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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

LUPALE - O intérprete

A população da Neriquinha não era diferente da de qualquer outro dos kimbos das redondezas. Contudo, se atentarmos bem à sua composição e razões que levaram à formação, naquele local, de um aglomerado populacional, identificam-se características muito particulares. Não obstante as semelhanças, insisto na ideia de que a Neriquinha era, em muitos aspectos, diferente dos demais.
Com efeito, a dezena de kimbos então existentes naquela vasta área que vai de Mavinga ao Chipundo representava aglomerados populacionais que ali se fixaram pelas diversas razões que levam o ser humano a sedentarizar-se criando raízes naqueles exactos locais e não noutros. Era ali que encontravam tudo o que precisavam e, por razões que a antropologia melhor saberá explicar, era também onde se sentiam bem.
Mas o aglomerado populacional da Neriquinha e apenas este, era subtilmente diferente. Aquele lugar não era sítio que atraísse população. E quando penso nisso, mais uma vez sou levado a concluir que fomos obrigados a viver dezoito meses num local tão inóspito que nem a população autóctone encontrava razões naturais para ali se fixar, a não ser que, pelas circunstâncias, a isso se visse obrigada.
É verdade, o kimbo da Neriquinha nasceu e cresceu em consequência da guerra. Razões ditadas pela estratégia militar determinarem ser aquele o local adequado para a implantação das instalações militares: primeiro um pequeno aglomerado de tendas de lona, material que, ao longo do tempo, foi sendo progressivamente substituído por paredes de tijolo e cobertura  de chapas de zinco. Dois barracões pré-fabricados completaram aquele arremedo de urbe aprisionada numa frágil cerca de arame farpado que, delimitando o perímetro, parecia querer conferir segurança ao local.
A população, essa, acossada pela guerra que lhes alterou o modo de vida e correspondentes rotinas, foi-se juntando do outro lado da cerca, acoitando-se à sombra de uma segurança de proximidade e, em simultâneo, beneficiando das comodidades inerentes à vizinhança da tropa. Formou-se assim um kimbo que foi crescendo com o tempo e atraindo novos habitantes, congregando no mesmo meio gente de etnias diferentes.
Quando chegámos àquele bocado semidesértico das terras do fim do mundo, a população da Neriquinha era mais ou menos estável e tinha estrutura idêntica à de qualquer aglomerado populacional da zona, ficando demonstrado que os costumes e modus vivendi eram os mesmos. E isso via-se em tudo: na construção das suas habitações e materiais que usavam, nos hábitos alimentares, nos temores e superstições, na forma como se organizavam e socializavam, nas hierarquias tribais típicas de uma sociedade agrária iminentemente paternalista (talvez devesse dizer machista) e ainda nos direitos, nos deveres e demais normas não escritas que regiam as suas condutas, o seu quotidiano e o resto.
 Enfim, uma sociedade regulada segundo cânones ancestrais cujos ditames, gravados na cabeça dos velhos, deixavam transparecer uma sociedade bem mais complexa e organizada do que aquela que uma análise superficial permitia revelar. A autoridade civil máxima descansava nos ombros do Soba, secundado pelos Sékulos, não obstante a autoridade real, fosse qual fosse a coisa a regular, pertencesse ao comandante da companhia ali aquartelada.
A população do Cuando Cubango era constituída por uns quantos grupos étnicos. Não sei bem quantos, mas eram mais do que se podia esperar poderem existir numa das maiores mas seguramente menos populosas províncias angolanas. Os Ganguelas integravam o maior dos grupos. Na verdade a ideia que se tinha é de que, excluindo os Bosquimanos com traços fisionómicos claramente identificáveis e os Camachi, de tez menos carregada, todos os demais seriam Ganguelas. Mas não era assim. Lembro-me dos Lutchaze e, em menor número, dos Bundas, dos Luvale e dos Luimbi entre outros que não recordo. O facto é que cada grupo falava o seu próprio dialecto, embora tenha a ideia de que o Ganguela seria o dialecto falado senão por todos, pelo menos pela maioria.
Isto significa que, entender aquela gente, implicava ser-se poliglota em dialectos das terras do fim do mundo e isso era impossível. E como muitos deles pouco falavam o português a comunicação tornava-se complicada.
O Lupale distinguia-se dos demais porque, para além de falar fluentemente o português, dominava ainda uns quantos dialectos. E isso, conjugado com as habilidades de um autêntico relações públicas, tornava-o num homem importante. E insinuante, acrescente-se. Na verdade, o Lupale era simpático, popular e desenvolto.
Para já, falar fluentemente o português e conseguir fazer a retroversão para a linguagem daqueles gentes não era coisa pouca, nem de somenos importância. Por ali, apenas alguns GE’s, uns tantos mais expeditos e os putos que cresceram ao lado da tropa, eram capazes de se expressar de forma a se fazerem entender
Do nosso lado, só ao fim de muito tempo se começou a decorar uma meia dúzia de termos do estranho linguajar daquelas gentes mas compreensivelmente insuficientes para estabelecer uma conversação por mais minimalista que fosse. Ainda me lembro que, durante muito tempo, tinha como certo que o puto que me lavava a roupa dava pelo nome de João Muhala Cassumbi. Só muito tempo depois é que me apercebi que o João apenas se chamava assim: João. Os epítetos Muhala e Cassumbi não eram senão uma brincadeira do seu amigo Manjolo, o outro garoto que com ele repartia a lavagem da roupa na camarata dos sargentos. Os dois nomes, que julgara serem sobrenome ou apelido, apenas significavam qualquer coisa como galinha que esgaravata no chão, uma espécie de provocação inofensiva, sem maldade ou azedume, de um garoto para outro.
O facto é que, quando ali chegámos, o Lupale apareceu-nos como o intérprete oficial, uma espécie de ministro dos negócios estrangeiros do kimbo. A importância do seu papel no seio daquela comunidade era um facto. E isso ficou bem claro exactamente quando uma delegação do estado-maior do kimbo, capitaneada pelo Soba e secundada pelos Sékulos, veio apresentar as boas vindas ao capitão. A solenidade que conferiram ao acto era bem patente na indumentária de gala com que se apresentaram e na imprescindível intermediação do Lupale que, sacando da sua erudição, fez jus à sua indiscutível competência de intérprete, transmitindo as boas vindas ao comandante recém-chegado e aproveitando ainda o ensejo para fazer umas quantas petições e uma ou duas queixas, verbalizadas como correspondendo à tradução literal dos indecifráveis monossílabos tartamudeados por aqueles altos representantes da população local, escassos vocábulos que o Lupale transformava num discurso coerente e bem elaborado, deixando no ar a dúvida se seria uma fiel tradução ou antes o pensar livre do intérprete que acrescentava, por sua conta e risco, uns quantos pontos ao discurso.
Não há dúvida, o Lupale tinha veia de político e demonstrava-o a todo o momento na forma como se comportava ou como se relacionava connosco, quer estejamos a falar do simples soldado, de um oficial ou das altas patentes. E isso viu-se pouco tempo depois quando, no Natal de 1971 o Governador de Serpa Pinto resolveu fazer uma visita de cortesia àquele remoto local da província que governava. Estando presentes, por obrigação formal, o Soba e seus Sékulos e atendendo a que não falavam a língua de Camões, mais uma vez o Lupale teve oportunidade de brilhar, desempenhando com redobrada competência o seu papel de intérprete, mais para transmitir o que dizia o Soba e menos ou quase nunca para lhe devolver a resposta. É…, cada vez mais me convenço que o Lupale traduzia mais o que lhe ia cabeça e menos o que diziam os regedores do kimbo.
Finalmente, não posso deixar passar em claro a fleuma deste homem profusamente demonstrada na estória que o Pedro Cabrita contou aqui, neste mesmo blog, cuja leitura recomendo vivamente e da qual me atrevo a reproduzir uma singela passagem. Relembro apenas que o Capitão foi instado, passe o exagero do termo, a participar numa espécie de tribunal tribal que se reunira para dirimir um litígio de natureza familiar ou seja, uma espécie de julgamento onde um colectivo sui generis deveria apreciar e decidir, aplicando as normas de um direito consuetudinário plasmado em códigos sem existência física.
Naquele tribunal, que de informal tinha pouco, mais uma vez o indefectível Lupale ali estava para servir de intérprete; o Capitão não entendia patavina daquele dialecto e do outro lado, ninguém se expressava em português.  Bem se esforçava, o nosso comandante, para tentar perceber, não só o que se discutia mas também qual o entendimento de cada um dos juízes sobre os factos em confronto. Em determinado momento e a meio de um mais alongado discurso de um deles, o capitão, procurando perceber o que ia sendo dito, perguntou num sussurro ao ouvido do Lupale.
- O que é que ele está a dizer?
A resposta foi absolutamente desconcertante.
- Por enquanto ainda não disse nada, só está a falar.
É isso, se calhar, para além de diplomata e político encapotado, o Lupale era também um filósofo.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Carraças no Demba

A savana do Cuando Cubango é uma autêntica exibição da natureza selvagem. Por um lado, inóspita, hostil e traiçoeira e por outro, deslumbrante, luminosa e exuberante, abrindo-se em espaços imensos de uma beleza muito própria e difícil de descrever. Por ali não existem montes ou vales, a vegetação é escassa e pobre e as árvores, de pequeno porte e espaçadas, parecem encolher-se aos rigores de um clima dominado por um sol inclemente que nos fritava os miolos e trespassava sem dificuldade a timidez da folhagem miudinha que apenas conseguia coar, aqui e ali, a luz forte, semeando desordenadamente alguma sombra pelas imensas planícies da savana, sem qualquer efeito apaziguador no calor dominante.
Cumprindo, então, a segunda comissão de três meses no Rivungo, fui incumbido de executar uma pequena missão de patrulhamento que visava percorrer o troço de mata de pouco mais de dezena e meia de quilómetros, que começava nas margens do Cuando, a norte da missão de Santa Cruz, e acabava no Demba, último kimbo no trajecto que ligava a Neriquinha ao Rivungo.
Para o efeito, contava com meia dúzia de homens e, como guia, um sipaio dispensado pelo administrador Litenda, ajuda preciosa e necessária, já que a zona a percorrer não tinha trilhos ou outros pontos de referência que permitissem a utilização dos mapas do terreno. E isso tornou-se óbvio logo que saltámos do Unimog num ponto indeterminado da picada que traçava uma linha serpenteante a separar a orla da mata da extensa chana do Cuando. Para mim, o desenho irregular e recortado do pantanal que definia os domínios do rio, tornava impossível traçar uma perpendicular ao seu curso que nos colocasse no rumo certo. Olhando para o mapa do terreno, parecia fácil; o percurso estava ali claramente definido pela singela linha, traçada a lápis, a ligar o rio ao Demba.
Olhei em volta. Qualquer direcção que parecesse oposta à chana era um rumo possível. Mas qual delas? Era tudo a mesma coisa, a paisagem não ajudava nada e o contorno da chana que abraça o rio tornava impossível definir uma perpendicular. Do lado da mata, as coisas também não ajudavam; tudo em volta era monotonamente repetitivo e até as árvores pareciam cópias umas das outras.
Mas não para o sipaio. A forma decidida como apontou o caminho e avançou mata adentro, deixou-me a pensar. Nunca cheguei a perceber como se orientavam. Não obstante a total ausência de trilhos ou outra qualquer referência, avançava como se um caminho invisível lhe indicasse a direcção a seguir. Olhando em volta, ainda procurei encontrar o que quer que fosse que lhe pudesse estar a servir de orientação, mas nada. Apenas areia seca matizada aqui e ali por tufos de capim rasteiro amarelecido pelo cacimbo que se instalara havia meses. Não vislumbrei qualquer carreiro, pista ou pegada que permitisse aceitar que aquele era o percurso a seguir. Na verdade, ainda hoje estou convencido que, nos últimos meses, por ali não passara ninguém, nem sequer bicho. Não era época das chuvas, coisa que não nos visitava havia tempo. Ao menos, se tivesse chovido, poderia sempre pensar que teria apagado sinais de passagem. Mas não. Por aquela altura eu já conhecia bem a mata e já calcorreara muitos carreiros e itinerários arenosos da savana. Por onde passasse gente, havia sempre sinais evidentes disso, mesmo que, durante a noite, tivesse caído uma daquelas chuvas diluvianas habituais. Mas ali não. Quer o terreno quer a vegetação ressequida estavam absolutamente intocados, virgens. Não! Por ali não passara ninguém! Ali não era percurso de guerrilheiro, nas suas andanças a caminho das improvisadas bases no interior.
À nossa frente, o homem continuava, decidido, num passo vivo e cadenciado pelo meio do descampado em direcção a lugar nenhum, como se um ponto lá à frente lhe definisse um azimute. As extensas clareiras de areia esbranquiçada, pintada pelo amarelo ocre do capim seco, matizado aqui e ali de tufos verdes da folhagem perene de ervas estranhas, sucediam-se em desenhos irregulares entrecortadas de forma desordenada por grupos de árvores de pequeno porte e tronco escurecido pelo fumo das queimadas que ciclicamente assolavam a mata e depositavam, no solo, um pó escuro e fino que se levantava pelo arrastar penoso dos pés que teimavam em enterrar-se na areia fofa da savana, atrasando a marcha e duplicando o peso das botas.
Pouco mais de meia hora, sob as ferroadas de um sol impiedoso, foi o suficiente para esgotar toda a resistência do pequeno grupo que, em esforço, procurava acompanhar a passada do guia. Exaustos, com a garganta seca, quase impedindo a respiração ofegante, deixámo-nos cair à sombra quase inútil de um pequeno grupo de árvores, na tentativa vã de fugir ao calor.
Todo o percurso foi um martírio. O tempo de marcha foi ficando cada vez mais curto, enquanto se alongavam as paragens e se mitigava a sede com pequenos golos, cuidando de fazer durar o escasso litro de água transportado no cantil. Sabendo-se que não haveria água no percurso, racionava-se a que se trazia. O guia, esse, parecia olhar-nos de soslaio, como se não compreendesse a fraca resistência da tropa.
Foi com alívio quando, lá para o fim da tarde, se divisaram as palhotas do kimbo no outro lado da clareira que de repente se abriu à nossa frente, qual oásis no meio do deserto. O pequeno aldeamento do Demba, com cerca de uma vintena de palhotas toscamente construídas e espalhadas desordenadamente num recanto da chana formada por um braço do rio Uefo, albergava uma população que se dedicava ao cultivo de milho e criação de algum gado.
O posto da PSP, visível na periferia do kimbo e a poucos metros da picada, mais se parecendo com uma espécie de missão despojada, plantada na terra de ninguém, compunha instalações precárias que serviam de morada e local de trabalho a dois agentes e outros tantos auxiliares recrutados entre a população local, cuja missão compreendia a quase impossível tarefa de defesa daquela gente.
Fomos recebidos efusivamente pelos dois agentes. Conhecia-os muito bem e demonstravam sempre que a tropa era bem-vinda. A nossa chegada amenizava o isolamento, animava a conversa e trazia segurança ao local. Para já, na noite que se aproximava, seriam praticamente desnecessários os quartos de sentinela que, religiosamente, cumpriam noite após noite, numa estratégia rudimentar de segurança precária contra a eventualidade de um ataque inimigo, coisa que, verdade seja dita, não era costume acontecer. Ali só havia população e nada de estratégico que interessasse aos guerrilheiros combater. Um ataque trazia sempre insegurança às populações e isso não era conveniente. Sabia-se que dependiam deles para muita coisa e hostilizar quem diziam defender não era boa política. Mesmo assim, o Mugamba, o kimbo mais próximo que se seguia na linha da picada que levava à Neriquinha foi, um ano antes, atacado por um pequeno grupo de guerrilheiros, mantendo os PSP’s sitiados por mais de um par de horas, sob uma fuzilaria intensa.
No momento, aquela meia dúzia de tropas recém chegada, compunha um reforço bastante significativo na segurança. Era quase garantido que, naquela noite, não haveria problemas. As instalações da PSP não passavam de uma espécie de barracão, de pau a pique, barro e capim, só se diferenciando de qualquer das palhotas do kimbo pela sua maior dimensão. Como os demais postos, estava rodeada por uma espécie de paliçada com cerca de um metro de altura e meio metro de espessura, constituindo uma frágil e rudimentar muralha de paus, porém, quase inexpugnável. Quer se queira, quer não, era a única segurança oferecida à barraca.
Um abraço e uma cerveja acompanharam a recepção quase esfuziante que aqueles dois homens me dispensaram. De repente, a sua limitada vida de Robinson Crusoé foi interrompida, ganhou outra dimensão e fez levantar os ânimos. E isso era visível no fácies de contentamento de gente que, durante semanas a fio não tinha com quem falar, a não ser os parcos diálogos entre os dois, eventualmente envolvendo os dois ajudantes e, aqui ou ali, uma conversa ou outra, necessariamente curta e de circunstância, com elementos de uma população que, para além do mais, nem português falava.
Decididamente, eramos bem-vindos. Naquele dia haveria com quem falar, histórias e novidades animariam o serão e a noite seria passada em maior sossego e segurança; pelo menos sem sobressaltos. Se calhar até as rondas seriam dispensadas. Não o entendi como paga pela segurança e sossego que trouxemos àqueles dois, mas a verdade é que, de alguma forma, fui compensado. Desde logo, as três ou quatro cervejas que saboreei, mais o convite para lhes fazer companhia ao jantar e a irrecusável oferta de pernoita no aconchego da barraca era algo não propriamente dispensável ou desvalorizável. A pequena enxerga suplente, arrumada a um canto, era para mim a cereja no cimo do bolo. Um colchão de espuma, um cobertor e um lençol macio eram um luxo perante a perspectiva de uma dormida ao relento e com uma vantagem acrescida: pelo menos dormiria sem as botas enfiadas nos pés. Pode parecer estranho mas, dormir calçado é desconfortável e muito mais do que parece. Por outro lado, era tempo do cacimbo, altura em que as noites da savana gelam até aos ossos. Por oposição, o espaço dentro daquelas rudimentares instalações, de chão de terra e sem tapetes, oferecia um conforto não descartável; O capim que as envolvia, mantinha-as frescas sob o calor intenso do dia e bastante aconchegantes quando o frio gelava a noite.
Nesse entretanto, o pessoal procurou abrigo e escolheu o melhor sítio para dormir. Serviu na perfeição um cercado, vedado a toda a volta com uma espécie de sebe que os protegeria da friagem e com cobertura de capim que os deixaria ao abrigo da cacimba. Fossem quais fossem as condições, sempre era melhor ali que no meio da mata.
Cada um escolheu um recanto, arrumaram-se, recostaram-se degustando as conhecidas surpresas enlatadas da ração de combate e, após um bocado de conversa, adormeceram vencidos pela estafa de um dia de caminhada sobre as areias secas e escaldantes da savana.
Certamente mais bem instalado, segui-lhes o exemplo. Por ali, a hora de deitar chegava com o cair da noite. Não havia luz eléctrica e nada com que passar o tempo. Dormir era a única coisa a fazer. Por mim, o cansaço não me deixou outra opção e adormeci quase de imediato.
O dia seguinte começou bem cedo. Naquelas paragens, o sol tem sempre pressa em nascer e é irritantemente madrugador. Na época do cacimbo, cinco horas da manhã já é dia claro e uma hora depois o calor já aperta. Levantei-me, saí e fui até ao local onde o pessoal se acoitara. Queria saber como estavam e decidir o que fazer enquanto o unimog que nos recolheria não chegava.
De longe, apercebi-me que um burburinho se instalara, concluindo, ao aproximar-me, que algo não correra bem durante a pernoita e não era qualquer conflito ou zanga entre eles. Estavam seminus, alguns com cara de poucos amigos e coçavam-se como se tivessem sido atacados por uma praga de sarna.
Cada um, à vez, ou acordado pelo parceiro do lado, foi-se dando conta que carraças de tamanho a que não estavam habituados, se haviam alapado à pele: uma ou outra nas costas, algumas nas virilhas e outras por aqui ou por ali. Algumas já arrancadas, outras esborrachadas e outras ainda em vias disso, deixavam claro que o grupo fora atacado, durante a noite, por um inimigo inesperado.
O local mais ou menos protegido e que, na noite anterior, parecera o lugar ideal para pernoitar, era afinal uma espécie de curral, inexplicavelmente limpo, onde a população costumava meter o gado que pastava livremente na mata próxima. E o gado, naquelas paragens, costumava estar infestado de carraças. O medo que alguns demonstravam e a confusão que se gerou, explicava-se pela real possibilidade de poderem vir a contrair uma doença que se sabia manifestar-se através de febres altas, para além do desagradável da situação, da comichão insuportável, da borbulhagem e visível intumescência avermelhada provocada pelas ferroadas dos bichos.
Melhor seria se tivessem dormido ao relento. Certamente que o desconforto teria sido bem mais desejável.

domingo, 29 de novembro de 2009

Medicina natural

Os conhecimentos empíricos medicinais dos camaches e dos guenguelas, no Kuando-Kubango, longe do contacto com a chamada civilização ocidental, eram espantosos. Viver durante 18 meses, no meio de uma população a quem a natureza e a sabedoria popular ensinara a tratar das suas mazelas com os produtos que a mãe natureza lhe punha no caminho, foi uma experiência inesquecível.
Um dia, estupidamente, ao pretender retirar a tampa, para compensar a água a que tinha sido expelida do radiador de uma BERLIET - com o motor sobreaquecido pela carga de dezenas de populares e de um hipopótamo morto nas lavras da N'riquinha Velha - esta saltou e levei um banho de água a ferver.
De imediato, um negro, elemento do Grupo de GE´s adstritos á Companhia e que acompanhava o seu Comandante, Fulai Monjuto, sem nada lhe ter pedido e sem procurar obter a minha autorização, sequer, veio junto de mim com o copo de alumínio que acompanhava o cantil, cheio de água e sal, muito sal, e aspergiu-a, várias vezes, na zona queimada. As dores não atenuaram, mas, segundo o Dr. Lacerda, o que ele fez foi desinfectar as queimadelas com uma espécie de soro de nitrato de sódio, o que evitou uma possível infecção e muitas complicações na demorada cura.
Um dia, estando com uma brutal dor de dentes, o Vicente (um miúdo que ajudava na oficina de mecânica) disse-me que uma velha no kimbo tinha cura para isso. Lá me foi indicar quem era e, depois de amassar umas pequenas sementes - parecidas com as de massango, um cereal tipo milho paínço- com os dentes, fez uma bola e, com um pauzito apanhado do chão, empurrou aquela massa escura pelo buraco do dente. Dois minutos depois as dores passaram e o dente acabou por desfazer-se ao longo dos anos sem que tivesse mais qualquer dor.
De outra vez, um ajudante, que o padeiro arranjara (de forma a tornar o seu trabalho menos duro e pago com alguns pães, diariamente) partiu um braço numa sortida à mata para recolher a lenha para o forno.
O Dr. Lacerda, lá lhe colocou umas talas e um pouco de gesso, o que o encheu de vaidade pela atenção que angariou no kimbo. No entanto, pouco tempo depois, encontrei-o junto à oficina a cortar lenha com um machado, como se nada lhe tivesse acontecido: ao fim de alguns dias com o gesso no braço, chegara à conclusão que era tempo a mais e, o feiticeiro/sábio/boticário/médico da aldeia, colocara-lhe no braço umas folhas que derramavam uma substância pastosa depois de aquecidas e que, rapidamente, lhe "colaram" os ossos.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O Hipopótamo.

Um dia, pela manhã, o Fulai Monjuto, chefe do Grupo de GE's, as tropas de recrutamento local, aparecu junto à messe e pede para falar com o Capitão Cabrita. O respeito e admiração entre eles era mútuo e depois dos cumprimentos habituais, fez um pedido: vinha pedir que enviasse alguém com ele, ao Rio Kuando, junto à N'Riquinha Velha, para apanhar um hipopótamo que andava a fazer estragos nas lavras que a população ali cultivava e, depois, trazê-lo para o Kimbo para alimentar de carne a aldeia.
Estando eu por ali perto e tendo tomado conhecimento da conversa, quando dei por mim já estava prontíssimo com uma Berliet pronta a arrancar. Rapidamente fizemos o caminho, levando o Fulai, o Comandos como motorista, um ou dois soldados mais e alguns elementos familiares do Fulai, creio. O Furriel vago-mestre Morais, foi requisitado como fotógrafo e aí vamos nós.
Quando chegámos, o espectáculo era quase de circo. Dezenas de pessoas, em alegre algazarra, cantavam, dançavam e discutiam ao mesmo tempo, sendo, para mim, apenas certo que, tudo aquilo, se devia à expectativa de um bom fornecimento de carne e à eliminação do destruidor dos produtos, milho e massango, que ali cultivavam.
Ao longe, numa ilhota, um hipopótamo, incapaz de entrar na água por causa de um ferimento na barriga do tamanho de uma janela e feito, possivelmente, na luta com um parceiro mais ciumento e mais poderoso, andava de um lado para o outro, inquieto, dolorido e desfazendo tudo à sua passagem.
Tinhamos que lhe acabar com o sofrimento e arrastá-lo para a margem. Nas calmas, eu e o Fulai, o único que autorizei a atirar, lá abatemos o bicho que levou mais de 30 ou 40 tiros na cabeça, até cair. Arrastá-lo para a margem foi mais complicado. O cabo do guincho da Berliet dava á justa e foi necessária a ajuda de todos os presentes para facilitar a tarefa, pois o animal pesava uma barbaridade. Colocá-lo na caixa de carga, foi mais fácil: esquartejaram-no com javits (machado artesanal, afiadíssimo) e foi carregado às peças.
No regresso, com o peso do animal e de quanta gente por ali havia, o motor da Berliet não aguentou o excesso de carga e vai de aquecer no meio da picada de areia, debaixo de um sol abrasador. Parámos. Para fugir à barulheira dos cânticos de alegria de meia população da província, tantos eram, optara por vir sentado nos sacos de areia no guarda lamas. Preferia ouvir o barulho do motor do que aquela gritaria de contentamento. Assim, estando mais perto do radiador, cometi uma asneirola de principiante e
desapertei a tampa do radiador com a sola da bota, à falta de um bocado de desperdício ou de mais inteligência. Pôrra!
A porcaria da tampa desliza para o lado e apanhei um banho de água quente e vapor que me lambeu a pele das pernas e da barriga, obrigando-me a andar enfaixado mais de uma semana, até nascer a pele nova. Ainda hoje cá andam as marcas.
O hipo foi comido no Kimbo. A pele do mesmo foi cortada em tiras finas, secas ao sol e ficaram duras como madeira. Usaram-nas para fazer chibatas que serviam para imitar os pingalins. Os dentes, salvo erro, foram parar à mala do Furriel Fielas.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A Cerimónia

As fotografias que se seguem, são uma pequena parte de uma série que diz respeito a uma cerimónia levada a cabo na N'Riquinha, para afugentar a doença do corpo de uma paciente.
Ao aproximar-me, para fotografar o que eu pensava ser uma festa indígena, já que o batuque, ao invés do normal, começara pela manhã, fui avisado pelo João Cassumbi e pelo Vicente - dois miúdos negros curiosos da mecânica automóvel e condutores para os pequenos serviços dentro da Companhia - que não me era permitido assistir à cerimónia. Portanto, armei-me com uma Vivitar de 200 mm e, com a minha velhinha Cannon F1, lá fui, de longe e circulando de palhota em palhota, fotografando a cena.
Basicamente, o embalo ritmado e hipnótico do batuque e os movimentos simples da dança repetidos milhares de vezes, colocaram a paciente em êxtase e, depois de morta uma galinha, foi aspergida com o sangue da ave e esfregada com sal grosso. As duas curandeiras de serviço, ora se sentavam no meio de um vasto grupo feminino que entoava uma canção de sons baixos e roucos, ora se levantavam e rodeando a doente, repetiam uma lengalenga monocórdica, abanando uns guizos, feitos com uma lata de salsichas cheia de pedrinhas, ao mesmo tempo que lhes percorriam com as mãos, o corpo de cima a baixo. Os mais novos assistiam calados, observadores e com um ar respeitoso.
A cerimónia durou horas e, no final, quase todos os intervenientes estavam possuídos pelo ritmo dos tambores.
Terminou quando, exausta, caiu sem sentidos no chão.











domingo, 15 de novembro de 2009

O Kimbo da Neriquinha

Um aglomerado de cubatas de capim encardido pelo tempo, plantadas logo ali, no lado de lá do arame farpado, aparentando um alinhamento ordeiro, sinal de que alguém havia coordenado a sua implantação no terreno.

Normalmente os Ganguelas não se preocupavam com a geometria, quando construíam os seus abrigos. Era onde calhava ou onde desse mais jeito. Apenas servia para se abrigarem à noite, já que toda a lide doméstica era feita no espaço circundante.

O Capitão entendeu que a situação precária de muitas das cubatas e a anarquia das ruas do Kimbo justificavam uma intervenção urbanística. Incumbiu-me de fazer o levantamento e identificar as que necessitavam de renovação, as que deveriam ser totalmente reconstruídas e alinhadas e ainda equacionar o eventual alargamento da aldeia.

Fiz qualquer coisa, mas a adesão da população não foi muito entusiástica. Para quê tanta trabalheira se o que existia era suficiente?
O calor era intenso e as poucas sombras convidavam ao descanso. Mas, uma coisa ou outra foi renovada. Por exemplo, um celeiro novo foi construído. Contudo, não me pareceu que isso tivesse resultado da iniciativa do Capitão.