-Até pr’a semana!Dois beijos na mãe, um abraço ao pai, mais apertado desta vez, um carolo no caçula e, ala, porta fora, atordoado com as saudades que só mataria daí a mais de um ano de distância.
Saltei a meia dúzia de degraus para a rua e, sem revirar o olhar para a moldura da porta onde eu sabia estarem a absorver uma última imagem, entrei no carro que me deu boleia até Mangualde onde apanharia o comboio para uma viagem, cuja incógnita do regresso, esmagaria os meus pais, caso soubessem o meu novo destino. Lágrimas, não; mas um vazio opressivo teimou em me acompanhar toda a viagem. Ficara alguma coisa por fazer, ou, no mínimo, por dizer. Esta injustiça viria a perseguir-me toda a vida.
Aquele
-Até p’ra a semana!
foi a melhor mentira que encontrei para os livrar da dor que eu já sentia há semanas.
Estava mobilizado para Angola e ninguém sabia, excepto uns quantos amigos de peito: a Ivone, o Jorge, o Vítor Cravo e a namorada da ocasião. Não era notícia que agradasse dar, fosse a quem fosse, muito menos à família. Souberam-no através de um postal, enviado do Funchal, onde o Vera Cruz atracou a caminho de Luanda. O que escrevi, que a coragem e o aperto d’alma não dava para mais, foi curto, abreviando, em desenhos de má caligrafia, pressurosos e envergonhados, os dizeres da fuga e do silêncio que há dois dias me consumia
“Vou a caminho de Angola. Depois telefono. Beijos”.
Nunca telefonei.
Aerogramava, como todos, e, sempre em curtas, evasivas e saudosas mensagens.
A folia contínua no barco não permitia que as ideias fluíssem com serenidade, comendo-nos o raciocínio e fazendo pairar, sobre todos nós, a dose de inconsciência necessária ao sonho de aventuras heróicas numa terra e numa guerra de que apenas conhecíamos o nome. Neste vazio doce e involuntário, ocupava-se o tempo com coisas para encher coisa nenhuma: a viagem de barco (como vomitei durante dia e meio!), o tempo passado na jogatina da lerpa (jogo oficial dos militares no Ultramar), os copos (que iam diluindo, tal como a distância, a temporã saudade dos mais próximos), a euforia juvenil do guerrilheiro (que escondia mágoas à espera do tempo de carpir), as caras dos militares da 3441 em rápido processo de conhecimento (e que durante dois anos seriam a nossa família mais chegada), a expectativa de ver África pela primeira vez (cheia de perigos das doenças tropicais, feras e terroristas, pensávamos nós) e o medo do desconhecido. E logo ali se foram definindo e forjando as amizades sólidas, que o futuro veio a confirmar, nos palpites de ocasião sobre a compra, naquele supermercado ambulante, de máquinas fotográficas Cannon, relógios Orient e outros artigos “livres de impostos”, com que os Sargentos da Marinha nos comiam os últimos escudos do subsídio de mobilização (7.000 escudos, que fortuna, naquele tempo!).

Luanda, a Baía de Luanda, apareceu difusamente no horizonte e uma curiosidade quase sobrenatural cometeu o milagre de silenciar centenas de bocas e paralisar os gestos dolentes, aferroados pelo calor tropical, trazendo-nos à realidade e ao receio de, finalmente, a grande aventura das nossas vidas, começar a delinear-se naquelas curvas suaves da terra que se avistava ao longe e que crescia lentamente aos nossos olhos.
Atracámos, carregados de sacos e recordações. Desfilámos, inchados de coragem e escondendo os receios que nos assaltavam em catadupa. Encomboiaram-nos para o Grafanil e tudo foi novidade, para mim, na mais pequena e espantosa viajem da minha vida: os miúdos, milhares, numa infindável corrente humana que corria ao longo da linha gritando, para estupor de todos nós; aquele calor abafado e húmido que nos enchia o peito e secava a boca; a cor barrenta da terra e o cheiro forte e adocicado do ar, criando novas sensações olfactivas ainda hoje presentes e reconhecíveis nos sonhos em que viajo pelo passado. Esta marca, a primeira verdadeiramente africana, colou-se, até hoje á minha pele e permanece, violenta e real, em todos os dias da minha vida.
Ensanduichados nas barracas de campanha, distribuíram-nos as G-3 (o lema era: come com ela, dorme com ela, e, se fores às putas, leva-a contigo, porque sempre atacas com duas armas!) justificando, assim, a nossa mobilização para esta campanha guerreira.
Numa coluna gigante, formada por camiões de gado, nos quais nós fazíamos do dito, galgámos quilómetros a caminho de Nova Lisboa, tendo, como destino final, o Kuando-Kubango, Leste de Angola.
Vinte e cinco tostões, dois e quinhentos, custaram os abacaxis que alambazámos pelo caminho, fazendo companhia e complemento às rações de combate com que nos haviam despachado para esta viagem, ao quase interior de Angola e que terminaria na cidade do Luso, após uma memorável e nunca olvidada viagem por caminho de ferro, numa composição com mais de quinhentos metros de comprimento puxada por duas locomotivas a vapor, uma à frente e outra à retaguarda, antecedidas por um vagão rebenta-minas.

Na cidade do Luso, a estadia, foi como uma miragem: breve e fugaz. Os Nord-Atlas, uma espécie de elefantes com asas, encarregaram-se de nos colocar no centro do nosso novo Universo: N’Riquinha, a poucos quilómetros da fronteira com a Zâmbia.
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