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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Goma-arábica, a cola que sabia a mel


Ainda nem haviam decorrido duas semanas desde que, amesendados na grande cidade aguardando sem pressas o dia em que se encetaria a viagem de regresso a casa e já muitas das agruras por que passáramos começavam a transformar-se em remotas recordações. Por mim, aquela certeza de que jamais voltaria a calcorrear as esgotantes e quentes areias das terras-do-fim-do-mundo trazia uma confortante sensação de bem-estar apenas perturbada pela recordação do inacreditável acidente que nos levara o Morgado. Exactamente quando já parecia certo que todos regressariam ilesos, o destino decidiu fazer-nos pagar a ousadia de termos conseguido escapar à má sorte, como se o azar que nos levou o Gonçalves não tivesse sido já paga suficiente. Mas, feita a catarse, com a ajuda da juventude que tudo supera, os dias continuaram a correr, intensos, quentes e aconchegantes, vividos como se houvesse pressa em compensar os tempos de escassez que, por aquelas alturas, já me pareciam suficientemente distantes.
O facto é que, aplacadas que estavam as mágoas, cauterizadas as feridas da alma e completada a convalescença com doses maciças do bálsamo apaziguador das Mabubas, tudo aquilo por que se passara parecia agora coisa de somenos.
Terá sido por aquela altura que se deu início a uma espécie de ritual que ainda hoje se repete: a irresistível tendência para trazer à espuma dos dias a lembrança dos episódios rocambolescos, dos sustos e maleitas, das alegrias e dissabores vividos e sofridos no tempo que durou a nossa passagem pelas guerras da Neriquinha, recordados a propósito de tudo e de nada, contados e recontados, explicados e relembrados como quem conta a história da última fita vista na soirée do cinema Miramar.
Foi por estas alturas que, certa manhã, lá na Pensão dos Coqueiros, unidade hoteleira modesta onde costumávamos pernoitar, creio que ao pequeno-almoço, descosendo a língua em conversa de circunstância, porventura recuperando da ressaca da noite anterior, alguém se lembrou de ter ouvido contar uma das máximas do nosso major Tamegão. Para tanto bastou um refrescar de memória trazido pelo ritual de untar a torrada com compota.
Constava que nada afectava o apetite do major e dizia-se que nunca reclamava do rancho. Aliás, o seu aspecto roliço e maneirinho era prova disso mesmo. A sua mais que conhecida fama de lateiro, típica de quem nunca reclama do rancho, ficou suficientemente demonstrada, quando, numa das poucas vezes que a sua missão o obrigou a descer ao inferno da Neriquinha, devorou um prato de massa guisada com atum que o vago-mestre incluíra na ementa numa tentativa de retaliação pelas exigências e observações esparvoadas que o homem fizera aos mapas de controlo do depósito de géneros. Tudo em vão. Enquanto toda a companhia achou a refeição uma porcaria, o Major, rapando o prato onde um último fio de massa resistia às suas arremetidas, apenas deixou escapar um: - Isto estava muito bom!
Mas, voltando à compota, parece que o homem, lá na messe do Cuito Cuanavale, descobriu um frasco com mel. A sua consistência e a cor ligeiramente ambarada eram características mais do que suficientes para que nem sequer lhe passasse pela cabeça que pudesse ser outra coisa. Aliás, estando na messe e com aquele delicioso aspecto a fazer-lhe nascer na boca uma aguadilha de gula, no seu entender não poderia ser outra coisa. Assim, todas as manhãs, a fatia de pão que lhe servia de mata-bicho, foi sendo generosamente untada com o produto e saboreada em gulosas dentadas intervaladas por largos golos de café com leite, lauta refeição por vezes finalizada com pomposa e sonora eructação.
Até que, certo dia, a mulher do médico que, uma ou outra vez o calor obrigava a madrugar, deu conta de que, afinal, era o major o responsável pelo esvaziamento constante e paulatino do conteúdo do frasco.
- O senhor major come isso? Interrogou a senhora com não disfarçada surpresa.
- Sim, eu gosto muito de mel. É muito saudável. Respondeu o oficial um tanto ou quanto atónito como se considerasse a pergunta descabida.
- Mas isso não é mel, senhor major. Isso é goma-arábica; trouxeram-na há dias da secretaria para colar uns papéis.
Apanhado de surpresa o homem, contudo, não desarmou.
- Ah é? Mas olhe que é muito bom.
Consta que, ainda assim, mesmo se apercebendo de que, afinal, andara a ingerir cola o tempo todo, não se coibiu de comer o pão até ao último migalho.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Em memória do Ilídio Morgado

Quase que passou despercebido. Não fora duas ou três situações extremas que o marcaram e o facto de termos sido relegados para o fim do mundo, confinados a uma singelo quadrado delimitado por uma precária cerca de arame farpado que nos impôs uma longa convivência de proximidade, a lembrança da sua passagem pela companhia teria provavelmente ficado perdida no limbo da nossa memória colectiva.
O Ilídio Morgado era um soldado do meu pelotão integrando aquele lote dos que não dão muito nas vistas. Beirão, oriundo de uma pequena freguesia do Conselho de Sátão, comportava-se de forma algo bisonha e falava devagar conferindo às palavras aquela pronúncia sibilina característica do linguajar das gentes que habitam a região a norte das Terras de Viriato. Não sei se era preguiçoso mas a ideia que vagamente retenho da sua figura, do seu andar vagaroso e da postura indolente que punha em tudo o que fazia, deixa-me essa possibilidade. Creio que nunca fez inimigos e não consta que alguma vez alguém tivesse feito qualquer reparo menos abonatório ao Ilídio, mas também não consigo identificar nenhum grupo de amigos mais chegados a que pertencesse.
Em resumo, pode dizer-se que era um homem comum sem nada de especial que se lhe apontasse a não ser o facto de, por vezes, beber um pouco mais do que a conta.
Contudo, a ser esse o seu maior defeito, convenhamos que era uma coisa de nada se tivermos em atenção que, pelo menos naquele tempo, a melhor forma de mitigar a sede e afrontar o calor, passava pela ingestão de cerveja em quantidades razoáveis. Era barata e havia em quantidades generosas. Excluindo o Candeeiro, pescador dos mares algarvios que ficou na memória de todos pela frequência com que se enfrascava e pelo mau feitio que apenas se manifestava quando toldado por um cerveja a mais, o Ilídio, se calhar, integrava o restrito grupo dos que ficaram na memória colectiva como aqueles que, com mais assiduidade, exageravam um pouco na quantidade de imperiais.
O excesso de bebida não trouxe problemas a ninguém. É claro que nestas coisas, há sempre excepções e o Candeeiro é uma flagrante excepção. Nele, a bebida, queimando o seu fraco bom senso, fazia com que andasse sempre de candeias às avessas com as hierarquias daí resultando algumas ameaças de punições severas por parte do comandante da companhia. Mas não o Morgado; nele, a bebida apenas lhe soltava a língua, desatando num falaçar trôpego que nunca lhe trouxe problemas de maior quanto a questões disciplinares mas, tanto quanto a minha memória retém, foi o único que sofreu na pele as consequências de beber demais.
Pois é, certa vez, como que por castigo da providência, sentiu de forma muito dolorosa as consequências de um dia de excessos. Não sei se alguém se lembra mas, quando faltava para aí cerca de um par de meses para o fim da comissão, fez coincidir uma bebedeira valente com o dia que lhe competia estar de serviço de guarda à baia que controlava o acesso de viaturas à localidade, dia em que, para piorar as coisas, era aguardada a visita de um grupo de altas patentes militares, que suponho constituído pelo comandante de batalhão e respectivo séquito.
Ninguém sabe como e ele também nunca conseguiu explicar, deu um tiro em si mesmo quando, ao abaixar-se esforçando-se por manter o equilíbrio que o excesso de bebida tornava precário, accionou o gatilho da G3. São coincidências fatais e até hoje ainda ninguém conseguiu perceber por que artes do demo, num local como as Mabubas, tinha uma bala na câmara pronta a disparar. Acabou por ter sorte, a bala apenas lhe perfurou o braço obrigando-o a andar entrapado durante uns tempos.
Este pequeno incidente, a que na altura não se deu muita importância – coisas do vinho, dir‑se‑á, embora me pareça que a bebedeira era de cerveja – não deixa de ter o seu quê de premonitório. Cá para mim, a negra e encapuçada figura sem rosto, de gadanha a tiracolo, já andaria a rondar o infeliz do Morgado.
O tempo passou e a missão chegou ao fim. Agora era o tempo da diversão, do entretém, do dolce far niente. Matavam-se as saudades de tudo aquilo de que, por demasiado tempo, não se teve acesso, gozando hoje uma coisa, amanhã outra, por vezes exageradamente e ao fim do dia planeava-se o que fazer no dia seguinte. Enfim, aproveitava-se o tempo enquanto não chegava o dia do regresso a casa. A praia, porque não era longe, passou a ser local de visita assídua. E o Morgado, porque no sítio onde nascera era coisa que não havia, também por lá andou, até porque o calor a isso convidava.
Não conheço pormenores, mas num desses dias, estando ele na brincadeira com a malta do grupo que com ele decidira passar o dia na praia, resolveu fazer uma habilidade. Correu em direcção à água e ensaiou um mergulho, atirando-se de cabeça contra a onda que entretanto se desfizera espalhando-se preguiçosamente no areal.
O mergulho saiu desorganizado, espalhafatoso, descoordenado e sem estilo, visível na forma como se estatelou pesadamente nos escassos vinte centímetros de água que mal chegava a meia canela. No imediato, ninguém se apercebeu que o corpo do Morgado, inerte, apenas se movia ao sabor das ondas num embalo de vai e vem. Quando alguém deu o alarme, já era tarde. A autópsia, contou-me o alferes Correia que conduziu o processo de averiguações, concluiu que partira o pescoço.
A notícia do passamento do malogrado soldado produziu um efeito devastador no pessoal, trazendo à lembrança a trágica morte do furriel Gonçalves que desastradamente ocorrera lá bem para baixo, nos confins da savana, reabrindo feridas que só há bem pouco tempo haviam cicatrizado. O clima de festa e de diversão de que todos tiravam partido murchou e a alegria desapareceu dando lugar a uma consternação colectiva, a uma revolta surda visível no semblante de cada um.
Que raio. O pior já havia passado e já só faltava tão pouco tempo para tudo terminar.
Não foi justo.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Enquanto a peluda não chega

A nossa vida mudou radicalmente. De um momento em que quase tudo era condicionado por uma disciplina militar ditada por uma enormidade de obrigações e regras de conduta até então cumpridas quase por inércia, qual reflexo condicionado de quem se teve de habituar a uma disciplina que não admitia contestação, passou-se a um estado em que cada um fazia o que mais lhe dava na gana.
É verdade, a peluda estava a poucos dias de vista e isso levava a comportamentos pouco consentâneos com as exigências militares, reduzindo os regulamentos a uma mera insignificância. Era algo de novo, uma espécie de liberdade que entrava de rompante pelas vidas de jovens que, por tempo que mais pareceu uma eternidade, se sentiram encarcerados num mundo de fardas, ordens, regras, ditames e posturas, obrigados a assumir responsabilidades, passar privações e coleccionar arrelias que esculpiram um fácies amadurecido na cara daqueles meninos quase imberbes que, dois anos antes, desembarcavam no cais de Luanda prontos para fazer uma guerra que nenhum havia começado.
Tenho ainda a longínqua recordação do alívio que experimentei perante a iminência do despir definitivo da farda em simultâneo com o formal depor das armas materializado na entrega nas arrecadações da parafernália belicista que, dois anos antes, naquele mesmo lugar, nos fora entregue e que então assumi serem sinais óbvios de que estávamos ali de passagem a caminho da guerra que, era suposto, nos esperava naquele ermo lá nos confins da savana para onde fomos relegados.
Agora que tudo passara, assistia-se a um desmontar da máquina, sendo por demais óbvio de que já nenhum oficial ou sargento se sentia com autoridade para dar ordens que ninguém parecia estar já disposto a obedecer. Constituindo etapas do ritual de corte de relações com o rigor militar, as regras foram sendo compassivamente cumpridas com aquela certeza de que faziam parte do cerimonial do divórcio ou do fim do contrato que todos foram compelidos a aceitar no momento da incorporação.
Naquela fase, a grande tarefa da companhia resumia-se ao arrumar da casa. E isso significava cumprir uma extensa e escrupulosa via-sacra por tudo quanto era repartição ou serviço da pesada burocracia militar. Era preciso pagar e encerrar contas, elaborar guias de entrega, devolver materiais e equipamentos, fazer requerimentos, assinar papelada e obter a necessária quitação que desobrigaria a companhia de tudo quanto era compromisso ou responsabilidade. Felizmente que tínhamos um primeiro-sargento de eleição, um homem, conhecedor daquele mundo complexo que apenas nos pedia ajuda pontual numa coisa ou noutra. Tirando isso, o tempo estava por nossa conta.
Por mim, inebriei-me com o cheiro a maresia, enchi os olhos daquele mar azul cristalino e caminhei sem destino gozando o bulício da cidade, não resistindo a percorrer a marginal ziguezagueando por entre as palmeiras. Pareceram-me familiares em nítido contraste com a primeira impressão experimentada dois anos antes quando, fugindo ao enjoativo convés do Vera Cruz, dei os primeiros passos naquela terra quente e perfumada que parecia inchar de calor. Pelo menos agora, não estranhei a pacífica quietude da baía que, nas cálidas noites austrais, derramava sobre a marginal centelhas de luz em sintonia com o marulhar de águas calmas.
Depois, abusei de bifes com batatas fritas e mostarda aos montes, preguicei nas esplanadas das cervejarias exagerando na cerveja devidamente acompanhada e mergulhei vezes sem conta nas águas cálidas do Atlântico que placidamente banhavam a areia cor de ouro da ilha. Depois de tanto maldizer as estafantes areias brancas da savana do Cuando Cubango, não hesitei em alagartar-me pelas praias da ilha e embrulhar-me no areal com sabor a sal para, depois de feito croquete, a dissolver num mergulho gostoso nas cálidas ondas salgadas daquele mar que apetecia abraçar.
Vi todas as fitas que passavam nos muitos cinemas da cidade, intoxiquei-me no fumo dos cafés saboreando bicas e lendo placidamente os jornais do dia, matei saudades do pastel de nata e enchi os olhos de mulheres lindas e singelamente sedutoras. Voltei à praia sempre que pude, desfrutei as delícias da noite, conheci a Gruta, afamado cabaré logo ali à entrada da ilha e apreciei o seu badalado espectáculo de striptease levado à cena por um friso de meninas que se esmeravam numa representação lasciva capaz de fazer crescer água na boca aos mais susceptíveis ou mais carentes. Ia-se ali não só pelo espectáculo mas também por uma mão cheia de outras coisas. Naquele local buliçoso enchiam-se os olhos de cor e glamour, inspirava-se o perfume de mulher oferecida, usufruia-se da fartura de sedução que espichava dos meneios de mulheres que sabiam da arte e, porque não, suspirava-se por um agrado, que mais do que isso não era permitido, que ali não era casa de putaria. Visitar a Gruta era imperativo, quase uma missão obrigatória para qualquer militar que se prezasse.
Tirando isso, lambuzei-me com a célebre muamba na Mãe-Preta, matei a fome fora de horas devorando o conhecido bitoque servido a qualquer hora da noite naquele bar lá para os lados do Clube Naval e por pouco não gastei todas as economias que a ausência de tudo e o não ter onde gastar me obrigaram a amealhar nos confins da savana.
Sei que, em cada dia, acabada a desbunda, recolhia a algum lugar. Provavelmente regressava ao Grafanil. Havia sempre aquela viatura, estranha, pesada e com ar muito antigo que, a horários estabelecidos, numa marcha pesada de quem não tinha pressa, fazia a ligação entre a Mutamba e aquele entreposto militar conhecido de todos. Andava muito devagar que a idade não dava para mais e dizia-se que gastava cem litros aos cem. Um exagero.
Mas, por mais estranho que possa parecer, não sou capaz de me recordar nem da camarata nem da cama. Provavelmente passei lá pouco tempo.

domingo, 1 de março de 2015

Adeus às Mabubas - O regresso à cidade

Não teve história a nossa saída das Mabubas. O facto de não reter pormenores convence-me disso. Contudo, recordo-me muito bem de, talvez estupidamente, ter recordado o dia em que, montados nas viaturas do MVL, saímos do degredo da Neriquinha e iniciámos aquela empolgante aventura que foi a grande viagem desde as terras do fim do mundo até ao paraíso de que agora nos despedíamos. Bem, paraíso apenas por comparação com o inferno que nos serviu de morada nos primeiros dezoito meses e pouco, ermo do qual ninguém tinha saudades. Pela parte que me toca, nunca me passou pela cabeça que alguma vez pudesse voltar àquele quadrado areento delimitado por uma ferrugenta cerca de arame farpado. Contudo, admitia que, se alguma vez voltasse a Angola, um dos primeiros locais que procuraria visitar seria certamente a barragem e a camarata, provavelmente em ruínas, onde se situava o quarto que partilhei com o Morais e que decorámos como se fosse a nossa casa.
Mais uma vez encafuei as minhas tralhas dentro da mala, cuidei de verificar que não deixava nada para trás e arrumei tudo o melhor que pude numa das viaturas que, no largo frente ao comando, aguardavam o momento de nos levarem para a cidade. Acomodei-me num canto qualquer, disse adeus a quem ficava e aguardei sem pressa a hora da partida.
As viaturas subiram a rua, lentamente. Passaram frente à messe, depois pelo boteco do Manolo, o barracão do cinema e finalmente a cancela de controlo já guardada por soldados acabados de tomar o nosso lugar. A guerra seguia em frente, naquela sistemática substituição de contingentes, uns a chegar outros a partir numa permanente adaptação a novos lugares e novas missões. Para os recém-chegados, a acalmia necessária para lamber as feridas da alma, para nós, o adeus definitivo aos quartos de sentinela, às rondas nocturnas e à limpeza das armas, arrumadas a um canto desde que libertos da savana.
A viagem até Luanda foi curta e sem surpresas. Era uma estrada normal como todas as estradas. Nos últimos oito meses havíamo-la percorrido inúmeras vezes e era certo que nada iria acontecer que merecesse ser memorizado. Passámos pelo posto de controlo do Sassa, logo ali abaixo, antes do Caxito, bordejámos os canaviais da Tentativa onde uma máquina preparava a terra para nova plantação, atravessámos Porto Quipiri, o desvio para a Barra do Dande, depois Sassalemba, os campos de algodão e de mandioca e, em pouco tempo, logo depois de Kifangondo, iniciou-se a descida em direcção ao Cacuaco onde o bando de flamingos cor‑de‑rosa, catando a praia, parecia nunca dali ter saído passeando-se pachorrentamente como sempre os vi fazer nos últimos meses em que me habituei a mirá-los. Aquela seria a última vez; nunca mais os tornaria a ver.
Penetrámos o trânsito citadino. Nada a que já não estivéssemos habituados. Os últimos tempos nas Mabubas, com as frequentes idas e vindas a Luanda, fizeram-nos esquecer o silêncio da enorme e desértica savana. Mas esta última viagem materializava o regresso definitivo à civilização, ao bulício da cidade, ao trânsito, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Para mim, contudo, representava finalmente a fuga às agruras e aos tratos de polé infligidos por uma natureza hostil. Agora sim, a mata ficava para trás e a guerra, que sentimos ir desaparecendo das nossas vidas no sossego das Mabubas, chegara definitivamente ao fim.
Entrámos no Grafanil, uma espécie de antecâmara para o inferno das matas e o stress da guerra para quem chegava a Angola. Passáramos por isso dois anos e quase dois meses atrás. Mas, para nós, que chegávamos ao fim daquela malquista missão, representava o limiar da civilização e o recomeço da vida que ficara parada no tempo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Trânsito citadino

Os milhentos ditames que compunham as regras pelas quais, naquele tempo, qualquer militar se devia pautar, eram uma preocupação permanente; um passo em falso, daqueles susceptíveis de constituir infracção a um qualquer artigo do RDM, podia transformar-se numa mão cheia de chatices, especialmente se a falta fosse cometida na presença de um daqueles militares da treta que costumavam adejar pelos corredores da burocracia militar. O desgraçado regulamento era tão persecutório que quase se pode dizer ser impossível não cometer infracções; Infringi-lo ou não era pura questão de sorte ou azar.
Libertos que estávamos das agruras ostracizantes da Neriquinha, uma das possíveis infracções que passou a ser minha preocupação frequente prendia-se com a eventualidade de, na qualidade de graduado, poder ser punido em consequência de um eventual acidente com uma viatura em que seguisse. É verdade, mesmo não estando ao volante, o graduado que seguisse na viatura podia ser responsabilizado por uma infracção ou aselhice do condutor.
Enquanto andámos pelas picadas empoeiradas do Cuando Cubango, isso não era problema porque, ali, ninguém tinha que se preocupar com o cumprimento das regras de trânsito. Naquele imenso ermo, ter essa preocupação até seria ridículo: não havia estradas, trânsito ninguém sabia o que era, cruzamentos eram apenas encontros de caminhos que levavam a lugar nenhum e sinais de trânsito ou o que quer que se pudesse aproximar das regras que preocupam quem conduz um automóvel eram coisas de ficção. A liberdade era total e as viaturas, preparadas para andar naqueles itinerários arenosos, circulavam por onde fosse preciso sem qualquer problema. Naquele mar de areia e lama a grande preocupação era a de saber por onde se andava, mas apenas para que não nos perdêssemos naquelas planuras imensas ou para nos pouparmos à carga de trabalhos necessários ao desatascanço de uma viatura que o desconhecimento ou nabice do condutor levasse para terreno menos consistente.
Agora, longe das picadas arenosas rolando por estradas asfaltadas e sem buracos, a condução era muito mais fácil, cómoda e quase sem riscos. Contudo, para condutores que se habituaram por demasiado tempo a ignorar o código da estrada e a não terem de repartir os caminhos por onde andavam com automóveis de toda a espécie, as preocupações eram muitas tanto para os condutores como para os graduados que, por inerência do posto, chefiavam a viatura em que seguissem. Pela parte que me toca, passei, sem motivo, por algumas dores de barriga, pelo menos até começar a ganhar confiança no homem que tinha a missão de conduzir.
Nas Mabubas, fui incumbido de gerir a cantina e isso implicava idas frequentes a Luanda para a necessária reposição de stocks, garantindo que, pelo menos, tabaco e cerveja nunca faltassem. As primeiras viagens foram, pelo menos para mim, exercícios de habituação. Primeiro estranhei a ausência dos saltos e ressaltos a que me habituara nos percursos esburacados das picadas sinuosas; depois fui-me familiarizando com a estrada pouco movimentada que, após cerca de uma hora de caminho, ali, logo a seguir ao Cacuaco, onde um bando de flamingos em lento movimento, pintando toda a praia de um cor-de-rosa suave, dava lugar ao trânsito citadino da então cosmopolita Luanda.
Era aí que começavam as minhas preocupações. Embora o condutor parecesse dar bem conta do recado, eu interferia na condução. Ainda que a contra gosto, avisava, alertava, carregava num pedal de travão imaginário sempre que a distância do carro da frente parecia encurtar.
- Olha que o gajo vai virar! Cuidado que vai travar! Olha aquele ali que vem para cima de nós!
O condutor, esse, nada dizia, mais parecendo conhecer o caminho que, por aquelas alturas me era totalmente desconhecido. Depois, era a estrada de Catete, naquele seu troço inicial que levava ao Grafanil. O limite de velocidade quedava-se pelos sessenta quilómetros por hora e a porcaria do velocímetro do Unimog indicava a velocidade em milhas. Afanava-me a fazer contas de cabeça, convertendo milhas em metros, até perceber que tudo estaria bem se o ponteiro não passasse além de certo ponto que, calculara eu, corresponderia, mais ou menos, à velocidade máxima permitida: sermos apanhados pela polícia militar em excesso de velocidade, mesmo que apenas por alguns metros, podia fazer nascer um processo disciplinar, cuja pena seria mais gravosa para mim do que para o condutor. Consequentemente, eu insistia:
- Oh pá! Vai mais devagar! Olha que estes gajos da PM são todos uns grandes filhos da puta.
A ansiedade baixava assim que entrava à porta do Grafanil. Por ali andava-se devagar, percorrendo cada um dos barracões da manutenção militar à procura dos produtos necessários: bebidas alcoólicas num, refrigerantes noutro, enlatados num terceiro, depois o das bolachas, o dos produtos de higiene, enfim um supermercado repartido por armazéns espalhados por aquele vasto recinto. Depois de tudo carregado, recomeçava a saga, agora em sentido inverso até nos libertarmos finalmente do trânsito citadino. Uma paragem numa das cervejarias do Cacuaco para matar a sede e saborear uns camarões era suficiente para descomprimir. Depois disso, o caminho de volta a casa era uma bênção; o trânsito era pouco, a estrada não era má e os condutores eram de confiança.

Com o tempo, acabei por me habituar, ou porque as ruas de Luanda se tornaram familiares ou porque o trânsito era agora encarado como rotina normal, ou ainda porque, afinal, concluí que não valia a pena tanta preocupação. Acidentes, acontecem, por muitos cuidados que se tenham; na verdade, nunca tivemos qualquer percalço, nenhum acidente veio conspurcar aquele pacífico fim de comissão às portas de Luanda.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Angola-Onde está a dignidade do Estado Português?

A BAIXA DE LUANDA COM AS SUAS NOVAS CONSTRUÇÕES EM ALTURA



Por motivos profissionais, tive que me deslocar a Angola no passado mês de Março. Tentei, sempre dentro dos limites do tempo disponível, informar-me sobre as transformações que aquele país está a passar e visitar os locais que a memória ainda preserva, e, o que vi, era, de uma maneira geral, positivo: estão a nascer, por todo o lado, hospitais e centros de saúde, escolas, universidades e centros de formação profissional, constroem-se milhares de quilómetros de estradas, recuperam-se e reestruturam-se centenas de pontes, requalificam-se e urbanizam-se as cidades, na periferia (de Luanda, Huambo, Benguela, Lobito, Soyo e Kuito) nascem centros comerciais e bairros de habitação com milhares de fogos, ampliam-se portos de mar e aeroportos, o comércio vai-se estabelecendo e espalhando por todo o lado (importantíssimo o comércio informal e ambulante), iniciam-se projectos industriais com a participação de empresários estrangeiros, enfim, nota-se um país a nascer e a querer crescer com estabilidade.
Mas, as dificuldades criadas pela burocracia, a pobreza, a falta de qualificação dos jovens, os elevados preços dos bens essenciais, a tremenda dependência aos grupos económicos estrangeiros, o estado de destruição em que ficou Angola depois da guerra e o peso na economia de algumas famílias privilegiadas, faz com que o estádio de desenvolvimento seja menor do que o desejado.
Porque pretendia visitar as sepulturas de 2 militares de Penalva do Castelo mortos em combate, cuja localização eu conhecia (info da Liga dos Combatentes) e como a minha filha mora perto de Miramar, fui visitar o Talhão dos Militares Mortos em Combate no cemitério principal de Luanda. Este cantinho de Memória, Coragem, Heroísmo e Portugalidade, foi objecto de um tratamento especial nos acordos da Independência de Angola e cabe ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, através da Embaixada em Luanda, fiscalizar e "tomar conta" de tal espaço.
Melhor fora não ter lá posto os pés!
À entrada, perguntei ao porteiro (funcionário da Câmara Municipal de Luanda) onde estava situado o Talhão Militar:
-Ah! ... do colono? Lá atrás! - e indicou-me, com o braço, o fundo do cemitério, à esquerda.
Pelo caminho fui passado por jazigos artisticamente trabalhados, verdadeiras obras de arte, datados desde o século XIX, e que, milagrosamente, se conservam em bom estado. Ao fundo, à esquerda, lá estava o que eu procurava. À entrada, num pequeno mausoléu, estavam as ossadas de militares mortos em terras de Angola durante a I Grande Guerra e cuja conservação é miserável, e, mais miserável ainda, porque se trata de Património que compete ao governo português preservar.
O Talhão Militar, ali ao lado, já não existe! E, do que resta, a destruição é quase total! O abandono de todos os responsáveis pela defesa daquele lugar sagrado, não tem explicação. Desapareceu toda a identificação e numeração que permita encontrar o que quer que seja, alteraram o alinhamento das campas, foram ocupadas a maioria das campas dos militares portugueses para enterramentos recentes, algumas campas têm os nomes originais apagados e foram gravados no mármore os nomes dos novos inquilinos. A vergonha que senti foi tanta, que chorei e ainda hoje me incomodam as imagens que gravei na memória.
Ainda hoje não sou capaz de falar com clareza de espírito sobre aquele atentado, tal a revolta que sinto.
Má nação aquela que abandona e esquece os ossos dos filhos que derramaram o sangue e deram a vida em sua defesa.
Ficam as fotografias para comprovar







quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Do mar às Terras do Fim do Mundo

Ao fim de nove dias a lutar contra o grande oceano, o Vera Cruz estava de novo imóvel, bem agarrado ao cais de Luanda, tal como o havíamos encontrado à partida, em Lisboa. Não obstante esse facto, continuava estranhamente a sentir o balançar a que quase me habituara, sensação que se manteve por algum tempo, mesmo quando em terra firme.
Por razões de logística, continuaríamos hospedados no navio até à manhã do dia seguinte, sendo bem vinda a dispensa concedida, que provocou uma autêntica debandada, ficando o Vera Cruz em sossego durante o resto do dia.
Apresentei-me à cidade, percorrendo sem pressa toda a marginal que, partindo da zona portuária, parecia desaparecer ao longe, apontando o centro da cidade, espraiando-se como se desenhasse a compasso o suave arco que definia o contorno da baía, impondo-se decidida e caprichosamente sob a sombra de fileiras de esguias palmeiras, geometricamente alinhadas. Debruçados sobre o passeio, no lado esquerdo, mirando a ilha, uma correnteza de edifícios altaneiros conferiam uma imagem de modernidade e fulgor, de entre os quais, o edifício do Banco Comercial de Angola que, erguendo-se majestosamente bem acima dos demais, exibia lá no topo a sigla BCA, a que alguém, com graça e imaginação, atribuíra outro significado. Bai Continuar Ainda, era uma referência à sua altura, especialmente quando comparada com os restantes edifícios da cidade.
A curiosidade óbvia, associada ao ar aprazível da avenida, retardou o passo, adiando o encontro com o coração da cidade cheia de vida e animação. O movimento das ruas, as pitorescas esplanadas estrategicamente montadas à sombra de frondosos jacarandás, frequentadas em permanência por cauteleiros, engraxadores e cambistas apregoando condições vantajosas no câmbio de escudos portugueses por angolares, a animação, o barulho dos aparelhos de ar condicionado que equipavam qualquer estabelecimento - já que o calor não se anulava com uma simples sombra ou soprar de ventoinhas - compunham um cenário bem africano e estranhamente luminoso. A cerveja fresca, bem tirada e servida numa das esplanadas onde abanquei, acompanhada de saborosos camarões oferecidos em vez do tradicional tremoço, juntavam-se à sede a exigir outra rodada. Fiquei na dúvida se a oferta dos camarões era gentileza da casa, ou se, por ali, o camarão era mais barato que o tremoço.
O desembarque formal, após a derradeira noite a bordo, deu início a uma nova etapa de uma viagem, ainda longe do fim, com o transporte para o Grafanil num estranho e indolente comboio, que nos transferiu para outra realidade, diferente, quente, colorida, porém não exótica e muito menos requintada. Cheiros até então não experimentados, davam-nos a conhecer fragrâncias exóticas numa mistura desconhecida de dem-dem fresco com o intenso perfume dos mangais, conluiando-se num desafio aos nossos sentidos olfactivos, à medida que o comboio rolava por carris que pareciam de brincar, contornando a urbe desde o porto e transmi-tindo uma ideia peculiar da cidade. A Luanda que passava perante os meus olhos, era marginal, diferente da que visitara no dia anterior. Em vez de prédios, tinha barracões, cubatas e putos seminus, com pele da cor da terra avermelhada que, numa correria desigual, tentavam competir com a marcha do comboio. Uma ou outra bananeira, que a ilusão da marcha projectava para trás, era motivo de espanto. A maior parte dos que agora chegavam nunca tinha visto uma. E também os cocos, encastrados lá no alto entre as folhas das palmeiras ou as mangas caprichosamente dependuradas de grandes árvores frondosas, vergando os ramos sob o seu peso. E os mamoeiros com os seus enormes frutos pendentes, mais alongados do que as papaias que eu conhecia.
Esta espécie de letargia foi interrompida pela chiadeira que antecedeu a paragem do comboio, anunciando a chegada ao Grafanil, um entreposto militar a lembrar Santa Margarida, local de passagem das unidades para o interior, onde apenas estivemos o tempo suficiente para receber as armas (G3 novinhas em folha) e demais equipamento: cinturão, cantil, cartucheiras, carregadores, respectivas munições e porta granadas. Enfim, o suficiente para ficar convencido que ia para a guerra.
De manhã, bem cedo, o sol ainda não despontara, arrumados em camiões de carroçaria entaipada, partimos em direcção ao sul. Neriquinha, sabíamos agora, era o nosso destino, um ponto no mapa a sueste, bem junto à fronteira com a Zâmbia. A curiosidade levou-nos a calcular a distância. Dois mil quilómetros em linha recta, mais coisa menos coisa, numa diagonal desenhada desde Luanda.
O nascer do dia revelou a linha escura de asfalto que, abrindo-se ao avanço das viaturas, desenhava uma estrada feita de rectas infindáveis, num percurso ondulante, ladeado de viçosa vegetação alimentada pelas chuvas tropicais da época, deixando ver parcelas de terra de um vermelho acastanhado forte, onde aqui e ali, grupos de negros aravam culturas de subsistência.
Era já noite quando alcançámos Nova Lisboa. Arrumados numas instalações militares nos arredores da cidade, dali saímos, a meio da manhã seguinte, em direcção à estação do caminho-de-ferro, após uma noite mal dormida, mas prontos para a próxima etapa que seria feita de comboio, inflectindo ligeiramente o sentido do percurso de sueste para leste.
Levados com antecedência para a estação, por ali andámos, aguardando o momento da partida, numa espécie de habituação às relíquias ferroviárias dos Caminhos de Ferro de Benguela, enquanto a máquina a vapor ia devorando lenha, como que ganhando forças para rebocar uma infindável fila de carruagens e vagões que lhe tinham sido atrelados, numa prévia concentração para mais uma ligação entre a capital do Huambo e a longínqua cidade do Luso, atravessando uma zona que se dizia infestada de terroristas, o que gerou nervosismo e alguma apreensão. A eventualidade de um ataque durante a viagem, levou-me a, disfarçadamente, esquadrinhar a carruagem, dedicando maior atenção ao pormenor dos recantos da cabine onde me instalei, à procura de refúgio ou protecção para as balas que pudessem por ali passar.
Rapidamente me apercebi que a carruagem não exibia qualquer buraco, maleita ou sinal de que alguma vez tivesse estado debaixo de fogo, concluindo que a frequência dos ataques ao comboio era treta, não passando provavelmente de histórias para amedrontar maçaricos recém-chegados.
Fiquei mais tranquilo, especialmente depois de saber que, na frente do comboio, abrindo caminho, com alguma distância, seguia uma máquina rebenta minas, preparada para accionar qualquer engenho explosivo que tivesse sido colocado na linha. Mesmo assim, o temor de algum desses artefactos poder ser accionado por controlo remoto e logo, não anulável pelo estratagema do rebenta minas, deixou-me uma réstia de apreensão que me levou a explorar melhor os canais de fuga, designadamente as janelas ou a localização exacta das portas. Pareceu-me que, em caso de necessidade, seria mais fácil encontrar um abrigo mais seguro fora do comboio, num qualquer buraco ou atrás de um tronco que por ali pudesse existir.
A viagem decorreu monótona, como monótona era a paisagem que, com o coração em sobressalto, os olhos vasculhavam de longe à procura do improvável inimigo, na inútil tentativa de identificar movimentos suspeitos para lá do verde incerto da vegetação que pudesse acoitar o atacante. Mas nada. Nem gente, nem movimento. Nem casario ou cubata. Nem estrada ou picada, vereda ou trilho que pudesse ser percorrido por quem quer que fosse. Pelo menos, da estreita janela da carruagem, não se divisava nada que pudesse constituir ameaça. O cair da noite determinou uma paragem na estação de Silva Porto, permitindo uma incursão pelo casario do povoado. Mas, naquele local, a noite tornava desertas as escassas ruas, pelo que o regresso ao comboio foi a decisão mais acertada, cada um procurando algum descanso numas horitas de sono, no desconforto disponível.
Ainda era noite quando a máquina reiniciou a sua missão de reboque, parando finalmente resfolegante, como que exausta, na estação da cidade do Luso, aí nos entregando, sãos e salvos, quase trinta horas após a saída de Nova Lisboa.
A paragem no Luso foi efémera, já que, no local de destino, os mais de 150 homens que iríamos substituir, aguardavam ansiosos a rendição. Os derradeiros quilómetros da jornada seriam feitos por via aérea, a bordo de uma aeronave até então desconhecida, pelo menos para mim. O Nord Atlas, concebido fundamentalmente para transporte de carga e lançamento de tropas pára-quedistas, teria de fazer várias viagens, levando uns e trazendo outros na volta, já que havia que rentabilizar meios e a lotação das instalações na Neriquinha era limitada.
O meu pelotão, que fora incumbido de fazer a rendição do destacamento no Rivungo, integrou a primeira leva, juntamente com os especialistas a quem competia receber, da companhia rendida, equipamentos, material de guerra, viaturas, tachos, panelas e géneros, para além de outros artigos, artefactos, utensílios e quejandos que por ali existiam, constituindo uma multiplicidade de coisas difíceis de imaginar.
Com algum receio, não sei se maior se menor, mas certamente diferente do que sentira ao acomodar-me no comboio em Nova Lisboa, tomei lugar num dos assentos de lona presos longitudinalmente à barriga do Nord, que levantou voo, no meio de um barulho ensurdecedor, num esforço para arrancar do solo toda aquela fuselagem recheada de vários contrapesos, iniciando uma viagem que ficou até agora gravada na memória. Num sacudir permanente, ora por efeito da trepidação dos motores, ora pelas manifestações atmosféricas e outros fenómenos similares, dava a estranha sensação de que viajávamos num qualquer veículo todo o terreno, percorrendo uma estrada esburacada que, não permitindo sequer a veleidade de um enjoo, ora pairava a alturas consideráveis ora, descendo abruptamente, rasava a copa das árvores, num arrepiante teste à nossa resistência, sobre uma paisagem de um verde desigual.
Durante todo o percurso, não se viram povoações, construções ou outro sinal de vida, ficando a desagradável impressão de que voávamos com destino ao fim do mundo, como que a conferir validade ao nome pelo qual era conhecida a província do Cuando Cubango.
De repente, no meio da paisagem plana, surgiu um minúsculo espaço, constituído por meia dúzia de barracões que, vistos lá do alto, pareciam ruínas desertas, não se divisando mais nada em redor, pelo menos até onde a vista alcançava. O coração bateu forte quando me apercebi que a Neriquinha era aquilo: o nosso destino e morada durante os longos meses que se seguiriam. Pensei que, mesmo sem guerra, deveria ser traumatizante viver ali. Se a isso juntarmos, a distância a que estávamos da civilização, o stress do isolamento, o temor do desconhecido e da eventualidade de um ataque, não andaríamos longe da definição de inferno. Estranho é que, volvidos alguns meses, passei a ver tão inóspito local como um lugar aprazível, familiar, de certa forma agradável. O homem, de facto, é um ser sensacional - habitua-se aos lugares onde tem de viver, mesmo que isso pareça impossível.
O Nord aterrou finalmente na pista de terra batida de cor avermelhada, que corria paralela à cerca de arame farpado que delimitava o local, no meio de uma nuvem de pó vermelho levantado pelo rodopio das hélices, imobilizando-se em frente do que parecia ser a entrada daquele espaço, ocupado por meia dúzia de barracões cobertos com folhas de zinco e que constituíam, não só as instalações militares, mas toda a localidade a que chamavam de Neriquinha. A recepção que nos foi dispensada, pela sua peculiaridade e que eu interpretei como um “estão lixados”, deixou-me preocupado, especialmente depois de reparar numa pequena placa de madeira, rudimentar, estropiada, apontando uma direcção indefinida. Continha a inscrição: Lisboa 13999 Km.