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domingo, 1 de novembro de 2015

As armadilhas da chana II

Muito haveria ainda para dizer sobre as particularidades das chanas do Cuando Cubango. Será talvez mania minha insistir nisto mas, a verdade é que ainda recordo, quase em detalhe, aquelas imensidões que nem o arvoredo se atreve a incomodar. Começando num verde luxuriante no pico da época das chuvas, aquelas cearas de capim viçoso, mudam de cor ao sabor dos equinócios, esmaecendo num processo que as vai matizando lentamente de amarelos tímidos até adquirirem aquele ocre de restolho seco que enegrece por efeito das grandes queimadas, voltando a rejuvenescer com as primeiras águas da época seguinte. É uma natureza que, morrendo pelo fogo, renasce das cinzas, exuberante e pujante como se o fogo lhe conferisse vitalidade.
Eram estas mesmas chanas que, formando uma intricada e caótica sucessão de espaços impossíveis de contornar, se interpunham no nosso caminho, dificultando o andamento das viaturas, como se, resistindo, se procurassem vingar da nossa intromissão que, bem se pode dizer, profanava a quietude daquele mundo selvagem, sobrepondo-se ao suave murmúrio do roçagar do capim embalado pela brisa amolengada por força do calor sufocante que chegava a calar o cucuritar das rolas empoleiradas no esparso arvoredo circundante. O facto é que, para se ir a qualquer lado, não havia forma de seguir em frente sem as atravessar já que, a tentativa de as contornar aumentava a distância e não se resolvia a questão. Podia-se evitar atravessar uma chana, mas caía-se necessariamente no meio de outra.
Com o tempo, aprendemos a conhecê-las, especialmente as que se atravessavam no caminho que nos levava ao Rivungo, local onde, para além da Marinha, da PSP e da PIDE, existia um destacamento da companhia da Neriquinha. Explica-se assim porque se conhecia bem aquele caminho de longo tracto.
Cruzávamo-lo com frequência, não só pela necessidade de manter a ligação com os nossos que lá estavam como, também, pelo facto de constituir a única via para o reabastecimento da tropa, dos marinheiros, dos polícias e das estruturas administrativas ali existentes, sem deixar de lado a população dos kimbos que se encontravam nas imediações.
Trilhar aqueles caminhos era uma aventura; por muitos cuidados que se tivesse e por muito que se pensasse que já se sabia tudo, acontecia sempre algo de inesperado. Sair da Neriquinha em direcção ao Rivungo tinha horários de partida mais ou menos estabelecidos mas, a hora da chegada, embora estimada, nunca era uma certeza. No regresso, a história era a mesma. Um dia, o desagradável aconteceu comigo; na ida, tudo correu dentro do previsto mas, no regresso, quando o pior já ficara para trás, as duas berliets enterraram-se nos lamaçais das chanas do Cúbia quando ainda o sol mal tinha acabado de despontar. Só dali conseguimos sair ao fim do dia, já noite cerrada, depois de muito trabalho e a ajuda preciosa que entretanto veio da Neriquinha em nosso socorro.
É verdade, cruzar aquela savana exigia muito cuidado e a escolha criteriosa do trilho por onde se rolava. Retenho gravada na memória a imagem daquela chana que antecedia o kimbo do Lihaona. Não havia forma de lá chegar a não ser seguindo pelo troço de picada enlameada que a cruzava. A situação foi sendo resolvida colocando transversalmente uns troncos de árvore os quais, com o passar das viaturas, se foram enterrando na lama, conferindo a consistência necessária. Mas isso obrigava a que ali se passasse muito devagar num permanente bamboleio com os pneus mastigando a lama e resvalando nos troncos escorregadios, castigando a estrutura das viaturas e os ossos de quem lá ia.
O episódio que agora recordo e a que, felizmente não assisti, faz parte da história da companhia e desenrolou-se naquele bocado pouco consistente que ligava os kimbos do Liahona e do Mugamba. Enquanto durava a estação seca, a picada que por ali serpenteava secava e endurecia. Com o tempo e o passar frequente das viaturas, foi ficando compactada e adquirindo consistência. Quando as chuvas regressavam e as areias abeberavam de água, aquele bocado de caminho ficava submerso mas, ou porque já estivesse suficientemente endurecido ou por qualquer outra razão que não sei explicar, permanecia com a consistência necessária para as viaturas poderem passar sem atascar, desde que se rodasse muito lentamente e não se desviassem nem um nadinha de nada do traçado da picada submersa.
Até que, um dia, por razões que me não chegaram, o pior aconteceu. Parece que, por culpa involuntária de alguém, talvez à mistura com um quanto baste de excessiva confiança e complementado com um bom bocado de imprudência e uma pitada de má sorte, o condutor de uma berliet desviou-se do traçado submerso da picada. Ainda que o desvio tivesse sido ligeiro, patinou, enterrou-se na lama e imobilizou-se. Tentou fazer marcha atrás, usou dos truques que entretanto a experiência já lhe ensinara para sair do atoleiro, mas tudo foi em vão. A viatura quedou-se, ali, submissa, presa na lama. Cortaram árvores, fizeram fustes, escavaram, empurraram, puxaram, usaram os macacos hidráulicos, desenvolveram teorias e fizeram experiências. Mas nada resultou. A noite fez descer o seu manto negro, os mosquitos atacaram em força, o cansaço tomou conta de todas e a viatura continuou queda e muda, presa no amplexo peganhento da lama.
Vieram reforços da Neriquinha, construiu-se um acampamento e por mais de uma semana, desde o nascer ao pôr-do-sol, todos se afanaram nos trabalhos necessários ao desatolanço da berliet, muitos dos quais debaixo de água. Não conheço os pormenores, mas ouvi dizer que quase foi preciso levantar a viatura aos poucos metendo-lhe troncos por baixo.
Quem não ficou contente, foi o nosso comandante, lá no Cuito Cuanavale. Não me admiro nada que tenha descarregado os seus maus fígados em cima do capitão. Na sua forma pouco compreensiva de ver as coisas, certamente entendeu que a culpa, fosse qual fosse, teria sido do comandante da companhia, não obstante este tivesse estado a quilómetros de distância do local

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

LITENDA – O Administrador do Rivungo

Existiam diferenças entre a Neriquinha e o Rivungo e significativas, sem dúvida. Desde logo, a proximidade do rio. Na Neriquinha não corria água enquanto que o Rivungo era banhado pelas substanciais águas calmas e sinuosas do Rio Cuando. Contudo, a principal diferença residia na sua estrutura administrativa. Enquanto a Neriquinha era apenas uma espécie de acampamento militar, delimitado por uma cerca de arame farpado, à beira de um descampado em forma de pista de aviação, o Rivungo era considerado uma povoação. Em termos administrativos, uma Circunscrição. Isso significa que tinha casas e uma autoridade administrativa, para além das instalações militares que albergavam, junto ao Rio, um destacamento do exército enquadrado por um pelotão da companhia da Neriquinha e um destacamento de Marinha. Havia ainda dois agentes da DGS, que se entretinham em secretas actividades de espionagem e a PSP, cuja missão não era propriamente a manutenção da ordem pública mas a defesa das populações que habitavam os Kimbos administrativamente dependentes do Rivungo e disseminados pela mata a distâncias consideráveis: o Liahona, o Mugamba e o Demba, no enfiamento da picada que levava à Neriquinha, o Caxoxo meio perdido mais para o interior, o Samatamo à beira do Cuando a meio caminho do Chipundo, constituindo este a derradeira fronteira a sul e finalmente, ali bem pertinho, a Mahinha, pequeno kimbo com meia dúzia de cubatas, arrumado no meio das lavras mantidas pela população.
A mandar em tudo isto, o Administrador. Em tudo não, que o homem não mandava na tropa, nem na marinha e tão pouco na DGS e tenho dúvidas quanto à sua ascendência sobre a PSP. Mas era de facto a autoridade civil máxima por aquelas bandas e não deixava os seus créditos por mãos alheias.
Creio que nunca cheguei a saber o seu nome de baptismo e quanto ao seu apelido, perdi-o nos recantos da memória. Formalmente, era tratado por Senhor Administrador, pelo menos era esta a forma como todos se lhe dirigiam, desde o membro mais insignificante da população até às mais altas hierarquias que por ali andavam. Tirando isso, era simplesmente conhecido pela alcunha de Litenda. Fosse em que circunstância fosse, estivesse quem estivesse, desde que o homem não andasse por perto, Litenda era o nome que se usava, mesmo em ambientes formais. E tornou-se tão vulgar que havia quem pensasse ser esse o seu nome, embora se soubesse que não gostava da alcunha, mostrando-se enfadado sempre que se apercebia que assim o tratavam.
O Litenda era um homem peculiar, de tal forma que quem quer que tivesse estado no Rivungo, nunca mais o esqueceu. E, no Cuando Cubango, mesmo quem não o tenha conhecido, certamente que dele ouvira falar. Fosse em que circunscrição fosse, o seu nome e as suas façanhas eram sobejamente conhecidas.
As suas características físicas eram marcantes, quase especiais, diria únicas. Tirando os membros da população local, era certamente o mais velho habitante do Rivungo, o que é natural já que, entre os que por ali andavam em missão de soberania, poucos haveria com mais de trinta anos. Exibia uma pose estudada de jovialidade e desenvoltura, numa tentativa ensaiada de disfarçar a idade denunciada pela vasta e luzidia calvície, característica que lhe deu a alcunha: No dialecto local, Litenda significava careca e encerrava em si uma carga depreciativa.
Corpo esguio, normalmente enfiado numa farda cor de caqui, cujo corte lhe realçava a magreza, especialmente a calça estreita, quase justa pelos artelhos, a alongar o sapato que fazia questão de usar no meio daquele mundo de pó. Sobre os ombros, uns galões com aplicações avermelhadas atestavam a autoridade que o cargo lhe conferia. A pele tisnada, de um castanho carregado pela exposição ao sol acentuando o brilho da careca sem pêlo, denunciava uma vida inteira de deambulações pelas savanas e recônditos lugares das profundezas de África, acumulando histórias e aventuras que contava à medida do discorrer de memórias de tempos passados, uma das quais certamente explicaria a perda de um olho, cuja cavidade vazia era preenchida por uma esfera de vidro rapidamente identificável pela imobilidade das pálpebras envolventes.
Era, enfim, o típico branco africano que parecia conhecer bem a zona, os costumes e até os hábitos dos turras. Sabia sempre de um caminho novo nos itinerários que percorria amiúde nas visitas que ia fazendo às populações espalhadas pelos kimbos da circunscrição que chefiava, sendo notória a sobranceria com que as tratava. Dando-se ares de superioridade perante populações que parecia considerar como seres inferiores, fazia alarde das receitas que possuía para os manter controlados. Como costumava dizer:
- Importa é que não armem maka!
Maka, termo, que por ali significava confusão, era coisa que, pelo menos no meu entender, não fazia sentido: aquele era um povo pacífico que só se preocupava com a sua subsistência e nunca os vi causar distúrbios que merececem preocupaçao.
Sempre ao volante do seu Land Rover, autêntico parceiro de aventuras, circulava pela savana imensa, acompanhado por dois ou três Cipaios, espécie de guarda pretoriana sem condições para fazer frente a qualquer eventualidade. Armados apenas com velhinhas Mauser, totalmente desadequadas à realidade da guerra e que, já naquela altura, mais se pareciam com peças de museu, mesmo quando comparadas com o armamento dos guerrilheiros. Mas era esta a companhia do Litenda nas suas incursões pela mata, especialmente um deles que não descolava do Administrador, acompanhando-o para onde quer que fosse, como uma autêntica sombra sem nunca se lhe ouvir uma palavra ou lamento; e quando andava sozinho, levava certamente um recado a alguém em cumprimento de ordens do chefe. Arrumados nas traseiras da viatura, procurando a todo o custo não serem cuspidos pelos contínuos solavancos, saltos e piruetas a que a picada esburacada obrigava, representavam a única segurança com que o Litenda se atrevia pelas matas, como se estivesse protegido por um qualquer pacto que lhe assegurava imunidade à eventualidade de uma emboscada, coisa que, verdade seja dita, nunca lhe aconteceu, pelo menos enquanto andou por terras do Cuando Cubango.
Nas suas mãos, o Land Rover dava o máximo, que o Litenda não sabia conduzir devagar; dizia que assim evitava atascar na areia solta. Mas verdade seja dita, dentro ou fora da povoação, a velocidade era sempre a mesma. Quando nos visitava, normalmente para tratar de qualquer formalidade com o alferes, acelerava pela picada que findava junto às nossas instalações e numa manobra ensaiada e quase mecanizada pelo número de vezes que a executou, rodava o volante para a direita, inclinava o corpo para o mesmo lado como se quisesse anular o efeito da força centrífuga e num rodopio, como se intentasse fazer inversão de marcha, colocava o Land Rover numa posição perpendicular à picada, deixando-o depois descair pelo declive parqueando no terreno adjacente.
Até um dia. O alferes, talvez inspirado no sistema de defesa da Neriquinha, decidiu cavar, logo ali ao lado, um buraco rectangular onde pretendia montar o morteiro e com isso aumentar a capacidade de defesa em caso de ataque à localidade.
Poucos se aperceberam do avançar da obra e o Litenda, para sua infelicidade, desconhecia-a de todo, não sabia, nem tinha sido informado.
O pior, é que o sítio entendido como adequado para abrir a trincheira foi exactamente aquele onde, por hábito, o Administrador costumava largar a viatura. A agravar a situação, o pessoal destacado para a obra exagerou no tamanho do buraco.
Assim, quando uma qualquer razão levou o Litenda a visitar-nos, montou-se no Land Rover, acelerou pela picada e com estilo executou com mestria a manobra do costume, deixando depois a viatura deslizar de marcha-atrás pelo declive. Não viu nem podia ver que, naquele exacto local, existia agora um buraco e de tamanho suficiente para engolir a viatura cujas rodas do seu lado esquerdo acertaram direitinhas no vazio da trincheira em construção. O Land Rover adornou, afundou-se lentamente, enrolou-se sobre si mesmo capotando e pousou no fundo da trincheira de rodas para o ar numa posição caricata, com os quatro pneus a rodar no vazio como um qualquer escaravelho que, ao tombar, não se consegue endireitar, dando às patas numa tentativa de sair da posição desconfortável.
A muito custo e ainda meio atarantado, o Litenda, esgueirou-se do interior da cabine e trepou até sair do buraco. Sacudiu-se, tentou compor a pose, ensaiou um ar irado e apontando o buraco, gritou:
- Quem abriu aqui este buraco?
Conteve-se, procurou acalmar-se refreando o chorrilho de asneiras que se adivinhava pronto a sair, engoliu em seco e pareceu raciocinar sobre o que lhe acabara de acontecer, à medida que tomava consciência da situação. Ao ver o ar sério e preocupado do alferes deve ter juntado dois e dois e deduzido que o culpado tinha autoridade e se calhar justificação para mandar executar a obra. Só não sabia qual.
A risada mal disfarçada dos circunstantes misturou-se com a preocupação agravada pela culpa assumida - o homem podia ter-se magoado a sério. De facto, podia ter-se ali colocada uma sinalefa qualquer, avisando do perigo. Mas agora era tarde e ao alferes, apenas lhe saiu um:
- Então, Sr. Administrador! O senhor está bem?
Eu não resisti a olhar insistentemente para a cara do homem. O capotanço, mais parecendo uma cena em câmara lenta, não causou grande estardalhaço, mas podia ter-se magoado, partido qualquer coisa ou, lembrei-me, ter perdido o olho de vidro.
Mas não, nem um arranhão. O Litenda apenas se esforçava por conter a irritação ao mesmo tempo que balbuciava.
- Eu não tenho nada! A viatura é que deve estar toda partida!
E acocorando-se, espreitava a parte visível da carroçaria procurando avaliar os estragos.
- E agora? Como vamos tirar isto daqui?
Era de facto um problema a resolver. O Land Rover não estava apenas capotado, estava completamente encaixado dentro do buraco que mais parecia ter sido feito à medida. Tirá-lo dali não iria ser fácil, não obstante as sugestões, bitaites e toda a espécie de palpites por parte dos circunstantes. Por sorte, decorriam as obras de construção da nova pista de aviação havendo, por isso, maquinaria pesada capaz de desenterrar a viatura sem a amachucar mais do que já estava.
No fim, pelo ridículo e embaraço da situação, a auto-estima do Litenda saiu mais amachucada da refrega do que o Land Rover acidentado.

domingo, 11 de janeiro de 2009

O ataque ao Mugamba

O dia amanheceu sem novidades. Na verdade, pouca coisa acontecia no Rivungo, para além dos dias se sucederem às noites e estas aos dias. Cada novo dia era igual ao anterior, pastoso, quente, com a temperatura a ultrapassar os 40 graus. As fartas chuvadas, gotas grossas que se evaporavam ao primeiro contacto com o chão sobreaquecido, constituíam uma bênção que apaziguava o efeito das escaldantes ferroadas dos agressivos raios solares. As cantáridas, exibindo a sua cintilante cor verde metálica, quase preto, abundantes na época das chuvas, vagueavam sobre a areia endurecida pela borrasca, aproveitando a fresquidão momentânea do solo, acasalando num indolente e quase estático ritual, permanecendo o macho por longo tempo sobre a fêmea, fazendo jus ao poder que se dizia possuírem. Constava que as suas asas, secas e transformadas em pó, constituíam um afrodisíaco poderoso. Contudo, nunca me apercebi que alguém tivesse sequer tentado experimentar. Por um lado, era perigoso. O pequeno escaravelho segregava um líquido corrosivo que provocava uma queimadura na pele, difícil de sarar. Por outro lado, afastados da civilização e já só retendo uma imagem remota do que era uma mulher branca, a última coisa de que se necessitava era de algo com tal efeito estimulante. Tanto mais que o agradável perfume de mulher, era ali substituído por um odor anti-afrodisíaco que refreava o ímpeto e aconselhava ao recato.
A calma reinante foi abruptamente interrompida pela chegada apressada do Chefe França. Vinha acompanhado do administrador Litenda e de um elemento da população, nitidamente ofegante. Era um mensageiro enviado pelos agentes da Polícia de Segurança Pública destacados no Mugamba, com a missão de comunicar que o Kimbo tinha sido atacado por um grupo de turras.
Nestes casos, competia à tropa sair em perseguição dos atacantes.
- Dar-lhes caça … aniquilá-los!
Sentenciou o Litenda.
No meu ainda pouco conhecimento dos meandros da guerra, pensei para comigo que pouco ou nada haveria a fazer. O mensageiro só saíra do Mugamba quando a sarrafusca acabou, a distância era considerável e o percurso a pé demorado. Mesmo considerando a resistência daquela gente e a facilidade com que percorriam a pé grandes distâncias, era claro que já havia decorrido muito tempo.
- O mais certo é já estarem bem longe!
Alvitrou o chefe França.
No entanto, a estratégia da perseguição teria de ser cumprida. Era preciso que o inimigo soubesse que não podia repetir a graça. Dar-lhes caça e mostrar que estávamos ali, era o mínimo que se podia fazer, caso contrário, tornavam-se atrevidos e ainda acabavam por nos bater à porta.
Em menos de um nada, encontrava-me em cima de um unimog, que acelerava roufenho e saltitante pela arenosa e sinuosa picada que levava ao Mugamba, na vã tentativa de recuperar o imenso tempo que já decorrera desde o ataque. Comandados pelo próprio alferes Fausto, seguia mais de metade do efectivo militar do Rivungo. Haviam sido distribuídas, à pressa, rações de combate para dois dias, o alferes munira-se de um conjunto de cartas militares do terreno, carregáramos o armamento disponível e assim nos lançámos no encalço do inimigo que se atrevera a quebrar a monotonia de um dia que amanhecera quente, mas sossegado.
Levámos mais de uma hora a percorrer a distância que separava o Rivungo do Mugamba, um pequeno kimbo, no meio da mata, cujo isolamento apenas fora minorado porque a picada que vinha da Neriquinha, forçada a um desvio, obrigava as colunas de reabastecimento a por ali passarem. Era constituído por uma escassa dezena e meia de cubatas de capim, dispostas de forma irregular num descampado, cuja população, maioritariamente de etnia ganguela, se dedicava a actividades de subsistência – agricultura rudimentar, criação de meia dúzia de vacas e caça artesanal.
A protegê-las (o termo parecia-me um pouco exagerado), dois agentes da PSP, que por ali sobreviviam, sem terem para onde ir e sem nada para fazer, para além de assistirem ao indolente passar do tempo, tarefa bem mais monótona e menos interessante do que a da tropa. Pensava eu que, tal como nós, estavam ali porque para ali tinham sido enviados. Destacados em missão de soberania. Apercebi-me depois que, muitos deles eram voluntários. Razões económicas ditavam a opção. O vencimento era significativamente superior ao que auferiam na cidade. Logo, se ali estavam, é porque consideravam valer a pena o sacrifício.
O posto da PSP, residência e sede da autoridade, não era mais do que uma cubata de capim, paredes de paus a pique e chão de terra batida, maior do que as demais, mas apenas possuindo uma ampla divisão, onde jaziam duas pequenas enxergas cobertas por uma rede mosquiteira, ornamento fundamental para que um ser humano ali pudesse dormir sem ser devorado pela chusma de mosquitos. A um canto, uma pequena mesa onde descansavam alguns tachos e um petromax para iluminar as noites.
A construção era protegida por uma barreira de terra com cerca de um metro de altura e meio metro de espessura, amparada por duas fileiras de troncos enterrados na vertical, constituindo uma espécie de muralha artesanal a rodear a frágil barraca. A passagem para o interior fazia-se por uma única entrada, a lembrar burladeros em praça de toiros. A sua eficácia ficou demonstrada ao confirmar-se que um tiro de G3, disparado a curta distância, não trespassava a barreira.
Foi esta rudimentar fortificação que, a meio da noite, foi atacada, tendo estado debaixo de fogo durante duas horas, apenas defendida pelos dois elementos da PSP secundados por três ou quatro auxiliares, recrutados entre a população local, ripostando ao fogo inimigo com o escasso armamento disponível: duas G3 e algumas espingardas Mauser.
Resguardados atrás da frágil, mas eficaz muralha, disparavam sobre os atacantes, com comedimento, apontando para um alvo indefinido, apenas orientados pelos fogachos dos disparos inimigos. A reserva de munições não era grande e não era fácil avaliar quantos eram os atacantes, nem até onde estariam dispostos a ir. Ripostavam tiro a tiro, não obstante as G3 permitirem rajadas curtas, o mesmo não se podendo dizer das Mauser que, não sendo armas automáticas, por aí se ficavam. Cada tiro dado implicava a preparação manual para o próximo, naquele repetitivo movimento de culatra atrás, culatra à frente, enquanto houvesse munições.
Aos primeiros alvores da madrugada cessou a fuzilaria. Ou porque se lhes esgotou as munições, ou porque a escuridão deixara de os proteger, os atacantes desapareceram tão de repente como haviam chegado, deixando ilesos os até então sitiados.
Com as devidas cautelas, saíram da fortificação, procurando avaliar o resultado da escaramuça num reconhecimento pelos arredores. Os atacantes haviam-se entrincheirado atrás da cerca onde a população, durante a noite, guardava a sua reduzida manada de gado. Os animais estavam mortos. Apanhadas entre dois fogos, foram dizimadas pelas balas dos beligerantes, tanto de um lado como do outro.
A contenda não vitimou ninguém. Nem um único arranhão em quem quer que fosse. Também não visou a população. Contudo, foi esta que sofreu o maior prejuízo. Ficou sem o seu mais valioso bem patrimonial e principal símbolo de riqueza. As vacas.
Quanto aos dois agentes da PSP, fomos encontrá-los abalados e com a moral em baixo. Descontraíram com a nossa chegada, mas nunca mais dormiram tranquilos durante o resto do tempo que durou a sua missão naquele pedaço esquecido de fim de mundo.

...Continua em "A perseguição"...

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A Savana - da Neriquinha ao Rivungo


Não houve tempo para explorar a Neriquinha. Para o meu grupo de combate, incumbido de render o grupo destacado no Rivungo, a viagem ainda não terminara. Comandado pelo alferes Fausto e coadjuvado por três furriéis (eu, o Duarte e o Silva) estava já preparado para partir, devidamente reforçado com os necessários especialistas: um cozinheiro, um enfermeiro, um radiotelegrafista, um transmissões, dois condutores e um corneteiro, somando o conjunto, cerca de 30 homens.
Engoli o almoço à pressa, apertei o cinturão, convenientemente apetrechado com cartucheiras, cantil e demais equipamento, agarrei na G3, atirei o saco com as tralhas para cima da berliet, tomei assento ao lado do Duarte, que já se instalara junto ao condutor e sob um sol inclemente, iniciámos a marcha em direcção à clareira que, parecendo dar continuidade à pista, apontava para sul.
As duas berliets rolavam uma atrás da outra, arrastando-se bamboleantes, numa marcha lenta, com os motores em esforço, lutando contra a falta de consistência do terreno arenoso que cedia facilmente sob o seu peso, vencendo penosamente cada metro de picada e sacudindo a sua carga, por efeito das irregularidades do terreno, que a dureza da suspensão não compensava, ameaçando cuspir quem não se agarrasse com firmeza. A picada, nome dado às únicas estradas que por ali existiam, reduzia-se a dois sulcos profundos, abertos pelos rodados das viaturas, num percurso sinuoso pela savana, ora penetrando na mata de árvores de pequeno porte, ora bordejando a zona não arborizada, normalmente alagada, a que os locais chamavam de chana.
Era o primeiro encontro com a temível picada e todo o conjunto envolvente, verdadeira materialização do teatro de operações que, até então, se limitara a uma antevisão imaginária de densas e perigosas matas, onde deveríamos aplicar as técnicas militares aprendidas, desde o rastejar à queda na máscara, passando da cambalhota em frente ao salto de peixe e toda a panóplia de artes destinadas a baralhar o inimigo. A realidade presente revelava-se diferente, onde cada momento, cada troço daquele cenário, constituía uma sucessão de quadros, desenrolando-se à nossa volta e trazendo novas sensações, novidades, temores, êxtase, certezas e incertezas de um mundo desconhecido que, dentro de algum tempo, se tornaria familiar. Nada se parecia com a tenebrosa mata que imaginara, cerrada, ameaçadora, escondendo mil e um perigos. Pelo contrário! Ali, tudo era plano. Nem a mais pequena elevação de terreno, morro ou encosta que pudesse acoitar o inimigo. Quanto à mata, o tipo de arvoredo deixava ver nitidamente a uma distância razoável para o seu interior, reduzindo os meus temores. Apenas o capim me preocupava. Esta vulgar erva africana crescia viçosamente por todo o terreno como seara verde, atingindo com frequência altura superior à de um homem, podendo perfeitamente esconder um mundo de gente sem que se desse por isso.
Esquadrinhava cada pormenor, num misto de curiosidade e apreensão, procurando, por um lado, identificar a eventual ameaça e por outro, desfrutar de um cenário sem igual. Ora tenso, ora descontraído, embora não pensando seriamente na iminência de um ataque, agarrava firmemente a G3, bala na câmara, pronta a disparar, não fosse o diabo tecê-las. Ao meu lado, o Duarte não ia mais descontraído. Pelo menos agarrava a arma com convicção idêntica, muito embora não se vissem condições, no acidentado do terreno, que fizessem lembrar as características que, durante a instrução, aprendêramos a identificar como as que poderiam esconder uma emboscada.
A região, encalacrada entre dois grandes desertos africanos (o Kalaari de um lado e o de Moçâmedes do outro) era marcada pelas suas influências. O terreno, para além de plano, era irritantemente arenoso, definindo uma paisagem de savana que se impunha de forma evidente. Por ali, nem sequer um seixo do tamanho de um caroço de azeitona podia ser encontrado. Quanto ao resto, imperava o clima tropical, caracterizado por ter duas estações no ano: a das chuvas, quente e húmida e a do cacimbo, nome herdado da neblina que, na época seca, invadia a região e que durante a noite, especialmente sobre a madrugada, fazia baixar a temperatura ao ponto de congelar as gotas do orvalho. Aliás, as gélidas noites do cacimbo, contrastando com a canícula que se fazia sentir durante todo o dia, desde a aurora até para lá do ocaso, determinavam amplitudes térmicas impensáveis, próprias dos desertos africanos.
Castigados pelo sol inclemente, empapados em suor, ao qual se colava o pó fininho e escuro que nos envolvia, já levávamos mais de duas horas de sacudidelas por uma picada paralela à chana que, espraiando-se à nossa direita, definia os limites do domínio do rio Cúbia, cujo caudal, disfarçado no meio da vegetação, alimentava o assomo de pântano à sua volta.
As pontes do Cúbia, ponto de referência no trajecto entre a Neriquinha e o Rivungo, constituindo o único local de passagem para a outra margem, não era mais do que um amontoado de terra despejada sobre a zona alagada, formando uma espécie de barreira, no topo da qual, o tempo deixou que se formasse uma picada irregular. Ponte propriamente dita, apenas dois curtos e estreitos pontões em cimento, construídos sobre a única parte em que o Cúbia deixava ver o seu tímido caudal, cujo volume crescia significativamente na época das chuvas. Era a existência destes dois tabuleiros, construídos alguns meses antes,que justificava o facto de o local ser conhecido por pontes do Cúbia, no plural.
Por razões de segurança, (na altura, não descortinei se da ponte, se nossa em caso de ataque) a passagem por este caminho tinha de ser feita a pé. As viaturas passariam vazias e sempre devagar.
A chana do Cúbia, aumentada na sua extensão e povoada aqui e ali de manadas de animais semelhantes a grandes gazelas que pastavam saltitando dentro de água, alargava-se agora do lado esquerdo da picada.
- São songs.
Gritou o condutor, procurando sobrepor a sua voz ao barulho da berliet.
- A sua carne é excelente.
Acrescentou, para de seguida concluir.
- O pior é que só as podemos atingir no meio da água e é quase impossível ir lá buscá-las.
- Há por aqui muita caça?
Perguntei, apenas movido pela curiosidade.
- Sim, muita e variada, mas nesta altura do ano, está enfiada na mata.
- Não percebo!
Retorqui.
- Com as chuvas, há muita erva no interior da mata e os animais não precisam vir comer às chanas, onde normalmente há pasto todo ao ano.
Esclareceu.
Estávamos em Novembro, época das chuvas, não demorando muito até que começasse a chover, assim, de repente, sem aviso prévio e sem pedir licença, uma chuva diluviana, intensa, como se baldes de água fossem continuamente despejados do céu, criando uma cortina de água que apenas deixava ver alguns metros adiante. Em África é assim; num momento, impera um sol abrasador e no momento seguinte, chove a cântaros. Para nos proteger, apenas o poncho, já que, por ali, as viaturas não tinham nem pára-brisas nem tejadilho e até o capô, sobre o motor, tinha sido retirado, como forma de minimizar o seu aquecimento, levado ao máximo pelo esforço necessário para vencer a resistência daquele terreno de areia.
O Duarte, a meu lado, desabafava agastado, por não conseguir acender o cigarro que insistia em não largar mesmo debaixo daquele mundo de água. Até então, fumara cigarro após cigarro, sem os tirar da boca. As mãos, mantinha-as ocupadas a segurar a G3. Quanto ao poncho, um impermeável militar eficaz, apenas nos protegia da cintura para cima. Com a água a escorrer por todos os lados, era como se estivéssemos sentados sobre um charco. Mas isso não era o pior. A água que se ia acumulando no sulco trilhado pelas viaturas, misturada com a areia e lama da picada, era impelida para cima por acção do chapinhar dos pneus e acto contínuo, aspergida contra a nossa cara pelas pás da ventoinha, borrifando-nos generosamente com uma espécie de polme lamacento, com uma frequência irritante.
Caiu a noite, ainda mal vencêramos metade do percurso, transformando a paisagem, num escuro pesado, adensado pela persistente chuva, apenas deixando ver fugidias sombras projectadas pelos faróis.
- Uma emboscada agora, tramava-nos.
Atirou o Duarte, deixando talvez sair o temor que lhe ia na alma.
- Não creio, os turras têm medo da chuva.
Respondi, tentando gracejar.
- Achas? A esta velocidade, basta apontarem um pouco acima dos faróis e acertam-nos.
Insistiu.
- O que eu acho é que, se nós não vemos nada nesta escuridão, eles também não.
Referi, procurando justificar o meu ponto de vista.
- Tanto mais que o Castanheira e os condutores, que já cá andam há muito, parecem perfeitamente descontraídos.
Rematei.
O Castanheira era o Furriel da outra companhia, que fora incumbido de nos levar ao destino e claro, ao volante, estavam condutores dos velhinhos. Na volta, era necessário trazer o pessoal que estava no Rivungo e os nossos ainda não conheciam os itinerários.
Mais ou menos para lá de metade do percurso, uma breve paragem para uma apresentação dos agentes da PSP que, para surpresa minha, tinham por missão a defesa e apoio das populações autóctones que habitavam os três Kimbos por ali localizados: o Liahona, no outro extremo de uma extensa chana alagada, seguido, a uma distância razoável, do Mugamba e finalmente o Demba, pequenos aldeamentos constituídos por aglomerados de cubatas de capim, isolados no meio do mato. A noite, que entretanto caíra, não deixara perceber a insegurança e precariedade em que viviam aqueles agentes da autoridade (dois em cada kimbo) já que a população, vivendo no seu meio e não conhecendo outro mundo, negava-se a dali sair.
Apresentações feitas e concluída a rápida conversa de circunstância, seguiu-se viagem pela picada sinuosa, trilhada pelas berliets que pareciam conhecer o caminho, alcançando-se finalmente o Rivungo já a noite se instalara havia tempo, decorridas cerca de oito horas após a saída da Neriquinha e percorridos pouco mais de 120 Km.
A impaciência, não disfarçada, de quem aguardou o dia inteiro pela nossa chegada, apressou os formalismos da passagem de testemunho e da responsabilidade por tudo o que por ali havia. O alferes encarregou-se de receber o material de guerra, equipamento de transmissões e outras coisas. O Silva conferiu e recebeu todo o equipamento de cozinha e géneros alimentícios armazenados. O Duarte, não me lembro, provavelmente deambulou por ali. Eu fiquei com a cantina, algo surpreendido por verificar que o grosso da existência era constituído por pilhas de grades de cerveja e caixas com tabaco. Tudo o mais se resumia a meia dúzia de artigos e o frigorífico alimentado a petróleo, cuja transferência incluía uma rápida explicação do seu funcionamento e manutenção, que procurei perceber.
- E é se quiseres ter cerveja fresca! Avisaram.
Os velhinhos tinham pressa em partir, não parecendo incomodados, nem com a hora tardia, nem com o tempo ou dureza do percurso, tal era o desejo de sair dali. Conferi a lista pelos artigos que compunham o stock da cantina, assinei a guia de entrega e só algumas semanas depois é que verifiquei que a soma estava propositadamente aumentada em 1000 escudos. Era um truque muito usado nestas passagens de responsabilidade e para as quais não tinha sido alertado. Afinal, eu era um simples atirador de infantaria e não estava previsto ter de me responsabilizar pelo funcionamento de uma cantina onde se vendia tabaco, cerveja e outras guloseimas, para além de alguns artigos de higiene pessoal.
As berliets partiram, engolidas pela noite, levando de volta o grupo rendido, ao mesmo tempo que a algazarra ia esmorecendo, aos poucos, até restar um silêncio absoluto, que me deixou a estranha sensação de ter sido abandonado algures no fim do mundo. A realidade visível, pouco mais era do que um barracão comprido, coberto a folhas de zinco que abarcavam parte do estreito terreiro fracamente iluminado, onde desembocavam as portas que davam acesso à messe, cantina, caserna do pessoal e refeitório.
A escuridão não deixava ver mais. Pela minha parte, não tinha noção do que ficava à direita ou à esquerda, para que lado era o norte ou o sul. Apenas sabia que nas traseiras, para lá da cozinha, corria o rio Cuando. Os velhinhos avisaram para não nos aventurarmos por lá, no escuro. Corríamos o risco de cair pelo barranco e sermos apresentados a algum dos jacarés que habitavam o rio. Pelo sim pelo não e dado o adiantado da hora, ficámo-nos pela exploração da nossa nova residência. Três pequenos quartos, mais um, à entrada, com uma mesa ao centro, servindo de posto de comando, sala de jantar e local de ocupação das horas de ócio daquele improvisado estado-maior. A um canto, uma minúscula casa de banho bem equipada: uma sanita, um lavatório e um bidão de 200 litros cheio de água. Ah… e um balde. Ali não havia água canalizada e a utilidade do balde era óbvia. Servia para retirar água do bidão e despejá-la onde fosse necessário: na sanita, no lavatório ou por cima de nós próprios, numa espécie de chuveiro em cascata, o que cada um fez, à vez, antes de nos esticarmos em cima das camas, iguais a todas as enxergas que conheci na tropa, convencido de que, com o cansaço de tão longa viagem, adormeceria de imediato.
Não foi assim. Era a primeira vez que dormia no teatro de operações e ninguém me tirava da cabeça que a guerra estava ali ao lado. Discutíramos a defesa, distribuíram-se as sentinelas, ordens e instruções foram dadas numa improvisação de defesa e segurança do pessoal e das instalações, agora ocupadas por militares inexperientes e desconhecedores do terreno.
Procurei dormir. Contudo, a cabeça cheia de temores, incertezas, raciocínios e recapitulações da vertigem dos últimos dias e talvez o estranhar da cama, não o permitiam, não obstante o cansaço a isso aconselhar. Revolvendo-me na cama à procura da melhor posição, tentava em vão esvaziar a cabeça que persistia em imaginar cenários de ataque ao aquartelamento, sem me decidir sobre qual o lado de onde seria mais provável o inimigo atacar: se do rio, se da esquerda, se da direita. E se tal acontecesse, como deveríamos reagir? Instintivamente tacteei a arma, para me certificar que continuava ali, bem ao lado, junto à cabeceira, onde dormia e dormiria sempre, durante os longos meses que por ali andei. Adormeci finalmente, vencido pelo cansaço, já com a madrugada prestes a anunciar o amanhecer.