segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

ATASCADOS

Alguns meses haviam já decorrido desde as últimas chuvas e os grandes lençóis de água que invadiam as chanas tinham recuado até ao curso principal das linhas de água escondidas no meio da vegetação.
O capim começara a amarelecer e o cacimbo tomara conta das noites, cobrindo a savana com uma neblina branca e fria que nos gelava até aos ossos, embora durante o dia se continuasse a sufocar de calor sob a acção impiedosa do sol agora liberto da acção refrescante das chuvas. Tiritava-se de frio durante a noite e destilava-se desde o nascer ao pôr-do-sol, acrescentava-se uma manta à roupa da cama e nas saídas para a mata, substituía-se o poncho por umas camisolas grossas.
Começava o tempo das espectaculares trovoadas secas de onde se desprendiam faíscas que, quais espectáculos dantescos, riscavam o céu, ateavam gigantescas queimadas que consumiam o mato ressequido e pintavam a paisagem de negro cinza, deixando o ar impregnado com um cheiro intenso e obrigando os animais selvagens a abandonar a segurança das matas procurando a erva que apenas se mantinha verde na humidade perene das chanas.
Era o tempo dos contrastes e das suas impensáveis amplitudes térmicas que desorganizava o nosso metabolismo, condicionava o comportamento e baralhava as mentes dos mais susceptíveis.
- Passou-se!
Dizia-se, perante a descoberta do verdadeiro significado do termo cacimbado.
Na mata, os sulcos das picadas até então endurecidos pela acção das chuvas, apresentavam-se agora como regos de areia seca, solta, sem consistência, onde os pneus das viaturas se enterravam dificultando a marcha e exercendo um efeito arrasador no material. Inversamente, as picadas que corriam junto às chanas ou que as atravessavam, emergiam da lama pantanosa, secavam e endureciam tornando-se transitáveis, situação que brevemente iria experimentar já que fora incumbido de chefiar mais uma missão de reabastecimento ao Rivungo e kimbos existentes no percurso.
As duas berliets foram carregadas com cerveja, refrigerantes, tabaco, géneros alimentícios vários e outras tralhas, para além de dois bidões que tinham lugar cativo sobre cada uma das viaturas: um com gasóleo e outro com água para alimentar a sede permanente dos radiadores.
Como de costume, partimos a meio da madrugada começando o dia a clarear já por alturas das pontes do rio Cúbia, que nesta altura do ano se transformara numa espécie de charco escondido no meio do descampado entre os caniços e o capim amarelecido.
Dali até ao Liahona, a picada tinha vários traçados, uns atravessando a chana, outros serpenteando por entre as árvores. A escolha de qual seguir dependia da época do ano. Durante as chuvas, as chanas transformavam-se em zonas pantanosas, sendo mais seguro utilizar os percursos que trilhavam caminho seco. Mas no tempo do cacimbo a areia solta era um martírio para os motores sendo preferível o caminho das chanas.
Escolhemos o percurso da mata, mais lento e sinuoso, já que o convidativo trajecto pela chana ainda não nos merecia confiança. Afinal as águas só há pouco tempo haviam desaparecido e não nos pareceu que já tivesse decorrido tempo suficiente para que secassem convenientemente, ganhando a consistência necessária.
Fosse como fosse, o percurso correu sem incidentes de maior, atingindo-se o Liahona por volta de meio da manhã, sob um calor tórrido que a ausência de chuva tornava ainda mais insuportável.
O Liahona, mais ou menos a meio caminho do Rivungo, era para nós como uma espécie de entreposto. Por breves minutos descansava-se o corpo, dava-se uma folga aos motores das berliets e lavava-se o pó da garganta.
Disso se encarregava o Alexandre, um guarda da PSP ali colocado e com quem, durante o tempo em que estivera no Rivungo, consolidara uma amizade séria. Assim que divisava as viaturas a aproximar-se na orla da mata, preparava duas cervejas e com uma em cada mão, aguardava-nos resguardado à sombra do beiral de colmo da cubata que constituía as instalações que ocupavam.
- Bom dia.
Saudou efusivamente ao mesmo tempo que me estendia uma das garrafas.
- Parece que está calor!
Brincava, perante a sofreguidão com que eu, de um só golo, engoli o líquido.
- Estas cervejas são as mais saborosas que alguma vez bebi.
Retorqui.
- Olhe que não as fabricamos cá … são vocês que as trazem.
Gracejou ao mesmo tempo que me entregava a segunda cerveja recebendo de volta a garrafa vazia da primeira.
De facto, nunca antes uma cerveja me soubera tão bem como aquela. Não estava nem fria, nem quente. Na circunstância, depois de horas debaixo de um calor de fornalha, a cerveja transformara-se num néctar delicioso. Simplesmente perfeita.
Naquele sítio não havia frigoríficos. O sistema de refrigeração consistia numa barrica enterrada no solo, num local à sombra, que se enchia de água e carvão vegetal, mergulhando-se ali as cervejas. Retinha o frio da noite e nunca aquecia durante o dia.
A verdade é que a cerveja caiu como uma bênção, limpando a garganta ressequida e dissolvendo a saliva pastosa que quase colava a língua ao céu-da-boca.
Enquanto se descarregavam os mantimentos encomendados, conversava com o Alexandre à sombra do avançado da cobertura de colmo da cubata, degustando a cerveja e pondo em dia as novidades.
- Como está a picada até ao Mugamba? Inquiri.
- A população que ali passa todos os dias diz que está seca. Retorquiu.
O troço da picada que antecedia o Mugamba costumava estar alagado no tempo das chuvas. Passar por ali exigia perícia e muito cuidado, já que o trilho endurecido estava submerso. Viatura que saísse do seu curso atolava. Duas berliets estiveram ali atascadas durante dez dias, tendo sido preciso meio grupo de combate, muita imaginação, perícia e trabalho árduo para as tirar dali. Mas essa é outra história.
Feitas as despedias com um simples até amanhã – na volta passaríamos de novo por ali – seguimos caminho em direcção à picada que, não estando propriamente seca era bem visível, tendo-se chegado ao Rivungo sem problemas, no horário previsto, depois das paragens obrigatórias no Mugamba e no Demba para mais umas cervejas, um pouco de conversa e entrega dos víveres encomendados.
Mas no regresso, as coisas não iriam correr tão bem. Percorrido já mais de metade do percurso de volta e deixado o Liahona para trás, despontámos no início das planícies do Rio Cúbia por volta de meio da manhã. Dali à Neriquinha era um saltinho, esperando-se lá chegar a tempo do almoço.
A picada que corria pela chana convidava a seguir por ela, especialmente porque na ida nos convencêramos de que já estaria perfeitamente seca e transitável.
- Vamos por aqui, furriel. Anunciou o condutor.
E sem esperar anuência, tomou o caminho que evitáramos à ida, logo seguido pela segunda viatura.
A decisão pareceu acertada. Libertos da resistência oferecida pela areia solta, atingimos velocidades razoáveis e coisa rara, até foi possível, uma vez ou outra, engrenar a quarta velocidade. Àquele ritmo, rapidamente estaríamos debaixo do duche e bem a tempo do almoço que sabíamos estar à nossa espera.
Mas não seria assim. De repente, uma pequena depressão surge no trilho da picada. Parecia ter sido obra de um animal, provavelmente um javali. Costumavam escavar na terra húmida das chanas.
O condutor aconchegou o travão reduzindo a velocidade e desviou-se do buraco saindo ligeiramente do percurso. Foi o suficiente. Quando retomava o trilho, uma zona menos consistente cedeu, enterrando um dos pneus da frente. Com cuidado, guinando o volante, procurou que o pneu encontrasse terreno firme. Mas a manobra não resultou enterrando-se ainda mais. Engrenou a marcha-atrás procurando sair do buraco. Sem resultado. Uma segunda tentativa agravou mais a situação.
Felizmente havia a segunda viatura e estava ali mesmo atrás. Podíamos utilizá-la como reboque e sair dali para fora.
Saltámos das viaturas, lançamos mãos à obra e lá amarrámos a viatura de trás à da frente. O condutor engrenou a marcha-atrás e iniciou a manobra soltando a embraiagem devagar, com cuidado, doseando o acelerador de forma a evitar que resvalasse. A princípio a viatura atascada abanou, mas só isso. A resistência oferecida fez com que o terreno falsamente firme começasse a ceder quase deixando, por sua vez, a segunda viatura enterrada.
Desistiu-se da opção. Agora, o mais importante era libertar a segunda viatura, o que não foi difícil. Com efeito, desatrelada da da frente e liberta da resistência que esta oferecia, a viatura arrastou-se marcha-atrás, com alguma relutância, lavrando a terra com os quatro pneus semienterrados, até conseguir alcançar terreno firme.
Avaliámos a situação, estudámos estratégias, excluímos opções e concluímos que talvez resultasse se fosse puxada pela frente. Não se podendo passar por ali, a opção possível era recuar, voltar para trás um bom par de quilómetros, rodear a chana e utilizando a picada da mata, aparecer pela frente.
Tudo parecia correr bem. Não houve problemas na manobra de recuo e rapidamente a berliet desapareceu enquanto o pessoal se agarrava às pás e picaretas, recomeçando a retirar a lama à volta do pneu enterrado enquanto outros, munidos de machados, cortavam umas quantas árvores próximas para ajudar a livrar o pneu da lama que o prendia.
Mas, para surpresa minha, e quando esperava ver surgir a viatura pela frente, uma vez rodeada a chana, vejo-a aproximar-se devagar, como se tivesse desistido de dar a volta. Com efeito, quando já tinha recuado umas duas centenas de metros, o condutor (ou um dos homens que com ele seguiam) reparou que, paralelamente à picada onde estávamos, havia uma outra, pouco batida mas que parecia ser de terreno mais firme. Pelo menos estava mais afastada da parte baixa e corria por sobre uma ligeira elevação, no cimo da qual três ou quatro pequenas árvores, fazendo sentinela ao descampado, pareciam confirmar a consistência do terreno. Assim, pensaram que se seguissem por ali, evitariam dar uma volta tão grande, poupando tempo.
A ideia não era má. Se tudo corresse bem, dentro de quinze a vinte minutos o problema estaria resolvido. Contudo, aquilo que parecia um trilho seco, revelou-se uma armadilha. Logo ali ao lado, o terreno cedeu repentinamente enterrando os quatro pneus de uma assentada.
O desalento apoderou-se de todos. Num momento em que já se contava com o desatascanso, voltámos à estaca zero e agora numa situação agravada.
Pás, picaretas e machados foram de novo chamados à liça, voltando-se agora a atenção para a primeira viatura. Afinal, esta apenas tinha um pneu enterrado e se conseguíssemos tirá-lo dali seria agora esta a rebocar a outra.
Redobrou-se o esforço, cortaram-se mais árvores e definiram-se os ângulos de ataque à lama, convencidos de que agora seria de vez. A ideia era alargar o buraco, descobrir totalmente o pneu e calçar tudo à sua volta com toros de madeira de forma a obter-se uma consistência firme.
Debalde. A berliet negava-se a sair dali e a outra nem hipóteses tinha. Escaváramos à volta dos quatro pneus e entendia-se que seria suficiente um puxão da outra para a retirar da sua prisão.
Mas a tarde foi morrendo, o lusco-fusco tomando assento, as forças desaparecendo e a fome dando sinal nos estômagos vazios de todo o grupo. A noite acabou por cair sem que se tivesse avançado no que quer que fosse, acabando aos poucos por anular a já quase inexistente força anímica. No escuro, escavava-se por instinto e já sem convicção de que o esforço valeria a pena. Felizmente que o frio do cacimbo dizimara a maioria dos mosquitos. Não fora isso, naquele local pantanoso, comer-nos-iam vivos. Mesmo assim um ou outro mais resistente, ainda se atreveu a zunir-nos aos ouvidos.
Olhei à volta. A maior parte do grupo já denotava os efeitos do cansaço, da fome e do frio, sentados aqui e ali, sem nada dizerem.
Sem solução para o problema e sem rádio para comunicar, limitei-me a aguardar, olhando de quando em vez na direcção das pontes do Cúbia. A ajuda viria dali. Naqueles trajectos, estabelecera-se um sistema de controlo simples. A saída do Rivungo era comunicada via rádio. Na Neriquinha, calculavam o tempo da viagem, davam um desconto para qualquer contratempo e quando a demora parecesse ser excessiva saíam em nosso auxílio. E foi exactamente isso que aconteceu.
Aguardámos algum tempo que nos pareceu uma eternidade, até que, de repente, ao longe, surgindo do nada, o brilho tremeluzente de faróis progredindo na nossa direcção, animou toda a gente. Largaram-se as ferramentas, suspenderam-se os trabalhos em curso e voltaram os ânimos. O auxílio vinha já ali encavalitado num Unimog.
O Gabriel trazia comida (ração de combate) meia dúzia de homens com energia, um Unimog com força para puxar as berliets da sua prisão e alento para todos.
Enquanto devorávamos a ração de combate, o pessoal deitou mãos à obra. Em menos de um nada a viatura da frente foi arrancada do buraco onde a metêramos seguindo-se a segunda. Afinal o raciocínio inicial estava certo. Puxar pela frente era a manobra acertada. O erro apenas esteve na volta mais curta que a segunda berliet deu para se colocar em posição. Tivesse dado a volta pela picada mais afastada, mesmo demorando mais uns minutos e teríamos chegado, como previsto, a tempo do almoço.
Saímos dali e em pouco mais de um par de horas avistámos, no escuro da noite, o clarão das luzes da Neriqinha, que nos trouxe uma sensação reconfortante de segurança. Dali a nada, um duche revitalizador, uma cama macia e a protecção do arame farpado, reduziriam o caso a apenas mais um episódio a juntar a tantos outros.
Contudo, situações semelhantes, iguais ou parecidas, havíamos de ter muitas. Na verdade, quando dali saí, considerava-me um especialista em resolver problemas de carros atascados … … especialmente na areia.

sábado, 16 de Janeiro de 2010

O povo da N'Riquinha

A população autóctone da N’Riquinha era maioritariamente constituída por GANGUELAS. Era uma das etnias mais atrasadas de todo o território angolano, o que era visível na sua forma de vida, crenças, hábitos e temores. Tinham pavor de máquinas fotográficas. A fotografia impressa era, para eles, a alma que a máquina demoníaca lhes havia roubado.
Era uma sociedade patriarcal na qual a mulher era apenas força de trabalho e instrumento de procriação. Mas eram pacíficos, simpáticos, afáveis no trato e reconheciam a atenção que lhes dispensávamos, se bem que com muita subserviência.
À luz dos estereótipos europeus, nenhum deles podia ser considerado bonito. De acordo com os nossos padrões de beleza, a adolescente (Kafeco) mais bonita do aldeamento estava muito longe de ser considerada esbelta. O corpo das mulheres, perdia todas as curvas em pouco tempo, tornando-se rapidamente envelhecido.
Mas sabem, ao fim de algum tempo, uma meia dúzia de entre as mais novas já nos pareciam belezas de passerelle… e apetecíveis.
E não deixava de ser estranha a forma como conseguiam fazer tudo, carregando os filhos às costas. Até sexo.

sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010

O Ataque à LDP

Por: Egídio Cardoso
Os três meses passados no Rivungo amenizaram de alguma forma o desconforto de uma comissão a levar a cabo num local que nos parecia o mais remoto à face da terra. A sensação de abandono que senti quando ali aportei foi sendo mitigada pelos poucos atractivos que fui descobrindo.
A proximidade do rio, as amizades que se foram cimentando e a habituação paulatina ao local, construíram um novo modo de vida que minimizava as agruras da missão espinhosa que nos atirou para aquele pedaço inóspito da imensa África selvagem.
Hoje, passado tanto tempo, continuo convencido de que as privações por que passei integram certamente uma parte importante das razões que me levaram a dar valor a pequenas insignificâncias, fossem elas as que resultavam das histórias do Administrador Litenda ou dos misteriosos silêncios dos dois agentes da DGS, passando pela boa disposição do Chefe França, acompanhando o sargento Rodrigues da Marinha na sua interminável luta com a cerveja. Depois, eram as partidas de futebol, os serões ocupados em renhidas disputas de monopólio ou intermináveis jogos de king e tudo o mais que se inventava para passar o tempo.
Até um arremedo de programa radiofónico se ensaiou, com recurso a duas pequenas colunas de som que o Vilela desencantou não sei onde e que a sua habilidade para a electrónica fez com que funcionassem. Reparou ainda um velho gira discos avariado que se encontrou nas instalações da marinha e durante algum tempo difundiu-se música pelo aquartelamento. O disco é que era sempre o mesmo que ali não havia onde comprar outros.
A relação com o pessoal do Destacamento de Marinha preenchia boa parte dos momentos agradáveis, a começar pela forma como cada um dos seus elementos se relacionou com a tropa recém-chegada. Foi uma agradável convivência que despertou e fortaleceu amizades, a começar no seu comandante e acabando no marinheiro mais novo - o Ruço - que, com a sua cara de menino, ganhara a alcunha devido à farta e desalinhada cabeleira loura.
Com esta malta, passei algumas aventuras inesquecíveis, desde as incursões de caça, levadas a cabo por quatro inconscientes armados em aventureiros: eu, o Silva, um dos marinheiros (de quem infelizmente não recordo o nome) e o condutor Comandos com um jeito muito especial para fazer coisas impensáveis ao volante do Unimog. Ainda hoje me arrepio quando me lembro de algumas.
Saíamos sempre muito cedo em direcção às chanas do Caxoxo. Aí, quando o sol ainda mal despontava no horizonte, recrutava-se um guia e partíamos à aventura, avançando muito para além de onde terminava a picada, perseguindo a caça numa correria louca através da terra de ninguém.
No fim, com duas ou três peças de caça carregadas, procurava-se o caminho de regresso sem saber para que lado seguir. Era aí que a importância do guia se revelava crucial. Como se tivesse um mapa genético acoplado, avaliava o local, determinava o rumo e com a mão esticada ia indicando o caminho que nos levava direitinhos ao Caxoxo.
Mas também eram aventuras as explorações que se faziam aos meandros do Rio Cuando e aos seus recantos labirínticos, montados no pequeno bote utilizado nos patrulhamentos mais curtos.
Só não deu para andar na lancha. A LDP 210 do Rivungo, de fundo chato e proa basculante, como todas as Lanchas de Desembarque, era a razão da existência de marinheiros em local tão impróprio. Equipada com uma velha metralhadora pesada OERLIKON, tinha por missão o patrulhamento rio abaixo até às imediações do Luiana.
Mas, a manutenção desta simbiose de laços de amizade e rotinas de vivência começou a ser ameaçada.
Primeiro, a comissão do sargento Rodrigues chegou ao fim e regressou a Luanda, deixando o Chefe França sem competidor à altura. Depois, o meu grupo voltou à Neriquinha sendo substituído pelo do Alferes Correia. O Tenente da Marinha foi substituído pelo guarda-marinha Valério que, desde logo, se incompatibilizou com os homens que se supunha dever comandar.
Quando, algum tempo depois, voltei ao Rivungo em missão de reabastecimento, as guerras entre o pessoal da Marinha e o seu novo comandante, tinham atingido o ponto de ruptura, degradando irremediavelmente o ambiente de camaradagem e os tempos bem passados que conhecia.
Mas parece que a quezília não iria durar. Diziam-me que a comissão da maior parte do grupo estava no fim. Dentro de pouco tempo regressariam a Luanda e o Valério que se entendesse com a nova guarnição que estava para chegar.
Não presenciei a história. Os poucos pormenores chegaram-me à Neriquinha, já um pouco requentados. Parece que o Valério, num arremedo de fúria e quando já pouco faltava para o fim da comissão daquele punhado de homens, decidiu levar a cabo uma operação de patrulhamento até ao limite sul da área navegável do Rio.
- Foi só para chatear. Disseram.
Começaram os preparativos, afinaram o motor, abasteceram de combustível, reuniram as rações de combate, olearam e limparam as armas, carregaram munições e o Jorge tratou com desvelo da eficaz Oerlikon. Parece que os turras temiam os efeitos devastadores da metralhadora. Disparava rajadas de projecteis de grosso calibre que explodiam por impacto, varrendo tudo o que aparecesse pela frente.
Com tudo a postos e com uma guarnição contrariada, a LDP começou a descer o Rio, lentamente, em marcha ziguezagueante, aproveitando a corrente, seguindo o curso do rio no seu passeio pela chana imensa até desaparecer das vistas engolida pelos caniçais.
A progressão sinuosa seguiu, navegando lentamente, que mais depressa não podia ser, até onde o Valério entendeu, bem lá para baixo, até que decidiu ordenar as manobras que deram início à viagem de regresso, encetando o mesmo percurso, mas agora rio acima, exigindo um maior esforço do motor para vencer a resistência da corrente.
Durante todo o percurso, havia um único local onde se formava uma espécie de ravina sobre o Rio. Talvez o único barranco em toda aquela região. Era um sítio perigoso, propício a uma emboscada.
Nada aconteceu aquando da ida. Mas, no regresso, de repente, naquele exacto local, caiu sobre a lancha uma saraivada de balas disparadas em rajadas contínuas por um grupo de guerrilheiros emboscado entre as árvores, exactamente por cima do local onde a lancha navegava. Provavelmente já ali estavam, à coca, quando ainda desciam o rio, mas disso ninguém se apercebera.
No meio da confusão, enquanto cada um procurava reagir, teria sido o Ruço, de arma em punho, o primeiro a sair para o convés.
Foi apanhado pelo fogo inimigo que o projectou borda fora, ao mesmo tempo que o Jorge fazia a Oerlikon cumprir a sua missão dirigindo uma resposta eficaz aos atacantes. O efeito devastador das balas explosivas da velha metralhadora, pôs de imediato os turras em debandada, cessando a fuzilaria.
Gerou-se um silêncio pesado e por algum tempo ninguém saiu do local onde estava, ao mesmo tempo que iam tomando consciência do acontecido. Fora tudo tão rápido que nem se aperceberam que, com maior ou menor gravidade, quase todos haviam sofrido mazelas: balas de raspão, arranhões da refrega, uma ou outra entorse, umas quantas nódoas negras, enfim, ferimentos uns mais ligeiros do que outros, mas sem incapacitar ninguém. Apenas o Jorge, por qualquer razão, nem um arranhão sofreu.
Contudo, o Ruço não aparecia. Alguém disse que o vira ser atingido pela rajada e cuspido borda fora.
Enquanto o Jorge agarrado à Orlikon mantendo-a apontada à mata, não tirava os olhos do que quer que se movesse, os outros deitaram-se à procura do companheiro desaparecido. Voltaram para trás, navegaram para jusante depois para montante, revolveram desesperadamente os caniços de um lado e outro. Mas o corpo não aparecia em lado nenhum.
Chamaram, gritaram, podia ter nadado para a margem, ficado atascado na chana pantanosa. Revolveram de novo as margens. Mas nada, em vão. Do Ruço nem sinal.
Interrogaram-se:
Que fazer?
Continuar ali?
Mergulhar?
Mas onde?
E para ver o quê no meio das escuras águas?
Conferenciaram, discutiram, praguejaram e decidiram:
Sair dali nunca! O Ruço, ou o seu corpo, teria de aparecer.
Durante algumas horas por ali andaram. Podia ser que estivesse inconsciente e quando voltasse a si responderia aos chamamentos incessantes.
Não sei quanto tempo por ali andaram. Penso que passaram a noite no local e voltaram às buscas no dia seguinte. Mas o facto é que o Ruço nunca apareceu.
Regressaram cabisbaixos, desolados, amargurados, derrotados, revoltados com o Valério. No momento, foi quem levou com a culpa toda. Afinal fora ele que forçara a operação.
Só falei com eles algum tempo depois, aquando da sua passagem pela Neriqinha a caminho de Luanda, finda a comissão no Cuando.
Aquele grupo de fuzileiros navais que eu conhecera activo, alegre e brincalhão, caminhava cabisbaixo, atravessando a parada em direcção à messe, uns enfaixados, um ou dois de muletas, outros apenas com uns pensos na cabeça, nos braços ou nas pernas, alguns de chinelas, que o pé ferido não tolerava sapatos. Enfim, um cenário desolador.
Ainda hoje retenho a imagem de um grupo que fez parte de alguns bons momentos que passei no Rivungo. Com ar de derrotados, pouco falavam e recusavam dar pormenores sobre a tragédia. Se calhar não tinham pormenores para contar ou então a tristeza misturada com a revolta impedia-os de falar.
Claramente o Ruço fazia ali falta.

terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

TOQUE A INIMIGO...!

Para lá da inspecção administrativa regular, o Major Tamegão trouxe, em determinada altura, a missão de avaliar a capacidade de resposta operacional da Companhia no aquartelamento.
O Major levantava-se sempre muito cedo, por mais que eu lhe sugerisse que relaxasse enquanto estivesse por ali, longe das suas obrigações de 2º comandante do Batalhão. Que tinha tempo, quando regressasse ao Cuito-Cuanavale, de exercitar aquele hábito meio militarizado de madrugar. O corpo, no entanto, estava habituado àquela tarimba e ei-lo que, todos os dias pelas sete horas, já vagueava pelo aquartelamento de mãos atrás das costas, esperando que nos levantássemos para lhe fazermos companhia. Entretanto ia metendo o nariz aqui e ali.
Um dia, logo após o hastear da bandeira, cerimónia a que assistia todos os dias com inusitada devoção (uma espécie de missa da madrugada que elevava a fé na instituição) o nosso Major solicitou ao oficial de dia que mandasse tocar a alarme para verificar como reagia a tropa. Segundo as regras militares, ao som daquele toque, toda a Companhia se deveria dirigir aos abrigos o mais rápido possível, tomando posição de combate, postando-se em defesa do aquartelamento.
O oficial de dia, receando alguma falha, decidiu perguntar ao corneteiro se conhecia o toque, porque para ele aquilo era uma novidade.
Embaraçado o corneteiro lá consultou os seus colegas de função e lá se arranjou uma “opereta” de circunstância, que se depreendeu dever ser parecida com o que solicitara o Major. Estou em crer que, ainda que muito diferente, o nosso Major não teria ouvido suficientemente educado para exercer qualquer crítica sinfónica. Para ele qualquer coisas serviria, desde que com o efeito programado.
De permeio o corneteiro lá foi bufando pelo canto da boca a um ou outro companheiro que passava nas proximidades, que aquilo que se ia ouvir era um toque de alarme, pelo que todos se deveriam dirigir aos abrigos. Sintoma que não augurava grande crédito ao corneteiro quanto à peça melódica que iria ecoar pelos ares nas terras do fim do mundo.
Assim foi. O toque soou, com o pessoal a encaminhar-se pachorrentamente para os abrigos em amena cavaqueira e cigarrito ao canto da boca – alguns com a arma apoiada no ombro segura pelo cano – cumprindo aquela chatice de alguns terem que sair da cama mais cedo e outros a irem à caserna buscar a arma, quando já se encontravam nos trabalhos que lhes estavam destinados naquele dia. Parece que quinze minutos depois de ter soado o toque de alarme ainda havia soldados a dirigirem-se para os abrigos, quando o nosso Major, de relógio em riste, esperava que o tempo não ultrapassasse um ou dois minutos para considerar aceitável a resposta dada ao sinal de alarme.
O nosso Major ficou destroçado e incrédulo, enquanto o Alferes se mostrava incapaz de encontrar alguma justificação plausível que satisfizesse a frustração de nosso Major, perante tanta “permissividade” da tropa.
Habituado ao toque costumado do hastear da bandeira, autêntico despertador natural do mato, acordei um pouco confuso com aquela nova melodia. Levantei-me de um salto, como quem não quer perder nada da festa que parecia anunciar-se com aquele rebate matinal.
Já me dirigia para a messe quando, autenticamente “emboscado”, o Major me esperava a meio do caminho das tabuinhas, agitando frenético e nervoso os dedos das mãos atrás das costas. Eu já lhe conhecia o gesto e a partir daí comecei de imediato a desmontar a ideia de festa que me vinha animando a alvorada.
Sem mais delongas, ainda eu não tinha desfeito a continência, já ele desfiava logo ali a enorme ladainha do seu descontentamento e estupefacção pela resposta totalmente inadequada que a minha tropa tinha dado ao toque de alarme. Percebi de imediato o significado daquela estranha melodia que me tinha acordado prazenteira logo pela manhã.
Desliguei um pouco daquilo que ouvia, enquanto o Major continuava a despejar-me motivos de sobra para as minhas futuras preocupações, que deveriam concentrar-se naquele desastre de segurança para todos. Incluindo o Major, claro. Por fim encontrei algo para dizer.
- O meu Major não se importa de esperar umas horas?
- Umas horas? Mas para quê? Respondia-me sem vislumbrar o meu ponto de vista.
- Isto não pode ser. Um dia o inimigo entra-vos pelo quartel dentro e vai ter convosco à cama.
Percebi que era uma visita que o Major não desejava, pelo menos enquanto se mantivesse por ali. Julgo que terá sido o momento em que, por fim, sentiu a insegurança que todos nós vínhamos sentindo havia largos meses, por via do isolamento em que nos encontrávamos.
Contudo, após mais uma ou duas censuras lá anuiu e acalmou. Durante todo o dia não se falou mais no assunto mas sentia-se que o Major tinha ficado incomodado.
Escureceu.
Logo a seguir ao jantar, solicitei a um dos Alferes que levasse o nosso Major para junto das casernas onde os militares se acomodavam para dormir. Intrigado o Major deixou-se conduzir, sempre naquele seu ar de latifundiário com boa vida, mãos atrás das costas e passos lentos despreocupados.
No silêncio da noite fiz explodir uma granada ofensiva nas proximidades das casernas. O estrondo naquele silêncio nocturno soou demolidor.
Foi um pandemónio. O Major quase foi atropelado e teve que se proteger. Em menos de um minuto as casernas ficaram vazias e todos os soldados ocuparam os seus postos de combate. Peguei no Major e convidei-o a percorrer comigo todos os abrigos. Parte dos soldados, ou estavam em cuecas e descalços, ou em tronco nu, mas de cartucheiras à cintura e a espingarda na mão. O Major não balbuciou uma palavra, nem voltou mais a falar no assunto. Apenas me respondeu quando, perante aquele quadro, lhe disse:
- Meu Major; é que não estou propriamente à espera que o inimigo me apareça e eu tenha tempo de mandar o corneteiro tocar a alertar porque nos vão atacar...!
- Pois. Mas sempre era bom que conhecessem o toque...
- ... ?!!

In “Capitães do Vento”, Roma-editora.

sábado, 19 de Dezembro de 2009

O NATAL

Não consigo!
Por mais que tente, não sou capaz de recordar o que quer seja dos dois últimos natais passados em África.
Parece que as células, os neurónios ou o que quer que seja que tem por função a preservação das memórias, não terão cumprido a sua missão. Nem uma imagem, um simples lampejo, uma fotografia… nada.
Já me perguntei várias vezes o que terá acontecido no natal de 1972 - o passado na Neriquinha - para não ter ficado nada registado.
Terá sido do calor que em Dezembro calcina África?
Terá sido assim tão traumático?
Parece amnésia. É que nem tenho uma só fotografia. Mas deve ter sido com a malta e com boa disposição.
Só me recordo do primeiro Natal, o passado no Rivungo, um mês e pouco após ter ali chegado.
Do último também não retenho nenhuma lembrança. Nessa altura penso que ainda estávamos nas Mabubas.
Ou não?
Tenho a certeza que regressei a Lisboa no dia 6 de Janeiro de 1974.
Provavelmente já tínhamos sido rendidos e estávamos em Luanda à espera do transporte que nos trouxe de regresso a casa.
Provavelmente essa é a explicação. Luanda … nada de oficial para fazer, galdeirice, brincadeira, noitadas…
Sim. Disso lembro-me.
Está explicado. O natal de 1973, em Luanda, passou sem darmos conta.
Espera!
Foi nessa altura, quando já pouco havia para fazer, que um acidente estúpido nos levou o Morgado.
Estava na praia, na brincadeira. Um mergulho mal calculado e partiu o pescoço.
Não quis acreditar.
Ao fim de tudo por que passáramos?
Quando já só faltavam uns escassos dias, havia de acontecer outra desgraça!
Cada um à sua maneira já tinha travado a luta com os sentimentos, mandado as saudades às urtigas e tentado sublimar a perda irreparável do Gonçalves.
O destino, ou o que quer que seja a força que nos domina, havia de nos pregar mais uma partida. A última.
Esta minha cabeça tem destas coisas. Mais uma vez concluo não perceber como funciona a memória.
Não me lembro de um só pormenor dos dois últimos Natais em África. Mas dos dois camaradas que não regressaram, lembro-me muito bem.
Fica aqui a homenagem.
Com tristeza mitigada pelo tempo, mas com saudade reforçada.
Um bom natal para os vivos.

segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

ARTESANATO

A produção de artesanato era uma das ocupações diárias da população da Neriquinha.
Nunca me interessei muito pelas peças, mas perdia algum tempo a apreciar a forma como trabalhavam a madeira, com recurso a ferramentas artesanais que eles próprios construíam, socorrendo-se de pedaços de metal velho.
Fiquei perplexo com a forma engenhosa como construíram a forja com a qual aqueciam o metal.
Com a ajuda do fogo atiçado pelo soprar do par de foles artesanais, levavam ao rubro pedaços de molas das suspensões das viaturas, moldando o aço até o transformarem em utensílios.
Os machados, ali chamados de javites, eram produzidos em diversos tamanhos. Com eles esculpiam a madeira ou cortavam lenha, sem necessidade de recorrer às modernas ferramentas então existentes.
Mas também era artesanato a forma como construiam as suas habitações. Protegiam da chuva, eram quentes durante a noite e frescas sob a inclemência do sol

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Sons e imagens do blogue no "LANCEIRO"



Ecos do Rivungo. Do nosso Rivungo.

Seleccionado e editado pelo meu bom amigo José Manuel Santos Costa, Director e Editor da revista "Lanceiro"

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

SPM 5816

Por: Egídio Cardoso

- Lá vem eeeeele …
O alarme ecoava pelos quatro cantos do aquartelamento, precipitando uma correria desabrida em direcção à pista. A calma reinante era abruptamente violentada por um turbilhão de homens, atropelando-se à saída da caserna, do quartinho das transmissões, do depósito de géneros, oficina auto, cantina e de onde quer que soldados sargentos ou oficiais se encontrassem. Até da enfermaria.
As tarefas em curso paravam, o jogo de cartas cessava e a brincadeira, se a houvesse, morria. Os preguiçosos ganhavam vida e os dorminhocos acordavam. Fosse o que fosse que se estivesse a fazer, era interrompido. De momento apenas interessava o pequeno Cessna que acabava de aterrar no meio de uma nuvem de pó. E não era para menos: trazia-nos o bem mais precioso - notícias de casa.
Todas as terças e quintas, era sabido que o pequeno avião aterraria ali, deixando correio e outras pequenas coisas, levando no regresso aerogramas cheios de palavras que transportavam saudades e sabe-se lá mais o quê à mistura com as histórias que cada um contava aos entes queridos que, lá bem longe, aguardavam com ansiedade as notícias, que se desejava não fossem más.
Nunca fui muito assíduo a escrever à família que, nas minhas ausências, sempre se queixou da escassez de notícias. Ali, embora não houvesse grande coisa para contar, garatujava sempre meia dúzia de frases que enviava ao maior número de pessoas conhecidas: pais, irmãos, tios, primos, amigos, namorada, etc. O que importava era que, por cada aerograma amarelo que enviava receberia um azul como resposta. Tanto mais que estava isento de taxa e o papel era gratuito.
A importância de receber correio era inquestionável. Constituía o nosso único elo de ligação com tudo o que deixáramos para trás. Matar saudades e saber das novidades que de outra forma não podiam chegar, era quase tão importante como respirar.
- Hoje é dia de São Correio.
Dizia-se logo pela manhã.
Sim, porque dia de correio era como se fosse dia santo e não creio que seja aqui possível expressar por palavras, a forma como condicionava os comportamentos, varria as tristezas, trazia alegrias, alterava os humores, transportava cheiros, ainda que imaginados e satisfazia desejos sonhados. Mesmo aos analfabetos, que os havia.
Na véspera, todos procuravam o recato, escolhendo o melhor lugar para alinhavar umas quantas palavras. Uns sentados sobre a cama, improvisavam mesas colocando sobre os joelhos malas, revistas ou o que quer que oferecesse apoio à escrita. Outros escolhiam o refeitório e quem não sabia escrever confiava a tarefa ao camarada mais à mão. Na camarata dos furriéis, as mesas-de-cabeceira entre os joelhos serviam na perfeição. Os oficiais também não escapavam e até o Dr. Lacerda, o alferes médico, colocando uma tábua sobre os braços da cadeira, improvisava uma mesa, encontrando uma pose própria para o recolhimento necessário.
Todos buscavam a concentração começando provavelmente por:
- Queridos pais.
A que se seguiria:
- Espero que estejam todos de boa saúde… que eu vou bem com a graça de Deus
Depois, uma pausa acompanhada de coçar na cabeça pensativo à procura do que dizer.
O Ramires escrevia longos tratados, parecendo sempre inspirado, ao contrário de mim que mal conseguia preencher a parte central do aerograma. As notícias eram poucas e francamente, nunca consegui entender o que raio tinha o Ramires que contar para tanto escrever. A seguir à missiva para os pais seguia-se outra para a namorada. Sabíamos isso porque ligava o pequeno leitor de cassetes e escrevia ao som dos êxitos do Juan Manuel Serrat, saídos de uma gravação caseira que trouxera de Lisboa. Ouvi tantas vezes a sequência que já me parecia tudo uma e a mesma canção alongada pela colagem de umas a seguir às outras, facto ajudado pela semelhança melódica de todas elas.
Os aerogramas eram depois dobrados com preceito e depositados na caixinha junto à secretaria. O cabo escriturário encarregar-se-ia do resto.
Nos dias de correio, a expectativa gerava uma romaria que ia entupindo o posto de transmissões em busca de notícias sobre a hora de chegada do pequeno avião. Era dali que vinha a informação sobre o seu trajecto. Logo que aterrava em Mavinga, os de lá informavam via rádio o que não impedia que os mais ansiosos se transformassem em sentinelas varrendo o céu com olhares expectantes.
O percurso desde Serpa Pinto era sempre o mesmo e os horários variavam pouco. Perto da hora do costume, fixavam o olhar no horizonte, no lado norte da pista, na direcção de Mavinga. Mal divisavam o pequeno ponto escuro no azul do céu, gritavam numa autêntica explosão de euforia que ecoava por todo o aquartelamento.
- Lá vem eeeeeele…
Depois precipitava-se uma correria para a pista enquanto o avião evoluía pousando com a mestria que denunciava a experiência que os milhares de horas de voo conferiam ao homem que o pilotava.
O Barros, para além de piloto experiente, era uma pessoa muito estimada, não obstante apenas se demorar poucos minutos em cada sítio. Era muito popular, mas apenas por ser aquele que nos trazia o tão desejado correio. Creio que ainda hoje, volvidos tantos anos, quase todos se lembram do seu nome e dos óculos de aros grossos que usava. Era também sócio da TASA (Transportes Aéreos do Sul de Angola) empresa proprietária da frota de pequenos aviões que tinha o exclusivo do transporte de correio e tudo o que viajasse por via aérea naquele pedaço de fim de mundo. E o negócio corria bem. O pequeno puxa-empurra com um motor à frente (o que puxava) e outro atrás (o que empurrava) foi substituído por um maior e mais moderno.
Fazia normalmente o mesmo percurso. E isso permitia calcular a hora de chegada. Já conhecíamos a sequência e o tempo entre cada localidade. A seguir a Mavinga era a Neriquinha, seguindo daqui para o Rivungo. As ligações rádio faziam o resto, transmitindo as informações que controlavam o voo e precisavam as horas da chegada.
Mal se imobilizava na pista era imediatamente cercado por homens ansiosos, procurando adivinhar, pelo volume do saco, a quantidade de cartas que trazia.
O saco de lona acinzentada, entregue ao escriturário, era escoltado no seu percurso até à secretaria como se de uma preciosa relíquia se tratasse. Todos lhe queriam tocar sendo sempre levado por quatro ou cinco, cada um pegando por uma ponta.
Depois, apinhavam-se junto à janela seguindo com olhos ávidos o trabalho do cabo escriturário no processo de separação dos vários sobrescritos. Os brancos para um lado e os azuis para o outro.
O maço de cartas era depois entregue para distribuição ao sargento-de-dia que, seguido por um bando de gente ansiosa, saía da secretaria e dirigia-se até a sombra de uma árvore existente a meio caminho entre a messe e o refeitório, frente ao topo da parede pré-fabricada da caserna. Aí, rodeado por todos, ia anunciando os nomes inscritos em cada carta.
- Eu, eu.
Respondiam com se tivessem ganho a lotaria, ao mesmo tempo que uma mão se elevava para recolher o prémio.
- Sousa.
Continuava o pregão.
- Hoje não lerpas! Exclamava Alguém.
Outros recebiam duas ou três. Era dos pais, da namorada, ou da madrinha de guerra. Por vezes da mulher, que alguns já eram casados … e com filhos. O Tabanez já tinha uma filha quando embarcou.
Nestes casos, as saudades eram maiores. Quando, em vez do aerograma vinha mesmo uma carta, até os olhos brilhavam. Provavelmente trazia uma fotografia do rebento. É que, o aerograma era gratuito mas não podia lá ser colocada coisa nenhuma, nem se podia acrescentar espaço. Tudo que tivesse de ser dito, tinha de caber na limitada zona de escrita.
- Cardoso! Anunciou o improvisado carteiro.
Reagi estendendo a mão para receber o aerograma azul, identificando de imediato o desenho arredondado que caracterizava a caligrafia da namoradita que deixara em Lisboa.

Egídio Cardoso,
Furriel miliciano
SPM 5816.

Este simples endereço era o bastante para que qualquer carta, vinda de qualquer ponto do país, me chegasse à mão, sendo até dispensável a indicação do posto. E isto era verdade para qualquer outro. 5816 era o endereço postal da 3441, o Serviço Postal Militar (SPM) sabia onde estávamos e na companhia, todos conheciam o Cardoso, o Santos, o Silva, o Costa e todos os outros, por muito comuns que os nomes fossem.
O Ramires era sempre contemplado com uma carrada delas. Só da namorada era p’rá aí uma meia dúzia. Mais duas da mãe, uma do pai e mais umas quantas de amigos. A trabalheira de tanto escrever tinha a sua compensação. Batia sempre o recorde no correio recebido. Mais de metade era para ele. Só a namorada escrevia um aerograma por dia. Com os atrasos e os fins-de-semana, acabavam por se juntar uns quantos. Abria-os todos, ponha-os por ordem e só depois se concentrava na demorada leitura.
Entretanto, cá fora, continuava a distribuição. A diminuição do maço de cartas fazia aumentar a angústia dos que ainda não tinham sido contemplados e, com a entrega da última carta, instalava-se a tristeza no rosto de quem nada recebera.
- Toma, lê a da minha madrinha de guerra!
Dizia um mais brincalhão que não fazia segredo das futilidades contidas na carta de uma correspondente arranjada em anúncios de revista.
Lê, faz de conta que é para ti.
Insistia, passando a carta já lida para as mãos do desafortunado.
Os felizardos espalhavam-se escolhendo cada um o melhor cantinho para a sôfrega leitura.
Provavelmente só os que não recebiam correio se apercebiam do roncar dos motores do Cessna correndo pela pista e ganhando rapidamente altura até desaparecer por sobre as copas das árvores. O Barros tinha um percurso a cumprir e não costumava demorar mais do que uns escassos minutos em cada pouso. O Rivungo era o próximo destino, para onde o pessoal das transmissões já comunicara, via rádio, a boa nova.
À noite, depois de saboreadas as notícias, muitos já pensavam no próximo Dia Santo, o dia em que de novo o pequeno Cessna, sempre pilotado pelo Barros, aterraria de novo na pista da Neriquinha com mais uma mão cheia de alegria.

domingo, 29 de Novembro de 2009

Medicina natural

Os conhecimentos empíricos medicinais dos camaches e dos guenguelas, no Kuando-Kubango, longe do contacto com a chamada civilização ocidental, eram espantosos. Viver durante 18 meses, no meio de uma população a quem a natureza e a sabedoria popular ensinara a tratar das suas mazelas com os produtos que a mãe natureza lhe punha no caminho, foi uma experiência inesquecível.
Um dia, estupidamente, ao pretender retirar a tampa, para compensar a água a que tinha sido expelida do radiador de uma BERLIET - com o motor sobreaquecido pela carga de dezenas de populares e de um hipopótamo morto nas lavras da N'riquinha Velha - esta saltou e levei um banho de água a ferver.
De imediato, um negro, elemento do Grupo de GE´s adstritos á Companhia e que acompanhava o seu Comandante, Fulai Monjuto, sem nada lhe ter pedido e sem procurar obter a minha autorização, sequer, veio junto de mim com o copo de alumínio que acompanhava o cantil, cheio de água e sal, muito sal, e aspergiu-a, várias vezes, na zona queimada. As dores não atenuaram, mas, segundo o Dr. Lacerda, o que ele fez foi desinfectar as queimadelas com uma espécie de soro de nitrato de sódio, o que evitou uma possível infecção e muitas complicações na demorada cura.
Um dia, estando com uma brutal dor de dentes, o Vicente (um miúdo que ajudava na oficina de mecânica) disse-me que uma velha no kimbo tinha cura para isso. Lá me foi indicar quem era e, depois de amassar umas pequenas sementes - parecidas com as de massango, um cereal tipo milho paínço- com os dentes, fez uma bola e, com um pauzito apanhado do chão, empurrou aquela massa escura pelo buraco do dente. Dois minutos depois as dores passaram e o dente acabou por desfazer-se ao longo dos anos sem que tivesse mais qualquer dor.
De outra vez, um ajudante, que o padeiro arranjara (de forma a tornar o seu trabalho menos duro e pago com alguns pães, diariamente) partiu um braço numa sortida à mata para recolher a lenha para o forno.
O Dr. Lacerda, lá lhe colocou umas talas e um pouco de gesso, o que o encheu de vaidade pela atenção que angariou no kimbo. No entanto, pouco tempo depois, encontrei-o junto à oficina a cortar lenha com um machado, como se nada lhe tivesse acontecido: ao fim de alguns dias com o gesso no braço, chegara à conclusão que era tempo a mais e, o feiticeiro/sábio/boticário/médico da aldeia, colocara-lhe no braço umas folhas que derramavam uma substância pastosa depois de aquecidas e que, rapidamente, lhe "colaram" os ossos.

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Operação Dango...

Dango, Abril de 72 - N'riquinha

A operação tinha um outro nome de código. Mas vamos chamar-lhe por agora “Operação Dango” para melhor a localizar.

Alguns trechos do livro “Capitães do Vento” relativos a essa operação.

Ficamos à espera que o Gabriel Costa nos conte a versão do outro lado da recolha do pessoal envolvido na mesma.


…/… Às duas da madrugada partimos distribuídos por sete viaturas Berliet, mais de metade fornecidas por Mavinga. As da Companhia, uma andava sem problemas, a outra tossia cada vez que o pneu se enterrava mais na areia da picada. A terceira estava de baixa. O percurso até ao objectivo era longo e desconhecido. Demasiado longo como viríamos a verificar depois. A parte que seria feita a pé presumia-se que duraria um dia inteiro de marcha rápida até às proximidades do objectivo. As viaturas tinham que ser deixadas suficientemente longe, a fim de não denunciarem a nossa presença. Partimos cedo na intenção de caminhar logo ao alvorecer, fugindo durante umas boas duas a três horas à inclemência de um sol abrasador que se esperava.

…/… Desembarcamos das viaturas cerca das seis horas. Orientei a minha carta com o auxílio da bússola e tracei o rumo a partir de um azimute previamente calculado.

…/… Depois da minha experiência no norte de Angola, eu ali andava quase de olhos vendados. Em todo o tempo de N’riquinha jamais falhámos um rumo. Na prática, durante os percursos consultava a bússola a espaços apenas para confirmar o que intuitivamente me parecia correcto. Os GE’s confirmam, por conhecimento de séculos de vivência naquela região, que aquela é a direcção certa. Se não o confirmassem eu não teria dúvidas em rever os meus cálculos.

…/… Às 14 horas começa a faltar água, após uma breve pausa para almoçar. O calor era abrasador. Não soprava qualquer brisa. A fraca arborização da savana não permitia trajectos mais frescos. A urgência em aproximarmo-nos do objectivo não sugeria grandes contornos. A velocidade a que nos deslocávamos deixava-nos exaustos e alguns começavam a ficar para trás, obrigando a paragens para recuperação dos menos preparados.

…/… Ás dez horas da noite caminhávamos devagar, apalpando o terreno plano da chana. A noite estava escura. A lua ainda não tinha aparecido. Distinguíamos os nossos vultos mas não os contornos definidos dos nossos corpos. Aquela espécie de monstro alongava-se por mais de trezentos metros de comprido.

De repente, um grito abafado de uma das mulheres que seguia na frente. Largou a trouxa que trazia à cabeça e fugiu em direcção à mata que bordejava a chana do rio. Os três GE’s que iam à minha frente saltaram cada um para seu lado. Ao mesmo tempo senti algo volumoso bater-me nas pernas e, sem compreender o que se passava, saí instintivamente do trilho em que vínhamos.

- Pisámos uma jibóia, meu captão. Schii; era grande mesmo! - Esclareceu um dos GE’s.

…/… Por fim, por volta das nove horas, ordem para parar. Estávamos no local. Tratava-se de uma confluência de um afluente de rio que entroncava naquele ao longo do qual vínhamos desde o dia anterior. As chanas eram muito largas. Os rios corriam estreitos no meio do descampado de capim seco que as formavam.

Segundo as mulheres eram dois acampamentos. Um na margem direita e outro na esquerda daquele afluente. Distavam um do outro cerca de um quilómetro. Conforme vinha planeado, o grupo de Mavinga atacaria o da margem esquerda e nós o da direita. Fora estipulado o local de encontro após o ataque. Os de Mavinga atravessariam o rio mais acima e viriam ter connosco.

…/… O Fulai ia falando com as mulheres que manteve sempre junto de si. Perguntei o que é que elas diziam.

- Elas dizer que guerrilhêro e popração já fugiu tudo! Muitos tropa! Muitos barulho!

…/… E assim foi. Para lá de uma ou outra escaramuça com uma rajada a sobrevoar-nos, dilagramas e umas trocas de tiros de morteiro, a grande operação acabou num fiasco, mesmo com aviões a mergulhar por cima de nós e a lançar foguetes sobre alvos vazios.

Eram ainda as tácticas da 2ª Guerra Mundial em uso no ano de 1972.

Aparentemente, pouco tínhamos aprendido desde 1961. Quer os generais queiram, quer não...

A recolha.

…/… As viaturas tinham já partido de madrugada de N´riquinha para nos recolher. Mas a odisseia daquela operação não estava ainda terminada. Pelas nossas contas o encontro devia dar-se por volta do meio-dia. Às treze nem viaturas nem qualquer ruído longínquo que pudesse significar a sua presença. A impaciência começou a instalar-se. Os GE’s de Mavinga ameaçavam ir a pé até a casa. Uns 120 quilómetros que se dispunham a fazer apenas porque estavam a ficar aborrecidos com aquela estória das viaturas não aparecerem.

…/… Funcionávamos ali como uma espécie de náufragos perdidos em mar revolto à espera de uma ponta de sorte que nos levasse aos salva-vidas que nos procuravam. A DO voltou a levantar de N’riquinha a fim de fazer uma avaliação do desencontro. Do ar era fácil localizar a nossa posição e a das viaturas. Só que a DO não tinha contacto rádio com estas: só connosco.

O Major de operações a bordo do avião viveu uma situação de impotência que o fez desesperar. Como fazer compreender aos das viaturas que estavam a andar mal em relação à nossa localização sem contacto rádio? O avião fazia cabriolas, depois passava muito baixo sobre as viaturas agitando as asas e apontando com o sentido do próprio voo a direcção correcta que as levaria até nós. Mas no chão quem podia compreender isto? Para eles o avião estava a saudá-los e a congratular-se com qualquer coisa que não compreendiam.

Num rasgo de improviso e imaginação lusitana, o nosso Major regressou à N’riquinha e, munindo-se de embalagens de granadas de morteiro 60 meio cheias de areia, voltou lá. Do ar enviou então as embalagens com um pequeno bilhete que dizia: “Sigam a direcção do avião!” Como ainda estavam bem longe de nós, na marcha que serpenteava por entre as árvores alteravam com frequência o rumo certo. A DO voltava a insistir nos voos rasantes redefinindo o rumo certo. O Solnado não teria imaginado melhor uma guerra como aquela. Era um pouco assim a guerra em África, em Janeiro de 1972.

Por volta das quinze horas o encontro deu-se por fim. O pessoal das viaturas vinha com oito horas de marcha e esperava-os outras tantas no regresso, que poderia ser menos moroso uma vez que bastava agora seguir os sulcos dos rodados deixados na vinda, sem preocupações de orientação. Mas a carga era de mais de vinte militares por viatura, mais o armamento e bagagem.

…/… Acomodei-me o melhor que pude procurando o espaço necessário para estender as pernas. Perto de mim encontrava-se um Furriel que tinha vindo na coluna. Procurei indagar como tinha corrido a viagem e as dificuldades que tinham encontrado. Era sempre bom ficar com uma ideia dos problemas para que, se possível, mais tarde não voltassem a repetir-se. Essa era, pelo menos, a minha perspectiva.

Não tinha sido muito difícil fazer a maior parte do percurso porque era tudo plano. Além disso tinha sido recrutado um nativo no aldeamento que dizia ter vivido naquela região anos atrás. Colocado no rebenta minas (parte da viatura sobre o rodado dianteiro) tinha vindo todo o caminho indicando com o braço o rumo a seguir até às nascentes do rio. Cerca de seis horas nesta função, porque a primeira parte do percurso era uma picada já conhecida. Concluíram que, na realidade, não ocorreram desvios no rumo que o nativo veio indicando. A memória daquela vasta região, quase sem pontos de referência, estava-lhe intacta na memória. Apenas ocorrera um curto episódio. O nativo solicitou ao chefe da coluna, se seria possível passar numa determinada árvore e parar por momentos para ele ir buscar uns haveres, que enterrara anos atrás. O Furriel nem queria acreditar. No meio de milhares de árvores, aparentemente todas semelhantes e dispersas numa paisagem monótona como era aquela que se estendia por dezenas de quilómetros, como é que seria possível localizar e identificar uma delas? Pois não se enganou uma só vez. À primeira identificou a árvore e só não recuperou todos os pertences (uns recipientes para água, segundo dizia) porque entretanto a maior parte deles já tinham sido roubados, o que não deixou de ser muito estranho numa zona árida e isolada como aquela. Uma questão a ser dirimida mais tarde com a guerrilha, supõe-se.

…/… Trazíamos apenas cerca de meia hora de viagem. O dia ia ficando cada vez mais escuro à medida que se aproximava o anoitecer. Perto de mim sentava-se o Furriel Leitão do 4º Grupo de Combate. Repentinamente, este colocou-se de joelhos e apontou para fora.

- Está ali qualquer coisa a mexer, diz.

Mandei parar a viatura. Sobressaltei-me. Uma emboscada? De facto, era só o que faltava para rematar aquela sequência de maus acontecimentos. Mandei apear alguns soldados como medida de segurança.

- Não é uma emboscada! Está ali uma coisa a mexer, mas não está escondida.

Mandei o Leitão ao local que distava uns quarenta metros. Voltou trazendo uma criança que aparentava uns seis, sete, anos de idade. Estava nua e tremia tanto que a minha primeira avaliação foi de que se tratava dum epiléptico em plena crise. A criança foi colocada entre as pernas de uma das mulheres capturadas, que a agasalhou com os panos com que se cobria. Continuava com movimentos desconexos e tremores intensos. A mulher aconchegava-o mais. Os seus olhos mortiços muito brancos fitavam-me como berlindes reluzentes desconformes num rosto magro de fome e pouca infância. Fitar-me-ia o caminho inteiro. Com tantas ordens que eu ia debitando apercebeu-se de imediato quem era ali o inimigo mor. Embora óbvio, mandei ao Fulai que perguntasse às mulheres se o conheciam. A criança tinha fugido aquando do assalto e vagueara sozinha perdida durante dois dias e uma noite, até que caíra exausta de fome e frio. A noite tinha sido toda ela de tempestade. Não teria por certo resistido a mais aquela noite, caso o Furriel a não tivesse vislumbrado naquele espaço de mata aberto onde caíra. Éramos a última viatura e ele foi o único que a viu.

Deste episódio houve uma dúvida que sempre me ficou. Quando se agitou era para que o víssemos ou procurava esconder-se? Só o terrível inimigo se fazia transportar em viaturas ruidosas. Só este varria os céus com “modernos” engenhos prateados sobreviventes da 2ª Guerra, roncando e vomitando foguetes de fogo que queimavam cubatas vazias.

Escondia-se, por certo.

Passaram seis viaturas com 120 pares de olhos. Muitos deles especialistas naquele tipo de vegetação e exímios em descortinar o inimigo acoitado. Ninguém o viu. Porquê só o Leitão? Provavelmente uma mão de Deus. Deus a quem na hora questionei com ironia de ateu insolente: mas porquê as crianças, senhor?


P. Cabrita

Dango, Agosto de 73 - Mabubas