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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Disparos acidentais


Manipular armas, por si só, acarreta riscos. E o risco é ainda maior se estivermos a falar de armas de guerra. Foram feitas para matar e delas não podemos esperar misericórdia ou complacência. Lidar com armas exige respeito, disciplina e muitas cautelas. Mas, assustava-me especialmente a falta de jeito que muitos tinham para o seu manuseio. É verdade, os desajeitados quando andam com uma arma nas mãos, são duplamente perigosos.
E o mesmo é válido para os nabos. Quanto a estes, o perigo resulta exactamente da ignorância. Durante a minha curta vida militar, encontrei uma mão cheia deles. Incapazes de perceber particularidades importantes do funcionamento de uma espingarda, agiam inconscientemente e cometiam erros por vezes fatais.
Havia ainda os que tinham pavor a armas. Olhavam-nas como se estas lhes mordessem e entravam em pânico só de pensar que teriam de fazer fogo. Descontrolavam-se com os estampidos e o cheiro a pólvora e o medo levava-os a disparar sem sentido. Fechavam os olhos e premiam o gatilho contorcendo-se em caretas de horror. O tiro, esse saía para onde calhasse.
Durante a instrução, os procedimentos e as regras de segurança eram repetidos vezes sem conta. Uma delas, considerada a regra das regras, dizia: nunca se aponta uma arma a ninguém, mesmo que se tenha a certeza de que está descarregada. Nunca. Nem a sério nem a brincar. E isto não era um conselho, era uma ordem. E na tropa, ordens são para serem cumpridas.
Contudo, tal rigor não obstou a que, bem cedo, tenha sentido um arrepio, ao ser confrontado com o flagrante esquecimento de regras tão elementares. Durante a primeira instrução de tiro aos recrutas que me saíram em sorte, a G3 de um deles encravou. Sei lá, não disparava. Ignorando as recomendações que, pouco antes, repetira por mais de um par de vezes, virou-se para mim com a arma em riste e gritou por entre o barulho dos disparos de instrução:
- Encravou! … não dispara!
E pressionava insistentemente o gatilho mantendo a arma apontada para mim como a querer confirmar o óbvio.
A minha sorte é que, daquela vez, a arma, por qualquer mau funcionamento ou sorte minha, encravara de facto. Por vezes, quando o problema era apenas da percussão, o disparo dava-se à segunda ou terceira insistência. Não o foi daquela vez, caso contrário não estaria aqui a contar este episódio.
Mas ainda me lembro que desviei a arma com um golpe brusco, mimoseei-o com um chorrilho de asneiras que atingiu a sua inocente progenitora e provavelmente mais uns quantos membros da sua família e encerrei a questão com um valente pontapé que acertou em cheio no rabo do recruta.
Ainda não refeito do inusitado episódio, dedo em riste apontado ao nariz do infeliz, mas com vontade de partir para o estaladão, voltei a repetir, com voz nitidamente enervada e quase gritada, o aviso feito escassos minutos antes do início da instrução de tiro:
- Não se aponta a arma a ninguém, mesmo que se tenha a certeza que está descarregada.
Coçando o fundilho das calças procurando amenizar o ardor causado pelo impacto da bota, balbuciou à laia de justificação:
- Não disparava!
Fica assim demonstrado que, não obstante o rigor e solenidade postos no seu ensinamento, as regras de segurança eram frequentemente esquecidas ou ignoradas e muitas vezes não compreendidas por gente sem vocação ou jeito para as lides militares, e com consequências funestas. Uns entendiam que eram tretas, teorias da tropa, outros nunca chegaram a perceber o seu significado. Mas a verdade é que, durante o tempo que durou a guerra do ultramar, muitos morreram em consequência do desleixo e do seu não cumprimento e em quase todas, nem sequer foi precisa a intervenção do inimigo.
Numa altura em que até os quase cegos e os semi-aleijados eram obrigados a cumprir serviço militar, era visível, a olho nu, a falta de vocação de muitos, tropeçando-se frequentemente com um bando de desastrados irresponsáveis, autênticas ameaças para quantos andassem por perto.
Esta realidade obrigava a redobrar os cuidados postos no ensino da arte da guerra, repetindo-se até à exaustão instruções papagueadas, recomendações redobradas, avisos solenes complementados com ameaças de severos castigos ao desastrado prevaricador. Insistia-se na explicação do funcionamento de cada espingarda, das dezenas de peças que as compunham, sua função, particularidades, manias, pontos fracos e pontos fortes. Limpava-se e oleava-se cada peça, uma e outra vez, mesmo que já não restasse ponta de sujidade nem se vislumbrasse sinal de ferrugem. Escarafunchava-se cada ranhura, cada molinha, cavilha ou pinchavelho. Montava-se e desmontava-se a arma vezes sem conta, por rotina ou em testes de destreza, para ver quem o fazia mais depressa. Premiavam-se os mais capazes e mantinha-se vigilância apertada sobre os inábeis. Explicavam-se as consequências nefastas do incumprimento das regras, falava-se do azar que perseguia os mais desleixados e da sorte que acompanhava os zelosos.
Mas, acabara o tempo de instrução e do faz de conta onde tudo era teoria, simulação e encenação. No teatro de operações era a sério: as balas eram reais, as granadas explodiam de facto e o inimigo era verdadeiro. Experimentávamos o medo, de braço dado com o stress gerado pela expectativa torturante do ataque. Sim, agora o deslize, a distracção, o acidente, estavam sempre à espreita, à vez ou todos ao mesmo tempo, conluiando-se em cabalas de morte, como aquela que nos levou o Gonçalves, um furriel dos bons, amigo e camarada, dos nossos. Morreu de forma violenta atingido em cheio pelo cone de fogo provocado por disparo acidental de um lança-granadas quando, como mero espectador, espreitava a azáfama de uma simples e inofensiva acção de verificação do estado do armamento e munições.
De nada lhe valeu o saber do escrupuloso cumprimento das medidas de segurança, das rotinas e cuidados com o manuseamento das armas, com a sua manutenção ou com as cavilhas de segurança. Aquela granada nem chegou a explodir. Nem sequer fora descavilhada. Enterrou-se inofensiva no lodaçal do Rio Cuando, não sem antes deixar um bafo quente de morte atrás de si, provocado pela labareda do disparo.
A verdade é que, parte substancial destes procedimentos e cuidados era preocupação de cada dia. Cumpriam-se especialmente quando se saía e quando se regressava das operações.
Especialmente nas chegadas. Por regra, logo ali onde as viaturas nos largavam, no limite inferior da parada poeirenta e antes do desejado duche, cumpria-se o mesmo ritual. Arma apontada para cima, culatra puxada atrás, pressionava-se o gatilho uma e outra vez e repetia-se tudo de novo procurando garantir que nenhuma munição ficava na câmara. Só depois cada um ia à sua vida. Matar a sede, livrar-se do sarro e descansar da estafa.
Mas, ainda assim, e porque há sempre uma excepção, todos os cuidados eram poucos. Afinal estamos a falar de acidentes e, por muitas cautelas que se tenham, os acidentes acontecem.
Corria a tarde, quente, com um efeito paralisante sobre os corpos. Caminhar exigia um esforço para além do habitual e havia pouco que fazer. A maior parte dormitava por aqui e por ali. Outros, simplesmente jaziam espojados. Alguns preguiçavam à sombra enquanto uns quantos se entretinham em jogos de bisca lambida ou monótonas partidas de sueca matando a sede com a cerveja semi-fresca saída de frigoríficos alimentados a petróleo sem força para vencer a canícula. Com excepção da área da cozinha onde o tilintar de tachos anunciava o início da preparação do jantar, o silêncio imperava. A imperceptível brisa, intimidada pelo calor grosso e implacável, era incapaz de tirar as duas ou três árvores da quietude a que se haviam remetido. Nem o mais pequeno murmurejar se ouvia por entre o cansado movimento das suas folhas amolecidas pelo sol escaldante.
O Cabral, por qualquer razão que não retenho, resolveu entreter-se com a arma. Provavelmente achou que precisava de ser limpa ou então preparada para uma qualquer saída e não encontrou melhor lugar para o fazer do que a caserna, ali, sentado na beira da cama. O Silva, que ocupava a cama de cima - as camas estavam dispostas em beliche, duas a duas – preparava-se para escrever à namorada, ou à família, tanto faz. No dia seguinte passava o avião do correio e no outro lado do mar havia gente ansiosa aguardando notícias. Como de costume, sentara-se na cama, colocara a mala à frente dos joelhos em jeito de mesa, dispôs sobre a mesma a folha de papel e concentrou-se. Podia ter escolhido o refeitório, mais a jeito e com espaço para dar e vender. Mas o seu canto era aquele. Ali dormia e ali sonhava, por vezes acordado. Nã… escrever à miúda exigia recato, inspiração e tempo. E ali o seu cantinho oferecia a intimidade necessária. Para além do mais, dentro da mala de viagem que usava como escrivaninha, guardava a caneta, as folhinhas amarelas de aerogramas ainda virgens e, mais importante, as cartas recebidas a que importava responder.
Na cama de baixo, às voltas com a G3, o Cabral, talvez para confirmar que o mecanismo estava bem oleado, premiu o gatilho. O disparo deu-se, inesperado, com estrondo. Seguindo a orientação do cano, a bala passou pelo colchão da cama por cima da sua, trespassou a mala feita escrivaninha, assobiou aos ouvidos do Silva, perfurou a chapa de zinco ondulada do telhado e desapareceu no azul do céu.
O Silva levou um susto de todo o tamanho largando a caneta num gesto brusco, mais em consequência do estrondo inopinado do que da bala que quase lhe roçara a cabeça. Na verdade nem dera por ela e só mais tarde se lembrou que ouvira um ruído sibilante.
O susto do Cabral não foi menor e com o coração a cento e vinte batidas por segundo, não reagiu. Ficou-se a olhar a arma como que a tentar compreender o que sucedeu, surpreso por descobrir, da pior forma, que havia uma bala na câmara pronta a disparar. Infringira uma das tais regras elementares e não sei se terá chegado a tomar consciência do que ia acontecendo, pelo menos no momento. É que, a percepção efectiva da desgraça, só deverá ter atingido as consciências mais tarde, talvez com maior intensidade à noite, na quietude silenciosa que antecede o adormecer.
A desgraça batera à porta mas, felizmente, não quis entrar. Como sinal da sua passagem, apenas restou uma mala de cartão furada e um buraco no tecto da caserna.
Ficou mais uma vez demonstrado que as regras repetidas durante a instrução não eram treta. Resultavam de experiências que, pela frequência com que ocorriam, foram conferindo validade aos avisos. À regra de nunca se aponta uma arma a ninguém, havia que acrescentar-se: nem se carrega no gatilho a menos que seja necessário.
Não me admiro nada que, naquele fim de tarde, muitos tenham ido verificar a sua arma. Com a consciência tranquila dorme-se melhor e sempre mais vale prevenir que remediar.

sábado, 1 de maio de 2010

O NOSSO PRIMEIRO

Creio que não será difícil imaginar a quantidade de problemas administrativos que uma companhia, ou qualquer outra unidade militar, enfrenta no dia-a-dia. Imagine-se agora essa companhia num teatro de guerra e acrescentem-se as dificuldades inerentes. Condimente-se o bolo com a ausência de vias e meios de comunicação e ao facto de me estar a reportar a um tempo em que o computador era peça de ficção.
Aposto que a grande maioria do pessoal da 3441, incluindo oficiais, sargentos e praças, nunca chegou a aperceber-se plenamente da complexidade e dimensão das minudências de natureza administrativa e financeira que em cada dia tinham de ser resolvidas.
Para tudo havia uma dotação, um limite financeiro, uma verba com a correspondente burocracia plasmada à saciedade nas NEP’s, nos códigos, regulamentos, circulares, ordens e instruções produzidas na retaguarda pelos guerreiros do ar condicionado.
Para tudo havia um impresso, um modelo, um formulário um relatório. E tudo tinha de bater certo, ao centavo, o débito igual ao crédito. Até as munições eram contadas, sendo exigidos relatórios rigorosos a justificar cada bala disparada. Um mundo de burocracia capaz de dar cabo dos nervos e fazer a cabeça em água a qualquer um.
Para dar conta de tudo isso, só os profissionais da tropa, que sabiam decorado de trás para a frente e salteado, todas as regras, todos os prazos e datas-limite. Conheciam os impressos, o número de vias e respectivas cores. Sabiam quando e para onde deviam ser remetidos: era uma exemplar disto para o comando no Cuito Cuanavale, um exemplar daquilo para o comando da Zona Militar Leste, outro para a manutenção militar no Luso, um original de qualquer coisa para o quartel General, a requisição de qualquer peça para o serviço de material. Enfim o paraíso da burocracia.
Eram tarefas com que o Capitão teria de lidar. Ele era o responsável máximo pela ordem e cumprimento daquele mundo de confusão. Só que o nosso pertencia à primeira leva de capitães milicianos, comandantes que o exército recrutou à pressa esgotado que estava o quadro dos formados na academia. O nosso capitão era, assim, um perfeito ignorante (sem ofensa) dessas andanças sobre as quais, quanto muito, teria aprendido umas luzes durante o pouco tempo que levava de tropa. E isso punha-o à mercê do primeiro-sargento que lhe calhasse. Numa companhia, o primeiro-sargento era uma espécie de chefe de secretaria, contabilista, tesoureiro e escriturário-mor, autêntico mangas-de-alpaca que dominava esse mundo de papéis e burocracia. E isso não era muito bom. Os sargentos, profissionais da tropa, não tinham lá muito boa fama. Eram conhecidos na gíria por, chicos. Aliás, chico era todo aquele que, uma vez acabado o serviço militar obrigatório resolvia ficar, continuando agarrado à farda e às exigências da disciplina militar. Dizia-se então que:
- Meteu o chico.
Um chico, naquele tempo, era sempre alguém que trazia colado à pele um acervo de epítetos mais ou menos soezes, ou pelo menos, maledicentes. O chico era um lateiro, um retrógrado boçal, agarrado ao dinheiro, capaz da maior das vilanias por meia dúzia de tostões. Se o rancho não agradava, a culpa era do sargento que, para poder gamar algum, cortava na carne (mais cara) e aumentava a quantidade de massa e feijões (mais baratos).
O chico, naturalmente mal-humorado, fazia exigências só para chatear, para compensar o seu complexo de inferioridade. Por oposição, era um autêntico lambe-botas, excessivamente subserviente perante qualquer um que tivesse patente superior à sua.
O sargento chico era, em suma, alguém que, se não tinha o proveito, da fama não se livrava. Se ficou na tropa era porque se queria encher, enriquecer à custa dos outros. Era como se exibisse um estigma, um rótulo colado à pele que catalogava a classe, embora durante o tempo em que fui militar (três anos e uns mesitos) tenha encontrado muitos que não encaixavam nesta definição.
Imagino assim os temores que o capitão Cabrita terá sentido no princípio da sua espinhosa missão, ao concluir que estaria nas mãos do primeiro-sargento, ainda sem saber se lhe saíra em sorte um dos bons ou dos outros.
Mas o Cabrita devia ter uma estrelinha cintilante que o amparou durante a sua efémera missão de garante do cumprimento das mil e uma normas do injuntivo regulamento militar. Coube-lhe em sorte um dos bons, direi mais, dos melhores.
Não foi preciso muito tempo para todos perceberem que nos saiu na rifa um dos melhores sargentos do exército português. Ao nosso Primeiro, de seu nome Manuel António Pinto, não se aplicava nenhuma das características condenáveis que se costumavam apontar aos chicos:
Desde logo ficara demonstrado que não era lateiro. É certo que não costumava achar que o rancho era sempre bom. Mas comia e não barafustava, talvez porque, lá no íntimo, tivesse consciência que os escassos vinte e dois escudos e meio por dia que o vagomestre dispunha para alimentar cada homem, compunham um magro orçamento que não permitia lautas refeições, Acredito, contudo que, se assim não fosse, o seu profissionalismo não lhe permitiria a veleidade de refilar da qualidade do que lhe punham no prato.
Comia naturalmente do rancho como todos os outros, ocupando um qualquer lugar na mesa corrida da messe de sargentos, em amena cavaqueira com os jovens que na altura integravam o grupo de furriéis da companhia.
Por outro lado e em evidente contradição com a maledicência, era uma pessoa pacífica culta e educada, para além de bem-humorado. Todos o respeitavam, não por temor, ou porque o exigisse. Respeito, merecia-o naturalmente e todos lho reconheciam.
Era um homem maduro, na casa dos quarenta anos, mais ou menos o dobro da idade da maioria dos furriéis que compunham o corpo de sargentos da companhia. Sendo apenas o camarada mais velho e sem querer exagerar, era como se fosse nosso pai, ou se se quiser, um irmão mais velho, bem mais velho.
Sábio, sabedor, ponderado e dotado de bom senso em quantidade generosa, a sua opinião avisada foi, aos poucos, sendo considerada importante, necessária, quase obrigatória.
- Oh meu primeiro! O que me aconselha…?
Perante a pergunta, respondia sempre com voz pausada, carregando nos esses a denunciar a sua origem nas frias terras altas da Guarda.
Se entendia que não deveria aconselhar, recomendava:
- Você é que tem de decidir.
E rematava com o seu sotaque beirão:
- Pense bem que há-de encontrar a resposta.
Passava o dia na secretaria, tratando da papelada, controlando os orçamentos e dali apenas saía para o almoço e no fim do expediente, percorrendo, no seu passo lento e seguro, o caminho de tabuinhas que separava a secretaria da messe. Ao fim do dia, sentava-se junto a nós entrando na conversa e contando estórias antigas. Ria-se com gosto das brejeirices que apimentavam factos passados da sua juventude e partilhava connosco as suas alegrias, pelo menos algumas. Lembro-me do seu indisfarçável contentamento ao divulgar, entusiasmado, após o regresso de férias, que tinha comprado um carro novo. Para ele o modesto Citroën Ami 8 que comprara era um carrinho muito bom, uma maravilha. Ficava assim demonstrada a sua natural e não cultivada modéstia.
Não obstante o Cuando Cubango ser abundante em caça, nunca vi o primeiro-sargento sair para a mata com esse objectivo, muito embora, por uma questão de necessidade se fizessem frequentes incursões de caça. Contudo, fazia questão de integrar um pequeno grupo que, incluindo o capitão, o médico e mais um ou outro, se entretinha, após o jantar e a coberto da noite, a apanhar uns quantos coelhos que habitavam no terreno tangencial à pista no lado norte.
Utilizando um velho Jeep Willis de três velocidades e que consumia cinquenta litros aos cem, percorriam a pista até ao fim, trazendo no regresso quatro ou cinco coelhos que, encadeados pelos faróis, se deixavam apanhar. O petisco que com eles se fazia e a que o primeiro não resistia, era um autêntico regalo para papilas gustativas adormecidas pela comida sensaborona do rancho.
E assim, durante algum tempo, quatro ou cinco coelhos eram diariamente sacrificados, até que, não sei se porque deixou de ter piada, se porque a ninhada se mudou para outras paragens ou se foi simplesmente dizimada, foi dado por findo o entretém.
Quanto ao mais e como é bom de ver, o Primeiro era um homem rigoroso no cumprimento dos seus deveres. Mas não era apenas exigente consigo. Sem que alguém alguma vez o tenha ouvido reclamar ou exigir rigor no comportamento, sabíamos que gostava que todos se comportassem com zelo e lealdade, de acordo com as regras. Disso se apercebeu o furriel das transmissões, que fora designado para gerir a cantina.
Foi demitido dessas funções, simplesmente porque as contas apresentadas, ou não o convenciam ou não estavam de acordo com os procedimentos que ele considerava os correctos. Nunca soube exactamente o que terá feito o furriel para assim ser demitido, já que a lisura profissional do primeiro-sargento Pinto nunca lhe permitiu divulgar. Simplesmente me comunicou que tinha proposto ao capitão que, a partir daquele momento, seria eu a lidar com as coisas da cantina.
Das razões de facto, provavelmente só o capitão teria sido informado. Homem leal, discreto, solidário e íntegro, o capitão podia ter a certeza que se houvesse algo que só a ele devia ser dado conhecimento, mais ninguém o saberia.
Era também um bom coração, um amigo que se preocupava com os sentimentos dos outros. Ainda hoje recordo a forma cuidada que usou para me comunicar o desfecho trágico do acidente que matou o Gonçalves. Demonstrando que a sua perspicácia não se confinava às coisas da secretaria, apercebera-se que a relação de amizade que me unia ao Gonçalves era forte. É claro que sabia sermos conterrâneos mas, ainda assim, saberia que essa não seria a principal razão que nos tornara amigos. Sendo um dos primeiros a ter tido acesso à mensagem que, transmitida via rádio a partir do Rivungo, anunciara a desgraça, aprestou-se, pessoalmente, a comunicar-me, com cuidado mas sem grandes rodeios, que não mais veria o meu amigo e companheiro.
Na altura não medi bem o alcance do gesto. Tomei-o como sendo apenas o mensageiro da desgraça. Só mais tarde me dei conta que isso revelara muito da sua personalidade de ser humano. Preocupado com os sentimentos dos outros, fez questão de me pôr ao corrente do facto antes que a notícia corresse os quatro cantos do aquartelamento como sussurro funesto ameaçando a tranquilidade e os sentimentos de cada um.
É notório. Eu gostava do nosso primeiro. Ainda hoje gosto. É sempre com indisfarçável alegria que o revejo ano após ano por ocasião dos nossos encontros anuais. Comparece sempre que pode, especialmente se o local do encontro não for muito longe. A idade já não lhe permite grandes caminhadas. Mas gostamos de o encontrar de boa saúde. Tenho a certeza que esse é o sentimento de todos.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O NATAL


Não consigo!
Por mais que tente, não sou capaz de recordar o que quer seja dos dois últimos natais passados em África.
Parece que as células, os neurónios ou o que quer que seja que tem por função a preservação das memórias, não terão cumprido a sua missão. Nem uma imagem, um simples lampejo, uma fotografia… nada.
Já me perguntei várias vezes o que terá acontecido no natal de 1972 - o passado na Neriquinha - para não ter ficado nada registado.
Terá sido do calor que em Dezembro calcina África?
Terá sido assim tão traumático?
Parece amnésia. É que nem tenho uma só fotografia. Mas deve ter sido com a malta e com boa disposição.
Só me recordo do primeiro Natal, o passado no Rivungo, um mês e pouco após ter ali chegado.
Do último também não retenho nenhuma lembrança. Nessa altura penso que ainda estávamos nas Mabubas.
Ou não?
Tenho a certeza que regressei a Lisboa no dia 6 de Janeiro de 1974.
Provavelmente já tínhamos sido rendidos e estávamos em Luanda à espera do transporte que nos trouxe de regresso a casa.
Provavelmente essa é a explicação. Luanda … nada de oficial para fazer, galdeirice, brincadeira, noitadas…
Sim. Disso lembro-me.
Está explicado. O natal de 1973, em Luanda, passou sem darmos conta.
Espera!
Foi nessa altura, quando já pouco havia para fazer, que um acidente estúpido nos levou o Morgado.
Estava na praia, na brincadeira. Um mergulho mal calculado e partiu o pescoço.
Não quis acreditar.
Ao fim de tudo por que passáramos?
Quando já só faltavam uns escassos dias, havia de acontecer outra desgraça!
Cada um à sua maneira já tinha travado a luta com os sentimentos, mandado as saudades às urtigas e tentado sublimar a perda irreparável do Gonçalves.
O destino, ou o que quer que seja a força que nos domina, havia de nos pregar mais uma partida. A última.
Esta minha cabeça tem destas coisas. Mais uma vez concluo não perceber como funciona a memória.
Não me lembro de um só pormenor dos dois últimos Natais em África. Mas dos dois camaradas que não regressaram, lembro-me muito bem.
Fica aqui a homenagem.
Com tristeza mitigada pelo tempo, mas com saudade reforçada.
Um bom natal para os vivos.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Ainda cá estás...sabes?

O sotaque, inescondível, marcava-o desde a primeira luz da sua curta vida e levava-nos á terra da semelha com beselha, dos candeeiros e das abelhinhas.
O bronzeado permanente e natural, marcava-lhe na pele, o mar e o sol.
A calma da fala e a ponderação do gesto identificava-o como ilhéu - que o remanso da solidão e o barulho das ondas lacra na alma dos donos do oceano.
Chamava-se Gonçalves, Furriel José Maria Nóbrega Gonçalves, natural de Valparaíso, freguesia da Camacha, concelho de Santa Cruz, na ilha da Madeira.
Faleceu - vai fazer 36 anos - a 8 de Julho de 1972, no Rivungo num acidente estúpido, como estúpidos são todos os acidentes com armas de guerra na mão de militares.
O fogo da arma, roubou-lhe a chama da vida.
Ainda cá estás, entre nós!
Parece que foi ontem, sabes?