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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O "levantamento de rancho" que não foi

Lembro-me bem; durante o tempo em que o Morais, o nosso furriel vagomestre, esteve ausente, gozando no puto umas merecidas férias, longe daquela terra de ninguém, fui incumbido de o substituir na arte de alimentar o pessoal sem ultrapassar a verba diária de vinte e dois escudos e meio por cabeça. A tarefa não era fácil e a experiência nenhuma, mas lá me desenrasquei o melhor que pude, procurando compor, com os parcos víveres existentes, qualquer coisa que se pudesse comer. A chatice é que, dia após dia e sem que disso me desse conta, fui ultrapassando a fasquia do orçamento.
Não me recordo das chatices que o Morais teve de enfrentar para voltar a meter as coisas sobre carris. É provável que a ameaça de levantamento de rancho, a propósito de uma das ementas mais detestadas (dobradinha com feijão) tenha sido um acontecimento que se se terá desenrolado quando fui mandado para uma segunda comissão no destacamento do Rivungo.
Sorte a minha, que só soube dos pormenores muito tempo depois de tudo ter acontecido.
O texto que se segue é da autoria do Morais, o nosso vagomestre de então.
....  
Enquanto decorreram os dezoito meses de destacamento na N’riquinha, consegui gozar dois períodos de férias, de trinta e cinco dias, no “Puto”. Com as deslocações, via Luso (Luena), Nova Lisboa (Huambo) e Luanda, as ausências atingiam cerca de cinquenta dias, períodos que fui substituído, como responsável pelo serviço de alimentação, pelo Egídio Cardoso.
A contabilidade do serviço exigia um inventário ao armazém cada final de mês, com o qual verificávamos se o consumo de géneros alimentares estava dentro do orçamento de receita para o mês em causa.
Os primeiros meses de estada na N’riquinha, embora coincidissem com a estação das chuvas, foram relativamente generosos em caça e, por via disso, além de nos alimentarmos melhor, pudemos gastar menos em alimentação. O serviço foi passado ao “vaguinho” Cardoso, com um excedente de tesouraria correspondente a cerca de dez dias de alimentação.
Quando cheguei do primeiro período de férias, aguardámos a chegada do fim do mês para a passagem do testemunho. O “vaguinho” em exercício tinha desenvolvido um trabalho notável no serviço, e era alvo de grandes elogios, pelo empenhamento e grande imaginação posta na elaboração das ementas, ao ponto de alguém, bem situado junto do comando, ter pressionado, sem sucesso (o primeiro sargento Pinto foi contra), a sua passagem a efectivo. Feito o inventário e uma estimativa à gestão cessante, constatou-se que havia um défice no serviço de cerca de vinte dias de alimentação. Ou seja, durante três meses viveu-se acima das possibilidades. Posto o problema ao conselho administrativo (comandante da companhia e primeiro sargento), e porque o défice teria que ser compensado no futuro, sob pena de responsabilização e pagamento dos montantes em falta, foi decidido “apertar o cinto”.
A situação chegou rapidamente ao conhecimento de toda a companhia, e comecei a ouvir ameaças veladas de que, se tal acontecesse, ia haver “levantamento de rancho”. O contingente lisboeta liderava a “revolta”.
Por todas as razões e também por solidariedade com o “vaguinho” Cardoso, houve que prosseguir no caminho traçado, evitando as ementas que fossem mais dispendiosas, até porque o entusiasmo pela caça tinha esfriado. De facto, os habituais voluntários não estavam tão disponíveis para continuar, e a época das queimadas ainda não se iniciara. A primeira caçada que liderei, neste período, teve como resultado uma cabra do mato (bambi) e um nunce, insuficientes para dar uma refeição a toda a companhia.
O pretexto para um incidente apareceu quando se serviu, ao almoço, uma dobradinha com feijão. Como era norma, a comida era igual para todos, oficiais, sargentos e praças, e confeccionada nas mesmas panelas. Servidas as terrinas para os doentes na enfermaria e para as messes, passava-se a atender os praças. Quando estava a terminar a minha refeição fui chamado ao refeitório para ouvir a reclamação de que a comida estava imprópria para consumo porque o feijão tinha bicho, e mostraram pratos onde se viam dois ou três feijões com um ponto negro. Entretanto chegou o comandante da companhia que mandou formar na parada e tentou convencer o pessoal a retomar a refeição, porque todos os oficiais e sargentos tinham consumido a mesma feijoada, sem notarem nada de anómalo: Não havia levantamento de rancho!! E avisou que a cantina estaria encerrada e só abriria depois do jantar. O pessoal persistiu na decisão.
O comandante da companhia, para evitar que o incidente se repetisse mandou que o saco de sessenta quilos de feijão, recentemente encetado fosse servido aos hóspedes da pocilga, situada nas traseiras do aquartelamento. Posso garantir que desobedeci a tal ordem, e o feijão, tão proteicamente enriquecido, foi por nós consumido nas sopas, depois de processado no “passe-vite”… a vingança foi servida quente.
“vaguinho “ Morais

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A Prisão

O rigoroso RDM, kafkiano regulamento da disciplina militar de que se dizia ser incumprível, alimentava boa parte do anedotário de caserna dos tempos idos da tropa. Estava capaz de apostar que se contariam pelos dedos de uma mão – vá lá, de duas mãos – aqueles que, naquele tempo, se deram ao trabalho de ler tão exigente normativo, o que, entenda-se, seria de todo desnecessário e isso porque, para não cair nas suas malhas, bastaria atender a duas regras principais: “cuidado com o que dizes” e “vê lá o que fazes”, o que significa que, até a dormir, era razoável a probabilidade de se infringir um qualquer dos seus inúmeros artigos, ainda que inconscientemente e sem se saber como, espécie de círculo vicioso da justiça militar que tanto poderia considerar alguém culpado por ter cão, como por o não ter. A crítica ao seu excesso de rigor era, naquele tempo, expressivamente ilustrada com a afirmação galhofeira de que, o seu autor, uma vez completado o seu trabalho de legislador, se suicidara ao dar-se conta de que não seria capaz de cumprir os ditames plasmados em tão intransigente e espartano diploma.
A aplicação do direito sancionatório correspondente competia aos comandantes das unidades que não tinham dificuldade em enquadrar cada infracção no respectivo articulado. As penas menos severas transferiam o recruta para o serviço de faxina às cozinhas, seguindo-se, por ordem de gravidade, a limpeza dos sanitários, a proibição de sair do aquartelamento até ao recolher, a perda de direito a gozar o fim-de-semana e por aí adiante até às penas de prisão. É verdade, as infracções mais graves, ainda que não constituíssem crime, eram cumpridas na prisão.
Mas vamos ao que interessa. Na Neriquinha, não havia cadeia. E não havia, porque não era preciso. A singela e frágil cerca de arame farpado, que delimitava aquele quadrado de pó areento perdido no meio da savana, já era o bastante para que nos sentíssemos enclausurados, não obstante a ausência de muros permitir acesso livre e directo à vastidão do espaço envolvente. E nunca se pensara nisso, até porque, pelos vistos, nenhuma das unidades que ali nos antecederam teve necessidade de tal coisa.
Mas, a companhia de caçadores 3441 pertencia a um batalhão – o 3857 – cujo comandante, a que todos deviam vassalagem, não entendia assim e, por isso, a ordem expressa, vinda directamente do seu gabinete, lá no Cuito Cuanavale, determinou: – construa-se uma cadeia.
A ordem, exigente e imperativa, não admitia desculpas e qualquer desobediência seria insensatez; na tropa era assim e com aquele comandante, mais ainda. E, assim sendo, não havia sequer que discutir:  – pois construa-se o tal de cárcere, determinou o capitão.
Passado todo este tempo, não tenho memória do aspecto físico de tais instalações, mas alvitra-se a hipótese de o local escolhido ter sido, logo ali, paredes meias com a oficina auto, confinando com as traseiras da enfermaria e não longe do refeitório, junto ao gerador pequeno, espécie de reserva energética que permitia a existência de luz pelo tempo que levava a resolver os amuos do gerador principal. O facto é que, e isso é uma certeza, se deitou mãos à obra, desencantaram-se os materiais necessários e, em pouco tempo, lá nasceu, isso sim, um casinhoto precário, sem condições e de pequenas dimensões; enfim, um cubículo. Talvez porque se entendia que nunca teria serventia, não se lhe meteram grades e creio que a porta, se é que alguém disso se lembrou, nem fechava. Pelo menos não tinha chave. E para quê, se ali não havia para onde fugir. 
Contrariamente ao que seria de esperar, o presídio foi estreado, e coube ao Pinheiro o privilégio da inauguração, sem pompa nem discursos mas, ainda assim, um acontecimento inaugural. O Pinheiro era um chato, um refilão preguiçoso que, com alguma frequência, esticava por demais a corda. Até que um dia, exagerou, ultrapassou o desculpável e foi além da capacidade de tolerância do capitão. A pena aplicada, ainda que com algumas atenuantes, ficou-se pelos cinco dias de prisão.
Tanto quanto julgo saber, não os cumpriu todos. Provavelmente houve a percepção de que, para o preguiçoso do Pinheiro, estar detido, para mais naquela estranha cadeia, produzia efeito contrário ao que é suposto ser um castigo. É que, o estar preso, implicou não ser escalado para os sempre detestados quartos de sentinela e outros serviços do dia-a-dia. E o pior é que passava pouco tempo enclausurado, não fazia nada, comia no refeitório como todos os outros, passava o dia chateando o pessoal da ferrugem e, de caminho, infernizava a vida dos cozinheiros e exigia atenção especial aos enfermeiros. Para completar o quadro, transferia-se, à noite, para a sua cama na caserna e ainda gozava com o pessoal que com ele se cruzava, não perdendo a oportunidade de, disfarçadamente, provocar o segundo-sargento que, achando tudo aquilo um abuso, resmoneava visivelmente agastado, um “num tá bem!” reprovador. Tirando isso, dormia o resto do tempo e preguiçava nos intervalos de cada soneca, feliz da vida e apostado em cumprir, com zelo sacana, o castigo que lhe foi imposto, comportando-se de forma a convencer disso o capitão, até porque, o segundo-sargento nunca se atreveu a denunciar uma situação que, no seu entender, “num tava bem”.
A boa vida do Pinheiro durou apenas aqueles escassos dois dias de prisão efectiva, intervalada de saídas precárias auto autorizadas. Apercebendo-se da ineficácia do castigo, o capitão comutou-lhe a pena, deu-lhe ordem de soltura e determinou que os restantes três dias fossem convertidos em liberdade condicional, para grande desgosto do preso que via assim as suas imerecidas férias abruptamente interrompidas, com a agravante de se ver escalado para um quarto de sentinela naquela mesma noite.
Creio que o cárcere apenas teve mais um inquilino ainda que apenas por umas horas. E como não podia deixar de ser, coube ao Candeeiro esse privilégio. O soldado Raimundo, por todos conhecido como Candeeiro, pescador algarvio vindo dos lados de Vila Real de Santo António, era um homem quezilento, especialmente quando estava com umas cervejas a mais, situação algo frequente. Nessas alturas, tinha por hábito desatar num berreiro, ameaçando todos aqueles de quem não gostava, elegendo sempre o alferes Torres como primeiro alvo a abater. Felizmente, levado a bem, era fácil apaziguar-lhe as fúrias, mesmo quando bem bebido. O problema era que, como se sabe, o excesso de bebida tolda o raciocínio e o bom senso a certas pessoas e, no caso do Candeeiro, nunca se sabia se as fúrias eram apenas desabafos alcoólicos ou algo mais. E, assim sendo, mais valia prevenir, obviando a que, de um momento para o outro, fizesse um qualquer disparate.
Certo dia, excedeu-se mais do que costumava e, antes que os desacatos descambassem em grossa asneira, foi encarcerado. O berreiro ainda continuou por algum tempo, mas acabou por calar-se. Talvez vencido pelo cansaço e totalmente dominado pela bebedeira, adormeceu e, rangendo os dentes, por ali ficou o tempo necessário para cozer e processar o álcool ingerido, saindo em liberdade quando, já esquecido da guerra que apregoara, acordou.
É caso para se dizer que a cadeia, ali, não fazia falta. Mas, uma vez construída, teve uso, ainda que apenas por duas vezes: uma para estreia e outra para curar uma bebedeira.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

As armadilhas da chana

Na savana imensa que caracteriza as terras-do-fim-do mundo, uma chana é a designação que aquele povo dá a qualquer espaço plano, silente e sem árvores ou arbustos que o sombreiem. Descampado será porventura o termo que por cá se usa para designar algo semelhante mas, desiluda-se quem pense que é a mesma coisa. Chana só existe naquelas paragens e não me parece que possa ser comparada com o que quer que se lhe assemelhe. Planície não é certamente.
Uma chana, normalmente abraça qualquer curso de água e essas fazem lembrar pântanos, mas sem areias movediças, que é coisa que nunca ouvi dizer que existisse por ali. Mas também as há onde não corre água; estendem-se em zonas mais baixas para onde, na diluviana época das chuvas, a água escorre pelo terreno arenoso e se aquieta submissa até que o sol as leve. São as chanas secas, como era a da Neriquinha. Por ser seca e nunca ali ter medrado uma árvore, acabou por se transformar naturalmente na pista poeirenta onde, duas vezes por semana, aterrava o pequeno Cessna do Barros que nos trazia o tão desejado correio. Aliás, uma chana era sempre um recurso para qualquer piloto que cruzasse aqueles céus: mais aquém ou mais além havia sempre uma aberta onde era possível aterrar um pequeno avião sem dificuldades de maior, como daquela vez em que faltou o combustível a uma pequena avioneta. O mais difícil foi chegar lá com um jerrican de gasolina mas, depois de abastecido, levantou voo com facilidade e rumou ao seu destino.
Tinham ainda outra vantagem. No tempo do cacimbo, quando, com a ausência de chuva, tudo secava, mesmo as que não tinham um curso de água por perto, retinham normalmente humidade que garantia a verdura perene das ervas e, em casos de necessidade, era sempre um local onde se poderia encontrar água para matar a sede. Bastava escavar um pequeno buraco com um palmo de profundidade e esperar que a água nascesse. Os bichos sabiam disso, nós sabíamos disso e até as hienas estavam informadas. Por tudo o que ficou dito, era o sítio mais óbvio para se encontrar caça.
Mas, para além de esconderem lamaçais, constituíam ainda espaços incaracterísticos; mais recorte menos recorte, mais curva menos curva, mais larga ou mais estreita, todas se pareciam umas com as outras. E, quando a sua extensão se alongava a perder de vista, era quase impossível a quem estivesse no meio delas, perceber o exacto ponto onde se encontrava. Sendo todas absolutamente planas, o mais abaixo não diferia do mais acima e não havia mapa que nos ajudasse. Só mesmo um guia local nos podia levar a algum lado.
Vistas do céu, o seu aspecto era diferente. A mim, nas vezes em que andei lá por cima, sempre me pareceram como peladas no meio daquela imensidão de verde, numa sucessão caótica de espaços que apenas insinuavam cursos de água escondidos pela vegetação, hesitantes, sem direcção definida e descobrindo-se onde menos se esperava em fartas lagoas que reflectiam resplendorosas o azul intenso do céu.
Para o Barros, piloto da empresa de táxis aéreos do sul de Angola (TASA) que voava diariamente por sobre aquela imensa savana, todo aquele intrincado de chanas e linhas de água era como se fosse um mapa desenhado pela natureza. Conhecia cada palmo da savana e dizia-se que nunca usava as cartas e instrumentos de navegação para se orientar. Normalmente o percurso que fazia era sempre o mesmo: nuns dias descia ao longo do rio Cuito, noutras, quando nos trazia o correio, seguia, a partir de Serpa Pinto em direcção ao Cuito Cuanavale, tomava a direcção do Rio Lomba até ao Dima, seguia por Mavinga e enfiava direito à Neriquinha onde, ansiosos, o esperávamos duas vezes por semana. Depois, sobrevoava as chanas que se estendiam a oeste do Rio Cuando em direcção ao Rivungo. O percurso seguinte, de regresso a Serpa Pinto, já não nos interessava. Assim, se alguma vez o soube, o tempo lá se encarregou de o arrumar nos escaninhos mais profundos da memória, lugar de onde nunca mais saiu.
Mas isso era o Barros, qualquer outro piloto que por ali se aventurasse não podia dispensar a ajuda das cartas e do mais que, para o efeito, equipa os aviões. Certa vez, um piloto, novato e desconhecedor daquelas paragens, incumbido de levar até Serpa Pinto um engenheiro agrónomo que para ali se deslocara para tratar de assuntos da sua especialidade, levantou da pista do Rivungo com pouco combustível planeando reabastecer na Neriquinha, orientando o voo pela carta que reproduzia fielmente os rios, afluentes e riachos que se avistavam de lá de cima.
Havia, contudo, um problema; todas as cartas da região assinalavam aquela nossa precária e provisória residência como estando localizada nas margens do Rio Cuando, aí uns vinte quilómetros para leste, local então designado por Neriquinha-Velha onde apenas havia umas lavras, alguma população dispersa e quatro paredes quase desfeitas, verdadeiro esqueleto de uma casa que por ali existira. Ou seja, as cartas não conheciam a localização da nossa Neriquinha e, pelos vistos, aquele piloto também não.
Como é bom de ver, dirigira o avião para um local onde não poderia aterrar e, ao aperceber-se disso, terá pensado que se desviou do rumo. Deu uma volta, e mais outra sem nunca divisar a tão famigerada pista e na ânsia de a encontrar, desorientou-se e foi-se desviando cada vez mais do seu objectivo até não conseguir mais encaixar no mapa os recortes do terreno lá em baixo. Desatinou e deambulou pelos céus da savana até que se lhe esgotou o combustível sem que tivesse divisado o seu objectivo.
Nem discernimento teve para procurar uma chana seca. Acabou por amarar no meio do capim alagado, ali logo ao lado de um acampamento inimigo que tínhamos destruído um par de meses antes, muito longe do seu destino inicial.
Tirando umas escoriações, todos saíram ilesos da queda, mas deambularam por aquelas matas durante três dias antes que fossem encontrados por um PV2 da força aérea quando, depois de ter passado a pente fino toda a região estava prestes a desistir. É caso para dizer que não morreram da queda mas iam morrendo de fome.
A carcaça do avião, essa, foi recuperada, mais tarde, numa espantosa aventura chefiada pelo furriel Leitão. Mas isso já eu contei aqui.


terça-feira, 1 de julho de 2014

DESAPARECIDOS

Episódios traumatizantes ou rocambolescos, marcantes ou sem importância, acontecem a qualquer um e de tal sorte que, independentemente da sua gravidade, ficam guardados na memória prontinhos para virem ao de cima alimentando recordações de histórias passadas, especialmente se se reportam a momentos especiais da nossa existência como foram os da vida militar nas longínquas terras angolanas, sejam os passados na cosmopolita Luanda ou nas extensas planuras da savana do Cuando Cubango. Sentir-se perdido ou considerado desaparecido, podem ser exemplos do que quero dizer.
Certa vez, em Luanda, cheguei a imaginar o Morais desaparecido sem que ele tivesse estado perdido. Passávamos ali um fim-de-semana, hospedados num Hotel lá para os lados da Serpa Pinto, acho eu, um hotel agradável e com bom preço. Separámo-nos. Eu planeara fazer uma visita a uma prima, cujo marido, capitão de carreira, cumpria uma comissão em Luanda, enquanto o Morais aproveitava o resto do dia para dar umas voltas, tirar umas fotografias e desfrutar do bulício citadino de que estivéramos afastados pelo longo tempo que durou a nossa aventura pelas Terras-do-Fim-do-Mundo. Foi atropelado algures quando procurava atravessar a marginal e acabou a noite no hospital. Eu, que de nada desconfiava, é que estranhei a sua chegada tardia ao quarto de hotel.
Mas, a grande cidade não é comparável com as grandes extensões da imensa savana. Aí, a coisa é diferente e tem outra dimensão. Na mata não há pontos de referência, nem ninguém a quem pedir ajuda. Foi exactamente no meio daquelas matas agrestes que, pela primeira vez, me senti perdido quando, juntamente com um punhado de homens, numa noite de chumbo e debaixo de uma chuva diluviana, saímos da picada para só a voltarmos a encontrar na manhã do dia seguinte quando a luz do dia surgiu, definiu os contornos e conferiu significado à paisagem envolvente. Tinha por missão recolher o Silva e o seu grupo que, contrariamente ao previsto, não se encontrava no local pré-definido, voltando eu à base sem o ter encontrado, andando o Silva desaparecido por mais de dois dias, até ser resgatado por um grupo lançado para esse efeito.
Mas estes foram casos insignificantes. O Morais acabou por aparecer, combalido, cheio de mazelas, coxeando e com umas quantas nódoas negras espalhadas pelo corpo. No meu caso, reencontrei o caminho no dia seguinte e nunca fui considerado desaparecido. Quanto ao Silva, quando encontrado, apressou-se a salientar que nunca se considerou perdido.
Apenas a aventura do Varela e do Vieira preocupou uns e outros. Sentiram-se perdidos e chegaram a ser considerados desaparecidos, embora apenas por um dia e uma noite. O caso foi recordado no último almoço da companhia, remontando o episódio ao tempo em que ainda mal começáramos a habituarmo-nos ás peculiaridades daqueles terrenos arenosos semeados de capim.
O terceiro pelotão, comandado pelo alferes Correia, fora incumbido de patrulhar as matas que se seguiam às grandes chanas do Rio Cúbia, lá para os lados do Liahona, primeiro dos kimbos que se enfileiravam no caminho que levava ao Rivungo. E perceberam que aquelas matas eram ricas em caça. Umas quantas palancas, umas pequenas gazelas e as manadas de songues que pelo caminho viram pastando nas chanas alagadas, despertaram o interesse daqueles homens.
Lá para o meio da tarde, quando todos descansavam no precário aconchego das palhotas do Liahona, o Varela e o Vieira, obtido o consentimento reservado do alferes, atreveram-se pela mata circundante penetrando algumas centenas de metros sem perderem de vista a silhueta das palhotas do kimbo que a pouca densidade arbórea deixava entrever.
Avançaram mais um pouco e para surpresa de ambos, como um presente da natureza, uma pequena gazela apareceu por entre o capim mordiscando a erva verde que crescia em abundância. O Vieira fez sinal ao Varela apontando o animal ao mesmo tempo que, colando o dedo à boca, recomendava silêncio para não o afugentar. Este, não dando sinais de ter pressentido os dois, foi andando, de moita em moita, parando aqui, avançando ali, ruminando a erva que ia arrancando com pequenos puxões.
Os dois homens, silenciosos, foram seguindo o bicho, procurando confundir-se com a vegetação, progredindo de árvore em árvore, ora para a direita, depois para a esquerda, outras vezes em frente, mas sempre ao sabor do deambular sem rumo certo da pequena gazela, na esperança de a apanharem a jeito. Perderam a noção do tempo e do espaço e nem deram conta de quanto já haviam andado.
Só quando perderam o animal de vista que misteriosamente desaparecera por entre o capim, é que deram conta de que estavam perdidos. O kimbo deixara de estar à vista e o pior de tudo é que já nem eram capazes de saber que direcção tomar para voltar para trás. Entreolharam-se apreensivos e questionaram-se sobre qual o caminho a tomar. Caminharam numa direcção, hesitaram, tentaram outra e ao fim de algum tempo concluíram que estavam perdidos e o pior é que, entretanto, o sol rendia-se descendo dramaticamente abaixo da copa das árvores, pintando de um vermelho alaranjado o céu que, até então, exibira o seu normal azul intenso e luminoso.
O Vieira, homem pequeno mas de corpo maciço, mais habituado às serranias da terra onde nasceu, ia mantendo a calma em contraponto com o ar assustado do Varela que, visivelmente alarmado e temendo a mata que desconhecia, começou a dar sinais de apreensão que, aos poucos, se foram transformando em pânico, visível no queixume choroso, lamentando a sua má sorte. Entretanto, a noite caia envolvendo com o seu manto negro toda a mata circundante, conferindo maior dramatismo à situação. O Varela, quase em desespero e sentindo-se desamparado, lamentava a sua má sorte:
- Ai minha mãezinha! E eu que há tão pouco tempo me despedi dela.
Aquietaram-se, mas os barulhos da noite ampliados pelo seu característico silêncio juntaram-se ao medo dos soldados que, desconhecendo que perigos se escondiam para além do negrume, começaram a imaginar-se cercados por toda a espécie de bichos medonhos, encontrando uma ameaça em cada restolhar em cada roçagar das ervas, em cada sombra projectada pelo fraco luar coado pela ramagem das árvores. Sem sequer tentar esconder os seus temores, o Varela decidiu que o melhor seria trepar a uma árvore, convencendo-se que ali, enganchado entre os ramos, estaria a salvo da bicharada e fora das vistas do inimigo que, pensou ele, bem poderia estar por ali à espreita. Contudo, ou porque não encontrou uma árvore a jeito ou porque a calma que o Vieira aparentava o convenceram a aquietar-se, conseguiu ainda dormitar enroscado no canto que julgou mais adequado.
O dia nasceu bem cedo, como é costume naquela terra e com a luz do dia desapareceram todos os fantasmas que povoaram a noite do pequeno Vieira e do seu companheiro Varela. Levantaram-se e puseram-se a matutar na melhor forma de encontrar o caminho que os levasse de volta às palhotas do Kimbo onde o resto do pessoal se questionava preocupado com o desaparecimento daqueles dois.
A solução apareceu como por magia quando, surgindo do nada, um elemento da população que, àquela hora, vindo do kimbo, caminhava por entre as árvores num passo decidido de quem se dirige a algum lugar. A aparição daquele negro materializou a tábua de salvação a que os dois náufragos se agarraram e, sem sequer se questionarem sobre a sua identidade, perguntaram ansiosos:
- Liahona?
O negro, um tanto ou quanto atónito, apontou-lhes uma direcção que os dois seguiram sem hesitar acelerando o passo numa incontida impaciência até que, ao fim de pouco tempo, lá divisaram, por entre as árvores, a silhueta das palhotas do kimbo.
Foi uma festa. Ainda abalados pela noite mal dormida, descomprimiram descrevendo atabalhoadamente mais a forma como se perderam e menos a ajuda que os trouxe de novo ao conforto da companhia dos amigos.
Só o alferes Correia, aparentando a calma que todos lhe conheciam, passava mentalmente em revista todas as preocupações que o haviam atormentado desde o momento em que, tendo-se posto o sol, não vira os seus homens regressar. Apostaria que, nesse entretanto, se terá arrependido mais de uma dúzia de vezes de ter autorizado o passeio insensato dos dois soldados.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

LUPALE - O intérprete

A população da Neriquinha não era diferente da de qualquer outro dos kimbos das redondezas. Contudo, se atentarmos bem à sua composição e razões que levaram à formação, naquele local, de um aglomerado populacional, identificam-se características muito particulares. Não obstante as semelhanças, insisto na ideia de que a Neriquinha era, em muitos aspectos, diferente dos demais.
Com efeito, a dezena de kimbos então existentes naquela vasta área que vai de Mavinga ao Chipundo representava aglomerados populacionais que ali se fixaram pelas diversas razões que levam o ser humano a sedentarizar-se criando raízes naqueles exactos locais e não noutros. Era ali que encontravam tudo o que precisavam e, por razões que a antropologia melhor saberá explicar, era também onde se sentiam bem.
Mas o aglomerado populacional da Neriquinha e apenas este, era subtilmente diferente. Aquele lugar não era sítio que atraísse população. E quando penso nisso, mais uma vez sou levado a concluir que fomos obrigados a viver dezoito meses num local tão inóspito que nem a população autóctone encontrava razões naturais para ali se fixar, a não ser que, pelas circunstâncias, a isso se visse obrigada.
É verdade, o kimbo da Neriquinha nasceu e cresceu em consequência da guerra. Razões ditadas pela estratégia militar determinarem ser aquele o local adequado para a implantação das instalações militares: primeiro um pequeno aglomerado de tendas de lona, material que, ao longo do tempo, foi sendo progressivamente substituído por paredes de tijolo e cobertura  de chapas de zinco. Dois barracões pré-fabricados completaram aquele arremedo de urbe aprisionada numa frágil cerca de arame farpado que, delimitando o perímetro, parecia querer conferir segurança ao local.
A população, essa, acossada pela guerra que lhes alterou o modo de vida e correspondentes rotinas, foi-se juntando do outro lado da cerca, acoitando-se à sombra de uma segurança de proximidade e, em simultâneo, beneficiando das comodidades inerentes à vizinhança da tropa. Formou-se assim um kimbo que foi crescendo com o tempo e atraindo novos habitantes, congregando no mesmo meio gente de etnias diferentes.
Quando chegámos àquele bocado semidesértico das terras do fim do mundo, a população da Neriquinha era mais ou menos estável e tinha estrutura idêntica à de qualquer aglomerado populacional da zona, ficando demonstrado que os costumes e modus vivendi eram os mesmos. E isso via-se em tudo: na construção das suas habitações e materiais que usavam, nos hábitos alimentares, nos temores e superstições, na forma como se organizavam e socializavam, nas hierarquias tribais típicas de uma sociedade agrária iminentemente paternalista (talvez devesse dizer machista) e ainda nos direitos, nos deveres e demais normas não escritas que regiam as suas condutas, o seu quotidiano e o resto.
 Enfim, uma sociedade regulada segundo cânones ancestrais cujos ditames, gravados na cabeça dos velhos, deixavam transparecer uma sociedade bem mais complexa e organizada do que aquela que uma análise superficial permitia revelar. A autoridade civil máxima descansava nos ombros do Soba, secundado pelos Sékulos, não obstante a autoridade real, fosse qual fosse a coisa a regular, pertencesse ao comandante da companhia ali aquartelada.
A população do Cuando Cubango era constituída por uns quantos grupos étnicos. Não sei bem quantos, mas eram mais do que se podia esperar poderem existir numa das maiores mas seguramente menos populosas províncias angolanas. Os Ganguelas integravam o maior dos grupos. Na verdade a ideia que se tinha é de que, excluindo os Bosquimanos com traços fisionómicos claramente identificáveis e os Camachi, de tez menos carregada, todos os demais seriam Ganguelas. Mas não era assim. Lembro-me dos Lutchaze e, em menor número, dos Bundas, dos Luvale e dos Luimbi entre outros que não recordo. O facto é que cada grupo falava o seu próprio dialecto, embora tenha a ideia de que o Ganguela seria o dialecto falado senão por todos, pelo menos pela maioria.
Isto significa que, entender aquela gente, implicava ser-se poliglota em dialectos das terras do fim do mundo e isso era impossível. E como muitos deles pouco falavam o português a comunicação tornava-se complicada.
O Lupale distinguia-se dos demais porque, para além de falar fluentemente o português, dominava ainda uns quantos dialectos. E isso, conjugado com as habilidades de um autêntico relações públicas, tornava-o num homem importante. E insinuante, acrescente-se. Na verdade, o Lupale era simpático, popular e desenvolto.
Para já, falar fluentemente o português e conseguir fazer a retroversão para a linguagem daqueles gentes não era coisa pouca, nem de somenos importância. Por ali, apenas alguns GE’s, uns tantos mais expeditos e os putos que cresceram ao lado da tropa, eram capazes de se expressar de forma a se fazerem entender
Do nosso lado, só ao fim de muito tempo se começou a decorar uma meia dúzia de termos do estranho linguajar daquelas gentes mas compreensivelmente insuficientes para estabelecer uma conversação por mais minimalista que fosse. Ainda me lembro que, durante muito tempo, tinha como certo que o puto que me lavava a roupa dava pelo nome de João Muhala Cassumbi. Só muito tempo depois é que me apercebi que o João apenas se chamava assim: João. Os epítetos Muhala e Cassumbi não eram senão uma brincadeira do seu amigo Manjolo, o outro garoto que com ele repartia a lavagem da roupa na camarata dos sargentos. Os dois nomes, que julgara serem sobrenome ou apelido, apenas significavam qualquer coisa como galinha que esgaravata no chão, uma espécie de provocação inofensiva, sem maldade ou azedume, de um garoto para outro.
O facto é que, quando ali chegámos, o Lupale apareceu-nos como o intérprete oficial, uma espécie de ministro dos negócios estrangeiros do kimbo. A importância do seu papel no seio daquela comunidade era um facto. E isso ficou bem claro exactamente quando uma delegação do estado-maior do kimbo, capitaneada pelo Soba e secundada pelos Sékulos, veio apresentar as boas vindas ao capitão. A solenidade que conferiram ao acto era bem patente na indumentária de gala com que se apresentaram e na imprescindível intermediação do Lupale que, sacando da sua erudição, fez jus à sua indiscutível competência de intérprete, transmitindo as boas vindas ao comandante recém-chegado e aproveitando ainda o ensejo para fazer umas quantas petições e uma ou duas queixas, verbalizadas como correspondendo à tradução literal dos indecifráveis monossílabos tartamudeados por aqueles altos representantes da população local, escassos vocábulos que o Lupale transformava num discurso coerente e bem elaborado, deixando no ar a dúvida se seria uma fiel tradução ou antes o pensar livre do intérprete que acrescentava, por sua conta e risco, uns quantos pontos ao discurso.
Não há dúvida, o Lupale tinha veia de político e demonstrava-o a todo o momento na forma como se comportava ou como se relacionava connosco, quer estejamos a falar do simples soldado, de um oficial ou das altas patentes. E isso viu-se pouco tempo depois quando, no Natal de 1971 o Governador de Serpa Pinto resolveu fazer uma visita de cortesia àquele remoto local da província que governava. Estando presentes, por obrigação formal, o Soba e seus Sékulos e atendendo a que não falavam a língua de Camões, mais uma vez o Lupale teve oportunidade de brilhar, desempenhando com redobrada competência o seu papel de intérprete, mais para transmitir o que dizia o Soba e menos ou quase nunca para lhe devolver a resposta. É…, cada vez mais me convenço que o Lupale traduzia mais o que lhe ia cabeça e menos o que diziam os regedores do kimbo.
Finalmente, não posso deixar passar em claro a fleuma deste homem profusamente demonstrada na estória que o Pedro Cabrita contou aqui, neste mesmo blog, cuja leitura recomendo vivamente e da qual me atrevo a reproduzir uma singela passagem. Relembro apenas que o Capitão foi instado, passe o exagero do termo, a participar numa espécie de tribunal tribal que se reunira para dirimir um litígio de natureza familiar ou seja, uma espécie de julgamento onde um colectivo sui generis deveria apreciar e decidir, aplicando as normas de um direito consuetudinário plasmado em códigos sem existência física.
Naquele tribunal, que de informal tinha pouco, mais uma vez o indefectível Lupale ali estava para servir de intérprete; o Capitão não entendia patavina daquele dialecto e do outro lado, ninguém se expressava em português.  Bem se esforçava, o nosso comandante, para tentar perceber, não só o que se discutia mas também qual o entendimento de cada um dos juízes sobre os factos em confronto. Em determinado momento e a meio de um mais alongado discurso de um deles, o capitão, procurando perceber o que ia sendo dito, perguntou num sussurro ao ouvido do Lupale.
- O que é que ele está a dizer?
A resposta foi absolutamente desconcertante.
- Por enquanto ainda não disse nada, só está a falar.
É isso, se calhar, para além de diplomata e político encapotado, o Lupale era também um filósofo.

sábado, 1 de dezembro de 2012

AS DUAS REGINAS

Eram peculiares as mulheres da Neriquinha. E a sua relação com a tropa tinha os seus quês. À sua maneira, seguindo os seus próprios princípios e com os cuidados que as suas superstições e temores impunham, habituaram-se a conviver com tropas que mudavam a cada rendição. Quando começavam a conhecer melhor uns, eis que se iam embora e lá vinham outros, novinhos em folha. E tudo isto numa questão de meses. Normalmente um ano ou pouco mais. Connosco, a relação foi mais duradoura, quase dezanove meses. Penso que até então nenhuma companhia estivera ali tanto tempo como a 3441. E isso permitiu uma aproximação maior, pelo menos aprenderam a conhecer melhor muitos de nós.
- Furriel matchiririka. Atreviam-se a certa altura, quando consideravam que o furriel em questão era bonito ou simpático ou, mais provavelmente, generoso.
Como não podia deixar de ser, o inverso também tinha que se lhe dissesse. Mutatis mutandis, também da nossa parte houve necessidade de adaptação. Com as devidas cautelas, procurando não ferir susceptibilidades ou infringir regras tribais, fomos aprendendo a lidar com aquelas gentes. E com as mulheres os cuidados redobravam. Ao fim de muitos meses de convivência e à medida que em nós a imagem de mulher branca se ia desvanecendo, aquelas fêmeas andrajosas, inicialmente repelentes, fisicamente nada atraentes e nitidamente desprovidas de tudo o que até então se consideravam padrões mínimos de beleza feminina, passaram, num lento processo de habituação, a serem olhadas de outro modo, com cobiça, digamos, com olhos de comer.
Tinham hábitos estranhos; diria mesmo, desconcertantes. Mas até a esses nos fomos moldando. Por exemplo, Já se achava natural que a adolescente, quando atingia a idade dos doze ou treze anos – não me lembro bem – fosse submetida a um ritual absolutamente estranho de transformar crianças em mulheres adolescentes. Em ambiente festivo, abrilhantado com danças tribais e cânticos guturais ao som rítmico, monocórdico e repetitivo do batuque, uma estranha cerimónia tinha o seu clímax numa espécie de intimidade a que só assistiam as mulheres mais velhas. Eram estas que conduziam toda aquela espécie de via-sacra da mulher adolescente. Utilizando um qualquer processo cujos pormenores nunca cheguei a conhecer, as anciãs desvirginavam a donzela que assim, sem qualquer prazer e certamente aterrorizada, ficava, segundo a tradição, pronta a acasalar - perdia o cabaço como por ali se dizia. E como se isso não bastasse, a criança que assim, de repente, era transformada em mulher, passava obrigatoriamente a usar os paramentos que atestavam a sua novel condição: colares de missangas multicolores artisticamente entrançados no seu tronco nu e um estranho mas ao mesmo tempo artístico penteado meticulosamente preparado com bosta de vaca fresca. Andava assim por largo tempo, ganhando a bosta uma tonalidade escura e luzidia que, por mais estranho que pareça, era agradável à vista, mas apenas quando olhada de longe.
Durante esse tempo a mulher era intocável; a tradição e os costumes assim o impunham. Contudo, ainda que assim não fosse, o método utilizado pelas anciãs certamente tornaria dolorosa qualquer investida. E se isso não bastasse, o cenário repugnante e o fedor a bosta, associado à óbvia falta de higiene, para além de atrair bandos de moscas, seria seguramente razão mais do que suficiente para refrear quaisquer ímpetos, mesmo que vindos dos homens daquela população, certamente mais habituados a perfumes tão exóticos.
Vistas as coisas, todas aquelas mulheres, despidas de beleza e parcas em atractivos, foram sendo catalogadas: as mais jeitosas, já que chamar-lhes bonitas era exagero; as mais oferecidas ou, se se quiser, mais disponíveis; as que consensualmente eram consideradas intocáveis, ou por serem demasiadamente feias ou porque eram propriedade de algum GE. Finalmente as duas Reginas cujo estatuto de intocáveis não passava disso - estatuto apenas.

Uma delas, a Regina Preta, era assim chamada por razões que não conheço, já que, no que respeita à cor da pele, era tão preta como as demais, a outra, era a Regina Branca, mas isso era só de nome já que de branco não tinha nada. Era tão preta como a outra e nada as distinguia a não ser o aspecto físico. A Regina Branca, aparentando ser mais nova, era mais jeitosa. Ou, se se preferir, menos desengonçada; não tinha aquele ar pesado de marafona da Regina Preta. E isso contribuía para que fosse mais cobiçada.
A Regina Preta gozava do previlégio de ser exclusiva do furriel das transmissões que não se coibia de cuidar do seu exclusivo. A Regina Branca, obviamente mais jeitosa, não se livrava da fama de ser a favorita do Capitão.
Fosse como fosse, era óbvio o relacionamente entre as mulheres do Kimbo e tropas carentes de afetos. Se se tiver em conta que a natalidade era coisa vulgar por aqueles lados - os muitos putos que cirandavam pelo kimbo eram disso prova evidente - não é estranhar que alguns seriam naturalmente descendentes dos tropas que por ali foram passando durante o tempo que durou a guerra. Um deles era demasiado óbvio. O loirito do Kimbo da Neriquinha era o puto mais fotografado entre os demais. O seu cabelo liso, incontestavelmente louro, constituía um sinal evidente de que, entre os elementos das companhias que nos antecederam, teria havido pelo menos um militar de cabelo louro que, provavelmente sem que viesse a saber disso, ali deixou descendência.
A história é farta em exemplos  que confirmam que, afinal, isso era uma realidade comum a todas as guerras. As nossas guerras, as guerras da Neriquinha, não são excepção. A fotografia do Morais deixa para a posteridade a prova de que a Regininha Preta é filha da 3441.

domingo, 1 de abril de 2012

Frigoríficos a petróleo

Quando pela primeira vez pisei o chão vermelho da pista empoeirada da Neriquinha, experimentei um misto de surpresa e desagrado. O cenário que se me deparou era muito pior do que qualquer expectativa pessimista. Até então, apenas nos tinha sido comunicado o nome do local que nos havia saído em sorte, mas sem qualquer informação do que nos esperava. Só ao fim da derradeira etapa da longa viagem que nos levou de Lisboa aos confins das Terras-do-Fim-do-Mundo, quando o Nord Atlas já sobrevoava as chanas nas imediações do nosso destino, nos apercebemos que estávamos a aterrar no meio de coisa nenhuma, a verdadeira personificação do degredo num dos locais mais inóspitos do território angolano.
Corria o mês de Novembro daquele ano de 1971 e o calor fazia-se sentir em toda a sua pujança. Um bafo quente de ar saturado de pó avermelhado atiçado pelo rodopiar das hélices do avião, atingiu-me como uma bofetada de boas vindas quando, abandonando a barriga da aeronave, tocava pela primeira vez o solo que haveria de palmilhar durante os longos dezoitos meses que durou a missão da 3441 naquele fim de mundo.
Segui maquinalmente os meus companheiros de aventura em direcção ao centro daquela espécie de acampamento militar, olhando em redor como que anestesiado pela desolação envolvente sem me dar conta, pelo menos no imediato, de que aquele exíguo espaço, perdido no meio da imensa savana, mais se assemelhava a uma espécie de base remota, sem nada em volta ou o que quer que fosse que pudesse ser chamado de vizinhança. Para lá do limite do arame farpado, apenas existia mata e mais mata, numa sucessão infinitesimal de coisa nenhuma.
Entrei na messe, situada no barracão localizado mais ou menos ao centro do perímetro e aproximei-me do pequeno balcão arrumado a um canto. A garganta seca e o desconforto provocado pelo calor intenso exigiam qualquer coisa fresca. Lembro-me de ter pedido uma cerveja que sorvi sofregamente de um só golo, sem reclamar do facto de estar pouco fresca. Simplesmente intui que a canícula condicionava as capacidades do frigorífico, especialmente se se tiver em conta o ritmo a que as bebidas eram consumidas. Fosse como fosse, nem por um momento me passou pela cabeça que, num sítio daqueles, poderia nem haver frigoríficos. Sempre me habituei à sua existência mesmo nos lares mais pobres ou nas tascas mais humildes. É verdade que tomei consciência de que estávamos num local com aspecto de prefabricado provisório mas, naquele momento, nem me ocorreu pensar que, num sítio como aquele, não haveria rede eléctrica pública. São coisas em que não se pensa, especialmente se se está formatado para considerar a energia eléctrica como sendo um bem essencial existente em qualquer lugar.
Mas não na Neriquinha e arredores. Por ali não havia electricidade permanente. Apenas um pequeno gerador que só podia funcionar nas escassas três ou quatro horas que iam desde o cair da noite até ao recolher e isso não seria suficiente para alimentar frigoríficos que teriam de trabalhar dia e noite.
Na verdade, ali os frigoríficos eram alimentados a petróleo. E para que funcionassem satisfatoriamente, era preciso abastecer os depósitos amiúde e dispensar-lhes cuidados especiais. Mas disso só me apercebi depois de chegar ao Rivungo. O meu grupo de combate fora o escolhido para render aquele destacamento e por isso, tinha sido o primeiro a chegar, tendo permanecido na Neriquinha apenas o tempo suficiente para engolir um almoço de massa com salsichas, mistela que, vim a saber mais tarde, era sempre servida aos maçaricos como praxe de boas vindas, dando sentido à espécie de saudação com que fomos recebidos e que se resumia a um chavão cujo significado na altura não percebi:
- É só zala!
Ora, na língua dos Ganguelas, zala significa fome.
Como ia dizendo, só comecei a dar-me conta das particularidades dos frigoríficos a petróleo, depois de ter chegado ao Rivungo. No fim daquela infernal e quase interminável primeira viagem pelas picadas arenosas da savana, fui incumbido de receber a cantina e com ela o frigorífico que a equipava. A passagem do testemunho incluiu uma breve explicação do seu funcionamento e respectiva manutenção, instruções dadas de forma muito resumida já que os velhinhos tinham pressa em sair dali.
- Se queres ter cerveja fresca todos os dias, toma atenção! Avisou-me o furriel que eu iria substituir, enquanto assinava as guias que atestavam a transferência de responsabilidade.
Se a minha memória não me atraiçoa, o petróleo do frigorífico acabou ainda não tinha decorrido uma semana, pelo que chegara a altura de por à prova os ensinamentos que recebera: encher o depósito, ajeitar o pavio e pôr tudo a funcionar antes que as cervejas aquecessem.
Com a ajuda do cabo Almeida, que no Rivungo foi nomeado o cantineiro de serviço, meti mãos à obra. Retirei, com cuidado, o depósito do petróleo de formato achatado e que, em jeito de arrastadeira, encaixava debaixo do frigorífico, apaguei o pavio incandescente e segui os passos de forma meticulosa, devagar, para não fazer asneira e de forma a garantir que o Almeida aprendesse o ritual, já que, doravante, deveria ser ele a encarregar-se da tarefa.
Não era complicado, mas exigia algum cuidado e minúcia na preparação do pavio. Teria de se eliminar a parte carbonizada garantindo que a chama fosse o mais azulada possível; uma chama amarelada não produzia calor suficiente, fazia muito fumo, entupia a chaminé e o frigorífico não produzia frio. Depois, era só voltar a encaixar o depósito debaixo do frigorífico, garantir que a chama coincidia com o centro da chaminé e rezar para que as cervejas ficassem no ponto.
Daquela vez, a chama não ficou tão azul como deveria, mas, com o tempo, a técnica foi sendo aprimorada. O Almeida foi ganhando experiência, percebendo as manias do aparelho, descobrindo o jeitinho que garantia a chama ideal que, entrando pela chaminé, fazia a vez da electricidade transformando calor em frio.
Ganhou rotina e com isso, confiança. Até um dia. Quando procurava acertar no gargalo do depósito, a mão ter-lhe-á tremido e verteu uma boa porção de petróleo que se espalhou pela superfície delimitada por um rebordo que o reteve. Demorou algum tempo a aparar o pavio, colocou-o com a altura mais adequada, ajeitou o depósito e preparou-se para o acender. Não sei se por esquecimento, excesso de confiança ou se simplesmente deduziu que não haveria perigo, não limpou o excesso de petróleo que se derramara. Riscou o fósforo e no momento em que aproximou a chama do pavio, incendiou o combustível derramado.
A labareda irrompeu com violência, apanhando o Cabo que, de cócoras, se debruçara sobre o depósito para melhor executar a tarefa, não lhe deixando espaço para que se desviasse. A chama lambeu-lhe a parte superior do tronco, apanhou o pescoço e atingiu em cheio a cara do infeliz, incendiando-lhe o cabelo.
Acudiu o enfermeiro que, não sabendo bem o que fazer, o levou para a enfermaria com a ajuda de um ou dois. O Almeida apresentava um aspecto desolador: a pele empolara e desaparecera aqui e ali. E o pior é que a inexperiência do enfermeiro não chegava para avaliar da profundidade das lesões e decidir qual o tratamento mais adequado. Urgia fazer algo de imediato já que eram notórios os esgares de dor do paciente que, a muito custo, se continha para não gritar.
A única hipótese era recorrer ao saber do médico da companhia. Mas o Dr. Lacerda estava na Neriquinha e, dada a gravidade da situação, era o mesmo que estar no outro lado do mundo. O contacto via rádio apresentava-se como única solução, recurso que, aliás, estava previsto nos planos de contingência. O Dr. Lacerda era obrigado a dar consultas via rádio, numa exasperante sequência de códigos dos homens das transmissões, com muitos “base, base, escuto” e outros tantos “ok, transmita”, e uma infinidade de "Alfas", "Bravos" e "Foxtrots" do designado código fonético usado nas transmissões militares, entremeados de instruções médicas.
A verdade é que o enfermeiro lá anotou tudo, acabando o Almeida por ficar com o pescoço e a cara cobertos de tiras amareladas da milagrosa topifurazona que desempenhou a sua função na perfeição, sendo visível o efeito refrescante que refreou o afogueamento e acalmou o ardor do malogrado Cabo.
Por sorte, não obstante a sua dimensão, a queimadura era superficial e ao fim de uma semana a face já só apresentava um aspecto rosado mas sem sequelas de maior, passando depois a um pálido doentio que rapidamente voltou a ganhar a cor bronzeada pela exposição gradual ao sol africano, até desaparecerem todos os sinais do acidente.
Quanto a mim, pelo menos nos primeiros tempos e enquanto durou o impedimento do Almeida, tive de voltar a cuidar do frigorífico garantindo cerveja fresca em condições de matar a sede ao pessoal.
Mas, obviamente redobrei os cuidados que punha no manuseamento do depósito, do pavio e do jerrican do petróleo.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Artesãos da Neriquinha

Numa abordagem superficial, a produção de artesanato poderia parecer tratar-se de mera ocupação do tempo. Mas se se tiver em atenção o que produziam, facilmente se conclui que a arte de esculpir a madeira e moldar o ferro visava em primeira mão a produção de ferramentas e utensílios necessários ao dia a dia daquelas gentes. Aquela forja artesanal e curiosa, manipulada pelo Século Sarikissi, com a qual forçava sem esforço o ar até o braseiro que tornava o ferro incandescente, não fora invenção recente. Mais, não tinha por finalidade a simples produção de artesanato.
È claro que a lixeira da tropa se transformou num local onde encontravam matéria prima pronta a ser transformada: bocados de molas partidas das viaturas eram facilmente transformados em facas, machados (javites) e lanças; aduelas de barris que ali chegavam acondicionando azeitonas e outras conservas viravam cadeiras e artefactos e a abundância de madeira existente nas matas era facilmente transformada em objectos procurados pelos tropas dando lugar a um mercado em que cachimbos, cinzeiros artísticos, pequenas estatuetas, tambores e caretos constituíam uma fonte de rendimento até então inexistente.A arte de moldar o ferro e esculpir a madeira tornara-se um negócio, passando as ferramentas a serem aos poucos adquiridas no Chiado.
















quarta-feira, 16 de março de 2011

Ruinas da Neriquinha

Há muito tempo que procuro imagens actuais da Neriquinha recorrendo às facilidades que o Google Earth disponibiliza. Mas em vão. Consegui identificar o local mas a imagem não passava de um borrão que nada deixava ver. Apenas quem, como nós, por ali andou, conseguia reconhecer os sinais no meio do verde que escondia o local. Pelo menos até agora.
Finalmente o satélite da Google andou pelas imediações e embora ainda não seja absolutamente nítido, é já possível visualizar as ruínas daquilo que foi a nossa morada por uns longos dezoito meses distribuídos pelos anos de 1971 a 1973.
Vê-se nitidamente que a mata invadiu o local e tudo o que não era construção de cimento e tijolo desapareceu. Mas lá estão, nítidos, os restos do edifício da FAP, da messe, da casa dos oficiais, do depósito de géneros e transmissões e até da cozinha, sendo ainda visível o chão de cimento do refeitório e os restos da ferrugem. Tudo o mais desapareceu, incluindo o chiado, o depósito da água e naturalmente o kimbo.
Fica provado que a população apenas ali estava pela proximidade da tropa. Na verdade as suas actividades agrícolas e de caça, desenvolviam-se fora dali, nos locais das lavras, para onde parece que se deslocaram quando a tropa abandonou o local.
O Google mostra claramente o kimbo que se formou junto às margens do Rio Cuando, no local que designávamos por Neriquinha Velha. Na verdade, tratava-se da verdadeira Neriquinha, onde a população mantinha as suas lavras e criava gado.
O mais curioso é ver o que se encontra seguindo o curso do Rio Cúbia pela margem esquerda, desde as pontes até Mavinga. Nesse percurso, encontrei pelo menos três kimbos que me lembro não existirem na altura.
Pelos vistos a população voltou aos seus hábitos ancestrais, viver junto do local onde se dedicam às suas actividades de mera subsistência.
Tenho a certeza que são felizes.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os Velhos...ou a sabedoria!

Sempre me fascinou a serenidade dos rostos dos velhos da N'Riquinha.
Austeros nos sorrisos mas sempre amigáveis, nunca subservientes mas atentos e respeitadores, irradiavam simpatia e bondade no contacto com a tropa. A sua dependência diária em relação a nós raramente era visível, se bem que necessária por força das circunstâncias. Sabiam - com a sabedoria que 500 anos de colonialismo lhes tinha ensinado - distinguir e separar das suas vidas pessoais e comunitárias a obrigação e a necessidade de connosco conviver.
Dotados de conhecimentos extraordinários, empiricamente acumulados durante milénios, no campo da sobrevivência, da medicina natural e da natureza, obrigavam-nos e impunham-nos um respeito natural que, felizmente, a Companhia sempre soube observar.
Contudo, o que me fascinava, era os seus olhos, vivos, brilhantes e matreiros que luziam no meio dos rostos cobertos de rugas que os anos e a inclemência da natureza lhes gravaram na pele.






quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Neriquinha vista do céu

Temos algumas fotografias que mostram a Neriquinha vista de cima, uma delas pode ser vista aqui. Mas esta mostra a verdadeira dimensão do local onde vivemos durante dezoito longos meses.
Hoje, passados cerca de 38 anos, ainda consigo reconhecer cada recanto daquele que foi o nosso pequeno mundo.
Mas olhando, assim à distância do tempo, ainda me interrogo como foi possível ali viver durante tanto tempo, tão longe de tudo o que se assemelhasse a civilização.
A fotografia foi-nos oferecida pelo Fernando Simões, furriel de transmissões da companhia que nos rendeu na primavera de 1973, a C.Caç. 5012.
Obrigado Fernando.
Continue a visitar-nos e conte-nos algumas das coisas que se passaram depois de nós.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

NERIQUINHA - Vista aérea

Durante uma das muitas operações apoiadas pela Força Aérea da África do Sul, foi possível registar uma imagem aérea da Neriquinha.
Para que se perceba bem a insignificância do local face à imensidão da savana envolvente, fica aqui a fotografia tirada a bordo de um helicóptero pelo Gabriel Costa no ano de 1972.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O Hipopótamo.

Um dia, pela manhã, o Fulai Monjuto, chefe do Grupo de GE's, as tropas de recrutamento local, aparecu junto à messe e pede para falar com o Capitão Cabrita. O respeito e admiração entre eles era mútuo e depois dos cumprimentos habituais, fez um pedido: vinha pedir que enviasse alguém com ele, ao Rio Kuando, junto à N'Riquinha Velha, para apanhar um hipopótamo que andava a fazer estragos nas lavras que a população ali cultivava e, depois, trazê-lo para o Kimbo para alimentar de carne a aldeia.
Estando eu por ali perto e tendo tomado conhecimento da conversa, quando dei por mim já estava prontíssimo com uma Berliet pronta a arrancar. Rapidamente fizemos o caminho, levando o Fulai, o Comandos como motorista, um ou dois soldados mais e alguns elementos familiares do Fulai, creio. O Furriel vago-mestre Morais, foi requisitado como fotógrafo e aí vamos nós.
Quando chegámos, o espectáculo era quase de circo. Dezenas de pessoas, em alegre algazarra, cantavam, dançavam e discutiam ao mesmo tempo, sendo, para mim, apenas certo que, tudo aquilo, se devia à expectativa de um bom fornecimento de carne e à eliminação do destruidor dos produtos, milho e massango, que ali cultivavam.
Ao longe, numa ilhota, um hipopótamo, incapaz de entrar na água por causa de um ferimento na barriga do tamanho de uma janela e feito, possivelmente, na luta com um parceiro mais ciumento e mais poderoso, andava de um lado para o outro, inquieto, dolorido e desfazendo tudo à sua passagem.
Tinhamos que lhe acabar com o sofrimento e arrastá-lo para a margem. Nas calmas, eu e o Fulai, o único que autorizei a atirar, lá abatemos o bicho que levou mais de 30 ou 40 tiros na cabeça, até cair. Arrastá-lo para a margem foi mais complicado. O cabo do guincho da Berliet dava á justa e foi necessária a ajuda de todos os presentes para facilitar a tarefa, pois o animal pesava uma barbaridade. Colocá-lo na caixa de carga, foi mais fácil: esquartejaram-no com javits (machado artesanal, afiadíssimo) e foi carregado às peças.
No regresso, com o peso do animal e de quanta gente por ali havia, o motor da Berliet não aguentou o excesso de carga e vai de aquecer no meio da picada de areia, debaixo de um sol abrasador. Parámos. Para fugir à barulheira dos cânticos de alegria de meia população da província, tantos eram, optara por vir sentado nos sacos de areia no guarda lamas. Preferia ouvir o barulho do motor do que aquela gritaria de contentamento. Assim, estando mais perto do radiador, cometi uma asneirola de principiante e
desapertei a tampa do radiador com a sola da bota, à falta de um bocado de desperdício ou de mais inteligência. Pôrra!
A porcaria da tampa desliza para o lado e apanhei um banho de água quente e vapor que me lambeu a pele das pernas e da barriga, obrigando-me a andar enfaixado mais de uma semana, até nascer a pele nova. Ainda hoje cá andam as marcas.
O hipo foi comido no Kimbo. A pele do mesmo foi cortada em tiras finas, secas ao sol e ficaram duras como madeira. Usaram-nas para fazer chibatas que serviam para imitar os pingalins. Os dentes, salvo erro, foram parar à mala do Furriel Fielas.