. O Camassango já se tinha ido, com um fim de comissão atribulado. O pequeno avião que, numa boleia de ocasião, utilizou para deixar aquele local remoto onde tinha sido colocado, cairia algum tempo depois de levantar voo, num local qualquer perdido na savana. Decorreram 3 ou quatro dias antes que uma equipe de busca da Força Aérea os encontrasse, famintos e quase a soçobrar.
Lá estava o destacamento da Marinha, mas agora exibindo um posto de vigia, bem alto, construído com paus cortados na mata e encimado por um nicho coberto de capim. Era de facto um bom posto de sentinela e que propiciava uma vista privilegiada sobre as redondezas. A lancha, encostada e ainda incapacitada pelo ataque que sofrera, quedava-se imóvel no pequeno ancoradouro escavado na margem do rio, aguardando que de Luanda viessem as peças e os técnicos para a necessária reparação. Na verdade nunca mais a vi navegar. Sei apenas que foi reparada mais tarde quando já andávamos por outras paragens.
Muitos dos fuzileiros que conheci, nos meus primeiros três meses de Rivungo, já tinham dali saído uma vez acabada a comissão que lhes fora imposta. Mas ainda restavam alguns, entre eles, o Jorge, artilheiro da lancha.
As instalações da tropa, continuavam no mesmo local, debruçadas sobre o pequeno charco de água em tons de âmbar, com o mesmo aspecto de sempre, numa quietude serena, embora continuamente renovada pelo caudal do Rio Cuando correndo ali perto, sinuoso, tocando terra firme nos mesmos locais, para logo se afastar perdendo-se caprichoso no meio dos caniços da chana imensa como se fizesse questão de dar um salto ao outro lado da fronteira onde, difusa pela distância, a silhueta esbranquiçada das casas da vila zambiana de Shangombo, nos espiava de território inimigo.
Sentia-me bem. Era o retornar a um sítio já conhecido onde tinha passado momentos agradáveis. Larguei os meus haveres, assinei a papelada que me tornava desta vez responsável pelas coisas do depósito de géneros e da cozinha e fui mergulhar nas águas frescas do rio, dar umas braçadas e livrar-me do sarro da viagem. Já tinha saudades, na Neriquinha havia duches mas nada onde se pudesse mergulhar, nem perto nem longe. E num sítio onde as temperaturas são sempre elevadas, isso não é coisa que se possa descartar.
Naquela noite, dormi profundamente numa cama em tudo igual à da Neriquinha, só que esta não tinha percevejos. Só os mosquitos a tentar penetrar a barreira da rede mosquiteira, mas nada que me tirasse o sono como da primeira vez. O dia seguinte seria dedicado a procurar a mulher que me lavava a roupa e a rever os amigos que ali deixara.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Neriquinha vista do céu

Temos algumas fotografias que mostram a Neriquinha vista de cima, uma delas pode ser vista aqui. Mas esta mostra a verdadeira dimensão do local onde vivemos durante dezoito longos meses.
Hoje, passados cerca de 38 anos, ainda consigo reconhecer cada recanto daquele que foi o nosso pequeno mundo.
Mas olhando, assim à distância do tempo, ainda me interrogo como foi possível ali viver durante tanto tempo, tão longe de tudo o que se assemelhasse a civilização.
A fotografia foi-nos oferecida pelo Fernando Simões, furriel de transmissões da companhia que nos rendeu na primavera de 1973, a C.Caç. 5012.
Obrigado Fernando.
Continue a visitar-nos e conte-nos algumas das coisas que se passaram depois de nós.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Caça

Durante a comissão na N'Riquinha, das coisas que mais me agradavam, uma delas era a caça. Largas dezenas de noites à caça, sem contar com os dias carregados de sol e chuva, permitiram-me passar o tempo de uma forma mais agradável e sem as chatices de estar fechado no quartel à espera do amanhã, que nunca mais chegava. O que eu queria era...rua!
Na verdade, tais surtidas, permitiram variar e aumentar as doses de carne a que cada um tinha direito. Palancas, (reais...que crime!) Nunces, Cabras do Mato, Gungas, Gnus, Caixotes e outras variedades de animais cujos nomes hoje me passam, serviram para ajudar nas contas do Furriel Vago-Mestre Morais e o 1º Sargento Pinto.
Uma vez, já nas Mabubas, na bacia da Barragem, saí à caça no barco, um Zebro com capacidade para uma dúzia de militares, que a Companhia tinha para patrulhar o Rio Dange. Com um civil, o Sr. Tomé, responsável pela Barragem das Mabubas, a farolinar, o Gasolina (encarregado de abastecer os motores e viaturas da SONEFE) com a bateria ao colo, o Lobato ao leme, o padeiro e o Zip no apoio, lá saímos ao cair da tarde.
Foi um dia de sorte: matei duas Pacaças enormes, com três tiros apenas.
O pior foi depois. Uma, a que estava à beirinha, foi carregada de imediato para dentro barco, com muita dificuldade, já que este tendia a afastar-se da margem em consequência dos empurrões ao bicho para galgar a amurada. A outra, porque se encontrava um pouco mais afastada e era maior, exigia que o barco ficasse meio apoiado em terra para facilitar o carregamento. Para isso, o melhor era dar-lhe alguma distância da margem e ganhar velocidade, colocando-o meio na água meio na terra. O pior é que, por debaixo da superfície da água e invisível aos nossos olhos, estava um tronco de árvore escondido onde a quilha do barco bateu com grande estrondo. Com aquela paragem violenta, para além de todos ficarmos estendidos no chão do Zebro, o Gasolina caiu à água, arrastando a bateria que tinha ao colo e que alimentava o farolim que nos permitia ver naquela escuridão. Desapareceu, por ali abaixo. O Sr. Tomé, sem largar o farolim da mão, acompanhou a descida lenta do Gasolina em direcção ao fundo e com o corpo já meio dentro da água, apanhou-o pelos cabelos e puxou-o, com a ajuda do Lobato, até ter a cabeça fora da água. Içámo-lo para dentro do barco e tudo se normalizou. O Gasolina, apesar da queda, nunca largou a bateria e nunca o farolim ficou sem energia. Foi o herói do dia!
Quanto às Pacaças: uma foi para a cozinha da Companhia e lá se foi comendo. A outra, derreteu-se numa farra no largo da casa do Capitão, com os civis das Mabubas.
Foi uma forma de homenagearmos a Esposa do Capitão Cabrita que, de férias na Metrópole, tinha ido passar uns dias a Angola.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O ESQUADRÃO

Estou convencido que, durante os mais de dezoito meses que a 3441 esteve na Neriquinha, devemos ter andado por locais que provavelmente nunca antes tinham sido pisados por brancos, fossem eles tropas ou civis.
O esquadrão foi um desses locais.
Não retenho exactamente como surgiu o nome, mas não andarei longe da verdade se disser que foi assim baptizado por ali ter sido localizada uma base inimiga enquadrada por um grupo de guerrilheiros. Esquadrão seria provavelmente a designação atribuída à formação, já que o termo não se enquadrava na estrutura do exército português.
Como é natural, não havia picada até lá e não teria sentido que houvesse. Normalmente as bases inimigas para além de móveis, estariam em locais tão distantes e inacessíveis que passariam despercebidas e por isso a salvo das investidas das nossas tropas.
De qualquer forma, a base foi detectada. Identificada a sua posição exacta logo foi preparada uma grande operação levada a cabo pela 3441 com o objectivo de desalojar os insurrectos e destruir as respectivas instalações. A operação, de considerável dimensão, implicou o envolvimento do grosso do efectivo da nossa companhia, incluindo mais de metade do meu pelotão então estacionado no Rivungo, um reforço da companhia de Mavinga e dois T6 da Força Aérea para o bombardeamento prévio.
Foi uma operação condimentada com episódios que marcaram aqueles que nela participaram, a começar pela autêntica aventura que foi o transporte até ás imediações do local, exigindo o necessário recurso a um guia que, conhecendo bem o trajecto, levou as berliets a corta-mato através de uma mata sem picadas ou caminhos e despida de pontos de referência.
Não participei nesta operação cabendo-me a menos ingrata tarefa de, com uma guarnição reduzida, garantir a segurança das nossas instalações do Rivungo já que o Capitão não quis dispensar o contributo do alferes Fausto.
Mas contaram-me que o assalto foi comandado pelo alferes Torres, à frente de um grupo de voluntários onde se incluía o doido do furriel Silva. Consta que, dada a ordem de ataque, após o bombardeamento prévio pelos dois T6, o grupo de assalto avançou decidido contra a base inimiga. O Silva aperrou a G3, descavilhou uma granada com os dentes e desatou a correr como um doido gritando:
-Ao ataque!!
Por sorte, os guerrilheiros não teriam condições de nos fazer frente. A posição estratégica do acampamento ter-lhes-á permitido detectar a aproximação da tropa com antecedência e optaram por desaparecer das imediações sem deixar rasto ou qualquer dos equipamentos que pudessem ali ter. A verdade é que o grupo de assalto irrompeu por entre trincheiras vazias sem encontrar vivalma ou o que quer que lhes pudesse fazer frente.
Incendiaram as cubatas, destruíram o que havia para destruir, retirou-se a tropa e com ela toda a parafernália de guerra, ficando de novo o local no mais completo sossego.
Passaram-se meses sobre a grande operação. Importava agora certificarmo-nos que a base inimiga não voltara a ser ocupada e se fosse caso disso, desalojá-los de novo do local.
Para a tarefa, foram destacados dois grupos de combate: o meu, com o alferes Fausto à frente e o do Alferes Correia. Só que desta vez sem a necessidade de apoio da Força Aérea. Apenas duas berliets para o transporte.
Saímos da Neriquinha bem cedo apinhados sobre as carroçarias desconfortáveis das viaturas, em direcção às pontes do Rio Cúbia. Aí chegados, em vez de se voltar à esquerda pelo caminho que levava ao Rivungo, seguiu-se em frente penetrando bem no coração da Savana por uma picada ainda desconhecida para mim, atravessando matas e chanas, ora lavrando areia numa marcha lenta feita gincana por entre as árvores, ora enterrando-se nos troços pantanosos que bordejavam cursos de água alimentados pelas chuvas persistentes da época, largando-nos finalmente, longas horas depois, nas imediações do objectivo, mas a uma considerável distância de segurança. Por razões óbvias o resto do percurso teria de ser feito a pé, com todos os cuidados e carregando aos ombros armamento e munições onde se incluía um morteirete e as suas pesadas granadas difíceis de transportar.
Aproximámo-nos da orla da mata sem sair da camuflagem propiciada pelas árvores que bordejavam uma extensa chana que se estendia à nossa frente. Algures por ali corria o Rio Dima, designação inscrita no mapa mas cujo caudal não se divisava por entre o capim rasteiro. Na outra margem, um pouco mais a sul, escondido algures entre a mata, estaria o nosso objectivo.
Atravessar ali era impensável. Se a base inimiga estivesse de novo guarnecida, seríamos vistos à légua e bastaria fazer tiro ao alvo no meio do descampado da chana, a que acrescia o risco de nos enterrarmos no pântano formado pelo Dima, cujo caudal por mais fraco que fosse, por ali correria certamente embora não se visse onde.
Discutiu-se a melhor forma de atingir o outro lado sem sermos antecipadamente detectados. Consultando o mapa, dava para ver que o Dima era pouco extenso. A sua nascente não seria muito afastada, se bem que nascente fosse um termo demasiado pomposo para a maioria dos rios que rasgavam a savana de forma irregular e desordenada. Este seria certamente um daquelas cujo curso era alimentado pelas escorrências da água das chuvas que se infiltrava por entre as areias porosas. Era quase certo desaparecer parcialmente durante a época seca.
Fosse como fosse, a prudência aconselhava a contornar o descampado, caminhando para norte de forma a rodear a linha que limitava a chana. Avançámos procurando nunca sair da camuflagem que as árvores propiciavam, seguindo em direcção oposta ao nosso objectivo, numa caminhada que parecia não acabar. Afinal aquela linha de água tinha o seu início bem mais acima do que o mapa parecia supor.
Após contornada aquela espécie de nascente constituída pela meia-lua que iniciava a chana despida de árvores que definia os domínios do Rio Dima, descemos pela margem oposta, apenas parando muito perto do nosso objectivo, quando a noite já quase se instalara.
Acomodámo-nos o melhor possível sob o peso da proximidade da base inimiga e procurei adormecer atormentado pela dúvida sobre o que nos esperava. Teria o inimigo dado pela nossa aproximação? É verdade, que durante todo o tempo, não houve sinais do que quer que fosse que o pudesse confirmar, mas: e se estivessem à espera que adormecêssemos?
O pessoal espalhou-se o mais possível, sem contudo perder o contacto uns com os outros, no meio de um silêncio absoluto. As latas da ração foram abertas com mil cuidados, nem um tilintar se ouviu. Acendiam-se os cigarros à socapa e sorvia-se o fumo debaixo do poncho para que a chama não nos denunciasse.
O dia “D” amanheceu frio e húmido, com uma ligeira neblina que se manteve até o dia clarear. Iniciaram-se os preparativos, recapitularam-se os planos, foram dadas as últimas ordens e cada um tomou o seu lugar de acordo com a estratégia definida. O Silva, como de costume, oferecera-se para comandar o grupo de assalto, constituído por um punhado de homens que arregimentou.
Fiquei a vê-los à medida que avançavam pela mata, sem hesitação, como se soubessem exactamente para onde ir, desaparecendo rapidamente das nossas vistas confundindo-se com a vegetação em direcção ao objectivo camuflado algures por ali um pouco mais abaixo.
Posicionado estrategicamente, o restante efectivo aguardava o desenrolar da operação, pronto para entrar em acção assim que se ouvissem os primeiros tiros. Passaram-se alguns minutos que pareceram uma eternidade sem que se ouvisse o que quer que fosse. O silêncio marcava o compasso das batidas descontroladas do coração, acompanhadas de um mal disfarçado tremor aumentado pelo frio desagradável da manhã. O dia ainda não clareara totalmente e os corpos entorpecidos pela noite mal dormida ainda não tinham tido tempo de aquecer.
Mas nada aconteceu. Lá da frente vinha a informação de que o local estava tão deserto como o resto da mata em redor. O silêncio foi quebrado, os nervos serenaram, voltaram os sorrisos e ouviram-se desabafos aqui e ali. Descontraídos mas ainda assim com atenção a tudo o que nos rodeava, avançámos continuando a rodear o local não fosse estarem emboscados algures à nossa espera.
Mas não. Ninguém nos esperava, nem ali nem mais longe. Na verdade era bem visível que por ali não passara vivalma nos últimos meses. Olhei à volta. O local, instalado estrategicamente num ligeiro declive, distava uns quinhentos metros do perímetro da chana, escondido entre as árvores e suficientemente perto de uma grande lagoa de águas cristalinas. As trincheiras, se bem que parcialmente assoreadas pela areia solta, estavam distribuídas desordenadamente, mas de forma a tocaram os esqueletos das cubatas queimadas e dispersas pelo terreno. Constituíam de facto uma eficaz protecção, mesmo ali à mão.
Sentei-me sobre um tronco avaliando o local. Parecia-me estranho e de certa forma desnecessário o trabalho que tiveram em escavar aquelas valas feitas trincheiras. De facto, quando os atacámos da outra vez, debandaram com antecedência suficiente e nunca mais ali voltaram. Trabalho inútil, pensei. A não ser que apenas servissem como protecção de recurso em ataques de surpresa.
Olhei em volta e imaginei o Silva, meses antes, a correr por ali acima, feito doido, com a granada na mão e cavilha entre os dentes. Se tropeçasse ou fosse atingido, a explosão da granada seria inevitável e mataria alguns dos seus companheiros. Talvez por isso, desta vez, foi mais comedido na forma como avançou. Sem grande alarido, com cuidado mas, ainda assim, de forma decidida, como se fosse algo a que já estivesse habituado a fazer.
Saímos rapidamente dali. Permanecer seria arriscado. A posição era conhecida pelo inimigo e a possibilidade de um bombardeamento à distância não podia ser descurada.
Avançamos para sul, patrulhámos as margens do rio e procuraram-se possíveis sinais da presença dos guerrilheiros. Apenas se encontraram carreiros mas quase cobertos pelas ervas, sinal evidente que a sua utilização era nula ou então esporádica.
Parecia óbvio que o local fora totalmente abandonado. Provavelmente tinham como estratégia não voltar a ocupar instalações que tivessem sido identificados pela tropa. Se era essa a estratégia, revelavam inteligência. Da nossa parte, cumprimos a missão obrigando-os a procurar outro poiso, mais longe, ou mais bem camuflado. Contudo, ficou-me uma espécie de certeza de que todo o trabalho, todo o cuidado colocado na preparação da primeira operação e o retorno ao local meses depois, desalojou os guerrilheiros daquele local, mas provavelmente não causou qualquer embaraço na sua logística e capacidades de resistência.
Mais descontraídos, descansados e inebriados pela beleza agreste do local, encetámos o caminho de regresso ao ponto onde seríamos recolhidos pelas viaturas. Mas nunca seguindo pelo mesmo caminho, seria penoso demais. Atravessaríamos o Dima a direito, mesmo sem sabermos ainda se era possível o seu atravessamento ou não. Parecia que sim, já que naquele local apenas se via o capim rasteiro da chana. Contudo ainda nos estava reservada uma surpresa. Já quase perto da outra margem, aquela que pretendíamos alcançar, a chana plana e transitável deu lugar a uma zona totalmente alagada com uma profundidade de água considerável embora com largura não superior a dois metros e pouco. Afinal, os turras não escolheram o local à toa para a instalação da sua base. Sabiam bem que o atravessamento ali, a direito, era complicado e moroso. Chegar às imediações das improvisadas instalações, vindo do outro lado, implicava um percurso curto mas difícil de vencer ou um trajecto seco, mas longo e penoso. Quer se utilizasse um ou outro, facilmente seríamos detectados com considerável antecedência. A suficiente para decidirem se seria melhor fugir ou resistir. Foi certamente o que aconteceu da primeira vez.
A travessia naquele local, contudo, já bem perto do lado de cá, acabou por ser divertida, Arranjou-se um tronco que serviu como ponte molha-pés e alguns aproveitaram para se refrescarem, despindo-se, entrando na água e ajudando um a um na travessia. O pior veio depois. As sanguessugas, abundantes no lodaçal, agarram-se firmemente às nossas pernas, obrigando a um trabalho de paciência para as arrancar.
O regresso transformou-se numa viagem quase interminável. A chuva abundante e persistente não nos deu tréguas, arrefecendo os nossos corpos encharcados e permanentemente sacudidos pelas irregularidades do piso. Quando finalmente atingimos as já familiares pontes do Cúbia, não obstante ainda a cerca de um par de horas do aconchego da Neriquinha, a sensação de alívio era óbvia. Dali para a frente era caminho conhecido e em menos de um nada estaríamos de novo ao abrigo do arame farpado. Cada bocado das nossas vidas passado na mata, enfrentando intempéries, dormindo à chuva e ao relento, algures numa hostil terra de ninguém, contribuía cada vez mais para transformar a Neriquinha num sítio onde se podia viver. Quase aprazível.
Um duche, uma refeição quente e uma cama, eram um luxo quando comparados com o desconforto dos últimos quatro dias.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Mortos em Combate

Bem no centro da parada, agarrada ao sopé do pau de bandeira, um pequeno memorial ali deixado por veteranos que nos antecederam, relembrava aqueles que tombaram em combate em sagas antigas.
A imagem preservou para a posteridade o seus nomes e as companhias a que pertenciam.

Recorda-se assim:

1966 - Cabo Canhadeiro da C.Caç. 1521
1966 - Soldado A. Costa da C.Caç. 1521
1967 - Soldado Maximino da C.Cav 1694
1967 - Soldado Brejo da C.Cav. 1694
1967 - Soldado F. Silva da C.Cav 1694
1967 - Grumete Fuzileiro João da LDP 210

A estes, acrescentámos os nossos saudosos:

1972 - Furriel José Maria Nóbrega Gonçalves da C.Caç. 3441
1972- Grumete Fuzileiro Celestino Mesquita de Carvalho (o Ruço) da LDP 210
relembra-se ainda o soldado Ilídio Gonçalves Morgado, falecido em Dezembro de 1973, na sequência de acidente, quando já em Luanda apenas se aguardava o transporte que nos trouxe de regresso a casa.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

FILHOS DE MUITAS MÃES


Na tropa há filhos de muitas mães.
Dizia-se, numa espécie de lugar-comum muito em uso quando se queria transmitir a ideia de que a tropa acoitava todo o tipo de gente, em especial uns quantos pouco recomendáveis que é o mesmo que dizer, com poucos escrúpulos. Com efeito, o serviço militar obrigatório dispensava procedimentos de selecção em função do carácter, não importando saber se o mancebo tinha cadastro ou se era ou não propenso à cobiça pelo alheio. Assim, para além de congregar gente vinda de qualquer dos recantos do nosso território, numa mesma unidade militar coexistiam pessoas das mais variadas índoles.
Dormindo no mesmo espaço, tomando refeições na mesma mesa, protegendo-se uns aos outros, coabitavam, entre uma maioria incaracterística, gente de bem à mistura com companhias pouco recomendáveis. Espertos e tansos, uns matreiros e outros nem por isso, alguns mais aldrabões que outros, à mistura com tímidos e vivaços, citadinos e saloios, madraços e diligentes, não esquecendo os maduros de olho vivo e outros ingénuos e pacatos. Convivendo nesta ancestral simbiose humana, sobressaíam os dominadores e senhores do espaço, impondo as suas vontades aos subservientes cuja ingenuidade os colocava à mercê da esperteza de gente pouco escrupulosa.
No caldeirão da 3441, identificavam-se alguns tímidos, uns quantos ingénuos, uma mão cheia de atrevidos e meia dúzia com cérebro bem composto, não se encontrando entre os demais quem pudesse ser apodado de vigarista ou de má índole. Se os havia não se faziam notar, talvez porque, naquele fim de mundo esquecido, não havia espaço para a bandidagem ou matreirice. A bem da verdade, não me parece sequer que entre os cerca de cento e quarenta homens da companhia houvesse alguém com tal perfil.
Apenas uma pequena excepção - o Bacalhau.
A alcunha parecia condizer com a pessoa e não sei exactamente porquê. Talvez porque nunca ninguém o chamasse pelo nome. Respondia sempre por Bacalhau e penso que a alcunha já o acompanhava quando se juntou à companhia. Se a ganhou ali, terá sido certamente atribuída por alguém, a propósito de qualquer situação que o marcou e que, de todo, desconheço.
A fama de gabiru ganhou-a mais pela bazófia do que por alguma ladroagem. Com a especialidade de mecânico-auto, tratava com pouco profissionalismo das viaturas avariadas ao mesmo tempo que fazia alarde de historietas de malandragem nas quais gostava de se colocar no papel do bandido esperto feito herói, transformando a vítima em tanso que não merecia outra coisa. Se calhasse a jeito no enredo, fazia questão de introduzir personagens que o senso comum considera não serem susceptíveis de se deixarem enganar: um polícia e um galego tasqueiro eram figuras que lhe davam prazer satirizar, não disfarçando o gozo que lhe dava ornamentar o libreto com pormenores que, de uma forma ou de outra enalteciam a sua perspicácia em contraponto com a chacota que fazia da patetice e ingenuidade de vítimas tão pouco comuns.
Deliciava-se com a atónita meia dúzia de espectadores que, adormecidos pelo seu bem urdido parlapié, ouviam com ar de espanto a requentada história de como conseguiu a ajuda braçal do polícia de giro que acabara de o apanhar a furtar as jantes de um automóvel estacionado, convencendo-o de que o carro era seu e que apenas pretendia levá-las à oficina para reparação.
- Oh senhor guarda, olhe que não é a primeira vez que me furam os quatro pneus ao mesmo tempo. Gandulos, é o que eles são, sem respeito pela propriedade alheia!
O episódio do profissional da restauração era adornado com pormenores artísticos que arrancavam exclamações de espanto de um ou outro mais fácil de convencer. A história, que lhe ouvi contar pelo menos um par de vezes, metia sempre como burlado um Galego espertalhão, dono de uma tasca, um botequim de comes e bebes numa qualquer pequena rua de Lisboa. O isco era sempre um quadro representando uma pintura barata, preferencialmente inexpressiva, que alguém com ar desleixado, tipo artista, entregava ao tasqueiro para guardar.
-Oh meu amigo! Não se importa de me guardar isto até daqui a bocado?
O galego era amaciado por um comparsa que, algum tempo depois, entrava despreocupado apenas para tomar uma água, ou um refresco. Importava era que aparentasse uma figura respeitosa, com aspecto distinto, bem vestido, de preferência com fato e gravata e dando ares de endinheirado. Distraidamente reparava na pintura e demonstrava interesse especial no quadro.
- O quadro é para vender?
À resposta negativa, lamentava.
- É pena, dava bom dinheiro por ele.
- Se mal lhe pergunto, quanto estaria o senhor disposto a pagar pela obra?
O taberneiro, na perspectiva do ganho fácil, mordera o isco, o que levava o finório a encenar hesitação na resposta:
- Hum… não sei, mas aí uns cinquenta contos de reis estava disposto a largar.
- Pois – retorquia o taberneiro - mas como lhe disse, não é meu.
A armadilha ficava completa quando, mais tarde o primeiro trafulha, o que encenava ar de artista, personagem que, na versão do Bacalhau, era sempre representada pela sua pessoa, voltava para recolher o quadro.
- Oiça lá amigo. Você não quer vender isso?
Na resposta, o falso artista assumia-se como autor da obra, deixando escapar um qualquer comentário, em que obrigatoriamente referia não ter uma ideia de quanto valeria o quadro, ao mesmo tempo que deixava vagamente transparecer que atravessava momentos difíceis, normalmente relacionados com problemas financeiros.
- Sabe, eu não me queria desfazer deste quadro, mas as necessidades … .
Hesitava, encenava um mutismo pensativo, coçava a barba mal aparada e atirava, como se tivesse tomado uma decisão difícil.
- E quanto estaria o senhor disposto a dar por ele?
- Olhe, dou-lhe vinte contos. Rematava o galego.
Nesta altura o Bacalhau encarava a sua assistência que, acreditando na história, ia comentando.
- Eh pá… é preciso ter muita lata para fazer isso. E o gajo? Pagou?
- Claro. Concluía triunfante.
O mais interessante desta faceta do Bacalhau, era a forma como apresentava a história. Distorcia os factos, vestindo-os com uma capa de honestidade encapotada, diabolizando a ancestral avidez do Galego por dinheiro e pelo lucro fácil, transformando assim o burlado em vigarista. Ele, o honesto aldrabão, limitava-se a tirar proveito da sua avareza, esta sim, condenável.
Certa vez, não sei bem por que motivo mas que apostaria ancorado numa bem preparada matreirice – talvez uma inopinada dor de dentes e a consequente necessidade de assistência hospitalar – passou uma semana no Luso. Apanhou a boleia do Nord e quando na semana seguinte regressou, saiu-se com mais uma das suas.
- Querem saber como saquei vinte paus a um labrego? Começou, procurando atrair a atenção de quem estava próximo.
Reunindo uns quantos à sua volta e captada a sua atenção, começou pela descrição dos pormenores, compondo uma espécie de encenação teatral que encerrava em si um conjunto de truques. Contudo, para que tudo funcionasse, a escolha da vítima tinha de ser criteriosa. E isso não é um truque nem se aprende, é algo de inato, que nasce com o burlão e esse sabe que é mais fácil encontrar incautos entre os provincianos.
Percebe-se que um qualquer campónio transformado em mancebo, que durante uma vida inteira nunca saiu da parvónia onde nasceu, lá no interior profundo das serranias lusitanas e é largado, por imposição, num lugar distante, torna-se presa fácil como qualquer pequena gazela que, tresmalhada da sua manada, se vê perdida em território de leões. Contudo, o burlão tem de saber escolher, de entre esses, um que seja fácil de enganar, já que, ser das berças não é obrigatoriamente igual a ter falta de esperteza.
No caso, a vítima que por acaso do destino se atravessara no caminho do Bacalhau, tinha um ar infeliz, cara de pacóvio e uma farda de tons ainda carregados a indiciar o pouco uso, próprio do maçarico que mal acabara a recruta se vê mobilizado para África, qual virgem desprotegido que nunca se defrontara com a malandrice do mundo.
Evidenciando o ar de quem se encontra perdido, num meio hostil e desconhecido, a milhares de quilómetros do seu mundo, era a vítima ideal. Está sozinho numa terra onde não conhece ninguém, e sente-se desamparado, parecendo procurar alguma cara conhecida que lhe traga o conforto que os mais frágeis procuram quando longe de casa.
O Bacalhau fisga-o à distância e avança decidido ao seu encontro. Ensaia uma pose de dúvida à mistura com surpresa, mira-o insistentemente, coloca estrategicamente o dedo indicador em riste balançando-o num movimento sincopado e dispara:
- Eu conheço-te!
Na verdade, nunca o vira mais gordo. E o outro também não. Mas a forma como foi abordado lançou a dúvida, obrigando-o a hesitar. A perspectiva de encontrar alguém conhecido, mesmo que não se lembrasse de onde, fê-lo parar como se procurasse nos escaninhos da memória qualquer coisa que o ajudasse a identificar aquela espécie de miragem no deserto da sua desventura.
Perante o mutismo e o ar duvidoso da vítima, insiste:
- Não te lembras de mim? E aproximava-se um pouco como a querer reavivar a memória fotográfica do outro.
E continuava sem lhe dar tempo para pensar.
- Não és de…de...
Alongava o espaço entre os de’s ao mesmo tempo que, abanando a cabeça, levava a mão à testa numa encenação de quem puxa pela memória à procura do nome da terra como se estivesse ali mesmo, debaixo da língua e não saísse.
- S. Cipriano. Declarava o ingénuo sem se aperceber que estava a fornecer a informação que o outro precisava.
- Eh pá … é isso mesmo … S. Cipriano. É que eu sou de lá perto, mas passava a maior parte do tempo na Vila.
Desconhecendo de todo onde raio ficava S. Cipriano, o Bacalhau não arriscava um nome, ficando-se apenas pela designação genérica de Vila, sabendo ser assim que os das berças se costumavam referir à sede de Concelho a que a sua terrinha pertencia, ao mesmo tempo que eliminava a dúvida que ainda pairava na cabeça do outro. E continuava:
- Tu és o ….o…, bolas que me esqueci do teu nome!
E colocando a mão sobre o ombro do outro, apertava-o ligeiramente ao mesmo tempo que balançava a cabeça como a culpar a sua memória de falta tão grave.
-Eu sou o Manel… o Manel do Patrocínio! Denunciava-se ingenuamente o infeliz.
- É isso mesmo, pá! Oh Manel! Esta merda do cacimbo já me baralha a cabeça. Vê lá tu que quase me esquecia do teu nome … o Manel! Eh pá, e tu, nã tás a ver quem eu sou?
Insistia. E sem dar tempo ao outro para pensar, acrescentava.
- Tás a ver o largo? Ali ao pé da igreja?
Perante a anuência do outro, continuava.
- E o chafariz?
Apostando no princípio de que todas as terras têm um largo frente à igreja e uma fonte ou chafariz, arriscava ainda.
- Lembras-te daquela senhora gorda?
O outro franzia o sobrolho, coçando a cabeça procurando trazer à superfície as memórias da terra e das suas gentes.
- Ah! Sim, tou a ver! Aquela que mora naquela casa baixinha, em frente.
Avançava o infeliz, quase convencido de que falava de facto com um conterrâneo, ao encontrar, lá no fundo da sua memória, a imagem de alguém com as características referidas.
- Essa mesma! Reagia simulando entusiasmo. - É minha Tia. Rematava por fim com chave de ouro, anulando em definitivo qualquer dúvida que ainda restasse na cabeça do infeliz.
O Bacalhau preparara bem o isco e escolhera o anzol adequado. Depois, lançou a linha ao acaso e esperou que o peixe mordesse. Faltava apenas o golpe final, aquele em que se puxa a linha com cuidado para que o peixe não escape.
- Olha lá! Não tens aí vinte paus que me emprestes?
O outro hesitou um pouco, pareceu desconfiar, mas o golpe final foi dado com mestria.
- Sabes, tou enrascado … mas amanhã, sem falta, pago-te.
A dificuldade de certas pessoas em dizer não, mesmo quando suspeitam de que estão a ser enganadas, não lhes permite resistir. Para mais, tratando-se de um conterrâneo. Assim, a nota verdinha de vinte paus, retirada do bolso, passou rapidamente para as mãos do Bacalhau que a guardou, após o que, alegando uma qualquer missão urgente, se retirava rapidamente à medida que repetia, acenando com a mão:
- Amanhã pago-te, tá bem?
Concluía assim a história, olhando triunfante para a sua pequena plateia.
- E o gajo? não quis saber onde é que o encontravas para lhe pagares? Perguntou alguém.
- Eles nunca se lembram disso. Concluiu o Bacalhau à medida que se encaminhava para a ferrugem no seu passo lento e bamboleante.
Munindo-se de umas quantas ferramentas, debruçou-se sobre uma berliet avariada, deixando cada um decidir por si se tudo se teria passado como contou ou se era mais uma das suas tretas.
Fosse como fosse, os mais desconfiados começaram a avaliar melhor o risco em deixar algo ao seu alcance.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

NERIQUINHA - Vista aérea

Durante uma das muitas operações apoiadas pela Força Aérea da África do Sul, foi possível registar uma imagem aérea da Neriquinha.
Para que se perceba bem a insignificância do local face à imensidão da savana envolvente, fica aqui a fotografia tirada a bordo de um helicóptero pelo Gabriel Costa no ano de 1972.

domingo, 19 de setembro de 2010

O REFEITÓRIO

O refeitório, plantado a meio caminho entre a cozinha e o depósito de géneros, era um espaço com evidente aspecto de provisório que se transformou em definitivo.
É verdade que apenas era ocupado pelo curto espaço de tempo que dura uma refeição. Mas ainda assim, muito precário e por vezes impróprio para servir refeições. Desprovido de paredes, não era mais do que um tosca estrutura de barrotes de madeira coberta de chapa ondulada retorcida e ferrugenta.
Quando a chuva vinha tocada a vento, era como se se estivesse na rua. No tempo do cacimbo, o pó cinzento e avermelhado das cercanias era empurrado por qualquer brisa mais animada para cima da comida, codimentando-a com especiarias indesejadas.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Disparos acidentais

Manipular armas, por si só, acarreta riscos. E o risco é ainda maior se estivermos a falar de armas de guerra. Foram feitas para matar e delas não podemos esperar misericórdia ou complacência. Lidar com armas exige respeito, disciplina e muitas cautelas. Mas, assustava-me especialmente a falta de jeito que muitos tinham para o seu manuseio. É verdade, os desajeitados quando andam com uma arma nas mãos, são duplamente perigosos.
E o mesmo é válido para os nabos. Quanto a estes, o perigo resulta exactamente da ignorância. Durante a minha curta vida militar, encontrei uma mão cheia deles. Incapazes de perceber particularidades importantes do funcionamento de uma espingarda, agiam inconscientemente e cometiam erros por vezes fatais.
Havia ainda os que tinham pavor a armas. Olhavam-nas como se estas lhes mordessem e entravam em pânico só de pensar que teriam de fazer fogo. Descontrolavam-se com os estampidos e o cheiro a pólvora e o medo levava-os a disparar sem sentido. Fechavam os olhos e premiam o gatilho contorcendo-se em caretas de horror. O tiro, esse saía para onde calhasse.
Durante a instrução, os procedimentos e as regras de segurança eram repetidos vezes sem conta. Uma delas, considerada a regra das regras, dizia: nunca se aponta uma arma a ninguém, mesmo que se tenha a certeza de que está descarregada. Nunca. Nem a sério nem a brincar. E isto não era um conselho, era uma ordem. E na tropa, ordens são para serem cumpridas.
Contudo, tal rigor não obstou a que, bem cedo, tenha sentido um arrepio, ao ser confrontado com o flagrante esquecimento de regras tão elementares. Durante a primeira instrução de tiro aos recrutas que me saíram em sorte, a G3 de um deles encravou. Sei lá, não disparava. Ignorando as recomendações que, pouco antes, repetira por mais de um par de vezes, virou-se para mim com a arma em riste e gritou por entre o barulho dos disparos de instrução:
- Encravou! … não dispara!
E pressionava insistentemente o gatilho mantendo a arma apontada para mim como a querer confirmar o óbvio.
A minha sorte é que, daquela vez, a arma, por qualquer mau funcionamento ou sorte minha, encravara de facto. Por vezes, quando o problema era apenas da percussão, o disparo dava-se à segunda ou terceira insistência. Não o foi daquela vez, caso contrário não estaria aqui a contar este episódio.
Mas ainda me lembro que desviei a arma com um golpe brusco, mimoseei-o com um chorrilho de asneiras que atingiu a sua inocente progenitora e provavelmente mais uns quantos membros da sua família e encerrei a questão com um valente pontapé que acertou em cheio no rabo do recruta.
Ainda não refeito do inusitado episódio, dedo em riste apontado ao nariz do infeliz, mas com vontade de partir para o estaladão, voltei a repetir, com voz nitidamente enervada e quase gritada, o aviso feito escassos minutos antes do início da instrução de tiro:
- Não se aponta a arma a ninguém, mesmo que se tenha a certeza que está descarregada.
Coçando o fundilho das calças procurando amenizar o ardor causado pelo impacto da bota, balbuciou à laia de justificação:
- Não disparava!
Fica assim demonstrado que, não obstante o rigor e solenidade postos no seu ensinamento, as regras de segurança eram frequentemente esquecidas ou ignoradas e muitas vezes não compreendidas por gente sem vocação ou jeito para as lides militares, e com consequências funestas. Uns entendiam que eram tretas, teorias da tropa, outros nunca chegaram a perceber o seu significado. Mas a verdade é que, durante o tempo que durou a guerra do ultramar, muitos morreram em consequência do desleixo e do seu não cumprimento e em quase todas, nem sequer foi precisa a intervenção do inimigo.
Numa altura em que até os quase cegos e os semi-aleijados eram obrigados a cumprir serviço militar, era visível, a olho nu, a falta de vocação de muitos, tropeçando-se frequentemente com um bando de desastrados irresponsáveis, autênticas ameaças para quantos andassem por perto.
Esta realidade obrigava a redobrar os cuidados postos no ensino da arte da guerra, repetindo-se até à exaustão instruções papagueadas, recomendações redobradas, avisos solenes complementados com ameaças de severos castigos ao desastrado prevaricador. Insistia-se na explicação do funcionamento de cada espingarda, das dezenas de peças que as compunham, sua função, particularidades, manias, pontos fracos e pontos fortes. Limpava-se e oleava-se cada peça, uma e outra vez, mesmo que já não restasse ponta de sujidade nem se vislumbrasse sinal de ferrugem. Escarafunchava-se cada ranhura, cada molinha, cavilha ou pinchavelho. Montava-se e desmontava-se a arma vezes sem conta, por rotina ou em testes de destreza, para ver quem o fazia mais depressa. Premiavam-se os mais capazes e mantinha-se vigilância apertada sobre os inábeis. Explicavam-se as consequências nefastas do incumprimento das regras, falava-se do azar que perseguia os mais desleixados e da sorte que acompanhava os zelosos.
Mas, acabara o tempo de instrução e do faz de conta onde tudo era teoria, simulação e encenação. No teatro de operações era a sério: as balas eram reais, as granadas explodiam de facto e o inimigo era verdadeiro. Experimentávamos o medo, de braço dado com o stress gerado pela expectativa torturante do ataque. Sim, agora o deslize, a distracção, o acidente, estavam sempre à espreita, à vez ou todos ao mesmo tempo, conluiando-se em cabalas de morte, como aquela que nos levou o Gonçalves, um furriel dos bons, amigo e camarada, dos nossos. Morreu de forma violenta atingido em cheio pelo cone de fogo provocado por disparo acidental de um lança-granadas quando, como mero espectador, espreitava a azáfama de uma simples e inofensiva acção de verificação do estado do armamento e munições.
De nada lhe valeu o saber do escrupuloso cumprimento das medidas de segurança, das rotinas e cuidados com o manuseamento das armas, com a sua manutenção ou com as cavilhas de segurança. Aquela granada nem chegou a explodir. Nem sequer fora descavilhada. Enterrou-se inofensiva no lodaçal do Rio Cuando, não sem antes deixar um bafo quente de morte atrás de si, provocado pela labareda do disparo.
A verdade é que, parte substancial destes procedimentos e cuidados era preocupação de cada dia. Cumpriam-se especialmente quando se saía e quando se regressava das operações.
Especialmente nas chegadas. Por regra, logo ali onde as viaturas nos largavam, no limite inferior da parada poeirenta e antes do desejado duche, cumpria-se o mesmo ritual. Arma apontada para cima, culatra puxada atrás, pressionava-se o gatilho uma e outra vez e repetia-se tudo de novo procurando garantir que nenhuma munição ficava na câmara. Só depois cada um ia à sua vida. Matar a sede, livrar-se do sarro e descansar da estafa.
Mas, ainda assim, e porque há sempre uma excepção, todos os cuidados eram poucos. Afinal estamos a falar de acidentes e, por muitas cautelas que se tenham, os acidentes acontecem.
Corria a tarde, quente, com um efeito paralisante sobre os corpos. Caminhar exigia um esforço para além do habitual e havia pouco que fazer. A maior parte dormitava por aqui e por ali. Outros, simplesmente jaziam espojados. Alguns preguiçavam à sombra enquanto uns quantos se entretinham em jogos de bisca lambida ou monótonas partidas de sueca matando a sede com a cerveja semi-fresca saída de frigoríficos alimentados a petróleo sem força para vencer a canícula. Com excepção da área da cozinha onde o tilintar de tachos anunciava o início da preparação do jantar, o silêncio imperava. A imperceptível brisa, intimidada pelo calor grosso e implacável, era incapaz de tirar as duas ou três árvores da quietude a que se haviam remetido. Nem o mais pequeno murmurejar se ouvia por entre o cansado movimento das suas folhas amolecidas pelo sol escaldante.
O Cabral, por qualquer razão que não retenho, resolveu entreter-se com a arma. Provavelmente achou que precisava de ser limpa ou então preparada para uma qualquer saída e não encontrou melhor lugar para o fazer do que a caserna, ali, sentado na beira da cama. O Silva, que ocupava a cama de cima - as camas estavam dispostas em beliche, duas a duas – preparava-se para escrever à namorada, ou à família, tanto faz. No dia seguinte passava o avião do correio e no outro lado do mar havia gente ansiosa aguardando notícias. Como de costume, sentara-se na cama, colocara a mala à frente dos joelhos em jeito de mesa, dispôs sobre a mesma a folha de papel e concentrou-se. Podia ter escolhido o refeitório, mais a jeito e com espaço para dar e vender. Mas o seu canto era aquele. Ali dormia e ali sonhava, por vezes acordado. Nã… escrever à miúda exigia recato, inspiração e tempo. E ali o seu cantinho oferecia a intimidade necessária. Para além do mais, dentro da mala de viagem que usava como escrivaninha, guardava a caneta, as folhinhas amarelas de aerogramas ainda virgens e, mais importante, as cartas recebidas a que importava responder.
Na cama de baixo, às voltas com a G3, o Cabral, talvez para confirmar que o mecanismo estava bem oleado, premiu o gatilho. O disparo deu-se, inesperado, com estrondo. Seguindo a orientação do cano, a bala passou pelo colchão da cama por cima da sua, trespassou a mala feita escrivaninha, assobiou aos ouvidos do Silva, perfurou a chapa de zinco ondulada do telhado e desapareceu no azul do céu.
O Silva levou um susto de todo o tamanho largando a caneta num gesto brusco, mais em consequência do estrondo inopinado do que da bala que quase lhe roçara a cabeça. Na verdade nem dera por ela e só mais tarde se lembrou que ouvira um ruído sibilante.
O susto do Cabral não foi menor e com o coração a cento e vinte batidas por segundo, não reagiu. Ficou-se a olhar a arma como que a tentar compreender o que sucedeu, surpreso por descobrir, da pior forma, que havia uma bala na câmara pronta a disparar. Infringira uma das tais regras elementares e não sei se terá chegado a tomar consciência do que ia acontecendo, pelo menos no momento. É que, a percepção efectiva da desgraça, só deverá ter atingido as consciências mais tarde, talvez com maior intensidade à noite, na quietude silenciosa que antecede o adormecer.
A desgraça batera à porta mas, felizmente, não quis entrar. Como sinal da sua passagem, apenas restou uma mala de cartão furada e um buraco no tecto da caserna.
Ficou mais uma vez demonstrado que as regras repetidas durante a instrução não eram treta. Resultavam de experiências que, pela frequência com que ocorriam, foram conferindo validade aos avisos. À regra de nunca se aponta uma arma a ninguém, havia que acrescentar-se: nem se carrega no gatilho a menos que seja necessário.
Não me admiro nada que, naquele fim de tarde, muitos tenham ido verificar a sua arma. Com a consciência tranquila dorme-se melhor e sempre mais vale prevenir que remediar.

domingo, 1 de agosto de 2010

O Furriel NETO

A companhia estava desfalcada de furriéis. A morte do Gonçalves, para além da saudade imensa, deixara uma vaga que demorava a preencher e havia tempos que o Duarte (o palúdico) em consequência da sua permanente luta contra o paludismo, tinha sido transferido para o Cuito Cuanavale.
Na verdade, menos dois furriéis pode parecer coisa de somenos importância, mas contando que o segundo-sargento Sousa não participava na actividade operacional e que o P. Costa, queixando-se de asma, fora confinado a actividades que não iam além do perímetro do arame farpado, a sobrecarga sobre os demais começava a fazer-se sentir. Ao fim e ao cabo isso significava que as actividades mais desgastantes e de maior risco que em princípio seriam repartidas por uma dúzia de furriéis, estavam a ser garantidas por apenas oito. E menos quatro elementos, por si só, mais do que justificava a expectativa de ver chegarem reforços.
Os comandos e respectivas estruturas de recursos humanos estavam ao corrente, mas a reposição do quadro de sargentos da companhia tardava. Relegados para os confins das terras do fim do mundo quase nos convencíamos que o assunto estava esquecido e por isso, teríamos de nos aguentar até ao fim, já que refilar não adiantava.
Até um dia. Quando já ninguém pensava no assunto, o esperado reforço desceu pelas estreitas escadinhas do Nord que acabara de aterrar na pista de terra vermelha para mais um reabastecimento semanal.
Parou e olhou em volta como que se avaliasse o local. Não disse nada, mas não seria de estranhar que no seu íntimo se sentisse como se tivesse sido largado no fim do mundo. Pelo menos achei que o seu semblante parecia maldizer a sua sorte. Provavelmente questionava-se em silêncio, à medida que, carregando as suas coisas, caminhava em direcção à camarata.
- Que mal fiz eu para vir aqui parar?
Na verdade, Angola teria certamente, espalhados pelo seu vasto território, muitos locais distantes e isolados. Mas a Neriquinha estaria certamente entre os mais remotos e inóspitos.
A chegada deste desconhecido constituiu uma surpresa e em dose dupla; uma, porque chegou sem aviso, outra pela cor da pele. Quando se esperava um maçarico, vindo directamente do puto, sai-nos na rifa um furriel negro, africano de nascença e angolano de gema. Com efeito, nestes casos, era costume o recurso a rendição individual, recaindo a escolha em alguém que já pensava escapar a uma mobilização. Mas não. Parece que optaram por quem estava mais à mão.
Na verdade, o Neto fora mandado para a Neriquinha pela disciplina militar em consequência do seu mau comportamento. É verdade, fora punido militarmente. Como se dizia na tropa, levou uma porrada de todo o tamanho e como se isso não bastasse, juntaram à pena uma guia de marcha para os confins da savana, o limite mais afastado do território.
Levei algum tempo a digerir este facto. Afinal, sem que ao longo da nossa ainda curta carreira militar, tivéssemos feito algo de censurável ou que justificasse uma punição, fôramos colocados num local para onde, pelos vistos, a título de pena acessória, eram enviados militares mal comportados.
Nunca soube exactamente o que raio teria feito de tão grave para ser punido de forma tão severa. Se bem me lembro, nos primeiros tempos, desconhecíamos esse facto e o seu comportamento reservado em tudo o que se relacionasse com a sua vida pessoal não o permitia descobrir.
Inicialmente apenas se revelou dependente do álcool, mas com um sentido de humor extremamente apurado. Até na forma como segurava a garrafa de cerveja que fazia questão de manter como companhia permanente. E permanente significa mesmo isso. Começava a beber logo de manhã, assim que se levantava e continuava noite dentro, mesmo depois de deitado, das luzes apagadas e da maioria já estar a dormir profundamente. No meio do silêncio da noite, ouvia-se, de vez em quando o glu de mais um gole ou o clock anunciando a abertura da derradeira garrafa da noite.
O efeito de tanta cerveja manifestava-se de várias formas: na voz entaramelada, no andar cambaleante, nos olhos mortiços amarelados e algo raiados de sangue, no gesto lento e desajeitado como levava a garrafa à boca, ou na forma como lidava com o cigarro que nunca largava. Para que não caísse, segurava-o espremendo-o fortemente entre os dedos. Esquecendo-se frequentemente que o tinha aceso, deixava o morrão de cinza alongar-se até cair naturalmente onde quer que fosse, ou sacudia-o violentamente quando a proximidade da incandescência lhe queimava os dedos. Certa vez, a anestesia alcoólica impediu-o de se dar conta disso; a queimadura provocou duas grandes bolhas entre os dedos indicador e médio, a que não pareceu dar importância.
As tonturas que o assolavam deram origem a uma das suas máximas mais recordadas. No silêncio da noite, às voltas com as duas últimas cervejas, o desconforto da vertigem provocada pelo excesso de álcool tornou-se óbvio. Remexendo-se na cama ao meu lado, soltou mais uma das suas saídas humorísticas; como se delicadamente culpasse a cama do desconforto, balbuciou num lamento quase suplicante:
- Dona cama, por favor, deixe de ser rotativa.
Creio que adormeceu pouco depois. A respiração pausada e profunda assim o fazia supor.
Mas o Neto não lutava apenas com a cerveja. Declarara guerra aos mosquitos e parecia óbvio a toda a gente que as melgas estavam a ganhar. Ainda assim, insistia em dispensar a rede mosquiteira e como normalmente tinha dificuldade em se despir, era frequente adormecer vestido, esticado sobre a cama. A verdade é que não me lembro de o ver armar a indispensável rede que nos protegia dos vorazes insectos.
- Se me picarem, embebedam-se.
Brincava, consciente da elevada quantidade de álcool que circulava no seu sangue.
Outras vezes, insistia que as melgas eram naturalmente afastadas pelos vapores alcoólicos que exalava.
Um dia, talvez vencido pela bebedeira, deixou-se cair na cama de qualquer forma. Adormeceu do avesso que é como quem diz, com os pés para a cabeceira e a cabeça para os pés. Acordou na manhã seguinte, eufórico, rindo-se sozinho. Sem que percebêssemos de imediato o que se passava, exclamou:
- Ah! Ah! Ah! Enganei-as!
E insistia referindo-se às melgas.
- Enganei as gajas! Queriam picar-me a cabeça, mas apenas encontraram os pés.
Certa noite, um grilo resolveu assentar arraiais no nosso dormitório não deixando ninguém dormir com o seu cantar estridente. O Neto deu-lhe caça, jurando comê-lo mal o tivesse a jeito. Com persistência e alguma paciência, conseguiu por fim apanhá-lo. Era um bicho enorme, de cor esbranquiçada em contraste com o negritude normal de qualquer grilo. Mirou e remirou a estranha criatura e, encenando uma espécie de reprimenda, sentenciou:
- P´ra cantares tão mal, tinhas que ser branco!
O Neto era assim; ao mesmo tempo que brincava com a sua dependência alcoólica e consequentes gafes, insistia em desafiar a ferocidade do mosquitame e surpreendia-nos com o seu humor inteligente. Mesmo na mata, durante as operações, a cerveja continuava presente. Chegou a pagar do seu bolso a carregadores para lhe transportarem a cerveja que considerava não poder dispensar.
Mas havia períodos de lucidez, não obstante estes se confinarem à primeira metade da manhã e pouco mais, ou então durante o tempo em que estivesse fora, participando em operações e por isso, com acesso limitado à cerveja. Aliás, tudo dependia da quantidade de álcool que ingeria e é preciso ter em atenção que, para o Neto, meia dúzia de cervejas era coisa pouca.
Aos poucos fomos descobrindo as diversas facetas da sua rica personalidade. Para surpresa de alguns, o Neto revelava-se acima da média, estejamos a falar do ponto de vista cultural ou intelectual. O seu jeito para a escrita e os visíveis conhecimentos literários e não só, eram disso sinais mais do que evidentes.
A tudo isso juntava a sua fértil imaginação, animando os dias pastosos e monótonos onde só de vez em quando acontecia alguma coisa diferente. Ficou na memória de todos o jornal de parede que criou. E o mais interessante é que apenas ele escrevia, desempenhando o papel de jornalista solitário.
Fosse como fosse, a verdade é que se criou o hábito de diariamente não se dispensar a leitura das notícias, movidos mais pela curiosidade de descobrir, em cada dia, os acontecimentos sensaborões que haviam merecido a atenção jornalística do Neto. Interessante era ver a forma inteligente como coloria com textos bem conseguidos os corriqueiros momentos a que não dávamos importância e que, na sua maior parte, passavam despercebidos à maioria.
O tempo que o Neto esteve connosco constituiu um marco e impôs naturalmente uma etapa bem delimitada na nossa estada por aquelas bandas, marcando pontos e ganhando amizades. Aquele negro que nos saiu na rifa passou a ser o principal centro de interesse, contribuindo para colorir e apimentar a monotonia dos nossos dias. E pelas melhores razões.
Da sua faceta de indisciplinado, não vimos sinal, a menos que se tivesse regenerado na sequência da porrada que levou, hipótese que não me parece adequada. Não me parecia fácil dobrar o Neto por essa via. Mas na verdade, nunca o vi sequer refilar quando era incumbido de qualquer tarefa ou missão, por mais desagradável que fosse. Dessa sua tendência para o incumprimento da rígida disciplina militar, apenas sobressaía o seu sarcasmo à mistura com a forma desleixada como misturava o fardamento com peças de roupa desalinhada, compondo, com uma barba mal semeada e nunca tratada, o ramalhete da informalidade e do pouco cuidado que dispensava à sua figura.
Já não nos acompanhou quando nos mudaram para as Mabubas. Ao comandante da companhia, fora remetido pelas instâncias militares, um conjunto de documentos oficiais que ditavam a sorte que a disciplina militar lhe reservou. Afinal o que quer que tenha feito, lá no sítio de onde veio, deveria ter sido mesmo grave. A pena aplicada, para além da sua transferência para a Neriquinha, incluía a despromoção a soldado raso, o que trouxe mais um problema administrativo ao nosso primeiro - pelos vistos, a despromoção parecia ter sido aplicada com efeitos retroactivos o que implicava ter de devolver os ordenados que já recebera como furriel.
Não sei se o fez, ou como fez, apenas me lembro de o ver partir, carregando as suas coisas, mas já sem divisas sobre os ombros.
O soldado raso, ex-furriel Neto, abandonava-nos definitivamente. Nunca mais soubemos dele, mas as histórias das suas máximas, dos seus tiques e meneios, do seu humor inteligente, sarcástico e mordaz, foram recordadas, contadas e recontadas até à saciedade. Ainda hoje são relembradas.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Saída para a mata

A saída para a mata, implicava um quase ritual de preparação.
Eram as últimas instruções, a revisão do plano, a verificação do equipamento, do armamento, o arrumo das latas da ração de combate e finalmente subir para as berliets e partir.
Estas imagens recordam um desses momentos. Neste caso, o 4º pelotão partia para mais uma missão. Não recordo o nome da maioria e até algumas caras já me parecem estranhas, mas reconheço o Alferes Aranha, o furriel Mota, o cabo enfermeiro Chiquinho e ainda o soldado Duarte que, bem se pode dizer, foi o responsável pelo início dos reencontros anuais da companhia que se mantêm há muitos anos.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A resistência de um GE

Na guerra colonial em qualquer dos territórios das antigas províncias ultramarinas, o exército português contou sempre com o apoio de grupos recrutados entre a população nativa.
O objectivo era óbvio. Envolver as populações no esforço de guerra e dar-lhes importância eram formas de arregimentar homens que, a não ser assim, poderiam engrossar as hostes dos guerrilheiros.
Para nós, que andávamos no terreno, a importância destes grupos não se esgotava na vertente política e de acção psicológica; era mais do que isso. Não sendo militares formados com o rigor de um exército, apresentavam fragilidades ao nível operacional, mas constituíam uma mais valia importante, designadamente porque conheciam o terreno, movimentavam-se na mata com desenvoltura por largos dias e eram quase auto-suficientes. Conhecedores dos segredos da savana, sabiam onde arranjar alimento, quase dispensando a ração de combate e eram capazes de, com muito menos esforço, vencer distâncias em menos de metade do tempo do que as nossas tropas.
Na verdade, a sua existência era primordial. Poupavam-nos a uma parte das operações esgotantes, aliviando o nosso esforço e constituíam guias de confiança no meio de um terreno isento de pontos de referência onde era fácil perdermo-nos.
Aos elementos destes grupos, denominados GE’s, (Grupos Especiais) era atribuído um ordenado, disponibilizado fardamento e entregue armamento o que, naqueles locais, constituía por si só, razão suficiente para convencer elementos da população a integrarem estas tropas por tempo indefinido.
O grupo da Neriquinha não era muito numeroso. No todo, talvez o equivalente a um pelotão, mas eram suficientes para levarem a cabo missões militares com alguma importância.
Fulai Monjuto era o seu comandante, incumbência que levava muito a sério, impondo aos seus homens disciplina e padrões de comportamento que considerava adequados a tropas. Para além disso, era pessoa de quem se gostava. Fiel ao seu ideal, optara pelo nosso lado por convicção própria, creio, e não porque um qualquer discurso mais bem elaborado o convencera. Acima de tudo era alguém em quem se podia confiar.
No outro lado da barricada um grupo de guerrilheiros movia-se entre território angolano e as suas estruturas de suporte na Zâmbia, atravessando a fronteira através de caminhos que cruzavam a chana do Cuando e que procurávamos controlar. Operavam algures na savana imensa da Quirongosa lá para os lados de Mavinga, em bases móveis suficientemente afastadas e difíceis de localizar. O seu comandante, dizia-se, dava pelo nome de Kuenho e constava que seria um irmão, ou meio-irmão, do Fulai.
Contudo esse parentesco nada representava em termos de afinidade ou afectividade. Por ali, os guerrilheiros consideravam os GE’s traidores à causa e falava-se do ódio visceral que nutriam uns pelos outros.
O Kuenho e os seus homens já tinham sido acossados por diversas vezes em operações levadas a cabo por grupos de comandos, chegando a constar que o seu comandante tinha sido abatido numa das incursões feita pelo capitão Vítor Alves quando comandou a Companhia da Neriquinha, um par de anos antes de nós. Mas não havia certezas de que isso fosse verdade.
Parece que o grupo se tornou mais activo do que seria de desejar, facto que terá determinado a preparação de uma grande operação visando controlar os seus movimentos e anular a operacionalidade que vinha manifestando.
Dessa demanda não conheço pormenores, já que as justificações para as operações e forma como eram preparadas ficavam sempre nos segredos dos gabinetes das altas patentes. A nós, apenas competia executá-las sem refilar e sem fazer perguntas e normalmente sem se saber ao que íamos.
A verdade é que foi preparada uma operação envolvendo parte significativa dos efectivos das companhias da Neriquinha e Mavinga incluindo os respectivos grupos de GE’s, operação levada a cabo com grande aparato e estratégia meticulosa de progressão no terreno que deveria bater parte da imensa savana da Quirongosa e um largo troço das margens do rio Toss. Assim, a força foi dividida em dois grupos: um, constituído pelos GE’s e outro, pelo conjunto do pessoal da 3441 e da companhia de Mavinga. O objectivo seria bater o máximo de área possível, encontrar infra-estruturas do inimigo, destruí-las e pelo caminho recolher indícios da sua actividade.
Parece que esse desiderato não foi atingido, já que nem sinais dos guerrilheiros, o que não constituía surpresa. Numa área tão imensa e incaracterística, tinham toda a vantagem a começar pela sua resistência passando pelo conhecimento do terreno e acabando nas suas aptidões inatas de subsistência e sobrevivência.
Mas não andavam longe. Pelos vistos resolveram ignorar a tropa e, sem se fazerem notar, seguir na peugada dos GE’s. Ou então a descontracção e excesso de confiança dos GE’s, talvez resultante dos muitos anos que levavam naquelas andanças sem que tivessem sofrido dissabores graves, deixava-os descontraídos, talvez de mais. Ao fim da tarde, aportaram à chana que ladeava o rio que por ali corria. Já o conheciam como um lugar aprazível, ideal para descansar e pernoitar.
Largaram os equipamentos por aqui e por ali, abandonaram as armas pelo chão ou encostadas às árvores, descalçaram-se, despiram-se e correram para a fresquidão da água para se livrarem do pó que se colara ao suor do corpo.
O grupo do Kuenho esperou pela melhor oportunidade e no exacto momento em que a descontracção era total, despejaram todo o seu poder de fogo sobre os GE’s que, estando em campo aberto e sem o que quer que seja onde se pudessem proteger, foram caindo um após outro sob o fogo intenso do inimigo sem a mínima oportunidade de chegarem às armas abandonadas a escassos metros.
A tarde calma tornou-se rapidamente num inferno cruzado por balas vindas de todos os lados contra GE’s seminus e descontraídos. Encurralados, desorientados e desarmados, procuraram a fuga sem sentido ou lógica por entre a impiedosa metralha. Correram pela mata sem olhar para trás. Os primeiros chegaram a Mavinga algumas horas depois, sem roupa, sem ânimo, sem nada, quase mortos de cansaço, derrotados até ao mais profundo dos seus sentimentos. Para trás, prostrados no terreno, ficaram os corpos dos que não conseguiram escapar.
No dia seguinte, uma missão de resgate, com ajuda da força área, contou treze mortos. Quatro eram do grupo da Neriquinha entre os quais o do seu comandante. O corpo de Fulai Monjuto jazia, crivado de balas, muito mal tratado, a evidenciar a fúria, a raiva vingativa e o ajuste de contas dos seus conterrâneos que militavam no outro lado da barricada.
Mas havia um quinto elemento do grupo do Fulai. Seminu, ensanguentado, apresentava feridas de bala por quase todo o corpo. Pelos vistos nenhuma atingira um órgão vital. Inanimado terá sido dado como morto pelo inimigo. Sobre a madrugada, o frio do cacimbo despertou-o, mas estava demasiadamente ferido para se mover. Um helicóptero levou-o para Serpa Pinto, sem grandes esperanças. Na altura parecia impossível ainda estar vivo. Mas, contra todas as previsões, recuperou.
Falei com ele quando regressou à Neriquinha passada a fase da convalescença. Falava pouco. Como resposta às nossas perguntas apenas sorria e despia a camisa para mostrar as cicatrizes. Era impressionante a forma como o seu corpo ficou marcado. Mesmo que não tenha sido atingido num órgão vital, o que só por si parecia impossível, não era crível que um ser humano pudesse ter resistido a tanto. O GE tinha certamente uma estrelinha protectora ou então um anjo-da-guarda muito influente.
Quanto ao Kuenho, soube-se mais tarde que uma operação mais bem sucedida, levada a cabo já depois de termos saído do Cuando Cubango, logrou abatê-lo. Parece que hoje é um herói angolano. Dizem que existem várias escolas e alguns monumentos que foram baptizados com o nome “Comandante Kuenho”. Creio que apenas o pessoal da 3441 se recorda do Fulai Monjuto. Boas recordações certamente. Contudo, nenhum se lembrará sequer onde foi sepultado. Onde quer que tenha sido, para lá ficou sem epitáfio, honrarias ou reconhecimento por parte da causa que serviu.