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domingo, 1 de novembro de 2015

As armadilhas da chana II

Muito haveria ainda para dizer sobre as particularidades das chanas do Cuando Cubango. Será talvez mania minha insistir nisto mas, a verdade é que ainda recordo, quase em detalhe, aquelas imensidões que nem o arvoredo se atreve a incomodar. Começando num verde luxuriante no pico da época das chuvas, aquelas cearas de capim viçoso, mudam de cor ao sabor dos equinócios, esmaecendo num processo que as vai matizando lentamente de amarelos tímidos até adquirirem aquele ocre de restolho seco que enegrece por efeito das grandes queimadas, voltando a rejuvenescer com as primeiras águas da época seguinte. É uma natureza que, morrendo pelo fogo, renasce das cinzas, exuberante e pujante como se o fogo lhe conferisse vitalidade.
Eram estas mesmas chanas que, formando uma intricada e caótica sucessão de espaços impossíveis de contornar, se interpunham no nosso caminho, dificultando o andamento das viaturas, como se, resistindo, se procurassem vingar da nossa intromissão que, bem se pode dizer, profanava a quietude daquele mundo selvagem, sobrepondo-se ao suave murmúrio do roçagar do capim embalado pela brisa amolengada por força do calor sufocante que chegava a calar o cucuritar das rolas empoleiradas no esparso arvoredo circundante. O facto é que, para se ir a qualquer lado, não havia forma de seguir em frente sem as atravessar já que, a tentativa de as contornar aumentava a distância e não se resolvia a questão. Podia-se evitar atravessar uma chana, mas caía-se necessariamente no meio de outra.
Com o tempo, aprendemos a conhecê-las, especialmente as que se atravessavam no caminho que nos levava ao Rivungo, local onde, para além da Marinha, da PSP e da PIDE, existia um destacamento da companhia da Neriquinha. Explica-se assim porque se conhecia bem aquele caminho de longo tracto.
Cruzávamo-lo com frequência, não só pela necessidade de manter a ligação com os nossos que lá estavam como, também, pelo facto de constituir a única via para o reabastecimento da tropa, dos marinheiros, dos polícias e das estruturas administrativas ali existentes, sem deixar de lado a população dos kimbos que se encontravam nas imediações.
Trilhar aqueles caminhos era uma aventura; por muitos cuidados que se tivesse e por muito que se pensasse que já se sabia tudo, acontecia sempre algo de inesperado. Sair da Neriquinha em direcção ao Rivungo tinha horários de partida mais ou menos estabelecidos mas, a hora da chegada, embora estimada, nunca era uma certeza. No regresso, a história era a mesma. Um dia, o desagradável aconteceu comigo; na ida, tudo correu dentro do previsto mas, no regresso, quando o pior já ficara para trás, as duas berliets enterraram-se nos lamaçais das chanas do Cúbia quando ainda o sol mal tinha acabado de despontar. Só dali conseguimos sair ao fim do dia, já noite cerrada, depois de muito trabalho e a ajuda preciosa que entretanto veio da Neriquinha em nosso socorro.
É verdade, cruzar aquela savana exigia muito cuidado e a escolha criteriosa do trilho por onde se rolava. Retenho gravada na memória a imagem daquela chana que antecedia o kimbo do Lihaona. Não havia forma de lá chegar a não ser seguindo pelo troço de picada enlameada que a cruzava. A situação foi sendo resolvida colocando transversalmente uns troncos de árvore os quais, com o passar das viaturas, se foram enterrando na lama, conferindo a consistência necessária. Mas isso obrigava a que ali se passasse muito devagar num permanente bamboleio com os pneus mastigando a lama e resvalando nos troncos escorregadios, castigando a estrutura das viaturas e os ossos de quem lá ia.
O episódio que agora recordo e a que, felizmente não assisti, faz parte da história da companhia e desenrolou-se naquele bocado pouco consistente que ligava os kimbos do Liahona e do Mugamba. Enquanto durava a estação seca, a picada que por ali serpenteava secava e endurecia. Com o tempo e o passar frequente das viaturas, foi ficando compactada e adquirindo consistência. Quando as chuvas regressavam e as areias abeberavam de água, aquele bocado de caminho ficava submerso mas, ou porque já estivesse suficientemente endurecido ou por qualquer outra razão que não sei explicar, permanecia com a consistência necessária para as viaturas poderem passar sem atascar, desde que se rodasse muito lentamente e não se desviassem nem um nadinha de nada do traçado da picada submersa.
Até que, um dia, por razões que me não chegaram, o pior aconteceu. Parece que, por culpa involuntária de alguém, talvez à mistura com um quanto baste de excessiva confiança e complementado com um bom bocado de imprudência e uma pitada de má sorte, o condutor de uma berliet desviou-se do traçado submerso da picada. Ainda que o desvio tivesse sido ligeiro, patinou, enterrou-se na lama e imobilizou-se. Tentou fazer marcha atrás, usou dos truques que entretanto a experiência já lhe ensinara para sair do atoleiro, mas tudo foi em vão. A viatura quedou-se, ali, submissa, presa na lama. Cortaram árvores, fizeram fustes, escavaram, empurraram, puxaram, usaram os macacos hidráulicos, desenvolveram teorias e fizeram experiências. Mas nada resultou. A noite fez descer o seu manto negro, os mosquitos atacaram em força, o cansaço tomou conta de todas e a viatura continuou queda e muda, presa no amplexo peganhento da lama.
Vieram reforços da Neriquinha, construiu-se um acampamento e por mais de uma semana, desde o nascer ao pôr-do-sol, todos se afanaram nos trabalhos necessários ao desatolanço da berliet, muitos dos quais debaixo de água. Não conheço os pormenores, mas ouvi dizer que quase foi preciso levantar a viatura aos poucos metendo-lhe troncos por baixo.
Quem não ficou contente, foi o nosso comandante, lá no Cuito Cuanavale. Não me admiro nada que tenha descarregado os seus maus fígados em cima do capitão. Na sua forma pouco compreensiva de ver as coisas, certamente entendeu que a culpa, fosse qual fosse, teria sido do comandante da companhia, não obstante este tivesse estado a quilómetros de distância do local

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

As armadilhas da chana

Na savana imensa que caracteriza as terras-do-fim-do mundo, uma chana é a designação que aquele povo dá a qualquer espaço plano, silente e sem árvores ou arbustos que o sombreiem. Descampado será porventura o termo que por cá se usa para designar algo semelhante mas, desiluda-se quem pense que é a mesma coisa. Chana só existe naquelas paragens e não me parece que possa ser comparada com o que quer que se lhe assemelhe. Planície não é certamente.
Uma chana, normalmente abraça qualquer curso de água e essas fazem lembrar pântanos, mas sem areias movediças, que é coisa que nunca ouvi dizer que existisse por ali. Mas também as há onde não corre água; estendem-se em zonas mais baixas para onde, na diluviana época das chuvas, a água escorre pelo terreno arenoso e se aquieta submissa até que o sol as leve. São as chanas secas, como era a da Neriquinha. Por ser seca e nunca ali ter medrado uma árvore, acabou por se transformar naturalmente na pista poeirenta onde, duas vezes por semana, aterrava o pequeno Cessna do Barros que nos trazia o tão desejado correio. Aliás, uma chana era sempre um recurso para qualquer piloto que cruzasse aqueles céus: mais aquém ou mais além havia sempre uma aberta onde era possível aterrar um pequeno avião sem dificuldades de maior, como daquela vez em que faltou o combustível a uma pequena avioneta. O mais difícil foi chegar lá com um jerrican de gasolina mas, depois de abastecido, levantou voo com facilidade e rumou ao seu destino.
Tinham ainda outra vantagem. No tempo do cacimbo, quando, com a ausência de chuva, tudo secava, mesmo as que não tinham um curso de água por perto, retinham normalmente humidade que garantia a verdura perene das ervas e, em casos de necessidade, era sempre um local onde se poderia encontrar água para matar a sede. Bastava escavar um pequeno buraco com um palmo de profundidade e esperar que a água nascesse. Os bichos sabiam disso, nós sabíamos disso e até as hienas estavam informadas. Por tudo o que ficou dito, era o sítio mais óbvio para se encontrar caça.
Mas, para além de esconderem lamaçais, constituíam ainda espaços incaracterísticos; mais recorte menos recorte, mais curva menos curva, mais larga ou mais estreita, todas se pareciam umas com as outras. E, quando a sua extensão se alongava a perder de vista, era quase impossível a quem estivesse no meio delas, perceber o exacto ponto onde se encontrava. Sendo todas absolutamente planas, o mais abaixo não diferia do mais acima e não havia mapa que nos ajudasse. Só mesmo um guia local nos podia levar a algum lado.
Vistas do céu, o seu aspecto era diferente. A mim, nas vezes em que andei lá por cima, sempre me pareceram como peladas no meio daquela imensidão de verde, numa sucessão caótica de espaços que apenas insinuavam cursos de água escondidos pela vegetação, hesitantes, sem direcção definida e descobrindo-se onde menos se esperava em fartas lagoas que reflectiam resplendorosas o azul intenso do céu.
Para o Barros, piloto da empresa de táxis aéreos do sul de Angola (TASA) que voava diariamente por sobre aquela imensa savana, todo aquele intrincado de chanas e linhas de água era como se fosse um mapa desenhado pela natureza. Conhecia cada palmo da savana e dizia-se que nunca usava as cartas e instrumentos de navegação para se orientar. Normalmente o percurso que fazia era sempre o mesmo: nuns dias descia ao longo do rio Cuito, noutras, quando nos trazia o correio, seguia, a partir de Serpa Pinto em direcção ao Cuito Cuanavale, tomava a direcção do Rio Lomba até ao Dima, seguia por Mavinga e enfiava direito à Neriquinha onde, ansiosos, o esperávamos duas vezes por semana. Depois, sobrevoava as chanas que se estendiam a oeste do Rio Cuando em direcção ao Rivungo. O percurso seguinte, de regresso a Serpa Pinto, já não nos interessava. Assim, se alguma vez o soube, o tempo lá se encarregou de o arrumar nos escaninhos mais profundos da memória, lugar de onde nunca mais saiu.
Mas isso era o Barros, qualquer outro piloto que por ali se aventurasse não podia dispensar a ajuda das cartas e do mais que, para o efeito, equipa os aviões. Certa vez, um piloto, novato e desconhecedor daquelas paragens, incumbido de levar até Serpa Pinto um engenheiro agrónomo que para ali se deslocara para tratar de assuntos da sua especialidade, levantou da pista do Rivungo com pouco combustível planeando reabastecer na Neriquinha, orientando o voo pela carta que reproduzia fielmente os rios, afluentes e riachos que se avistavam de lá de cima.
Havia, contudo, um problema; todas as cartas da região assinalavam aquela nossa precária e provisória residência como estando localizada nas margens do Rio Cuando, aí uns vinte quilómetros para leste, local então designado por Neriquinha-Velha onde apenas havia umas lavras, alguma população dispersa e quatro paredes quase desfeitas, verdadeiro esqueleto de uma casa que por ali existira. Ou seja, as cartas não conheciam a localização da nossa Neriquinha e, pelos vistos, aquele piloto também não.
Como é bom de ver, dirigira o avião para um local onde não poderia aterrar e, ao aperceber-se disso, terá pensado que se desviou do rumo. Deu uma volta, e mais outra sem nunca divisar a tão famigerada pista e na ânsia de a encontrar, desorientou-se e foi-se desviando cada vez mais do seu objectivo até não conseguir mais encaixar no mapa os recortes do terreno lá em baixo. Desatinou e deambulou pelos céus da savana até que se lhe esgotou o combustível sem que tivesse divisado o seu objectivo.
Nem discernimento teve para procurar uma chana seca. Acabou por amarar no meio do capim alagado, ali logo ao lado de um acampamento inimigo que tínhamos destruído um par de meses antes, muito longe do seu destino inicial.
Tirando umas escoriações, todos saíram ilesos da queda, mas deambularam por aquelas matas durante três dias antes que fossem encontrados por um PV2 da força aérea quando, depois de ter passado a pente fino toda a região estava prestes a desistir. É caso para dizer que não morreram da queda mas iam morrendo de fome.
A carcaça do avião, essa, foi recuperada, mais tarde, numa espantosa aventura chefiada pelo furriel Leitão. Mas isso já eu contei aqui.


terça-feira, 1 de novembro de 2011

O resgate da avioneta

O Cuando Cubango, pelo menos no espaço que vai do Kuito Cuanavale até ao Luiana, é dominado pela savana. São extensões a perder de vista de uma paisagem plana e monótona, caracterizada por uma vegetação pouco densa, onde as chanas constituem clareiras extensas, maioritariamente atravessadas pelos inúmeros cursos de água que se passeiam indolentes sem rumo definido num terreno isento de pontos de referência.
Vista de cima, cada chana parece igual a todas as demais e as poucas particularidades que as diferenciam raramente servem de orientação a quem quer que por ali se aventure. Por esse facto, sobrevoar aquele território obriga à utilização dos instrumentos necessários à orientação do voo.
Naquele tempo, o Barros, piloto da TASA, seria o único que se atrevia a dispensar essas sofisticadas modernices. Trazendo-nos o correio duas vezes por semana, conhecia a savana como a palma das suas mãos, sabia de cor e salteado as chanas que se sucediam desde o início do percurso até à ultima e mais remota localidade e era capaz de identificar exactamente quais as clareiras onde poderia aterrar o seu pequeno Cessna em segurança, se fosse caso disso.
Mas isso era o Barros. Qualquer outro que cruzasse os ares da savana tinha de saber utilizar os instrumentos de navegação, caso contrário, o risco de se perder era real. E foi isso exactamente o que aconteceu. Certo dia, não sei como nem porquê, um pequeno monomotor pertencente a uma pequena companhia de táxis aéreos de Serpa Pinto, pilotado por um novato naquelas andanças, levantou do Rivungo com destino à Neriquinha. Consigo trazia dois passageiros, um deles, o Camassango, técnico para as questões da agricultura que, finda a sua comissão no Rivungo, regressava a Serpa Pinto.
O piloto orientou o pequeno avião na direcção nor-noroeste, seguindo à vista as chanas que se sucediam, as quais, de acordo com o mapa que tinha à sua frente, indicariam a direcção da Neriquinha. Mas, por razões que desconheço, foi-se desviando pouco a pouco do rumo certo. Crê-se que por alturas do Cúbia, inclinou ligeiramente o avião em direcção a oeste e sem se dar conta do engano passou a sobrevoar uma sucessão de chanas que o foram afastando do rumo que pretendia seguir até que se viu perdido. Andando em círculos, sobrevoou o rio Uefo, passou ao Dima e acredita-se que planou desorientado sobre os rios Capembe e Matungo até que, esgotado o combustível, acabou por se despenhar nas chanas alagadas do Utembo, quase no limite da nossa área de intervenção, alguns quilómetros a sul do local que denomináramos de esquadrão, por ali ter estado instalada uma base inimiga por nós destruída alguns meses antes, numa operação de grande envergadura.
Foi pedida ajuda à Força Aérea que disponibilizou um velho PV2, a empresa proprietária do aparelho destacou duas pequenas aeronaves, assentaram as bases na Neriquinha e lançaram-se na busca dos destroços do avião sinistrado, varrendo toda a área possível e vasculhando lá dos céus cada recanto da savana.
Só ao fim do terceiro dia de buscas, o PV2 avistou os três ocupantes do pequeno avião, deambulando perdidos numa clareira e que entretanto, quase mortos de fome e cansaço, se haviam afastado bastante do sítio onde tinham caído. Foram lançadas rações de combate que os três devoraram com sofreguidão acabando por serem recolhidos pouco tempo depois por um helicóptero da Força Aérea que os trouxe para a segurança da Neriquinha.
Fui esperá-los à pista. Conhecia bem o Camassango, pelo menos o suficiente para estar preocupado. Ao menos queria saber se estava bem. Coxeava ligeiramente, tinha umas quantas nódoas negras, uns arranhões, mas não tinha nenhum osso partido nem ferimentos graves. Em boa verdade, os três, para além do grande susto, apenas foram atormentados pela fome já que, água, havia em abundância, especialmente naquela época do ano. Estavam todos sujos, a roupa mal tratada, apresentavam um ar cansado e nitidamente empalidecido. Três dias sem comer tinham deixado as suas marcas. Ao longo dos dias em que deambularam pela mata, ainda tentaram apanhar a única coisa que lhes apareceu pela frente; uma espécie de ratazana que costumava escavar pequenos túneis nas bermas das chanas e a que nunca demos importância. Pelos vistos não chegaram a apanhar nenhuma e água foi a única coisa que conseguiram ingerir ao longo de todo o tempo que andaram perdidos.
Agora, passado o pior, importava recuperar a carcaça da pequena avioneta. Não era conveniente deixá-la ali e os seus donos faziam questão de a reaver. Não ficara muito danificada e a sua reparação mais do que se justificava.
O problema residia apenas na forma de arrancar o avião do sítio onde estava e trazê-lo até à Neriquinha, tarefa que nos foi confiada. Com efeito, o local era distante e de difícil acesso mas a nossa companhia era a única que teria condições de lá chegar, não obstante o único equipamento disponível se resumir às berliet’s, sem dúvida o único meio de transporte capaz de levar a cabo a missão, embora nos parecesse serem um pouco curtas para o efeito. Transportar um avião acidentado às costas daquelas viaturas, pelos percursos sinuosos da savana, não seria pêra doce.
Para a operação foi designado o furriel Leitão à frente de um grupo de homens do seu pelotão o que o deixou furioso. Pouco tempo antes, todo o seu grupo de combate, chefiado pelo alferes Aranha, estivera envolvido numa das operações mais difíceis da companhia, levada a cabo lá para os lados do Tossi e que tivera como objectivo perseguir o grupo do Kuenho que, um dia antes, emboscara e matara doze GE’s dos grupos de Mavinga e da N’Riquinha, no qual se incluía o nosso Fulay. E, exactamente por isso, ter de alinhar de novo, não agradou ao Leitão.
Ficou furioso, perdeu a sua costumeira postura pacífica e resolveu questionar o capitão. Procurámos acalmá-lo, dissuadi-lo, apresentando argumentos, justificações, pontos de vista. Até se tentou encontrar as razões que teriam levado o capitão a escolhê-lo. Mas nada parecia acalmá-lo, ripostando irado com uma espécie de jargão muito seu, que usava quando discordava de qualquer coisa.
- Não há nem meio !
Nitidamente exaltado caminhou em direcção ao gabinete do capitão decidido a levar avante a contestação, esquecendo-se que, na tropa, ordens não se discutem. Mas de nada lhe valeu refilar. Parece que efectivamente não havia outra escolha. Conformou-se, acatou a ordem, preparou a equipa à qual foram afectos dois mecânicos, um enfermeiro e um rádio-transmissões. Carregaram duas berliets com ferramenta, cordas, dois bidões de gasóleo, lanças de reboque e tudo o mais que se pensou poder vir a ser necessário e lá partiram, determinados a trazer a carcaça acidentada, custasse o que custasse.
Saíram, bem cedo, muito antes do sol nascer, seguindo em direcção às pontes do Cúbia, tomando depois a picada por nós aberta nas idas ao esquadrão e continuando para montante ao longo do percurso irregular e sinuoso do Cúbia.
Rodaram durante todo o dia, chegaram às chanas do Dima e continuaram para sul ultrapassando os limites já nossos conhecidos e que havíamos palmilhado aquando das incursões para os lados do esquadrão, mas agora prosseguindo a corta mato, abrindo nova picada sobre as orientações do guia, até à zona mais a sul do rio Dima.
De acordo com a informação passada pela Força Aérea, sabia-se que o avião estava semi-submerso e admitia-se que esse factor viesse a dificultar a sua recuperação. Não se conhecia a zona nem os eventuais obstáculos à progressão das viaturas, sua extensão e forma de os contornar. É que, visto de cima, tudo parecia fácil e acessível. Cá em baixo, a vegetação esconde os acidentes do terreno, as armadilhas das chanas pantanosas, os lamaçais disfarçados, os acidentes de terreno que as viaturas não conseguem vencer e os pequenos cursos de água difíceis de rodear. Ali não havia pedras ou terreno consistente; apenas areia, charcos e lodaçais.
Estávamos no tempo das chuvas e as chanas estavam alagadas, perigosas, aconselhando a rodar com as devidas cautelas e distâncias. Qualquer percurso mais baixo e fora do arvoredo podia ser uma armadilha lamacenta para as viaturas. Mas, ao fim de algum tempo e, creio, alguma persistência e com os preciosos conhecimentos do guia, lá encontraram o pequeno monomotor, meio submerso numa extensa chana alagada, algures já nos domínios do rio Utembo.
Tirá-lo dali e carregá-lo sobre uma das berliets, era agora o problema a solucionar. Não sei exactamente como o fizeram, mas lembro-me do Leitão ter contado que o pessoal livrou-se de camisas e peças de roupa inúteis, entrou naquela imensidão de água acumulada pelas recentes chuvas e que o desabrochar do capim verde fazia lembrar um extenso arrozal, desmontaram as asas, puxaram o resto da carlinga à força de braços e alguma imaginação, encaixaram sobre a carroçaria os restos do avião e encetaram a viagem de regresso, seguindo em sentido inverso o mesmo percurso sinuoso de volta à Neriquinha.
Foi com algum alívio que os vimos surgir, ao longe, envoltos numa nuvem de pó por entre a erva verde que bordejava a chana. Na verdade, não os esperávamos tão cedo, já que se admitia que o desconhecimento da zona e a esperada dificuldade em chegar ao local os retardasse mais algum tempo. Pelo menos e não apenas por mera precaução, tinham carregado mantimentos para mais uns dias.
Mas pelos vistos, tudo terá corrido pelo melhor. Estavam de regresso mais cedo do que o esperado, o que significava que afinal as dificuldades encontradas não foram tantas quantas as esperadas. Ouvi o Leitão referir que encontraram rapidamente o avião, bem visível a escassas dezenas de metros da orla da mata, semi-submerso numa zona alagada mas de pouca profundidade.
A curiosidade levou-me até junto dos recém chegados que, com ar visivelmente cansado se apeavam das viaturas. Sobre uma delas, com parte da cauda suspensa a sobrar da carroçaria nitidamente mais curta, lá vinha a carlinga amarelada do pequeno avião, desmembrado e inerte, mas pouco amachucado face ao que seria de esperar. Com efeito, parece que a água amorteceu a queda e as asas, arrumadas lateralmente apenas tinham sido separadas para possibilitar o transporte. Compreendia-se agora a razão pela qual os três ocupantes não apresentavam ferimentos de monta. Na verdade foi mais o susto que outra coisa.
O pequeno avião, sem asas, ali ficou por uns tempos, arrumado a um canto, umas duas semanas ou mais, até chegar um Nord Atlas da Força Aérea que o levou. Deu algum trabalho enfiá-lo na carlinga barriguda do Nord. Disso lembro-me perfeitamente. Um avião metido dentro de outro é a curiosa imagem que retenho.
Fiquei a ver o Nord correndo pela pista até levantar voo naquele movimento pesado a que semanalmente assistíamos desde que ali chegámos. Mas desta vez, passou-me pela cabeça uma imagem a fazer lembrar uma cena de canibalismo. O barriga de ginguba levava no seu ventre outro da sua raça. Só que mais pequeno.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O ESQUADRÃO

Estou convencido que, durante os mais de dezoito meses que a 3441 esteve na Neriquinha, devemos ter andado por locais que provavelmente nunca antes tinham sido pisados por brancos, fossem eles tropas ou civis.
O esquadrão foi um desses locais.
Não retenho exactamente como surgiu o nome, mas não andarei longe da verdade se disser que foi assim baptizado por ali ter sido localizada uma base inimiga enquadrada por um grupo de guerrilheiros. Esquadrão seria provavelmente a designação atribuída à formação, já que o termo não se enquadrava na estrutura do exército português.
Como é natural, não havia picada até lá e não teria sentido que houvesse. Normalmente as bases inimigas para além de móveis, estariam em locais tão distantes e inacessíveis que passariam despercebidas e por isso a salvo das investidas das nossas tropas.
De qualquer forma, a base foi detectada. Identificada a sua posição exacta logo foi preparada uma grande operação levada a cabo pela 3441 com o objectivo de desalojar os insurrectos e destruir as respectivas instalações. A operação, de considerável dimensão, implicou o envolvimento do grosso do efectivo da nossa companhia, incluindo mais de metade do meu pelotão então estacionado no Rivungo, um reforço da companhia de Mavinga e dois T6 da Força Aérea para o bombardeamento prévio.
Foi uma operação condimentada com episódios que marcaram aqueles que nela participaram, a começar pela autêntica aventura que foi o transporte até ás imediações do local, exigindo o necessário recurso a um guia que, conhecendo bem o trajecto, levou as berliets a corta-mato através de uma mata sem picadas ou caminhos e despida de pontos de referência.
Não participei nesta operação cabendo-me a menos ingrata tarefa de, com uma guarnição reduzida, garantir a segurança das nossas instalações do Rivungo já que o Capitão não quis dispensar o contributo do alferes Fausto.
Mas contaram-me que o assalto foi comandado pelo alferes Torres, à frente de um grupo de voluntários onde se incluía o doido do furriel Silva. Consta que, dada a ordem de ataque, após o bombardeamento prévio pelos dois T6, o grupo de assalto avançou decidido contra a base inimiga. O Silva aperrou a G3, descavilhou uma granada com os dentes e desatou a correr como um doido gritando:
-Ao ataque!!
Por sorte, os guerrilheiros não teriam condições de nos fazer frente. A posição estratégica do acampamento ter-lhes-á permitido detectar a aproximação da tropa com antecedência e optaram por desaparecer das imediações sem deixar rasto ou qualquer dos equipamentos que pudessem ali ter. A verdade é que o grupo de assalto irrompeu por entre trincheiras vazias sem encontrar vivalma ou o que quer que lhes pudesse fazer frente.
Incendiaram as cubatas, destruíram o que havia para destruir, retirou-se a tropa e com ela toda a parafernália de guerra, ficando de novo o local no mais completo sossego.
Passaram-se meses sobre a grande operação. Importava agora certificarmo-nos que a base inimiga não voltara a ser ocupada e se fosse caso disso, desalojá-los de novo do local.
Para a tarefa, foram destacados dois grupos de combate: o meu, com o alferes Fausto à frente e o do Alferes Correia. Só que desta vez sem a necessidade de apoio da Força Aérea. Apenas duas berliets para o transporte.
Saímos da Neriquinha bem cedo apinhados sobre as carroçarias desconfortáveis das viaturas, em direcção às pontes do Rio Cúbia. Aí chegados, em vez de se voltar à esquerda pelo caminho que levava ao Rivungo, seguiu-se em frente penetrando bem no coração da Savana por uma picada ainda desconhecida para mim, atravessando matas e chanas, ora lavrando areia numa marcha lenta feita gincana por entre as árvores, ora enterrando-se nos troços pantanosos que bordejavam cursos de água alimentados pelas chuvas persistentes da época, largando-nos finalmente, longas horas depois, nas imediações do objectivo, mas a uma considerável distância de segurança. Por razões óbvias o resto do percurso teria de ser feito a pé, com todos os cuidados e carregando aos ombros armamento e munições onde se incluía um morteirete e as suas pesadas granadas difíceis de transportar.
Aproximámo-nos da orla da mata sem sair da camuflagem propiciada pelas árvores que bordejavam uma extensa chana que se estendia à nossa frente. Algures por ali corria o Rio Dima, designação inscrita no mapa mas cujo caudal não se divisava por entre o capim rasteiro. Na outra margem, um pouco mais a sul, escondido algures entre a mata, estaria o nosso objectivo.
Atravessar ali era impensável. Se a base inimiga estivesse de novo guarnecida, seríamos vistos à légua e bastaria fazer tiro ao alvo no meio do descampado da chana, a que acrescia o risco de nos enterrarmos no pântano formado pelo Dima, cujo caudal por mais fraco que fosse, por ali correria certamente embora não se visse onde.
Discutiu-se a melhor forma de atingir o outro lado sem sermos antecipadamente detectados. Consultando o mapa, dava para ver que o Dima era pouco extenso. A sua nascente não seria muito afastada, se bem que nascente fosse um termo demasiado pomposo para a maioria dos rios que rasgavam a savana de forma irregular e desordenada. Este seria certamente um daquelas cujo curso era alimentado pelas escorrências da água das chuvas que se infiltrava por entre as areias porosas. Era quase certo desaparecer parcialmente durante a época seca.
Fosse como fosse, a prudência aconselhava a contornar o descampado, caminhando para norte de forma a rodear a linha que limitava a chana. Avançámos procurando nunca sair da camuflagem que as árvores propiciavam, seguindo em direcção oposta ao nosso objectivo, numa caminhada que parecia não acabar. Afinal aquela linha de água tinha o seu início bem mais acima do que o mapa parecia supor.
Após contornada aquela espécie de nascente constituída pela meia-lua que iniciava a chana despida de árvores que definia os domínios do Rio Dima, descemos pela margem oposta, apenas parando muito perto do nosso objectivo, quando a noite já quase se instalara.
Acomodámo-nos o melhor possível sob o peso da proximidade da base inimiga e procurei adormecer atormentado pela dúvida sobre o que nos esperava. Teria o inimigo dado pela nossa aproximação? É verdade, que durante todo o tempo, não houve sinais do que quer que fosse que o pudesse confirmar, mas: e se estivessem à espera que adormecêssemos?
O pessoal espalhou-se o mais possível, sem contudo perder o contacto uns com os outros, no meio de um silêncio absoluto. As latas da ração foram abertas com mil cuidados, nem um tilintar se ouviu. Acendiam-se os cigarros à socapa e sorvia-se o fumo debaixo do poncho para que a chama não nos denunciasse.
O dia “D” amanheceu frio e húmido, com uma ligeira neblina que se manteve até o dia clarear. Iniciaram-se os preparativos, recapitularam-se os planos, foram dadas as últimas ordens e cada um tomou o seu lugar de acordo com a estratégia definida. O Silva, como de costume, oferecera-se para comandar o grupo de assalto, constituído por um punhado de homens que arregimentou.
Fiquei a vê-los à medida que avançavam pela mata, sem hesitação, como se soubessem exactamente para onde ir, desaparecendo rapidamente das nossas vistas confundindo-se com a vegetação em direcção ao objectivo camuflado algures por ali um pouco mais abaixo.
Posicionado estrategicamente, o restante efectivo aguardava o desenrolar da operação, pronto para entrar em acção assim que se ouvissem os primeiros tiros. Passaram-se alguns minutos que pareceram uma eternidade sem que se ouvisse o que quer que fosse. O silêncio marcava o compasso das batidas descontroladas do coração, acompanhadas de um mal disfarçado tremor aumentado pelo frio desagradável da manhã. O dia ainda não clareara totalmente e os corpos entorpecidos pela noite mal dormida ainda não tinham tido tempo de aquecer.
Mas nada aconteceu. Lá da frente vinha a informação de que o local estava tão deserto como o resto da mata em redor. O silêncio foi quebrado, os nervos serenaram, voltaram os sorrisos e ouviram-se desabafos aqui e ali. Descontraídos mas ainda assim com atenção a tudo o que nos rodeava, avançámos continuando a rodear o local não fosse estarem emboscados algures à nossa espera.
Mas não. Ninguém nos esperava, nem ali nem mais longe. Na verdade era bem visível que por ali não passara vivalma nos últimos meses. Olhei à volta. O local, instalado estrategicamente num ligeiro declive, distava uns quinhentos metros do perímetro da chana, escondido entre as árvores e suficientemente perto de uma grande lagoa de águas cristalinas. As trincheiras, se bem que parcialmente assoreadas pela areia solta, estavam distribuídas desordenadamente, mas de forma a tocaram os esqueletos das cubatas queimadas e dispersas pelo terreno. Constituíam de facto uma eficaz protecção, mesmo ali à mão.
Sentei-me sobre um tronco avaliando o local. Parecia-me estranho e de certa forma desnecessário o trabalho que tiveram em escavar aquelas valas feitas trincheiras. De facto, quando os atacámos da outra vez, debandaram com antecedência suficiente e nunca mais ali voltaram. Trabalho inútil, pensei. A não ser que apenas servissem como protecção de recurso em ataques de surpresa.
Olhei em volta e imaginei o Silva, meses antes, a correr por ali acima, feito doido, com a granada na mão e cavilha entre os dentes. Se tropeçasse ou fosse atingido, a explosão da granada seria inevitável e mataria alguns dos seus companheiros. Talvez por isso, desta vez, foi mais comedido na forma como avançou. Sem grande alarido, com cuidado mas, ainda assim, de forma decidida, como se fosse algo a que já estivesse habituado a fazer.
Saímos rapidamente dali. Permanecer seria arriscado. A posição era conhecida pelo inimigo e a possibilidade de um bombardeamento à distância não podia ser descurada.
Avançamos para sul, patrulhámos as margens do rio e procuraram-se possíveis sinais da presença dos guerrilheiros. Apenas se encontraram carreiros mas quase cobertos pelas ervas, sinal evidente que a sua utilização era nula ou então esporádica.
Parecia óbvio que o local fora totalmente abandonado. Provavelmente tinham como estratégia não voltar a ocupar instalações que tivessem sido identificados pela tropa. Se era essa a estratégia, revelavam inteligência. Da nossa parte, cumprimos a missão obrigando-os a procurar outro poiso, mais longe, ou mais bem camuflado. Contudo, ficou-me uma espécie de certeza de que todo o trabalho, todo o cuidado colocado na preparação da primeira operação e o retorno ao local meses depois, desalojou os guerrilheiros daquele local, mas provavelmente não causou qualquer embaraço na sua logística e capacidades de resistência.
Mais descontraídos, descansados e inebriados pela beleza agreste do local, encetámos o caminho de regresso ao ponto onde seríamos recolhidos pelas viaturas. Mas nunca seguindo pelo mesmo caminho, seria penoso demais. Atravessaríamos o Dima a direito, mesmo sem sabermos ainda se era possível o seu atravessamento ou não. Parecia que sim, já que naquele local apenas se via o capim rasteiro da chana. Contudo ainda nos estava reservada uma surpresa. Já quase perto da outra margem, aquela que pretendíamos alcançar, a chana plana e transitável deu lugar a uma zona totalmente alagada com uma profundidade de água considerável embora com largura não superior a dois metros e pouco. Afinal, os turras não escolheram o local à toa para a instalação da sua base. Sabiam bem que o atravessamento ali, a direito, era complicado e moroso. Chegar às imediações das improvisadas instalações, vindo do outro lado, implicava um percurso curto mas difícil de vencer ou um trajecto seco, mas longo e penoso. Quer se utilizasse um ou outro, facilmente seríamos detectados com considerável antecedência. A suficiente para decidirem se seria melhor fugir ou resistir. Foi certamente o que aconteceu da primeira vez.
A travessia naquele local, contudo, já bem perto do lado de cá, acabou por ser divertida, Arranjou-se um tronco que serviu como ponte molha-pés e alguns aproveitaram para se refrescarem, despindo-se, entrando na água e ajudando um a um na travessia. O pior veio depois. As sanguessugas, abundantes no lodaçal, agarram-se firmemente às nossas pernas, obrigando a um trabalho de paciência para as arrancar.
O regresso transformou-se numa viagem quase interminável. A chuva abundante e persistente não nos deu tréguas, arrefecendo os nossos corpos encharcados e permanentemente sacudidos pelas irregularidades do piso. Quando finalmente atingimos as já familiares pontes do Cúbia, não obstante ainda a cerca de um par de horas do aconchego da Neriquinha, a sensação de alívio era óbvia. Dali para a frente era caminho conhecido e em menos de um nada estaríamos de novo ao abrigo do arame farpado. Cada bocado das nossas vidas passado na mata, enfrentando intempéries, dormindo à chuva e ao relento, algures numa hostil terra de ninguém, contribuía cada vez mais para transformar a Neriquinha num sítio onde se podia viver. Quase aprazível.
Um duche, uma refeição quente e uma cama, eram um luxo quando comparados com o desconforto dos últimos quatro dias.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ATASCADOS


Alguns meses haviam já decorrido desde as últimas chuvas e os grandes lençóis de água que invadiam as chanas tinham recuado até ao curso principal das linhas de água escondidas no meio da vegetação.
O capim começara a amarelecer e o cacimbo tomara conta das noites, cobrindo a savana com uma neblina branca e fria que nos gelava até aos ossos, embora durante o dia se continuasse a sufocar de calor sob a acção impiedosa do sol agora liberto da acção refrescante das chuvas. Tiritava-se de frio durante a noite, destilava-se desde o nascer ao pôr-do-sol, acrescentava-se uma manta à roupa da cama e nas saídas para a mata substituía-se o poncho por umas camisolas grossas.
Começava o tempo das espectaculares trovoadas secas de onde se desprendiam faíscas que, quais cenários dantescos, riscavam o céu, ateavam gigantescas queimadas que consumiam o mato ressequido e pintavam a paisagem de negro cinza, deixando o ar impregnado com um cheiro intenso e obrigando os animais selvagens a abandonar a segurança das matas à cata da erva que apenas se mantinha verde na humidade perene das chanas.
Era o tempo dos contrastes e das suas impensáveis amplitudes térmicas que desorganizava o nosso metabolismo, condicionava o comportamento e baralhava as mentes dos mais susceptíveis.
- Passou-se!
Dizia-se, perante a descoberta do verdadeiro significado do termo cacimbado.
Na mata, os sulcos das picadas até então endurecidos pela acção das chuvas, apresentavam-se agora como regos de areia seca, solta, sem consistência, onde os pneus das viaturas se enterravam dificultando a marcha e exercendo um efeito arrasador no material. Inversamente, as picadas que corriam junto às chanas ou que as atravessavam, emergiam da lama pantanosa, secavam e endureciam tornando-se transitáveis, situação que brevemente iria experimentar já que fora incumbido de chefiar mais uma missão de reabastecimento ao Rivungo e kimbos existentes no percurso.
As duas berliets foram carregadas com cerveja, refrigerantes, tabaco, géneros alimentícios vários e outras tralhas, para além de dois bidões que tinham lugar cativo sobre cada uma das viaturas: um com gasóleo e outro com água para alimentar a sede permanente dos radiadores.
Como de costume, partimos a meio da madrugada começando o dia a clarear já por alturas das pontes do rio Cúbia, que nesta altura do ano se transformara numa espécie de charco escondido no meio do descampado entre os caniços e o capim amarelecido.
Dali até ao Liahona, a picada tinha vários traçados, uns atravessando a chana, outros serpenteando por entre as árvores. A escolha de qual seguir dependia da época do ano. Durante as chuvas, as chanas transformavam-se em zonas pantanosas, sendo mais seguro utilizar os percursos que trilhavam caminho seco. Mas no tempo do cacimbo a areia solta era um martírio para os motores sendo preferível o caminho das chanas.
Escolhemos o percurso da mata, mais lento e sinuoso, já que o convidativo trajecto pela chana ainda não nos merecia confiança. Afinal as águas só há pouco tempo haviam desaparecido e não nos pareceu que já tivesse decorrido tempo suficiente para que secassem convenientemente, ganhando a consistência necessária.
Fosse como fosse, o percurso correu sem incidentes de maior, atingindo-se o Liahona por volta de meio da manhã, sob um calor tórrido que a ausência de chuva tornava ainda mais insuportável.
O Liahona, mais ou menos a meio caminho do Rivungo, era para nós como uma espécie de entreposto. Por breves minutos descansava-se o corpo, dava-se uma folga aos motores das berliets e lavava-se o pó da garganta.
Disso se encarregava o Alexandre, um guarda da PSP ali colocado e com quem, durante o tempo em que estivera no Rivungo, consolidara uma amizade séria. Assim que divisava as viaturas a aproximarem-se na orla da mata, preparava duas cervejas e com uma em cada mão, aguardava-nos resguardado à sombra do beiral de colmo da cubata que constituía as instalações que ocupavam.
- Bom dia.
Saudou efusivamente ao mesmo tempo que me estendia uma das garrafas.
- Parece que está calor!
Brincava, perante a sofreguidão com que, de um só golo, engoli o líquido.
- Estas cervejas são as mais saborosas que alguma vez bebi.
Retorqui.
- Olhe que não as fabricamos cá … são vocês que as trazem.
Gracejou ao mesmo tempo que me entregava a segunda cerveja recebendo de volta a garrafa vazia da primeira.
De facto, nunca antes uma cerveja me soubera tão bem como aquela. Não estava nem fria, nem quente. Na circunstância, depois de horas debaixo de um calor de fornalha, a cerveja transformara-se num néctar delicioso. Simplesmente perfeita.
Naquele sítio não havia frigoríficos. O sistema de refrigeração consistia numa barrica enterrada no solo, num local à sombra, que se enchia de água e carvão vegetal, mergulhando-se ali as cervejas. Retinha o frio da noite e nunca aquecia durante o dia.
A verdade é que a cerveja caiu como uma bênção, limpando a garganta ressequida e dissolvendo a saliva pastosa que quase colava a língua ao céu-da-boca.
Enquanto se descarregavam os mantimentos encomendados, conversava com o Alexandre à sombra do avançado da cobertura de colmo da cubata, degustando a cerveja e pondo em dia as novidades.
- Como está a picada até ao Mugamba? Inquiri.
- A população que ali passa todos os dias diz que está seca. Retorquiu.
O troço da picada que antecedia o Mugamba costumava estar alagado no tempo das chuvas. Passar por ali exigia perícia e muito cuidado, já que o trilho endurecido estava submerso. Viatura que saísse do seu curso atolava. Duas berliets estiveram ali atascadas durante dez dias, tendo sido preciso meio grupo de combate, muita imaginação, perícia e trabalho árduo para as tirar dali. Mas essa é outra história.
Feitas as despedidas com um simples até amanhã – na volta passaríamos de novo por ali – seguimos caminho em direcção à picada que, não estando propriamente seca era bem visível, tendo-se chegado ao Rivungo sem problemas, no horário previsto, depois das paragens obrigatórias no Mugamba e no Demba para mais umas cervejas, um pouco de conversa e entrega dos víveres encomendados.
Mas no regresso, as coisas não iriam correr tão bem. Percorrido já mais de metade do percurso de volta e deixado o Liahona para trás, despontámos no início das planícies do Rio Cúbia por volta de meio da manhã. Dali à Neriquinha era um saltinho, esperando-se lá chegar a tempo do almoço.
A picada que corria pela chana convidava a seguir por ela, especialmente porque na ida nos convencêramos de que já estaria perfeitamente seca e transitável.
- Vamos por aqui, furriel. Anunciou o condutor.
E sem esperar anuência, tomou o caminho que evitáramos à ida, logo seguido pela segunda viatura.
A decisão pareceu acertada. Libertos da resistência da areia solta, atingimos velocidades razoáveis e coisa rara, até foi possível, uma vez ou outra, engrenar a quarta velocidade. Àquele ritmo, rapidamente estaríamos debaixo do duche e bem a tempo do almoço que sabíamos estar à nossa espera.
Mas não seria assim. De repente, uma pequena depressão surge no trilho da picada. Parecia ter sido obra de um animal, provavelmente um javali. Costumavam escavar na terra húmida das chanas.
O condutor aconchegou o travão reduzindo a velocidade e desviou-se do buraco saindo ligeiramente do percurso. Foi o suficiente. Quando retomava o trilho, uma zona menos consistente cedeu, enterrando um dos pneus da frente. Com cuidado, guinando o volante, procurou que o pneu encontrasse terreno firme. Mas a manobra não resultou enterrando-se ainda mais. Engrenou a marcha-atrás tentando sair do buraco. Sem resultado. Uma segunda tentativa agravou mais a situação.
Felizmente havia a segunda viatura e estava ali mesmo atrás. Podíamos utilizá-la como reboque e sair dali para fora.
Saltámos das viaturas, lançamos mãos à obra e lá amarrámos a viatura de trás à da frente. O condutor engrenou a marcha-atrás e iniciou a manobra soltando a embraiagem devagar, com cuidado, doseando o acelerador de forma a evitar que resvalasse. A princípio a viatura atascada abanou, mas só isso. A resistência oferecida fez com que o terreno falsamente firme começasse a ceder quase deixando, por sua vez, a segunda viatura enterrada.
Desistiu-se da opção. Agora, o mais importante era libertar a segunda viatura, o que não foi difícil. Com efeito, desatrelada da da frente e liberta da resistência que esta oferecia, a viatura arrastou-se marcha-atrás, com alguma relutância, lavrando a terra com os quatro pneus semienterrados, até conseguir alcançar terreno firme.
Avaliámos a situação, estudámos estratégias, excluímos opções e concluímos que talvez resultasse se fosse puxada pela frente. Não se podendo passar por ali, a opção possível era recuar, voltar para trás um bom par de quilómetros, rodear a chana e utilizando a picada da mata, aparecer pela frente.
Tudo parecia correr bem. Não houve problemas na manobra de recuo e rapidamente a berliet desapareceu enquanto o pessoal se agarrava às pás e picaretas, recomeçando a retirar a lama à volta do pneu enterrado enquanto outros, munidos de machados, cortavam umas quantas árvores próximas para ajudar a livrar o pneu da lama que o prendia.
Mas, para surpresa minha, e quando esperava ver surgir a viatura pela frente, uma vez rodeada a chana, vejo-a aproximar-se devagar, como se tivesse desistido de dar a volta. Com efeito, quando já tinha recuado umas duas centenas de metros, o condutor (ou um dos homens que com ele seguiam) reparou que, paralelamente à picada onde estávamos, havia uma outra, pouco batida mas que parecia ser de terreno mais firme. Pelo menos estava mais afastada da parte baixa e corria por sobre uma ligeira elevação, no cimo da qual três ou quatro pequenas árvores, fazendo sentinela ao descampado, pareciam confirmar a consistência do terreno. Assim, pensaram que se seguissem por ali, evitariam dar uma volta tão grande, poupando tempo.
A ideia não era má. Se tudo corresse bem, dentro de quinze a vinte minutos o problema estaria resolvido. Contudo, aquilo que parecia um trilho seco, revelou-se uma armadilha. Logo ali ao lado, o terreno cedeu repentinamente enterrando os quatro pneus de uma assentada.
O desalento apoderou-se de todos. Num momento em que já se contava com o desatascanso, voltámos à estaca zero e agora numa situação agravada.
Pás, picaretas e machados foram de novo chamados à liça, voltando-se agora a atenção para a primeira viatura. Afinal, esta apenas tinha um pneu enterrado e se conseguíssemos tirá-lo dali seria agora esta a rebocar a outra.
Redobrou-se o esforço, cortaram-se mais árvores e definiram-se os ângulos de ataque à lama, convencidos de que agora seria de vez. A ideia era alargar o buraco, descobrir totalmente o pneu e calçar tudo à sua volta com toros de madeira de forma a obter-se uma consistência firme.
Debalde. A berliet negava-se a sair dali e a outra nem hipóteses tinha. Escaváramos à volta dos quatro pneus e entendia-se que seria suficiente um puxão da outra para a retirar da sua prisão.
Mas a tarde foi morrendo, o lusco-fusco tomando assento, as forças desaparecendo e a fome dando sinal nos estômagos vazios de todo o grupo. A noite acabou por cair sem que se tivesse avançado no que quer que fosse, acabando aos poucos por anular a já quase inexistente força anímica. No escuro, escavava-se por instinto e já sem convicção de que o esforço valeria a pena. Felizmente que o frio do cacimbo dizimara a maioria dos mosquitos. Não fora isso, naquele local pantanoso, comer-nos-iam vivos. Mesmo assim um ou outro mais resistente, ainda se atreveu a zunir-nos aos ouvidos.
Olhei à volta. A maior parte do grupo já denotava os efeitos do cansaço, da fome e do frio, sentados aqui e ali, sem nada dizerem.
Sem solução para o problema e sem rádio para comunicar, limitei-me a aguardar, olhando de quando em vez na direcção das pontes do Cúbia. A ajuda viria dali. Naqueles trajectos, estabelecera-se um sistema de controlo simples. A saída do Rivungo era comunicada via rádio. Na Neriquinha, calculavam o tempo da viagem, davam um desconto para qualquer contratempo e quando a demora parecesse ser excessiva saíam em nosso auxílio. E foi exactamente isso que aconteceu.
Aguardámos algum tempo que nos pareceu uma eternidade, até que, de repente, ao longe, surgindo do nada, o brilho tremeluzente de faróis progredindo na nossa direcção, animou toda a gente. Largaram-se as ferramentas, suspenderam-se os trabalhos em curso e voltaram os ânimos. O auxílio vinha já ali encavalitado num Unimog.
O Gabriel trazia comida (ração de combate) meia dúzia de homens com energia, um Unimog com força para puxar as berliets da sua prisão e alento para todos.
Enquanto devorávamos a ração de combate, o pessoal deitou mãos à obra. Em menos de um nada a viatura da frente foi arrancada do buraco onde a metêramos seguindo-se a segunda. Afinal o raciocínio inicial estava certo. Puxar pela frente era a manobra acertada. O erro apenas esteve na volta mais curta que a segunda berliet deu para se colocar em posição. Tivesse dado a volta pela picada mais afastada, mesmo demorando mais uns minutos e teríamos chegado, como previsto, a tempo do almoço.
Saímos dali e em pouco mais de um par de horas avistámos, no escuro da noite, o clarão das luzes da Neriqinha, que nos trouxe uma sensação reconfortante de segurança. Dali a nada, um duche revitalizador, uma cama macia e a protecção do arame farpado, reduziriam o caso a apenas mais um episódio a juntar a tantos outros.
Contudo, situações semelhantes, iguais ou parecidas, havíamos de ter muitas. Na verdade, quando dali saí, considerava-me um especialista em resolver problemas de carros atascados … … especialmente na areia.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A Savana - da Neriquinha ao Rivungo


Não houve tempo para explorar a Neriquinha. Para o meu grupo de combate, incumbido de render o grupo destacado no Rivungo, a viagem ainda não terminara. Comandado pelo alferes Fausto e coadjuvado por três furriéis (eu, o Duarte e o Silva) estava já preparado para partir, devidamente reforçado com os necessários especialistas: um cozinheiro, um enfermeiro, um radiotelegrafista, um transmissões, dois condutores e um corneteiro, somando o conjunto, cerca de 30 homens.
Engoli o almoço à pressa, apertei o cinturão, convenientemente apetrechado com cartucheiras, cantil e demais equipamento, agarrei na G3, atirei o saco com as tralhas para cima da berliet, tomei assento ao lado do Duarte, que já se instalara junto ao condutor e sob um sol inclemente, iniciámos a marcha em direcção à clareira que, parecendo dar continuidade à pista, apontava para sul.
As duas berliets rolavam uma atrás da outra, arrastando-se bamboleantes, numa marcha lenta, com os motores em esforço, lutando contra a falta de consistência do terreno arenoso que cedia facilmente sob o seu peso, vencendo penosamente cada metro de picada e sacudindo a sua carga, por efeito das irregularidades do terreno, que a dureza da suspensão não compensava, ameaçando cuspir quem não se agarrasse com firmeza. A picada, nome dado às únicas estradas que por ali existiam, reduzia-se a dois sulcos profundos, abertos pelos rodados das viaturas, num percurso sinuoso pela savana, ora penetrando na mata de árvores de pequeno porte, ora bordejando a zona não arborizada, normalmente alagada, a que os locais chamavam de chana.
Era o primeiro encontro com a temível picada e todo o conjunto envolvente, verdadeira materialização do teatro de operações que, até então, se limitara a uma antevisão imaginária de densas e perigosas matas, onde deveríamos aplicar as técnicas militares aprendidas, desde o rastejar à queda na máscara, passando da cambalhota em frente ao salto de peixe e toda a panóplia de artes destinadas a baralhar o inimigo. A realidade presente revelava-se diferente, onde cada momento, cada troço daquele cenário, constituía uma sucessão de quadros, desenrolando-se à nossa volta e trazendo novas sensações, novidades, temores, êxtase, certezas e incertezas de um mundo desconhecido que, dentro de algum tempo, se tornaria familiar. Nada se parecia com a tenebrosa mata que imaginara, cerrada, ameaçadora, escondendo mil e um perigos. Pelo contrário! Ali, tudo era plano. Nem a mais pequena elevação de terreno, morro ou encosta que pudesse acoitar o inimigo. Quanto à mata, o tipo de arvoredo deixava ver nitidamente a uma distância razoável para o seu interior, reduzindo os meus temores. Apenas o capim me preocupava. Esta vulgar erva africana crescia viçosamente por todo o terreno como seara verde, atingindo com frequência altura superior à de um homem, podendo perfeitamente esconder um mundo de gente sem que se desse por isso.
Esquadrinhava cada pormenor, num misto de curiosidade e apreensão, procurando, por um lado, identificar a eventual ameaça e por outro, desfrutar de um cenário sem igual. Ora tenso, ora descontraído, embora não pensando seriamente na iminência de um ataque, agarrava firmemente a G3, bala na câmara, pronta a disparar, não fosse o diabo tecê-las. Ao meu lado, o Duarte não ia mais descontraído. Pelo menos agarrava a arma com convicção idêntica, muito embora não se vissem condições, no acidentado do terreno, que fizessem lembrar as características que, durante a instrução, aprendêramos a identificar como as que poderiam esconder uma emboscada.
A região, encalacrada entre dois grandes desertos africanos (o Kalaari de um lado e o de Moçâmedes do outro) era marcada pelas suas influências. O terreno, para além de plano, era irritantemente arenoso, definindo uma paisagem de savana que se impunha de forma evidente. Por ali, nem sequer um seixo do tamanho de um caroço de azeitona podia ser encontrado. Quanto ao resto, imperava o clima tropical, caracterizado por ter duas estações no ano: a das chuvas, quente e húmida e a do cacimbo, nome herdado da neblina que, na época seca, invadia a região e que durante a noite, especialmente sobre a madrugada, fazia baixar a temperatura ao ponto de congelar as gotas do orvalho. Aliás, as gélidas noites do cacimbo, contrastando com a canícula que se fazia sentir durante todo o dia, desde a aurora até para lá do ocaso, determinavam amplitudes térmicas impensáveis, próprias dos desertos africanos.
Castigados pelo sol inclemente, empapados em suor, ao qual se colava o pó fininho e escuro que nos envolvia, já levávamos mais de duas horas de sacudidelas por uma picada paralela à chana que, espraiando-se à nossa direita, definia os limites do domínio do rio Cúbia, cujo caudal, disfarçado no meio da vegetação, alimentava o assomo de pântano à sua volta.
As pontes do Cúbia, ponto de referência no trajecto entre a Neriquinha e o Rivungo, constituindo o único local de passagem para a outra margem, não era mais do que um amontoado de terra despejada sobre a zona alagada, formando uma espécie de barreira, no topo da qual, o tempo deixou que se formasse uma picada irregular. Ponte propriamente dita, apenas dois curtos e estreitos pontões em cimento, construídos sobre a única parte em que o Cúbia deixava ver o seu tímido caudal, cujo volume crescia significativamente na época das chuvas. Era a existência destes dois tabuleiros, construídos alguns meses antes,que justificava o facto de o local ser conhecido por pontes do Cúbia, no plural.
Por razões de segurança, (na altura, não descortinei se da ponte, se nossa em caso de ataque) a passagem por este caminho tinha de ser feita a pé. As viaturas passariam vazias e sempre devagar.
A chana do Cúbia, aumentada na sua extensão e povoada aqui e ali de manadas de animais semelhantes a grandes gazelas que pastavam saltitando dentro de água, alargava-se agora do lado esquerdo da picada.
- São songs.
Gritou o condutor, procurando sobrepor a sua voz ao barulho da berliet.
- A sua carne é excelente.
Acrescentou, para de seguida concluir.
- O pior é que só as podemos atingir no meio da água e é quase impossível ir lá buscá-las.
- Há por aqui muita caça?
Perguntei, apenas movido pela curiosidade.
- Sim, muita e variada, mas nesta altura do ano, está enfiada na mata.
- Não percebo!
Retorqui.
- Com as chuvas, há muita erva no interior da mata e os animais não precisam vir comer às chanas, onde normalmente há pasto todo ao ano.
Esclareceu.
Estávamos em Novembro, época das chuvas, não demorando muito até que começasse a chover, assim, de repente, sem aviso prévio e sem pedir licença, uma chuva diluviana, intensa, como se baldes de água fossem continuamente despejados do céu, criando uma cortina de água que apenas deixava ver alguns metros adiante. Em África é assim; num momento, impera um sol abrasador e no momento seguinte, chove a cântaros. Para nos proteger, apenas o poncho, já que, por ali, as viaturas não tinham nem pára-brisas nem tejadilho e até o capô, sobre o motor, tinha sido retirado, como forma de minimizar o seu aquecimento, levado ao máximo pelo esforço necessário para vencer a resistência daquele terreno de areia.
O Duarte, a meu lado, desabafava agastado, por não conseguir acender o cigarro que insistia em não largar mesmo debaixo daquele mundo de água. Até então, fumara cigarro após cigarro, sem os tirar da boca. As mãos, mantinha-as ocupadas a segurar a G3. Quanto ao poncho, um impermeável militar eficaz, apenas nos protegia da cintura para cima. Com a água a escorrer por todos os lados, era como se estivéssemos sentados sobre um charco. Mas isso não era o pior. A água que se ia acumulando no sulco trilhado pelas viaturas, misturada com a areia e lama da picada, era impelida para cima por acção do chapinhar dos pneus e acto contínuo, aspergida contra a nossa cara pelas pás da ventoinha, borrifando-nos generosamente com uma espécie de polme lamacento, com uma frequência irritante.
Caiu a noite, ainda mal vencêramos metade do percurso, transformando a paisagem, num escuro pesado, adensado pela persistente chuva, apenas deixando ver fugidias sombras projectadas pelos faróis.
- Uma emboscada agora, tramava-nos.
Atirou o Duarte, deixando talvez sair o temor que lhe ia na alma.
- Não creio, os turras têm medo da chuva.
Respondi, tentando gracejar.
- Achas? A esta velocidade, basta apontarem um pouco acima dos faróis e acertam-nos.
Insistiu.
- O que eu acho é que, se nós não vemos nada nesta escuridão, eles também não.
Referi, procurando justificar o meu ponto de vista.
- Tanto mais que o Castanheira e os condutores, que já cá andam há muito, parecem perfeitamente descontraídos.
Rematei.
O Castanheira era o Furriel da outra companhia, que fora incumbido de nos levar ao destino e claro, ao volante, estavam condutores dos velhinhos. Na volta, era necessário trazer o pessoal que estava no Rivungo e os nossos ainda não conheciam os itinerários.
Mais ou menos para lá de metade do percurso, uma breve paragem para uma apresentação dos agentes da PSP que, para surpresa minha, tinham por missão a defesa e apoio das populações autóctones que habitavam os três Kimbos por ali localizados: o Liahona, no outro extremo de uma extensa chana alagada, seguido, a uma distância razoável, do Mugamba e finalmente o Demba, pequenos aldeamentos constituídos por aglomerados de cubatas de capim, isolados no meio do mato. A noite, que entretanto caíra, não deixara perceber a insegurança e precariedade em que viviam aqueles agentes da autoridade (dois em cada kimbo) já que a população, vivendo no seu meio e não conhecendo outro mundo, negava-se a dali sair.
Apresentações feitas e concluída a rápida conversa de circunstância, seguiu-se viagem pela picada sinuosa, trilhada pelas berliets que pareciam conhecer o caminho, alcançando-se finalmente o Rivungo já a noite se instalara havia tempo, decorridas cerca de oito horas após a saída da Neriquinha e percorridos pouco mais de 120 Km.
A impaciência, não disfarçada, de quem aguardou o dia inteiro pela nossa chegada, apressou os formalismos da passagem de testemunho e da responsabilidade por tudo o que por ali havia. O alferes encarregou-se de receber o material de guerra, equipamento de transmissões e outras coisas. O Silva conferiu e recebeu todo o equipamento de cozinha e géneros alimentícios armazenados. O Duarte, não me lembro, provavelmente deambulou por ali. Eu fiquei com a cantina, algo surpreendido por verificar que o grosso da existência era constituído por pilhas de grades de cerveja e caixas com tabaco. Tudo o mais se resumia a meia dúzia de artigos e o frigorífico alimentado a petróleo, cuja transferência incluía uma rápida explicação do seu funcionamento e manutenção, que procurei perceber.
- E é se quiseres ter cerveja fresca! Avisaram.
Os velhinhos tinham pressa em partir, não parecendo incomodados, nem com a hora tardia, nem com o tempo ou dureza do percurso, tal era o desejo de sair dali. Conferi a lista pelos artigos que compunham o stock da cantina, assinei a guia de entrega e só algumas semanas depois é que verifiquei que a soma estava propositadamente aumentada em 1000 escudos. Era um truque muito usado nestas passagens de responsabilidade e para as quais não tinha sido alertado. Afinal, eu era um simples atirador de infantaria e não estava previsto ter de me responsabilizar pelo funcionamento de uma cantina onde se vendia tabaco, cerveja e outras guloseimas, para além de alguns artigos de higiene pessoal.
As berliets partiram, engolidas pela noite, levando de volta o grupo rendido, ao mesmo tempo que a algazarra ia esmorecendo, aos poucos, até restar um silêncio absoluto, que me deixou a estranha sensação de ter sido abandonado algures no fim do mundo. A realidade visível, pouco mais era do que um barracão comprido, coberto a folhas de zinco que abarcavam parte do estreito terreiro fracamente iluminado, onde desembocavam as portas que davam acesso à messe, cantina, caserna do pessoal e refeitório.
A escuridão não deixava ver mais. Pela minha parte, não tinha noção do que ficava à direita ou à esquerda, para que lado era o norte ou o sul. Apenas sabia que nas traseiras, para lá da cozinha, corria o rio Cuando. Os velhinhos avisaram para não nos aventurarmos por lá, no escuro. Corríamos o risco de cair pelo barranco e sermos apresentados a algum dos jacarés que habitavam o rio. Pelo sim pelo não e dado o adiantado da hora, ficámo-nos pela exploração da nossa nova residência. Três pequenos quartos, mais um, à entrada, com uma mesa ao centro, servindo de posto de comando, sala de jantar e local de ocupação das horas de ócio daquele improvisado estado-maior. A um canto, uma minúscula casa de banho bem equipada: uma sanita, um lavatório e um bidão de 200 litros cheio de água. Ah… e um balde. Ali não havia água canalizada e a utilidade do balde era óbvia. Servia para retirar água do bidão e despejá-la onde fosse necessário: na sanita, no lavatório ou por cima de nós próprios, numa espécie de chuveiro em cascata, o que cada um fez, à vez, antes de nos esticarmos em cima das camas, iguais a todas as enxergas que conheci na tropa, convencido de que, com o cansaço de tão longa viagem, adormeceria de imediato.
Não foi assim. Era a primeira vez que dormia no teatro de operações e ninguém me tirava da cabeça que a guerra estava ali ao lado. Discutíramos a defesa, distribuíram-se as sentinelas, ordens e instruções foram dadas numa improvisação de defesa e segurança do pessoal e das instalações, agora ocupadas por militares inexperientes e desconhecedores do terreno.
Procurei dormir. Contudo, a cabeça cheia de temores, incertezas, raciocínios e recapitulações da vertigem dos últimos dias e talvez o estranhar da cama, não o permitiam, não obstante o cansaço a isso aconselhar. Revolvendo-me na cama à procura da melhor posição, tentava em vão esvaziar a cabeça que persistia em imaginar cenários de ataque ao aquartelamento, sem me decidir sobre qual o lado de onde seria mais provável o inimigo atacar: se do rio, se da esquerda, se da direita. E se tal acontecesse, como deveríamos reagir? Instintivamente tacteei a arma, para me certificar que continuava ali, bem ao lado, junto à cabeceira, onde dormia e dormiria sempre, durante os longos meses que por ali andei. Adormeci finalmente, vencido pelo cansaço, já com a madrugada prestes a anunciar o amanhecer.