
- Lá vem eeeeele …
O alarme ecoava pelos quatro cantos do aquartelamento, precipitando uma correria desabrida em direcção à pista. A calma reinante era abruptamente violentada por um turbilhão de homens, atropelando-se à saída da caserna, do quartinho das transmissões, do depósito de géneros, oficina auto, cantina e de onde quer que soldados sargentos ou oficiais se encontrassem. Até da enfermaria.
As tarefas em curso paravam, o jogo de cartas cessava e a brincadeira, se a houvesse, morria. Os preguiçosos ganhavam vida e os dorminhocos acordavam. Fosse o que fosse que se estivesse a fazer, era interrompido. De momento apenas interessava o pequeno Cessna que acabava de aterrar no meio de uma nuvem de pó. E não era para menos: trazia-nos o bem mais precioso - notícias de casa.
Todas as terças e quintas, era sabido que o pequeno avião aterraria ali, deixando correio e outras pequenas coisas, levando no regresso aerogramas cheios de palavras que transportavam saudades e sabe-se lá mais o quê à mistura com as histórias que cada um contava aos entes queridos que, lá bem longe, aguardavam com ansiedade as notícias, que se desejava não fossem más.
Nunca fui muito assíduo a escrever à família que, nas minhas ausências, sempre se queixou da escassez de notícias. Ali, embora não houvesse grande coisa para contar, garatujava sempre meia dúzia de frases que enviava ao maior número de pessoas conhecidas: pais, irmãos, tios, primos, amigos, namorada, etc. O que importava era que, por cada aerograma amarelo que enviava receberia um azul como resposta. Tanto mais que estava isento de taxa e o papel era gratuito.
A importância de receber correio era inquestionável. Constituía o nosso único elo de ligação com tudo o que deixáramos para trás. Matar saudades e saber das novidades que de outra forma não podiam chegar, era quase tão importante como respirar.
- Hoje é dia de São Correio.
Dizia-se logo pela manhã.
Sim, porque dia de correio era como se fosse dia santo e não creio que seja aqui possível expressar por palavras, a forma como condicionava os comportamentos, varria as tristezas, trazia alegrias, alterava os humores, transportava cheiros, ainda que imaginados e satisfazia desejos sonhados. Mesmo aos analfabetos, que os havia.
Na véspera, todos procuravam o recato, escolhendo o melhor lugar para alinhavar umas quantas palavras. Uns sentados sobre a cama, improvisavam mesas colocando sobre os joelhos malas, revistas ou o que quer que oferecesse apoio à escrita. Outros escolhiam o refeitório e quem não sabia escrever confiava a tarefa ao camarada mais à mão. Na camarata dos furriéis, as mesas-
Todos buscavam a concentração começando provavelmente por:
- Queridos pais.
A que se seguiria:
- Espero que estejam todos de boa saúde… que eu vou bem com a graça de Deus
Depois, uma pausa acompanhada de coçar na cabeça pensativo à procura do que dizer.
O Ramires escrevia longos tratados, parecendo sempre inspirado, ao contrário de mim que mal conseguia preencher a parte central do aerograma. As notícias eram poucas e francamente, nunca consegui entender o que raio tinha o Ramires que contar para tanto escrever. A seguir à missiva para os pais seguia-se outra para a namorada. Sabíamos isso porque ligava o pequeno leitor de cassetes e escrevia ao som dos êxitos do Juan Manuel Serrat, saídos de uma gravação caseira que trouxera de Lisboa. Ouvi tantas vezes a sequência que já me parecia tudo uma e a mesma canção alongada pela colagem de umas a seguir às outras, facto ajudado pela semelhança melódica de todas elas.
Os aerogramas eram depois dobrados com preceito e depositados na caixinha junto à secretaria. O cabo escriturário encarregar-se-ia do resto.
Nos dias de correio, a expectativa gerava uma romaria que ia entupindo o posto de transmissões em busca de notícias sobre a hora de chegada do pequeno avião. Era dali que vinha a informação sobre o seu trajecto. Logo que aterrava em Mavinga, os de lá informavam via rádio o que não impedia que os mais ansiosos se transformassem em sentinelas varrendo o céu com olhares expectantes.
O percurso desde Serpa Pinto era sempre o mesmo e os horários variavam pouco. Perto da hora do costume, fixavam o olhar no horizonte, no lado norte da pista, na direcção de Mavinga. Mal divisavam o pequeno ponto escuro no azul do céu, gritavam numa autêntica explosão de euforia que ecoava por todo o aquartelamento.
- Lá vem eeeeeele…
Depois precipitava-se uma correria para a pista enquanto o avião evoluía pousando com a mestria que denunciava a experiência que os milhares de horas de voo conferiam ao homem que o pilotava.
O Barros, para além de piloto experiente, era uma pessoa muito estimada, não obstante apenas se demorar poucos minutos em cada sítio. Era muito popular, mas apenas por ser aquele que nos trazia o tão desejado correio. Creio que ainda hoje, volvidos tantos anos, quase todos se lembram do seu nome e dos óculos de aros grossos que usava. Era também sócio da TASA (Transportes Aéreos do Sul de Angola) empresa proprietária da frota de pequenos aviões que tinha o exclusivo do transporte de correio e tudo o que viajasse por via aérea naquele pedaço de fim de mundo. E o negócio corria bem. O pequeno puxa-empurra com um motor à frente (o que puxava) e outro atrás (o que empurrava) foi substituído por um maior e mais moderno. 
Fazia normalmente o mesmo percurso. E isso permitia calcular a hora de chegada. Já conhecíamos a sequência e o tempo entre cada localidade. A seguir a Mavinga era a Neriquinha, seguindo daqui para o Rivungo. As ligações rádio faziam o resto, transmitindo as informações que controlavam o voo e precisavam as horas da chegada.
Mal se imobilizava na pista era imediatamente cercado por homens ansiosos, procurando adivinhar, pelo volume do saco, a quantidade de cartas que trazia.
O saco de lona acinzentada, entregue ao escriturário, era escoltado no seu percurso até à secretaria como se de uma preciosa relíquia se tratasse. Todos lhe queriam tocar sendo sempre levado por quatro ou cinco, cada um pegando por uma ponta.
Depois, apinhavam-se junto à janela seguindo com olhos ávidos o trabalho do cabo escriturário no processo de separação dos vários sobrescritos. Os brancos para um lado e os azuis para o outro.
O maço de cartas era depois entregue para distribuição ao sargento-de-dia que, seguido por um bando de gente ansiosa, saía da secretaria e dirigia-se até a sombra de uma árvore existente a meio caminho entre a messe e o refeitório, frente ao topo da parede pré-fabricada da caserna. Aí, rodeado por todos, ia anunciando os nomes inscritos em cada carta.
- Eu, eu.
Respondia alguém como se tivesse ganho a lotaria, ao mesmo tempo que uma mão se elevava para recolher o prémio.
- Sousa.
Continuava o pregão.
- Hoje não lerpas! Exclamava Alguém.
Outros recebiam duas ou três. Era dos pais, da namorada, ou da madrinha de guerra. Por vezes da mulher, que alguns já eram casados … e com filhos. O Tabanez já tinha uma filha quando embarcou.
Nestes casos, as saudades eram maiores. Quando, em vez do aerograma vinha mesmo uma carta, até os olhos brilhavam. Provavelmente trazia uma fotografia do rebento. É que, o aerograma era gratuito mas não podia lá ser colocada coisa nenhuma, nem se podia acrescentar espaço. Tudo que tivesse de ser dito, tinha de caber na limitada zona de escrita.
- Cardoso! Anunciou o improvisado carteiro.
Reagi estendendo a mão para receber o aerograma azul, identificando de imediato o desenho arredondado que caracterizava a caligrafia da namoradita que deixara em Lisboa.
Egídio Cardoso,
Furriel miliciano
SPM 5816.
Este simples endereço era o bastante para que qualquer carta, vinda de qualquer ponto do país, me chegasse à mão, sendo até dispensável a indicação do posto. E isto era verdade para qualquer outro. 5816 era o endereço postal da 3441, o Serviço Postal Militar (SPM) sabia onde estávamos e na companhia, todos conheciam o Cardoso, o Santos, o Silva, o Costa e todos os outros, por muito comuns que os nomes fossem.O Ramires era sempre contemplado com uma carrada delas. Só da namorada era p’rá aí uma meia dúzia. Mais duas da mãe, uma do pai e mais umas quantas de amigos. A trabalheira de tanto escrever tinha a sua compensação. Batia sempre o recorde no correio recebido. Mais de metade era para ele. Só a namorada escrevia um aerograma por dia. Com os atrasos e os fins-de-semana, acabavam por se juntar uns quantos. Abria-os todos, ponha-os por ordem e só depois se concentrava na demorada leitura.
Entretanto, cá fora, continuava a distribuição. A diminuição do maço de cartas fazia aumentar a angústia dos que ainda não tinham sido contemplados e, com a entrega da última carta, instalava-se a tristeza no rosto de quem nada recebera.
- Toma, lê a da minha madrinha de guerra!
Dizia um mais brincalhão que não fazia segredo das futilidades contidas na carta de uma correspondente arranjada em anúncios de revista.
Lê, faz de conta que é para ti.
Insistia, passando a carta já lida para as mãos do desafortunado.
Os felizardos espalhavam-se escolhendo cada um o melhor cantinho para a sôfrega leitura.
Provavelmente só os que não recebiam correio se apercebiam do roncar dos motores do Cessna correndo pela pista e ganhando rapidamente altura até desaparecer por sobre as copas das árvores. O Barros tinha um percurso a cumprir e não costumava demorar mais do que uns escassos minutos em cada pouso. O Rivungo era o próximo destino, para onde o pessoal das transmissões já comunicara, via rádio, a boa nova.
À noite, depois de saboreadas as notícias, muitos já pensavam no próximo Dia Santo, o dia em que de novo o pequeno Cessna, sempre pilotado pelo Barros, aterraria de novo na pista da Neriquinha com mais uma mão cheia de alegria.
