quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Do mar às Terras do Fim do Mundo

Ao fim de nove dias a lutar contra o grande oceano, o Vera Cruz estava de novo imóvel, bem agarrado ao cais de Luanda, tal como o havíamos encontrado à partida, em Lisboa. Não obstante esse facto, continuava estranhamente a sentir o balançar a que quase me habituara, sensação que se manteve por algum tempo, mesmo quando em terra firme.
Por razões de logística, continuaríamos hospedados no navio até à manhã do dia seguinte, sendo bem vinda a dispensa concedida, que provocou uma autêntica debandada, ficando o Vera Cruz em sossego durante o resto do dia.
Apresentei-me à cidade, percorrendo sem pressa toda a marginal que, partindo da zona portuária, parecia desaparecer ao longe, apontando o centro da cidade, espraiando-se como se desenhasse a compasso o suave arco que definia o contorno da baía, impondo-se decidida e caprichosamente sob a sombra de fileiras de esguias palmeiras, geometricamente alinhadas. Debruçados sobre o passeio, no lado esquerdo, mirando a ilha, uma correnteza de edifícios altaneiros conferiam uma imagem de modernidade e fulgor, de entre os quais, o edifício do Banco Comercial de Angola que, erguendo-se majestosamente bem acima dos demais, exibia lá no topo a sigla BCA, a que alguém, com graça e imaginação, atribuíra outro significado. Bai Continuar Ainda, era uma referência à sua altura, especialmente quando comparada com os restantes edifícios da cidade.
A curiosidade óbvia, associada ao ar aprazível da avenida, retardou o passo, adiando o encontro com o coração da cidade cheia de vida e animação. O movimento das ruas, as pitorescas esplanadas estrategicamente montadas à sombra de frondosos jacarandás, frequentadas em permanência por cauteleiros, engraxadores e cambistas apregoando condições vantajosas no câmbio de escudos portugueses por angolares, a animação, o barulho dos aparelhos de ar condicionado que equipavam qualquer estabelecimento - já que o calor não se anulava com uma simples sombra ou soprar de ventoinhas - compunham um cenário bem africano e estranhamente luminoso. A cerveja fresca, bem tirada e servida numa das esplanadas onde abanquei, acompanhada de saborosos camarões oferecidos em vez do tradicional tremoço, juntavam-se à sede a exigir outra rodada. Fiquei na dúvida se a oferta dos camarões era gentileza da casa, ou se, por ali, o camarão era mais barato que o tremoço.
O desembarque formal, após a derradeira noite a bordo, deu início a uma nova etapa de uma viagem, ainda longe do fim, com o transporte para o Grafanil num estranho e indolente comboio, que nos transferiu para outra realidade, diferente, quente, colorida, porém não exótica e muito menos requintada. Cheiros até então não experimentados, davam-nos a conhecer fragrâncias exóticas numa mistura desconhecida de dem-dem fresco com o intenso perfume dos mangais, conluiando-se num desafio aos nossos sentidos olfactivos, à medida que o comboio rolava por carris que pareciam de brincar, contornando a urbe desde o porto e transmi-tindo uma ideia peculiar da cidade. A Luanda que passava perante os meus olhos, era marginal, diferente da que visitara no dia anterior. Em vez de prédios, tinha barracões, cubatas e putos seminus, com pele da cor da terra avermelhada que, numa correria desigual, tentavam competir com a marcha do comboio. Uma ou outra bananeira, que a ilusão da marcha projectava para trás, era motivo de espanto. A maior parte dos que agora chegavam nunca tinha visto uma. E também os cocos, encastrados lá no alto entre as folhas das palmeiras ou as mangas caprichosamente dependuradas de grandes árvores frondosas, vergando os ramos sob o seu peso. E os mamoeiros com os seus enormes frutos pendentes, mais alongados do que as papaias que eu conhecia.
Esta espécie de letargia foi interrompida pela chiadeira que antecedeu a paragem do comboio, anunciando a chegada ao Grafanil, um entreposto militar a lembrar Santa Margarida, local de passagem das unidades para o interior, onde apenas estivemos o tempo suficiente para receber as armas (G3 novinhas em folha) e demais equipamento: cinturão, cantil, cartucheiras, carregadores, respectivas munições e porta granadas. Enfim, o suficiente para ficar convencido que ia para a guerra.
De manhã, bem cedo, o sol ainda não despontara, arrumados em camiões de carroçaria entaipada, partimos em direcção ao sul. Neriquinha, sabíamos agora, era o nosso destino, um ponto no mapa a sueste, bem junto à fronteira com a Zâmbia. A curiosidade levou-nos a calcular a distância. Dois mil quilómetros em linha recta, mais coisa menos coisa, numa diagonal desenhada desde Luanda.
O nascer do dia revelou a linha escura de asfalto que, abrindo-se ao avanço das viaturas, desenhava uma estrada feita de rectas infindáveis, num percurso ondulante, ladeado de viçosa vegetação alimentada pelas chuvas tropicais da época, deixando ver parcelas de terra de um vermelho acastanhado forte, onde aqui e ali, grupos de negros aravam culturas de subsistência.
Era já noite quando alcançámos Nova Lisboa. Arrumados numas instalações militares nos arredores da cidade, dali saímos, a meio da manhã seguinte, em direcção à estação do caminho-de-ferro, após uma noite mal dormida, mas prontos para a próxima etapa que seria feita de comboio, inflectindo ligeiramente o sentido do percurso de sueste para leste.
Levados com antecedência para a estação, por ali andámos, aguardando o momento da partida, numa espécie de habituação às relíquias ferroviárias dos Caminhos de Ferro de Benguela, enquanto a máquina a vapor ia devorando lenha, como que ganhando forças para rebocar uma infindável fila de carruagens e vagões que lhe tinham sido atrelados, numa prévia concentração para mais uma ligação entre a capital do Huambo e a longínqua cidade do Luso, atravessando uma zona que se dizia infestada de terroristas, o que gerou nervosismo e alguma apreensão. A eventualidade de um ataque durante a viagem, levou-me a, disfarçadamente, esquadrinhar a carruagem, dedicando maior atenção ao pormenor dos recantos da cabine onde me instalei, à procura de refúgio ou protecção para as balas que pudessem por ali passar.
Rapidamente me apercebi que a carruagem não exibia qualquer buraco, maleita ou sinal de que alguma vez tivesse estado debaixo de fogo, concluindo que a frequência dos ataques ao comboio era treta, não passando provavelmente de histórias para amedrontar maçaricos recém-chegados.
Fiquei mais tranquilo, especialmente depois de saber que, na frente do comboio, abrindo caminho, com alguma distância, seguia uma máquina rebenta minas, preparada para accionar qualquer engenho explosivo que tivesse sido colocado na linha. Mesmo assim, o temor de algum desses artefactos poder ser accionado por controlo remoto e logo, não anulável pelo estratagema do rebenta minas, deixou-me uma réstia de apreensão que me levou a explorar melhor os canais de fuga, designadamente as janelas ou a localização exacta das portas. Pareceu-me que, em caso de necessidade, seria mais fácil encontrar um abrigo mais seguro fora do comboio, num qualquer buraco ou atrás de um tronco que por ali pudesse existir.
A viagem decorreu monótona, como monótona era a paisagem que, com o coração em sobressalto, os olhos vasculhavam de longe à procura do improvável inimigo, na inútil tentativa de identificar movimentos suspeitos para lá do verde incerto da vegetação que pudesse acoitar o atacante. Mas nada. Nem gente, nem movimento. Nem casario ou cubata. Nem estrada ou picada, vereda ou trilho que pudesse ser percorrido por quem quer que fosse. Pelo menos, da estreita janela da carruagem, não se divisava nada que pudesse constituir ameaça. O cair da noite determinou uma paragem na estação de Silva Porto, permitindo uma incursão pelo casario do povoado. Mas, naquele local, a noite tornava desertas as escassas ruas, pelo que o regresso ao comboio foi a decisão mais acertada, cada um procurando algum descanso numas horitas de sono, no desconforto disponível.
Ainda era noite quando a máquina reiniciou a sua missão de reboque, parando finalmente resfolegante, como que exausta, na estação da cidade do Luso, aí nos entregando, sãos e salvos, quase trinta horas após a saída de Nova Lisboa.
A paragem no Luso foi efémera, já que, no local de destino, os mais de 150 homens que iríamos substituir, aguardavam ansiosos a rendição. Os derradeiros quilómetros da jornada seriam feitos por via aérea, a bordo de uma aeronave até então desconhecida, pelo menos para mim. O Nord Atlas, concebido fundamentalmente para transporte de carga e lançamento de tropas pára-quedistas, teria de fazer várias viagens, levando uns e trazendo outros na volta, já que havia que rentabilizar meios e a lotação das instalações na Neriquinha era limitada.
O meu pelotão, que fora incumbido de fazer a rendição do destacamento no Rivungo, integrou a primeira leva, juntamente com os especialistas a quem competia receber, da companhia rendida, equipamentos, material de guerra, viaturas, tachos, panelas e géneros, para além de outros artigos, artefactos, utensílios e quejandos que por ali existiam, constituindo uma multiplicidade de coisas difíceis de imaginar.
Com algum receio, não sei se maior se menor, mas certamente diferente do que sentira ao acomodar-me no comboio em Nova Lisboa, tomei lugar num dos assentos de lona presos longitudinalmente à barriga do Nord, que levantou voo, no meio de um barulho ensurdecedor, num esforço para arrancar do solo toda aquela fuselagem recheada de vários contrapesos, iniciando uma viagem que ficou até agora gravada na memória. Num sacudir permanente, ora por efeito da trepidação dos motores, ora pelas manifestações atmosféricas e outros fenómenos similares, dava a estranha sensação de que viajávamos num qualquer veículo todo o terreno, percorrendo uma estrada esburacada que, não permitindo sequer a veleidade de um enjoo, ora pairava a alturas consideráveis ora, descendo abruptamente, rasava a copa das árvores, num arrepiante teste à nossa resistência, sobre uma paisagem de um verde desigual.
Durante todo o percurso, não se viram povoações, construções ou outro sinal de vida, ficando a desagradável impressão de que voávamos com destino ao fim do mundo, como que a conferir validade ao nome pelo qual era conhecida a província do Cuando Cubango.
De repente, no meio da paisagem plana, surgiu um minúsculo espaço, constituído por meia dúzia de barracões que, vistos lá do alto, pareciam ruínas desertas, não se divisando mais nada em redor, pelo menos até onde a vista alcançava. O coração bateu forte quando me apercebi que a Neriquinha era aquilo: o nosso destino e morada durante os longos meses que se seguiriam. Pensei que, mesmo sem guerra, deveria ser traumatizante viver ali. Se a isso juntarmos, a distância a que estávamos da civilização, o stress do isolamento, o temor do desconhecido e da eventualidade de um ataque, não andaríamos longe da definição de inferno. Estranho é que, volvidos alguns meses, passei a ver tão inóspito local como um lugar aprazível, familiar, de certa forma agradável. O homem, de facto, é um ser sensacional - habitua-se aos lugares onde tem de viver, mesmo que isso pareça impossível.
O Nord aterrou finalmente na pista de terra batida de cor avermelhada, que corria paralela à cerca de arame farpado que delimitava o local, no meio de uma nuvem de pó vermelho levantado pelo rodopio das hélices, imobilizando-se em frente do que parecia ser a entrada daquele espaço, ocupado por meia dúzia de barracões cobertos com folhas de zinco e que constituíam, não só as instalações militares, mas toda a localidade a que chamavam de Neriquinha. A recepção que nos foi dispensada, pela sua peculiaridade e que eu interpretei como um “estão lixados”, deixou-me preocupado, especialmente depois de reparar numa pequena placa de madeira, rudimentar, estropiada, apontando uma direcção indefinida. Continha a inscrição: Lisboa 13999 Km.

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