domingo, 5 de fevereiro de 2017

Dr. ARMANDO LACERDA - Homenagem

O Dr. Lacerda deixou-nos. Partiu, inesperadamente, sem que ele próprio o quisesse, para desgosto de todos nós e sem que eu tivesse tido sequer oportunidade de me despedir. Ficou para sempre adiado aquele almoço que em tempos combináramos para data a aprazar.
Um dia destes, disse.
Hoje, lamento amargamente não me ter decidido a combinar o dia.
O Dr. Lacerda foi o médico que cuidou de todos nós no inferno da Neriquinha e não nos abandonou quando, já no sossego retemperador das Mabubas, lambíamos as feridas da alma deixadas pelo isolamento das areias quentes da savana do Cuando Cubango.
Não sei se, naqueles tempos conturbados, era assim para todas as unidades militares; sei apenas que a 3441 tinha médico privativo. O então Alferes Lacerda foi mandado para aquele inóspito lugar com a missão de zelar pela saúde dos cerca de 140 homens da companhia e de toda a população dos kimbos que existiam desde a Neriquinha até ao Chipundo.
E isso não era tarefa fácil. A malta, pouco habituada aos rigores daquele clima hostil, era vulnerável às correspondentes maleitas de que se destacavam a malária, alergias várias e fungos esquisitos, para além duma multiplicidade de ameaças à saúde de cada um que impunham permanentes cuidados preventivos e a atenção do Dr. Lacerda que ainda tinha de enfrentar as crendices ancestrais daquele povo e competir com a influência, as mezinhas, as danças, as rezas e os unguentos do curandeiro do Kimbo.
Fez tudo isso e ainda conseguiu ser amigo e companheiro.
É verdade, o nosso Dr. Lacerda, deixou-nos.
O Sporting perdeu um dos seus mais dilectos sócios; nós perdemos um velho companheiro e amigo.
Descanse em paz.

sábado, 7 de janeiro de 2017

O REGRESSO

Durante todo o tempo que durou a nossa estada por terras angolanas, um dos desejos que mais frequentemente alimentava os sonhos da rapaziada era, sem qualquer margem para dúvidas, o momento em que, cumprida a missão, se regressaria a casa. Enquanto durou a nossa via-sacra pelas terras inóspitas e areentas da Neriquinha, isso era algo que parecia muito distante, quase inacessível. Mas aos poucos, naquela exasperante lentidão que as agruras de uma missão espinhosa teimam em empatar e porque o tempo não pára, os dias foram-se sucedendo às noites, os meses preenchendo-se e o tempo passando até àquele dia memorável em que nos tiraram dali, despejando-nos no aprazível sossego das Mabubas.
É verdade que nos sentimos verdadeiramente compensados dos tratos de polé sofridos no meio da savana das Terras-do-fim-do-mundo. Contudo, não obstante este segundo episódio da história da 3441 se assemelhasse, por vezes, a umas quase férias num local aprazível, acolhedor e pacífico, aquele sonho de ver chegado o dia em que voltaríamos às nossas origens nunca foi deixado de parte.
Alguns se lembrarão de que, por alturas do mês de Novembro de 1973, correu célere a notícia de que a nossa saída das Mabubas estaria prevista para o dia três de Dezembro. O embarque, diziam, teria sido aprazado para as antevésperas do Natal, o que animou muita gente perante a expectativa de passar as Festas em casa. Quando o dia três passou por ali sem que tivessem chegado os que nos iriam render, a desilusão patente no semblante de alguns foi a prova de que, afinal, o fim da comissão nunca deixara de ser o desejo maior.
Ainda assim, quando passadas mais de duas semanas, nos vimos finalmente em Luanda, simplesmente aguardando o dia do embarque e livres dos quartos de sentinela, das operações aos laranjais da Fazenda Alice e demais exigências militares, a coisa esmoreceu um pouco. Não é que tenha a certeza e não pretendo armar-me em adivinhador dos pensamentos dos outros, mas apostaria que muitos terão deixado para segundo plano, ainda que só às vezes, aquilo que, até então, era considerado o sonho diário de cada um. O Natal seria dali a dias e por isso, passá-lo em casa estava fora de questão, mas certamente que se não fosse dali a uma semana seria possivelmente na seguinte e essa certeza dispensava a necessidade de pensar no assunto.
Assim sendo, aproveitou-se tanto quanto possível o afrouxar da disciplina, usufruindo de tudo o que a cidade tinha para oferecer. Alguns mudaram-se para a Pensão dos Coqueiros, para facilitar as pernoitas tardias e comer bem por menos dinheiro, o Gabriel alugou um carro, calcorrearam-se esplanadas, praias, bares e cabarés e compensaram-se as privações passadas, até que, com cada vez maior acerto, foram chegando informações; o dia cinco de Janeiro foi apontado como certo, depois substituído pelo dia seis, voltando de novo ao dia cinco.
Na última noite passada em Luanda, aquilo que começou por ser um simples jantar num qualquer restaurante, virou noite de farra. Um grupo de furriéis entendeu que a última noite seria de desbunda. Calcorrearam-se bares, esvaziaram-se garrafas, misturou-se cerveja com aguardente, esgotaram-se as últimas notas de angolares e creio que até as moedas se foram.
Quando a madrugada chegou, largaram no aeroporto o carro alugado e tomaram um táxi até ao Grafanil. As regras militares exigiam farda a rigor, formaturas e transporte até ao avião que nos havia de trazer para casa. A memória não está muito nítida mas creio que, após a exasperante espera da praxe, embarcámos num Boeing ao serviço da Força Aérea e fez-se a viagem contornando toda a costa de África. Na altura, não era possível aos aviões nacionais sobrevoarem o território dos países africanos hostis ao regime.
Retenho de memória o desembarque em Lisboa, no aeroporto militar de Figo Maduro, no dia seis de Janeiro de 1974, um dia cinzento, enevoado, frio e húmido que contrastava com a luminosidade faiscante do sol quente de Luanda. Uma réstia de saudade de África ainda se insinuou por entre a euforia de voltar ao puto. Mas foi sol de pouca dura; a vida interrompida dois anos antes recomeçou no momento em que, nas instalações do quartel do RAL 1, despimos definitivamente a farda e saímos dali quase sem nos despedirmos uns dos outros.
Completaram-se hoje quarenta e três anos.

domingo, 29 de maio de 2016

COMPANHIA DE CAÇADORES 3441
ANGOLA 1971/73

ENCONTRO 28MAIO16

42 ANOS DEPOIS SEMPRE A MESMA AMIZADE E ALEGRIA DO REENCONTRO
PARA OS COMPANHEIROS QUE NÃO PUDERAM ESTAR PRESENTES VAI ESTA REPORTAGEM























segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O "levantamento de rancho" que não foi

Lembro-me bem; durante o tempo em que o Morais, o nosso furriel vagomestre, esteve ausente, gozando no puto umas merecidas férias, longe daquela terra de ninguém, fui incumbido de o substituir na arte de alimentar o pessoal sem ultrapassar a verba diária de vinte e dois escudos e meio por cabeça. A tarefa não era fácil e a experiência nenhuma, mas lá me desenrasquei o melhor que pude, procurando compor, com os parcos víveres existentes, qualquer coisa que se pudesse comer. A chatice é que, dia após dia e sem que disso me desse conta, fui ultrapassando a fasquia do orçamento.
Não me recordo das chatices que o Morais teve de enfrentar para voltar a meter as coisas sobre carris. É provável que a ameaça de levantamento de rancho, a propósito de uma das ementas mais detestadas (dobradinha com feijão) tenha sido um acontecimento que se se terá desenrolado quando fui mandado para uma segunda comissão no destacamento do Rivungo.
Sorte a minha, que só soube dos pormenores muito tempo depois de tudo ter acontecido.
O texto que se segue é da autoria do Morais, o nosso vagomestre de então.
....  
Enquanto decorreram os dezoito meses de destacamento na N’riquinha, consegui gozar dois períodos de férias, de trinta e cinco dias, no “Puto”. Com as deslocações, via Luso (Luena), Nova Lisboa (Huambo) e Luanda, as ausências atingiam cerca de cinquenta dias, períodos que fui substituído, como responsável pelo serviço de alimentação, pelo Egídio Cardoso.
A contabilidade do serviço exigia um inventário ao armazém cada final de mês, com o qual verificávamos se o consumo de géneros alimentares estava dentro do orçamento de receita para o mês em causa.
Os primeiros meses de estada na N’riquinha, embora coincidissem com a estação das chuvas, foram relativamente generosos em caça e, por via disso, além de nos alimentarmos melhor, pudemos gastar menos em alimentação. O serviço foi passado ao “vaguinho” Cardoso, com um excedente de tesouraria correspondente a cerca de dez dias de alimentação.
Quando cheguei do primeiro período de férias, aguardámos a chegada do fim do mês para a passagem do testemunho. O “vaguinho” em exercício tinha desenvolvido um trabalho notável no serviço, e era alvo de grandes elogios, pelo empenhamento e grande imaginação posta na elaboração das ementas, ao ponto de alguém, bem situado junto do comando, ter pressionado, sem sucesso (o primeiro sargento Pinto foi contra), a sua passagem a efectivo. Feito o inventário e uma estimativa à gestão cessante, constatou-se que havia um défice no serviço de cerca de vinte dias de alimentação. Ou seja, durante três meses viveu-se acima das possibilidades. Posto o problema ao conselho administrativo (comandante da companhia e primeiro sargento), e porque o défice teria que ser compensado no futuro, sob pena de responsabilização e pagamento dos montantes em falta, foi decidido “apertar o cinto”.
A situação chegou rapidamente ao conhecimento de toda a companhia, e comecei a ouvir ameaças veladas de que, se tal acontecesse, ia haver “levantamento de rancho”. O contingente lisboeta liderava a “revolta”.
Por todas as razões e também por solidariedade com o “vaguinho” Cardoso, houve que prosseguir no caminho traçado, evitando as ementas que fossem mais dispendiosas, até porque o entusiasmo pela caça tinha esfriado. De facto, os habituais voluntários não estavam tão disponíveis para continuar, e a época das queimadas ainda não se iniciara. A primeira caçada que liderei, neste período, teve como resultado uma cabra do mato (bambi) e um nunce, insuficientes para dar uma refeição a toda a companhia.
O pretexto para um incidente apareceu quando se serviu, ao almoço, uma dobradinha com feijão. Como era norma, a comida era igual para todos, oficiais, sargentos e praças, e confeccionada nas mesmas panelas. Servidas as terrinas para os doentes na enfermaria e para as messes, passava-se a atender os praças. Quando estava a terminar a minha refeição fui chamado ao refeitório para ouvir a reclamação de que a comida estava imprópria para consumo porque o feijão tinha bicho, e mostraram pratos onde se viam dois ou três feijões com um ponto negro. Entretanto chegou o comandante da companhia que mandou formar na parada e tentou convencer o pessoal a retomar a refeição, porque todos os oficiais e sargentos tinham consumido a mesma feijoada, sem notarem nada de anómalo: Não havia levantamento de rancho!! E avisou que a cantina estaria encerrada e só abriria depois do jantar. O pessoal persistiu na decisão.
O comandante da companhia, para evitar que o incidente se repetisse mandou que o saco de sessenta quilos de feijão, recentemente encetado fosse servido aos hóspedes da pocilga, situada nas traseiras do aquartelamento. Posso garantir que desobedeci a tal ordem, e o feijão, tão proteicamente enriquecido, foi por nós consumido nas sopas, depois de processado no “passe-vite”… a vingança foi servida quente.
“vaguinho “ Morais

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A Prisão

O rigoroso RDM, kafkiano regulamento da disciplina militar de que se dizia ser incumprível, alimentava boa parte do anedotário de caserna dos tempos idos da tropa. Estava capaz de apostar que se contariam pelos dedos de uma mão – vá lá, de duas mãos – aqueles que, naquele tempo, se deram ao trabalho de ler tão exigente normativo, o que, entenda-se, seria de todo desnecessário e isso porque, para não cair nas suas malhas, bastaria atender a duas regras principais: “cuidado com o que dizes” e “vê lá o que fazes”, o que significa que, até a dormir, era razoável a probabilidade de se infringir um qualquer dos seus inúmeros artigos, ainda que inconscientemente e sem se saber como, espécie de círculo vicioso da justiça militar que tanto poderia considerar alguém culpado por ter cão, como por o não ter. A crítica ao seu excesso de rigor era, naquele tempo, expressivamente ilustrada com a afirmação galhofeira de que, o seu autor, uma vez completado o seu trabalho de legislador, se suicidara ao dar-se conta de que não seria capaz de cumprir os ditames plasmados em tão intransigente e espartano diploma.
A aplicação do direito sancionatório correspondente competia aos comandantes das unidades que não tinham dificuldade em enquadrar cada infracção no respectivo articulado. As penas menos severas transferiam o recruta para o serviço de faxina às cozinhas, seguindo-se, por ordem de gravidade, a limpeza dos sanitários, a proibição de sair do aquartelamento até ao recolher, a perda de direito a gozar o fim-de-semana e por aí adiante até às penas de prisão. É verdade, as infracções mais graves, ainda que não constituíssem crime, eram cumpridas na prisão.
Mas vamos ao que interessa. Na Neriquinha, não havia cadeia. E não havia, porque não era preciso. A singela e frágil cerca de arame farpado, que delimitava aquele quadrado de pó areento perdido no meio da savana, já era o bastante para que nos sentíssemos enclausurados, não obstante a ausência de muros permitir acesso livre e directo à vastidão do espaço envolvente. E nunca se pensara nisso, até porque, pelos vistos, nenhuma das unidades que ali nos antecederam teve necessidade de tal coisa.
Mas, a companhia de caçadores 3441 pertencia a um batalhão – o 3857 – cujo comandante, a que todos deviam vassalagem, não entendia assim e, por isso, a ordem expressa, vinda directamente do seu gabinete, lá no Cuito Cuanavale, determinou: – construa-se uma cadeia.
A ordem, exigente e imperativa, não admitia desculpas e qualquer desobediência seria insensatez; na tropa era assim e com aquele comandante, mais ainda. E, assim sendo, não havia sequer que discutir:  – pois construa-se o tal de cárcere, determinou o capitão.
Passado todo este tempo, não tenho memória do aspecto físico de tais instalações, mas alvitra-se a hipótese de o local escolhido ter sido, logo ali, paredes meias com a oficina auto, confinando com as traseiras da enfermaria e não longe do refeitório, junto ao gerador pequeno, espécie de reserva energética que permitia a existência de luz pelo tempo que levava a resolver os amuos do gerador principal. O facto é que, e isso é uma certeza, se deitou mãos à obra, desencantaram-se os materiais necessários e, em pouco tempo, lá nasceu, isso sim, um casinhoto precário, sem condições e de pequenas dimensões; enfim, um cubículo. Talvez porque se entendia que nunca teria serventia, não se lhe meteram grades e creio que a porta, se é que alguém disso se lembrou, nem fechava. Pelo menos não tinha chave. E para quê, se ali não havia para onde fugir. 
Contrariamente ao que seria de esperar, o presídio foi estreado, e coube ao Pinheiro o privilégio da inauguração, sem pompa nem discursos mas, ainda assim, um acontecimento inaugural. O Pinheiro era um chato, um refilão preguiçoso que, com alguma frequência, esticava por demais a corda. Até que um dia, exagerou, ultrapassou o desculpável e foi além da capacidade de tolerância do capitão. A pena aplicada, ainda que com algumas atenuantes, ficou-se pelos cinco dias de prisão.
Tanto quanto julgo saber, não os cumpriu todos. Provavelmente houve a percepção de que, para o preguiçoso do Pinheiro, estar detido, para mais naquela estranha cadeia, produzia efeito contrário ao que é suposto ser um castigo. É que, o estar preso, implicou não ser escalado para os sempre detestados quartos de sentinela e outros serviços do dia-a-dia. E o pior é que passava pouco tempo enclausurado, não fazia nada, comia no refeitório como todos os outros, passava o dia chateando o pessoal da ferrugem e, de caminho, infernizava a vida dos cozinheiros e exigia atenção especial aos enfermeiros. Para completar o quadro, transferia-se, à noite, para a sua cama na caserna e ainda gozava com o pessoal que com ele se cruzava, não perdendo a oportunidade de, disfarçadamente, provocar o segundo-sargento que, achando tudo aquilo um abuso, resmoneava visivelmente agastado, um “num tá bem!” reprovador. Tirando isso, dormia o resto do tempo e preguiçava nos intervalos de cada soneca, feliz da vida e apostado em cumprir, com zelo sacana, o castigo que lhe foi imposto, comportando-se de forma a convencer disso o capitão, até porque, o segundo-sargento nunca se atreveu a denunciar uma situação que, no seu entender, “num tava bem”.
A boa vida do Pinheiro durou apenas aqueles escassos dois dias de prisão efectiva, intervalada de saídas precárias auto autorizadas. Apercebendo-se da ineficácia do castigo, o capitão comutou-lhe a pena, deu-lhe ordem de soltura e determinou que os restantes três dias fossem convertidos em liberdade condicional, para grande desgosto do preso que via assim as suas imerecidas férias abruptamente interrompidas, com a agravante de se ver escalado para um quarto de sentinela naquela mesma noite.
Creio que o cárcere apenas teve mais um inquilino ainda que apenas por umas horas. E como não podia deixar de ser, coube ao Candeeiro esse privilégio. O soldado Raimundo, por todos conhecido como Candeeiro, pescador algarvio vindo dos lados de Vila Real de Santo António, era um homem quezilento, especialmente quando estava com umas cervejas a mais, situação algo frequente. Nessas alturas, tinha por hábito desatar num berreiro, ameaçando todos aqueles de quem não gostava, elegendo sempre o alferes Torres como primeiro alvo a abater. Felizmente, levado a bem, era fácil apaziguar-lhe as fúrias, mesmo quando bem bebido. O problema era que, como se sabe, o excesso de bebida tolda o raciocínio e o bom senso a certas pessoas e, no caso do Candeeiro, nunca se sabia se as fúrias eram apenas desabafos alcoólicos ou algo mais. E, assim sendo, mais valia prevenir, obviando a que, de um momento para o outro, fizesse um qualquer disparate.
Certo dia, excedeu-se mais do que costumava e, antes que os desacatos descambassem em grossa asneira, foi encarcerado. O berreiro ainda continuou por algum tempo, mas acabou por calar-se. Talvez vencido pelo cansaço e totalmente dominado pela bebedeira, adormeceu e, rangendo os dentes, por ali ficou o tempo necessário para cozer e processar o álcool ingerido, saindo em liberdade quando, já esquecido da guerra que apregoara, acordou.
É caso para se dizer que a cadeia, ali, não fazia falta. Mas, uma vez construída, teve uso, ainda que apenas por duas vezes: uma para estreia e outra para curar uma bebedeira.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O assassino do Bacalhau foi descoberto

Todos temos ainda a ingrata memória do assassinato do Virgílio Cabral, conhecido entre os seus companheiros da guerra como o “Bacalhau”, barbaramente assassinado a golpes de faca que deixavam transparecer uma raiva selvagem, o bastante para ser notícia de primeira página de jornais.
Passado todo este tempo, cumpre dar a notícia que, após aturadas investigações, a Polícia Judiciária descobriu o assassino. Afinal, era alguém que o infeliz do Virgílio costumava levar lá para casa. Parece que o móbil principal do crime teria sido o furto de umas economias, imprudentemente guardadas numa gaveta qualquer.
O autor de tão selvática atitude encontra-se preso no Brasil, país de onde é oriundo e para onde fugira após a bárbara matança.
O Virgílio pode agora descansar em paz; afinal, algo a que todos têm direito

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Missão no Chipundo

Recordo o Chipundo como uma espécie de derradeira fronteira. Localizado lá bem para baixo, a sul do Rivungo, no limite inferior, espécie de extrema da área operacional atribuída à companhia, era, bem se pode dizer, um verdadeiro fim-de-mundo plantado no próprio fim do mundo, usufruindo da mansuetude refrescante do Rio Cuando que, no seu indolente serpentear em direcção a sul, ali tocava a margem que definia o perímetro do aldeamento. O Chipundo era um aglomerado de palhotas de capim, de maior dimensão que um simples kimbo e, por isso, tinha um administrador de posto e um pequeno efectivo da PSP, ambos dependentes das chefias administrativas e policiais estacionadas no Rivungo.
Ao longo das duas comissões, se assim se pode chamar às duas vezes que coube ao meu grupo de combate guarnecer o nosso destacamento na pequena povoação do Rivungo – seis meses ao todo – fui mandado ir ao Chipundo, umas quantas vezes. Uma delas, para recolher e levar dali o Land Rover da PSP, estropiado na sequência do acidente que matou o subchefe, retalhado pelos estilhaços da granada que, por incúria sua, explodiu dentro da cabine da viatura e a outra, a que inspirou esta crónica, incumbido de uma missão de patrulhamento e segurança – para marcar presença – daquelas a que se dava o nome de “acção”, designativo de uma operação militar de pouca importância.
A picada que levava ao Chipundo atravessando sempre a mesma savana, plana e agreste, sempre me deu a sensação de ser a descer, não obstante nada naquele percurso subisse ou descesse. E, no regresso, pelas mesmas razões, parecia-me sempre a subir. Mas era apenas impressão minha, uma espécie de armadilha do subconsciente, talvez condicionado pelo facto de, aquele caminho levar ao sul e às terras do Luiana, lá, junto à Faixa do Caprivi, vizinha do grande delta do Okavango, bem longe da área que nos cabia, já de si demasiado extensa.
O facto é que a picada, essa, serpenteava caprichosa, como aliás qualquer caminho que por ali existisse, umas vezes areenta e cansativa onde as viaturas se enterravam lavrando areia seca e fofa, noutras lisa, bordejando as chanas secas para, mais à frente, atravessando charcos e arroios, se transformar em lamaçais insuspeitos. Não sei porquê, mas foi o único sítio onde me deparei com ameaçadoras manadas de búfalos pastando, indolentes, e bandos de pequenos e pacíficos macacos, às centenas, saltitando de árvore em árvore.
Como de costume, saímos cedo, arrumados no pequeno unimog do destacamento, com a capacidade exacta para transportar o grupo designado para a missão: eu, um cabo, quatro soldados, o condutor um transmissões e um enfermeiro, alcançando-se o Chipungo em pouco menos de quatro horas, onde o pessoal da PSP já nos aguardava expectante frente ao pequeno posto localizado do lado direito do aglomerado de cubatas, não muito longe da orla da mata.
Ficámos por ali um bocado. Um dos objectivos era exactamente o de marcar presença, coisa que não exigia grande esforço. Naquele lugar, tão remoto, a chegada da tropa era sempre um acontecimento e creio que os ouvidos apurados da população já há algum tempo haviam identificado a nossa aproximação denunciada pelo barulho do motor do unimog que não se confunde com qualquer outro. Preguiçámos por ali, almoçámos, aproveitámos o ensejo para contar as poucas novidades, usufruiu-se da permanente boa disposição do subchefe e recuperámos da viagem que não fora, e nunca era, propriamente um passeio.
Mas era necessário dar continuidade à missão. Rumámos a sul, seguindo a picada que, iniciando-se na orla da mata, serpentava pelo capim e rolámos durante algum tempo, o suficiente para se perder de vista as cumieiras de colmo das palhotas do kimbo. Saímos da picada e penetrámos na mata até se encontrar um local com sombra logo ali à beira de um riacho que me limitei a supor ser um daqueles braços de rio abandonados pelo caudal principal do Cuando. A nossa missão não tinha propriamente um objectivo determinado por um qualquer ponto a atingir. Limitava-se a estar presente, andar por ali, mostrar que a tropa não se confinava ao sossego do aquartelamento e, para ser honesto, estarmos ali, ou mais abaixo não tinha diferença e não comprometia o cumprimento da missão.
Instalámo-nos, cada um escolheu a melhor sombra, escrutinámos cuidadosamente todo o espaço à volta para evitar surpresas desagradáveis, cuidou-se da segurança definindo as escalas de sentinela, estendeu-se por sobre as árvores a antena do rádio, na altura, um moderno Racal TR28, estabeleceu-se contacto com a base informando da nossa posição e por ali molengámos até que a noite caiu.
Aquela noite foi um inferno. Caiu uma chuvada e com ela o desconforto de um friozinho austral pouco agradável, embora eu estivesse preparado para isso; vesti uma camisola de lã junto ao corpo, por cima enfiei a camisa do camuflado e, por cima desta, o dólman que, reforçado por uma camada de entre-tela, garantia uma protecção extra contra o frio e uma barreira contra as ferroadas das melgas. Enterrei o quico na cabeça, enrolei-me no poncho e procurei dormir. Consegui, mas por pouco tempo, o suficiente para as melgas me descobrirem. Rondaram zumbindo a noite toda à procura de sangue fresco, esbofeteei-me mais vezes do que desejava, enrodilhei-me o melhor que pude na protecção impermeável do poncho mas nada as demoveu. Quando o dia clareou e o frio da noite se foi, todos exibiam o rescaldo da luta travada contra o mosquitame. As bolsas de sangue das melgas esborrachadas à bofetada, tinham deixado, na cara de cada um, a sua marca sob a forma de riscos a fazerem lembrar pinturas índias. A princípio, cheguei a admitir que escolheramos mal o lugar para pernoitar mas, bem vistas coisas, melgas haveria sempre, mais perto ou mais longe da água e, pelo menos da sombra, não nos podíamos queixar.
Considerei que a missão estava cumprida e regressámos ao Chipundo. Ainda tínhamos muitas horas pela frente até chegarmos ao aconchego dos lençóis à nossa espera no Rivungo. E dava jeito lá chegar a tempo do jantar. Fizeram-se as despedidas e o condutor pôs o unimog em marcha em direcção à picada que nos trouxera até ali. Olhei de relance e julguei perceber um aceno de despedida do subchefe da PSP.
Seria a última vez que o veria vivo; aquela granada, estupidamente negligenciada, haveria de o matar antes que voltássemos a nos encontrar.

domingo, 1 de novembro de 2015

As armadilhas da chana II

Muito haveria ainda para dizer sobre as particularidades das chanas do Cuando Cubango. Será talvez mania minha insistir nisto mas, a verdade é que ainda recordo, quase em detalhe, aquelas imensidões que nem o arvoredo se atreve a incomodar. Começando num verde luxuriante no pico da época das chuvas, aquelas cearas de capim viçoso, mudam de cor ao sabor dos equinócios, esmaecendo num processo que as vai matizando lentamente de amarelos tímidos até adquirirem aquele ocre de restolho seco que enegrece por efeito das grandes queimadas, voltando a rejuvenescer com as primeiras águas da época seguinte. É uma natureza que, morrendo pelo fogo, renasce das cinzas, exuberante e pujante como se o fogo lhe conferisse vitalidade.
Eram estas mesmas chanas que, formando uma intricada e caótica sucessão de espaços impossíveis de contornar, se interpunham no nosso caminho, dificultando o andamento das viaturas, como se, resistindo, se procurassem vingar da nossa intromissão que, bem se pode dizer, profanava a quietude daquele mundo selvagem, sobrepondo-se ao suave murmúrio do roçagar do capim embalado pela brisa amolengada por força do calor sufocante que chegava a calar o cucuritar das rolas empoleiradas no esparso arvoredo circundante. O facto é que, para se ir a qualquer lado, não havia forma de seguir em frente sem as atravessar já que, a tentativa de as contornar aumentava a distância e não se resolvia a questão. Podia-se evitar atravessar uma chana, mas caía-se necessariamente no meio de outra.
Com o tempo, aprendemos a conhecê-las, especialmente as que se atravessavam no caminho que nos levava ao Rivungo, local onde, para além da Marinha, da PSP e da PIDE, existia um destacamento da companhia da Neriquinha. Explica-se assim porque se conhecia bem aquele caminho de longo tracto.
Cruzávamo-lo com frequência, não só pela necessidade de manter a ligação com os nossos que lá estavam como, também, pelo facto de constituir a única via para o reabastecimento da tropa, dos marinheiros, dos polícias e das estruturas administrativas ali existentes, sem deixar de lado a população dos kimbos que se encontravam nas imediações.
Trilhar aqueles caminhos era uma aventura; por muitos cuidados que se tivesse e por muito que se pensasse que já se sabia tudo, acontecia sempre algo de inesperado. Sair da Neriquinha em direcção ao Rivungo tinha horários de partida mais ou menos estabelecidos mas, a hora da chegada, embora estimada, nunca era uma certeza. No regresso, a história era a mesma. Um dia, o desagradável aconteceu comigo; na ida, tudo correu dentro do previsto mas, no regresso, quando o pior já ficara para trás, as duas berliets enterraram-se nos lamaçais das chanas do Cúbia quando ainda o sol mal tinha acabado de despontar. Só dali conseguimos sair ao fim do dia, já noite cerrada, depois de muito trabalho e a ajuda preciosa que entretanto veio da Neriquinha em nosso socorro.
É verdade, cruzar aquela savana exigia muito cuidado e a escolha criteriosa do trilho por onde se rolava. Retenho gravada na memória a imagem daquela chana que antecedia o kimbo do Lihaona. Não havia forma de lá chegar a não ser seguindo pelo troço de picada enlameada que a cruzava. A situação foi sendo resolvida colocando transversalmente uns troncos de árvore os quais, com o passar das viaturas, se foram enterrando na lama, conferindo a consistência necessária. Mas isso obrigava a que ali se passasse muito devagar num permanente bamboleio com os pneus mastigando a lama e resvalando nos troncos escorregadios, castigando a estrutura das viaturas e os ossos de quem lá ia.
O episódio que agora recordo e a que, felizmente não assisti, faz parte da história da companhia e desenrolou-se naquele bocado pouco consistente que ligava os kimbos do Liahona e do Mugamba. Enquanto durava a estação seca, a picada que por ali serpenteava secava e endurecia. Com o tempo e o passar frequente das viaturas, foi ficando compactada e adquirindo consistência. Quando as chuvas regressavam e as areias abeberavam de água, aquele bocado de caminho ficava submerso mas, ou porque já estivesse suficientemente endurecido ou por qualquer outra razão que não sei explicar, permanecia com a consistência necessária para as viaturas poderem passar sem atascar, desde que se rodasse muito lentamente e não se desviassem nem um nadinha de nada do traçado da picada submersa.
Até que, um dia, por razões que me não chegaram, o pior aconteceu. Parece que, por culpa involuntária de alguém, talvez à mistura com um quanto baste de excessiva confiança e complementado com um bom bocado de imprudência e uma pitada de má sorte, o condutor de uma berliet desviou-se do traçado submerso da picada. Ainda que o desvio tivesse sido ligeiro, patinou, enterrou-se na lama e imobilizou-se. Tentou fazer marcha atrás, usou dos truques que entretanto a experiência já lhe ensinara para sair do atoleiro, mas tudo foi em vão. A viatura quedou-se, ali, submissa, presa na lama. Cortaram árvores, fizeram fustes, escavaram, empurraram, puxaram, usaram os macacos hidráulicos, desenvolveram teorias e fizeram experiências. Mas nada resultou. A noite fez descer o seu manto negro, os mosquitos atacaram em força, o cansaço tomou conta de todas e a viatura continuou queda e muda, presa no amplexo peganhento da lama.
Vieram reforços da Neriquinha, construiu-se um acampamento e por mais de uma semana, desde o nascer ao pôr-do-sol, todos se afanaram nos trabalhos necessários ao desatolanço da berliet, muitos dos quais debaixo de água. Não conheço os pormenores, mas ouvi dizer que quase foi preciso levantar a viatura aos poucos metendo-lhe troncos por baixo.
Quem não ficou contente, foi o nosso comandante, lá no Cuito Cuanavale. Não me admiro nada que tenha descarregado os seus maus fígados em cima do capitão. Na sua forma pouco compreensiva de ver as coisas, certamente entendeu que a culpa, fosse qual fosse, teria sido do comandante da companhia, não obstante este tivesse estado a quilómetros de distância do local

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

As armadilhas da chana

Na savana imensa que caracteriza as terras-do-fim-do mundo, uma chana é a designação que aquele povo dá a qualquer espaço plano, silente e sem árvores ou arbustos que o sombreiem. Descampado será porventura o termo que por cá se usa para designar algo semelhante mas, desiluda-se quem pense que é a mesma coisa. Chana só existe naquelas paragens e não me parece que possa ser comparada com o que quer que se lhe assemelhe. Planície não é certamente.
Uma chana, normalmente abraça qualquer curso de água e essas fazem lembrar pântanos, mas sem areias movediças, que é coisa que nunca ouvi dizer que existisse por ali. Mas também as há onde não corre água; estendem-se em zonas mais baixas para onde, na diluviana época das chuvas, a água escorre pelo terreno arenoso e se aquieta submissa até que o sol as leve. São as chanas secas, como era a da Neriquinha. Por ser seca e nunca ali ter medrado uma árvore, acabou por se transformar naturalmente na pista poeirenta onde, duas vezes por semana, aterrava o pequeno Cessna do Barros que nos trazia o tão desejado correio. Aliás, uma chana era sempre um recurso para qualquer piloto que cruzasse aqueles céus: mais aquém ou mais além havia sempre uma aberta onde era possível aterrar um pequeno avião sem dificuldades de maior, como daquela vez em que faltou o combustível a uma pequena avioneta. O mais difícil foi chegar lá com um jerrican de gasolina mas, depois de abastecido, levantou voo com facilidade e rumou ao seu destino.
Tinham ainda outra vantagem. No tempo do cacimbo, quando, com a ausência de chuva, tudo secava, mesmo as que não tinham um curso de água por perto, retinham normalmente humidade que garantia a verdura perene das ervas e, em casos de necessidade, era sempre um local onde se poderia encontrar água para matar a sede. Bastava escavar um pequeno buraco com um palmo de profundidade e esperar que a água nascesse. Os bichos sabiam disso, nós sabíamos disso e até as hienas estavam informadas. Por tudo o que ficou dito, era o sítio mais óbvio para se encontrar caça.
Mas, para além de esconderem lamaçais, constituíam ainda espaços incaracterísticos; mais recorte menos recorte, mais curva menos curva, mais larga ou mais estreita, todas se pareciam umas com as outras. E, quando a sua extensão se alongava a perder de vista, era quase impossível a quem estivesse no meio delas, perceber o exacto ponto onde se encontrava. Sendo todas absolutamente planas, o mais abaixo não diferia do mais acima e não havia mapa que nos ajudasse. Só mesmo um guia local nos podia levar a algum lado.
Vistas do céu, o seu aspecto era diferente. A mim, nas vezes em que andei lá por cima, sempre me pareceram como peladas no meio daquela imensidão de verde, numa sucessão caótica de espaços que apenas insinuavam cursos de água escondidos pela vegetação, hesitantes, sem direcção definida e descobrindo-se onde menos se esperava em fartas lagoas que reflectiam resplendorosas o azul intenso do céu.
Para o Barros, piloto da empresa de táxis aéreos do sul de Angola (TASA) que voava diariamente por sobre aquela imensa savana, todo aquele intrincado de chanas e linhas de água era como se fosse um mapa desenhado pela natureza. Conhecia cada palmo da savana e dizia-se que nunca usava as cartas e instrumentos de navegação para se orientar. Normalmente o percurso que fazia era sempre o mesmo: nuns dias descia ao longo do rio Cuito, noutras, quando nos trazia o correio, seguia, a partir de Serpa Pinto em direcção ao Cuito Cuanavale, tomava a direcção do Rio Lomba até ao Dima, seguia por Mavinga e enfiava direito à Neriquinha onde, ansiosos, o esperávamos duas vezes por semana. Depois, sobrevoava as chanas que se estendiam a oeste do Rio Cuando em direcção ao Rivungo. O percurso seguinte, de regresso a Serpa Pinto, já não nos interessava. Assim, se alguma vez o soube, o tempo lá se encarregou de o arrumar nos escaninhos mais profundos da memória, lugar de onde nunca mais saiu.
Mas isso era o Barros, qualquer outro piloto que por ali se aventurasse não podia dispensar a ajuda das cartas e do mais que, para o efeito, equipa os aviões. Certa vez, um piloto, novato e desconhecedor daquelas paragens, incumbido de levar até Serpa Pinto um engenheiro agrónomo que para ali se deslocara para tratar de assuntos da sua especialidade, levantou da pista do Rivungo com pouco combustível planeando reabastecer na Neriquinha, orientando o voo pela carta que reproduzia fielmente os rios, afluentes e riachos que se avistavam de lá de cima.
Havia, contudo, um problema; todas as cartas da região assinalavam aquela nossa precária e provisória residência como estando localizada nas margens do Rio Cuando, aí uns vinte quilómetros para leste, local então designado por Neriquinha-Velha onde apenas havia umas lavras, alguma população dispersa e quatro paredes quase desfeitas, verdadeiro esqueleto de uma casa que por ali existira. Ou seja, as cartas não conheciam a localização da nossa Neriquinha e, pelos vistos, aquele piloto também não.
Como é bom de ver, dirigira o avião para um local onde não poderia aterrar e, ao aperceber-se disso, terá pensado que se desviou do rumo. Deu uma volta, e mais outra sem nunca divisar a tão famigerada pista e na ânsia de a encontrar, desorientou-se e foi-se desviando cada vez mais do seu objectivo até não conseguir mais encaixar no mapa os recortes do terreno lá em baixo. Desatinou e deambulou pelos céus da savana até que se lhe esgotou o combustível sem que tivesse divisado o seu objectivo.
Nem discernimento teve para procurar uma chana seca. Acabou por amarar no meio do capim alagado, ali logo ao lado de um acampamento inimigo que tínhamos destruído um par de meses antes, muito longe do seu destino inicial.
Tirando umas escoriações, todos saíram ilesos da queda, mas deambularam por aquelas matas durante três dias antes que fossem encontrados por um PV2 da força aérea quando, depois de ter passado a pente fino toda a região estava prestes a desistir. É caso para dizer que não morreram da queda mas iam morrendo de fome.
A carcaça do avião, essa, foi recuperada, mais tarde, numa espantosa aventura chefiada pelo furriel Leitão. Mas isso já eu contei aqui.


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Os caminhos da savana II

É mais um pequeno acrescento a tudo o que escrevi sobre as capacidades de orientação das gentes que habitam uma das zonas remotas do território angolano. E estamos a falar de um povo que, pelo menos naqueles tempos, tendo hábitos de vida bastante afastados do que se poderia designar por civilização, era considerado como integrantes da mais atrasada de todas as etnias que povoavam aquele imenso território, atraso que, como é bom de ver, era medido a partir da comparação com o padrão de vida dito civilizado, citadino ou, se se quiser elevar a bitola, evoluído.
Só que, aquele povo, para levar a sua vida, não necessitava de nenhuma das vantagens ou alegadas mordomias do mundo moderno. Pautavam o seu modus vivendi por hábitos ancestrais, tinham pavor a quase tudo o que se assemelhasse a uma qualquer maquineta, eram capazes de considerar o médico analfabeto quando comparado com a imensa sabedoria do curandeiro da aldeia e as suas superstições quase que condicionavam tudo o que faziam ou pensavam. Por exemplo, uma máquina fotográfica era uma invenção do demónio para lhes roubar a alma e um rádio bem podia ser o portal que o dito utilizava para, desde as profundezas do inferno, enviar as suas ameaças aos que por cá andassem. Feitiçarias, enfim.
Pois! Podiam ser tudo isso, mas eram doutores relativamente ao que era preciso conhecer para tirar partido do muito pouco que aquela terra estéril e areenta tinha para dar. Em tudo o que tivesse a ver com isso a sua sabedoria era imensa, especialmente quando comparada com a nossa total ignorância sobre tais assuntos. Por ali, a nossa vasta cultura era de pouca serventia, especialmente quando o que importava era saber por onde andar, quer estejamos a falar do terreno que se pisava quer da direcção a tomar para chegar a algum lado.
O episódio passou-se comigo na companhia de outros três em quem o juízo e as cautelas pareciam interessar pouco. E surgiu na sequência de uma proposta feita por um dos fuzileiros do destacamento de marinha estacionado no Rivungo. Ainda não decorrera um mês desde que ali chegáramos e para nós, imberbes principiantes, os mistérios da savana ainda eram exactamente isso; mistérios, desconhecidos e insondáveis. Mas para o pessoal da Marinha, que já ali estava há algum tempo, não seria bem assim. O marinheiro, de quem infelizmente não consigo recordar o nome, veio ter connosco e propôs uma caçada. Naquela altura do ano, as chanas do Uefo costumavam apresentar-se como uma extensa pastagem verdejante e seria certamente fácil encontrar, algures no meio das ervas, uma vítima a condizer. Era só escolher.
O Alferes autorizou, a escolha da equipa reuniu consenso, aperraram-se armas, embainharam-se as facas de mato, atestou-se o depósito do Unimog e, quando as três já se aproximavam das quatro da matina, eu, o Silva, o homem da marinha e o condutor Figueiredo, mais conhecido por Comandos e que parecia só ter medo de agulhas e injecções, largámos em direcção à picada sinuosa que se dirigia ao Caxoxo, pequeno Kimbo localizado nas imediações das margens do Uefo, aonde chegámos uma hora depois, já o sol, que por ali costuma ser madrugador, despontava por entre as árvores. Naquelas paragens, às cinco da manhã já é dia claro e pelas seis o calor já frita miolos.
Os homens da PSP, ali destacados, indicaram-nos um guia de confiança, deram-nos umas dicas, desejaram boa sorte e partimos, sem pressa, que a picada, ora de areia solta ora lamacenta, não ajudava, em direcção à grande chana do rio de fraco caudal que serpenteia em direcção a sul.
Avançámos, ao sabor dos meandros da chana, procurando evitar as zonas mais alagadas, perscrutando cada recanto da mata e detendo o olhar em cada tufo de capim, tentando adivinhar onde estariam as manadas de palancas que, na nossa ignorância de principiantes, se considerava certo andarem por ali.
Mas nem um bicho se nos apresentou, nada mesmo. Naquele extenso prado verdejante, de beleza feérica, longe de tudo e sem nada que pudesse perturbar a paz circundante ou assustar o que quer que fosse, não se via vivalma.
Continuámos para sul, desflorando aquela paisagem virgem, confiantes de que o guia nos saberia trazer de volta e na espectativa de que, em qualquer dos recantos caprichosamente recortados na paisagem, surgisse o que quer que fosse que justificasse a viagem. De repente, quando, já desanimados, nos preparávamos par regressar, surgiu o vulto amarelo ocre de um antílope, um nunce como era conhecido, mordiscando placidamente um tufo de erva, quase passando despercebido na linha que separa o descampado da mata que bordeja a chana.
Num primeiro momento não se apercebeu da nossa aproximação, até que provavelmente alertado pelo ronronar do motor que o Comandos procurava controlar com uma aproximação cautelosa, o bicho deu um pinote e encetou uma cavalgada desenfreada em direcção ao interior da mata ao mesmo tempo que o condutor, acelerando a fundo, lhe seguia no encalço, procurando competir com a corrida de um animal que ziguezagueando por entre o arvoredo, saltando por cima de cada obstáculo, se afanava em fugir à besta roncante que lhe seguia na peugada.
O Comandos, sacando da sua perícia, exigiu do Unimog tudo o que ele tinha para dar e lançou-se numa louca correria mata adentro, derrubando árvores, contornado as de maior porte, evitando num último momento uma depressão no terreno que, escondida pelo capim, surgira pela frente, perseguindo o animal até que, depois de dois saltos impelidos pelas ágeis patas traseiras, o nunce despareceu por entre a vegetação.
Parámos. Esfreguei as mãos doridas do esforço feito para me segurar ao banco, retomámos a compostura, conferenciámos e decidiu-se que o melhor era regressar, ainda que de mãos a abanar. Olhámos em volta. A mata circundante era incaracterística, sem pontos de referência. A chana do Uefo desaparecera e depois daquela correria sem destino ninguém sabia para que lado ficava o norte e menos ainda que direcção seguir.
Era exactamente para isso que se precisava do guia e o homem cumpriu plenamente a sua função. Sentou-se sobre a parte superior do encosto dos bancos, pés nus, sujos e gretados sobre o assento, esticou o braço para a frente indicando o caminho a tomar e, sem dizer palavra, esperou que se iniciasse a marcha. O Comandos arrancou, seguindo a direcção apontada pelo braço do homem, conduzindo a viatura a corta mato, sem pressas, desviando-se das árvores e contornando a vegetação mais espessa. Sempre que, um obstáculo obrigava a um desvio de maior amplitude, o braço do guia, parecendo dotado de uma qualquer agulha magnética, movia-se para a esquerda ou para a direita, corrigindo o rumo, como se perseguisse um ponto invisível, no meio do arvoredo.
Seguimos assim, por longo tempo, confiando apenas no braço estendido do guia. Por mim, interrogava-me seriamente se seria aquele o caminho certo. As árvores pareciam ser sempre as mesmas, a vegetação rasteira à nossa frente, uma repetição da que se acabara de pisar e aquela árvore, um pouco mais frondosa que as demais, não era diferente da que se tinha contornado um quarto de hora antes. Cheguei a pensar que seguíamos em sentido oposto ao que eu pressupunha ser o correcto, para de seguida, duvidando da certeza do guia, imaginá-lo um elemento do inimigo a levar-nos em direcção a uma qualquer emboscada. Contudo, se era por ali que o guia apontava, era por ali que se seguia, até porque opção diferente não havia.
Finalmente, depois de tanto ziguezague e sem nunca se divisar um horizonte, logo ali, a seguir a uma espécie de moita mais espessa, como se surgisse do nada, a picada desenhou-se por entre o capim para, cinco minutos depois, após uma ligeira depressão, se divisar claramente as palhotas do Caxoxo.
Não sei como, mas o homem trouxe-nos direitinhos ao ponto de partida. Ou conhecia cada árvore daquela mata imensa ou então memorizou mentalmente o percurso feito na ida para, numa espécie de recriação da lenda de Ariadne, nos trazer de volta seguindo o fio criteriosamente gravado na sua memória.
Na altura, não me ocorreu outra explicação.