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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O "levantamento de rancho" que não foi

Lembro-me bem; durante o tempo em que o Morais, o nosso furriel vagomestre, esteve ausente, gozando no puto umas merecidas férias, longe daquela terra de ninguém, fui incumbido de o substituir na arte de alimentar o pessoal sem ultrapassar a verba diária de vinte e dois escudos e meio por cabeça. A tarefa não era fácil e a experiência nenhuma, mas lá me desenrasquei o melhor que pude, procurando compor, com os parcos víveres existentes, qualquer coisa que se pudesse comer. A chatice é que, dia após dia e sem que disso me desse conta, fui ultrapassando a fasquia do orçamento.
Não me recordo das chatices que o Morais teve de enfrentar para voltar a meter as coisas sobre carris. É provável que a ameaça de levantamento de rancho, a propósito de uma das ementas mais detestadas (dobradinha com feijão) tenha sido um acontecimento que se se terá desenrolado quando fui mandado para uma segunda comissão no destacamento do Rivungo.
Sorte a minha, que só soube dos pormenores muito tempo depois de tudo ter acontecido.
O texto que se segue é da autoria do Morais, o nosso vagomestre de então.
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Enquanto decorreram os dezoito meses de destacamento na N’riquinha, consegui gozar dois períodos de férias, de trinta e cinco dias, no “Puto”. Com as deslocações, via Luso (Luena), Nova Lisboa (Huambo) e Luanda, as ausências atingiam cerca de cinquenta dias, períodos que fui substituído, como responsável pelo serviço de alimentação, pelo Egídio Cardoso.
A contabilidade do serviço exigia um inventário ao armazém cada final de mês, com o qual verificávamos se o consumo de géneros alimentares estava dentro do orçamento de receita para o mês em causa.
Os primeiros meses de estada na N’riquinha, embora coincidissem com a estação das chuvas, foram relativamente generosos em caça e, por via disso, além de nos alimentarmos melhor, pudemos gastar menos em alimentação. O serviço foi passado ao “vaguinho” Cardoso, com um excedente de tesouraria correspondente a cerca de dez dias de alimentação.
Quando cheguei do primeiro período de férias, aguardámos a chegada do fim do mês para a passagem do testemunho. O “vaguinho” em exercício tinha desenvolvido um trabalho notável no serviço, e era alvo de grandes elogios, pelo empenhamento e grande imaginação posta na elaboração das ementas, ao ponto de alguém, bem situado junto do comando, ter pressionado, sem sucesso (o primeiro sargento Pinto foi contra), a sua passagem a efectivo. Feito o inventário e uma estimativa à gestão cessante, constatou-se que havia um défice no serviço de cerca de vinte dias de alimentação. Ou seja, durante três meses viveu-se acima das possibilidades. Posto o problema ao conselho administrativo (comandante da companhia e primeiro sargento), e porque o défice teria que ser compensado no futuro, sob pena de responsabilização e pagamento dos montantes em falta, foi decidido “apertar o cinto”.
A situação chegou rapidamente ao conhecimento de toda a companhia, e comecei a ouvir ameaças veladas de que, se tal acontecesse, ia haver “levantamento de rancho”. O contingente lisboeta liderava a “revolta”.
Por todas as razões e também por solidariedade com o “vaguinho” Cardoso, houve que prosseguir no caminho traçado, evitando as ementas que fossem mais dispendiosas, até porque o entusiasmo pela caça tinha esfriado. De facto, os habituais voluntários não estavam tão disponíveis para continuar, e a época das queimadas ainda não se iniciara. A primeira caçada que liderei, neste período, teve como resultado uma cabra do mato (bambi) e um nunce, insuficientes para dar uma refeição a toda a companhia.
O pretexto para um incidente apareceu quando se serviu, ao almoço, uma dobradinha com feijão. Como era norma, a comida era igual para todos, oficiais, sargentos e praças, e confeccionada nas mesmas panelas. Servidas as terrinas para os doentes na enfermaria e para as messes, passava-se a atender os praças. Quando estava a terminar a minha refeição fui chamado ao refeitório para ouvir a reclamação de que a comida estava imprópria para consumo porque o feijão tinha bicho, e mostraram pratos onde se viam dois ou três feijões com um ponto negro. Entretanto chegou o comandante da companhia que mandou formar na parada e tentou convencer o pessoal a retomar a refeição, porque todos os oficiais e sargentos tinham consumido a mesma feijoada, sem notarem nada de anómalo: Não havia levantamento de rancho!! E avisou que a cantina estaria encerrada e só abriria depois do jantar. O pessoal persistiu na decisão.
O comandante da companhia, para evitar que o incidente se repetisse mandou que o saco de sessenta quilos de feijão, recentemente encetado fosse servido aos hóspedes da pocilga, situada nas traseiras do aquartelamento. Posso garantir que desobedeci a tal ordem, e o feijão, tão proteicamente enriquecido, foi por nós consumido nas sopas, depois de processado no “passe-vite”… a vingança foi servida quente.
“vaguinho “ Morais

quarta-feira, 1 de junho de 2011

GASTRONOMIA

Não sei como é hoje. Naquele tempo, alimentar tropas era uma tarefa complicada. A verba era escassa, a janta nunca estava ao gosto de todos, a variedade não abundava, a imaginação dos cozinheiros escasseava e a falta de jeito da grande maioria agravava tudo. Eram homens formados à pressa, escolhidos com base em critérios que nunca cheguei a perceber. Creio que poucos deles alguma vez tivessem ido além do estrelar um ovo. A verdade é que a tropa transformava pedreiros, carpinteiros, jardineiros e afins em cozinheiros temporários que, após cumprido o serviço militar voltavam às suas actividades iniciais.
Se transportarmos tudo isto para a realidade da Neriquinha as coisas pioravam. A cozinha não ajudava, o combustível era lenha colhida na mata, os tachos eram negros e grandes e o calor tornava a tarefa do cozinheiro um martírio. A agravar tudo isto, os ingredientes escasseavam, a ração era parca e nem pedras havia que permitisse confeccionar a sopa da dita. Na verdade a variedade do rancho oscilava ente a massa com carne e a carne com massa substituída de tempos em tempos por feijões. Bifes, nem vê-los e o peixe era indesejado. De vez em quando, lá vinham umas salsichas, uma feijoada com uma ou outra rodela de chouriço barato, umas ervilhas enlatadas e pouco mais. Ah! havia ainda a dobradinha. O ingrediente chegava seco, desidratado, em forma de pequenos pedaços parecidos com flocos que inchavam quando postos de molho. Dobradinha com feijão ornamentada com uma colherada de arroz, era assim um dos petiscos que permitia desenjoar da massa mas que não nos livrava dos feijões que engrossavam o molho com aspecto amarelado de cola líquida condimentada com o chouriço estrategicamente misturado para dar gosto e onde os mais gulosos ensopavam o pão deixando muito pouco para os putos que ajudavam na lavagem dos pratos.
O culpado de tudo isto, dizia-se, era o Vagomestre. O Morais, sendo o furriel responsável pelos “comes” levava com as culpas de tudo. Se a comida não agradava maldizia-se o Morais e se os feijões estivessem rijos alguma culpa teria de ter. E quando, perante o ram-ram repetitivo da ementa, lhe perguntávamos o que teríamos para o almoço, respondia invariavelmente:
- Surpresa!
Na verdade, a tarefa do vagomestre não era fácil: apenas dispunha de uma verba de vinte e dois escudos e meio para alimentar diariamente cada homem. De facto, servir três refeições diárias por apenas vinte e dois e quinhentos era obra a exigir dotes de prestidigitador, tanto mais que os ingredientes não estavam disponíveis. Supermercados não existiam, nem perto nem longe e o reabastecimento tinha uma periodicidade mensal através do MVL proveniente de Serpa Pinto que em viagens que levavam mais de uma semana, nos trazia os secos considerados suficientes para um mês (batatas, arroz, massa, dobradinha desidratada, enlatados e outros) e os molhados, naturalmente constituídos por vinho de péssima qualidade e cerveja a rodos. Tudo o mais que pudesse ser apelidado de “frescos” vinha do Luso trazido pelo Nord Atlas nas suas visitas semanais (verduras, carne, peixe congelado, ovos e pouco mais).
O que valia ao vagomestre (e a nós todos) era a abundância de caça que naturalmente arredia das matas próximas, obrigava a calcorrear chanas afastadas à procura da melhor peça. Uma boa caçada permitia compensar o magro orçamento e garantir bifes para o almoço, já que a carne vinda semanalmente do Luso era demasiado cara apenas chegando para misturar com a massa, com o arroz ou para compor um guisado pobre com batatas.
Mas, carne de caça… é carne de caça. Nada que se pareça com um naco de vitela ou uma costeleta de porco que uma simples pedrinha de sal transforma em pitéu. Carne de caça é adocicada, desagradável, enjoativa e torná-la comestível exigia tempo, marinadas prolongadas, empenho e imaginação do cozinheiro o que, devo confessar, não abundava por ali. A não ser que se tivesse a sorte de caçar uma palanca ou então uma gunga. A carne de gunga era a única que uma vez cozinhada se assimilava a vaca e o animal era tão grande que os dois lombos eram suficientes para servir uma refeição de bifes a toda a companhia.
O problema é que a caça não resolvia tudo. No tempo das chuvas era difícil apanhar alguma coisa de jeito e o pessoal começava a ficar farto, torcendo o nariz a certas variedades como o guelengue (óryx) ou o caixote (Gnu) animal desajeitado cuja carne tinha um sabor nada agradável. O orçamento, esse, continuava curto e qualquer pequeno deslize tornava-o deficitário obrigando ao racionamento e a refeições de massa com pouca coisa ou a arroz espapaçado com estilhaços de frango.
Contudo, havia ainda um recurso. A população local dedicava-se à criação de gado, naturalmente gado vacum. O problema era convencê-los a venderem. Entre os ganguelas, a riqueza definia-se pelo número de mulheres que cada um possuía e mulheres adquiriam-se com vacas. Meia dúzia delas dava para comprar mais uma mulher que podia ser usada para trabalhar nas lavras, cuidar das plantações de milho, nos afazeres do dia-a-dia e conferir estatuto. Naquela sociedade poligâmica, quanto mais mulheres e maior a manada, maior a importância do proprietário.
Para agravar a situação, o dinheiro não lhes dizia nada. Não precisavam dele. Era coisa inútil. Bastavam-se com o mínimo necessário para comprar um ou outro utensílio, uma ou outra alfaia, uma ferramenta, uns panos para as mulheres e pronto. Andavam descalços, vestiam pouca roupa e sobreviviam com culturas de subsistência.
Era aqui que entrava o P. Costa. Sendo o furriel responsável pelo “Chiado” estava habituado a negociar com a população a venda das utilidades e futilidades que se vendiam no barracão assim eufemísticamente apelidado. A verdade é que era o único que se dispunha a deslocar-se às pastagens, escolher a rês, negociar o preço e trazer o animal estrategicamente abatido com um tiro certeiro e que, uma vez na Neriquinha, o cabo Ferreira se encarregava de desmanchar e converter em bifes.
Certo dia, o P. Costa foi incumbido de mais uma dessas missões: convencer o ganadeiro a vender um dos seus animais. Fiz parte do grupo a que se juntaram os dois cabos da Força Aérea que nunca antes tinham tido o ensejo de passar além do arame farpado. O local escolhido foi a Neriquinha Velha, ali pertinho, nas cercanias das margens do Kuando, distância que levou cerca de uma hora a vencer.
Saltámos da berliet e seguimos o P. Costa que caminhou decidido pelas lavras contornando um morro de formigas salalé demonstrando conhecer bem o caminho. Acercou-se do único homem visível nas redondezas, cumprimentou, fez uma ou duas perguntas de circunstância e foi directo ao assunto.
A resposta meio evasiva do dono do gado, não parecia lá muito animadora. Era claro que o homem não estava interessado em vender o que quer que fosse. Mas as negas do homem não pareciam convencer o P. Costa que já esperava a reacção, passando de imediato à discussão do preço. Na verdade, discussão não houve já que os valores avançados se ficaram apenas pelas ofertas do comprador:
- Mil escudos! Tá bem?
Como resposta, um tímido e negativo abanar de cabeça, ao mesmo que tempo que balbuciava um…
- Não furriel.
Mas o P. Costa insistia, subindo a oferta
- Então, fica por mil e cem.
Para de seguida questionar de forma conclusiva.
- Então qual é a que vamos levar?
E sem dar tempo ao outro para responder, levou a arma ao ombro e com um tiro certeiro prostrou o animal que o seu olhar conhecedor já havia seleccionado.
Carregámos a vaca inerte enquanto o homem, agradecendo com tímidos acenos de cabeça, recebia as notas que compunham o preço, sem prestar grande atenção ao dinheiro. Para mim parecia claro que aquele dinheiro pouco lhe interessava. Na verdade acabara de ficar mais pobre
No caminho de regresso, olhando o corpo morto do animal, apenas pensava que finalmente teríamos rancho melhorado. Talvez uns bifes a que certamente faltariam as batatas fritas. Mas nunca me ocorreu pensar que não havia veterinário para garantir que aquela carne estava em condições de ser consumida.
Fiávamo-nos apenas na experiência que se supunha ter o Cabo Ferreira. Ao abrir o animal certamente saberia ver isso.