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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O Julgamento


Kimbo de N´riquinha (1973)
Julgamento por incumprimento das regras do alambamento…

Tens uns probrema grande nos Kimbo, meu captão. Uns maka por causa duns mulher que fugiu. Popração quer que captão venha nos kimbo p’ra resolver!”

É o Lupale, figura proeminente do aldeamento, que me fala, acompanhado de um ou dois secúlos, em mais uma manhã soalheira à saída do meu pequeno-almoço na messe. Era normalmente aí que me esperavam para me colocarem as questões que os atormentavam. Jamais me interrompiam no que quer que fosse. Esperavam pacientemente que eu saísse da messe, ou do gabinete, e então abordavam-me.
Procurei inteirar-me melhor da situação. O problema era bem mais complexo do que eu imaginara. Depois de ter angariado a admiração e a confiança da população, por via do enorme conforto que a Companhia lhes havia proporcionado no apoio às lavras, triplicando as áreas de sementeira, passei a ser consultado para tudo o que se constituísse "probrema" no Kimbo.

O tribunal para a resolução de questões sociais reunia à noite na rua em pleno centro do aldeamento, embora, felizmente, com sessões pouco frequentes. Em todo o tempo que lá permanecemos aquela terá sido a única sessão de que tivemos conhecimento. Uma espécie de fórum ao ar livre onde se sentavam em círculo as forças vivas do aldeamento presididas pelo soba, que, no caso, atendendo à sua avançada idade, tinha apenas uma função honorífica que todos respeitavam. Quem quisesse podia assistir mas não podia emitir opinião. Para lá dos membros daquele juízo, formado pelos secúlos e alguns velhos, apenas intervinham os implicados e seus familiares.

Era já noite cerrada quando me foram chamar à messe, conforme ficara combinado. À minha chegada fez-se um enorme silêncio, como se tivesse chegado o cacique-mor da região, ou um venerando chefe religioso cuja figura impusesse a maior deferência e veneração. (O poder da “razão” das armas sempre impôs respeito e medo e não seria ali que tal não iria acontecer)

O soba levantou-se para me dar o seu lugar, que naturalmente recusei. Sentei-me ao seu lado postando-me propositadamente um pouco atrás, como faria um observador convidado para assistir a um evento em país estrangeiro. Pareceu-me sensato que a minha presença deveria quedar-se pela circunstância de um simples observador, até porque havia todo o interesse e curiosidade da minha parte em verificar como funcionava aquela forma de tribunal.
Depois de me acomodar, continuou aquele silêncio inicial que logo percebi ter a ver com a minha presença. Compreendi que esperavam que eu tomasse qualquer iniciativa, ou indicasse qualquer novo rumo diferente daquele a que estavam habituados numa herança que tinha séculos. Era afinal lógico. Senão não me tinham convidado.
Fiquei um pouco embaraçado porque não era essa a minha intenção. Ao mesmo tempo senti que, provavelmente, ia decepcioná-los nas expectativas que lhes terei criado ao aceitar o convite que me fizeram.

Disse-lhes que vinha mais para ouvir e que se achasse que tinha alguma coisa para dizer que o faria. Os trabalhos deveriam decorrer como se eu ali não estivesse. Tudo deveria acontecer como sempre tinha acontecido.
As minhas palavras foram então traduzidas pelo Lupale, porque a maioria, sendo idosos, não dominava o português. Sucederam-se alguns murmúrios, cujo teor também não entendi porque de igual modo não foram em português. Mas foi possível perceber alguma frustração que notei com maior clareza no lado dos familiares da ré em questão, por certo pouco esperançados no sentido da justiça que os esperava. No fundo, uma pena com centenas de anos de aplicação em casos semelhantes.
- "O soba diz que sim. Tá bem mé captão." É o Lupale que me informa.
O julgamento tem então início. O Lupale fica junto de mim e funciona como meu cicerone, mas também membro activo naquele plenário. E como se de um momento para o outro se tivesse carregado num botão, desataram todos a falar ao mesmo tempo, que me parecia até impossível que se entendessem naquilo que diziam. Uma tremenda de uma confusão. O Lupale alternava a tradução que me fazia daquilo que se ia dizendo, falando em voz baixa para mim, para logo de seguida acompanhar o tom de confusão geral altercando-se com um dos muitos interlocutores que no lado oposto ao seu teria dito algo com o qual ele estaria em desacordo.

De que constava então aquela demanda. Como já foi referido, no processo de casamento havia lugar ao "alambamento", constituído por uma série de valores que eram entregues aos pais da noiva. Mas chamemos, então, as coisas pelos nomes. A noiva era comprada aos pais mediante a entrega de um determinado valor em géneros e utensílios agrícolas ou domésticos, o qual era discutido como um qualquer negócio. No caso, era o que tinha acontecido. O "alambamento" fora pago e o casamento teve lugar com a pompa tradicional. No dia da boda a noiva era untada com um produto oleoso misturado com uma substância avermelhada e enfeitada com milhares de missangas por todo o corpo, com especial relevo para o cabelo, que era trabalhado de uma forma artística brilhante, onde era difícil distinguir os produtos utilizados, por vezes estranhos e de aspecto muito pouco apelativo. Pelo menos para estranhos como nós. A noiva ficava depois exposta durante todo o dia ao aldeamento, sentada de joelhos à porta da sua cubata. O noivo não se aproximava da noiva. Era a regra. O aspecto desta também era pouco convidativo. Talvez agradável à vista mas muito pouco atraente ao tacto e olfacto…

Mas ocorrera uma outra circunstância muito pouco usual. Festejado o casamento, bastaram alguns meses para que a mulher concluísse que tinha, afinal, feito um “mau negócio”. E se se pensa que estas coisas só acontecem em sociedades civilizadas, puro engano.
Consumada a ideia de incompatibilidade, considerando o estatuto vigente de um mero objecto em que lhe estava praticamente coarctada a faculdade de pensar e contestar, a ré, ali ausente, tratou de namoriscar um jovem que passava numa coluna de viaturas e fugiu com ele para Serpa Pinto. A distância a que se situava este novo local eleito para um recomeço de vida, não foi escolhida ao acaso. Cerca de seiscentos quilómetros era suficientemente dissuasor para que o marido espoliado pusesse de parte quaisquer intuitos de recuperação do que lhe pertencia. "Espoliado" e "pertencia" são aqui os termos mais adequados à forma como aquelas coisas eram tidas por ali. Uma mulher de armas era o que me parecia ser esta ré ausente, que nunca cheguei a conhecer.

Naqueles tempos uma atitude destas era mais que corajosa e pouco comum. Na anormalidade da situação tudo parecia poder-se considerar normal. O casamento não deu, cada um vai à sua vida procurando reconstrui-la o melhor que puder e souber.
Só que ali funcionavam regras ancestrais e esse era o busílis da questão. Neste tipo de situação o "alambamento" tinha que ser devolvido, ou a mulher tinha que regressar ao seio do lar.
O regresso apresentava-se praticamente impossível e o grande imbróglio era que os familiares da ré já tinham dado fim aos valores do "alambamento", não havendo nada para devolver, nem outros bens de substituição. Coisas comuns que nos acontecem a todos quando a vida nos prega algumas partidas e lá se vão os anéis ficando os dedos.
Mas as regras não terminavam aqui.
Neste caso, considerando que não havia mulher para regressar a casa, nem "alambamento" para devolver, eram mesmo os dedos que serviam de moeda de troca. Dizia o ordenamento de penas que, no caso, a família teria que levar uma carga de pancada para suprir a falta de bens para devolução. Nem mais.
Não resisti a um sorriso interior que, com algum esforço, não permiti que me aflorasse ao rosto. A discussão divagava em torno destes parâmetros. Os familiares da ré debatiam-se entre a perspectiva de falta de meios económicos para satisfazer aquela dívida e o pouco desejo de levar uma sova. Os argumentos flutuavam entre a convicção (pouco convicta) de que a mulher haveria de regressar mais dia, menos dia, e outra, tão menos convicta quanto aquela, de que não achavam justo apanhar por uma coisa que não estava na sua mão resolver. Esta última porque sabiam que as regras, não obstante, eram assim havia séculos.

Como é costume nestas circunstâncias, qualquer que seja o ponto do planeta em que ocorra, o debate entrou numa maré repetitiva de argumentos sem que se vislumbrasse outra saída que não fosse a prevista naquele código natural das coisas, tal como sempre acontecera até então.
Nessa altura achei que era o momento de intervir. Naturalmente advoguei a defesa dos familiares da ré. Sempre com o Lupale a traduzir aquilo que eu dizia, lá fui argumentando que os familiares não podiam ser responsabilizados pelos actos da mulher, uma vez que esta era adulta (frisando bem ao Lupale que eu disse adulta e não adúltera...) sendo ela a única responsável pelos seus actos.
Lá fui desfiando uma ladainha enorme de argumentos com alguns exemplos práticos, sentindo, no entanto, que o meu discurso era capaz de me soar bonito a mim, mas não colhia lá grandes frutos na assembleia. As cabeças meneavam que sim mas era apenas um sim de entendimento daquilo que eu dizia. Lá por dentro eu vislumbrava um rotundo não, quanto ao convencimento que obtinha no seu íntimo.
Sorriam os familiares da ré abanando convictamente a cabeça, resmungavam os do marido enganado. A divisão de opiniões continuava claramente desfavorável aos primeiros. Voltei à carga mais uma ou duas vezes porque me apercebia que não conseguia lá grande coisa com todo aquele palavreado. Os resultados não melhoravam.

A lua estava a pino. Era de um brilhante prata como só em África acontece. O ambiente nocturno, sem qualquer foco de luz artificial nas proximidades, contribuía para aquela luminosidade resplandecente. Enquanto rebuscava mais uns quantos argumentos para deitar cá para fora e fazer de minha a justiça que queria ver feita, dei por mim de olhos presos na lua.
Vislumbrei-lhe um sorriso trocista, uma ironia indisfarçável que zombava de mim. Aquele ar irónico clarificou-me por fim o espírito e teve o condão de me assentar os pés no chão, naquela areia fina, suja e ainda quente àquela hora da noite. Recostei-me melhor na cadeira sem desprender o olhar. Sorri também. Compreendi por fim o disparate em que me tinha postado ao procurar que fosse o meu entendimento de justiça que deveria vingar ali. O princípio colonial de converter os gentios à nossa semelhança continuava comigo, quase quinhentos anos depois da chegada àquelas paragens dos súbditos de suas majestades os reis lusitanos, ávidos de conquistas de bens, território e escravos que fortalecessem um reino pequenino e distante, a quem deixaram o mar como única porta de saída, constatados os desentendimentos constantes com a vizinhança castelhana.

Quase à beira do ano dois mil, eu continuava a laborar no erro ancestral de procurar apagar séculos de história vincados nos hábitos e na vontade de ser assim e não de outra maneira. Por momentos deixei-me ficar de olhar pendurado na lua, enquanto um silêncio de sepulcro se ia instalando em meu redor, sem que eu tivesse dado por isso. A assembleia ficara suspensa das minhas palavras e aguardava que lhes trouxesse algo de mais palpável do que aquilo que lhes trouxera até ali.

Veio-me à memória uma outra ocorrência da guerra de África, suponho que em Moçambique, quando um senhor General se deslocou a um local longínquo para falar às populações. Falava o senhor General para um grupo numeroso de populares num aldeamento distante, havia já bastante tempo.
Falava-lhes da importância de se ser português, de ficar com a tropa e não com os turras, de trabalhar muito para não ter fome, e por aí fora. A população escutava com atenção. Como é sabido nem todos dominavam o português, o que ao fim de quinhentos anos de ocupação é obra e revelador da preocupação que tivemos em aportuguesar aquela província ultramarina.
Em determinada altura, um dos populares, que não conseguia ainda o domínio bastante da língua de Camões, perguntou ao companheiro que se encontrava ao lado, este mais esclarecido no vocabulário latino.
- O que é que ele está a dizer? Resposta pronta.
- Por enquanto ainda não disse nada! Só está a falar...

Levantei-me e disse num português mais ou menos adaptado àquele em que os ouvia todos os dias
- "Capitão não vai dar mais opinião. A justiça do Puto ser justiça diferente. Vocês ter que fazer a vossa justiça. Se ela foi boa até aqui tem que continuar a ser igual. Quando um dia acharem que ela está errada, então nesse dia mudam para outra melhor".

Como diria o poeta… “e um grande silêncio fez-se…”depois do Lupale ter traduzido aquilo que eu tinha dito. Aquele meu português meio arrevesado mesmo assim só chegava a uns quantos, os mais jovens.
Uma voz aqui outra ali, foram-se começando a ouvir murmúrios que pedi ao Lupale para me ir traduzindo. Eram vozes de lamento e desilusão. Alguns invectivavam-se mutuamente por terem “cháteado” o Capitão e agora ele ia-se embora e ficavam na mesma.
Quem mais ajudava àquela “missa” eram naturalmente os familiares da ré.
Lá procurei fazê-los compreender que não estava aborrecido com nada nem ninguém. Estava até bastante satisfeito por eles teimarem em fazer a justiça que os tinha orientado durante tantos anos. Boa ou má era a justiça que tinham e era assim que deveria ser aplicada.
Cumprimentado o soba, despedi-me de todos eles, solicitando que continuassem o julgamento e, já agora, a que me comunicassem a conclusão a que iriam chegar.
Regressei ao meu quarto ainda na maior censura daquela minha atitude de ter admitido intrometer-me na forma de vida daquele povo, especialmente a que respeitava a hábitos ancestrais que funcionam como traços de cultura inalienáveis que os vinham orientando havia séculos.

No dia seguinte, o Lupale compareceu bem cedo à porta do meu gabinete.
Já havia uma boa hora ou mesmo duas que espreitava a minha chegada, para depois aparecer tímido, silencioso e indeciso, dando-me um tempo calculado de acomodação aos meus afazeres mais prementes. O ordenança anunciou-me a sua visita.
De mãozinha fechada e dobrada pelo pulso, agarrada pela outra à altura do peito, curva-se em duas ou três vénias habituais de cumprimento e subserviência. Cumprimento-o segurando-lhe a mão dobrada pelo pulso que aponta para o chão, enquanto a outra fica ainda fechada e recolhida no peito. Quase não mexe os dedos com receio de me causar algum dano na minha mão branca de senhor, espécie de divindade edificada pelo poder das armas. Vinha anunciar-me a decisão do concílio da noite anterior. Não tinham chegado a uma decisão definitiva. Mas tudo apontava para seguirem a ideia que eu tinha deixado.
Alguns tinham-se vergado à douta sabedoria do "captão", fazendo inclinar a decisão para o lado contrário da sua história, da sua cultura, em suma, da sua secular sapiência e modo de vida que num ápice desbaratei, sempre a bem de qualquer coisa... jamais a bem da Nação…

Normalmente ficamos contentes quando as nossas ideias são aceites pelos outros. É um sinal de elevação e consideração. Naquele caso, não foi bem isso que eu senti. Que raio de ideia a minha. Mas era tarde. Restava-me apenas a consolação de se ter evitado uma sova inútil em inocentes que eram apenas vítimas da paragem do tempo que se tinha abatido sobre eles naquele local. Ou, sei lá. Quem sabe se não seriam eles que tinham razão com aquela forma de fazer justiça. Sinceramente, hoje já não sei. É que por vezes fico com a sensação que uma boa sacudidela de pelo é capaz de fazer melhor justiça que aquela que vamos tendo…

(Adaptação do livro “Capitães do Vento”)

Pedro C.

sábado, 1 de janeiro de 2011

O RETORNO do MARINHEIRO ou o amor em tempo de guerra

Durante os longos dezoito meses que andei por terras do Cuando Cubango, dei-me conta que o dia do regresso, aquele em que dali sairíamos, era uma espécie de assunto recorrente, quase uma mania que, com frequência, ocupava as nossas conversas e pensamentos. Era tema a que se voltava de quando em vez, especialmente se a saudade batia à porta. Na verdade, era o dia mais desejado a seguir ao de “São Correio”. Só que este era certo e vinha duas vezes por semana, enquanto aquele não passava de uma miragem distante, algures no difuso horizonte das nossas vidas.
Era de facto o dia mais esperado e isso era tão importante que justificava a manutenção de calendários onde, em contagem decrescente, se ia marcando o tempo já passado e controlando o restante. Quanto mais os dias riscados, mais próximo o tão almejado dia. A cada pôr-do-sol, rejubilava-se:
- um dia a menos! E quando se completou um ano de Neriquinha, o desabafo foi substituído por um resignado: - já faltou mais!
O pior é que ninguém sabia quando isso iria acontecer. A companhia anterior saiu dali passado um ano e parece que teria sido sempre assim. O lugar era tão mau que justificava a preocupação das hierarquias militares em proteger a sanidade mental de quem tivesse tido o azar de para ali ter sido despachado, procurando encurtar tanto quanto possível a comissão naquele oásis improvisado. Assumia-se, por isso, ser mais ou menos certo que, passado um ano de degredo, haveria rotação para um lugar mais aprazível.
Mas não tivemos essa sorte. Passados doze meses comecei a alimentar a esperança que seria mais dia, menos dia. E como esse dia nunca mais chegava, assumi que seria mais semana menos semana, depois que talvez fosse daí a um mês, até que por volta do décimo quinto mês de Neriquinha e Rivungo deixei de pensar no assunto e já só me contentava com a certeza de que algum dia haveria de ser, nem que fosse no fim dos dois anos de comissão. Ia assim enganando a consciência com o facto de os meses já passados serem mais do que os que ainda faltavam.
– Já não falta tudo. Concluía na tentativa de amenizar a expectativa.
Com o pessoal da marinha, as coisas não eram muito diferentes. Quando ali chegavam tinham uma vaga ideia do dia em que tudo terminaria, sendo atormentados pelos mesmos sentimentos. Na verdade, tropas ou marinheiros, polícias ou civis, fosse quem fosse que ali estivesse no cumprimento de um missão por tempo limitado, todos tinham no pensamento o dia em que finalmente deixariam para trás as Terras-do-Fim-do-Mundo, diriam adeus às águas do Cuando, respectivos afluentes e chanas, aos kimbos, aos irritantes trajectos por picadas de areia poeirenta e à falta de quase tudo.
Mas não era apenas a imposição de uma missão indesejada, num local impensável, longe de tudo e de todos, que nos atormentava o espírito e alimentava o desejo de ver chegado o dia do regresso. As saudades do que deixáramos para trás eram ampliadas pelos riscos da missão, pelo desterro a que fôramos votados e pela vida miserável e difícil que tínhamos de levar. E a falta de mulher, mulher branca, de seios redondos e rijos, de pele delicada, cheirosa e doce, ocupava o pensamento, atormentava os sentimentos, fazia doer a alma e trazia à memória prazeres já gozados que agora pareciam apenas privilégios inacessíveis.
Enfim, necessidades que cada um procurava mitigar com os parcos recursos locais, satisfazendo fugazmente apetites lascivos que se esfumavam em rapidinhas incursões nocturnas mas que não conseguiam apagar o desejo incontido.
Alguns, talvez menos resistentes, ou possivelmente mais carentes, não se contentavam com visitas esporádicas a alcovas desconfortáveis habitadas por fêmeas sem jeito e desprovidas de atractivos. Esses, ao fim de algum tempo, acabavam por se fixar num kafeco, que passavam a considerar sua a tempo inteiro, adquirindo-a em troca do alambamento cujo preço o pai fixava, passando a ser dono da rapariga que lá ia cumprindo a sua função, toda vaidosa porque agora pertencia a um branquela que, de quando em vez, a presenteava com um agrado insignificante. Sim que as mulheres ganguelas não eram muito exigentes e qualquer pano colorido era suficiente para as fazer felizes. Não imaginam os favores que se conseguiam comprar com um simples maço de tabaco.
Na 3441 e tanto quanto me lembro, apenas o furriel das transmissões comprou mulher. A Regina Preta, como era conhecida, era uma mulher da savana, negra de um escuro intenso, de pele áspera e peitos volumosos mas flácidos e caídos. Não devia nada à beleza, mas passou a ter homem branco só para si, por sinal ciumento e que a procurava guardar o melhor que podia das investidas dos demais que, apenas por pirraça e a troco de meia dúzia de tostões, usufruíam da propriedade adquirida. E como isso não era fácil, que o furrfiel não facilitava, cada vitória era saboreada mais por isso do que pelos poucos minutos de prazer, já que a arte do amor não era exactamente a especialidade daquelas mulheres. Ou então era a falta de empenho ou de competência de homens habituados a coisa diferente, não conseguindo obter mais do que uns inábeis e mecânicos meneios da função por ali designada de ginga ginga.
Por tudo isto, livrar-se de um nada e correr para o tudo que se deixara para trás, era, assim, um desejo que não nos saía da cabeça. E foi isso que eu imaginei terem sentido os nossos companheiros da marinha quando, finalizada a comissão no Cuando, regressaram a Luanda e provavelmente daí para o Puto. E a alegria teria sido mais efusiva não fora o facto de ainda estarem a recuperar da perda do Ruço e das mazelas resultantes do ataque que a lancha sofrera pouco tempo antes.
De facto, só não pensavam sair dali os que ali nasceram e não conheciam outro mundo. Todos os demais apenas permaneciam pelo tempo imposto pela comissão, desde o Administrador da Circunscrição, aos agentes da PSP, da DGS, tropa, marinha e um ou outro funcionário administrativo. Enfim, todos estavam de passagem, alimentando o desejo de regressar o mais depressa possível.
Compreende-se assim a minha surpresa e espanto ao ver, por detrás do balcão da única lojeca existente no Rivungo, o Godinho, marinheiro que, há uns meses atrás eu vira despedir-se e que presumi contente por ter concluído aquela comissão num local para onde, por vezes, eram destacados, a título de punição, marinheiros com a folha de serviço suja por algum mau comportamento, pelo menos para o padrão de exigência do regulamento de disciplina militar que, por mim, nunca vi em qualquer deles comportamentos que justificassem censura.
É verdade, aquele marinheiro regressara ao Rivungo e pelos vistos de forma voluntária, para ali ficar e criar raízes. Comprara por um preço em conta a única loja existente num raio de algumas centenas de quilómetros, já que, entre o Chipundo e Mavinga, apenas na Neriquinha, num tosco barracão gerido pela tropa, se vendiam algumas tralhas à população local – chamávamos-lhe pomposamente “O Chiado”.
A rudimentar barraca de paredes de barro e cobertura de capim onde aquele marinheiro aplicou o seu investimento, fora, durante muito tempo, o negócio de um velhote que conhecemos quando ali chegámos, em Novembro de 1971. Apenas me lembro que era um homem só, de poucas palavras e que se calhar já não fazia ideia do que era uma cidade. Deve ter-se fartado e certamente largou o negócio por pouca coisa. A loja, dotada de um pequeno balcão muito rudimentar, raramente tinha clientes. De facto, os artigos que vendia - uns panos coloridos, umas missangas, uns paus de sabão e alguns utensílios - apenas interessavam à população local. E como o dinheiro não era coisa que os ganguelas tivessem ou lhes fizesse falta, a clientela escasseava. Na loja do velhote, estrategicamente situada à entrada da povoação mesmo em frente ao Kimbo, apenas um ou outro procurava trocar os magros tostões que ia arrecadando por algo que lhes interessasse ou que considerasse de utilidade.
Logo que pude, fui fazer-lhe uma visita. Recebeu-me com um sorriso aberto, mantendo-se no seu novel posto, de pé, por detrás do pequeno balcão. Se bem me lembro não deu justificações para o seu regresso e nem lhas pedi. No momento, não encontrei lógica na decisão que tomara, mas a verdade era aquela; o marinheiro voltara para junto do rio, lá para os confins das terras-do-fim-do-mundo, o mais longe possível do mar e do mundo onde cresceu. Se calhar, o facto de ter passado tanto tempo longe da civilização, tornara insuportável, para ele, o bulício citadino, passando a preferir a calma e o silêncio. Para mim, o Rivungo, era apenas um lugar um pouco melhor que tudo o mais que o rodeava, ficando a minha paixão pelo local, reduzida ao desmedido desejo de sair dali logo que tivesse autorização para isso.
Assim, não me pareceu que tão inopinada paixão por uma terra que não tinha nada para dar a um europeu habituado a outras mordomias, fosse a razão que levou aquele marinheiro a dedicar-se à exploração de um negócio sem futuro, num local para onde não confluem caminhos. Ali não havia nada e tudo o que fosse preciso estava demasiado longe, quase inacessível. Nem médico ou sequer um posto médico. Para tratar da saúde, numa aflição, apenas a enfermaria da marinha ou da tropa, servidas por enfermeiros formados à pressa.
Ninguém me tira da cabeça que a oportunidade do negócio não passou de uma espécie de pretexto, ou justificação para a decisão que tomara. Com efeito, apercebi-me mais tarde, porque alguém me abriu os olhos, que havia outra razão forte a justificar o retorno. O homem ficara preso à mulher de quem se serviu - ou que o serviu, tanto faz - enquanto cumpria ali a sua missão.
De facto, sabia-se que passava muitas noites numa certa cubata algures no meio das outras do pequeno kimbo do Rivungo. Seria mais um daqueles que não se contentava com visitas esporádicas. Mas, pelos vistos, terá ficado preso aos encantos de uma mulher que, sem atributos físicos, pouco mais sabia do que aquilo que a vida de mulher da savana lhe ensinara.
Mesmo assim, ainda hoje, continuo sem saber se o seu retorno ao Rivungo foi uma aposta no negócio, paixão pela savana ou o impulso irresistível de se anichar nos braços de uma mulher, negra, sem perfume, sem beleza, mas com os encantos necessários para o prender. A ponto de o fazer voltar a um lugar impensável.