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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Brincadeiras de miúdos

A nossa estada nas Mabubas corria de feição. Na verdade corria tudo tão bem que quase já ninguém se lembrava das agruras passadas na Neriquinha e na aridez da savana que a circundava. Mas isso era apenas ilusão. Aqueles tempos marcaram-nos, colaram-se-nos à pele, encafuaram-se nos escaninhos da memória de forma tão intensa que bastava qualquer coisa insignificante, mesmo que nada tivesse a ver com aquilo, para que as imagens daquelas areias escaldantes e daquelas gentes, saltassem do patamar mais fundo do baú de memórias para a superfície, desembrulhando-se em imagens coloridas que, sobrepondo-se à nossa quotidiana vontade, impunham a sua presença.
Nas Mabubas havia miúdos, como em qualquer lugar. Uns pretos, outros brancos, uns quantos mais reguilas que outros, uns mais pequenos e outros mais crescidotes, mas todos alegres, vivaços, umas vezes rindo outras chorando, mas felizes e irrequietos como naturalmente são os miúdos. Perante a sua natural algaraviada, veio-me instintivamente à memória a imagem dos putos da Neriquinha: todos eles pretos, nus, descalços, sujos, ranhosos e deserdados da sorte, mas igualmente alegres, irrequietos e felizes com a vida que tinham, até porque não conheciam outra.
Qualquer coisa lhes servia para preencher o seu imaginário mundo de fantasia, os seus entreténs e brincadeiras; os da Neriquinha com meios mais limitados e estes, os das Mabubas, naturalmente com acesso a outras coisas, variando os passatempos em função do que, quer uns quer outros, conseguissem arranjar. Aqueles, lá nos confins da savana, via-os brincar com as pequenas coisas que encontravam na mata, aos quais, aos poucos, foram juntando os artefactos que, com a chegada da tropa, foram aparecendo como novidades a que naturalmente não resistiam. Em contraponto, estes, os das Mabubas, embora não desdenhando coisas semelhantes, acrescentavam-lhe os brinquedos comprados nas lojas a que tinham acesso e que, lá nos confins do território, não existiam.
Mas vamos ao que interessa. Para um miúdo, qualquer coisa, mesmo que insignificante ou inútil, serve os propósitos de uma brincadeira: de uma meia fazem uma bola, uma lata dará um potente carro, a imaginação fará de um qualquer pau uma poderosa excalibur e uma simples caixa de cartão pode perfeitamente fazer a vez de um castelo. Nas Mabubas, um dos putos entre os demais, resolveu fazer isso mesmo. Encontrou uma caixa de cartão suficientemente grande, imaginou-a o seu castelo e meteu-se lá dentro entretendo-se, no seu mundo de fantasia, a congeminar planos de governo e estratégias de defesa de torreões virtuais.
Não sei se apenas se meteu dentro da caixa no exacto lugar onde a encontrou ou se decidiu ser aquele o melhor local para instalar a fortaleza, ali, mesmo no meio da rua, mais ou menos antes da curva que antecedia o último troço que levava ao paredão da barragem, por alturas das oficinas auto.
O trânsito era raro, quase inexistente. Os carros, militares ou civis, apenas eram utilizadas quando fosse estritamente necessário, onde não se incluía cirandar pelo povoado e, talvez por isso, a natural irresponsabilidade infantil daquela como de todas as crianças, não encerrava, naquele caso, um perigo iminente. O mais certo era fartar-se da brincadeira e, mais cedo do que se poderia pensar, abandonaria a fortaleza de cartão antes que um carro, por qualquer razão inesperada, por ali circulasse. E mesmo que tal viesse a acontecer, o tamanho da caixa era suficientemente grande para poder ser avistada ao longe por qualquer condutor. De facto, estar a brincar no meio da rua, naquela rua, não era perigo que causasse alarme ou preocupação de maior.
Mas, (há sempre um mas) as coisas não correram assim. Sendo o trânsito quase inexistente, contudo, havia viaturas nas Mabubas e não apenas as da tropa como acontecia na Neriquinha. E circulavam, pouco, mas circulavam. Cada família tinha o seu carro e havia ainda o Land Rover que diariamente o senhor Tomé, responsável pela Barragem, utilizava sempre que descia à central localizada a jusante do paredão, até porque, para lá chegar, haveria que percorrer um íngreme caminho que, descendo pela encosta, morria frente ao edifício da central construído à beira do rio que ali recebia as águas que, chutadas pelas pás das turbinas, eram de novo devolvidas ao rio que as acolhia num marulhar de boas vindas.
Naquele fim de dia, ao volante do Land Rover, o senhor Tomé regressava exactamente da central depois de lá ter passado toda a tarde na sua função de responsável máximo pelo perfeito funcionamento de toda aquela maquinaria. Subiu a encosta, atravessou o paredão e sem pressa, que o tempo não urgia, galgou o pedaço de rua que subia até à curva onde o miúdo se entretinha fora das vistas de quem por ali passasse.
Para o senhor Tomé, aquilo que se lhe deparou não passava de uma simples caixa de cartão, um pouco grande, mas não mais do que isso. Mentalmente questionou-se sobre o local pouco próprio para alguém largar tal coisa. Certamente estaria vazia, terá pensado, admitindo, por simples razão de lógica, que qualquer coisa a empurrara para ali. Provavelmente o vento, não obstante não se lembrar de o ter sentido soprar em todo aquele tórrido dia que nenhuma aragem fizera refrescar.
Continuou a direito decidido a passar-lhe por cima. Era de cartão, o Land Rover facilmente a esmagaria e, assim sendo, mesmo que continuasse no meio da rua já não seria obstáculo. Encarregaria depois o Gasolina, um negro taludo, seu subordinado, um pouco o faz tudo por ali, de a ir retirar. Afinal, que importância tinha uma simples caixa de cartão? Avançou, sempre a direito, naquele vagar embalado pelo som rítmico e indolente do motor do Land Rover, pensando mais num quase nada de tudo e menos naquela caixa que inexplicavelmente se mantinha imóvel à sua frente.
Contudo, quase no último momento, quando faltava para aí uma escassa meia dúzia de metros para o embate, uma espécie de sexto sentido, um sinal, um quase impulso gritado silenciosamente pelo seu bom senso, fê-lo rodar ligeiramente o volante levando a carripana a passar de lado quase roçando a caixa, mas sem lhe tocar.
Quando ficou lado a lado, olhou instintivamente para dentro da caixa. O miúdo, sentado lá no fundo, entretido com as suas brincadeiras, mirou-o com um sorriso gaiato como se lhe dissesse: - gostas do meu castelo?
O sangue, como que se lhe gelou nas veias, o coração quase parou para de seguida sair disparado num bater alucinado de quem acaba de apanhar o maior susto da sua vida. Parou perto de nós, saiu do carro lívido e com voz trémula, titubeou: - Quase matava o miúdo!
Não foi nada comigo, mas ainda hoje, evito passar por cima de qualquer coisa que me apareça no meio da estrada.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Serviços e serviçais

Tropas, longe da família, precisam de alguém que lhes trate da roupa. Pelo menos naquele tempo era assim e penso que as coisas ainda não mudaram; haverá sempre que encontrar alguém para lavar a roupa, passar a ferro, coser botões, remendar rasgões e cuidar um pouco de tudo aquilo que, até então, era tarefa das mães de mancebos que, de repente, se viam privados desses luxos. E não era preciso procurar por elas. No início de cada recruta, apareciam nas imediações do quartel oferecendo o serviço aos recém-chegados.
Durante a minha recruta, nas Caldas da Rainha, uma velhota que vivia no centro da cidade, tratava-me da roupa e por uns cobres a mais disponibilizava um quarto lá para as águas-furtadas onde, num ou noutro fim-de-semana, pernoitava apenas pelo prazer de fugir daquela sensação de prisão que o quartel transmitia.
Em Tavira, para onde me mudaram acabada a recruta, foi-me recomendada uma senhora que, por um valor que lhe permitia compor o orçamento familiar, de tudo se encarregava, também disponibilizando um quarto onde, aos fins de semana, pernoitava fugindo ao rigor da disciplina do quartel e sem acréscimo de preço. Nunca houve problema com roupa lavada e passada. Bastava deixá-la no quarto que um ou dois dias depois aparecia lavada, engomada, cheirosa e arrumadinha em cima da cama. Só era preciso marcá-la com uma sinalefa qualquer para que não aparecesse misturada com a do camarada do lado. Ainda hoje guardo um lenço de mão, velhinho, muito usado e quase transparente pelo uso, exibindo as duas cruzes vermelhas bordadas num canto a recordar-me esses tempos.
O facto é que a tropa mudou-me para o Algarve, mas não notei grande diferença quer na forma quer no serviço prestado. Apenas uns quantos pormenores os distinguiam, sinal evidente de que onde existissem estruturas militares se instalara uma rede organizada que oferecia serviços a clientes que mudavam de três em três meses.
Quando cheguei aos confins do território angolano, largado como simples desterrado no meio de nada, nem me ocorreu pensar em procurar quem me tratasse das roupas. No Rivungo, onde passei os primeiros três meses da minha longa estada na imensa savana africana, foi sem surpresa que uma mulher, digna representante da etnia Ganguela e com filho ensacado às costas e tudo, me foi indicada pelo moço da messe para, a troco de uma bagatela, me tratar da lavagem da roupa. Sim que quanto a coser botões e tratar dos remendos se encarregaria o Máquina, de forma prestimosa, competente e gratuita. Afinal o homem trabalhava para nós e não se sentia confortável a cobrar extras por tão pouco. Quanto à mulher, apenas sei que esfregava a roupa sobre um bidão tombado numa curva do rio, já que por ali nunca ninguém se lembrou de arranjar um tanque apropriado e pedras não havia.
Quando me mudei para a Neriquinha, passados três meses no Rivungo, rapidamente me apercebi que ali as mulheres não lavavam roupa. Estavam demasiado ocupadas nas suas tarefas de cuidar da lavra, das lides domésticas, de bater o pilão na demorada tarefa de transformar grão em farinha, de colher lenha na mata e transportá-la à cabeça pelos sinuosos carreiros num vai e vem diário, na preparação da parca ração que constituía a alimentação de gente habituada a pouco, no cuidar dos filhos - dos mais pequenos que os crescidotes já cuidavam de si. A verdade é que as mulheres não tinham por hábito ultrapassar a linha do arame farpado que separava o kimbo da área ocupada pela tropa.
Mas não os putos, especialmente os crescidotes, entre os doze e os quinze anos. Na sua maior parte, ocupavam-se em tarefas as mais variadas. Onde houvesse algo em que pudessem ajudar, lá estavam eles, incansáveis, sorridentes, prestáveis, uns mais atrevidos que outros. Faziam tudo o que lhes pediam a troco de uma refeição a horas certas, mais rica do que o pirão com nada, amassado em tachos mal lavados, negros de fumo pelo tempo que passavam sobre um lume avivado à força dos pulmões de quem tinha por missão manter o chama viva, mesmo os mais pequenitos.
Comecei a contá-los: Um ou dois na messe ajudando a servir e transportar os pratos sujos para a cozinha; outros dois ou três na enfermaria ocupados nas limpezas, uns tantos na mecânica, um dos quais, o Vicente, que já quase percebia tanto da função como alguns dos mecânicos encartados; depois mais dois na padaria, uma meia dúzia na cozinha, três ou quatro na horta, mais um aqui outro acolá, enfim, um corrupio de serviçais para tudo o que fosse preciso.
Finalmente, uma chusma deles encarregava-se de tratar da roupa - havia soldados que tinham um puto em exclusivo para lhes tratar de tudo. Estavam dispersos, não se dava por eles, mas todos juntos eram muitos, alegres, vivaços, contentes por terem comida garantida e receberem alguns tostões em troca da prestação de serviços a soldados que a tal nunca tinham sido habituados.
Na camarata dos furriéis havia dois. Faziam as camas, varriam o chão e lavavam a roupa. Sim! Quem nos tratava da roupa eram dois putos imberbes que dividiam entre si os furriéis da companhia: O João a quem de quando em vez o outro chamava de Muhala Cassumbi e o Manjolo que, dada a semelhança fonética, passou simplesmente a ser chamado por Major.
Tratavam com desvelo das nossas roupas, lavando-as nuns tanques lá para os lados do Kimbo e devolvendo-as ao fim da tarde, limpas, impregnadas do perfume fresco do sabão azul e toscamente dobradas. Não vinham passadas a ferro que isso era coisa que ali não havia e, verdade seja dita, tal luxo era totalmente dispensável. Aliás quando volvidos muitos meses saímos daquele exótico lugar para um mais aprazível, até estranhei quando me entregaram a farda lavada, passada a ferro e cuidadosamente dobrada.
Na verdade, naquelas paragens isso era coisa inútil. A roupa sujava-se a ritmo alucinante, apenas importando que fosse lavada amiúde. Tão frequentemente que ao fim de dezoito meses de Cuando Cubango, um dos meus camuflados estava parcialmente transformado em franjas e eram mais os remendos e os pespontos que tecido. E de tudo isso tratava o João, dos dois, o que se encarregava das minhas coisas. Lavava a roupa, punha-a a secar dependurada na cerca de arame farpado que limitava o aquartelamento e quando algo se rasgava ou descosia, munia-se de agulha e linha, sentava-se na borda da cama, e com trejeitos de aprendiz, língua de fora a denotar a concentração e o esforço, remendava tudo, reparava as costuras desfeitas voltando a entregar-me um camuflado de novo pronto para chafurdar na lama das chanas em mais uma andança pela mata, de onde regressava ensebado com a mistura de suor e pó, untado com o molho gorduroso das latas de ração de combate, a exigir uma esfrega prolongada pelas mãos do João.
Um dia, durante uma demorada e extenuante operação lá para os lados do Chiúme, as calças do camuflado cederam totalmente pelas costuras, transformando-as numa espécie de máxi-saia. Regressado ao aquartelamento, comecei a pensar na melhor forma de resolver aquilo. Teria de pegar numa agulha e com paciência e tempo tentar refazer as costuras destruídas. O João levou as calças para lavar e nem me apercebi que, como era hábito, não as entregou ao fim da tarde. Dei com ele, no dia seguinte, de agulha na mão, às voltas com as costuras.
Ainda o interpelei duvidando que fosse capaz de dar conta da tarefa. Descansou-me, com um convincente: - Eu faço.
Nunca mais me preocupei com o assunto, embora aquele fosse, dos dois camuflados que possuía, o que estava em melhores condições. Vinha-o preservando, poupando-o às missões mais desgastantes de forma a chegar ao fim da comissão sem ter de comprar outro.
Quando olhei o camuflado cuidadosamente dobrado em cima da cama, conclui que, afinal o puto tinha dado conta do recado. Desdobrei-o, olhei as costuras e com dificuldade, contive o riso. As costuras estavam de novo unidas e voltavam a ter o aspecto de calças, mas tinham sido remendadas com uns pontos largos, grosseiros, bem visíveis. O João coseu-as como se cose uma saca de serapilheira, com uma total falta de jeito mas denotando uma persistência admirável. Creio que ficou vaidoso por ter sido capaz de tal tarefa.
Com putos assim, quem precisava de mulheres para nos tratar da roupa?

sábado, 18 de dezembro de 2010

OS PUTOS

Putos, há-os em todo o lado. E na Neriquinha havia-os às dúzias e de todas as idades.






















Eram engraçados, como aliás são os putos de qualquer raça ou credo.
Pequenitos, de olhos vivos a brilharem nas suas caras escuras.
E também corriam, gritavam, riam e brincavam como todos os outros. E choravam como se compreende.













Geralmente nus ou quase, com o corpo normalmente coberto de sujidade, visível em desenhos aleatórios riscados na sua pele baça de pó.













Alguns de barriga proeminente, sinal evidente de alimentação deficiente. Mas, a maioria já não apresentava tal característica. A proximidade da tropa garantia-lhes uma alimentação diferente daquela a que os seus pais se habituaram.
Era vê-los a rondar a cozinha, especialmente no fim do almoço.
Enfim, miúdos nascidos na savana mas que cresceram habituados à proximidade de tropas. Um dia dei por mim a pensar que, se calhar, na cabeça daqueles garotos um homem branco era alguém de pele clara, vestindo por regra uma farda camuflada e sempre com um barrete esquisito na cabeça.
Como em qualquer comunidade, eram todos diferentes e ao mesmo tempo todos iguais. Lembro-me que cheguei a perguntar-me como é que as respectivas mães reconheciam os seus. Seria por isso que andavam permanentemente com os mais pequenitos encafuados em bolsas de panos num imaginativa criação de alcofas portáteis? É que nunca os largavam.
Mas era apenas uma estupidez minha, de primeira impressão. Como é bom de ver, são todos diferentes uns dos outros, como quaisquer outras crianças.
Mas havia um que se distinguia dos demais. Era a prova, o sinal evidente da passagem da tropa por ali. As mulheres Ganguelas não eram esquisitas e pelos vistos os brancos, também não. Especialmente os loiros.