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sábado, 1 de dezembro de 2012

AS DUAS REGINAS

Eram peculiares as mulheres da Neriquinha. E a sua relação com a tropa tinha os seus quês. À sua maneira, seguindo os seus próprios princípios e com os cuidados que as suas superstições e temores impunham, habituaram-se a conviver com tropas que mudavam a cada rendição. Quando começavam a conhecer melhor uns, eis que se iam embora e lá vinham outros, novinhos em folha. E tudo isto numa questão de meses. Normalmente um ano ou pouco mais. Connosco, a relação foi mais duradoura, quase dezanove meses. Penso que até então nenhuma companhia estivera ali tanto tempo como a 3441. E isso permitiu uma aproximação maior, pelo menos aprenderam a conhecer melhor muitos de nós.
- Furriel matchiririka. Atreviam-se a certa altura, quando consideravam que o furriel em questão era bonito ou simpático ou, mais provavelmente, generoso.
Como não podia deixar de ser, o inverso também tinha que se lhe dissesse. Mutatis mutandis, também da nossa parte houve necessidade de adaptação. Com as devidas cautelas, procurando não ferir susceptibilidades ou infringir regras tribais, fomos aprendendo a lidar com aquelas gentes. E com as mulheres os cuidados redobravam. Ao fim de muitos meses de convivência e à medida que em nós a imagem de mulher branca se ia desvanecendo, aquelas fêmeas andrajosas, inicialmente repelentes, fisicamente nada atraentes e nitidamente desprovidas de tudo o que até então se consideravam padrões mínimos de beleza feminina, passaram, num lento processo de habituação, a serem olhadas de outro modo, com cobiça, digamos, com olhos de comer.
Tinham hábitos estranhos; diria mesmo, desconcertantes. Mas até a esses nos fomos moldando. Por exemplo, Já se achava natural que a adolescente, quando atingia a idade dos doze ou treze anos – não me lembro bem – fosse submetida a um ritual absolutamente estranho de transformar crianças em mulheres adolescentes. Em ambiente festivo, abrilhantado com danças tribais e cânticos guturais ao som rítmico, monocórdico e repetitivo do batuque, uma estranha cerimónia tinha o seu clímax numa espécie de intimidade a que só assistiam as mulheres mais velhas. Eram estas que conduziam toda aquela espécie de via-sacra da mulher adolescente. Utilizando um qualquer processo cujos pormenores nunca cheguei a conhecer, as anciãs desvirginavam a donzela que assim, sem qualquer prazer e certamente aterrorizada, ficava, segundo a tradição, pronta a acasalar - perdia o cabaço como por ali se dizia. E como se isso não bastasse, a criança que assim, de repente, era transformada em mulher, passava obrigatoriamente a usar os paramentos que atestavam a sua novel condição: colares de missangas multicolores artisticamente entrançados no seu tronco nu e um estranho mas ao mesmo tempo artístico penteado meticulosamente preparado com bosta de vaca fresca. Andava assim por largo tempo, ganhando a bosta uma tonalidade escura e luzidia que, por mais estranho que pareça, era agradável à vista, mas apenas quando olhada de longe.
Durante esse tempo a mulher era intocável; a tradição e os costumes assim o impunham. Contudo, ainda que assim não fosse, o método utilizado pelas anciãs certamente tornaria dolorosa qualquer investida. E se isso não bastasse, o cenário repugnante e o fedor a bosta, associado à óbvia falta de higiene, para além de atrair bandos de moscas, seria seguramente razão mais do que suficiente para refrear quaisquer ímpetos, mesmo que vindos dos homens daquela população, certamente mais habituados a perfumes tão exóticos.
Vistas as coisas, todas aquelas mulheres, despidas de beleza e parcas em atractivos, foram sendo catalogadas: as mais jeitosas, já que chamar-lhes bonitas era exagero; as mais oferecidas ou, se se quiser, mais disponíveis; as que consensualmente eram consideradas intocáveis, ou por serem demasiadamente feias ou porque eram propriedade de algum GE. Finalmente as duas Reginas cujo estatuto de intocáveis não passava disso - estatuto apenas.

Uma delas, a Regina Preta, era assim chamada por razões que não conheço, já que, no que respeita à cor da pele, era tão preta como as demais, a outra, era a Regina Branca, mas isso era só de nome já que de branco não tinha nada. Era tão preta como a outra e nada as distinguia a não ser o aspecto físico. A Regina Branca, aparentando ser mais nova, era mais jeitosa. Ou, se se preferir, menos desengonçada; não tinha aquele ar pesado de marafona da Regina Preta. E isso contribuía para que fosse mais cobiçada.
A Regina Preta gozava do previlégio de ser exclusiva do furriel das transmissões que não se coibia de cuidar do seu exclusivo. A Regina Branca, obviamente mais jeitosa, não se livrava da fama de ser a favorita do Capitão.
Fosse como fosse, era óbvio o relacionamente entre as mulheres do Kimbo e tropas carentes de afetos. Se se tiver em conta que a natalidade era coisa vulgar por aqueles lados - os muitos putos que cirandavam pelo kimbo eram disso prova evidente - não é estranhar que alguns seriam naturalmente descendentes dos tropas que por ali foram passando durante o tempo que durou a guerra. Um deles era demasiado óbvio. O loirito do Kimbo da Neriquinha era o puto mais fotografado entre os demais. O seu cabelo liso, incontestavelmente louro, constituía um sinal evidente de que, entre os elementos das companhias que nos antecederam, teria havido pelo menos um militar de cabelo louro que, provavelmente sem que viesse a saber disso, ali deixou descendência.
A história é farta em exemplos  que confirmam que, afinal, isso era uma realidade comum a todas as guerras. As nossas guerras, as guerras da Neriquinha, não são excepção. A fotografia do Morais deixa para a posteridade a prova de que a Regininha Preta é filha da 3441.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os Velhos...ou a sabedoria!

Sempre me fascinou a serenidade dos rostos dos velhos da N'Riquinha.
Austeros nos sorrisos mas sempre amigáveis, nunca subservientes mas atentos e respeitadores, irradiavam simpatia e bondade no contacto com a tropa. A sua dependência diária em relação a nós raramente era visível, se bem que necessária por força das circunstâncias. Sabiam - com a sabedoria que 500 anos de colonialismo lhes tinha ensinado - distinguir e separar das suas vidas pessoais e comunitárias a obrigação e a necessidade de connosco conviver.
Dotados de conhecimentos extraordinários, empiricamente acumulados durante milénios, no campo da sobrevivência, da medicina natural e da natureza, obrigavam-nos e impunham-nos um respeito natural que, felizmente, a Companhia sempre soube observar.
Contudo, o que me fascinava, era os seus olhos, vivos, brilhantes e matreiros que luziam no meio dos rostos cobertos de rugas que os anos e a inclemência da natureza lhes gravaram na pele.






sábado, 1 de janeiro de 2011

O RETORNO do MARINHEIRO ou o amor em tempo de guerra

Durante os longos dezoito meses que andei por terras do Cuando Cubango, dei-me conta que o dia do regresso, aquele em que dali sairíamos, era uma espécie de assunto recorrente, quase uma mania que, com frequência, ocupava as nossas conversas e pensamentos. Era tema a que se voltava de quando em vez, especialmente se a saudade batia à porta. Na verdade, era o dia mais desejado a seguir ao de “São Correio”. Só que este era certo e vinha duas vezes por semana, enquanto aquele não passava de uma miragem distante, algures no difuso horizonte das nossas vidas.
Era de facto o dia mais esperado e isso era tão importante que justificava a manutenção de calendários onde, em contagem decrescente, se ia marcando o tempo já passado e controlando o restante. Quanto mais os dias riscados, mais próximo o tão almejado dia. A cada pôr-do-sol, rejubilava-se:
- um dia a menos! E quando se completou um ano de Neriquinha, o desabafo foi substituído por um resignado: - já faltou mais!
O pior é que ninguém sabia quando isso iria acontecer. A companhia anterior saiu dali passado um ano e parece que teria sido sempre assim. O lugar era tão mau que justificava a preocupação das hierarquias militares em proteger a sanidade mental de quem tivesse tido o azar de para ali ter sido despachado, procurando encurtar tanto quanto possível a comissão naquele oásis improvisado. Assumia-se, por isso, ser mais ou menos certo que, passado um ano de degredo, haveria rotação para um lugar mais aprazível.
Mas não tivemos essa sorte. Passados doze meses comecei a alimentar a esperança que seria mais dia, menos dia. E como esse dia nunca mais chegava, assumi que seria mais semana menos semana, depois que talvez fosse daí a um mês, até que por volta do décimo quinto mês de Neriquinha e Rivungo deixei de pensar no assunto e já só me contentava com a certeza de que algum dia haveria de ser, nem que fosse no fim dos dois anos de comissão. Ia assim enganando a consciência com o facto de os meses já passados serem mais do que os que ainda faltavam.
– Já não falta tudo. Concluía na tentativa de amenizar a expectativa.
Com o pessoal da marinha, as coisas não eram muito diferentes. Quando ali chegavam tinham uma vaga ideia do dia em que tudo terminaria, sendo atormentados pelos mesmos sentimentos. Na verdade, tropas ou marinheiros, polícias ou civis, fosse quem fosse que ali estivesse no cumprimento de um missão por tempo limitado, todos tinham no pensamento o dia em que finalmente deixariam para trás as Terras-do-Fim-do-Mundo, diriam adeus às águas do Cuando, respectivos afluentes e chanas, aos kimbos, aos irritantes trajectos por picadas de areia poeirenta e à falta de quase tudo.
Mas não era apenas a imposição de uma missão indesejada, num local impensável, longe de tudo e de todos, que nos atormentava o espírito e alimentava o desejo de ver chegado o dia do regresso. As saudades do que deixáramos para trás eram ampliadas pelos riscos da missão, pelo desterro a que fôramos votados e pela vida miserável e difícil que tínhamos de levar. E a falta de mulher, mulher branca, de seios redondos e rijos, de pele delicada, cheirosa e doce, ocupava o pensamento, atormentava os sentimentos, fazia doer a alma e trazia à memória prazeres já gozados que agora pareciam apenas privilégios inacessíveis.
Enfim, necessidades que cada um procurava mitigar com os parcos recursos locais, satisfazendo fugazmente apetites lascivos que se esfumavam em rapidinhas incursões nocturnas mas que não conseguiam apagar o desejo incontido.
Alguns, talvez menos resistentes, ou possivelmente mais carentes, não se contentavam com visitas esporádicas a alcovas desconfortáveis habitadas por fêmeas sem jeito e desprovidas de atractivos. Esses, ao fim de algum tempo, acabavam por se fixar num kafeco, que passavam a considerar sua a tempo inteiro, adquirindo-a em troca do alambamento cujo preço o pai fixava, passando a ser dono da rapariga que lá ia cumprindo a sua função, toda vaidosa porque agora pertencia a um branquela que, de quando em vez, a presenteava com um agrado insignificante. Sim que as mulheres ganguelas não eram muito exigentes e qualquer pano colorido era suficiente para as fazer felizes. Não imaginam os favores que se conseguiam comprar com um simples maço de tabaco.
Na 3441 e tanto quanto me lembro, apenas o furriel das transmissões comprou mulher. A Regina Preta, como era conhecida, era uma mulher da savana, negra de um escuro intenso, de pele áspera e peitos volumosos mas flácidos e caídos. Não devia nada à beleza, mas passou a ter homem branco só para si, por sinal ciumento e que a procurava guardar o melhor que podia das investidas dos demais que, apenas por pirraça e a troco de meia dúzia de tostões, usufruíam da propriedade adquirida. E como isso não era fácil, que o furrfiel não facilitava, cada vitória era saboreada mais por isso do que pelos poucos minutos de prazer, já que a arte do amor não era exactamente a especialidade daquelas mulheres. Ou então era a falta de empenho ou de competência de homens habituados a coisa diferente, não conseguindo obter mais do que uns inábeis e mecânicos meneios da função por ali designada de ginga ginga.
Por tudo isto, livrar-se de um nada e correr para o tudo que se deixara para trás, era, assim, um desejo que não nos saía da cabeça. E foi isso que eu imaginei terem sentido os nossos companheiros da marinha quando, finalizada a comissão no Cuando, regressaram a Luanda e provavelmente daí para o Puto. E a alegria teria sido mais efusiva não fora o facto de ainda estarem a recuperar da perda do Ruço e das mazelas resultantes do ataque que a lancha sofrera pouco tempo antes.
De facto, só não pensavam sair dali os que ali nasceram e não conheciam outro mundo. Todos os demais apenas permaneciam pelo tempo imposto pela comissão, desde o Administrador da Circunscrição, aos agentes da PSP, da DGS, tropa, marinha e um ou outro funcionário administrativo. Enfim, todos estavam de passagem, alimentando o desejo de regressar o mais depressa possível.
Compreende-se assim a minha surpresa e espanto ao ver, por detrás do balcão da única lojeca existente no Rivungo, o Godinho, marinheiro que, há uns meses atrás eu vira despedir-se e que presumi contente por ter concluído aquela comissão num local para onde, por vezes, eram destacados, a título de punição, marinheiros com a folha de serviço suja por algum mau comportamento, pelo menos para o padrão de exigência do regulamento de disciplina militar que, por mim, nunca vi em qualquer deles comportamentos que justificassem censura.
É verdade, aquele marinheiro regressara ao Rivungo e pelos vistos de forma voluntária, para ali ficar e criar raízes. Comprara por um preço em conta a única loja existente num raio de algumas centenas de quilómetros, já que, entre o Chipundo e Mavinga, apenas na Neriquinha, num tosco barracão gerido pela tropa, se vendiam algumas tralhas à população local – chamávamos-lhe pomposamente “O Chiado”.
A rudimentar barraca de paredes de barro e cobertura de capim onde aquele marinheiro aplicou o seu investimento, fora, durante muito tempo, o negócio de um velhote que conhecemos quando ali chegámos, em Novembro de 1971. Apenas me lembro que era um homem só, de poucas palavras e que se calhar já não fazia ideia do que era uma cidade. Deve ter-se fartado e certamente largou o negócio por pouca coisa. A loja, dotada de um pequeno balcão muito rudimentar, raramente tinha clientes. De facto, os artigos que vendia - uns panos coloridos, umas missangas, uns paus de sabão e alguns utensílios - apenas interessavam à população local. E como o dinheiro não era coisa que os ganguelas tivessem ou lhes fizesse falta, a clientela escasseava. Na loja do velhote, estrategicamente situada à entrada da povoação mesmo em frente ao Kimbo, apenas um ou outro procurava trocar os magros tostões que ia arrecadando por algo que lhes interessasse ou que considerasse de utilidade.
Logo que pude, fui fazer-lhe uma visita. Recebeu-me com um sorriso aberto, mantendo-se no seu novel posto, de pé, por detrás do pequeno balcão. Se bem me lembro não deu justificações para o seu regresso e nem lhas pedi. No momento, não encontrei lógica na decisão que tomara, mas a verdade era aquela; o marinheiro voltara para junto do rio, lá para os confins das terras-do-fim-do-mundo, o mais longe possível do mar e do mundo onde cresceu. Se calhar, o facto de ter passado tanto tempo longe da civilização, tornara insuportável, para ele, o bulício citadino, passando a preferir a calma e o silêncio. Para mim, o Rivungo, era apenas um lugar um pouco melhor que tudo o mais que o rodeava, ficando a minha paixão pelo local, reduzida ao desmedido desejo de sair dali logo que tivesse autorização para isso.
Assim, não me pareceu que tão inopinada paixão por uma terra que não tinha nada para dar a um europeu habituado a outras mordomias, fosse a razão que levou aquele marinheiro a dedicar-se à exploração de um negócio sem futuro, num local para onde não confluem caminhos. Ali não havia nada e tudo o que fosse preciso estava demasiado longe, quase inacessível. Nem médico ou sequer um posto médico. Para tratar da saúde, numa aflição, apenas a enfermaria da marinha ou da tropa, servidas por enfermeiros formados à pressa.
Ninguém me tira da cabeça que a oportunidade do negócio não passou de uma espécie de pretexto, ou justificação para a decisão que tomara. Com efeito, apercebi-me mais tarde, porque alguém me abriu os olhos, que havia outra razão forte a justificar o retorno. O homem ficara preso à mulher de quem se serviu - ou que o serviu, tanto faz - enquanto cumpria ali a sua missão.
De facto, sabia-se que passava muitas noites numa certa cubata algures no meio das outras do pequeno kimbo do Rivungo. Seria mais um daqueles que não se contentava com visitas esporádicas. Mas, pelos vistos, terá ficado preso aos encantos de uma mulher que, sem atributos físicos, pouco mais sabia do que aquilo que a vida de mulher da savana lhe ensinara.
Mesmo assim, ainda hoje, continuo sem saber se o seu retorno ao Rivungo foi uma aposta no negócio, paixão pela savana ou o impulso irresistível de se anichar nos braços de uma mulher, negra, sem perfume, sem beleza, mas com os encantos necessários para o prender. A ponto de o fazer voltar a um lugar impensável.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Saudades de mulher branca

Se há algo de que um homem sente saudades é de mulher. Especialmente se acabou de completar 20 anos e para mais, sendo tropa. Nestas circunstâncias, mulher é coisa que, se não se tem à mão, vira obsessão.
Se está próxima e se sente a falta, força-se o encontro, mitiga-se o desejo e a saudade não chega a aparecer. Outra coisa é ser obrigado a abandonar aquela que escolhemos (ainda por cima linda) e ser levado para o outro lado do mundo. Sem qualquer hipótese de reencontro, desejar o que deixámos para trás ganha outra dimensão.
Mas quando, para além de tudo isso, somos relegados para o cantinho mais remoto do fim do mundo, como foi o caso da Neriquinha, os desejos explodem, multiplicam-se, moem o juízo e até doem, mesmo aos mais insensíveis. E garanto que só quem passou por isso sabe verdadeiramente o que é.
Ao fim de um mês a calcorrear as areias do Cuando Cubango, qualquer burra de saias, mesmo daquelas que se parecem com uma bota da tropa, começa a parecer-se com algo susceptível de despertar secretos instintos lascivos.
Com o passar do tempo, as mulheres da população, que nada deviam à beleza, pelo menos a beleza a que estávamos habituados, começam a ter graça, não obstante a pele áspera e o cabelo tipo esfregão, para não falar do cheiro característico, capaz de anular apetites insaciados. Mas, como quando se tem fome, até pão bolorento se come, os kafecos (mulher adolescente) eram mesmo a única alternativa possível, se bem que isso obrigasse a uma prévia preparação com uma parafernália de pomadas, unguentos e anti-inflamatórios contra a praga de doenças sexualmente transmissíveis que por ali grassavam, passando obrigatoriamente, após a visita, por um demorado banho purificador.
A máxima era, cautelas e caldas de galinha nunca são de mais e ninguém queria ter de ouvir as recriminações do Dr. Lacerda:
- Eu não te disse para teres cuidado! Da próxima vez que me apareceres assim, dou-te uma porrada.
O desejo de acariciar uma pele branca e macia e enterrar as mãos em cabelos sedosos tornava-se obsessivo. Aos poucos, a imagem que se procurava reter da amada deixada no puto, ia-se endeusando, virava miragem e ganhava foros de beleza extrema, quase sobrenatural.
Cada carta recebida era lida e relida. Procuravam-se cheiros que a longa viagem da missiva dissipara. Ansiava-se por uma fotografia recente que reavivasse a memória e fizesse relembrar os contornos, as curvas, os meneios. Esperava-se, enfim, que nos trouxesse de novo o imaginário do contacto impossível, da voz sensual ... eu sei lá …!!! Sabem que havia quem recebesse cassetes gravadas?
Na verdade, tudo isso só acentuava o desejo do reencontro, contribuindo para ressacas afogadas nuns golos de whisky, quando havia.
Era um facto, o desejo de mulher branca era algo que, creio, todos sentiram intensamente. Só que uns conseguiam disfarçar a falta enquanto outros a publicitavam.
- Só gostava de ver uma … nem que fosse de longe!
Confessava-se, com nostalgia evidente.
De facto, ao fim de meia dúzia de meses, mulher branca estava para nós como algo de que se ouvira falar, como se apenas a tivéssemos visto uma vez, em sonhos, mas nunca ao vivo. Olhar a fotografia era como se olhássemos para a caderneta de cromos de estrelas de cinema procurando imaginar como seriam em carne e osso.
Lembro-me que, nove meses passados, acabado de chegar à cidade do Luso, de passagem para Luanda a caminho das férias, ia sendo atropelado no meio da rua ao ficar especado, seguindo com olhares extasiados a primeira mulher branca que via ao fim de tanto tempo de isolamento. É verdade que também contribuiu o facto de já me ter desabituado do trânsito. Na Neriquinha, não havia ruas ou estradas, nem trânsito nem automóveis, já que as duas ou três berliets e os poucos unimogs eram como gota no oceano daquela savana imensa atravessada aqui e ali por picadas irregulares.
Não foi por acaso que ao fim de muitos meses me decidi a gastar uma pipa de massa e fazer uma viagem quase interminável até Lisboa, para gozar o mês de férias a que tinha direito. O pretexto era poder sair dali e rever a família. Na verdade, creio que se fosse só pela família (que certamente me perdoará o pecado) não teria metido pés a caminho.
A viagem era cara e durava uma semana, com paragens no Luso, Nova Lisboa e uma eternidade em Luanda para cumprir um conjunto de formalidades militares no Quartel General e perante um paspalho dum Sargento-Ajudante que tinha a missão de controlar as licenças, aproveitando o ensejo para controlar também o atavio. Para lidar com aquele exemplar de militar estúpido, era preciso cuidado. A probabilidade de não se gozar as férias e termos de regressar à Neriquinha, não era hipótese a pôr de parte.
Na Verdade e bem pensadas as coisas, o que me empurrou para fora da Neriquinha foi o desejo incontido de acariciar a pele aveludada e os cabelos sedosos que deixara no Cais da Rocha à partida de Lisboa. O desejo de sentir de novo o cheiro e o hálito fresco de mulher nem me deixou pensar duas vezes e foi-me tirando o sono à medida que a data da partida se aproximava. Era como se quisesse confirmar que, afinal, ela existia, era real, de carne e osso e que eu podia tocar-lhe.
Foi sol de pouca dura. As férias passaram num ápice e em pouco mais de um nada estava de regresso à Neriquinha, com as saudades de novo a atormentar-me os sentidos.
Certo dia, um avião militar, proveniente de Luanda e tendo como destino final a base de Henrique Carvalho, apareceu nos ares da Neriquinha. Avariara-se um motor e já voava à algum tempo apenas com o outro a funcionar. Não sendo aconselhável ir mais longe aterrou ali mesmo. Afinal, a nossa pista, de terra empoeirada, era um AR (Aeródromo de Recurso).
Para nossa surpresa, o Dakota vinha praticamente lotado com militares da Força Aérea e respectivas famílias. Aliás eram mais as famílias que se dirigiam a Henrique Carvalho para aí se juntarem aos respectivos maridos, na sua maioria oficiais da força aérea.
Quando se abriu a porta do Dakota, que se imobilizara na pista em frente à porta de armas, a surpresa foi total.
Uma a uma foram saindo mulheres. Primeiro uma, depois outra e mais outra e ainda outra. Ao todo, quase uma dúzia. Bem vestidas, penteadas, cheirosas e brancas meu Deus…!!! Todas elas..!!! Umas louras, outras morenas, até ruivas havia. Usavam sapatos que se enterravam na poeira sujando os pés delicados, que por ali não havia asfalto … nem calçada. Sapatos eram coisas que as mulheres da Neriquinha desconheciam, até porque não havia modelos que se adequassem àqueles pés.
Foi um corrupio. O pessoal abandonou os seus afazeres, aperaltou-se e aproximou-se. Uns mais de perto, outros mais ao longe, com respeito, sem alarido, mas com um desejo impossível de conter: ver mulheres brancas … e tão bonitas que elas eram. De repente, as mulheres ganguelas e até as kamachis, estas mais apresentáveis que aquelas, voltaram a ser tão feias quanto as acháramos à chegada.
Foi um dia memorável. Dentro do possível fizeram-se as honras da casa oferecendo o pouco que se dispunha: uns assentos junto à messe para as visitas se sentarem, uns refrescos e muita conversa, já que um passeio turístico pelo local era coisa impensável. As senhoras não deveriam estar interessadas e o calçado que usavam não o permitiria. Por outro lado, não havia nada para ver, a não ser que se quisesse mostrar o despojamento daquele nosso mundo, coisa que nem nos passou pela cabeça. Já estávamos habituados demais ao local para achar que isso era importante.
Entretanto, o pessoal, numa atitude de basbaque, ia rondando. Feromonas à solta, provocadoras, contaminavam o ar arrancando suspiros aqui e ali. Uns faziam comentários em surdina, outros apenas olhavam em silêncio. Palavrão foi coisa que desapareceu de repente. Falava-se pouco, não fosse sair alguma inconveniência, algo que pudesse ferir ouvidos tão delicados, como decerto seriam os de senhoras tão bem apresentadas.
Creio que por algum tempo até a segurança foi descurada. Não ponho de parte a possibilidade de os sentinelas terem abandonado o posto, nem que fosse apenas pelo tempo necessário para deitarem uma olhadela.
O súbito aumento populacional daquele bocado de savana delimitado por arame farpado foi de pouca duração. Pouco tempo decorreu, pareceu-nos, até que um outro avião aterrou na pista e recolheu as ilustres visitantes, levantando voo no meio de uma nuvem de pó em direcção a norte até desaparecer, diluído no azul intenso do céu.
Na Neriquinha apenas ficou o Dakota imóvel e silencioso e uma centena e meia de homens com água na boca, tecendo comentários sobre a beleza que, com olhares gulosos, acabavam de desfrutar.
- Vistes aquela loura…? A de blusa cor-de-rosa.
Perguntava um ao parceiro do lado.
- Sim, mas a morena, a de saia azul, era bem melhor. Viste as pernas dela?
Respondeu o interlocutor, procurando a concordância do outro sobre o pormenor dos membros inferiores da senhora.
- Cá para mim eram todas a estrear!
Sentenciou alarvemente o atrevido do costume.
O avião avariado, jazendo na pista, indefeso, obrigou a um reforço das sentinelas, pelo menos durante as noites que se seguiram e contribuiu para manter a animação por mais uns tempos. Com efeito, no dia seguinte, chegou um Nord Atlas que ali deixou um motor novo e uma equipa de mecânicos, que levou mais de uma semana a retirar o motor avariado e a montar o novo, garantindo um corrupio de curiosos à sua volta seguindo com interesse o desenrolar dos trabalhos.
Finalmente, com força renovada e depois de alguns ensaios e dois voos experimentais, o Dakota disse adeus à Neriquinha, deixando por uns tempos um sabor nostálgico.
Creio que foi a primeira e talvez a única vez que por ali foram vistas mulheres brancas. Para a maioria do pessoal da 3441, foi a única oportunidade, em dezoito meses, de poderem apreciar coisa tão desejada, ainda que apenas de longe e sem lhe poderem tocar. Nem sequer cheirar.
Ficaram apenas suspiros … muitos.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A Cerimónia

As fotografias que se seguem, são uma pequena parte de uma série que diz respeito a uma cerimónia levada a cabo na N'Riquinha, para afugentar a doença do corpo de uma paciente.
Ao aproximar-me, para fotografar o que eu pensava ser uma festa indígena, já que o batuque, ao invés do normal, começara pela manhã, fui avisado pelo João Cassumbi e pelo Vicente - dois miúdos negros curiosos da mecânica automóvel e condutores para os pequenos serviços dentro da Companhia - que não me era permitido assistir à cerimónia. Portanto, armei-me com uma Vivitar de 200 mm e, com a minha velhinha Cannon F1, lá fui, de longe e circulando de palhota em palhota, fotografando a cena.
Basicamente, o embalo ritmado e hipnótico do batuque e os movimentos simples da dança repetidos milhares de vezes, colocaram a paciente em êxtase e, depois de morta uma galinha, foi aspergida com o sangue da ave e esfregada com sal grosso. As duas curandeiras de serviço, ora se sentavam no meio de um vasto grupo feminino que entoava uma canção de sons baixos e roucos, ora se levantavam e rodeando a doente, repetiam uma lengalenga monocórdica, abanando uns guizos, feitos com uma lata de salsichas cheia de pedrinhas, ao mesmo tempo que lhes percorriam com as mãos, o corpo de cima a baixo. Os mais novos assistiam calados, observadores e com um ar respeitoso.
A cerimónia durou horas e, no final, quase todos os intervenientes estavam possuídos pelo ritmo dos tambores.
Terminou quando, exausta, caiu sem sentidos no chão.











sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O chefe do kimbo

Este era o lídimo representante da soberania de Portugal no kimbo da N'Riquinha: Sekulo Sarikissi





































quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O Máquina

A imagem preconcebida que todos levávamos das Terras do Fim do Mundo, provavelmente condicionada pelas inúmeras paisagens africanas vistas e revistas em muitos filmes holliwoodescos, compunha cenários de um ambiente selvagem, não apenas no que concerne à fauna e à flora, mas também quanto às gentes que por ali viviam. A realidade encontrada e que aos poucos fomos conhecendo, revelou-se distante da ficção. Era bem mais selvagem.
A maioria autóctone que habitava tão remotas paragens (o povo Ganguela) vivia numa quase pré-história, facto que os rotulara de raça mais atrasada de entre as múltiplas etnias do continente africano.
A chegada da tropa àquelas longínquas terras, veio conspurcar o seu simples modo de vida com tiques de alguma civilização e hábitos europeus que nada diziam àquela gente, para quem, um qualquer pequeno trapo que permitisse improvisar uma tanga, era vestimenta mais do que suficiente. De facto, o frio era pouco e a chuva apenas água que refrescava e lavava corpos seminus sem necessidade de abrigo, o que explicava as simples e acanhadas cubatas de capim e paus aconchegados de lama, que quase só eram utilizadas para os abrigar das frias noites do cacimbo ou quando a chuva, teimando em cair de noite, arrefecia os corpos que não estivessem debaixo de qualquer coisa.
Os hábitos alimentares não primavam por grande variedade. Os frutos silvestres e algumas raízes eram consumidos no local onde eram colhidas e a agricultura apenas se quedava pela produção de milho (talvez a mais vulgar) e massango, uma variedade de sorgo muito popular em África. As correspondentes sementeiras decorriam durante a época húmida, em lavras espalhadas por lugares específicos da mata, normalmente localizados a distâncias razoáveis dos aldeamentos, para onde migravam as mulheres (a mão de obra principal) aí assentando arraiais por longos períodos, cuidando das plantas que cresciam naturalmente, apenas regadas pelas abundantes e frequentes chuvadas tropicais.
Estes dois cereais, uma vez transformados em farinha, representavam a base da alimentação de boa parte da população africana. A tarefa era, uma vez mais, cometida às mulheres, que passavam algumas horas do dia a bater de forma cadenciada, com um grosso pau, as sementes colocadas no fundo de um pilão a lembrar uma espécie de almofariz gigante, obtendo assim uma farinha grosseira, com a qual cozinhavam uma papa dura a que chamavam pirão, que ingeriam a seco, ou então acompanhada de quando em vez por alguns bocados de carne seca. Para além disso, com a fermentação de sementes de massango, produziam ainda uma beberragem alcoólica, com aspecto acastanhado, que não parecia ser muito agradável, pelo menos à vista.
Era uma sociedade patriarcal e poligâmica, na qual a mulher era força de trabalho. A posse, que definia a riqueza de cada um, apenas respeitava aos homens e era medida pelo número de mulheres e de vacas que cada um possuía. Aliás, para além de definir a riqueza, as vacas serviam para comprar mulheres, pelo que, em boa verdade, um homem era tanto mais rico quanto mais mulheres possuísse, já que isso também significava que tinha vacas para a troca. Era a que cuidava da casa, a que cuidava dos filhos, a que cuidava da lavra, as que cuidavam das vacas, etc.. As terras, essas não tinham propriedade. Não sendo de ninguém, eram de todos.
Nesta sociedade machista, a caça era a única tarefa cometida aos homens. Deslocavam-se em grupo para as zonas de caça e por lá andavam por longos períodos. Do que caçavam, comiam no local o que podiam e secavam a parte restante, armazenando reservas mal cheirosas que, no fim da temporada, transportavam para casa, constituindo as escassas proteínas da dieta alimentar daquelas gentes, dieta essa que, ditada pelos costumes, constituía, a meu ver, a razão principal para a inexistência de obesidade entre os Ganguelas.
Foi no seio desta comunidade que o Máquina, nado e criado no Rivungo, se aculturou. Era apenas mais um nativo, com todas as características culturais, sociológicas e fisiológicas dos Ganguelas, até na sua compleição franzina e pele escura, quase carvão, como o era a maioria da população. Muito popular na zona, expressava-se em bom português num discurso desenvolto e nitidamente mais culto, contrastando com os demais, que apenas dominavam dois ou três dialectos locais. O nome, ganhara-o pelo facto de possuir uma velha máquina de costura portátil com a qual, ora costurava as vestes simples daquela gente, ora remendava os rasgões de fardas de tropas, marinheiros ou polícias. O seu atelier resumia-se a uma pequena mesa que instalava sob o alpendre, em frente à porta da enfermaria, sobre a qual colocava, com mil cuidados, aquela maravilha da técnica, dando à manivela com uma mão, enquanto com a outra segurava o pano mantendo-o alinhado debaixo da agulha da geringonça, num sincronizado movimento de artesanal mestre-alfaiate.
Mas a verdadeira habilidade do Máquina era na cozinha. E também na arte da panificação, ficando explicado o pão que, no primeiro dia, apareceu na mesa ao pequeno-almoço. O Máquina, juntamente com um outro da sua raça, mas ainda rapaz, compunham uma dupla de especialistas da panificação que, com a ajuda imprescindível de um forno artesanal, garantiam pão fresco todos os dias, contribuindo para esta particularidade dos hábitos alimentares europeus, num evidente contraste com as rotinas gastronómicas dos Ganguelas.
Mas estas, contudo, não eram as únicas habilidades deste homem para as coisas da cozinha. Na verdade, para quem nunca saíra do Rivungo, os seus dotes culinários, para nossa felicidade e prazer, superavam os do Lourenço que se iniciava na difícil tarefa de alimentar soldados habituados a refilar da confecção, não obstante o curso que a tropa lhe ministrara.
Não sei se os ares africanos me abriam ou não o apetite, mas ainda tenho na memória o fabuloso arroz de frango que o homem preparava. Ou ainda, a deliciosa cabra do mato que, previamente temperada com requintes de chef pelo Máquina, era assada inteira no forno de pão.
Ainda hoje me cresce água na boca perante a lembrança do petisco, contribuindo para elevar as virtudes culinárias desta espécie de costureiro-cozinheiro ao patamar do mistério, se tivermos em consideração que o homem nunca se afastara do Rivungo mais do que as escassas dezenas de quilómetros que separavam a localidade dos kimbos próximos.
Deixei de ver o Máquina.
As comissões no Rivungo duravam três meses, pelo que, passado esse tempo, o meu grupo regressou à Neriquinha, sendo substituído por outro.
Quando ali voltámos, passado mais de um ano, para cumprir outros três meses de comissão, já não pudemos contar com as suas habilidades culinárias. Da pequena máquina de costura também não ficou rasto.
Parece que a PIDE desconfiou do à vontade com que se movimentava por entre a tropa e a marinha. Levou-o para um interrogatório e nunca mais foi visto. Disseram-nos apenas que tinha sido levado para Serpa Pinto.
Ainda hoje não sei exactamente o que motivou as desconfianças da PIDE, mas não me admirava nada que estivessem relacionadas com a evidente diferença cultural que o distinguia dos demais.