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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Os caminhos da savana II

É mais um pequeno acrescento a tudo o que escrevi sobre as capacidades de orientação das gentes que habitam uma das zonas remotas do território angolano. E estamos a falar de um povo que, pelo menos naqueles tempos, tendo hábitos de vida bastante afastados do que se poderia designar por civilização, era considerado como integrantes da mais atrasada de todas as etnias que povoavam aquele imenso território, atraso que, como é bom de ver, era medido a partir da comparação com o padrão de vida dito civilizado, citadino ou, se se quiser elevar a bitola, evoluído.
Só que, aquele povo, para levar a sua vida, não necessitava de nenhuma das vantagens ou alegadas mordomias do mundo moderno. Pautavam o seu modus vivendi por hábitos ancestrais, tinham pavor a quase tudo o que se assemelhasse a uma qualquer maquineta, eram capazes de considerar o médico analfabeto quando comparado com a imensa sabedoria do curandeiro da aldeia e as suas superstições quase que condicionavam tudo o que faziam ou pensavam. Por exemplo, uma máquina fotográfica era uma invenção do demónio para lhes roubar a alma e um rádio bem podia ser o portal que o dito utilizava para, desde as profundezas do inferno, enviar as suas ameaças aos que por cá andassem. Feitiçarias, enfim.
Pois! Podiam ser tudo isso, mas eram doutores relativamente ao que era preciso conhecer para tirar partido do muito pouco que aquela terra estéril e areenta tinha para dar. Em tudo o que tivesse a ver com isso a sua sabedoria era imensa, especialmente quando comparada com a nossa total ignorância sobre tais assuntos. Por ali, a nossa vasta cultura era de pouca serventia, especialmente quando o que importava era saber por onde andar, quer estejamos a falar do terreno que se pisava quer da direcção a tomar para chegar a algum lado.
O episódio passou-se comigo na companhia de outros três em quem o juízo e as cautelas pareciam interessar pouco. E surgiu na sequência de uma proposta feita por um dos fuzileiros do destacamento de marinha estacionado no Rivungo. Ainda não decorrera um mês desde que ali chegáramos e para nós, imberbes principiantes, os mistérios da savana ainda eram exactamente isso; mistérios, desconhecidos e insondáveis. Mas para o pessoal da Marinha, que já ali estava há algum tempo, não seria bem assim. O marinheiro, de quem infelizmente não consigo recordar o nome, veio ter connosco e propôs uma caçada. Naquela altura do ano, as chanas do Uefo costumavam apresentar-se como uma extensa pastagem verdejante e seria certamente fácil encontrar, algures no meio das ervas, uma vítima a condizer. Era só escolher.
O Alferes autorizou, a escolha da equipa reuniu consenso, aperraram-se armas, embainharam-se as facas de mato, atestou-se o depósito do Unimog e, quando as três já se aproximavam das quatro da matina, eu, o Silva, o homem da marinha e o condutor Figueiredo, mais conhecido por Comandos e que parecia só ter medo de agulhas e injecções, largámos em direcção à picada sinuosa que se dirigia ao Caxoxo, pequeno Kimbo localizado nas imediações das margens do Uefo, aonde chegámos uma hora depois, já o sol, que por ali costuma ser madrugador, despontava por entre as árvores. Naquelas paragens, às cinco da manhã já é dia claro e pelas seis o calor já frita miolos.
Os homens da PSP, ali destacados, indicaram-nos um guia de confiança, deram-nos umas dicas, desejaram boa sorte e partimos, sem pressa, que a picada, ora de areia solta ora lamacenta, não ajudava, em direcção à grande chana do rio de fraco caudal que serpenteia em direcção a sul.
Avançámos, ao sabor dos meandros da chana, procurando evitar as zonas mais alagadas, perscrutando cada recanto da mata e detendo o olhar em cada tufo de capim, tentando adivinhar onde estariam as manadas de palancas que, na nossa ignorância de principiantes, se considerava certo andarem por ali.
Mas nem um bicho se nos apresentou, nada mesmo. Naquele extenso prado verdejante, de beleza feérica, longe de tudo e sem nada que pudesse perturbar a paz circundante ou assustar o que quer que fosse, não se via vivalma.
Continuámos para sul, desflorando aquela paisagem virgem, confiantes de que o guia nos saberia trazer de volta e na espectativa de que, em qualquer dos recantos caprichosamente recortados na paisagem, surgisse o que quer que fosse que justificasse a viagem. De repente, quando, já desanimados, nos preparávamos par regressar, surgiu o vulto amarelo ocre de um antílope, um nunce como era conhecido, mordiscando placidamente um tufo de erva, quase passando despercebido na linha que separa o descampado da mata que bordeja a chana.
Num primeiro momento não se apercebeu da nossa aproximação, até que provavelmente alertado pelo ronronar do motor que o Comandos procurava controlar com uma aproximação cautelosa, o bicho deu um pinote e encetou uma cavalgada desenfreada em direcção ao interior da mata ao mesmo tempo que o condutor, acelerando a fundo, lhe seguia no encalço, procurando competir com a corrida de um animal que ziguezagueando por entre o arvoredo, saltando por cima de cada obstáculo, se afanava em fugir à besta roncante que lhe seguia na peugada.
O Comandos, sacando da sua perícia, exigiu do Unimog tudo o que ele tinha para dar e lançou-se numa louca correria mata adentro, derrubando árvores, contornado as de maior porte, evitando num último momento uma depressão no terreno que, escondida pelo capim, surgira pela frente, perseguindo o animal até que, depois de dois saltos impelidos pelas ágeis patas traseiras, o nunce despareceu por entre a vegetação.
Parámos. Esfreguei as mãos doridas do esforço feito para me segurar ao banco, retomámos a compostura, conferenciámos e decidiu-se que o melhor era regressar, ainda que de mãos a abanar. Olhámos em volta. A mata circundante era incaracterística, sem pontos de referência. A chana do Uefo desaparecera e depois daquela correria sem destino ninguém sabia para que lado ficava o norte e menos ainda que direcção seguir.
Era exactamente para isso que se precisava do guia e o homem cumpriu plenamente a sua função. Sentou-se sobre a parte superior do encosto dos bancos, pés nus, sujos e gretados sobre o assento, esticou o braço para a frente indicando o caminho a tomar e, sem dizer palavra, esperou que se iniciasse a marcha. O Comandos arrancou, seguindo a direcção apontada pelo braço do homem, conduzindo a viatura a corta mato, sem pressas, desviando-se das árvores e contornando a vegetação mais espessa. Sempre que, um obstáculo obrigava a um desvio de maior amplitude, o braço do guia, parecendo dotado de uma qualquer agulha magnética, movia-se para a esquerda ou para a direita, corrigindo o rumo, como se perseguisse um ponto invisível, no meio do arvoredo.
Seguimos assim, por longo tempo, confiando apenas no braço estendido do guia. Por mim, interrogava-me seriamente se seria aquele o caminho certo. As árvores pareciam ser sempre as mesmas, a vegetação rasteira à nossa frente, uma repetição da que se acabara de pisar e aquela árvore, um pouco mais frondosa que as demais, não era diferente da que se tinha contornado um quarto de hora antes. Cheguei a pensar que seguíamos em sentido oposto ao que eu pressupunha ser o correcto, para de seguida, duvidando da certeza do guia, imaginá-lo um elemento do inimigo a levar-nos em direcção a uma qualquer emboscada. Contudo, se era por ali que o guia apontava, era por ali que se seguia, até porque opção diferente não havia.
Finalmente, depois de tanto ziguezague e sem nunca se divisar um horizonte, logo ali, a seguir a uma espécie de moita mais espessa, como se surgisse do nada, a picada desenhou-se por entre o capim para, cinco minutos depois, após uma ligeira depressão, se divisar claramente as palhotas do Caxoxo.
Não sei como, mas o homem trouxe-nos direitinhos ao ponto de partida. Ou conhecia cada árvore daquela mata imensa ou então memorizou mentalmente o percurso feito na ida para, numa espécie de recriação da lenda de Ariadne, nos trazer de volta seguindo o fio criteriosamente gravado na sua memória.
Na altura, não me ocorreu outra explicação.

sábado, 1 de novembro de 2014

Caçada nocturna

Já por diversas vezes me referi à riqueza da fauna que me habituei a ver deambular pelas imensas planuras do Cuando Cubango. A flora era escassa, o que se compreende; no meio daquele quase deserto matizado de chanas alagadiças, pouca coisa medrava. Contudo, era um verdadeiro paraíso para os animais de grande porte, a julgar pela quantidade e variedade que por ali havia. Aquele bocado de savana, definido pela faixa que vai do Rio Cuando até à chanas do Utembo, terreno maninho e semi-pantanoso que aprendi a conhecer por corresponder à área de actuação da companhia, era habitado por manadas de búfalos, de songues, de gungas, de guelengues e outras espécies onde se contavam as elegantes palancas, os simpáticos antílopes de várias espécies, os rezingões porcos do mato sempre de rabo no ar como se uma antena se tratasse e até coelhos, para só falar de alguns.
Bastava percorrer alguns quilómetros que mais cedo ou tarde os encontraríamos, especialmente nas imediações das chanas húmidas onde a erva permanecia verde e fresca mesmo quando a ausência de chuva transformava tudo em volta num imenso mar de palha seca. Assim, para compensar o magro orçamento que não permitia refeições de bifes de carne de vaca, faziam-se incursões periódicas à caça de carne fresca. Abatiam-se dois ou três animais que a perícia do Ferreira reduzia a bifes, bastando acrescentar-lhes os temperos e correspondente acompanhamento para o Morais compor o rancho, compensando assim a insuficiência de verba. Mas isso era no Cuando Cubango onde a pasmaceira reinante por falta do que fazer, tornava interessante palmilhar a imensa savana à caça da melhor peça. A gunga, por exemplo, espécie de antílope de grande porte, permitia fazer uns bifes que em nada ficavam a dever à melhor vitela.
Mas, nas Mabubas, nunca poderia ser assim. Desde logo porque a variedade não era tanta e o acidentado do terreno não motivava ninguém a aventuras de caça, não conseguindo ser alternativa à vida regrada que a animação social ia propiciando. Havendo muito por onde entreter o tempo a sedentarização ganhou espaço, os dias de pasmo deram lugar a uma intensa vida social e a aventura deixou de interessar. Mas, ainda assim, sabia-se que a mata que bordejava a imensa albufeira da barragem albergava algumas famílias de pacaças, bovídeo corpulento cuja carne se dizia não ser desagradável.
Ora, pacaça era bicho que ninguém da companhia alguma vez tinha visto e isso espicaçou a curiosidade. Isso e provavelmente as recordações das grandes aventuras em que se tornavam as idas à caça na grande savana de onde viemos. A ajudar, tínhamos à carga um barco zebro, destinado ao patrulhamento da barragem, com dimensão suficiente para transportar uma equipa de caça e trazer na volta os bichos que se deixassem apanhar.
Assim sendo, certa noite, reuniu-se um pequeno grupo decidido a aventurar-se na escuridão dos meandros da albufeira e que, tanto quanto me lembro, integrava o Capitão, o Gabriel - que para além do seu mais que demonstrado gosto por aquele tipo de aventuras era o responsável pela manutenção do zebro – e ainda, porque era preciso alguém que conhecesse os segredos daquela imensidão de água, o Sr. Tomé responsável pela barragem e o seu ajudante, o Gasolina, negro corpulento que conhecia tudo por ali.
Carregaram uma bateria a que ligaram firmemente um projector e lançaram-se à aventura fazendo o zebro deslizar devagar rasgando as águas adormecidas da barragem. O Gabriel levava a G3 aperrada, o Gasolina segurava a bateria garantindo alimentação permanente do farolim com o qual o Sr. Tomé ia varrendo a mata circundante, esquadrinhando cada recanto com o foco luminoso do improvisado projector. Não demorou muito até que a luz intensa, perfurando a noite, descobrisse os olhos brilhantes de duas pacaças que encadeadas pela intensidade da luz nem se moveram tornando-se em alvo fácil que dois tiros certeiros deitaram ao chão.
O problema agora era carregar os animais corpulentos no Zebro, coisa que não parecia ser fácil. Apontaram à margem e aceleram a fundo para que a proa do barco galgasse a margem rampante na esperança de que ali se imobilizasse. O zebro ganhou velocidade seguindo o túnel luminoso do farolim e exactamente quando se aproximava da margem, embateu violentamente num tronco submerso escondido na escuridão das águas, logo abaixo da superfície. O barco estacou repentinamente travado pelo inesperado obstáculo. Abanou violentamente desequilibrando os passageiros que, agarrando-se conforme puderam, evitaram cair à água.
Todos, excepto o Gasolina que, talvez entendendo que era importante não largar a bateria, a agarrou firmemente ficando sem hipótese de se segurar. Desequilibrou-se e caiu borda fora levando consigo a bateria cujo peso o empurrou para o fundo da barragem. Momentaneamente, no meio da escuridão, apenas deram pela falta do Negro sem que, no meio da confusão, alguém soubesse exactamente onde caíra. Fizeram incidir o halo de Luz do projector sobre a superfície das águas abruptamente tiradas da sua quietude, esperando que a todo o instante emergisse. Mas, pelos vistos, não foi isso que aconteceu embora o farolim continuasse aceso.
Foi então que o Sr. Tomé, como que inspirado na lenda de Ariadne, trazendo para realidade a fantasia mitológica, seguiu o fio que desaparecia nas escuras águas. Debruçou-se sobre a borda, esticou os braços, agarrou o seu ajudante pelo cabelo e puxou-o vigorosamente para a superfície. O Gasolina emergiu, sorvendo sofregamente o ar e, nunca largando a bateria, esperou que o ajudassem a subir para bordo, escorrendo água e arengando qualquer coisa à laia de justificação.
Com muito custo e permanente adornar do barco, carregaram as duas pacaças de cujo destino pouco recordo. Sei apenas que uma foi direitinha para o refeitório enquanto a outra foi transformada em petisco. Creio que, nas Mabubas, toda a gente comeu um bocado do churrasco em que se transformou aquela massa enorme de carne fresca.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Neriquinha - Subsistência

A dieta alimentar da população da Neriquinha, era limitada.
A agricultura, meramente de subsistência, resumia-se à plantação de dois cereais: o milho e uma espécie de sorgo por ali chamada de massango. Transformados artesanalmente em farinha, cozinhavam uma papa de aspecto duvidoso que constituía uma dieta alimentar muito pobre.
Tirando isso, a mata fornecia tudo o mais.

A caça constituia a única fonte de proteínas. Mas, não obstante ser abundante na região, os métodos rudimentares de caça não garantiam muita frequência no abastecimento. Por isso, não eram esquisitos Qualquer animal que conseguissem apanhar virava refeição, como foi o caso do hipopótamo que resolveu invadir as lavras da Neriquinha Velha.Frutos silvestres não abundavam, mas as árvores do MABOCO cresciam por ali, disseminadas pela mata. Sabiam onde estava cada uma e o primeiro a chegar colhia tudo o que podia transportar

quarta-feira, 1 de junho de 2011

GASTRONOMIA

Não sei como é hoje. Naquele tempo, alimentar tropas era uma tarefa complicada. A verba era escassa, a janta nunca estava ao gosto de todos, a variedade não abundava, a imaginação dos cozinheiros escasseava e a falta de jeito da grande maioria agravava tudo. Eram homens formados à pressa, escolhidos com base em critérios que nunca cheguei a perceber. Creio que poucos deles alguma vez tivessem ido além do estrelar um ovo. A verdade é que a tropa transformava pedreiros, carpinteiros, jardineiros e afins em cozinheiros temporários que, após cumprido o serviço militar voltavam às suas actividades iniciais.
Se transportarmos tudo isto para a realidade da Neriquinha as coisas pioravam. A cozinha não ajudava, o combustível era lenha colhida na mata, os tachos eram negros e grandes e o calor tornava a tarefa do cozinheiro um martírio. A agravar tudo isto, os ingredientes escasseavam, a ração era parca e nem pedras havia que permitisse confeccionar a sopa da dita. Na verdade a variedade do rancho oscilava ente a massa com carne e a carne com massa substituída de tempos em tempos por feijões. Bifes, nem vê-los e o peixe era indesejado. De vez em quando, lá vinham umas salsichas, uma feijoada com uma ou outra rodela de chouriço barato, umas ervilhas enlatadas e pouco mais. Ah! havia ainda a dobradinha. O ingrediente chegava seco, desidratado, em forma de pequenos pedaços parecidos com flocos que inchavam quando postos de molho. Dobradinha com feijão ornamentada com uma colherada de arroz, era assim um dos petiscos que permitia desenjoar da massa mas que não nos livrava dos feijões que engrossavam o molho com aspecto amarelado de cola líquida condimentada com o chouriço estrategicamente misturado para dar gosto e onde os mais gulosos ensopavam o pão deixando muito pouco para os putos que ajudavam na lavagem dos pratos.
O culpado de tudo isto, dizia-se, era o Vagomestre. O Morais, sendo o furriel responsável pelos “comes” levava com as culpas de tudo. Se a comida não agradava maldizia-se o Morais e se os feijões estivessem rijos alguma culpa teria de ter. E quando, perante o ram-ram repetitivo da ementa, lhe perguntávamos o que teríamos para o almoço, respondia invariavelmente:
- Surpresa!
Na verdade, a tarefa do vagomestre não era fácil: apenas dispunha de uma verba de vinte e dois escudos e meio para alimentar diariamente cada homem. De facto, servir três refeições diárias por apenas vinte e dois e quinhentos era obra a exigir dotes de prestidigitador, tanto mais que os ingredientes não estavam disponíveis. Supermercados não existiam, nem perto nem longe e o reabastecimento tinha uma periodicidade mensal através do MVL proveniente de Serpa Pinto que em viagens que levavam mais de uma semana, nos trazia os secos considerados suficientes para um mês (batatas, arroz, massa, dobradinha desidratada, enlatados e outros) e os molhados, naturalmente constituídos por vinho de péssima qualidade e cerveja a rodos. Tudo o mais que pudesse ser apelidado de “frescos” vinha do Luso trazido pelo Nord Atlas nas suas visitas semanais (verduras, carne, peixe congelado, ovos e pouco mais).
O que valia ao vagomestre (e a nós todos) era a abundância de caça que naturalmente arredia das matas próximas, obrigava a calcorrear chanas afastadas à procura da melhor peça. Uma boa caçada permitia compensar o magro orçamento e garantir bifes para o almoço, já que a carne vinda semanalmente do Luso era demasiado cara apenas chegando para misturar com a massa, com o arroz ou para compor um guisado pobre com batatas.
Mas, carne de caça… é carne de caça. Nada que se pareça com um naco de vitela ou uma costeleta de porco que uma simples pedrinha de sal transforma em pitéu. Carne de caça é adocicada, desagradável, enjoativa e torná-la comestível exigia tempo, marinadas prolongadas, empenho e imaginação do cozinheiro o que, devo confessar, não abundava por ali. A não ser que se tivesse a sorte de caçar uma palanca ou então uma gunga. A carne de gunga era a única que uma vez cozinhada se assimilava a vaca e o animal era tão grande que os dois lombos eram suficientes para servir uma refeição de bifes a toda a companhia.
O problema é que a caça não resolvia tudo. No tempo das chuvas era difícil apanhar alguma coisa de jeito e o pessoal começava a ficar farto, torcendo o nariz a certas variedades como o guelengue (óryx) ou o caixote (Gnu) animal desajeitado cuja carne tinha um sabor nada agradável. O orçamento, esse, continuava curto e qualquer pequeno deslize tornava-o deficitário obrigando ao racionamento e a refeições de massa com pouca coisa ou a arroz espapaçado com estilhaços de frango.
Contudo, havia ainda um recurso. A população local dedicava-se à criação de gado, naturalmente gado vacum. O problema era convencê-los a venderem. Entre os ganguelas, a riqueza definia-se pelo número de mulheres que cada um possuía e mulheres adquiriam-se com vacas. Meia dúzia delas dava para comprar mais uma mulher que podia ser usada para trabalhar nas lavras, cuidar das plantações de milho, nos afazeres do dia-a-dia e conferir estatuto. Naquela sociedade poligâmica, quanto mais mulheres e maior a manada, maior a importância do proprietário.
Para agravar a situação, o dinheiro não lhes dizia nada. Não precisavam dele. Era coisa inútil. Bastavam-se com o mínimo necessário para comprar um ou outro utensílio, uma ou outra alfaia, uma ferramenta, uns panos para as mulheres e pronto. Andavam descalços, vestiam pouca roupa e sobreviviam com culturas de subsistência.
Era aqui que entrava o P. Costa. Sendo o furriel responsável pelo “Chiado” estava habituado a negociar com a população a venda das utilidades e futilidades que se vendiam no barracão assim eufemísticamente apelidado. A verdade é que era o único que se dispunha a deslocar-se às pastagens, escolher a rês, negociar o preço e trazer o animal estrategicamente abatido com um tiro certeiro e que, uma vez na Neriquinha, o cabo Ferreira se encarregava de desmanchar e converter em bifes.
Certo dia, o P. Costa foi incumbido de mais uma dessas missões: convencer o ganadeiro a vender um dos seus animais. Fiz parte do grupo a que se juntaram os dois cabos da Força Aérea que nunca antes tinham tido o ensejo de passar além do arame farpado. O local escolhido foi a Neriquinha Velha, ali pertinho, nas cercanias das margens do Kuando, distância que levou cerca de uma hora a vencer.
Saltámos da berliet e seguimos o P. Costa que caminhou decidido pelas lavras contornando um morro de formigas salalé demonstrando conhecer bem o caminho. Acercou-se do único homem visível nas redondezas, cumprimentou, fez uma ou duas perguntas de circunstância e foi directo ao assunto.
A resposta meio evasiva do dono do gado, não parecia lá muito animadora. Era claro que o homem não estava interessado em vender o que quer que fosse. Mas as negas do homem não pareciam convencer o P. Costa que já esperava a reacção, passando de imediato à discussão do preço. Na verdade, discussão não houve já que os valores avançados se ficaram apenas pelas ofertas do comprador:
- Mil escudos! Tá bem?
Como resposta, um tímido e negativo abanar de cabeça, ao mesmo que tempo que balbuciava um…
- Não furriel.
Mas o P. Costa insistia, subindo a oferta
- Então, fica por mil e cem.
Para de seguida questionar de forma conclusiva.
- Então qual é a que vamos levar?
E sem dar tempo ao outro para responder, levou a arma ao ombro e com um tiro certeiro prostrou o animal que o seu olhar conhecedor já havia seleccionado.
Carregámos a vaca inerte enquanto o homem, agradecendo com tímidos acenos de cabeça, recebia as notas que compunham o preço, sem prestar grande atenção ao dinheiro. Para mim parecia claro que aquele dinheiro pouco lhe interessava. Na verdade acabara de ficar mais pobre
No caminho de regresso, olhando o corpo morto do animal, apenas pensava que finalmente teríamos rancho melhorado. Talvez uns bifes a que certamente faltariam as batatas fritas. Mas nunca me ocorreu pensar que não havia veterinário para garantir que aquela carne estava em condições de ser consumida.
Fiávamo-nos apenas na experiência que se supunha ter o Cabo Ferreira. Ao abrir o animal certamente saberia ver isso.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Caça

Durante a comissão na N'Riquinha, das coisas que mais me agradavam, uma delas era a caça. Largas dezenas de noites à caça, sem contar com os dias carregados de sol e chuva, permitiram-me passar o tempo de uma forma mais agradável e sem as chatices de estar fechado no quartel à espera do amanhã, que nunca mais chegava. O que eu queria era...rua!
Na verdade, tais surtidas, permitiram variar e aumentar as doses de carne a que cada um tinha direito. Palancas, (reais...que crime!) Nunces, Cabras do Mato, Gungas, Gnus, Caixotes e outras variedades de animais cujos nomes hoje me passam, serviram para ajudar nas contas do Furriel Vago-Mestre Morais e o 1º Sargento Pinto.
Uma vez, já nas Mabubas, na bacia da Barragem, saí à caça no barco, um Zebro com capacidade para uma dúzia de militares, que a Companhia tinha para patrulhar o Rio Dange. Com um civil, o Sr. Tomé, responsável pela Barragem das Mabubas, a farolinar, o Gasolina (encarregado de abastecer os motores e viaturas da SONEFE) com a bateria ao colo, o Lobato ao leme, o padeiro e o Zip no apoio, lá saímos ao cair da tarde.
Foi um dia de sorte: matei duas Pacaças enormes, com três tiros apenas.
O pior foi depois. Uma, a que estava à beirinha, foi carregada de imediato para dentro barco, com muita dificuldade, já que este tendia a afastar-se da margem em consequência dos empurrões ao bicho para galgar a amurada. A outra, porque se encontrava um pouco mais afastada e era maior, exigia que o barco ficasse meio apoiado em terra para facilitar o carregamento. Para isso, o melhor era dar-lhe alguma distância da margem e ganhar velocidade, colocando-o meio na água meio na terra. O pior é que, por debaixo da superfície da água e invisível aos nossos olhos, estava um tronco de árvore escondido onde a quilha do barco bateu com grande estrondo. Com aquela paragem violenta, para além de todos ficarmos estendidos no chão do Zebro, o Gasolina caiu à água, arrastando a bateria que tinha ao colo e que alimentava o farolim que nos permitia ver naquela escuridão. Desapareceu, por ali abaixo. O Sr. Tomé, sem largar o farolim da mão, acompanhou a descida lenta do Gasolina em direcção ao fundo e com o corpo já meio dentro da água, apanhou-o pelos cabelos e puxou-o, com a ajuda do Lobato, até ter a cabeça fora da água. Içámo-lo para dentro do barco e tudo se normalizou. O Gasolina, apesar da queda, nunca largou a bateria e nunca o farolim ficou sem energia. Foi o herói do dia!
Quanto às Pacaças: uma foi para a cozinha da Companhia e lá se foi comendo. A outra, derreteu-se numa farra no largo da casa do Capitão, com os civis das Mabubas.
Foi uma forma de homenagearmos a Esposa do Capitão Cabrita que, de férias na Metrópole, tinha ido passar uns dias a Angola.