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domingo, 1 de novembro de 2015

As armadilhas da chana II

Muito haveria ainda para dizer sobre as particularidades das chanas do Cuando Cubango. Será talvez mania minha insistir nisto mas, a verdade é que ainda recordo, quase em detalhe, aquelas imensidões que nem o arvoredo se atreve a incomodar. Começando num verde luxuriante no pico da época das chuvas, aquelas cearas de capim viçoso, mudam de cor ao sabor dos equinócios, esmaecendo num processo que as vai matizando lentamente de amarelos tímidos até adquirirem aquele ocre de restolho seco que enegrece por efeito das grandes queimadas, voltando a rejuvenescer com as primeiras águas da época seguinte. É uma natureza que, morrendo pelo fogo, renasce das cinzas, exuberante e pujante como se o fogo lhe conferisse vitalidade.
Eram estas mesmas chanas que, formando uma intricada e caótica sucessão de espaços impossíveis de contornar, se interpunham no nosso caminho, dificultando o andamento das viaturas, como se, resistindo, se procurassem vingar da nossa intromissão que, bem se pode dizer, profanava a quietude daquele mundo selvagem, sobrepondo-se ao suave murmúrio do roçagar do capim embalado pela brisa amolengada por força do calor sufocante que chegava a calar o cucuritar das rolas empoleiradas no esparso arvoredo circundante. O facto é que, para se ir a qualquer lado, não havia forma de seguir em frente sem as atravessar já que, a tentativa de as contornar aumentava a distância e não se resolvia a questão. Podia-se evitar atravessar uma chana, mas caía-se necessariamente no meio de outra.
Com o tempo, aprendemos a conhecê-las, especialmente as que se atravessavam no caminho que nos levava ao Rivungo, local onde, para além da Marinha, da PSP e da PIDE, existia um destacamento da companhia da Neriquinha. Explica-se assim porque se conhecia bem aquele caminho de longo tracto.
Cruzávamo-lo com frequência, não só pela necessidade de manter a ligação com os nossos que lá estavam como, também, pelo facto de constituir a única via para o reabastecimento da tropa, dos marinheiros, dos polícias e das estruturas administrativas ali existentes, sem deixar de lado a população dos kimbos que se encontravam nas imediações.
Trilhar aqueles caminhos era uma aventura; por muitos cuidados que se tivesse e por muito que se pensasse que já se sabia tudo, acontecia sempre algo de inesperado. Sair da Neriquinha em direcção ao Rivungo tinha horários de partida mais ou menos estabelecidos mas, a hora da chegada, embora estimada, nunca era uma certeza. No regresso, a história era a mesma. Um dia, o desagradável aconteceu comigo; na ida, tudo correu dentro do previsto mas, no regresso, quando o pior já ficara para trás, as duas berliets enterraram-se nos lamaçais das chanas do Cúbia quando ainda o sol mal tinha acabado de despontar. Só dali conseguimos sair ao fim do dia, já noite cerrada, depois de muito trabalho e a ajuda preciosa que entretanto veio da Neriquinha em nosso socorro.
É verdade, cruzar aquela savana exigia muito cuidado e a escolha criteriosa do trilho por onde se rolava. Retenho gravada na memória a imagem daquela chana que antecedia o kimbo do Lihaona. Não havia forma de lá chegar a não ser seguindo pelo troço de picada enlameada que a cruzava. A situação foi sendo resolvida colocando transversalmente uns troncos de árvore os quais, com o passar das viaturas, se foram enterrando na lama, conferindo a consistência necessária. Mas isso obrigava a que ali se passasse muito devagar num permanente bamboleio com os pneus mastigando a lama e resvalando nos troncos escorregadios, castigando a estrutura das viaturas e os ossos de quem lá ia.
O episódio que agora recordo e a que, felizmente não assisti, faz parte da história da companhia e desenrolou-se naquele bocado pouco consistente que ligava os kimbos do Liahona e do Mugamba. Enquanto durava a estação seca, a picada que por ali serpenteava secava e endurecia. Com o tempo e o passar frequente das viaturas, foi ficando compactada e adquirindo consistência. Quando as chuvas regressavam e as areias abeberavam de água, aquele bocado de caminho ficava submerso mas, ou porque já estivesse suficientemente endurecido ou por qualquer outra razão que não sei explicar, permanecia com a consistência necessária para as viaturas poderem passar sem atascar, desde que se rodasse muito lentamente e não se desviassem nem um nadinha de nada do traçado da picada submersa.
Até que, um dia, por razões que me não chegaram, o pior aconteceu. Parece que, por culpa involuntária de alguém, talvez à mistura com um quanto baste de excessiva confiança e complementado com um bom bocado de imprudência e uma pitada de má sorte, o condutor de uma berliet desviou-se do traçado submerso da picada. Ainda que o desvio tivesse sido ligeiro, patinou, enterrou-se na lama e imobilizou-se. Tentou fazer marcha atrás, usou dos truques que entretanto a experiência já lhe ensinara para sair do atoleiro, mas tudo foi em vão. A viatura quedou-se, ali, submissa, presa na lama. Cortaram árvores, fizeram fustes, escavaram, empurraram, puxaram, usaram os macacos hidráulicos, desenvolveram teorias e fizeram experiências. Mas nada resultou. A noite fez descer o seu manto negro, os mosquitos atacaram em força, o cansaço tomou conta de todas e a viatura continuou queda e muda, presa no amplexo peganhento da lama.
Vieram reforços da Neriquinha, construiu-se um acampamento e por mais de uma semana, desde o nascer ao pôr-do-sol, todos se afanaram nos trabalhos necessários ao desatolanço da berliet, muitos dos quais debaixo de água. Não conheço os pormenores, mas ouvi dizer que quase foi preciso levantar a viatura aos poucos metendo-lhe troncos por baixo.
Quem não ficou contente, foi o nosso comandante, lá no Cuito Cuanavale. Não me admiro nada que tenha descarregado os seus maus fígados em cima do capitão. Na sua forma pouco compreensiva de ver as coisas, certamente entendeu que a culpa, fosse qual fosse, teria sido do comandante da companhia, não obstante este tivesse estado a quilómetros de distância do local

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ATASCADOS


Alguns meses haviam já decorrido desde as últimas chuvas e os grandes lençóis de água que invadiam as chanas tinham recuado até ao curso principal das linhas de água escondidas no meio da vegetação.
O capim começara a amarelecer e o cacimbo tomara conta das noites, cobrindo a savana com uma neblina branca e fria que nos gelava até aos ossos, embora durante o dia se continuasse a sufocar de calor sob a acção impiedosa do sol agora liberto da acção refrescante das chuvas. Tiritava-se de frio durante a noite, destilava-se desde o nascer ao pôr-do-sol, acrescentava-se uma manta à roupa da cama e nas saídas para a mata substituía-se o poncho por umas camisolas grossas.
Começava o tempo das espectaculares trovoadas secas de onde se desprendiam faíscas que, quais cenários dantescos, riscavam o céu, ateavam gigantescas queimadas que consumiam o mato ressequido e pintavam a paisagem de negro cinza, deixando o ar impregnado com um cheiro intenso e obrigando os animais selvagens a abandonar a segurança das matas à cata da erva que apenas se mantinha verde na humidade perene das chanas.
Era o tempo dos contrastes e das suas impensáveis amplitudes térmicas que desorganizava o nosso metabolismo, condicionava o comportamento e baralhava as mentes dos mais susceptíveis.
- Passou-se!
Dizia-se, perante a descoberta do verdadeiro significado do termo cacimbado.
Na mata, os sulcos das picadas até então endurecidos pela acção das chuvas, apresentavam-se agora como regos de areia seca, solta, sem consistência, onde os pneus das viaturas se enterravam dificultando a marcha e exercendo um efeito arrasador no material. Inversamente, as picadas que corriam junto às chanas ou que as atravessavam, emergiam da lama pantanosa, secavam e endureciam tornando-se transitáveis, situação que brevemente iria experimentar já que fora incumbido de chefiar mais uma missão de reabastecimento ao Rivungo e kimbos existentes no percurso.
As duas berliets foram carregadas com cerveja, refrigerantes, tabaco, géneros alimentícios vários e outras tralhas, para além de dois bidões que tinham lugar cativo sobre cada uma das viaturas: um com gasóleo e outro com água para alimentar a sede permanente dos radiadores.
Como de costume, partimos a meio da madrugada começando o dia a clarear já por alturas das pontes do rio Cúbia, que nesta altura do ano se transformara numa espécie de charco escondido no meio do descampado entre os caniços e o capim amarelecido.
Dali até ao Liahona, a picada tinha vários traçados, uns atravessando a chana, outros serpenteando por entre as árvores. A escolha de qual seguir dependia da época do ano. Durante as chuvas, as chanas transformavam-se em zonas pantanosas, sendo mais seguro utilizar os percursos que trilhavam caminho seco. Mas no tempo do cacimbo a areia solta era um martírio para os motores sendo preferível o caminho das chanas.
Escolhemos o percurso da mata, mais lento e sinuoso, já que o convidativo trajecto pela chana ainda não nos merecia confiança. Afinal as águas só há pouco tempo haviam desaparecido e não nos pareceu que já tivesse decorrido tempo suficiente para que secassem convenientemente, ganhando a consistência necessária.
Fosse como fosse, o percurso correu sem incidentes de maior, atingindo-se o Liahona por volta de meio da manhã, sob um calor tórrido que a ausência de chuva tornava ainda mais insuportável.
O Liahona, mais ou menos a meio caminho do Rivungo, era para nós como uma espécie de entreposto. Por breves minutos descansava-se o corpo, dava-se uma folga aos motores das berliets e lavava-se o pó da garganta.
Disso se encarregava o Alexandre, um guarda da PSP ali colocado e com quem, durante o tempo em que estivera no Rivungo, consolidara uma amizade séria. Assim que divisava as viaturas a aproximarem-se na orla da mata, preparava duas cervejas e com uma em cada mão, aguardava-nos resguardado à sombra do beiral de colmo da cubata que constituía as instalações que ocupavam.
- Bom dia.
Saudou efusivamente ao mesmo tempo que me estendia uma das garrafas.
- Parece que está calor!
Brincava, perante a sofreguidão com que, de um só golo, engoli o líquido.
- Estas cervejas são as mais saborosas que alguma vez bebi.
Retorqui.
- Olhe que não as fabricamos cá … são vocês que as trazem.
Gracejou ao mesmo tempo que me entregava a segunda cerveja recebendo de volta a garrafa vazia da primeira.
De facto, nunca antes uma cerveja me soubera tão bem como aquela. Não estava nem fria, nem quente. Na circunstância, depois de horas debaixo de um calor de fornalha, a cerveja transformara-se num néctar delicioso. Simplesmente perfeita.
Naquele sítio não havia frigoríficos. O sistema de refrigeração consistia numa barrica enterrada no solo, num local à sombra, que se enchia de água e carvão vegetal, mergulhando-se ali as cervejas. Retinha o frio da noite e nunca aquecia durante o dia.
A verdade é que a cerveja caiu como uma bênção, limpando a garganta ressequida e dissolvendo a saliva pastosa que quase colava a língua ao céu-da-boca.
Enquanto se descarregavam os mantimentos encomendados, conversava com o Alexandre à sombra do avançado da cobertura de colmo da cubata, degustando a cerveja e pondo em dia as novidades.
- Como está a picada até ao Mugamba? Inquiri.
- A população que ali passa todos os dias diz que está seca. Retorquiu.
O troço da picada que antecedia o Mugamba costumava estar alagado no tempo das chuvas. Passar por ali exigia perícia e muito cuidado, já que o trilho endurecido estava submerso. Viatura que saísse do seu curso atolava. Duas berliets estiveram ali atascadas durante dez dias, tendo sido preciso meio grupo de combate, muita imaginação, perícia e trabalho árduo para as tirar dali. Mas essa é outra história.
Feitas as despedidas com um simples até amanhã – na volta passaríamos de novo por ali – seguimos caminho em direcção à picada que, não estando propriamente seca era bem visível, tendo-se chegado ao Rivungo sem problemas, no horário previsto, depois das paragens obrigatórias no Mugamba e no Demba para mais umas cervejas, um pouco de conversa e entrega dos víveres encomendados.
Mas no regresso, as coisas não iriam correr tão bem. Percorrido já mais de metade do percurso de volta e deixado o Liahona para trás, despontámos no início das planícies do Rio Cúbia por volta de meio da manhã. Dali à Neriquinha era um saltinho, esperando-se lá chegar a tempo do almoço.
A picada que corria pela chana convidava a seguir por ela, especialmente porque na ida nos convencêramos de que já estaria perfeitamente seca e transitável.
- Vamos por aqui, furriel. Anunciou o condutor.
E sem esperar anuência, tomou o caminho que evitáramos à ida, logo seguido pela segunda viatura.
A decisão pareceu acertada. Libertos da resistência da areia solta, atingimos velocidades razoáveis e coisa rara, até foi possível, uma vez ou outra, engrenar a quarta velocidade. Àquele ritmo, rapidamente estaríamos debaixo do duche e bem a tempo do almoço que sabíamos estar à nossa espera.
Mas não seria assim. De repente, uma pequena depressão surge no trilho da picada. Parecia ter sido obra de um animal, provavelmente um javali. Costumavam escavar na terra húmida das chanas.
O condutor aconchegou o travão reduzindo a velocidade e desviou-se do buraco saindo ligeiramente do percurso. Foi o suficiente. Quando retomava o trilho, uma zona menos consistente cedeu, enterrando um dos pneus da frente. Com cuidado, guinando o volante, procurou que o pneu encontrasse terreno firme. Mas a manobra não resultou enterrando-se ainda mais. Engrenou a marcha-atrás tentando sair do buraco. Sem resultado. Uma segunda tentativa agravou mais a situação.
Felizmente havia a segunda viatura e estava ali mesmo atrás. Podíamos utilizá-la como reboque e sair dali para fora.
Saltámos das viaturas, lançamos mãos à obra e lá amarrámos a viatura de trás à da frente. O condutor engrenou a marcha-atrás e iniciou a manobra soltando a embraiagem devagar, com cuidado, doseando o acelerador de forma a evitar que resvalasse. A princípio a viatura atascada abanou, mas só isso. A resistência oferecida fez com que o terreno falsamente firme começasse a ceder quase deixando, por sua vez, a segunda viatura enterrada.
Desistiu-se da opção. Agora, o mais importante era libertar a segunda viatura, o que não foi difícil. Com efeito, desatrelada da da frente e liberta da resistência que esta oferecia, a viatura arrastou-se marcha-atrás, com alguma relutância, lavrando a terra com os quatro pneus semienterrados, até conseguir alcançar terreno firme.
Avaliámos a situação, estudámos estratégias, excluímos opções e concluímos que talvez resultasse se fosse puxada pela frente. Não se podendo passar por ali, a opção possível era recuar, voltar para trás um bom par de quilómetros, rodear a chana e utilizando a picada da mata, aparecer pela frente.
Tudo parecia correr bem. Não houve problemas na manobra de recuo e rapidamente a berliet desapareceu enquanto o pessoal se agarrava às pás e picaretas, recomeçando a retirar a lama à volta do pneu enterrado enquanto outros, munidos de machados, cortavam umas quantas árvores próximas para ajudar a livrar o pneu da lama que o prendia.
Mas, para surpresa minha, e quando esperava ver surgir a viatura pela frente, uma vez rodeada a chana, vejo-a aproximar-se devagar, como se tivesse desistido de dar a volta. Com efeito, quando já tinha recuado umas duas centenas de metros, o condutor (ou um dos homens que com ele seguiam) reparou que, paralelamente à picada onde estávamos, havia uma outra, pouco batida mas que parecia ser de terreno mais firme. Pelo menos estava mais afastada da parte baixa e corria por sobre uma ligeira elevação, no cimo da qual três ou quatro pequenas árvores, fazendo sentinela ao descampado, pareciam confirmar a consistência do terreno. Assim, pensaram que se seguissem por ali, evitariam dar uma volta tão grande, poupando tempo.
A ideia não era má. Se tudo corresse bem, dentro de quinze a vinte minutos o problema estaria resolvido. Contudo, aquilo que parecia um trilho seco, revelou-se uma armadilha. Logo ali ao lado, o terreno cedeu repentinamente enterrando os quatro pneus de uma assentada.
O desalento apoderou-se de todos. Num momento em que já se contava com o desatascanso, voltámos à estaca zero e agora numa situação agravada.
Pás, picaretas e machados foram de novo chamados à liça, voltando-se agora a atenção para a primeira viatura. Afinal, esta apenas tinha um pneu enterrado e se conseguíssemos tirá-lo dali seria agora esta a rebocar a outra.
Redobrou-se o esforço, cortaram-se mais árvores e definiram-se os ângulos de ataque à lama, convencidos de que agora seria de vez. A ideia era alargar o buraco, descobrir totalmente o pneu e calçar tudo à sua volta com toros de madeira de forma a obter-se uma consistência firme.
Debalde. A berliet negava-se a sair dali e a outra nem hipóteses tinha. Escaváramos à volta dos quatro pneus e entendia-se que seria suficiente um puxão da outra para a retirar da sua prisão.
Mas a tarde foi morrendo, o lusco-fusco tomando assento, as forças desaparecendo e a fome dando sinal nos estômagos vazios de todo o grupo. A noite acabou por cair sem que se tivesse avançado no que quer que fosse, acabando aos poucos por anular a já quase inexistente força anímica. No escuro, escavava-se por instinto e já sem convicção de que o esforço valeria a pena. Felizmente que o frio do cacimbo dizimara a maioria dos mosquitos. Não fora isso, naquele local pantanoso, comer-nos-iam vivos. Mesmo assim um ou outro mais resistente, ainda se atreveu a zunir-nos aos ouvidos.
Olhei à volta. A maior parte do grupo já denotava os efeitos do cansaço, da fome e do frio, sentados aqui e ali, sem nada dizerem.
Sem solução para o problema e sem rádio para comunicar, limitei-me a aguardar, olhando de quando em vez na direcção das pontes do Cúbia. A ajuda viria dali. Naqueles trajectos, estabelecera-se um sistema de controlo simples. A saída do Rivungo era comunicada via rádio. Na Neriquinha, calculavam o tempo da viagem, davam um desconto para qualquer contratempo e quando a demora parecesse ser excessiva saíam em nosso auxílio. E foi exactamente isso que aconteceu.
Aguardámos algum tempo que nos pareceu uma eternidade, até que, de repente, ao longe, surgindo do nada, o brilho tremeluzente de faróis progredindo na nossa direcção, animou toda a gente. Largaram-se as ferramentas, suspenderam-se os trabalhos em curso e voltaram os ânimos. O auxílio vinha já ali encavalitado num Unimog.
O Gabriel trazia comida (ração de combate) meia dúzia de homens com energia, um Unimog com força para puxar as berliets da sua prisão e alento para todos.
Enquanto devorávamos a ração de combate, o pessoal deitou mãos à obra. Em menos de um nada a viatura da frente foi arrancada do buraco onde a metêramos seguindo-se a segunda. Afinal o raciocínio inicial estava certo. Puxar pela frente era a manobra acertada. O erro apenas esteve na volta mais curta que a segunda berliet deu para se colocar em posição. Tivesse dado a volta pela picada mais afastada, mesmo demorando mais uns minutos e teríamos chegado, como previsto, a tempo do almoço.
Saímos dali e em pouco mais de um par de horas avistámos, no escuro da noite, o clarão das luzes da Neriqinha, que nos trouxe uma sensação reconfortante de segurança. Dali a nada, um duche revitalizador, uma cama macia e a protecção do arame farpado, reduziriam o caso a apenas mais um episódio a juntar a tantos outros.
Contudo, situações semelhantes, iguais ou parecidas, havíamos de ter muitas. Na verdade, quando dali saí, considerava-me um especialista em resolver problemas de carros atascados … … especialmente na areia.