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sábado, 1 de março de 2014

Os crocodilos da barragem

Continuo a não resistir à tentação de comparar as terras-do-fim-do-mundo com o quase paraíso que era agora a nossa nova morada. Naquele fim de mundo, era a aridez da savana que afogava a Neriquinha em calor, pó e muito de coisa nenhuma em contraponto com o lenitivo deste pequeno recanto abraçado à civilização e temperado pelas águas mansas da sua imensa barragem. E como se isso não bastasse, lá faltava tudo e até a água tinha de ser sugada de um furo dependente dos humores do pequeno gerador, enquanto aqui, disfrutava-se da abundância de água canalizada, com abastecimento garantido pela inesgotável albufeira de água cristalina. No degredo da savana, a electricidade vinha aos empurrões saída de geradores cansados, movidos a gasolina, enquanto aqui havia energia com fartura garantida permanentemente pela força das turbinas mantidas em funcionamento por um inesgotável manancial de água que, submissa, se aquietava acima do paredão.
A existência das Mabubas deve-se, seguramente, à barragem. Construída no exacto local onde o rio Dande estreitava espremido no fundo de uma garganta rochosa, aprisionou as águas que rapidamente encheram a grande albufeira, cobrindo toda uma extensa área de mato que desapareceu submerso naquela imensidão de água que invadiu cada pequeno recanto, cada vale ou simples depressão, trepando pela encosta, engolindo árvores, empurrando a fauna encosta acima, ao mesmo tempo que, formando um novo habitat, passou a acolher uma grande variedade de criaturas aquáticas onde se incluiam crocodilos que aos poucos, embora não se deixassem ver, se foram instalando. Simultaneamente, as cascatas que, segundo se diz, por ali existiam e que terão dado nome ao local – mabubas, é o termo em quimbundo que significa isso mesmo - desapareceram abafadas naquela imensidão líquida.
Nunca me deu para explorar a albufeira ou então andei distraído e não soube aproveitar uma das muitas oportunidades para o fazer. Sei, porque se dizia e quem conhecia garantia, que a viagem de bote, seguindo a direito desde o paredão até à embocadura do rio, levava bem mais de uma hora e explorar todos os recantos, enseadas e recortes era tarefa para levar dias, dependendo das voltas que se dessem. Do meu ponto de vista, os verdadeiros conhecedores, aqueles que dominavam todos os segredos, todos os recantos, meandros e esconderijos daquele imenso lago artificial, seriam certamente o Sr. Tomé e o Gasolina, seu homem de confiança. O Sr. Tomé tinha um barquito, uma pequena canoa a que eufemisticamente dera o nome de “Foz do Arelho”, certamente em memória da sua terra natal onde ainda vive segundo julgo saber. Era no “Foz do Arelho” que fazia as inspecções à barragem, que se aventurava em caçadas nocturnas às pacaças e se dedicava à pesca, lançando as suas redes onde, certa vez, um crocodilo se deixou enlear morrendo afogado. É verdade, os crocodilos podem morrer afogados se forem impedidos de emergir.
Crocodilos, como se sabe, era bicho que abundava nas chanas do Cuando, lá para os lados do Rivungo. Mas aí, eram conhecidos por jacarés. Aos que habitavam a barragem, chamavam crocodilos. É verdade que crocodilos não são jacarés e estes não podem ser chamados de crocodilos, sendo certo que nunca me deu para tentar perceber a diferença. Seja como for, o facto é que me habituei à ideia de que, fossem eles elegantes crocodilos ou poderosos jacarés, uns e outros, abundavam onde houvesse água e isso era coisa que não faltava num lado e no outro. Aqui, aprisionada pelo amplexo da barragem; lá longe, livre e pachorrenta, passeando-se pelos sinuosos meandros do grande rio, espraiando-se pelas chanas pantanosas, apoderando-se de grandes extensões daquelas imensas planuras, cortando caminhos e picadas mas pincelando de verde aquelas paisagens agrestes. Quanto aos ditos bichos, ainda hoje não sei se os do Cuando, chamados de jacarés, o eram de facto ou se estou a cometer uma gafe aceitando que os da barragem eram crocodilos. Por mim, prefiro outras companhias, já que aqueles que conheci nas chanas pantanosas do Rivungo nunca me pareceram amistosos.
De qualquer forma, esse mundo selvagem, hostil mas de beleza feérica, ficara para trás, lá bem longe, perdido na savana e era certo que nunca mais para lá voltaríamos.
A realidade agora era a paz das Mabubas com todo aquele fulgente lençol de água a perder de vista: era fresca, tinha peixe que permitia um entretém relaxante, verdadeiro refrigério de ressacas ou maus humores, um passatempo para quem não tinha com que se entreter. Até eu, que nunca consegui arranjar paciência para a pesca, cheguei a munir-me de uma cana improvisada, atei-lhe uma linha e num domingo à tarde, sem nada para fazer, lancei umas duas ou três vezes o anzol e fui dando que fazer à paciência por umas horas. Não pesquei coisa nenhuma, verdade seja dita e apenas a cavaqueira com os parceiros de ocasião acabou por ser o único proveito que obtive.
Dos crocodilos das Mabubas pouco se sabia e creio que muitos nem se aperceberam de que os havia. Mas o ZIP ficou com a certeza de que tais bichos andavam por ali e de tal forma que, creio, nunca mais se esqueceu disso. O Marcelino era um soldado condutor, baixote, um tanto ou quanto franzino, a quem, por razões que não retenho, todos chamavam de Zip Zip, epíteto que se lhe colou de tal forma à pele que, ainda hoje, mais de quarenta anos volvidos, continua a sobrepor-se ao seu nome de baptismo do qual poucos se lembrarão.
Pois bem, o Zip inscreveu-se e participou numa prova de natação integrada num conjunto de eventos que preparámos para comemorar o aniversário da companhia. Não sei se se dispôs a ganhar a prova, mas o facto é que se aplicou, num esforço estrénuo, em braçadas vigorosas, rodando a cabeça ao ritmo das braçadas, de um lado para o outro, num estilo próprio de quem aprendeu a manter-se à tona deixando a técnica para depois. E naquele afã de quem procura medir a distância e avaliar quanto faltava para a meta, descortinou algures lá para trás a cabeça de um crocodilo aflorando a superfície reluzente da água.
O redobrado vigor que imprimiu às braçadas não deixou margem para dúvidas: o Zip deduziu que o bicho o perseguia. Provavelmente imaginando-se a ser abocanhado, reuniu as forças que lhe restavam, sacou do seu melhor crawl e num ápice alcançou a margem. Ofegante com os bofes a saltarem pela boca, mas na segurança de terra firme, olhou para trás como a querer certificar-se se de facto fora mais rápido que o bicho. Mas este desparecera.
Ainda hoje, desconfio que o crocodilo nem chegou a esboçar qualquer ataque. O bulício circundante afugentara-o naturalmente e submergiu desaparecendo nas frescas águas. Se calhar, nem deu pela presença do Zip; ou então, terá decidido que era coisa que não justificava um esforço.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Brincadeiras de miúdos

A nossa estada nas Mabubas corria de feição. Na verdade corria tudo tão bem que quase já ninguém se lembrava das agruras passadas na Neriquinha e na aridez da savana que a circundava. Mas isso era apenas ilusão. Aqueles tempos marcaram-nos, colaram-se-nos à pele, encafuaram-se nos escaninhos da memória de forma tão intensa que bastava qualquer coisa insignificante, mesmo que nada tivesse a ver com aquilo, para que as imagens daquelas areias escaldantes e daquelas gentes, saltassem do patamar mais fundo do baú de memórias para a superfície, desembrulhando-se em imagens coloridas que, sobrepondo-se à nossa quotidiana vontade, impunham a sua presença.
Nas Mabubas havia miúdos, como em qualquer lugar. Uns pretos, outros brancos, uns quantos mais reguilas que outros, uns mais pequenos e outros mais crescidotes, mas todos alegres, vivaços, umas vezes rindo outras chorando, mas felizes e irrequietos como naturalmente são os miúdos. Perante a sua natural algaraviada, veio-me instintivamente à memória a imagem dos putos da Neriquinha: todos eles pretos, nus, descalços, sujos, ranhosos e deserdados da sorte, mas igualmente alegres, irrequietos e felizes com a vida que tinham, até porque não conheciam outra.
Qualquer coisa lhes servia para preencher o seu imaginário mundo de fantasia, os seus entreténs e brincadeiras; os da Neriquinha com meios mais limitados e estes, os das Mabubas, naturalmente com acesso a outras coisas, variando os passatempos em função do que, quer uns quer outros, conseguissem arranjar. Aqueles, lá nos confins da savana, via-os brincar com as pequenas coisas que encontravam na mata, aos quais, aos poucos, foram juntando os artefactos que, com a chegada da tropa, foram aparecendo como novidades a que naturalmente não resistiam. Em contraponto, estes, os das Mabubas, embora não desdenhando coisas semelhantes, acrescentavam-lhe os brinquedos comprados nas lojas a que tinham acesso e que, lá nos confins do território, não existiam.
Mas vamos ao que interessa. Para um miúdo, qualquer coisa, mesmo que insignificante ou inútil, serve os propósitos de uma brincadeira: de uma meia fazem uma bola, uma lata dará um potente carro, a imaginação fará de um qualquer pau uma poderosa excalibur e uma simples caixa de cartão pode perfeitamente fazer a vez de um castelo. Nas Mabubas, um dos putos entre os demais, resolveu fazer isso mesmo. Encontrou uma caixa de cartão suficientemente grande, imaginou-a o seu castelo e meteu-se lá dentro entretendo-se, no seu mundo de fantasia, a congeminar planos de governo e estratégias de defesa de torreões virtuais.
Não sei se apenas se meteu dentro da caixa no exacto lugar onde a encontrou ou se decidiu ser aquele o melhor local para instalar a fortaleza, ali, mesmo no meio da rua, mais ou menos antes da curva que antecedia o último troço que levava ao paredão da barragem, por alturas das oficinas auto.
O trânsito era raro, quase inexistente. Os carros, militares ou civis, apenas eram utilizadas quando fosse estritamente necessário, onde não se incluía cirandar pelo povoado e, talvez por isso, a natural irresponsabilidade infantil daquela como de todas as crianças, não encerrava, naquele caso, um perigo iminente. O mais certo era fartar-se da brincadeira e, mais cedo do que se poderia pensar, abandonaria a fortaleza de cartão antes que um carro, por qualquer razão inesperada, por ali circulasse. E mesmo que tal viesse a acontecer, o tamanho da caixa era suficientemente grande para poder ser avistada ao longe por qualquer condutor. De facto, estar a brincar no meio da rua, naquela rua, não era perigo que causasse alarme ou preocupação de maior.
Mas, (há sempre um mas) as coisas não correram assim. Sendo o trânsito quase inexistente, contudo, havia viaturas nas Mabubas e não apenas as da tropa como acontecia na Neriquinha. E circulavam, pouco, mas circulavam. Cada família tinha o seu carro e havia ainda o Land Rover que diariamente o senhor Tomé, responsável pela Barragem, utilizava sempre que descia à central localizada a jusante do paredão, até porque, para lá chegar, haveria que percorrer um íngreme caminho que, descendo pela encosta, morria frente ao edifício da central construído à beira do rio que ali recebia as águas que, chutadas pelas pás das turbinas, eram de novo devolvidas ao rio que as acolhia num marulhar de boas vindas.
Naquele fim de dia, ao volante do Land Rover, o senhor Tomé regressava exactamente da central depois de lá ter passado toda a tarde na sua função de responsável máximo pelo perfeito funcionamento de toda aquela maquinaria. Subiu a encosta, atravessou o paredão e sem pressa, que o tempo não urgia, galgou o pedaço de rua que subia até à curva onde o miúdo se entretinha fora das vistas de quem por ali passasse.
Para o senhor Tomé, aquilo que se lhe deparou não passava de uma simples caixa de cartão, um pouco grande, mas não mais do que isso. Mentalmente questionou-se sobre o local pouco próprio para alguém largar tal coisa. Certamente estaria vazia, terá pensado, admitindo, por simples razão de lógica, que qualquer coisa a empurrara para ali. Provavelmente o vento, não obstante não se lembrar de o ter sentido soprar em todo aquele tórrido dia que nenhuma aragem fizera refrescar.
Continuou a direito decidido a passar-lhe por cima. Era de cartão, o Land Rover facilmente a esmagaria e, assim sendo, mesmo que continuasse no meio da rua já não seria obstáculo. Encarregaria depois o Gasolina, um negro taludo, seu subordinado, um pouco o faz tudo por ali, de a ir retirar. Afinal, que importância tinha uma simples caixa de cartão? Avançou, sempre a direito, naquele vagar embalado pelo som rítmico e indolente do motor do Land Rover, pensando mais num quase nada de tudo e menos naquela caixa que inexplicavelmente se mantinha imóvel à sua frente.
Contudo, quase no último momento, quando faltava para aí uma escassa meia dúzia de metros para o embate, uma espécie de sexto sentido, um sinal, um quase impulso gritado silenciosamente pelo seu bom senso, fê-lo rodar ligeiramente o volante levando a carripana a passar de lado quase roçando a caixa, mas sem lhe tocar.
Quando ficou lado a lado, olhou instintivamente para dentro da caixa. O miúdo, sentado lá no fundo, entretido com as suas brincadeiras, mirou-o com um sorriso gaiato como se lhe dissesse: - gostas do meu castelo?
O sangue, como que se lhe gelou nas veias, o coração quase parou para de seguida sair disparado num bater alucinado de quem acaba de apanhar o maior susto da sua vida. Parou perto de nós, saiu do carro lívido e com voz trémula, titubeou: - Quase matava o miúdo!
Não foi nada comigo, mas ainda hoje, evito passar por cima de qualquer coisa que me apareça no meio da estrada.