Por motivos profissionais, tive que me deslocar a Angola no passado mês de Março. Tentei, sempre dentro dos limites do tempo disponível, informar-me sobre as transformações que aquele país está a passar e visitar os locais que a memória ainda preserva, e, o que vi, era, de uma maneira geral, positivo: estão a nascer, por todo o lado, hospitais e centros de saúde, escolas, universidades e centros de formação profissional, constroem-se milhares de quilómetros de estradas, recuperam-se e reestruturam-se centenas de pontes, requalificam-se e urbanizam-se as cidades, na periferia (de Luanda, Huambo, Benguela, Lobito, Soyo e Kuito) nascem centros comerciais e bairros de habitação com milhares de fogos, ampliam-se portos de mar e aeroportos, o comércio vai-se estabelecendo e espalhando por todo o lado (importantíssimo o comércio informal e ambulante), iniciam-se projectos industriais com a participação de empresários estrangeiros, enfim, nota-se um país a nascer e a querer crescer com estabilidade.
Mas, as dificuldades criadas pela burocracia, a pobreza, a falta de qualificação dos jovens, os elevados preços dos bens essenciais, a tremenda dependência aos grupos económicos estrangeiros, o estado de destruição em que ficou Angola depois da guerra e o peso na economia de algumas famílias privilegiadas, faz com que o estádio de desenvolvimento seja menor do que o desejado.Porque pretendia visitar as sepulturas de 2 militares de Penalva do Castelo mortos em combate, cuja localização eu conhecia (info da Liga dos Combatentes) e como a minha filha mora perto de Miramar, fui visitar o Talhão dos Militares Mortos em Combate no cemitério principal de Luanda. Este cantinho de Memória, Coragem, Heroísmo e Portugalidade, foi objecto de um tratamento especial nos acordos da Independência de Angola e cabe ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, através da Embaixada em Luanda, fiscalizar e "tomar conta" de tal espaço.
Melhor fora não ter lá posto os pés!
À entrada, perguntei ao porteiro (funcionário da Câmara Municipal de Luanda) onde estava situado o Talhão Militar:
-Ah! ... do colono? Lá atrás! - e indicou-me, com o braço, o fundo do cemitério, à esquerda.
Pelo caminho fui passado por jazigos artisticamente trabalhados, verdadeiras obras de arte, datados desde o século XIX, e que, milagrosamente, se conservam em bom estado. Ao fundo, à esquerda, lá estava o que eu procurava. À entrada, num pequeno mausoléu, estavam as ossadas de militares mortos em terras de Angola durante a I Grande Guerra e cuja conservação é miserável, e, mais miserável ainda, porque se trata de Património que compete ao governo português preservar.
O Talhão Militar, ali ao lado, já não existe! E, do que resta, a destruição é quase total! O abandono de todos os responsáveis pela defesa daquele lugar sagrado, não tem explicação. Desapareceu toda a identificação e numeração que permita encontrar o que quer que seja, alteraram o alinhamento das campas, foram ocupadas a maioria das campas dos militares portugueses para enterramentos recentes, algumas campas têm os nomes originais apagados e foram gravados no mármore os nomes dos novos inquilinos. A vergonha que senti foi tanta, que chorei e ainda hoje me incomodam as imagens que gravei na memória.
Ainda hoje não sou capaz de falar com clareza de espírito sobre aquele atentado, tal a revolta que sinto.
Má nação aquela que abandona e esquece os ossos dos filhos que derramaram o sangue e deram a vida em sua defesa.
Ficam as fotografias para comprovar






