Mostrar mensagens com a etiqueta Lupale. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lupale. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

LUPALE - O intérprete

A população da Neriquinha não era diferente da de qualquer outro dos kimbos das redondezas. Contudo, se atentarmos bem à sua composição e razões que levaram à formação, naquele local, de um aglomerado populacional, identificam-se características muito particulares. Não obstante as semelhanças, insisto na ideia de que a Neriquinha era, em muitos aspectos, diferente dos demais.
Com efeito, a dezena de kimbos então existentes naquela vasta área que vai de Mavinga ao Chipundo representava aglomerados populacionais que ali se fixaram pelas diversas razões que levam o ser humano a sedentarizar-se criando raízes naqueles exactos locais e não noutros. Era ali que encontravam tudo o que precisavam e, por razões que a antropologia melhor saberá explicar, era também onde se sentiam bem.
Mas o aglomerado populacional da Neriquinha e apenas este, era subtilmente diferente. Aquele lugar não era sítio que atraísse população. E quando penso nisso, mais uma vez sou levado a concluir que fomos obrigados a viver dezoito meses num local tão inóspito que nem a população autóctone encontrava razões naturais para ali se fixar, a não ser que, pelas circunstâncias, a isso se visse obrigada.
É verdade, o kimbo da Neriquinha nasceu e cresceu em consequência da guerra. Razões ditadas pela estratégia militar determinarem ser aquele o local adequado para a implantação das instalações militares: primeiro um pequeno aglomerado de tendas de lona, material que, ao longo do tempo, foi sendo progressivamente substituído por paredes de tijolo e cobertura  de chapas de zinco. Dois barracões pré-fabricados completaram aquele arremedo de urbe aprisionada numa frágil cerca de arame farpado que, delimitando o perímetro, parecia querer conferir segurança ao local.
A população, essa, acossada pela guerra que lhes alterou o modo de vida e correspondentes rotinas, foi-se juntando do outro lado da cerca, acoitando-se à sombra de uma segurança de proximidade e, em simultâneo, beneficiando das comodidades inerentes à vizinhança da tropa. Formou-se assim um kimbo que foi crescendo com o tempo e atraindo novos habitantes, congregando no mesmo meio gente de etnias diferentes.
Quando chegámos àquele bocado semidesértico das terras do fim do mundo, a população da Neriquinha era mais ou menos estável e tinha estrutura idêntica à de qualquer aglomerado populacional da zona, ficando demonstrado que os costumes e modus vivendi eram os mesmos. E isso via-se em tudo: na construção das suas habitações e materiais que usavam, nos hábitos alimentares, nos temores e superstições, na forma como se organizavam e socializavam, nas hierarquias tribais típicas de uma sociedade agrária iminentemente paternalista (talvez devesse dizer machista) e ainda nos direitos, nos deveres e demais normas não escritas que regiam as suas condutas, o seu quotidiano e o resto.
 Enfim, uma sociedade regulada segundo cânones ancestrais cujos ditames, gravados na cabeça dos velhos, deixavam transparecer uma sociedade bem mais complexa e organizada do que aquela que uma análise superficial permitia revelar. A autoridade civil máxima descansava nos ombros do Soba, secundado pelos Sékulos, não obstante a autoridade real, fosse qual fosse a coisa a regular, pertencesse ao comandante da companhia ali aquartelada.
A população do Cuando Cubango era constituída por uns quantos grupos étnicos. Não sei bem quantos, mas eram mais do que se podia esperar poderem existir numa das maiores mas seguramente menos populosas províncias angolanas. Os Ganguelas integravam o maior dos grupos. Na verdade a ideia que se tinha é de que, excluindo os Bosquimanos com traços fisionómicos claramente identificáveis e os Camachi, de tez menos carregada, todos os demais seriam Ganguelas. Mas não era assim. Lembro-me dos Lutchaze e, em menor número, dos Bundas, dos Luvale e dos Luimbi entre outros que não recordo. O facto é que cada grupo falava o seu próprio dialecto, embora tenha a ideia de que o Ganguela seria o dialecto falado senão por todos, pelo menos pela maioria.
Isto significa que, entender aquela gente, implicava ser-se poliglota em dialectos das terras do fim do mundo e isso era impossível. E como muitos deles pouco falavam o português a comunicação tornava-se complicada.
O Lupale distinguia-se dos demais porque, para além de falar fluentemente o português, dominava ainda uns quantos dialectos. E isso, conjugado com as habilidades de um autêntico relações públicas, tornava-o num homem importante. E insinuante, acrescente-se. Na verdade, o Lupale era simpático, popular e desenvolto.
Para já, falar fluentemente o português e conseguir fazer a retroversão para a linguagem daqueles gentes não era coisa pouca, nem de somenos importância. Por ali, apenas alguns GE’s, uns tantos mais expeditos e os putos que cresceram ao lado da tropa, eram capazes de se expressar de forma a se fazerem entender
Do nosso lado, só ao fim de muito tempo se começou a decorar uma meia dúzia de termos do estranho linguajar daquelas gentes mas compreensivelmente insuficientes para estabelecer uma conversação por mais minimalista que fosse. Ainda me lembro que, durante muito tempo, tinha como certo que o puto que me lavava a roupa dava pelo nome de João Muhala Cassumbi. Só muito tempo depois é que me apercebi que o João apenas se chamava assim: João. Os epítetos Muhala e Cassumbi não eram senão uma brincadeira do seu amigo Manjolo, o outro garoto que com ele repartia a lavagem da roupa na camarata dos sargentos. Os dois nomes, que julgara serem sobrenome ou apelido, apenas significavam qualquer coisa como galinha que esgaravata no chão, uma espécie de provocação inofensiva, sem maldade ou azedume, de um garoto para outro.
O facto é que, quando ali chegámos, o Lupale apareceu-nos como o intérprete oficial, uma espécie de ministro dos negócios estrangeiros do kimbo. A importância do seu papel no seio daquela comunidade era um facto. E isso ficou bem claro exactamente quando uma delegação do estado-maior do kimbo, capitaneada pelo Soba e secundada pelos Sékulos, veio apresentar as boas vindas ao capitão. A solenidade que conferiram ao acto era bem patente na indumentária de gala com que se apresentaram e na imprescindível intermediação do Lupale que, sacando da sua erudição, fez jus à sua indiscutível competência de intérprete, transmitindo as boas vindas ao comandante recém-chegado e aproveitando ainda o ensejo para fazer umas quantas petições e uma ou duas queixas, verbalizadas como correspondendo à tradução literal dos indecifráveis monossílabos tartamudeados por aqueles altos representantes da população local, escassos vocábulos que o Lupale transformava num discurso coerente e bem elaborado, deixando no ar a dúvida se seria uma fiel tradução ou antes o pensar livre do intérprete que acrescentava, por sua conta e risco, uns quantos pontos ao discurso.
Não há dúvida, o Lupale tinha veia de político e demonstrava-o a todo o momento na forma como se comportava ou como se relacionava connosco, quer estejamos a falar do simples soldado, de um oficial ou das altas patentes. E isso viu-se pouco tempo depois quando, no Natal de 1971 o Governador de Serpa Pinto resolveu fazer uma visita de cortesia àquele remoto local da província que governava. Estando presentes, por obrigação formal, o Soba e seus Sékulos e atendendo a que não falavam a língua de Camões, mais uma vez o Lupale teve oportunidade de brilhar, desempenhando com redobrada competência o seu papel de intérprete, mais para transmitir o que dizia o Soba e menos ou quase nunca para lhe devolver a resposta. É…, cada vez mais me convenço que o Lupale traduzia mais o que lhe ia cabeça e menos o que diziam os regedores do kimbo.
Finalmente, não posso deixar passar em claro a fleuma deste homem profusamente demonstrada na estória que o Pedro Cabrita contou aqui, neste mesmo blog, cuja leitura recomendo vivamente e da qual me atrevo a reproduzir uma singela passagem. Relembro apenas que o Capitão foi instado, passe o exagero do termo, a participar numa espécie de tribunal tribal que se reunira para dirimir um litígio de natureza familiar ou seja, uma espécie de julgamento onde um colectivo sui generis deveria apreciar e decidir, aplicando as normas de um direito consuetudinário plasmado em códigos sem existência física.
Naquele tribunal, que de informal tinha pouco, mais uma vez o indefectível Lupale ali estava para servir de intérprete; o Capitão não entendia patavina daquele dialecto e do outro lado, ninguém se expressava em português.  Bem se esforçava, o nosso comandante, para tentar perceber, não só o que se discutia mas também qual o entendimento de cada um dos juízes sobre os factos em confronto. Em determinado momento e a meio de um mais alongado discurso de um deles, o capitão, procurando perceber o que ia sendo dito, perguntou num sussurro ao ouvido do Lupale.
- O que é que ele está a dizer?
A resposta foi absolutamente desconcertante.
- Por enquanto ainda não disse nada, só está a falar.
É isso, se calhar, para além de diplomata e político encapotado, o Lupale era também um filósofo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

O 1º dos 565 dias das guerras de N'riquinha

Levanto-me cedo, após a luz viva e intensa do sol me ter visitado bem de madrugada. Percorro aquele caminho de sessenta metros de tabuinhas de praia que liga o meu quarto à messe. Um percurso que farei mais cerca de 2220 vezes, ao longo de um porvir de dias distantes que ainda nem imaginava ter de permanecer ali.
A bandeira, meio gasta pelas inclemências do sol, já se agita no cimo do mastro desde as oito horas da manhã, como sempre acontecerá enquanto a nossa soberania ainda ali reinar. É manhã. Mas a boca já se me seca porque não há vestígios de humidade no ar e o sol queima abrasador e luminoso. A sede em África é uma constante. De manhã, à tarde ou à noite.
Entro na messe de oficiais, contígua à de sargentos, uma divisão com cerca de três metros por cinco, que tem pouco mais que uma mesa rectangular e seis cadeiras. Ao fundo uma janela forrada com rede mosquiteira, que ficará sempre aberta deixando passar a brisa possível que amenize o ar quente reflectido das telhas de zinco do telhado. A um canto um pequeno frigorífico a petróleo que haveria de arvorar-se num oásis redentor de mil tormentos de sedes insaciáveis.
A porta de entrada é também ladeada por duas aberturas em forma de janelas que deixam passar a luz da rua e nos alargam a vista para a parada. Uma toalha meio encardida cobre a mesa onde se encontram alguns pães, manteiga e marmelada. Há quatro chávenas grandes de vidro viradas ao contrário, sinal de que fui o primeiro a chegar. No ar uma pequena nuvem de moscas entrechocam-se esvoaçando em círculos, aguardando a oportunidade de aterrarem na primeira carcaça que se libertar do pano que as cobre, ou sugar os restos de marmelada da faca inox de gume rombo já vencido pela guerra, que se obstina em manter-se ao serviço da pátria, até que alguém se decida ordenar ao nosso Sargento que a abata à carga, amortalhando-a num quadruplicado modelo próprio de 1945, dando-lhe por fim o merecido descanso.
Troco uma proposta de mistura de uma mistela preta (que com benevolência apelidávamos de café) com uma outra de cor branca (muito próxima do que habitualmente chamávamos de leite) por um refrigerante de maçã (Carbo Cidral) que acompanho com um pão com manteiga. Naqueles primeiros dias, consigo ainda vencer o desejo impertinente de romper a manhã com uma cerveja gelada, sofregamente tragada pela boca da garrafa, arrefecendo-me as entranhas durante uns trinta minutos de prazer efémero, acompanhados pelos protestos do meu pobre fígado, incapaz de lutar mais contra tantos inimigos quanto outros tantos escondidos nas matas.

Sou informado pelo ordenança que se encontra à porta da messe uma delegação do kimbo que me vem apresentar cumprimentos. Fico surpreendido pelo inesperado da situação. Não sei porquê, mas achei que era capaz de haver ali lugar a alguma solenidade, não obstante o quadro de pobreza daquela gente e o esquecimento a que sempre estiveram votados antes e durante a guerra.
Um acto de elegância ou subserviência? De curiosidade, deferência ou medo? Dou comigo a abotoar instintivamente o penúltimo botão da camisa como se me preparasse para um acto solene que obrigasse a aprumo. Coloco a boina, que me completa o atavio provisório até que cheguem o resto das malas que ficaram em Luanda, e saio ao encontro da comitiva anunciada. Deferentemente afastados da porta da entrada um grupo de sete ou oito anciãos dispõem-se ordenados em duas ou três filas atrás do primeiro que veste uma calça e um casaco, que, com esforço, adivinhamos terem tido outrora uma cor branca. O branco tinha agora dado lugar a um amontoado de nódoas de todos os tipos e feitios, algumas delas decididamente já parte integrante e definitiva do tecido, daquilo que percebi de imediato ser uma farda pela forma com se distinguia dos outros. O amarrotado do tecido é o mesmo que o da pele do ancião que se enruga em sulcos profundos denunciando longas guerras de silêncios sem registo na história. Alguns botões que restam estão pendurados por linhas puídas e meio desfiadas. Uma espécie de sobreviventes de um naufrágio tempestuoso, mas mantidos no seu lugar com o empenhamento sofrido de quem se obstina em preservá-los, como prova da sua fidelidade ao compromisso ancestral firmado com o reino, que lhe devassou o sossego e a harmonia com a terra. O colarinho justo e sem gola deixa transparecer ainda restos de um passado de altivez, que se aliava à sua inequívoca alvura primitiva, combinando com o contraste da pele queimada por séculos de sol e submissão.
Rapidamente me apercebo estar na presença do soba.
Os restantes são secúlos, uma hierarquia tribal mantida até aos nossos dias. Vestem restos de roupas esfarrapadas quase todas de cunho militar. Algumas, só com algum esforço dão para perceber ainda a sua origem. Alguns vêm descalços. Um deles procura mascarar a dignidade perdida, trazendo enfiados nos dedos dos pés uns xanatos de praia meio destruídos e com cor omissa. Um outro calça botas da tropa que o distante tempo de uso e maus-tratos avantajou para um 45 largo, albergando agora um pé que a fome minguou para um 35 estreito, que ameaça soltar-se a todo o momento em cada passo desajeitado e quase andrajoso que dá, arrastando-as na areia quente em passos bem cuidados para que não caiam e se não percam pelo caminho. Os atacadores de cabedal, outrora reluzentes de graxa e aprumo, foram substituídos por cordão feito de casca de arbusto, na ausência de artefactos mais apropriados que mantivessem digna a postura militar de outros tempos e outros usos.
Fitam-me com um sorriso pálido. O soba acena-me com uma espécie de gesto suave de continência de mão meio aberta que eleva até à têmpora direita, enquanto solta algo que confundo com um gemido. Os outros seguem-no numa sequência de aceno semelhante que se fica pelo meio gesto. Uma certa forma de imitação inacabada que sugere cansaço. Cansaço da vida, da guerra e da tropa, que era agora nova e de esperanças renovadas.
Trazem um cicerone. O Lupale, claro…
Não falam português. Balbuciam palavras dispersas que acompanham com gestos de afirmação da cabeça.
O Lupale faz as apresentações. Tem que falar alto para que o soba o possa entender considerando a sua avançada idade e a surdez que já o atinge, deitando um pouco por terra a teoria do ruído da civilização como causa essencial para a mouquice que a todos nos vem molestando nos dias que correm.
A lição já vinha estudada. Das poucas palavras no dialecto que o soba balbucia, o Lupale traduz num discurso político completo. Uma espécie de protocolo de estado daqueles que já estão tipificados e são sempre iguais. Vêm apresentar cumprimentos ao novo capitão, aproveitando a oportunidade para transmitir as dificuldades da população. Basicamente a fome (zála).
Cumprimento-os um por um e tento fixar o nome de cada um deles, que o Lupale vai pronunciando repetidamente adivinhando a minha dificuldade em os fixar. Sinto que me olham como uma nova esperança caída do céu, embora sem que dela esperem grande coisa. Dobram-se à frente em cada cumprimento. O aperto de mão tem contornos de súplica ou submissão. Agarram o próprio antebraço da mão que me estendem, como se me quisessem significar que ma entregavam como preito de vassalagem, subserviência ou medo.
Vem-me repentinamente à memória os tempos dos primórdios da colonização. As coisas não devem ter sido muito diferentes daqueles gestos, daquela relação vencedor/vencido.
Faço um elogio honesto à farda do soba e agradeço o facto de a envergar especialmente para me visitar, facto que me foi adiantado pelo Lupale. Jamais voltaria a vê-lo fardado, a não ser em mais uma ou duas ocasiões especiais. Mantenho uma conversa de circunstância e procuro saber um pouco mais sobre os problemas da população. Ficam-me dúvidas quanto à correcção da tradução efectuada, quer para um, quer para o outro lado. Noto que as minhas palavras de conforto e esperança não convencem os meus interlocutores. Compreendo que não lhes prometo nada que outros o não tenham já feito, muito provavelmente sem que o tenham cumprido. Prometo ir visitar o kimbo e inteirar-me dos problemas que preocupam o soba, nomeadamente a zála cujo termo eu já conhecia desde o primeiro dia.
Dou por terminado o encontro mas percebo nos gestos que não ouviram o que queriam. Parece claro que haviam preparado um conjunto de questões no sentido de as exporem e levarem resultados de volta. Fico a observar o regresso ao kimbo. Caminham lentamente como quem quer voltar para trás para repetir as preocupações e obter outras respostas. Apercebo-me de uma troca de palavras mais acaloradas entre o Lupale e o soba, sinal evidente de que há censura e desacordo quanto à forma como os assuntos tinham sido abordados. Perco-os de vista a passarem a portada do aldeamento. Caminham arrastados, olhos no chão e braços pendendo ao longo do corpo, ou a mão direita coçando uma comichão eterna que não existe no antebraço do outro lado, uma espécie de sarna que não se vê mas lhes fustiga o ser, suportado num estômago dorido e vazio de pirão e de fé. Como teria sido diferente aquele regresso, caso o sentido das palavras tivesse conduzido a outra fé e outras certezas, pelas quais esperavam e desesperavam havia décadas. Como teriam ficado felizes se lhes pudesse ter dito que a guerra ia acabar, que era tudo o que queriam e mais desejavam para voltarem a ser felizes no seu mundo livre feito de séculos de liberdade.

Pedro Cabrita (In-Capitães do Vento)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O Julgamento


Kimbo de N´riquinha (1973)
Julgamento por incumprimento das regras do alambamento…

Tens uns probrema grande nos Kimbo, meu captão. Uns maka por causa duns mulher que fugiu. Popração quer que captão venha nos kimbo p’ra resolver!”

É o Lupale, figura proeminente do aldeamento, que me fala, acompanhado de um ou dois secúlos, em mais uma manhã soalheira à saída do meu pequeno-almoço na messe. Era normalmente aí que me esperavam para me colocarem as questões que os atormentavam. Jamais me interrompiam no que quer que fosse. Esperavam pacientemente que eu saísse da messe, ou do gabinete, e então abordavam-me.
Procurei inteirar-me melhor da situação. O problema era bem mais complexo do que eu imaginara. Depois de ter angariado a admiração e a confiança da população, por via do enorme conforto que a Companhia lhes havia proporcionado no apoio às lavras, triplicando as áreas de sementeira, passei a ser consultado para tudo o que se constituísse "probrema" no Kimbo.

O tribunal para a resolução de questões sociais reunia à noite na rua em pleno centro do aldeamento, embora, felizmente, com sessões pouco frequentes. Em todo o tempo que lá permanecemos aquela terá sido a única sessão de que tivemos conhecimento. Uma espécie de fórum ao ar livre onde se sentavam em círculo as forças vivas do aldeamento presididas pelo soba, que, no caso, atendendo à sua avançada idade, tinha apenas uma função honorífica que todos respeitavam. Quem quisesse podia assistir mas não podia emitir opinião. Para lá dos membros daquele juízo, formado pelos secúlos e alguns velhos, apenas intervinham os implicados e seus familiares.

Era já noite cerrada quando me foram chamar à messe, conforme ficara combinado. À minha chegada fez-se um enorme silêncio, como se tivesse chegado o cacique-mor da região, ou um venerando chefe religioso cuja figura impusesse a maior deferência e veneração. (O poder da “razão” das armas sempre impôs respeito e medo e não seria ali que tal não iria acontecer)

O soba levantou-se para me dar o seu lugar, que naturalmente recusei. Sentei-me ao seu lado postando-me propositadamente um pouco atrás, como faria um observador convidado para assistir a um evento em país estrangeiro. Pareceu-me sensato que a minha presença deveria quedar-se pela circunstância de um simples observador, até porque havia todo o interesse e curiosidade da minha parte em verificar como funcionava aquela forma de tribunal.
Depois de me acomodar, continuou aquele silêncio inicial que logo percebi ter a ver com a minha presença. Compreendi que esperavam que eu tomasse qualquer iniciativa, ou indicasse qualquer novo rumo diferente daquele a que estavam habituados numa herança que tinha séculos. Era afinal lógico. Senão não me tinham convidado.
Fiquei um pouco embaraçado porque não era essa a minha intenção. Ao mesmo tempo senti que, provavelmente, ia decepcioná-los nas expectativas que lhes terei criado ao aceitar o convite que me fizeram.

Disse-lhes que vinha mais para ouvir e que se achasse que tinha alguma coisa para dizer que o faria. Os trabalhos deveriam decorrer como se eu ali não estivesse. Tudo deveria acontecer como sempre tinha acontecido.
As minhas palavras foram então traduzidas pelo Lupale, porque a maioria, sendo idosos, não dominava o português. Sucederam-se alguns murmúrios, cujo teor também não entendi porque de igual modo não foram em português. Mas foi possível perceber alguma frustração que notei com maior clareza no lado dos familiares da ré em questão, por certo pouco esperançados no sentido da justiça que os esperava. No fundo, uma pena com centenas de anos de aplicação em casos semelhantes.
- "O soba diz que sim. Tá bem mé captão." É o Lupale que me informa.
O julgamento tem então início. O Lupale fica junto de mim e funciona como meu cicerone, mas também membro activo naquele plenário. E como se de um momento para o outro se tivesse carregado num botão, desataram todos a falar ao mesmo tempo, que me parecia até impossível que se entendessem naquilo que diziam. Uma tremenda de uma confusão. O Lupale alternava a tradução que me fazia daquilo que se ia dizendo, falando em voz baixa para mim, para logo de seguida acompanhar o tom de confusão geral altercando-se com um dos muitos interlocutores que no lado oposto ao seu teria dito algo com o qual ele estaria em desacordo.

De que constava então aquela demanda. Como já foi referido, no processo de casamento havia lugar ao "alambamento", constituído por uma série de valores que eram entregues aos pais da noiva. Mas chamemos, então, as coisas pelos nomes. A noiva era comprada aos pais mediante a entrega de um determinado valor em géneros e utensílios agrícolas ou domésticos, o qual era discutido como um qualquer negócio. No caso, era o que tinha acontecido. O "alambamento" fora pago e o casamento teve lugar com a pompa tradicional. No dia da boda a noiva era untada com um produto oleoso misturado com uma substância avermelhada e enfeitada com milhares de missangas por todo o corpo, com especial relevo para o cabelo, que era trabalhado de uma forma artística brilhante, onde era difícil distinguir os produtos utilizados, por vezes estranhos e de aspecto muito pouco apelativo. Pelo menos para estranhos como nós. A noiva ficava depois exposta durante todo o dia ao aldeamento, sentada de joelhos à porta da sua cubata. O noivo não se aproximava da noiva. Era a regra. O aspecto desta também era pouco convidativo. Talvez agradável à vista mas muito pouco atraente ao tacto e olfacto…

Mas ocorrera uma outra circunstância muito pouco usual. Festejado o casamento, bastaram alguns meses para que a mulher concluísse que tinha, afinal, feito um “mau negócio”. E se se pensa que estas coisas só acontecem em sociedades civilizadas, puro engano.
Consumada a ideia de incompatibilidade, considerando o estatuto vigente de um mero objecto em que lhe estava praticamente coarctada a faculdade de pensar e contestar, a ré, ali ausente, tratou de namoriscar um jovem que passava numa coluna de viaturas e fugiu com ele para Serpa Pinto. A distância a que se situava este novo local eleito para um recomeço de vida, não foi escolhida ao acaso. Cerca de seiscentos quilómetros era suficientemente dissuasor para que o marido espoliado pusesse de parte quaisquer intuitos de recuperação do que lhe pertencia. "Espoliado" e "pertencia" são aqui os termos mais adequados à forma como aquelas coisas eram tidas por ali. Uma mulher de armas era o que me parecia ser esta ré ausente, que nunca cheguei a conhecer.

Naqueles tempos uma atitude destas era mais que corajosa e pouco comum. Na anormalidade da situação tudo parecia poder-se considerar normal. O casamento não deu, cada um vai à sua vida procurando reconstrui-la o melhor que puder e souber.
Só que ali funcionavam regras ancestrais e esse era o busílis da questão. Neste tipo de situação o "alambamento" tinha que ser devolvido, ou a mulher tinha que regressar ao seio do lar.
O regresso apresentava-se praticamente impossível e o grande imbróglio era que os familiares da ré já tinham dado fim aos valores do "alambamento", não havendo nada para devolver, nem outros bens de substituição. Coisas comuns que nos acontecem a todos quando a vida nos prega algumas partidas e lá se vão os anéis ficando os dedos.
Mas as regras não terminavam aqui.
Neste caso, considerando que não havia mulher para regressar a casa, nem "alambamento" para devolver, eram mesmo os dedos que serviam de moeda de troca. Dizia o ordenamento de penas que, no caso, a família teria que levar uma carga de pancada para suprir a falta de bens para devolução. Nem mais.
Não resisti a um sorriso interior que, com algum esforço, não permiti que me aflorasse ao rosto. A discussão divagava em torno destes parâmetros. Os familiares da ré debatiam-se entre a perspectiva de falta de meios económicos para satisfazer aquela dívida e o pouco desejo de levar uma sova. Os argumentos flutuavam entre a convicção (pouco convicta) de que a mulher haveria de regressar mais dia, menos dia, e outra, tão menos convicta quanto aquela, de que não achavam justo apanhar por uma coisa que não estava na sua mão resolver. Esta última porque sabiam que as regras, não obstante, eram assim havia séculos.

Como é costume nestas circunstâncias, qualquer que seja o ponto do planeta em que ocorra, o debate entrou numa maré repetitiva de argumentos sem que se vislumbrasse outra saída que não fosse a prevista naquele código natural das coisas, tal como sempre acontecera até então.
Nessa altura achei que era o momento de intervir. Naturalmente advoguei a defesa dos familiares da ré. Sempre com o Lupale a traduzir aquilo que eu dizia, lá fui argumentando que os familiares não podiam ser responsabilizados pelos actos da mulher, uma vez que esta era adulta (frisando bem ao Lupale que eu disse adulta e não adúltera...) sendo ela a única responsável pelos seus actos.
Lá fui desfiando uma ladainha enorme de argumentos com alguns exemplos práticos, sentindo, no entanto, que o meu discurso era capaz de me soar bonito a mim, mas não colhia lá grandes frutos na assembleia. As cabeças meneavam que sim mas era apenas um sim de entendimento daquilo que eu dizia. Lá por dentro eu vislumbrava um rotundo não, quanto ao convencimento que obtinha no seu íntimo.
Sorriam os familiares da ré abanando convictamente a cabeça, resmungavam os do marido enganado. A divisão de opiniões continuava claramente desfavorável aos primeiros. Voltei à carga mais uma ou duas vezes porque me apercebia que não conseguia lá grande coisa com todo aquele palavreado. Os resultados não melhoravam.

A lua estava a pino. Era de um brilhante prata como só em África acontece. O ambiente nocturno, sem qualquer foco de luz artificial nas proximidades, contribuía para aquela luminosidade resplandecente. Enquanto rebuscava mais uns quantos argumentos para deitar cá para fora e fazer de minha a justiça que queria ver feita, dei por mim de olhos presos na lua.
Vislumbrei-lhe um sorriso trocista, uma ironia indisfarçável que zombava de mim. Aquele ar irónico clarificou-me por fim o espírito e teve o condão de me assentar os pés no chão, naquela areia fina, suja e ainda quente àquela hora da noite. Recostei-me melhor na cadeira sem desprender o olhar. Sorri também. Compreendi por fim o disparate em que me tinha postado ao procurar que fosse o meu entendimento de justiça que deveria vingar ali. O princípio colonial de converter os gentios à nossa semelhança continuava comigo, quase quinhentos anos depois da chegada àquelas paragens dos súbditos de suas majestades os reis lusitanos, ávidos de conquistas de bens, território e escravos que fortalecessem um reino pequenino e distante, a quem deixaram o mar como única porta de saída, constatados os desentendimentos constantes com a vizinhança castelhana.

Quase à beira do ano dois mil, eu continuava a laborar no erro ancestral de procurar apagar séculos de história vincados nos hábitos e na vontade de ser assim e não de outra maneira. Por momentos deixei-me ficar de olhar pendurado na lua, enquanto um silêncio de sepulcro se ia instalando em meu redor, sem que eu tivesse dado por isso. A assembleia ficara suspensa das minhas palavras e aguardava que lhes trouxesse algo de mais palpável do que aquilo que lhes trouxera até ali.

Veio-me à memória uma outra ocorrência da guerra de África, suponho que em Moçambique, quando um senhor General se deslocou a um local longínquo para falar às populações. Falava o senhor General para um grupo numeroso de populares num aldeamento distante, havia já bastante tempo.
Falava-lhes da importância de se ser português, de ficar com a tropa e não com os turras, de trabalhar muito para não ter fome, e por aí fora. A população escutava com atenção. Como é sabido nem todos dominavam o português, o que ao fim de quinhentos anos de ocupação é obra e revelador da preocupação que tivemos em aportuguesar aquela província ultramarina.
Em determinada altura, um dos populares, que não conseguia ainda o domínio bastante da língua de Camões, perguntou ao companheiro que se encontrava ao lado, este mais esclarecido no vocabulário latino.
- O que é que ele está a dizer? Resposta pronta.
- Por enquanto ainda não disse nada! Só está a falar...

Levantei-me e disse num português mais ou menos adaptado àquele em que os ouvia todos os dias
- "Capitão não vai dar mais opinião. A justiça do Puto ser justiça diferente. Vocês ter que fazer a vossa justiça. Se ela foi boa até aqui tem que continuar a ser igual. Quando um dia acharem que ela está errada, então nesse dia mudam para outra melhor".

Como diria o poeta… “e um grande silêncio fez-se…”depois do Lupale ter traduzido aquilo que eu tinha dito. Aquele meu português meio arrevesado mesmo assim só chegava a uns quantos, os mais jovens.
Uma voz aqui outra ali, foram-se começando a ouvir murmúrios que pedi ao Lupale para me ir traduzindo. Eram vozes de lamento e desilusão. Alguns invectivavam-se mutuamente por terem “cháteado” o Capitão e agora ele ia-se embora e ficavam na mesma.
Quem mais ajudava àquela “missa” eram naturalmente os familiares da ré.
Lá procurei fazê-los compreender que não estava aborrecido com nada nem ninguém. Estava até bastante satisfeito por eles teimarem em fazer a justiça que os tinha orientado durante tantos anos. Boa ou má era a justiça que tinham e era assim que deveria ser aplicada.
Cumprimentado o soba, despedi-me de todos eles, solicitando que continuassem o julgamento e, já agora, a que me comunicassem a conclusão a que iriam chegar.
Regressei ao meu quarto ainda na maior censura daquela minha atitude de ter admitido intrometer-me na forma de vida daquele povo, especialmente a que respeitava a hábitos ancestrais que funcionam como traços de cultura inalienáveis que os vinham orientando havia séculos.

No dia seguinte, o Lupale compareceu bem cedo à porta do meu gabinete.
Já havia uma boa hora ou mesmo duas que espreitava a minha chegada, para depois aparecer tímido, silencioso e indeciso, dando-me um tempo calculado de acomodação aos meus afazeres mais prementes. O ordenança anunciou-me a sua visita.
De mãozinha fechada e dobrada pelo pulso, agarrada pela outra à altura do peito, curva-se em duas ou três vénias habituais de cumprimento e subserviência. Cumprimento-o segurando-lhe a mão dobrada pelo pulso que aponta para o chão, enquanto a outra fica ainda fechada e recolhida no peito. Quase não mexe os dedos com receio de me causar algum dano na minha mão branca de senhor, espécie de divindade edificada pelo poder das armas. Vinha anunciar-me a decisão do concílio da noite anterior. Não tinham chegado a uma decisão definitiva. Mas tudo apontava para seguirem a ideia que eu tinha deixado.
Alguns tinham-se vergado à douta sabedoria do "captão", fazendo inclinar a decisão para o lado contrário da sua história, da sua cultura, em suma, da sua secular sapiência e modo de vida que num ápice desbaratei, sempre a bem de qualquer coisa... jamais a bem da Nação…

Normalmente ficamos contentes quando as nossas ideias são aceites pelos outros. É um sinal de elevação e consideração. Naquele caso, não foi bem isso que eu senti. Que raio de ideia a minha. Mas era tarde. Restava-me apenas a consolação de se ter evitado uma sova inútil em inocentes que eram apenas vítimas da paragem do tempo que se tinha abatido sobre eles naquele local. Ou, sei lá. Quem sabe se não seriam eles que tinham razão com aquela forma de fazer justiça. Sinceramente, hoje já não sei. É que por vezes fico com a sensação que uma boa sacudidela de pelo é capaz de fazer melhor justiça que aquela que vamos tendo…

(Adaptação do livro “Capitães do Vento”)

Pedro C.