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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A Prisão

O rigoroso RDM, kafkiano regulamento da disciplina militar de que se dizia ser incumprível, alimentava boa parte do anedotário de caserna dos tempos idos da tropa. Estava capaz de apostar que se contariam pelos dedos de uma mão – vá lá, de duas mãos – aqueles que, naquele tempo, se deram ao trabalho de ler tão exigente normativo, o que, entenda-se, seria de todo desnecessário e isso porque, para não cair nas suas malhas, bastaria atender a duas regras principais: “cuidado com o que dizes” e “vê lá o que fazes”, o que significa que, até a dormir, era razoável a probabilidade de se infringir um qualquer dos seus inúmeros artigos, ainda que inconscientemente e sem se saber como, espécie de círculo vicioso da justiça militar que tanto poderia considerar alguém culpado por ter cão, como por o não ter. A crítica ao seu excesso de rigor era, naquele tempo, expressivamente ilustrada com a afirmação galhofeira de que, o seu autor, uma vez completado o seu trabalho de legislador, se suicidara ao dar-se conta de que não seria capaz de cumprir os ditames plasmados em tão intransigente e espartano diploma.
A aplicação do direito sancionatório correspondente competia aos comandantes das unidades que não tinham dificuldade em enquadrar cada infracção no respectivo articulado. As penas menos severas transferiam o recruta para o serviço de faxina às cozinhas, seguindo-se, por ordem de gravidade, a limpeza dos sanitários, a proibição de sair do aquartelamento até ao recolher, a perda de direito a gozar o fim-de-semana e por aí adiante até às penas de prisão. É verdade, as infracções mais graves, ainda que não constituíssem crime, eram cumpridas na prisão.
Mas vamos ao que interessa. Na Neriquinha, não havia cadeia. E não havia, porque não era preciso. A singela e frágil cerca de arame farpado, que delimitava aquele quadrado de pó areento perdido no meio da savana, já era o bastante para que nos sentíssemos enclausurados, não obstante a ausência de muros permitir acesso livre e directo à vastidão do espaço envolvente. E nunca se pensara nisso, até porque, pelos vistos, nenhuma das unidades que ali nos antecederam teve necessidade de tal coisa.
Mas, a companhia de caçadores 3441 pertencia a um batalhão – o 3857 – cujo comandante, a que todos deviam vassalagem, não entendia assim e, por isso, a ordem expressa, vinda directamente do seu gabinete, lá no Cuito Cuanavale, determinou: – construa-se uma cadeia.
A ordem, exigente e imperativa, não admitia desculpas e qualquer desobediência seria insensatez; na tropa era assim e com aquele comandante, mais ainda. E, assim sendo, não havia sequer que discutir:  – pois construa-se o tal de cárcere, determinou o capitão.
Passado todo este tempo, não tenho memória do aspecto físico de tais instalações, mas alvitra-se a hipótese de o local escolhido ter sido, logo ali, paredes meias com a oficina auto, confinando com as traseiras da enfermaria e não longe do refeitório, junto ao gerador pequeno, espécie de reserva energética que permitia a existência de luz pelo tempo que levava a resolver os amuos do gerador principal. O facto é que, e isso é uma certeza, se deitou mãos à obra, desencantaram-se os materiais necessários e, em pouco tempo, lá nasceu, isso sim, um casinhoto precário, sem condições e de pequenas dimensões; enfim, um cubículo. Talvez porque se entendia que nunca teria serventia, não se lhe meteram grades e creio que a porta, se é que alguém disso se lembrou, nem fechava. Pelo menos não tinha chave. E para quê, se ali não havia para onde fugir. 
Contrariamente ao que seria de esperar, o presídio foi estreado, e coube ao Pinheiro o privilégio da inauguração, sem pompa nem discursos mas, ainda assim, um acontecimento inaugural. O Pinheiro era um chato, um refilão preguiçoso que, com alguma frequência, esticava por demais a corda. Até que um dia, exagerou, ultrapassou o desculpável e foi além da capacidade de tolerância do capitão. A pena aplicada, ainda que com algumas atenuantes, ficou-se pelos cinco dias de prisão.
Tanto quanto julgo saber, não os cumpriu todos. Provavelmente houve a percepção de que, para o preguiçoso do Pinheiro, estar detido, para mais naquela estranha cadeia, produzia efeito contrário ao que é suposto ser um castigo. É que, o estar preso, implicou não ser escalado para os sempre detestados quartos de sentinela e outros serviços do dia-a-dia. E o pior é que passava pouco tempo enclausurado, não fazia nada, comia no refeitório como todos os outros, passava o dia chateando o pessoal da ferrugem e, de caminho, infernizava a vida dos cozinheiros e exigia atenção especial aos enfermeiros. Para completar o quadro, transferia-se, à noite, para a sua cama na caserna e ainda gozava com o pessoal que com ele se cruzava, não perdendo a oportunidade de, disfarçadamente, provocar o segundo-sargento que, achando tudo aquilo um abuso, resmoneava visivelmente agastado, um “num tá bem!” reprovador. Tirando isso, dormia o resto do tempo e preguiçava nos intervalos de cada soneca, feliz da vida e apostado em cumprir, com zelo sacana, o castigo que lhe foi imposto, comportando-se de forma a convencer disso o capitão, até porque, o segundo-sargento nunca se atreveu a denunciar uma situação que, no seu entender, “num tava bem”.
A boa vida do Pinheiro durou apenas aqueles escassos dois dias de prisão efectiva, intervalada de saídas precárias auto autorizadas. Apercebendo-se da ineficácia do castigo, o capitão comutou-lhe a pena, deu-lhe ordem de soltura e determinou que os restantes três dias fossem convertidos em liberdade condicional, para grande desgosto do preso que via assim as suas imerecidas férias abruptamente interrompidas, com a agravante de se ver escalado para um quarto de sentinela naquela mesma noite.
Creio que o cárcere apenas teve mais um inquilino ainda que apenas por umas horas. E como não podia deixar de ser, coube ao Candeeiro esse privilégio. O soldado Raimundo, por todos conhecido como Candeeiro, pescador algarvio vindo dos lados de Vila Real de Santo António, era um homem quezilento, especialmente quando estava com umas cervejas a mais, situação algo frequente. Nessas alturas, tinha por hábito desatar num berreiro, ameaçando todos aqueles de quem não gostava, elegendo sempre o alferes Torres como primeiro alvo a abater. Felizmente, levado a bem, era fácil apaziguar-lhe as fúrias, mesmo quando bem bebido. O problema era que, como se sabe, o excesso de bebida tolda o raciocínio e o bom senso a certas pessoas e, no caso do Candeeiro, nunca se sabia se as fúrias eram apenas desabafos alcoólicos ou algo mais. E, assim sendo, mais valia prevenir, obviando a que, de um momento para o outro, fizesse um qualquer disparate.
Certo dia, excedeu-se mais do que costumava e, antes que os desacatos descambassem em grossa asneira, foi encarcerado. O berreiro ainda continuou por algum tempo, mas acabou por calar-se. Talvez vencido pelo cansaço e totalmente dominado pela bebedeira, adormeceu e, rangendo os dentes, por ali ficou o tempo necessário para cozer e processar o álcool ingerido, saindo em liberdade quando, já esquecido da guerra que apregoara, acordou.
É caso para se dizer que a cadeia, ali, não fazia falta. Mas, uma vez construída, teve uso, ainda que apenas por duas vezes: uma para estreia e outra para curar uma bebedeira.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O Pinheiro recebeu uma carta

Já por mais do que uma vez fiz aqui referência à importância da chegada do correio às terras da Neriquinha. Aqueles dois dias por semana, aqueles em que o pequeno aviãozinho da TASA aterrava no meio de uma nuvem de pó vermelho para nos deixar uma mão cheia de aerogramas carregadinhos de notícias de casa, traziam mais alento ao pessoal do que uma boa refeição de bife com batatas fritas. Era uma espécie de religião, um desejo incontido, um vício irresistível, autêntica dependência saudável, fazendo com que os outros dias fossem meras etapas de um caminho que desaguava em cada terça-feira e se repetia à quinta, seguindo-se um longo interregno com um fim-de-semana pelo meio já que, ali, sábados e domingos não eram diferentes de qualquer outro dia da semana. Desde que não fosse dia de correio eram todos iguais.
De facto, verdadeiramente especial, o nosso dia santo, era mesmo o dia em que se recebiam notícias. E era ver o sossego que se seguia à distribuição da correspondência, recolhendo-se cada um ao seu canto, lendo e relendo avidamente as palavras que, não podendo ser ditas, vinham escritas em cada aerograma azulinho. Era a carta dos pais, dos irmãos, dos tios e primos. Todos escreviam. A da namorada era sempre a primeira a ser lida, cada um à procura do cantinho onde fora deixado o beijo, desvanecido pela distância, já sem gosto mas mentalmente ressuscitado por uma réstia de perfume.
Era bem visível nos semblantes a tristeza daqueles que, por uma razão ou por outra, não recebiam nada. Por vezes, o pai e a mãe, porque analfabetos, tinham de recorrer a um vizinho, ou conhecido e isso condicionava a frequência da escrita. Mas, de vez em quando, nem que fosse uma vez por mês, todos recebiam notícias de lá de longe; com maior ou menor assiduidade lá vinha uma cartita, nem que fosse da madrinha de guerra.
Sim, o correio era fundamental, tão importante como as coisas verdadeiramente importantes. E isso era o que acontecia com todos, desde o oficial ao soldado, a começar no mais erudito e acabando no analfabeto. Sim, porque na 3441 havia uns quantos analfabetos. E, recorrendo ou não ao companheiro do lado, todos se dedicavam à leitura, devorando sofregamente cartas que narravam acontecimentos e transmitiam sentimentos, simples discorrências para encher a folha de papel, pura descrição de assuntos a que só a distância conferia significado.
Mas havia um que não encaixava em tudo isto. Um soldado que, tanto quanto me lembro, nunca recebera uma carta. Não sei a razão. Diziam que apenas tinha uma irmã que, vá-se lá saber porquê, não queria saber dele.
O Pinheiro era um homem estranho. Um chato. E isso via-se no dia-a-dia. Parecia não ter jeito para fazer amigos e, talvez por isso, costumava andar só. Não porque quisesse, mas porque os outros o enxotavam. Quando se nos dirigia, exibia um sorriso sarcástico, parecendo querer provocar irritação. Se calhar era apenas um esgar que não controlava. Um fácies aparvalhado. E ainda por cima era refilão, defeito que procurava disfarçar com bajulice, servilismo encapotado num trejeito untuoso. É isso, o Pinheiro era uma espécie de lambe-botas controverso que não convencia ninguém. Querendo parecer submisso era na verdade um insubmisso, mas no pior sentido do termo, com tendência para o sacana, embora, paradoxalmente, nunca se metesse na vida de ninguém nem criasse problemas.
O seu aspecto físico também não ajudava. As calças puxadas bem para cima, seguras pelo cinto que parecia apertado de mais, afundando a concavidade da barriga e salientando a ligeira aparência recurvada, ajudavam a compor um todo pouco harmonioso. De aspecto frágil, face esguia, bochechas chupadas e marcadas pelas cicatrizes do que teria sido uma acne profunda de que ainda sobravam algumas intumescências pustulentas enfeitadas de pelos mal semeados de uma barba desalinhada e pouco cuidada. Enfim, alguém que não atraía simpatias.
A verdade é que ninguém se lembra de alguma vez ter visto o Pinheiro receber uma carta. Nem da família, nem de qualquer amigo ou conhecido. E, pelos vistos, nem se dera ao trabalho de arranjar uma madrinha de guerra que preenchesse aquele espaço em branco na sua vida e isso podia explicar a sua pouca popularidade entre a malta. Não era apenas a falta de jeito para arranjar amigos; parece que também não seria lá muito popular no seio da família, de quem, aliás, nunca falava. Talvez por isso se pensasse que não tinha pais, havendo algumas referências à irmã, mas que ninguém sabia se era mais nova, casada ou solteira. O Pinheiro falara dela uma ou duas vezes, mas sem adiantar grande coisa. Contudo, isso foi suficiente para suscitar curiosidade:
- Olha lá! A tua irmã não sabe escrever? Perguntou um curioso.
- Ou és tu que não sabes ler? Atalhou outro de forma provocatória.
A tudo isso o Pinheiro respondia com evasivas, como se o assunto incomodasse.
- Não têm nada a ver com isso! Despachava com azedume.
É neste ambiente que surge uma ideia maquiavélica. Não sei de quem, mas começou a germinar em duas ou três cabeças vingativas um plano para fazer uma partida ao Pinheiro: iria receber uma carta. Uma carta remetida pela irmã. Contudo o seu conteúdo haveria de o tirar do sério. Na verdade teria de ficar furioso.
Três ou quatro muniram-se de uma aerograma em branco, sentaram-se na cantina à volta de uma mesa e começaram a escrevinhar:
Meu irmão. Espero que te encontres de boa saúde que eu cá vou indo com a graça de Deus.
Bem, os pormenores não interessam, nem os sei reproduzir. Na verdade nunca li a malfadada carta, mas sei que, no que lá foi escrito, a irmã, para além de o culpar de uma séria de maldades, só não o chamava de santo. Até palavrões meteram no meio de um conjunto de epítetos pouco abonatórios.
Dobraram o aerograma, escreveram o endereço sem grandes pormenores omitindo, por exemplo, o número da companhia já que se pressupunha ser pouco provável que a irmã o soubesse e no dia do correio, com a conivência do cabo escriturário, meteram-no no meio da correspondência.
Como seria de esperar, o Pinheiro não se juntou à pequena multidão que rodeava o sargento-de-dia, à sombra da árvore que, por força do hábito, se tornou o local de distribuição do correio. Contudo, alguém cuidou de o avisar que havia carta para ele.
-Carta? Para mim? Questionou meio incrédulo.
Mas era verdade, ali estava um aerograma amarelinho, com o seu nome no endereço. Mirou, virou o pequeno rectângulo de um lado, revirou do outro. Procurou o remetente mas estava em branco. De quem seria?
Não estando habituado a receber correspondência, nem ligou à cor da missiva. Normalmente, as cartas vindas do puto eram azuis. Os amarelos tinham sentido contrário. A não ser que fossem escritos por outro militar num outro local qualquer da guerra.
Remirou de novo, coçou a cabeça e sem pressa, maquinalmente, desdobrou o aerograma.
Os autores da brincadeira, mais uns quantos que se lhes juntaram, miravam de longe, agremiados, a ver no que aquilo iria dar
O Pinheiro começou a ler, silenciosamente, mantendo um ar carregado, saturado de pontos de interrogação como se questionasse:
-Da minha irmã?
Mesmo ao longe, notaram a alteração gradual do seu fácies. À medida que avançava na leitura, foi ruborescendo, o cenho carregando, os lábios crispando a denunciar a fúria crescente. O seu olhar parecia lançar chispas. Acabou de ler, amarfanhou furiosamente o papel e vociferou colérico:
- Puta de merda! Quem pensa ela que é?
Seguiu-se uma torrente de asneiras, tantas quantas conseguiu sacar do seu reportório de caserna, atirando-as em catadupa para cima da desgraçada, à medida que, gesticulando furiosamente, acelerava o passo em direcção à caserna. Durante um bom bocado ninguém mais o ouviu.
Comprometidos, os autores da patifaria, riam à socapa. Creio que nenhum se atreveu a confessar a autoria do escrito, mesmo sabendo que, se o fizesse, ilibaria a desgraçada das culpas que não tinha. Assim, o Pinheiro continuou convencido de que a carta era mesma da sua infeliz irmã, demonstrando acreditar ser ela capaz disso ou de coisa pior. Razões haveria para que nunca lhe tivesse escrito.
Só não sei se alguma vez se dignou responder à ofensa.