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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Missão no Chipundo

Recordo o Chipundo como uma espécie de derradeira fronteira. Localizado lá bem para baixo, a sul do Rivungo, no limite inferior, espécie de extrema da área operacional atribuída à companhia, era, bem se pode dizer, um verdadeiro fim-de-mundo plantado no próprio fim do mundo, usufruindo da mansuetude refrescante do Rio Cuando que, no seu indolente serpentear em direcção a sul, ali tocava a margem que definia o perímetro do aldeamento. O Chipundo era um aglomerado de palhotas de capim, de maior dimensão que um simples kimbo e, por isso, tinha um administrador de posto e um pequeno efectivo da PSP, ambos dependentes das chefias administrativas e policiais estacionadas no Rivungo.
Ao longo das duas comissões, se assim se pode chamar às duas vezes que coube ao meu grupo de combate guarnecer o nosso destacamento na pequena povoação do Rivungo – seis meses ao todo – fui mandado ir ao Chipundo, umas quantas vezes. Uma delas, para recolher e levar dali o Land Rover da PSP, estropiado na sequência do acidente que matou o subchefe, retalhado pelos estilhaços da granada que, por incúria sua, explodiu dentro da cabine da viatura e a outra, a que inspirou esta crónica, incumbido de uma missão de patrulhamento e segurança – para marcar presença – daquelas a que se dava o nome de “acção”, designativo de uma operação militar de pouca importância.
A picada que levava ao Chipundo atravessando sempre a mesma savana, plana e agreste, sempre me deu a sensação de ser a descer, não obstante nada naquele percurso subisse ou descesse. E, no regresso, pelas mesmas razões, parecia-me sempre a subir. Mas era apenas impressão minha, uma espécie de armadilha do subconsciente, talvez condicionado pelo facto de, aquele caminho levar ao sul e às terras do Luiana, lá, junto à Faixa do Caprivi, vizinha do grande delta do Okavango, bem longe da área que nos cabia, já de si demasiado extensa.
O facto é que a picada, essa, serpenteava caprichosa, como aliás qualquer caminho que por ali existisse, umas vezes areenta e cansativa onde as viaturas se enterravam lavrando areia seca e fofa, noutras lisa, bordejando as chanas secas para, mais à frente, atravessando charcos e arroios, se transformar em lamaçais insuspeitos. Não sei porquê, mas foi o único sítio onde me deparei com ameaçadoras manadas de búfalos pastando, indolentes, e bandos de pequenos e pacíficos macacos, às centenas, saltitando de árvore em árvore.
Como de costume, saímos cedo, arrumados no pequeno unimog do destacamento, com a capacidade exacta para transportar o grupo designado para a missão: eu, um cabo, quatro soldados, o condutor um transmissões e um enfermeiro, alcançando-se o Chipungo em pouco menos de quatro horas, onde o pessoal da PSP já nos aguardava expectante frente ao pequeno posto localizado do lado direito do aglomerado de cubatas, não muito longe da orla da mata.
Ficámos por ali um bocado. Um dos objectivos era exactamente o de marcar presença, coisa que não exigia grande esforço. Naquele lugar, tão remoto, a chegada da tropa era sempre um acontecimento e creio que os ouvidos apurados da população já há algum tempo haviam identificado a nossa aproximação denunciada pelo barulho do motor do unimog que não se confunde com qualquer outro. Preguiçámos por ali, almoçámos, aproveitámos o ensejo para contar as poucas novidades, usufruiu-se da permanente boa disposição do subchefe e recuperámos da viagem que não fora, e nunca era, propriamente um passeio.
Mas era necessário dar continuidade à missão. Rumámos a sul, seguindo a picada que, iniciando-se na orla da mata, serpentava pelo capim e rolámos durante algum tempo, o suficiente para se perder de vista as cumieiras de colmo das palhotas do kimbo. Saímos da picada e penetrámos na mata até se encontrar um local com sombra logo ali à beira de um riacho que me limitei a supor ser um daqueles braços de rio abandonados pelo caudal principal do Cuando. A nossa missão não tinha propriamente um objectivo determinado por um qualquer ponto a atingir. Limitava-se a estar presente, andar por ali, mostrar que a tropa não se confinava ao sossego do aquartelamento e, para ser honesto, estarmos ali, ou mais abaixo não tinha diferença e não comprometia o cumprimento da missão.
Instalámo-nos, cada um escolheu a melhor sombra, escrutinámos cuidadosamente todo o espaço à volta para evitar surpresas desagradáveis, cuidou-se da segurança definindo as escalas de sentinela, estendeu-se por sobre as árvores a antena do rádio, na altura, um moderno Racal TR28, estabeleceu-se contacto com a base informando da nossa posição e por ali molengámos até que a noite caiu.
Aquela noite foi um inferno. Caiu uma chuvada e com ela o desconforto de um friozinho austral pouco agradável, embora eu estivesse preparado para isso; vesti uma camisola de lã junto ao corpo, por cima enfiei a camisa do camuflado e, por cima desta, o dólman que, reforçado por uma camada de entre-tela, garantia uma protecção extra contra o frio e uma barreira contra as ferroadas das melgas. Enterrei o quico na cabeça, enrolei-me no poncho e procurei dormir. Consegui, mas por pouco tempo, o suficiente para as melgas me descobrirem. Rondaram zumbindo a noite toda à procura de sangue fresco, esbofeteei-me mais vezes do que desejava, enrodilhei-me o melhor que pude na protecção impermeável do poncho mas nada as demoveu. Quando o dia clareou e o frio da noite se foi, todos exibiam o rescaldo da luta travada contra o mosquitame. As bolsas de sangue das melgas esborrachadas à bofetada, tinham deixado, na cara de cada um, a sua marca sob a forma de riscos a fazerem lembrar pinturas índias. A princípio, cheguei a admitir que escolheramos mal o lugar para pernoitar mas, bem vistas coisas, melgas haveria sempre, mais perto ou mais longe da água e, pelo menos da sombra, não nos podíamos queixar.
Considerei que a missão estava cumprida e regressámos ao Chipundo. Ainda tínhamos muitas horas pela frente até chegarmos ao aconchego dos lençóis à nossa espera no Rivungo. E dava jeito lá chegar a tempo do jantar. Fizeram-se as despedidas e o condutor pôs o unimog em marcha em direcção à picada que nos trouxera até ali. Olhei de relance e julguei perceber um aceno de despedida do subchefe da PSP.
Seria a última vez que o veria vivo; aquela granada, estupidamente negligenciada, haveria de o matar antes que voltássemos a nos encontrar.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

LITENDA – O Administrador do Rivungo

Existiam diferenças entre a Neriquinha e o Rivungo e significativas, sem dúvida. Desde logo, a proximidade do rio. Na Neriquinha não corria água enquanto que o Rivungo era banhado pelas substanciais águas calmas e sinuosas do Rio Cuando. Contudo, a principal diferença residia na sua estrutura administrativa. Enquanto a Neriquinha era apenas uma espécie de acampamento militar, delimitado por uma cerca de arame farpado, à beira de um descampado em forma de pista de aviação, o Rivungo era considerado uma povoação. Em termos administrativos, uma Circunscrição. Isso significa que tinha casas e uma autoridade administrativa, para além das instalações militares que albergavam, junto ao Rio, um destacamento do exército enquadrado por um pelotão da companhia da Neriquinha e um destacamento de Marinha. Havia ainda dois agentes da DGS, que se entretinham em secretas actividades de espionagem e a PSP, cuja missão não era propriamente a manutenção da ordem pública mas a defesa das populações que habitavam os Kimbos administrativamente dependentes do Rivungo e disseminados pela mata a distâncias consideráveis: o Liahona, o Mugamba e o Demba, no enfiamento da picada que levava à Neriquinha, o Caxoxo meio perdido mais para o interior, o Samatamo à beira do Cuando a meio caminho do Chipundo, constituindo este a derradeira fronteira a sul e finalmente, ali bem pertinho, a Mahinha, pequeno kimbo com meia dúzia de cubatas, arrumado no meio das lavras mantidas pela população.
A mandar em tudo isto, o Administrador. Em tudo não, que o homem não mandava na tropa, nem na marinha e tão pouco na DGS e tenho dúvidas quanto à sua ascendência sobre a PSP. Mas era de facto a autoridade civil máxima por aquelas bandas e não deixava os seus créditos por mãos alheias.
Creio que nunca cheguei a saber o seu nome de baptismo e quanto ao seu apelido, perdi-o nos recantos da memória. Formalmente, era tratado por Senhor Administrador, pelo menos era esta a forma como todos se lhe dirigiam, desde o membro mais insignificante da população até às mais altas hierarquias que por ali andavam. Tirando isso, era simplesmente conhecido pela alcunha de Litenda. Fosse em que circunstância fosse, estivesse quem estivesse, desde que o homem não andasse por perto, Litenda era o nome que se usava, mesmo em ambientes formais. E tornou-se tão vulgar que havia quem pensasse ser esse o seu nome, embora se soubesse que não gostava da alcunha, mostrando-se enfadado sempre que se apercebia que assim o tratavam.
O Litenda era um homem peculiar, de tal forma que quem quer que tivesse estado no Rivungo, nunca mais o esqueceu. E, no Cuando Cubango, mesmo quem não o tenha conhecido, certamente que dele ouvira falar. Fosse em que circunscrição fosse, o seu nome e as suas façanhas eram sobejamente conhecidas.
As suas características físicas eram marcantes, quase especiais, diria únicas. Tirando os membros da população local, era certamente o mais velho habitante do Rivungo, o que é natural já que, entre os que por ali andavam em missão de soberania, poucos haveria com mais de trinta anos. Exibia uma pose estudada de jovialidade e desenvoltura, numa tentativa ensaiada de disfarçar a idade denunciada pela vasta e luzidia calvície, característica que lhe deu a alcunha: No dialecto local, Litenda significava careca e encerrava em si uma carga depreciativa.
Corpo esguio, normalmente enfiado numa farda cor de caqui, cujo corte lhe realçava a magreza, especialmente a calça estreita, quase justa pelos artelhos, a alongar o sapato que fazia questão de usar no meio daquele mundo de pó. Sobre os ombros, uns galões com aplicações avermelhadas atestavam a autoridade que o cargo lhe conferia. A pele tisnada, de um castanho carregado pela exposição ao sol acentuando o brilho da careca sem pêlo, denunciava uma vida inteira de deambulações pelas savanas e recônditos lugares das profundezas de África, acumulando histórias e aventuras que contava à medida do discorrer de memórias de tempos passados, uma das quais certamente explicaria a perda de um olho, cuja cavidade vazia era preenchida por uma esfera de vidro rapidamente identificável pela imobilidade das pálpebras envolventes.
Era, enfim, o típico branco africano que parecia conhecer bem a zona, os costumes e até os hábitos dos turras. Sabia sempre de um caminho novo nos itinerários que percorria amiúde nas visitas que ia fazendo às populações espalhadas pelos kimbos da circunscrição que chefiava, sendo notória a sobranceria com que as tratava. Dando-se ares de superioridade perante populações que parecia considerar como seres inferiores, fazia alarde das receitas que possuía para os manter controlados. Como costumava dizer:
- Importa é que não armem maka!
Maka, termo, que por ali significava confusão, era coisa que, pelo menos no meu entender, não fazia sentido: aquele era um povo pacífico que só se preocupava com a sua subsistência e nunca os vi causar distúrbios que merececem preocupaçao.
Sempre ao volante do seu Land Rover, autêntico parceiro de aventuras, circulava pela savana imensa, acompanhado por dois ou três Cipaios, espécie de guarda pretoriana sem condições para fazer frente a qualquer eventualidade. Armados apenas com velhinhas Mauser, totalmente desadequadas à realidade da guerra e que, já naquela altura, mais se pareciam com peças de museu, mesmo quando comparadas com o armamento dos guerrilheiros. Mas era esta a companhia do Litenda nas suas incursões pela mata, especialmente um deles que não descolava do Administrador, acompanhando-o para onde quer que fosse, como uma autêntica sombra sem nunca se lhe ouvir uma palavra ou lamento; e quando andava sozinho, levava certamente um recado a alguém em cumprimento de ordens do chefe. Arrumados nas traseiras da viatura, procurando a todo o custo não serem cuspidos pelos contínuos solavancos, saltos e piruetas a que a picada esburacada obrigava, representavam a única segurança com que o Litenda se atrevia pelas matas, como se estivesse protegido por um qualquer pacto que lhe assegurava imunidade à eventualidade de uma emboscada, coisa que, verdade seja dita, nunca lhe aconteceu, pelo menos enquanto andou por terras do Cuando Cubango.
Nas suas mãos, o Land Rover dava o máximo, que o Litenda não sabia conduzir devagar; dizia que assim evitava atascar na areia solta. Mas verdade seja dita, dentro ou fora da povoação, a velocidade era sempre a mesma. Quando nos visitava, normalmente para tratar de qualquer formalidade com o alferes, acelerava pela picada que findava junto às nossas instalações e numa manobra ensaiada e quase mecanizada pelo número de vezes que a executou, rodava o volante para a direita, inclinava o corpo para o mesmo lado como se quisesse anular o efeito da força centrífuga e num rodopio, como se intentasse fazer inversão de marcha, colocava o Land Rover numa posição perpendicular à picada, deixando-o depois descair pelo declive parqueando no terreno adjacente.
Até um dia. O alferes, talvez inspirado no sistema de defesa da Neriquinha, decidiu cavar, logo ali ao lado, um buraco rectangular onde pretendia montar o morteiro e com isso aumentar a capacidade de defesa em caso de ataque à localidade.
Poucos se aperceberam do avançar da obra e o Litenda, para sua infelicidade, desconhecia-a de todo, não sabia, nem tinha sido informado.
O pior, é que o sítio entendido como adequado para abrir a trincheira foi exactamente aquele onde, por hábito, o Administrador costumava largar a viatura. A agravar a situação, o pessoal destacado para a obra exagerou no tamanho do buraco.
Assim, quando uma qualquer razão levou o Litenda a visitar-nos, montou-se no Land Rover, acelerou pela picada e com estilo executou com mestria a manobra do costume, deixando depois a viatura deslizar de marcha-atrás pelo declive. Não viu nem podia ver que, naquele exacto local, existia agora um buraco e de tamanho suficiente para engolir a viatura cujas rodas do seu lado esquerdo acertaram direitinhas no vazio da trincheira em construção. O Land Rover adornou, afundou-se lentamente, enrolou-se sobre si mesmo capotando e pousou no fundo da trincheira de rodas para o ar numa posição caricata, com os quatro pneus a rodar no vazio como um qualquer escaravelho que, ao tombar, não se consegue endireitar, dando às patas numa tentativa de sair da posição desconfortável.
A muito custo e ainda meio atarantado, o Litenda, esgueirou-se do interior da cabine e trepou até sair do buraco. Sacudiu-se, tentou compor a pose, ensaiou um ar irado e apontando o buraco, gritou:
- Quem abriu aqui este buraco?
Conteve-se, procurou acalmar-se refreando o chorrilho de asneiras que se adivinhava pronto a sair, engoliu em seco e pareceu raciocinar sobre o que lhe acabara de acontecer, à medida que tomava consciência da situação. Ao ver o ar sério e preocupado do alferes deve ter juntado dois e dois e deduzido que o culpado tinha autoridade e se calhar justificação para mandar executar a obra. Só não sabia qual.
A risada mal disfarçada dos circunstantes misturou-se com a preocupação agravada pela culpa assumida - o homem podia ter-se magoado a sério. De facto, podia ter-se ali colocada uma sinalefa qualquer, avisando do perigo. Mas agora era tarde e ao alferes, apenas lhe saiu um:
- Então, Sr. Administrador! O senhor está bem?
Eu não resisti a olhar insistentemente para a cara do homem. O capotanço, mais parecendo uma cena em câmara lenta, não causou grande estardalhaço, mas podia ter-se magoado, partido qualquer coisa ou, lembrei-me, ter perdido o olho de vidro.
Mas não, nem um arranhão. O Litenda apenas se esforçava por conter a irritação ao mesmo tempo que balbuciava.
- Eu não tenho nada! A viatura é que deve estar toda partida!
E acocorando-se, espreitava a parte visível da carroçaria procurando avaliar os estragos.
- E agora? Como vamos tirar isto daqui?
Era de facto um problema a resolver. O Land Rover não estava apenas capotado, estava completamente encaixado dentro do buraco que mais parecia ter sido feito à medida. Tirá-lo dali não iria ser fácil, não obstante as sugestões, bitaites e toda a espécie de palpites por parte dos circunstantes. Por sorte, decorriam as obras de construção da nova pista de aviação havendo, por isso, maquinaria pesada capaz de desenterrar a viatura sem a amachucar mais do que já estava.
No fim, pelo ridículo e embaraço da situação, a auto-estima do Litenda saiu mais amachucada da refrega do que o Land Rover acidentado.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Sub-Chefe da PSP do Chipundo

Saíra muito cedo com a incumbência de recolher no Chipundo o acidentado Land Rover da PSP daquele posto. Para a missão, dispunha de uma velha berliet e meia dúzia de homens (eu e o condutor incluídos). Uma pequena depressão no terreno, a ajuda dos taipais laterais a fazerem a vez de rampa, alguma imaginação e trabalho braçal, resolveram o problema de carregar sobre a berliet a viatura estropiada que jazia morta, inútil e exposta às intempéries, nas imediações das instalações da PSP, autêntica imagem de um trágico desastre, dificilmente compreendido.
Percorríamos agora o caminho de regresso, avançando cautelosamente pela picada irregular, já que o Land Rover, movendo-se constantemente numa dança instável, ameaçava fugir da boleia, obrigando a uma paragem para reforçar as improvisadas amarras que, através dos buracos do fundo da carroçaria, o prendiam à estrutura da berliet.
Aquele troço, já nosso conhecido, serpenteava ao longo de uma zona desarborizada no meio da qual, dois sulcos desenhavam uma picada riscada no verde da paisagem, compondo uma espécie de corredor apontando em direcção a norte. A mata, de ambos os lados, aparecia um pouco mais ao longe, definida por uma linha de árvores feitas sentinelas à entrada de uma terra de ninguém de onde emergia uma manada de imponentes búfalos pastando indolentes. No outro lado, um grupo de pequenos macacos saltitando de árvore em árvore, grunhiam atrevidos como que provocando aqueles intrusos montados numa geringonça barulhenta por ali vista apenas de quando em vez.
O Chipundo era o último reduto, espécie de fronteira mais a sul daquilo que se poderia chamar área de actuação da CCaç 3441 e distava cerca de 3 a 5 horas a partir do Rivungo. Naquelas paragens, a distância dependia sempre da época do ano, do estado da picada, das condições climatéricas e muitas vezes das birras da viatura que se utilizasse, fazendo com que algumas dezenas de quilómetros parecessem centenas.
Era uma espécie de subdivisão do círculo administrativo do Rivungo e assimilava-se, em quase tudo, a um Kimbo, só que maior, mais populoso e claro, mais importante. Ficava situado no bocado de terreno que compunha o interior do cotovelo formado por uma curva apertada do Rio Cuando, lugar aprazível que propiciava, entre outras coisas, o ensejo de se poder tomar banho no rio, coisa não propriamente despicienda numa região onde não existiam duches e as temperaturas podiam subir aos 45º durante a maior parte do ano. Quanto ao mais, dir-se-ia que o Rivungo, comparativamente, nos parecia estar no limiar da civilização.
A maior dimensão do Chipundo e porque não, importância, face aos restantes Kimbos, determinava maior efectivo policial, ali composto por três ou quatro polícias e outros tantos ajudantes. Para os comandar fora nomeado um Sub-Chefe que chegara de Serpa Pinto, passando pelo Rivungo e transferindo-se para o Chipundo no velho Land Rover do posto, conduzido pelo experiente motorista, conhecedor da viatura, do trajecto e correspondentes redondezas.
Era um homem jovial, alegre, de riso fácil e vivacidade contagiante, estabelecendo de imediato uma empatia com toda a gente. O seu estilo desinibido permitiu-lhe ganhar amigos rapidamente, tornando-se popular e conhecido
Aprendemos a conhecê-lo. Aparecia de quando em vez no Rivungo, quando ali se deslocava para tratar dos assuntos a que a função obrigava ou, quando em missão para aqueles lados, parávamos pelo Chipundo.
Uma vez chegado ao seu novo posto de comando, tratou de reconhecer a zona. A sua missão de proteger as populações obrigava a que conhecesse bem o terreno circundante. Num local onde a mata começa a escassos metros do limite da aldeia e nada existe a separar, é muito difícil ficar-se confinado ao perímetro das cubatas, especialmente para um homem com as características do Sub-Chefe, que tirava o máximo proveito do que a natureza tinha para oferecer.
Tratava-se de uma região imensa, absolutamente plana e muito pouco povoada, já que a guerra empurrara para pequenos aglomerados uma população essencialmente nómada. A natureza propiciava uma certa abundância natural em frutos selvagens, algumas raízes e fundamentalmente em caça. Num local tão distante, onde não havia supermercados e os géneros chegavam a conta gotas trazidos pela tropa em reabastecimentos conduzidos por uma logística de guerra, a caça, abundante e variada, era sem dúvida um recurso não negligenciável e a juventude e voluntarismo do Sub-chefe, levava-o a aventurar-se em incursões pela mata, com o objectivo de arranjar algo de fresco para o jantar e, muitas vezes, para alimentar as populações.
Numa destas incursões, por excesso de confiança à mistura com outro tanto de incúria e desrespeito pelas mais elementares regras de segurança, o sub-chefe, sabe-se lá porquê ou para quê, colocou no porta-luvas do Land-Rover uma granada.
Não é difícil imaginar o que acontece a uma viatura destas, ao percorrer aqueles itinerários acidentados, numa altura em que a tecnologia de conforto na construção automóvel ainda não atingira o grau de sofisticação actual, especialmente quando se fala de um veículo já com seis dígitos no conta-quilómetros. Tudo o que se encontra dentro no habitáculo salta num frenesim constante e violento.
A granada, solta dentro do porta-luvas, saltava perigosamente com os constantes solavancos. O bater continuado nas paredes do minúsculo espaço a que fora confinada, fez com que a cavilha de segurança se fosse soltando lentamente. Para ajudar, o compartimento não tinha porta. Esta, há muito desaparecera com os anos de uso da viatura. Na verdade creio que nunca existiu.
A granada acabou por saltar do minúsculo porta-luvas, caindo aos pés do sub-chefe. A cavilha de segurança, já praticamente fora do orifício, acabou por se soltar totalmente ao embater no fundo da viatura, libertando a alavanca e espoletando o mecanismo que acciona a explosão.
Não se sabe se o malogrado polícia chegou a aperceber-se da queda da granada. Decorridos quatro segundos, tempo que leva a consumir o pequeno rastilho que liga a espoleta ao detonador, a explosão, violenta e assassina, projectou um sopro de morte, carregado de estilhaços, que retalhou o corpo do sub-chefe, roubando-lhe a vida e abrindo um rombo no tejadilho metálico da viatura.
No dia seguinte, o corpo foi transportado para o Rivungo, aguardando, numa das casas vazias, os necessários preparos para a trasladação. Tive a infeliz oportunidade de ver o efeito devastador que aquele engenho de morte provoca num corpo humano. É que, fui destacado para ajudar o técnico que, vindo de Serpa Pinto, procedeu à selagem da urna de chumbo já que, o estado lastimoso em que se encontrava o corpo impedia que um homem só desse conta do recado. Ainda hoje, por vezes, associo a mortos o cheiro de chumbo derretido.
Por ironia do destino e passado algum tempo sobre o acontecido, também me coube a tarefa de recolher a viatura acidentada. O Land Rover viajava agora sobre a Berliet, balançando ao ritmo bamboleante da picada, como se de um corpo morto se tratasse.
Saí da letargia em que a recordação me mergulhara. O silêncio era apenas violentado pelo motor da berliet que, indiferente a tudo, vencia o resto do troço que levava ao Rivungo.