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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O ESCAREPE

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O cumprimento do serviço militar num local tão afastado do mundo civilizado como é o caso da Neriquinha, exigia vocação de explorador, mas daqueles que se sentem atraídos por locais ermos. Ora, isso era exactamente uma característica que, na 3441, ninguém possuía. Nem era preciso. À chegada a África, não fazíamos a mínima ideia do nosso destino e como também todo aquele imenso território nos era totalmente desconhecido, tornava-se, de alguma forma, indiferente o local que nos estava destinado. Desde que não fosse para um daqueles com fama de perigosos onde, segundo se dizia, o inimigo se mostrava mais afoito, tudo o mais era igual, especialmente porque ninguém era capaz de imaginar que pudéssemos ser largados no meio de coisa nenhuma. O facto é que, pelo menos até chegar à pequena cidade do Luso, não imaginava que nos pudesse cair em sorte um lugar que bem podia ser classificado como impróprio para ser habitado por seres humanos. A juntar a tudo isto, a certeza de que não valia a pena pensar nisso. Na tropa, pelo menos naquela altura, íamos para onde nos levassem, era imperativo e não havia como reclamar.
Quando desembarquei em Luanda e a partir daí levado através daquele imenso território, naquela interminável viagem, até aos confins das terras do fim do mundo, fui interiorizando a desagradável certeza de que me estavam a afastar de tudo aquilo que, até então, fazia parte da minha vida, ao mesmo tempo que um estranho vazio se ia instalando à mistura com o turbilhão avassalador da radical mudança. O meu mundo fugia, ficava cada vez mais distante, inacessível e eu, impotente, dominado por uma anestesiante letargia, nada podia fazer para evitar aquela espécie de evanescência. Esse semi-estado de inconsciência à mistura com o permanente temor do desconhecido e as campainhas que o instinto de sobrevivência fazia soar dentro da minha cabeça exigindo para si o exclusivo dos meus cinco sentidos, compunham uma amálgama de preocupações, qual barreira psicológica que impedia a percepção exacta da realidade que me esperava. Desde que saíra de Luanda, tudo se foi desvanecendo, desaparecendo como num passe de mágica sem que disso me desse conta.
Desde logo, mulher branca foi ser que se deixou de ver. Tirando Luanda, apenas me lembro de avistar, assim de soslaio e de fugida, umas quantas que connosco se cruzaram, por mero acidente, frente à estação de comboios de Nova Lisboa, enquanto se aguardava o início daquela longa viagem, através do caminho-de-ferro de Benguela, que nos levaria até ao Luso, derradeira fronteira entre a civilização e o desterro remoto da Neriquinha. Convém esclarecer que, tanto quanto me recordo, isso não me preocupou muito, pelo menos naquela altura. Não sabendo nada sobre o nosso local de destino, não era possível antever que ali não havia mulheres brancas. Na verdade, não havia mesmo coisa nenhuma, embora disso nem me tivesse apercebido quando o Nord Atlas nos largou na pista empoeirada daquele fim de mundo. Só decorrido algum tempo, quando a saudade começou a imiscuir-se no bem-estar emocional, cada um se foi dando conta que ali, para além de não haver nada, também não havia mulheres. Pelo menos daquelas a que estávamos habituados. Sim, porque as mulheres ganguelas, a maioria autóctone que habita aquela região, para além de não deverem nada à beleza, também não possuíam quaisquer atributos dignos desse nome.
Mas isso foi no princípio. Com o passar do tempo, até mesmo os mais exigentes começaram a encontrar atractivos naqueles corpos andrajosos, sujos e mal cheirosos. E como ascetismo ou misoginia eram conceitos que ali não se aplicavam, a certa altura, qualquer mulher que não tivesse a pele enrugada e as mamas semelhantes a um bacalhau seco e enegrecido, era considerada uma beleza e isso era meio caminho andado para passar a ser cobiçada. Ao fim de algum tempo, todas estavam catalogadas, era inevitável, uma espécie de processo biológico a que era impossível fugir.
E os hábitos sexuais daquelas gentes também contribuíam para que as coisas se compusessem. Não se pode falar exactamente em comportamentos menos dignos ou em mulheres disponíveis, daquelas que vendem o corpo, como se encontra em qualquer lugar do mundo. Quer dizer, haver, havia, mas era diferente, digamos que, no seio daquela população, o sexo era coisa aceite como natural, se bem que nem todas as mulheres se disponibilizassem a isso. Os tabus eram poucos ou nenhuns e era fácil conseguir o exclusivo de um kafeco; desde que, claro está, não tivesse dono ou fosse demasiado nova. Bastava pagar o alambamento exigido - uma importância simbólica - e tudo ficava legalizado. O nosso homem das transmissões obteve o exclusivo da Regina Preta se bem que uns quantos se afanassem à procura das suas distracções para debicar na sua exclusividade. Mas de uma forma ou de outra, em troca de um agrado insignificante, qualquer um podia dispor dos favores sexuais que entendesse, sem alaridos, pressões e dispensando o uso das artes da sedução. Bastava combinar a hora, munir-se dos cuidados necessários, aventurar-se à noite por entre as cubatas do kimbo e a coisa compunha-se. A sessão de ginga ginga – termo ganguela que definia o acto – apenas durava o tempo estritamente necessário. Acabada a função, urgia fugir dali, meter-se debaixo do duche para se livrar do cheiro incomodativo e precaver qualquer maleita que dai pudesse resultar. E esse era um procedimento relativamente ao qual todos estavam convenientemente informados.
Pois é. Não há bela sem senão. Tanta facilidade tinha os seus inconvenientes. As doenças venéreas eram vulgares no meio daquela gente. A pouca higiene, o desconhecimento das consequências maléficas que daí podiam advir e a mudança frequente de parceiro, contribuíam para que, pelo menos as mais solicitadas ou mais oferecidas, constituíssem perigo de contágio para quem, descuidadamente, com elas se aventurasse a um fugaz momento de intimidade amorosa. E eram muitos os que não resistiam: uns porque mais carentes, outros por necessidade de demonstrar as suas capacidades de engate, alguns mais tímidos ou inexperientes desinibiam-se e aproveitavam o facilitismo da coisa e outros ainda porque sim, todos (ou quase todos) iam usufruindo de uns mal-amanhados favores sexuais de mulheres pouco dadas ao romance e à sedução.
Ainda assim, não era frequente ouvir-se falar de casos graves de contágio. Apenas um ou outro, queixando-se de um ardor, uma intumescência, ou simples vermelhidão, acudia à enfermaria que, bem fornecida de medicamentos adequados, ia resolvendo os problemas sem consequências de maior. O facto é que, se todos seguissem as recomendações repetidas à saciedade pelo nosso escasso corpo clínico, não havia que temer. Bastava uma simples precaução: passar com antecedência pela enfermaria que disponibilizava pomadas e unguentos para o efeito. Era só seguir as instruções que tudo correria bem.
Bem, mas havia um soldado, creio que do terceiro pelotão, que não encaixava em tudo isto. Não sei se quando ali chegou ainda era virgem, ou se as suas carências sexuais passaram a ditar o seu comportamento. A verdade é que a frequência com que frequentava o kimbo, à noite, parecia exagerada e não era certamente por competência da mulher que procurava. Não é crível que fosse por isso. Simplesmente ganhou o vício e não resistia. Depois do jantar, encaminhava-se para a passagem que ligava o perímetro do aquartelamento ao kimbo, caminhava silenciosamente por entre a escuridão apenas diluída aqui e ali pela incandescência dos madeiros que, utilizados na preparação da comida, ardiam dia e noite e, sem hesitar, demonstrando conhecer bem o caminho, dirigia-se a uma certa cubata de onde só regressava algum tempo depois recolhendo à caserna onde a maioria dos demais já dormia o sono dos justos.
A partir de certa altura, alguém estranhou que tivesse abandonado as suas incursões nocturnas. Fartou-se, pensaram, já que não era suposto que tivesse sido enjeitado. Como ali era impossível manter segredo do que quer que fosse, cedo se percebeu o porquê do jejum: o ardor que começara a sentir agravou-se, a dor aumentou e o desconforto obrigou-o a recorrer à ajuda do enfermeiro. Parece que o seu estado já inspirava cuidados. Pelo menos foi necessária a intervenção do médico e isso era sinal mais do que evidente da gravidade dos sintomas.
O diagnóstico do Dr. Lacerda obrigou a um tratamento que incluía pomadas, antibióticos e, o pior de tudo, recomendações de abstinência sexual pelo menos enquanto durasse a infecção.
Contudo, Mais cedo do que se esperava, o homem foi visto a encaminhar-se de novo para o Kimbo, voltando as suas visitas nocturnas a terem a frequência do costume. E pelos vistos a mulher era a mesma. E como não se ouvira dizer que a senhora se tivesse apresentado ao médico para tratamento, só se podia concluir que continuava a ser portadora da tão temida maleita. O mais estranho de tudo aquilo é que todos sabiam quais as mulheres que, pelas mesmas razões, deviam ser evitadas e aquela estava incluída no grupo. Mas isso não parecia incomodar o soldado.
O facto é que, passado algum tempo, quando era notório que já não conseguia suportar a dor, recorreu de novo ao enfermeiro e mais uma vez, foi preciso a intervenção do Dr. Lacerda. O diagnóstico foi claro. Para além de nem sequer ter debelado a infecção anterior, aparecia agora com um caso de blenorragia grave a exigir medidas mais drásticas.
Pensa-se que seguiu à risca o tratamento imposto pelo médico e sabe-se que deixou de frequentar o kimbo. Ou pelo menos assim parecia. Mas não teria sido exactamente assim. O facto é que voltou a ter de enfrentar o médico que não gostou da desobediência. O estado do homem apresentava-se de uma gravidade tal que o Dr. Lacerda perdeu a compostura e, em tom de ameaça, sentenciou:
- Se te apanho aqui mais uma vez, nesse estado, dou-te uma porrada de todo o tamanho.
Creio que aprendeu a lição. Ou se assustou com o solene aviso do médico ou a gravidade do seu estado foi mais forte do que o vício. Pelo menos nunca mais ouvi dizer que tivesse voltado a recorrer às injecções de penicilina.


domingo, 1 de julho de 2012

A PROFESSORA

A escola também chegava a cada um dos pequenos aglomerados populacionais das zonas mais remotas do Cuando-Cubango. Não a todos porque, na zona por onde andámos, não havia escola na maioria dos kimbos. Por ali, apenas Mavinga, Neriquinha e Rivungo tinham escola e o respectivo professor. O da Neriquinha, um rapaz tão novo quanto qualquer um de nós, era, à vista da população, uma pessoa importante e muito respeitada: sabia ler, desenhava letras bonitas no quadro e dominava muitos saberes trazidos lá da cidade onde aprendeu.
Eu, e penso que também a maioria dos meus companheiros, achava piada ao facto de insistir em usar gravata num local onde a indumentária mais comum era a tanga. Tal adereço, dependurado no pescoço do homem, sobressaindo sobre a camisa colorida, compunha um quadro ridículo se tivermos em conta a nudez daquele lugar empoeirado onde o calor insistia em torrar tudo à volta. O penduricalho estava nitidamente a mais, especialmente se se tiver em conta que aquelas gentes nunca tal haviam visto. Pelo menos até o professor querer dar-se ares de importante com recurso à indumentária. Até porque, a escola, um modesto barracão coberto de capim equipado com bancos improvisados, não se apresentava com a dignidade suficiente para conferir estatuto ao mestre-escola. Apenas a pequena ardósia, de cor escura, rudimentarmente encostada à parede do fundo, permitia adivinhar que ali era a sala de aula. Não fora isso, dificilmente se intuiria que aquele barraco era o estabelecimento oficial onde a criançada aprendia o bêábá.
O facto é que a gaiatada ouvia compenetrada as aulas do professor, papagaiando em coro os ensinamentos, como se a matéria tivesse de ser enfiada à força nas suas cabecitas, método assaz interessante que me levou uma ou outra vez a aparecer, espreitando a aula conduzida com alguma solenidade pelo professor.
Mas vamos ao que interessa. Daí a dois dias, partiria a coluna que faria o reabastecimento ao Rivungo. O stock de cerveja, tabaco e géneros estava perigosamente baixo o mesmo acontecendo com as reservas dos PSP’s nos Kimbos que ficavam no percurso. E isso era razão mais do que suficiente para que fosse considerada vital a reposição dos níveis antes que se esgotassem.
Para a missão foi destacado o Leitão que encetou os preparativos. O Gameiro tratou de coordenar o carregamento de grades de cerveja, tabaco e outras coisas da cantina há muito requisitadas e o Morais mandou separar os géneros que o cozinheiro do Rivungo necessitava. Seria necessário ainda aguardar a chegada do Nord Atlas que semanalmente nos trazia os frescos da Manutenção Militar, aproveitando-se o ensejo para levar ao pessoal ali destacado alguma carne, ovos, hortaliças ou qualquer outra coisa que resistisse ao calor e aos solavancos das viaturas e ao mesmo tempo, não se estragasse durante a longa viagem.
As berliets foram preparadas, verificaram-se os níveis, encheram-se os depósitos de gasóleo, os pneus foram passados em revista e o Lobato deu as últimas afinadelas. Enfim, tudo preparado com a minúcia que o Leitão costumava exigir. Ficara apenas por resolver um problema de última hora com os condutores. Uma sequência de acontecimentos estava a dificultar a vida ao Gabriel, furriel mecânico da companhia a quem competia a gestão da frota e do respectivo pessoal. Parece que um dos condutores estava doente, um outro argumentou com um impedimento qualquer e como nem todos os outros estavam habilitados a conduzir berliets, a coisa começou a complicar-se, aventando-se a hipótese de ter de avançar um dos que ainda mal descansara da última missão.
Na messe, à noite, depois do jantar, à volta com a última cerveja do dia, o assunto veio à conversa. Não obstante as suas funções não o obrigarem a sair para a mata, privilégio que muitos invejavam, o Gabriel gostava de, sempre que podia, fugir do espaço entediante do arame farpado. Ia à caça, por mais do que uma vez foi ao Rivungo, a Mavinga, Neriquinha Velha e Chicove; integrou a primeira incursão ao Esquadrão conduzindo ele próprio uma das berliets, era sempre voluntário para sair em auxílio de quem tivesse ficado atascado nas chanas lamacentas, como aconteceu comigo nas planícies do Cúbia e não resistia a, por vezes, ir à lenha ou às lavras da população quando calhava.
Assim, aquela viagem vinha mesmo a jeito; iria espairecer, matar saudades da malta que estava no Rivungo, dar dois dedos de conversa aos polícias do Liahona, do Mugamba e do Demba, beber umas cervejolas com o chefe França e com um pouco de sorte, até podia ser que apanhasse algumas palancas nas chanas do Cúbia.
- Tá decidido! Vou contigo. Sentenciou dirigindo-se ao Leitão.
No dia seguinte, a chegada do Nord trouxe uma surpresa. Antes que se abrissem as portas traseiras por onde se descarregariam as caixas recheadas de géneros, uma figura feminina, com aspecto frágil, descia timidamente pelas escadinhas dependuradas da estreita porta lateral. A sua tez, de um castanho suave, não deixava dúvidas quanto à raça, embora, pelo menos para mim, não permitisse definir a etnia. A pele, visivelmente bem tratada e a indumentária, indiscutivelmente citadina embora humilde e vulgar, deixavam antever que não se tratava de uma qualquer mulher da Neriquinha de regresso à sua terra.
Todos os olhares convergiram para a figura da mulher que acabara de aterrar naquele fim de mundo. Não porque se questionassem sobre o porquê de tão inesperada visita, mas por outras razões. Preta ou não, o seu aspecto distanciava-se do ar andrajoso e sujo das mulheres do kimbo. O olhar guloso de cada um, seguindo com avidez o seu andar sensual era disso sinal bem evidente; havia meses que não punham a vista numa mulher de jeito e por isso, ainda que à distância, aquela foi acariciada, quase violentada e praticamente despida pelos olhares de tantos quantos presenciavam a cena, saciando, ainda que por breves instantes, pecaminosos desejos a muito custo contidos.
Só depois é que a curiosidade veio ao de cima. Quem seria? Porque veio no Nord? Estaria só de passagem como da outra vez em que se avariou o motor do Dakota? Ou vinha para ficar?
Afinal não havia mistério. Tratava-se da professora que iria reger a escola do Rivungo. Só não se percebeu por que veio de Nord, via Luso, quando o mais natural seria vir de Serpa Pinto, na carreira dos pequenos aviões da Tasa que nos traziam o correio e que a levaria direitinha ao Rivungo. Mas provavelmente sairia mais caro, já que a viagem de Nord era de borla. A coitada da professora é que não se terá apercebido que assim, teria de fazer a parte restante da viagem integrada na nossa coluna de reabastecimento. E isso não era pera doce. Sete horas sobre uma berliet aos saltos pela picada irregular e empoeirada, suportando as inclemências do tempo, não seria propriamente um passeio para uma menina que parecia não estar habituada a tais provações.
Mas não havia outra solução. Creio que lhe reservaram um lugar ao lado do condutor, acomodação que, não obstante o assento de lona, sempre era mais confortável do que viajar sentada sobre uma caixa qualquer. Acomodou-se o melhor que pôde e lá partiram, mata adentro, ao sabor dos meandros caprichosos do percurso, ficando o assunto esquecido mal a última berliet desapareceu, lá ao fundo, na curva da picada.
Bem! Esquecido por todos, menos pelo capitão. A verdade é que o Gabriel decidiu ir na coluna, mas não passou cavaco ao comandante da companhia e creio que nem sequer ao primeiro-sargento que, para além de ser o superior hierárquico imediato, costumava estar por dentro de tudo o que se passava. E isso não caiu bem, especialmente porque ninguém tirava da cabeça do capitão que a decisão do Gabriel, à sua revelia, tinha a ver com a professorinha. A forma sorrateira como o furriel se desenfiou cheirava a rabo de saias e isso ainda era mais grave. Todos se aperceberam do descontentamento do capitão e a julgar por um subtil comentário feito pelo primeiro-sargento ao jantar, viria borrasca para cima do Gabriel mal regressasse da viagem.
Mas disso nem ele sabia e se bem o conheço, nem nisso pensava.  Certamente que nem lhe terá passado pela cabeça que a sua decisão em fazer aquela viagem com o Leitão lhe iria trazer dissabores. Disso só se apercebeu, volvidos dois dias quando, no fim de mais um regresso do Rivungo, as berliets se imobilizaram na parte inferior da parada como faziam sempre. Era o momento de sacudir o pó, desaperrar as armas e esticar o corpo cansado e moído de tantos safanões resultantes dos saltos e ressaltos que as irregularidades da picada impunham às viaturas. Nesse ínterim, alguém lhe soprou que o capitão se preparava para lhe dar uma porrada. No mínimo, de uma piçada ninguém o livrava. Na dúvida, o Gabriel preparou-se para a borrasca, provavelmente engatilhando explicações que justificassem a infracção que entendia não ter existido.
Ouviu sermão e música cantada, foi avisado, admoestado e ameaçado com uma punição severa. Mas a porrada ficou suspensa. O Leitão poderia confirmar que tudo fora combinado antes da chegada do Nord; A professora não poderia ter sido o leitmotiv.
Foi a vez do Leitão que, por sua vez, foi questionado, interrogado, apertado, ouviu por longo tempo as mil uma razões que justificavam a porrada. Umas quantas, no entender do capitão, eram suficientemente graves para justificar uma punição severa.
Mas nada aconteceu. Ou porque o capitão entendeu que as justificações mereciam credibilidade ou porque confiou na palavra do Leitão, o Gabriel saiu incólume. Não me admiro nada que a sua sorte tenha sido ditada pela confiança que o capitão depositava no Leitão. Era o furriel mais antigo, era sério, cumpridor, não se baldava e não criava problemas. Sim, é bem provável que isso tenha pesado na decisão.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Kiela no Samatamo

Dou hoje mais importância ao modus vivendi do povo Ganguela, do que no tempo em que com eles convivi no dia-a-dia. Bem vistas as coisas, embora a memória, rendida aos quarenta anos já passados, esteja cada vez mais desvanecida, a verdade é que, na altura, ligava a pouca coisa que tivesse a ver com os seus hábitos. Retenho a ideia de que era um povo afável e humilde, mas culturalmente a anos de distância daquilo que se entendia designar por civilização.
Os seus costumes eram ancestrais e pautavam-se por hábitos e crenças que, então, me pareciam mais próximos da pré-história do que dos nossos tempos e não tenho dúvidas de que os seus contactos com as modernices dos brancos só terão começado com a chegada da tropa. Até então, bastavam-se com aquilo que a imensa savana lhes oferecia e isso era mais do que suficiente para a satisfação das suas escassas necessidades. Do rio tiravam o peixe e da mata tudo o resto. Quanto à água, havia-a em abundância por todo o lado.
Bastava dar uma volta pelo kimbo para se perceber tudo isso. As cubatas rudimentares que apenas serviam para se abrigarem do desconforto da noite, a pouco variada dieta alimentar, os parcos utensílios de que se serviam, os símbolos e fetiches à porta da curandeira de serviço, são exemplos dos sinais evidentes que se encontravam a cada canto.
O temor do desconhecido e as crendices no sobrenatural ilustram perfeitamente o que quero dizer. O pavor que tinham de uma máquina fotográfica radicava na crença de que o aparelho lhes roubava a alma; saía-lhes do corpo e ficava presa no papel da fotografia.
- Xicupula não! Gritavam à vista da temida maquineta.
Exemplos semelhantes havia-os às dúzias. Já não me lembro da maior parte, mas as mezinhas com sangue de galinha, as danças para afugentar feitiços, o estrume de vaca que espalhavam na cabeça das mulheres que atingiam a puberdade compondo um artístico e mal cheiroso penteado, o ritual da perda da virgindade e mais umas tantas crendices, compunham um leque razoável de comportamentos que considerávamos estranhos.
O batuque, com o seu tum-tum-tum que chegava a durar dias, tocado a propósito de muita coisa, tanto podia servir para abrilhantar uma comemoração ou uma festa, como para conferir dramatismo ao lamento pela morte de alguém ou ainda como banda sonora de um qualquer acto exorcista para afastar feitiços. Quando começava, nunca se sabia se comemoravam ou se choravam, se exorcizavam maleitas ou se simplesmente procuravam afugentar maus espíritos. O pior é que, normalmente, preferiam fazê-lo à noite. E quando isso acontecia, ninguém conseguia dormir nas redondezas. Felizmente que ali era o capitão quem ditava as regras. O assunto resolveu-se com uma decisão que, provavelmente veio colidir com os seus hábitos: batuques, só com autorização prévia do comandante da companhia e não poderiam prolongar-se pela noite dentro.
Mas, por ser o único que estava logo ali ao lado do aquartelamento, colado á cerca de arame farpado, esta regra só valia para a população do kimbo da Neriquinha. Em todos os outros, espalhados pela mata imensa, os costumes seguiam as suas próprias regras, não havendo brancos por perto que pudessem sentir-se incomodados.
O Samatamo era um desses kimbos. Mais pequeno que os demais, localizado nas imediações das chanas do Kuando, meio perdido algures na imensa savana, ficava a sul do Rivungo, a pouco mais de uma hora por uma picada que serpenteava por entre as árvores e, ao contrário de todos os outros, nem tão pouco era enquadrado por agentes da PSP. Talvez por isso, era visitado, com alguma frequência, pela tropa. Passávamos por ali de vez em quando, numa espécie de patrulhamentos que se faziam, mais para marcar presença do que para outra coisa; contactava-se com a população e aproveita-se para vigiar as margens do rio que ali fazia fronteira com a Zâmbia. Eram missões de dois dias, pacíficas, sem grandes canseiras ou caminhadas, efectuadas a cavalo de um unimog e chefiadas por um furriel à frente de meia dúzia de homens, já que mais do que isso, não cabia na viatura.
Durante a minha permanência no destacamento do Rivungo, fui encarregue de uma dessas missões. Sem pressa, saímos a meio da manhã, tomando a picada que seguindo para sul, nos levaria ao destino. Lembro-me de que passámos pela Mahínha, um pequeno aglomerado de quatro ou cinco cubatas construídas de forma muito rudimentar e que apenas albergavam duas ou três famílias que mantinham lavras de milho e massango nas redondezas e que distava do Rivungo menos de um quarto de hora. Hoje, consultando o Google Earth parece-me estranho que o local esteja assinalado com relevo, ao contrário do Rivungo que nem é referido.
A missão correu naturalmente, sem incidentes ou o que quer que fosse que merecesse ser relatado a não ser a noite passada à beira da chana, cuja humidade alimentava um autêntico viveiro de mosquitos gulosos que infernizaram o sono. A verdade é que desta missão rotineira, praticamente insignificante face a tantas outras que me levaram a calcorrear quilómetros de savana, sobre um sol impiedoso ou chuvas diluvianas, apenas ficou um insignificante pormenor que, mesmo sem ter fotografias, permanece gravado na minha memória e ao qual só vim a dar importância muitos anos depois.
Saltámos do unimog e refugiámo-nos à sombra de uma árvore frondosa à entrada do kimbo, procurando protecção para a inclemência do sol que nos derretia as poucas gorduras, ao mesmo tempo que se acalmava a sede, sorvendo avidamente a água dos cantis. Ali ao lado e também à sombra da mesma árvore, quatro ou cinco elementos da população entretinham-se acocorados à volta de três filas de pequenas covas, equidistantes umas das outras, como que compondo um tabuleiro meticulosamente escavado na areia endurecida pela chuva da noite.
Aproximei-me curioso. Sementes redondas, pouco maiores que avelãs, estavam irregularmente distribuídas por cada covinha. À vez, cada jogador escolhia uma cova, fazia cálculos e distribuía pelas covas seguintes, uma a uma, as sementes que recolhera da cova seleccionada. Fiquei a olhar tentando perceber a lógica do jogo, mas só consegui discernir que não era indiferente a cova escolhida. Dependia da sua localização face às que se lhe seguiam e da quantidade de sementes que continha e não sei bem porquê, fez-me lembrar o jogo de gamão com que o Viola e o Ramirez costumavam entreter-se num tabuleiro existente na Neriquinha; nunca o percebi e só aqueles dois é que o sabiam jogar. Pelo menos nunca vi mais ninguém a fazê-lo.
Contudo, o avanço das peças no gamão é ditado pelo número que sair nos dados lançados no tabuleiro, enquanto que, no jogo das covinhas, a decisão é do jogador e isso implica uma estratégia e obriga a cálculos que não me pareciam simples.
Ainda hoje não sei nem as regras nem a finalidade, mas sei que é um jogo de estratégia, aparentado com o xadrez, mais conhecido pelo nome de Kiela, que leva horas a chegar ao fim e cuja complexidade transforma em inofensivas brincadeiras de crianças os jogos de cartas como a sueca ou a bisca lambida, muito populares nas casernas dos nossos soldados.
Lembrei-me deste pequeno episódio ao ler o Afonso Loureiro. No seu Blog, contou uma pequena história sobre este jogo. Ao ver a fotografia que captou (ver aqui), veio-me à memória as covinhas no chão debaixo daquela árvore no kimbo do Samatamo.
Afinal aqueles indígenas, integrando uma etnia considerada entre as mais atrasadas do continente africano e cujo modo de vida me pareceu mais próximo da pré-história, eram exímios num jogo iminentemente intelectual.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A preparação da janta

A alimentação dos ganguelas da Neriquinha era muito pobre e talvez fosse essa a razão para não haver gordos entre aquele povo.
Proteínas, apenas as que retiravam do que conseguissem caçar, uma ocupação dos homens que para o feito, deambulavam durante semanas pelas matas até apanharem alguma coisa; por sorte, a caça abundava por ali.
Também nunca os vi comer verduras e os frutos resumiam-se a algumas variedades, desconhecidas para nós e que cresciam espontaneamente nas matas.
A base da alimentação era constituída por dois cereais: o milho e o massango, com os quais cozinhavam uma papa de aspecto duvidoso.
Mas para isso, era necessário transformá-los previamente em farinha, uma tarefa demorada feita à força de trabalho braçal; bater os grãos dentro de um grande pilão com uma vara grossa e pesada, era tarefa árdua que competia às mulheres. Passavam horas em pé, batendo o cereal a um ritmo cadenciado, até conseguirem a consistência desejada.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Artesãos da Neriquinha

Numa abordagem superficial, a produção de artesanato poderia parecer tratar-se de mera ocupação do tempo. Mas se se tiver em atenção o que produziam, facilmente se conclui que a arte de esculpir a madeira e moldar o ferro visava em primeira mão a produção de ferramentas e utensílios necessários ao dia a dia daquelas gentes. Aquela forja artesanal e curiosa, manipulada pelo Século Sarikissi, com a qual forçava sem esforço o ar até o braseiro que tornava o ferro incandescente, não fora invenção recente. Mais, não tinha por finalidade a simples produção de artesanato.
È claro que a lixeira da tropa se transformou num local onde encontravam matéria prima pronta a ser transformada: bocados de molas partidas das viaturas eram facilmente transformados em facas, machados (javites) e lanças; aduelas de barris que ali chegavam acondicionando azeitonas e outras conservas viravam cadeiras e artefactos e a abundância de madeira existente nas matas era facilmente transformada em objectos procurados pelos tropas dando lugar a um mercado em que cachimbos, cinzeiros artísticos, pequenas estatuetas, tambores e caretos constituíam uma fonte de rendimento até então inexistente.A arte de moldar o ferro e esculpir a madeira tornara-se um negócio, passando as ferramentas a serem aos poucos adquiridas no Chiado.
















quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O CHIADO

A população da Neriquinha e arredores não ligava muito ao dinheiro. Na verdade, o seu modo de vida e a satisfação das suas necessidades básicas dispensava tal modernismo; tiravam da terra quase tudo o que consumiam, fabricavam a maior parte dos utensílios que precisavam e colhiam na mata os materiais com que construíam as suas casas.
Era uma economia agrária, rudimentar e por ali não havia mercearias, supermercados, drogarias ou outras lojas que convidassem ao consumo.
A chegada da tropa a tão remotas paragens veio contaminar este despojado modo de vida. Com a tropa, vieram também coisas que rapidamente os conquistaram. O tabaco e o álcool contam-se entre as novidades a que rapidamente aderiram, especialmente as mulheres; com um simples maço de tabaco obtinha-se de uma mulher muitos favores.
Mas o álcool era talvez aquilo que mais apreciavam. Com muita frequência encontrava-se pelo kimbo mulheres totalmente embriagadas, à força de emborcarem quantidades significativas de uma mistela alcoólica de produção caseira obtida a partir da fermentação das sementes de massango. De cor castanho forte e com muito mau aspecto constituía até então a única bebida que conheciam para afogar as mágoas se é que era esse o intento.
À vista da beberragem, uma garrafa de brandy, de cor nacarada e límpida, assemelhava-se a coisa especial, inatingível; um néctar próprio dos deuses, mas de preço muito elevado para bolsas tão magras.
O produto era de facto muito apreciado e todos sabiam disso. Exactamente por isso, certa vez, no Rivungo, o cabo enfermeiro apostou que, prometendo uma garrafa de brandy a uma mulher que trazia fisgada, conseguiria uma noite de prazer sem gastar um centavo. Pegou numa garrafa vazia, encheu-a com metade de água e metade de álcool puro subtraído da enfermaria, adicionou meio frasco de complexo B para conferir uma cor amarelada à mistela, rolhou muito bem e deu-a de presente anunciando o melhor brandy do mundo. Foi dia de festa para a mulher; bebeu a garrafa numa noite e no dia seguinte queria mais:
- Brandy muito bom, nosso cabo, machiririca.
De uma assentada, elogiava a qualidade da mistela e com o machririca mimoseava o enfermeiro.
Mas não foram apenas novos produtos que a guerra levou àquelas bandas. Novos hábitos de consumo, algumas utilidades, umas quantas futilidades e algum dinheiro também ali chegaram, contribuindo para uma aculturação paulatina, que levou aquela gente a ir aderindo, uma após outra às novidades, até já não dispensarem certas modernices. Por exemplo muitas mulheres já não passavam sem o seu cigarro; compravam-nos, cravavam os militares ou então recebiam-nos em troca de um agrado. Na sua maioria, especialmente as mais velhas, fumavam introduzindo na boca o cigarro ao contrário. Depois de o acenderem, enfiavam na boca a ponta incandescente deixando de fora a boquilha e assim ficavam até o cigarro se consumir. Nunca percebi como faziam aquilo; não molhavam o cigarro, a chama não se apagava e consumiam-no até ao fim sem se queimarem.
A grande novidade que veio com a tropa foi o dinheiro o qual, como não podia deixar de ser, foi chegando às mãos daquele povo, quer como paga dos serviços que prestavam, quer como provento da venda do que pudesse interessar aos forasteiros; o sexo era uma boa fonte de rendimento perante a quantidade de homens sedentos de mulher e o variado artesanato que produziam tinha boa aceitação entre os tropas.
Depois havia o ordenado pago aos GE’s, substancialmente maior que as demais fontes de rendimento. Recebiam muito menos que qualquer soldado mas para eles era dinheiro que não tinham onde usar. E isso levava-os a gastá-lo na cantina, comprando álcool.
Por outro lado, lojas, naquele fim de mundo, abertas ao público, eram coisas escassas. Apenas no Rivungo havia uma rudimentar loja explorada pelo velho Miguel, vendendo pouca coisa e em Mavinga, tanto quanto me lembro, não haveria mais do que duas. Mas, como era preciso pelo menos dois dias de caminho para vencer a distância, tinham pouca utilidade para a população da Neriquinha e qualquer delas não vendia nem tabaco nem álcool; apenas uns panos coloridos, umas missangas, uma coisa ou outra e nada mais. Os clientes escasseavam, o dinheiro era pouco e os hábitos de consumo inexistentes. Ou seja comerciante por ali não se safava, o que confirmava a minha teoria de que o marinheiro Godinho, quando voltou para o Rivungo e ali se estabeleceu tomando de trespasse a lojeca ali existente, fê-lo certamente atraído pelas armadilhas do amor que o prenderam à negra por quem se embeiçou. Nunca mais regressou à civilização, acabando ali os seus dias volvidos alguns anos e não consta que tenha ficado rico.
Ora, a Neriquinha não era uma localidade. Como já se disse, era apenas um acampamento militar delimitado por uma cerca de arame farpado no meio da terra de ninguém. A população que ali habitava apenas se arrumou do outro lado da cerca, procurando a segurança e o conforto que a tropa propiciava. O facto é que, como se sabe, logo que findou a guerra, a tropa abandonou o local, a população zarpou, procurou outros lugares, ficando a Neriquinha a apodrecer, abandonada, até se converter em ruínas tomadas pela mata.
Mas, voltando ao tema do comércio, é claro que a lacuna tinha de ser suprida. A Neriquinha precisava de uma loja; a população que ali se juntou tinha necessidades que precisavam de ser satisfeitas e a tropa encarregou-se disso. A 3441 herdou da companhia anterior e suponho que também esta herdou da que a antecedeu, uma cubata grande, um barracão todo feito de capim já enegrecido pelo tempo, estrategicamente plantado perto da passagem que ligava o aquartelamento ao Kimbo, nas traseiras da ferrugem.
Eufemisticamente puseram-lhe o nome de “O CHIADO”. Ali se vendiam umas quantas tralhas: panos de diversos padrões e cores, ferramentas onde se incluíam as enxadas, panelas de ferro tipicamente portuguesas (daquelas com tripé) ideais para cozinhar sobre lenha, uns alguidares de plástico, uns canecos, uns pratos de lata esmaltada, facas, colheres, garfos, missangas e outros adornos e mais uns quantos artigos que se consideravam poderem interessar à população.
Para a gerência do estabelecimento foi designado o furriel P. Costa, acumulando com a coordenação da horta. Já que o capitão o dispensou da actividade operacional por alegadamente sofrer de uma qualquer doença incapacitante, ao menos tinha com que se entreter. Mas, vistas bem as coisas, a nomeação foi acertada. O P. Costa tinha jeito para o negócio, sabia lidar com aquelas gentes e pelos vistos era de confiança, já que, tanto quanto sei, o estabelecimento dava lucro.
Assim, quando os GE’s recebiam o seu ordenado, havia como gastar o dinheiro em coisas úteis, e não apenas na cantina, embora isso não impedisse que o stock de brandy sofresse baixas consideráveis nos dias que se seguiam. De facto, amor ao dinheiro era coisa que não tinham e menos ainda hábitos de poupança e também não aspiravam a nada que pudesse ser alcançado com as poucas notas que recebiam mensalmente.
Nesta ordem de ideias, e não tendo o dinheiro serventia, o normal era gastarem-no todo nos primeiros dias em bebida que ingeriam sem comedimento e isso poderia constituir um problema de ordem social e pior que isso de ordem disciplinar. GE’S bêbados por dias consecutivos não era muito auspiciante.
E foi por todas estas razões que o capitão, investido em representante da autoridade do Estado, determinou que uma parte do ordenado lhes fosse pago em espécie; exactamente em artigos à sua escolha que seriam fornecidos pelo Chiado, ficando assim garantido que, pelo menos essa parte, não se evaporaria em álcool.
O facto é que o Chiado foi cumprindo a sua missão: as mulheres começaram a andar mais vestidas, passaram a exibir adornos de missangas coloridas e as latas velhas e negras de fumo, recolhidas na lixeira da tropa e até então utilizadas na confecção das refeições, foram sendo substituídas por panelas de ferro.

O Chiado não abria todos os dias e quando abria era por pouco tempo, já que o fluxo escasso e intermitente de clientes, não obrigava ao cumprimento de horários comerciais. Quem quisesse comprar alguma coisa sabia onde estava o lojista e o P. Costa não se esquecia de manter o estabelecimento aberto nos dias que se seguiam ao recebimento das mesadas, quer se tratasse de GE’s, dos rapazes que lavavam a roupa, dos serviçais que ajudavam na enfermaria, na horta, na cozinha e na messe ou onde pudessem garantir uma fonte de rendimento.
O lucro do negócio propiciado pelo Chiado não engordou ninguém em particular. Foi usado até ao fim da comissão para compensar a escassez da verba para alimentação. Graças ao Chiado, comemos um pouco melhor durante o resto do tempo que durou a nossa missão por terras angolanas. E a população agradecia a possibilidade de adquirir algo de que precisasse em troca do dinheiro inútil. Não fora isso e provavelmente gastaria as suas parcas receitas monetárias em coisas supérfluas; talvez em álcool.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O Julgamento


Kimbo de N´riquinha (1973)
Julgamento por incumprimento das regras do alambamento…

Tens uns probrema grande nos Kimbo, meu captão. Uns maka por causa duns mulher que fugiu. Popração quer que captão venha nos kimbo p’ra resolver!”

É o Lupale, figura proeminente do aldeamento, que me fala, acompanhado de um ou dois secúlos, em mais uma manhã soalheira à saída do meu pequeno-almoço na messe. Era normalmente aí que me esperavam para me colocarem as questões que os atormentavam. Jamais me interrompiam no que quer que fosse. Esperavam pacientemente que eu saísse da messe, ou do gabinete, e então abordavam-me.
Procurei inteirar-me melhor da situação. O problema era bem mais complexo do que eu imaginara. Depois de ter angariado a admiração e a confiança da população, por via do enorme conforto que a Companhia lhes havia proporcionado no apoio às lavras, triplicando as áreas de sementeira, passei a ser consultado para tudo o que se constituísse "probrema" no Kimbo.

O tribunal para a resolução de questões sociais reunia à noite na rua em pleno centro do aldeamento, embora, felizmente, com sessões pouco frequentes. Em todo o tempo que lá permanecemos aquela terá sido a única sessão de que tivemos conhecimento. Uma espécie de fórum ao ar livre onde se sentavam em círculo as forças vivas do aldeamento presididas pelo soba, que, no caso, atendendo à sua avançada idade, tinha apenas uma função honorífica que todos respeitavam. Quem quisesse podia assistir mas não podia emitir opinião. Para lá dos membros daquele juízo, formado pelos secúlos e alguns velhos, apenas intervinham os implicados e seus familiares.

Era já noite cerrada quando me foram chamar à messe, conforme ficara combinado. À minha chegada fez-se um enorme silêncio, como se tivesse chegado o cacique-mor da região, ou um venerando chefe religioso cuja figura impusesse a maior deferência e veneração. (O poder da “razão” das armas sempre impôs respeito e medo e não seria ali que tal não iria acontecer)

O soba levantou-se para me dar o seu lugar, que naturalmente recusei. Sentei-me ao seu lado postando-me propositadamente um pouco atrás, como faria um observador convidado para assistir a um evento em país estrangeiro. Pareceu-me sensato que a minha presença deveria quedar-se pela circunstância de um simples observador, até porque havia todo o interesse e curiosidade da minha parte em verificar como funcionava aquela forma de tribunal.
Depois de me acomodar, continuou aquele silêncio inicial que logo percebi ter a ver com a minha presença. Compreendi que esperavam que eu tomasse qualquer iniciativa, ou indicasse qualquer novo rumo diferente daquele a que estavam habituados numa herança que tinha séculos. Era afinal lógico. Senão não me tinham convidado.
Fiquei um pouco embaraçado porque não era essa a minha intenção. Ao mesmo tempo senti que, provavelmente, ia decepcioná-los nas expectativas que lhes terei criado ao aceitar o convite que me fizeram.

Disse-lhes que vinha mais para ouvir e que se achasse que tinha alguma coisa para dizer que o faria. Os trabalhos deveriam decorrer como se eu ali não estivesse. Tudo deveria acontecer como sempre tinha acontecido.
As minhas palavras foram então traduzidas pelo Lupale, porque a maioria, sendo idosos, não dominava o português. Sucederam-se alguns murmúrios, cujo teor também não entendi porque de igual modo não foram em português. Mas foi possível perceber alguma frustração que notei com maior clareza no lado dos familiares da ré em questão, por certo pouco esperançados no sentido da justiça que os esperava. No fundo, uma pena com centenas de anos de aplicação em casos semelhantes.
- "O soba diz que sim. Tá bem mé captão." É o Lupale que me informa.
O julgamento tem então início. O Lupale fica junto de mim e funciona como meu cicerone, mas também membro activo naquele plenário. E como se de um momento para o outro se tivesse carregado num botão, desataram todos a falar ao mesmo tempo, que me parecia até impossível que se entendessem naquilo que diziam. Uma tremenda de uma confusão. O Lupale alternava a tradução que me fazia daquilo que se ia dizendo, falando em voz baixa para mim, para logo de seguida acompanhar o tom de confusão geral altercando-se com um dos muitos interlocutores que no lado oposto ao seu teria dito algo com o qual ele estaria em desacordo.

De que constava então aquela demanda. Como já foi referido, no processo de casamento havia lugar ao "alambamento", constituído por uma série de valores que eram entregues aos pais da noiva. Mas chamemos, então, as coisas pelos nomes. A noiva era comprada aos pais mediante a entrega de um determinado valor em géneros e utensílios agrícolas ou domésticos, o qual era discutido como um qualquer negócio. No caso, era o que tinha acontecido. O "alambamento" fora pago e o casamento teve lugar com a pompa tradicional. No dia da boda a noiva era untada com um produto oleoso misturado com uma substância avermelhada e enfeitada com milhares de missangas por todo o corpo, com especial relevo para o cabelo, que era trabalhado de uma forma artística brilhante, onde era difícil distinguir os produtos utilizados, por vezes estranhos e de aspecto muito pouco apelativo. Pelo menos para estranhos como nós. A noiva ficava depois exposta durante todo o dia ao aldeamento, sentada de joelhos à porta da sua cubata. O noivo não se aproximava da noiva. Era a regra. O aspecto desta também era pouco convidativo. Talvez agradável à vista mas muito pouco atraente ao tacto e olfacto…

Mas ocorrera uma outra circunstância muito pouco usual. Festejado o casamento, bastaram alguns meses para que a mulher concluísse que tinha, afinal, feito um “mau negócio”. E se se pensa que estas coisas só acontecem em sociedades civilizadas, puro engano.
Consumada a ideia de incompatibilidade, considerando o estatuto vigente de um mero objecto em que lhe estava praticamente coarctada a faculdade de pensar e contestar, a ré, ali ausente, tratou de namoriscar um jovem que passava numa coluna de viaturas e fugiu com ele para Serpa Pinto. A distância a que se situava este novo local eleito para um recomeço de vida, não foi escolhida ao acaso. Cerca de seiscentos quilómetros era suficientemente dissuasor para que o marido espoliado pusesse de parte quaisquer intuitos de recuperação do que lhe pertencia. "Espoliado" e "pertencia" são aqui os termos mais adequados à forma como aquelas coisas eram tidas por ali. Uma mulher de armas era o que me parecia ser esta ré ausente, que nunca cheguei a conhecer.

Naqueles tempos uma atitude destas era mais que corajosa e pouco comum. Na anormalidade da situação tudo parecia poder-se considerar normal. O casamento não deu, cada um vai à sua vida procurando reconstrui-la o melhor que puder e souber.
Só que ali funcionavam regras ancestrais e esse era o busílis da questão. Neste tipo de situação o "alambamento" tinha que ser devolvido, ou a mulher tinha que regressar ao seio do lar.
O regresso apresentava-se praticamente impossível e o grande imbróglio era que os familiares da ré já tinham dado fim aos valores do "alambamento", não havendo nada para devolver, nem outros bens de substituição. Coisas comuns que nos acontecem a todos quando a vida nos prega algumas partidas e lá se vão os anéis ficando os dedos.
Mas as regras não terminavam aqui.
Neste caso, considerando que não havia mulher para regressar a casa, nem "alambamento" para devolver, eram mesmo os dedos que serviam de moeda de troca. Dizia o ordenamento de penas que, no caso, a família teria que levar uma carga de pancada para suprir a falta de bens para devolução. Nem mais.
Não resisti a um sorriso interior que, com algum esforço, não permiti que me aflorasse ao rosto. A discussão divagava em torno destes parâmetros. Os familiares da ré debatiam-se entre a perspectiva de falta de meios económicos para satisfazer aquela dívida e o pouco desejo de levar uma sova. Os argumentos flutuavam entre a convicção (pouco convicta) de que a mulher haveria de regressar mais dia, menos dia, e outra, tão menos convicta quanto aquela, de que não achavam justo apanhar por uma coisa que não estava na sua mão resolver. Esta última porque sabiam que as regras, não obstante, eram assim havia séculos.

Como é costume nestas circunstâncias, qualquer que seja o ponto do planeta em que ocorra, o debate entrou numa maré repetitiva de argumentos sem que se vislumbrasse outra saída que não fosse a prevista naquele código natural das coisas, tal como sempre acontecera até então.
Nessa altura achei que era o momento de intervir. Naturalmente advoguei a defesa dos familiares da ré. Sempre com o Lupale a traduzir aquilo que eu dizia, lá fui argumentando que os familiares não podiam ser responsabilizados pelos actos da mulher, uma vez que esta era adulta (frisando bem ao Lupale que eu disse adulta e não adúltera...) sendo ela a única responsável pelos seus actos.
Lá fui desfiando uma ladainha enorme de argumentos com alguns exemplos práticos, sentindo, no entanto, que o meu discurso era capaz de me soar bonito a mim, mas não colhia lá grandes frutos na assembleia. As cabeças meneavam que sim mas era apenas um sim de entendimento daquilo que eu dizia. Lá por dentro eu vislumbrava um rotundo não, quanto ao convencimento que obtinha no seu íntimo.
Sorriam os familiares da ré abanando convictamente a cabeça, resmungavam os do marido enganado. A divisão de opiniões continuava claramente desfavorável aos primeiros. Voltei à carga mais uma ou duas vezes porque me apercebia que não conseguia lá grande coisa com todo aquele palavreado. Os resultados não melhoravam.

A lua estava a pino. Era de um brilhante prata como só em África acontece. O ambiente nocturno, sem qualquer foco de luz artificial nas proximidades, contribuía para aquela luminosidade resplandecente. Enquanto rebuscava mais uns quantos argumentos para deitar cá para fora e fazer de minha a justiça que queria ver feita, dei por mim de olhos presos na lua.
Vislumbrei-lhe um sorriso trocista, uma ironia indisfarçável que zombava de mim. Aquele ar irónico clarificou-me por fim o espírito e teve o condão de me assentar os pés no chão, naquela areia fina, suja e ainda quente àquela hora da noite. Recostei-me melhor na cadeira sem desprender o olhar. Sorri também. Compreendi por fim o disparate em que me tinha postado ao procurar que fosse o meu entendimento de justiça que deveria vingar ali. O princípio colonial de converter os gentios à nossa semelhança continuava comigo, quase quinhentos anos depois da chegada àquelas paragens dos súbditos de suas majestades os reis lusitanos, ávidos de conquistas de bens, território e escravos que fortalecessem um reino pequenino e distante, a quem deixaram o mar como única porta de saída, constatados os desentendimentos constantes com a vizinhança castelhana.

Quase à beira do ano dois mil, eu continuava a laborar no erro ancestral de procurar apagar séculos de história vincados nos hábitos e na vontade de ser assim e não de outra maneira. Por momentos deixei-me ficar de olhar pendurado na lua, enquanto um silêncio de sepulcro se ia instalando em meu redor, sem que eu tivesse dado por isso. A assembleia ficara suspensa das minhas palavras e aguardava que lhes trouxesse algo de mais palpável do que aquilo que lhes trouxera até ali.

Veio-me à memória uma outra ocorrência da guerra de África, suponho que em Moçambique, quando um senhor General se deslocou a um local longínquo para falar às populações. Falava o senhor General para um grupo numeroso de populares num aldeamento distante, havia já bastante tempo.
Falava-lhes da importância de se ser português, de ficar com a tropa e não com os turras, de trabalhar muito para não ter fome, e por aí fora. A população escutava com atenção. Como é sabido nem todos dominavam o português, o que ao fim de quinhentos anos de ocupação é obra e revelador da preocupação que tivemos em aportuguesar aquela província ultramarina.
Em determinada altura, um dos populares, que não conseguia ainda o domínio bastante da língua de Camões, perguntou ao companheiro que se encontrava ao lado, este mais esclarecido no vocabulário latino.
- O que é que ele está a dizer? Resposta pronta.
- Por enquanto ainda não disse nada! Só está a falar...

Levantei-me e disse num português mais ou menos adaptado àquele em que os ouvia todos os dias
- "Capitão não vai dar mais opinião. A justiça do Puto ser justiça diferente. Vocês ter que fazer a vossa justiça. Se ela foi boa até aqui tem que continuar a ser igual. Quando um dia acharem que ela está errada, então nesse dia mudam para outra melhor".

Como diria o poeta… “e um grande silêncio fez-se…”depois do Lupale ter traduzido aquilo que eu tinha dito. Aquele meu português meio arrevesado mesmo assim só chegava a uns quantos, os mais jovens.
Uma voz aqui outra ali, foram-se começando a ouvir murmúrios que pedi ao Lupale para me ir traduzindo. Eram vozes de lamento e desilusão. Alguns invectivavam-se mutuamente por terem “cháteado” o Capitão e agora ele ia-se embora e ficavam na mesma.
Quem mais ajudava àquela “missa” eram naturalmente os familiares da ré.
Lá procurei fazê-los compreender que não estava aborrecido com nada nem ninguém. Estava até bastante satisfeito por eles teimarem em fazer a justiça que os tinha orientado durante tantos anos. Boa ou má era a justiça que tinham e era assim que deveria ser aplicada.
Cumprimentado o soba, despedi-me de todos eles, solicitando que continuassem o julgamento e, já agora, a que me comunicassem a conclusão a que iriam chegar.
Regressei ao meu quarto ainda na maior censura daquela minha atitude de ter admitido intrometer-me na forma de vida daquele povo, especialmente a que respeitava a hábitos ancestrais que funcionam como traços de cultura inalienáveis que os vinham orientando havia séculos.

No dia seguinte, o Lupale compareceu bem cedo à porta do meu gabinete.
Já havia uma boa hora ou mesmo duas que espreitava a minha chegada, para depois aparecer tímido, silencioso e indeciso, dando-me um tempo calculado de acomodação aos meus afazeres mais prementes. O ordenança anunciou-me a sua visita.
De mãozinha fechada e dobrada pelo pulso, agarrada pela outra à altura do peito, curva-se em duas ou três vénias habituais de cumprimento e subserviência. Cumprimento-o segurando-lhe a mão dobrada pelo pulso que aponta para o chão, enquanto a outra fica ainda fechada e recolhida no peito. Quase não mexe os dedos com receio de me causar algum dano na minha mão branca de senhor, espécie de divindade edificada pelo poder das armas. Vinha anunciar-me a decisão do concílio da noite anterior. Não tinham chegado a uma decisão definitiva. Mas tudo apontava para seguirem a ideia que eu tinha deixado.
Alguns tinham-se vergado à douta sabedoria do "captão", fazendo inclinar a decisão para o lado contrário da sua história, da sua cultura, em suma, da sua secular sapiência e modo de vida que num ápice desbaratei, sempre a bem de qualquer coisa... jamais a bem da Nação…

Normalmente ficamos contentes quando as nossas ideias são aceites pelos outros. É um sinal de elevação e consideração. Naquele caso, não foi bem isso que eu senti. Que raio de ideia a minha. Mas era tarde. Restava-me apenas a consolação de se ter evitado uma sova inútil em inocentes que eram apenas vítimas da paragem do tempo que se tinha abatido sobre eles naquele local. Ou, sei lá. Quem sabe se não seriam eles que tinham razão com aquela forma de fazer justiça. Sinceramente, hoje já não sei. É que por vezes fico com a sensação que uma boa sacudidela de pelo é capaz de fazer melhor justiça que aquela que vamos tendo…

(Adaptação do livro “Capitães do Vento”)

Pedro C.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

ARTESANATO


A produção de artesanato era uma das ocupações diárias da população da Neriquinha.
Nunca me interessei muito pelas peças, mas perdia algum tempo a apreciar a forma como trabalhavam a madeira, com recurso a ferramentas artesanais que eles próprios construíam, socorrendo-se de pedaços de metal velho.

Fiquei perplexo com a forma engenhosa como construíram a forja com a qual aqueciam o metal.
Com a ajuda do fogo atiçado pelo soprar do par de foles artesanais, levavam ao rubro pedaços de molas das suspensões das viaturas, moldando o aço até o transformarem em utensílios.
Os machados, ali chamados de javites, eram produzidos em diversos tamanhos. Com eles esculpiam a madeira ou cortavam lenha, sem necessidade de recorrer às modernas ferramentas então existentes.
Mas também era artesanato a forma como construiam as suas habitações. Protegiam da chuva, eram quentes durante a noite e frescas sob a inclemência do sol