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quarta-feira, 1 de julho de 2015

O ataque às ILHAS MENGUELAS

Ainda que passados muitos anos e a memória continue inexoravelmente a degradar-se, retenho a ideia de que muitos dos profissionais da tropa daquele tempo nunca chegaram a perceber de facto que a guerra nas colónias não encaixava em regras susceptíveis de poderem conferir significado a definições padronizáveis. Retenho de memória que os conceitos teóricos, plasmados nas sebentas da escola da guerra, dactilografadas e sistematicamente duplicadas a setencil, se referiam amiúde ao facto de aquela ser uma guerra de guerrilha, mantida por hordas de guerrilheiros não treinados e avessos a convenções.
Ainda assim, na cabeça de alguns velhos do restelo que ocupavam as cúpulas da hierarquia militar de então, continuavam vivas velhas tácticas e estratégias com barbas e bolor, manuscritas em acervos enegrecidos pelo tempo e guardados nos sótãos bafientos da memória de gente que parou no tempo e se mostrou incapaz de perceber que a guerra travada nas matas africanas não tinha nada a ver com as grandes batalhas da idade média e não seguia qualquer dos modelos clássicos que enchem as páginas dos compêndios militares por onde haviam estudado.
Alguns deles, se calhar, continuavam a confiar na eficácia das velhas tácticas quiçá acreditando ser possível aplicar nas matas africanas o estratagema do quadrado, derradeiro esquema defensivo utilizado pelo General Custer na batalha de Litle Big Horn contra uma nação inteira de índios Sioux ou até o medieval ouriço que se sabe ter sido utlizado pela infantaria de Nuno Ávares Pereira contra a cavalaria da coroa Espanhola na célebre Batalha dos Atoleiros nos conturbados anos do fim da primeira metade do século XVII.
Pode parecer inverosímil mas, das duas, uma; ou o nosso comandante não sabia mesmo o que era a táctica do ouriço ou ainda não percebera que a guerra que na altura se travava era outra. A verdade é que, perante o catastrófico resultado da operação levada a cabo lá para os lados da Quirongosa onde treze GE´s, entre eles o nosso Fulay, encurralados pelos guerrilheiros do grupo do Kuenho, perderam a vida sem que sequer pudessem ter esboçado um gesto de defesa, o distinto oficial tenha proferido a suprema crítica:
- Porque não fizeram o ouriço?
Bem, mas o episódio que aqui me trás tem, mais uma vez como protagonista, o nosso incrível Major Tamegão quando, certa vez, o grupo estacionado no Rivungo foi incumbido de patrulhar as margens do rio Cuando até às imediações das Ilhas Menguelas, algures situados no meio do lodaçal que estabelece a fronteira entre Angola e a Zâmbia, lá bem para baixo, a meio caminho entre o Rivungo e o Luiana. Transcrevo a descrição do Eduardo Aranha que melhor do que ninguém conhece o episódio.


“Devo começar por dizer que essas ilhas não eram, nem são, qualquer espaço paradisíaco no meio do mar ou de um rio na moda para ir fazer férias ou passar luas-de-mel. Na fronteira leste sul de Angola está o rio Cuando que na altura, pelos registos, pertencia a Portugal e não à Zâmbia. Pelo que aqueles amontoados de terra arborizada que existiam pelo meio do rio e que aqui no Tejo  se chamam mouchões e servem para a agricultura, lá  pelas áfricas serviam  para esconder elementos guerrilheiros que, de noite, ousavam enfiar-se em pirogas e atravessar o rio infiltrando -se no território angolano.
Uma vez, numa operação militar, que eu não tive o prazer de comandar, estava prevista uma patrulha a pé pela margem direita do Cuando, o mais chegadinho possível a terra para não molhar os pezinhos e ninguém se constipar, pois o objectivo principal da tropa portuguesa era poder regressar à sua aldeia natal  todo completo de cabeça e corpo.  
Regressados da operação ao Rivungo, estava, ao que me contaram, o major Tamegão, como sempre vestido da sua personalidade grotesca e dos adereços de farda igualmente ridículos: dois cantis com “água de capim”, para fazer bem aos rinzes, três pares de óculos presos por fios de nylon e uma Manelika verde-vivo pintada à mão. Neste excelente aparato dirigiu-se ao comandante da referida operação inquirindo-o sobre o sucesso da mesma na aniquilação do inimigo. Na resposta, evasiva como sempre, foi-lhe dito o que também sempre se dizia; que pegadas se tinham visto, muitas, mas inimigos nenhuns, que talvez estivessem nas Ilhas Menguelas, local inacessível para tropas apeadas. Aí, muito dentro da sua lógica de oficial cujos estudos teriam parado pela Grande Guerra de 1914-1918, o sr. Major Tamegão, perguntou: -Porque não fizeram uma balsa!? Ora, balsa é o mesmo que jangada, mas é um termo menos usado que o segundo e, como o major era do norte, muita gente, do sul, pensou que ele poderia estar- se a referir a um valsa à beira-rio, o que só entre homens e naquelas paragens deveria ter-se revestido de enorme romantismo.”


Alguns meses depois, o tenente Valério, na altura o comandante da Marinha do Rivungo a quem, segundo julgo, se haviam queimado parte dos neurónios que controlam o bom senso, resolveu pôr a lancha a navegar, ultrapassando para sul tais ilhas. No regresso foi metralhado, atacado à granada, perdeu um homem atingido por uma rajada de chumbo mortífero e só a muito custo conseguiu que a lancha vencesse a correnteza e regressasse ao seu ancoradouro no recesso do Rivungo, muito mal tratada e com a moral dos seus homens a razão de juros.
Uma lancha, blindada, guarnecida de fuzileiros bem treinados e equipada com uma metralhadora Oerlikon de grosso calibre, quase que foi impedida de navegar. E o nosso major a querer que se construísse uma balsa!
Cá para mim, ou o homem via muitos filmes ou era leitor assíduo das histórias aos quadradinhos do Major Alvega.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Goma-arábica, a cola que sabia a mel


Ainda nem haviam decorrido duas semanas desde que, amesendados na grande cidade aguardando sem pressas o dia em que se encetaria a viagem de regresso a casa e já muitas das agruras por que passáramos começavam a transformar-se em remotas recordações. Por mim, aquela certeza de que jamais voltaria a calcorrear as esgotantes e quentes areias das terras-do-fim-do-mundo trazia uma confortante sensação de bem-estar apenas perturbada pela recordação do inacreditável acidente que nos levara o Morgado. Exactamente quando já parecia certo que todos regressariam ilesos, o destino decidiu fazer-nos pagar a ousadia de termos conseguido escapar à má sorte, como se o azar que nos levou o Gonçalves não tivesse sido já paga suficiente. Mas, feita a catarse, com a ajuda da juventude que tudo supera, os dias continuaram a correr, intensos, quentes e aconchegantes, vividos como se houvesse pressa em compensar os tempos de escassez que, por aquelas alturas, já me pareciam suficientemente distantes.
O facto é que, aplacadas que estavam as mágoas, cauterizadas as feridas da alma e completada a convalescença com doses maciças do bálsamo apaziguador das Mabubas, tudo aquilo por que se passara parecia agora coisa de somenos.
Terá sido por aquela altura que se deu início a uma espécie de ritual que ainda hoje se repete: a irresistível tendência para trazer à espuma dos dias a lembrança dos episódios rocambolescos, dos sustos e maleitas, das alegrias e dissabores vividos e sofridos no tempo que durou a nossa passagem pelas guerras da Neriquinha, recordados a propósito de tudo e de nada, contados e recontados, explicados e relembrados como quem conta a história da última fita vista na soirée do cinema Miramar.
Foi por estas alturas que, certa manhã, lá na Pensão dos Coqueiros, unidade hoteleira modesta onde costumávamos pernoitar, creio que ao pequeno-almoço, descosendo a língua em conversa de circunstância, porventura recuperando da ressaca da noite anterior, alguém se lembrou de ter ouvido contar uma das máximas do nosso major Tamegão. Para tanto bastou um refrescar de memória trazido pelo ritual de untar a torrada com compota.
Constava que nada afectava o apetite do major e dizia-se que nunca reclamava do rancho. Aliás, o seu aspecto roliço e maneirinho era prova disso mesmo. A sua mais que conhecida fama de lateiro, típica de quem nunca reclama do rancho, ficou suficientemente demonstrada, quando, numa das poucas vezes que a sua missão o obrigou a descer ao inferno da Neriquinha, devorou um prato de massa guisada com atum que o vago-mestre incluíra na ementa numa tentativa de retaliação pelas exigências e observações esparvoadas que o homem fizera aos mapas de controlo do depósito de géneros. Tudo em vão. Enquanto toda a companhia achou a refeição uma porcaria, o Major, rapando o prato onde um último fio de massa resistia às suas arremetidas, apenas deixou escapar um: - Isto estava muito bom!
Mas, voltando à compota, parece que o homem, lá na messe do Cuito Cuanavale, descobriu um frasco com mel. A sua consistência e a cor ligeiramente ambarada eram características mais do que suficientes para que nem sequer lhe passasse pela cabeça que pudesse ser outra coisa. Aliás, estando na messe e com aquele delicioso aspecto a fazer-lhe nascer na boca uma aguadilha de gula, no seu entender não poderia ser outra coisa. Assim, todas as manhãs, a fatia de pão que lhe servia de mata-bicho, foi sendo generosamente untada com o produto e saboreada em gulosas dentadas intervaladas por largos golos de café com leite, lauta refeição por vezes finalizada com pomposa e sonora eructação.
Até que, certo dia, a mulher do médico que, uma ou outra vez o calor obrigava a madrugar, deu conta de que, afinal, era o major o responsável pelo esvaziamento constante e paulatino do conteúdo do frasco.
- O senhor major come isso? Interrogou a senhora com não disfarçada surpresa.
- Sim, eu gosto muito de mel. É muito saudável. Respondeu o oficial um tanto ou quanto atónito como se considerasse a pergunta descabida.
- Mas isso não é mel, senhor major. Isso é goma-arábica; trouxeram-na há dias da secretaria para colar uns papéis.
Apanhado de surpresa o homem, contudo, não desarmou.
- Ah é? Mas olhe que é muito bom.
Consta que, ainda assim, mesmo se apercebendo de que, afinal, andara a ingerir cola o tempo todo, não se coibiu de comer o pão até ao último migalho.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Ferradelas de mosquitos

Não há volta a dar; clima tropical e mosquitos andam sempre emparceirados. Não é possível usufruir das cálidas vantagens de um serão africano sem ter de sentir na pele o incómodo doloroso das ferroadas violentas daqueles pequenos seres que se afanam incansáveis em dar cabo da paciência de qualquer ser vivente, sugando o sangue a quem não for capaz de os sacudir antes que consigam ancorar aquela minúscula ferramenta sugadora que dá pelo nome de ferrão. E o pior é que não são esquisitos, tanto ferram no coiro duro duma pacaça, como na pele enrugada e encortiçada de um velho ainda que antes tenham acabado de picar a sedosa derme de uma donzela, contribuído alegremente para a transmissão de doenças por inoculação.
Durante o dia, enquanto o sol faz valer o seu poder escandecente sobre os elementos, não se deixam ver mas, assim que o sol se esconde por detrás do horizonte e o lusco-fusco se instala, surgem em bandos zunindo numa infernal e irritante sinfonia monocórdica, penetrando por nesgas impensáveis, encontrando o mais esconso buraquinho no mosquiteiro para, conquistado o nosso reduto de sossego, nos sugar o sangue enquanto durar a noite.
E o pior é que calor e águas paradas formam o ambiente ideal para que se multipliquem, quer estejamos a falar das remotas e pantanosas chanas do Cuando Cubango quer do pacífico recato das Mabubas onde o enorme manancial de água da barragem, permanentemente mantido ao seu nível pelo incessante caudal do Rio Dande, constituía o alfobre ideal para que se multiplicassem incessantemente. É verdade, no que toca à guerra com os mosquitos, a nossa vida nas Mabubas não era melhor que a passada no desconforto da Neriquinha. Tanto aqui como lá, a guerra contra aquele exército zumbidor era renhida e não havia forma de os vencer.
Nos quartos de dormir, entrincheirados sob a redes mosquiteiras, quase sempre se conseguia dormir sem se ser incomodado, mas na messe, depois do jantar, quando nos juntávamos no alpendre para um bocado de conversa e mais o que conviesse para roer o tempo enquanto a hora do recolher não chegava, a horda de mosquitos atacava em força, de todos os lados, e nem a roupa servia de protecção. Mesmo o tecido grosso do camuflado era facilmente perfurado pelo ferrão aguçado da bicharada ávida de sangue que sabia escolher devidamente as carnes mais expostas ou mais frágeis para se banquetear.
As cadeiras de descanso da messe, aquelas onde, nas horas de ócio, costumávamos preguiçar, tinham uma construção simplista: estrutura em ferro tubular, sendo o assento e encosto formados com uma fita de plástico grosso e de cores garridas estrategicamente entrelaçada e firmemente ancorada na estrutura metálica, plástico que, cedendo sob o peso do corpo, oferecia o conforto necessário. Mas, isso permitia que, no intervalo entre as voltas da fita, bocados do rabo e das costas, ficassem à mercê da voracidade do mosquitame, perante a nossa impossibilidade em ripostar.
Era uma luta desigual já que, um ou outro que, com uma palmada certeira, se conseguia esborrachar, pouca ou nenhuma brecha fazia naquele exercício de milhões constantemente renovado, não obstante contarmos sempre com a ajuda adicional de um pequeno pelotão de osgas que se entretinham patrulhando a parede do alpendre da messe e emboscando as melgas mais distraídas. Com uma destreza impressionante e em avanços subtis, aproximavam-se dos insectos que por ali pousassem e num movimento tão rápido quanto um piscar de olhos, como se impulsionados por uma mola, precipitavam-se sobre a minúscula presa que, engolida, desaparecia como num passe de mágica.
Não tenho a certeza, mas creio que chegámos a atribuir nomes a algumas delas: bichos que, vá -se lá saber porquê, continuam a ser considerados por muita gente como repugnantes, eram, naquele sítio, encarados como animais de estimação. O facto é que, na messe, era rigorosamente proibido molestar osgas, mas imperativo liquidar melgas que, ainda assim, nos atacavam por baixo, ferrando o bocado da nádega que espichava por entre as fitas plásticas do assento da cadeira.
Pois é, o seu atrevimento não tinha limites e nem respeitavam autoridades ou hierarquias; desde que tivessem oportunidade de ferrar a aguilhão sugador, faziam-no sem pedir licença.
Certa vez, lá na sede do batalhão instalada num casarão de traça colonial implantado à sombra dos palmares da Fazenda Tentativa e gozando da frescura viçosa propiciada pela proximidade dos seus extensos canaviais, o comandante queixava-se perante a oficialada presente, como que se insurgindo contra as vorazes melgas que se atreviam a molestar tão distinta patente.
- Picam-me as pernas mesmo por cima das calças! - Desabafava com estupefacção.
Entre o grupo estava o major Tamegão, militar de carreira vindo do curso de sargentos que, já de idade avançada, atingira o posto base dos oficiais superiores do exército e que, desempenhando as funções de segundo comandante responsável pela burocracia administrativa do batalhão, cumpria então a última comissão da sua vida. Para se perceber melhor a cena, convém salientar que o major, espécie de cabo arvorado com galões, era um exemplo de cromo que ainda hoje alimenta o anedotário que anima qualquer encontro de quem com ele privou. Era um homem sui generis, exibindo uma figura física nada harmoniosa que faria as delícias de qualquer caricaturista: baixo, largo e desproporcionado, usava sempre calções que deixavam a descoberto as pernas curtas e enfezadas que pareciam suportar com dificuldade o resto do corpo, dando maior dimensão ao aspecto ridículo da sua figura, sem desprimor pelo homem que, verdade seja dita, não fez inimigos por ali.
Reagindo ao desabafo do comandante, o Tamegão tentou uma laracha, ripostando:
- A mim não!
A sua evidente falta de jeito para fazer humor, levou a que ninguém tenha percebido que tentava fazer piada e a prova é que o comandante, não entendendo o motejo, olhou directamente o major e muito sério questionou:
-Ora essa senhor major! As melgas não o picam?
O Tamegão, ensaiando um sorriso forçado numa vã tentativa de conferir significado ao seu fraco sentido de humor, apontou para a parte das pernas não coberta pelos calções, e respondeu:
- A mim, picam-me directamente na pele.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Comandantes

O batalhão 3857, do qual fazia parte a 3441, tinha no topo da pirâmide de comando, como qualquer batalhão de caçadores, uma espécie de triunvirato. É verdade que não exercia os seus poderes como se diz que teria acontecido nos autênticos, nos da Roma antiga, já que o autoritarismo do comandante tornava isso numa impossibilidade, mas o facto é que eles eram três.
No topo, como comandante, um tenente-coronel. Logo abaixo, dois majores: um com o papel de subcomandante e responsável pelas questões administrativas e de logística, o outro com o pelouro da operacionalidade do batalhão.
O major de operações, o mais novo dos três, era um homem de porte atlético, exibindo um farto bigode, adorno muito em voga na época mas pouco apreciado pelas hierarquias militares. Quando aparecia na companhia, apenas o víamos à conversa com o Capitão e alguns oficiais, certamente cogitando e planeando estratégias para a próxima operação. Desaparecia de seguida levado pela pequena Dornier que o transportava por via aérea, aparelho que também utilizava para, lá do alto, seguir o desenrolar das operações mais importantes que, cá em baixo, decorriam contra o inimigo, levadas a cabo por tropas à beira do esgotamento.
O segundo comandante era um homem atarracado e volumoso, arrumado num físico pouco harmonioso e exibindo uma figura com tendência para o ridículo, sem desprimor pelo homem. Militar de carreira, oriundo da classe de sargentos, o Major Tamegão integrava o aparelho administrativo do exército. Era sem dúvida o elemento mais velho (em idade) de todo o batalhão. Quando aparecia na Neriquinha (o que não aconteceu mais do que um par de vezes) era porque o calendário das regras de controlo impunha uma inspecção à papelada. Coisas de secretaria e de contabilidade militares.
Nessas alturas (raras) saía do aconchego da sede de Batalhão no Cuito Cuanavale e por obrigação do cargo, visitava, à vez, cada uma das companhias.
A 3441 era a mais afastada. Confinada a uma pequena área delimitada por uma cerca de arame farpado plantada num local remoto no meio de coisa nenhuma, distava do Cuito Cuanavale, cerca de uma semana por picada. Tudo ingredientes que parecia não agradar ao major, não obstante possibilitar um pouco de aventura. Nessas alturas, retirava do estojo uma velha Kalachnikov que arranjara em comissões anteriores, provavelmente apreendida ao inimigo em alguma operação em que certamente não participara. Aproveitava a proximidade do mato para dar uso à relíquia e sem exagerar na aventura, arranjava um pretexto. No caso, juntou um grupo, afastou-se pouco mais de meia dúzia de quilómetros, o suficiente para se sentir no meio da savana de forma a criar um cenário de caça. Só que, tão perto do aquartelamento, não havia caça. Na verdade, não havia nada em que valesse a pena atirar. Animais selvagens afastam-se naturalmente do bulício humano. Excepto um bufo que, provavelmente por distracção, se empoleirou no ramo de uma árvore, ali perto. O Major não hesitou. Era a oportunidade de fazer o gosto ao dedo e desenferrujar a relíquia. O infeliz do bufo é que pagou as favas.
Tirando isso, sentava-se frente à messe, à sombra, numa espécie de cadeirão que por ali jazia e determinava de quando em vez, nos intervalos das sonecas que a idade e o calor iam impondo, que lhe fossem presentes um conjunto de papeis e fichas que os furriéis responsáveis pelas coisas do material dos combustíveis e dos víveres tinham de manter escriturados de acordo com as regras definidas pelas omnipresentes NEP’s (normas de execução permanente).
Encontrava sempre algo que considerava irregular. Sendo por natureza uma boa pessoa, daquelas de que se diz não fazerem mal a uma mosca, esforçava-se por parecer mau ou austero, numa vã tentativa de se aproximar da atitude do comandante, homem execrável que transpirava veneno por cada poro da sua pele suada de militar pequeno.
Diz o povo que homem pequeno, ou é velhaco ou dançarino. O comandante não era certamente dançarino e embora não pudesse ser apodado de velhaco, a verdade é que não era boa pessoa. Ficou conhecido pelo Ruizinho, diminutivo do seu nome próprio, espécie de caricatura não só da sua pequena estatura, mas também da sua mesquinhez.
Pouco ou nada respeitado desde o oficial ao soldado, era, contudo, um homem temido. Com ele presente nunca se sabia que tipo de norma estaríamos a infringir, sendo certo que era elevada a probabilidade de, no mínimo, levarmos com uma ameaça, uma admoestação (a tradicional piçada) ou algo pior (uma porrada). Dedo em riste, cara de poucos amigos e batendo na perna com a sua inseparável chibata, num tique irritante, passava o raspanete ou cuspia a ameaça, após o que nos presenteava com um altaneiro rodopiar, virando as costas em atitude de puro desprezo pelo animal fardado que acabava de mimosear com mais uma dose de bílis mal digerida, quiçá resultante de uma qualquer insuficiência hepática. Afastava-se verbalizando sapiências militares ilustradas por movimentos de chibata, adorno ou fetiche cuja utilidade nunca cheguei a compreender.
Não obstante ter cabido em sorte à 3441 o pior, o mais remoto e inóspito local de toda área operacional do batalhão, não deixava de ser vantajoso o facto de estar o mais afastado possível do centro de comando, com a vantagem de as suas precárias instalações não convidarem muito a visitas do ilustríssimo oficial, poupando-nos aos seus desmandos. Compreende-se assim que tenha chegado a sentir pena do pessoal da CCS, (Companhia de Comando e Serviços) a qual, por integrar a estrutura de comando do batalhão, tinha o comandante sempre à perna, o que, de alguma forma, anulava a vantagem de ficar quase sempre melhor localizada e não ter actividade operacional.
Assim, o homem só aparecia quando maquinava qualquer coisa para nos lixar a vida. Normalmente uma qualquer operação militar planeada em noites de insónia na sequência de fidedignas informações sobre os movimentos do inimigo, sacadas pela sinistra PIDE a um qualquer indígena azarado que tivesse sido submetido aos seus eficazes interrogatórios secretos.
É assim que nos sai na rifa mais uma daquelas operações, visando a destruição do inimigo que, diga-se de passagem, nunca se mostrou muito interessado em pedir meças às unidades do batalhão. Admite-se que o Ruizinho, no alto do seu heroísmo, tenha decidido que, se eles não nos procuram vamos lá chateá-los.
Operação em grande, no mínimo com dois grupos de combate, comandada pelo próprio capitão, lá para os lados do Chiúme, quase já fora da área de actuação da companhia, zona inacessível por picada o que implicou o transporte por helicóptero, no caso, garantido por uma esquadrilha da força aérea Sul-africana.
Deveríamos percorrer uma vasta área de território selvagem onde apenas se dizia existirem alguns carreiros percorridos por população não enquadrada, pelo que, como era natural, equipei-me com o camuflado mais usado e que, por via disso, exibia as marcas das diversas andanças pela mata: um pequeno rasgão aqui, um remendo acolá, a falta de uma bainha, uma ponta a desfiar-se. Enfim, impróprio para os formalismos militares, mas adequado a uma operação que de formal não tinha nada.
O facto é que só possuía dois camuflados e era importante que, pelo menos um deles chegasse ao fim dos dois anos de comissão. O exército não fornecia fardamento aos oficiais e sargentos e não me apetecia investir dinheiro num terceiro camuflado. Fora obrigado a comprar os que tinha e custaram-me uma pipa de massa. Por esse facto, castigava sempre um dos dois, preservando o outro para as mariquices militares a exigirem maior cuidado no atavio.
Decorria toda a azáfama de preparação para o embarque nos helicópteros que fariam o transporte do efectivo para o local da acção. A capacidade limitada dos Alouette III obrigava a duas viagens para a colocação da força no terreno.
Nesse entretanto, o comandante deambulava de um lado para o outro, distribuindo ordens à direita e à esquerda até olhar para a minha equipa que aguardava, junto ao helicóptero, o momento de embarque. Sem nada que justificasse uma ordem ou instrução do competentíssimo militar, resolveu implicar com o meu camuflado.
- Ó nosso furriel! Dirigiu-se-me em tom ameaçador.
Que será que eu fiz? Questionei-me em silêncio, perfilando-me apressadamente.
- Isso são modos de um graduado se apresentar frente aos seus homens? Continuou sem que eu percebesse exactamente a que se referia.
Só faltava agora implicar comigo. Pensei ao mesmo tempo que procurava corrigir a postura na esperança de anular a grave falta que determinara tão enfática censura.
- Esse fardamento está uma vergonha! Exclamou furioso.
Braço em riste, apontando a ridícula chibata em direcção ao aquartelamento, ordenou:
- Vá imediatamente fardar-se.
Balbuciei um “sim meu comandante” e encetei um passo de corrida militar em direcção à camarata.
Retirei o outro camuflado cuidadosamente dobrado na mala arrumada debaixo da cama, vesti-o, voltei a colocar todo o equipamento de combate e corri de novo em direcção à pista onde uma esquadrilha de helicópteros me aguardava para a partida.
Pelo caminho pensava na estupidez da ordem.
Será que o animal não sabe o que é andar na mata? Interrogava-me.
Será que o inimigo se, por remota hipótese com ele nos cruzarmos, irá reparar num ou noutro remendo no camuflado?
Ainda por cima, o homem já não andava nas redondezas quando cheguei junto do meu grupo. Se não tivesse mudado de farda, não teria dado por isso. Pior ainda foi o facto de as calças não terem resistido às exigências da caminhada. As costuras do interior das pernas cederam totalmente ainda durante o primeiro dia de operação. Passei a andar como se vestisse uma saia comprida, com duas enormes rachas: uma à frente e outra atrás.
Que diria o comandante se à chegada me visse naquele estado?