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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Ferradelas de mosquitos

Não há volta a dar; clima tropical e mosquitos andam sempre emparceirados. Não é possível usufruir das cálidas vantagens de um serão africano sem ter de sentir na pele o incómodo doloroso das ferroadas violentas daqueles pequenos seres que se afanam incansáveis em dar cabo da paciência de qualquer ser vivente, sugando o sangue a quem não for capaz de os sacudir antes que consigam ancorar aquela minúscula ferramenta sugadora que dá pelo nome de ferrão. E o pior é que não são esquisitos, tanto ferram no coiro duro duma pacaça, como na pele enrugada e encortiçada de um velho ainda que antes tenham acabado de picar a sedosa derme de uma donzela, contribuído alegremente para a transmissão de doenças por inoculação.
Durante o dia, enquanto o sol faz valer o seu poder escandecente sobre os elementos, não se deixam ver mas, assim que o sol se esconde por detrás do horizonte e o lusco-fusco se instala, surgem em bandos zunindo numa infernal e irritante sinfonia monocórdica, penetrando por nesgas impensáveis, encontrando o mais esconso buraquinho no mosquiteiro para, conquistado o nosso reduto de sossego, nos sugar o sangue enquanto durar a noite.
E o pior é que calor e águas paradas formam o ambiente ideal para que se multipliquem, quer estejamos a falar das remotas e pantanosas chanas do Cuando Cubango quer do pacífico recato das Mabubas onde o enorme manancial de água da barragem, permanentemente mantido ao seu nível pelo incessante caudal do Rio Dande, constituía o alfobre ideal para que se multiplicassem incessantemente. É verdade, no que toca à guerra com os mosquitos, a nossa vida nas Mabubas não era melhor que a passada no desconforto da Neriquinha. Tanto aqui como lá, a guerra contra aquele exército zumbidor era renhida e não havia forma de os vencer.
Nos quartos de dormir, entrincheirados sob a redes mosquiteiras, quase sempre se conseguia dormir sem se ser incomodado, mas na messe, depois do jantar, quando nos juntávamos no alpendre para um bocado de conversa e mais o que conviesse para roer o tempo enquanto a hora do recolher não chegava, a horda de mosquitos atacava em força, de todos os lados, e nem a roupa servia de protecção. Mesmo o tecido grosso do camuflado era facilmente perfurado pelo ferrão aguçado da bicharada ávida de sangue que sabia escolher devidamente as carnes mais expostas ou mais frágeis para se banquetear.
As cadeiras de descanso da messe, aquelas onde, nas horas de ócio, costumávamos preguiçar, tinham uma construção simplista: estrutura em ferro tubular, sendo o assento e encosto formados com uma fita de plástico grosso e de cores garridas estrategicamente entrelaçada e firmemente ancorada na estrutura metálica, plástico que, cedendo sob o peso do corpo, oferecia o conforto necessário. Mas, isso permitia que, no intervalo entre as voltas da fita, bocados do rabo e das costas, ficassem à mercê da voracidade do mosquitame, perante a nossa impossibilidade em ripostar.
Era uma luta desigual já que, um ou outro que, com uma palmada certeira, se conseguia esborrachar, pouca ou nenhuma brecha fazia naquele exercício de milhões constantemente renovado, não obstante contarmos sempre com a ajuda adicional de um pequeno pelotão de osgas que se entretinham patrulhando a parede do alpendre da messe e emboscando as melgas mais distraídas. Com uma destreza impressionante e em avanços subtis, aproximavam-se dos insectos que por ali pousassem e num movimento tão rápido quanto um piscar de olhos, como se impulsionados por uma mola, precipitavam-se sobre a minúscula presa que, engolida, desaparecia como num passe de mágica.
Não tenho a certeza, mas creio que chegámos a atribuir nomes a algumas delas: bichos que, vá -se lá saber porquê, continuam a ser considerados por muita gente como repugnantes, eram, naquele sítio, encarados como animais de estimação. O facto é que, na messe, era rigorosamente proibido molestar osgas, mas imperativo liquidar melgas que, ainda assim, nos atacavam por baixo, ferrando o bocado da nádega que espichava por entre as fitas plásticas do assento da cadeira.
Pois é, o seu atrevimento não tinha limites e nem respeitavam autoridades ou hierarquias; desde que tivessem oportunidade de ferrar a aguilhão sugador, faziam-no sem pedir licença.
Certa vez, lá na sede do batalhão instalada num casarão de traça colonial implantado à sombra dos palmares da Fazenda Tentativa e gozando da frescura viçosa propiciada pela proximidade dos seus extensos canaviais, o comandante queixava-se perante a oficialada presente, como que se insurgindo contra as vorazes melgas que se atreviam a molestar tão distinta patente.
- Picam-me as pernas mesmo por cima das calças! - Desabafava com estupefacção.
Entre o grupo estava o major Tamegão, militar de carreira vindo do curso de sargentos que, já de idade avançada, atingira o posto base dos oficiais superiores do exército e que, desempenhando as funções de segundo comandante responsável pela burocracia administrativa do batalhão, cumpria então a última comissão da sua vida. Para se perceber melhor a cena, convém salientar que o major, espécie de cabo arvorado com galões, era um exemplo de cromo que ainda hoje alimenta o anedotário que anima qualquer encontro de quem com ele privou. Era um homem sui generis, exibindo uma figura física nada harmoniosa que faria as delícias de qualquer caricaturista: baixo, largo e desproporcionado, usava sempre calções que deixavam a descoberto as pernas curtas e enfezadas que pareciam suportar com dificuldade o resto do corpo, dando maior dimensão ao aspecto ridículo da sua figura, sem desprimor pelo homem que, verdade seja dita, não fez inimigos por ali.
Reagindo ao desabafo do comandante, o Tamegão tentou uma laracha, ripostando:
- A mim não!
A sua evidente falta de jeito para fazer humor, levou a que ninguém tenha percebido que tentava fazer piada e a prova é que o comandante, não entendendo o motejo, olhou directamente o major e muito sério questionou:
-Ora essa senhor major! As melgas não o picam?
O Tamegão, ensaiando um sorriso forçado numa vã tentativa de conferir significado ao seu fraco sentido de humor, apontou para a parte das pernas não coberta pelos calções, e respondeu:
- A mim, picam-me directamente na pele.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A AÇUCAREIRA

Ali bem pertinho, um par de quilómetros a oeste do Caxito, a Fazenda Tentativa espraiava-se pelas margens férteis do Rio Dande que se passeava preguiçoso por entre hectares e hectares de plantações de cana-de-açúcar e palmeiras dendezeiras. A fazenda era propriedade da Companhia do Açúcar de Angola, que detinha ainda fazendas mais a sul, mais propriamente no Cubal e no Dombe Grande, verdadeiro império empresarial da família Sousa Lara que produzia de tudo um pouco salientando-se o açúcar de que era a maior produtora de todo o território e ainda sisal, óleo de palma e coconote entre outras coisas.
Inicialmente, eu não fazia a mínima ideia do que aquela fazenda produzia. Havíamos por lá passado na etapa final da viagem que nos trouxe das longínquas Terras-do-Fim-do-Mundo mas, na altura, nem dei pela sua existência. Albergava a sede do batalhão, o que significava proximidade do comandante e isso era o suficiente para eu querer distância dali. Das vezes que por lá passei, por imperativos de serviço, dirigi-me sempre à secretaria, o mais rápido possível e zarpava antes de qualquer encontro imediato. Ou o homem saía pouco do círculo restrito do seu gabinete ou tive sorte. O facto é que nunca dei de caras com tal pessoa. Ainda hoje recordo, numa revolta mitigada e quase esbatida pelo tempo, o raspanete imerecido que me deu em plena pista empoeirada da Neriquinha, enquanto aguardava o momento de subir para o Alouette que me levaria até às profundezas da savana para mais uma desgastante operação militar contra um inimigo que não quis medir forças connosco. Enfim, reminiscências agora temperadas pela riqueza exuberante de uma fazenda, ali quase às portas do bulício citadino de uma aprazível Luanda.
Atrevo-me a afirmar que, para mim, a Tentativa tinha uma aura especial. Tenho a certeza de que a via de forma diferente do resto do pessoal. Da baga do dendém, confesso que, até então, nunca tal tinha visto ou imaginado, mas a plantação e cultivo da cana-de-açúcar era algo que fazia parte da minha existência. Aprendi a distinguir as suas variedades, sabia escolher a mais sumarenta e mais doce e não resistia ao seu suco delicioso que saboreava chupando‑o gulosamente até não restar gota.
Nasci e cresci na Madeira absorvendo as preocupações do meu pai numa luta permanente contra as pragas que dizimavam a plantação, exigindo cuidados que nem se extinguiam na azáfama anual da colheita e seu transporte para o engenho que a transformava em branco açúcar, em espesso e escuro mel, dali saindo ainda uma aguardente explosiva que, para ser bebida, tinha ser diluída e amaciada. Esta agro-indústria, a par com a produção de vinho, representava então, umas das maiores riquezas da ilha que me viu nascer.
Por tudo isto, entende-se a compreensível atenção que eu dispensava a todo o processo, já que a única semelhança encontrada ficava-se mesmo pelo aspecto da cana; tudo o mais era diferente. Habituado à plantação alinhada em regos paralelos desenhados nas nesgas de terra empoleiradas nos socalcos das encostas madeirenses era, pelo menos para mim, uma espectacular novidade a enormidade dos canaviais espalhados pelas ricas planuras da fazenda, dessedentando-se no generoso caudal do Dande que, uma vez domado por uma ou duas represas, deixava que as águas circulassem por canais de rega estrategicamente construídos por entre os terrenos da plantação.
Ali a cana crescia livremente formando um matagal intransponível que apenas desaparecia na altura da colheita, feita a golpes de cutelo por um exército de milhares de trabalhadores. Para além dos canaviais, que se avistavam da estrada, nunca me foi dado tomar consciência da sua real extensão e capacidade produtiva. Sabia, contudo, que a cana era transportada em pequenos vagões que rolavam por carris de ferro puxados por um tractor desde o local da colheita até à fábrica.
Constava que tinha vinte quilómetros quadrados de extensão, mas isso não me permitia ter a noção do seu significado. Apenas tendo em consideração que a fábrica laborava durante todo o ano e que o ciclo de crescimento da cana era em média de doze meses, conseguia imaginar a enormidade da extensão e da capacidade produtiva daquela fazenda à qual, a linha férrea conferia maior dimensão. Não sei se era assim, mas lembro-me que, na altura, juntando todos estes elementos, me pus a concluir que havia sempre cana em condições de colher, numa espécie de carrocel sem fim: à medida que ia sendo colhida, voltava a crescer ao ritmo da capacidade de laboração das prensas que incessantemente a espremiam.
Quando, finda a comissão, por ali passei na viagem de regresso a casa, lembro-me vagamente de ter deitado uma última olhadela aos canaviais que se estendiam desde a estrada. A folhagem da cana ondulava ao sabor da fraca brisa, quase pronta para nova safra como ciclicamente acontecia desde os recuados anos vinte, altura em que foi fundada a Companhia.
Sei que, após a independência, passaram a chamá-la de “A Açucareira”. Contudo, reza a história que, alguns anos volvidos, cessou toda a produção e todo o casario da fábrica incluindo os armazéns do açúcar, se transformou em ruinas.
Não sei o que lá se planta nos dias de hoje, mas o esqueleto de toda aquela riqueza ali permanece como um fantasma que, após a morte física, se obstina em não abandonar o mundo dos vivos.
Qual terá sido o paradeiro de toda a maquinaria pesada que equipava a fábrica? E os carris de ferro? Ainda se deixarão ver?
Bem, na verdade, nem quero saber.