domingo, 1 de dezembro de 2013

Praias, laranjais e palmeiras

Era uma espécie de predestinação a que a malta já se habituara. A partir do momento em que aterrámos nas Terras-do-Fim-do-Mundo, um montinho de gente, dos nossos, foi apartado do grupo principal e mandado guarnecer, proteger ou ocupar um posto afastado. No Cuando Cubango era o Rivungo. Um pelotão, à vez, e com rotações trimestrais, esteve sempre ali destacado, deixando a Neriquinha desfalcada de homens e materiais. Não é que a passagem pelo Rivungo fosse indesejável, mas a verdade é que, cerca de trinta homens estavam sempre separados do grupo principal. É claro que isso trazia vantagens, na medida em que permitia, com menor esforço, garantir uma melhor cobertura da imensidão de savana que nos competia calcorrear. Ali tudo era longe, estéril e hostil, não obstante a singular feeria daquelas imensas planuras a exigir temporais de trabalhos intervalados com a oferenda de bonanças fotográficas.
Resgatados que fomos da savana e acolhidos por umas Mabubas bonançosas de travo doce e recebidos por gente simpática e hospitaleira, sempre se pensou que, desta vez, ficaríamos todos juntos; ou melhor, se calhar ninguém pensou nisso; habituados que estávamos a cumprir ordens, ia-se para onde nos levassem sem refilar, com aquela certeza de que qualquer outro lugar seria certamente melhor do que a nossa moradia dos últimos dezoito meses.

No que respeita a mantermo-nos todos juntos, não seria assim. Parece que uma alteração na estratégia de colocação de tropas terá determinado que o enquadramento da pequena vila do Ambriz se bastaria com um simples grupo de combate e como, pelos vistos, a nossa companhia estaria mais desafogada, foi esta a disponibilizar esse pequeno contingente. Está, então, explicada uma das vertentes da nova actividade operacional da companhia: zelar pela vila do Ambriz. Nunca lá fui e por isso, não conhecendo o local nem o que por lá se fazia, não posso adiantar nada acerca de como ocupavam o tempo. Sei, contudo que, patrulhas na mata não faziam parte das suas tarefas, sendo levado a concluir que, pelo menos nas folgas, dariam um saltinho à praia, ali à beirinha da vila. Como se vê e outra coisa não seria de esperar, muito melhor que no Rivungo.
Tirando isso, a missão da companhia, bem se pode resumir em três capítulos específicos: guarnecer a localidade, dar protecção à barragem e garantir a permanência de uma força, não uma grande força, apenas um punhado de homens, numa grande fazenda ali perto, no outro lado do rio Dande.
Guarnecer ou, se se quiser, garantir a permanência de tropas nas Mabubas, nem sequer podia ser considerado uma missão. Estar naquele simpático sítio era, por si só, um privilégio, longe da guerra e na companhia de boa gente. Para quem se habituara a viver com quase nada, isso era quase tudo.

A protecção à barragem, de facto, poderia ser uma carga de trabalhos. Bastaria olhar para a altura do paredão que retinha aquela imensidão de água e a fragilidade da localização da central hidroeléctrica, a jusante, lá em baixo, desprotegida e à mercê do que quer que a pudesse ameçar. Contudo, toda aquela zona estava bem protegida; uma tripla vedação, cada uma com três correntezas de arame farpado, sustidas por estacas sólidas de betão, constituíam uma quase intransponível barreira, tanto mais que, a fiada do meio, mais baixa que as demais, estava electrificada. A forma como ficavam esturricados os animais que, ignorando o perigo, se atreviam a passar por ali, era demonstração mais do que evidente da eficácia daquela protecção. E energia eléctrica era coisa que ali não faltava. Como se vê, podiam dispensar-se sentinelas; na Neriquinha, faltava electricidade e os quartos de sentinela, sempre cumpridos com resmoneios, eram dos trabalhos mais detestados. Só por isso, as Mabubas começaram logo por ser amadas.
Resta então, como verdadeira actividade operacional, a tarefa de zelar pela segurança da fazenda. Não ficava longe. Descia-se em direcção ao Sassa e tomava-se a estrada que levava ao Úcua e a Quibaxe, virando pouco depois para a picada que, correndo paralela ao Dande, se estendia irregular até penetrar no casario principal da fazenda. Pouco mais de quinze minutos mas nunca mais de meia hora, era o tempo necessário para percorrer a distância. Um nada quando comparado com todas aquelas horas que se levava a percorrer qualquer distância lá para os lados das savanas da Neriquinha.
Da fazenda apenas retenho que era muito extensa e que ali se produziam frutos, fundamentalmente laranjas, muitas. Também ali cresciam palmeiras dendeseiras, cultura a que se dedicavam, em maior ou menor grau, todas as fazendas das redondezas. Alias, a extracção de óleo de palma ou, como é mais conhecido, óleo de dem-dem, era uma indústria que por ali florescia. Mas, de facto, o que a minha memória preservou, quase que só se resume a montanhas de laranjas, prontas para serem processadas, colhidas por bandos de negros nos extensos laranjais espalhados pelos terrenos da fazenda cuja segurança nos calhou em sorte, assegurar.
Nunca cheguei a conhecer os pormenores dos planos estratégicos que norteavam a nossa missão ali, mas isso nunca foi coisa que preocupasse ninguém. Na prática, executavam-se uns quantos patrulhamentos seguidos da preparação de emboscadas para descansar o corpo. Contudo, creio que, no fundamental, o que mais importava era marcar presença, deixar bem visível que a fazenda tinha em permanência uma força militar armada, anulando qualquer intensão ou veleidade do inimigo que nunca chegámos a conhecer e que suponho não andaria pelas redondezas.
No regresso, lembro-me, deixavam-nos trazer as laranjas que quiséssemos. Escolhíamo-las de uma quase montanha delas empilhadas debaixo de um telheiro. De uma das vezes que lá fui, trouxe o bornal cheiinho. Por algum tempo o meu quarto ficou decorado a laranjas doces e sumarentas que iam desaparecendo ao ritmo da sede e da gula.
É verdade, confirmavam-se as nossas primeiras impressões: o cheiro da guerra, a solidão e as provações, tinham acabado. Por mim, quase arrumei a G3. Houve alturas em que cheguei a pensar que valeu a pena ter sofrido na pele as agruras e tormentos daquela terra selvagem para, agora, poder ser compensado com esta vida bonançosa.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Descobrindo as Mabubas

Quando retornei à minha novel e confortável acomodação, depois daquele jantar de reconciliação com a civilização, estendi-me ao comprido e só acordei no dia seguinte o sol ia já bem alto. Dormi que nem um justo que é como quem diz, com força. O corpo assim o exigiu e nem sequer esbocei o mínimo gesto para o contrariar. E para quê fazê-lo se o efeito devastador dos últimos cinco dias passados naquela interminável e esgotante viagem à torreira do sol, sem ter dormido de jeito uma só noite, exigia reparação adequada? O banho revigorante, o lauto jantar e o conforto fofo da cama compuseram o lenitivo final. Se a tudo isto juntarmos o sossego e o recato do quarto que as portadas das janelas fechadas protegiam da luminosidade daquele sol sempre madrugador e a ausência do normal reboliço de uma camarata, compreende-se melhor o despertar tardio, pelo menos fora daquilo que era suposto serem os horários militares. O facto é que, sem nada que viesse interromper o sono, o descanso acabou por se prolongar para além da hora regulamentar. Na Neriquinha isso seria impossível; dormindo todos na exígua camarata, acordar cedo era coisa perfeitamente natural e inevitável, por oposição a estas novas instalações que, localizadas fora do núcleo central da urbe, garantiam sossego total.
Levantei-me, fresco e quase recuperado. Vesti a farda de serviço, passei pela messe, engoli um naco de qualquer coisa a título de pequeno-almoço e cuidei de saber das ordens que regeriam o novo dia das nossas vidas. Coisa inútil e desnecessária, já que, na tropa, espera-se que alguém dê as ordens, não se anda, feito otário, à procura delas. Mas, como é óbvio, precisava saber se tinha ou não liberdade para matar a curiosidade e descobrir tudo o que por ali havia, especialmente a barragem de que tanto ouvira falar.
Mabubas era assim como um bocadinho do céu no meio daquele imenso território. Existia e crescera por efeito da barragem hidroeléctrica que dominava tudo o que antes fora uma parte do extenso vale do rio Dande e albergava ainda a Companhia de Cerâmica de Angola (CCA). A primeira, produzia electricidade e a segunda, loiça sanitária, fábrica que, se não era a única do género, era seguramente a maior da então província de Angola. Consequentemente, a maioria dos habitantes daquela interessante comunidade ou eram funcionários da barragem ou técnicos e operários da fábrica de cerâmica e correspondentes famílias. Um restaurante, uma mercearia e uma sala de cinema, compunham o resto, coisas que, onde vive gente, acabam sempre por aparecer.
A parte interessante foi confirmar que ali não havia quartel. Pelo menos daqueles a que sempre nos habituámos, muralhados e dotados de guaritas e porta de armas com sentinela e tudo, como era o caso do quartel do Caxito ali bem pertinho, cuja fortificação me chamara a atenção quando por lá passámos no dia anterior a caminho deste nosso novo recanto. Estranhei de facto e não era para menos, até então, habituara-me a que a tropa, estivesse onde estivesse, ficava sempre confinada a uma área específica, normalmente delimitada por muros ou arame farpado. Mas não ali, nas Mabubas, as instalações da tropa estavam dispersas por toda a localidade à mistura com tudo o resto, ocupando as casas, os barracões, as arrecadações e armazéns disponíveis.
Da estrada que, proveniente do Caxito, seguia para norte em direcção a Quicabo e a Nambuangongo, nascia o troço de estrada descendente que penetrava localidade adentro. Interrompido à entrada por uma cancela basculante, espécie de checkpoint para controlo de quem chegava, transformava-se, a partir daí, na rua central que, dividindo a urbe ao meio se prolongava até morrer à entrada do paredão da barragem. Quem entrava, logo a seguir ao posto de controlo, encontrava, do lado esquerdo, o barracão do cinema e logo abaixo, à direita, o bar restaurante. A partir daí, uma correnteza de casas de cada lado dava aquele ar aconchegante e familiar de aldeia. Do lado direito, construídas ao comprido, acompanhando a rua e com telhado comum, contavam-se quatro casas cada uma com o seu alpendre; a primeira era, de facto, a residência de um trabalhador da cerâmica e sua família. Contudo, entre esta e a do Sr. Almeida, funcionário da barragem, ficava a messe de sargentos, ali metida no meio. A messe de oficiais ocupava a quarta e última da correnteza, com vista para a parada, frente ao edifício do comando. No lado esquerdo da rua, emparceirando com as outras, quatro casas idênticas compunham a moradia de outras tantas famílias.
Esta agradável anarquia, contrária ao rigor e organização de todas as instalações militares que conheci, verificava-se em tudo o mais; frente ao edifício do comando, no outro lado da praça, nascia uma escadaria que levava à cantina e, nas imediações, a camarata dos soldados, a cozinha e o refeitório. Noutro espaço, do lado esquerdo quem desce, ocupando outro barracão, ficavam as oficinas auto e no lado direito, o posto médico dava início a uma correnteza de moradias, uma das quais passou a ser residência do capitão e outra a do médico, conferindo dignidade às correspondentes funções. Finalmente, depois de uma curva e ao fim de uma suave descida a rua terminava dando lugar à passagem sobre o paredão da barragem, que levava ao outro lado.
Venci os últimos metros da rua e sem pressa atravessei o paredão admirando aquele enorme lençol d´água. Instintivamente dirigi-me para o pequeno miradouro que, no outro lado, prometendo uma vista privilegiada sobre a paisagem, parecia chamar quem chegava.
Subi, e de lá de cima estendi a vista sobre a paisagem envolvente. A montante, a enorme albufeira reflectia, qual espelho, os raios do sol faiscando múltiplas cores na superfície reluzente. A jusante, lá ao fundo, após se despenharem pelo declive do paredão, as águas corriam saltitantes ao longo do vale, aquietando-se hesitantes aqui e ali, para depois seguirem o curso natural do rio numa obediência submissa em direcção ao mar.
Fiquei por ali sem consciência do tempo e esquecido de tudo o mais. Apostei comigo mesmo que os maus bocados tinham definitivamente ficado nas terras-do-fim-do-mundo. Naquele momento, convenci-me de que, por fim, a sorte nos sorria; as Mabubas podiam não ser o paraíso na terra, mas perante a lembrança do degredo da Neriquinha, quase o parecia.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Homenagem

Tentei deixar este texto nos comentários mas alonguei-me e ultrapassei a cota permitida.
Achei, por sentimento, que não deveria retirar uma única palavra.
Daí esta publicação.
Ter connosco o meu Amigo Manuel António Pinto embarga a manifesta surpresa que nos é tão grata e desencadeia uma bem temperada mistura de alegria, enorme respeito e admiração.
Frequentemente utilizamos estes considerandos no limbo do lisonjeio gratuito ou de ocasião, sendo de todo pertinente que se esclareça desde já que o que nos move a todos, quase garanto que sem excepção no referente a este nosso Amigo, tudo é sincero e preito de gratidão.
Manuel António Pinto não foi apenas o 1º Sargento da C.Caç. 3441.
Ele foi o verdadeiro comandante daquela Companhia.
 
Um homem singular que (ia dizer "agregava", mas cometia uma imprevidência; daí...) agrega a honradez, a competência e a capacidade de trabalho, num espírito vivo e determinado em servir sempre bem uma causa e o dever em que se determina em a cumprir com denodo.
É meu desejo extravasar esta alegria imensa de o "rever" por aqui e de lhe deixar a minha melhor expressão de admiração pelo seu carácter e virtuosismo que nestes 40 anos que já lá vão nunca me cansei de propalar a amigos, quando era da guerra que se falava.
Porque a retórica das palavras pode escamotear o senso do seu significado, é meu desejo deixar dois ou três episódios que me parecem bem mais eloquentes daquilo que é meu desejo enaltecer.
 
- O 1ºdesses episódios confere ao M.A.Pinto o estatuto de detentor de cátedra da Administração Militar.
Quer o nosso Comandante de Batalhão, quer o 2º Comandante, sempre que se deslocavam à N´riquinha, sub-repticiamente colocavam problemas de administração ao Pinto (problemas embrulhados que ocorriam na sede do Batalhão...), solicitando que solução ele teria para as solucionar, caso acontecessem com ele; quase um exame...
E o Pinto, antecedendo sempre as suas opiniões com a proverbial… "Salvo melhor opinião...", desenvolvia o seu parecer com uma aparente timidez mas total segurança naquilo que dizia.
Os Comandantes registavam (mentalmente...) e o nosso 2º Comandante (Major Tamegão), numa das várias inspecções que fazia à Companhia, lá me dizia no dia seguinte: "Ó Cabrita; você tem aqui um 1º Sargento do caraças...!"
A meio da comissão lá veio o 1º Sargento da 3442 fazer um autêntico estágio nas Terras do Fim do Mundo...
 
O 2º episódio tem a ver comigo.
Se o 1º Sargento da 3442 teve que vir fazer um estágio à N´riquinha, fácil será imaginar de quantos estágios eu precisava; eu que frequentei um minimíssimo estágio de Administração Militar de 4 meses em Mafra...
 
Um dia o nosso Pinto em trânsito de apresentação do balanço mensal, talvez o 3º da comissão, perante certamente o meu embaraço perante tanta conta e mais parcelas ainda, posicionou-se como que em parada e disse, deferente como sempre: "Vossa Senhoria meu Capitão escusa de procurar entender as contas porque se eu quiser enganá-lo engano-o mesmo...! Propunha-lhe o seguinte: o meu Capitão trata da guerra e deixe as contas comigo!"
Nem mais. E vá lá imaginar-se porque razão eu aceitei a proposta sem hesitar cinco segundos depois...?!
É que 3 meses já me sobravam para apreender a competência, a honestidade e a sensibilidade do meu 1º Sargento.
 
Apenas acrescentar que, selado o "acordo", as contas continuaram a ser apresentadas todos os fins de mês, como sempre seria feito sem o "acordo". Só que eu já não as conferia. O que ocorria é que o Pinto me trazia um problema e três soluções. E eu apenas tinha que escolher qual delas preferia, uma vez que a escolha cabia ao comandante de Companhia. Na maior parte das vezes fi-lo sempre com o aconselhamento do Pinto. Uma garantia de que jamais prescindiria.
Tenho perfeita consciência da sorte que tive neste campo, depois da menor sorte em ver-me com 23 anos de idade a comandar uma Companhia de Caçadores. Algo que me honra mas que doeu.
 
- Terceiro episódio.
Um dia fui de férias. Na despedida do Pinto este disse-me: "Se passar pela 5ª Rep dê cumprimentos meus ao Major Fulano".
E eu fui.
Cheguei, tratei do que lá me levava e terminei com os cumprimentos do Pinto.
Garanto que o Major quase se colocou em sentido:
- "Você tem lá o 1º Sargento Manuel António Pinto?".
Sim, é o 1º Sargento da Companhia.
- "Então fique sabendo que você tem, provavelmente, o melhor 1º Sargento do Exército Português!" (Ipsis verbis)
 
O que escrevo é uma homenagem.
Sentida e justa.
E, já agora, meu Amigo Manuel António Pinto é tempo de amenizar essa tremenda humildade com que sempre mascarou o seu saber, arte e, acima de tudo, carácter.
 
Bem-haja.
O meu abraço apertado quanto a gratidão e o reconhecimento que lhe devo.
 
Pedro Cabrita
ex-Capitão Miliciano
ex-Comandante da C.Caç. 3441

terça-feira, 1 de outubro de 2013

MABUBAS - Primeiras impressões

A estafa daquela quase interminável viagem que nos trouxe dos confins das terras do fim do mundo até às delícias da civilização deixou as suas marcas. Meio atordoado e fisicamente combalido, nem me dei conta, no imediato, das características do lugar onde fomos largados. Em boa verdade, nem pensei nisso, pelo menos que me recorde. Ao abandonar a viatura, após percorridos mil e tantos quilómetros com escassas paragens pelo caminho, apenas ansiava por esticar as pernas e procurar a camarata na mira de um duche frio que me refrescasse os miolos, retirasse os músculos entorpecidos da sua letargia e me libertasse daquela sensação de sujidade pegajosa acumulada pelos longos dias da viagem; descobrir as Mabubas era coisa que, no momento, não me preocupou e nem uma pontinha de curiosidade me levou a pensar no assunto. Lancei-me à cata das minhas tralhas algures perdidas e esborrachadas no meio das demais e olhei à volta à procura do quartel.
Não obstante o reboliço da chegada, deu para perceber que nada à volta se parecia com instalações militares. Considerando as casas circundantes, assumi que estaríamos no meio da povoação, uma qualquer localidade, um pequeno lugarejo que, como tantos outros, na então áfrica portuguesa, nascera ao sabor das cruas exigências de ocupação secular daquele imenso território. O quartel, esse, certamente estaria por ali. Provavelmente, deduzi, para além das traseiras do edifício do comando postado à nossa frente.
Mas não era assim. Dali a um nada descobriria que o dormitório dos furriéis, pelo menos esse, estava localizado num edifício comprido, já nos limites do casario principal mas visivelmente não enquadrado em qualquer perímetro que pudesse ser considerado quartel ou similar. É que, nem sequer tinha aspecto que se parecesse com o que quer que fosse militar. Não se viam muros, guarnições, postos de sentinela ou outros sinais que fizessem lembrar preocupações de defesa. Embora fosse suposto estarmos em guerra, não se viam sinais disso.
Abandonámos o asfalto da rua principal espremida entre uma correnteza de casas, descemos por outra, agora empedrada e metemos por um caminho de terra e piso irregular que, atravessando o campo, levava ao edifício. A paisagem envolvente, coberta de vegetação meio ressequida (a época das chuvas passara havia tempo) acompanhava as irregularidades do terreno. No outro lado do caminho uma enorme mangueira, carregadinha de pequenos mangos ainda verdes, cobria toda a parte frontal da entrada do edifício enquanto, ao longe, sobressaía a silhueta majestática e caricatural dos imbondeiros, cujas galhas, despidas e estranhas, pareciam irregularmente recortadas no intenso azul do céu. Definitivamente, nada daquilo se parecia com a Neriquinha; não havia pó, as planuras imensas desapareceram e nem a irregularidade do caminho chegava a constituir um incómodo. Na verdade, por ali tudo era novidade.
O edifício, que a partir de então passou a acomodar o grupo de sargentos da companhia, revelou-se uma agradável surpresa. Embora por fora se parecesse com um barracão ou um qualquer armazém, o seu interior era diferente, mas para melhor. Um espaçoso hall, à entrada, dava acesso a um corredor longitudinal que, correndo pelo centro do edifício distribuía à direita e à esquerda quartos espaçosos, cada um comportando duas divisões dando uma imagem singela de suíte. Duas camas, num lado, definiam a zona de dormir enquanto o outro simbolizava uma espécie de sala de estar. As camas, essas, eram iguais às da Neriquinha, mas assumi desde logo que estariam limpas de percevejos embora a rede mosquiteira que selava as janelas garantisse que os mosquitos não eram diferentes, pelo menos no que toca ao seu afã de infernizar quem se expusesse às suas picadas vorazes. Um luxo! Pensei eu provavelmente condicionado pela recordação da precariedade da nossa camarata nas terras do Cuando Cubango.
Despi o camuflado e deixei-o cair por ali. Não obstante já fragilizado e coçado pelo uso intenso de dezoito meses de mato, pareceu ter enrijado. Ganhou textura em consequência da absorção de pó amassado com o suor daqueles quatro dias de viagem. Depois, peguei na toalha, lancei mão da lâmina de barbear e do sabonete e dirigi-me às instalações sanitárias localizadas um pouco mais à frente, no outro lado do corredor.
Passei sabonete várias vezes e perdi a noção do tempo saboreando a frescura revigorante do jorro forte do duche até sentir as pontas dos dedos enrugadas. Postei-me à frente do espelho e desfiz a barba de cinco dias, com cuidado, num escanhoar meticuloso e regressei ao quarto. Estiquei-me sobre a cama deixando que uma doce elanguescência fosse tomando conta do meu corpo cansado.
Não sei quanto tempo por ali fiquei e nem tive consciência de ter adormecido. Se calhar a fome despertou-me do doce torpor. Qual reflexo condicionado, veio-me à memória o restaurante que vira quando iniciei a descida da rua a caminho do dormitório. Ou então, os últimos cinco dias a ração de combate começavam finalmente a fazer o seu efeito.
- Não! Pensei. Deve ser o relógio biológico a anunciar a hora da janta. Não é meu hábito deixar-me guiar pelas armadilhas imateriais do subconsciente.
Levantei-me, sem pressa. O lusco-fusco do fim de dia anunciava a noite que se aproximava. Vesti a melhor roupinha civil que arranjei, um bocado amarrotada pelos meses e meses que esteve encafuada no fundo da mala. Por sorte, naquela altura, usava-se bem justa e isso disfarçou as pregas da plissagem a que fora sujeita. Calcei o sapatinho preto, procurei companhia e em passo indolente, caminhámos em direcção ao restaurante.
Estrategicamente colocado no melhor sítio da rua principal à direita de quem desce, aquele restaurante pareceu-me o mais evidente sinal de civilização. Uma ampla esplanada, uma singela mas simpática sala de jantar e um balcão tipo snack-bar com bancos altos ao redor, anunciavam que a nossa vida começava a mudar para melhor. Tirar a barriga de misérias era coisa que ia começar já; descontando a compreensível falha de memória já queimada pelo tempo, apostaria que me devo ter alambazado com um grande bife com batatas fritas e ovo a cavalo. Era petisco com que sonhava frequentemente, especialmente quando, não havendo opção, o rancho na Neriquinha deixava muito a desejar.
Decididamente, os tempos de miséria chegavam ao fim e, como a seu tempo se verá, a coisa não se ficaria apenas pelos pecados da gula. Aquelas Mabubas que nos saíram em sorte prometiam uma nova vida. Ruas asfaltadas, casas, população civil e um restaurante eram amostras promissoras. Para já, tudo corria de feição à mesa daquele restaurante.

domingo, 1 de setembro de 2013

Do rio Cuito às Mabubas

Não retenho grande coisa sobre o Cuito Cuanavale. Se calhar é trauma; associei-o sempre ao comandante do batalhão e é no que dá. Imaginei sempre o local como uma espécie de coito do comandante, feito à sua imagem, e não resistia à contraditória mania de bem dizer o facto da Neriquinha estar bem longe, lá no interior profundo e inóspito da savana o que, pensava eu, não convidava tão ilustre e indesejável figura a aparecer por ali; se a minha memória não me atraiçoa, isso aconteceu uma única vez, pelo menos que eu tivesse dado conta. E, mesmo assim, talvez por azar meu, foi o suficiente para levar um raspanete que, por imerecido e humilhante, me deixou este trauma que teima em não desaparecer. Logo eu, que tudo fazia para não infringir as regras.
Tirando isso, apenas retenho do Cuito Cuanavale a ideia de que o rio, lá em baixo, estabelecia a fronteira entre a terra de ninguém onde fui obrigado a viver por uns longos dezoito meses e o limiar da civilização que se foi insinuando aqui e ali através de sinais perfeitamente visíveis aos olhos de quem se habituara a planuras imensas onde as estradas se resumiam a picadas sinuosas e cansativas escavadas pelos rodados das viaturas na areia entediante da savana.
O facto é que, da passagem por aquele local, apenas recordo a estrada que dali levava a Serpa Pinto, de terra sim, mas firme, de macadame, com largura suficiente para acomodar trânsito em dois sentidos permitindo um andamento vivo que, para mim, se assemelhava a uma velocidade excessiva quando comparada com os pouco mais de cinco quilómetros por hora a que estávamos habituados. Decididamente, saíamos das terras esquecidas do fim do mundo e, em velocidade de cruzeiro, caminhávamos em direcção à civilização de cujas mordomias já quase só se retinham imagens longínquas.
Em menos de um nada, aportámos a Serpa Pinto. Aquele bocado de estrada que liga o Cuito Cuanavale à cidade foi vencido em cinco horas, uma coisa sem significado quando comparado com o tempo que gastávamos a percorrer uma centena de quilómetros por qualquer das picadas que fomos obrigados a cruzar nas nossas andanças por terras da Neriquinha.
Não nos deram tempo de conhecer Serpa Pinto ou então, a minha memória não foi capaz de reter nada que me faça lembrar a cidade. Não guardo nem uma imagem de um café ou cervejaria, uma simples tasca ou algo de semelhante. Mas é verdade que almoçámos na cidade e muito provavelmente devo ter-me lançado na demanda de uma bica. Digo isto porque nem me passa pela cabeça imaginar que não tenha querido matar saudades de um cafezinho tirado à pressão, bebidinha que chegámos a considerar coisa de ficção. O facto é que, tudo o que recordo não passa de uma imagem fugaz de um parque de viaturas isolado e que intuí localizado na periferia da cidade.
Ali mudámos de meio de transporte; as viaturas, próprias para vencer terrenos arenosos, foram substituídas por outras que nos levariam dali ao destino e, para não variar, também estas mais adequadas ao transporte de carga que não de gente. Contudo, para nós, habituados a  picadas irregulares e poeirentas, a suavidade do asfalto mais do que compensou o desconforto e a falta de assento enquanto que o ar, agora completamente limpo, apenas era irrespirável pela intensidade do calor.
A viagem não tem história. Os mais de mil e cem quilómetros que separavam Serpa Pinto do nosso destino prometiam uma viagem longa e monótona. Recordo a primeira metade do percurso, definido por uma estrada ondulante, sempre a direito, como se fora um carrocel que, em vez de andar à roda, seguia sempre em frente num sobe e desce sem fim que os motoristas aproveitavam para poupar combustível; desligavam o motor nas longas descidas deixando as viaturas rolar livremente até atingirem velocidade considerável, a suficiente para, ganhando embalagem, galgar parte substancial da subida que se seguia e só quando o andamento ameaçava morrer, ligavam de novo o motor para vencer o resto da subida e embalar de novo em roda livre para a depressão que antecedia a lomba seguinte.
Embora o andamento atingisse, por vezes, uma velocidade significativa, a viagem não deixou de ser monótona e cansativa através de um território imenso com paisagens a perder de vista e cheias de coisa nenhuma, cenário que nos acompanhou até ao fim do dia. O Alto Hama, mais ou menos localizado no centro do território, na província do Huambo, foi o sítio escolhido para uma paragem. Por ali ficámos umas horas que penso terem servido fundamentalmente para o descanso dos motoristas já que não é possível falar de pernoita nem de jantar. O repasto resumiu-se a uma ou duas latas da ração de combate provavelmente acompanhadas por uma cerveja adquirida num estabelecimento comercial ali existente. Dormir, de verdade, não creio que alguém o tenha conseguido. Dormitar talvez seja o termo mais adequado para definir a forma como cada um passou aquele bocado de noite; recostámo-nos por aqui e por ali, num deixar passar o tempo, à espera da hora aprazada.
Talvez por isso se tenha recomeçado a viagem bem cedo. Por volta das três horas da manhã já as viaturas rolavam através da noite sem noção exacta do sítio por onde andávamos. Por mim, aproveitei o embalo e fui dormindo, aos bocados. Desperto por um solavanco mais vivo, voltava a dormitar face a ausência do que quer que fosse que justificasse manter-me acordado. A verdade é que não me lembro de um só pormenor daquele percurso.
Sei que não passámos por Luanda. Naturalmente, por alturas de Viana, as viaturas seguiram por um atalho que nos deixou na estrada que leva ao Caxito. Passámos pela fazenda Tentativa, atravessámos o Caxito e pouco tempo depois desembocámos na rua principal das Mabubas.
Dia catorze de maio, a tarde ia a meio quando, finalmente, após quatro dias a calcorrear mais de mil e setecentos quilómetros de picadas e estradas, desde os confins das terras-do-fim-do-mundo até ao extremo oposto daquele vasto território, chegámos ao nosso destino. Era promissor  o cenário que se desenrolava à nossa frente à medida que as viaturas rolavam pela rua principal até estancarem no largo que se seguia à primeira correnteza de casas, frente ao edifício do comando. A lembrança ainda bem viva do ambiente hostil e poeirento da Neriquinha deixou-me a agradável sensação de que acabáramos de entrar num local que prometia parecer-se com um bocado de paraíso ali às portas de Luanda e bem pertinho do mar.
Pode parecer contraditório mas, naquele momento, deixou de fazer sentido a sensação de conforto e segurança precária propiciada pela cerca de arame farpado da Neriquinha.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A MATA DA CAPUA

Não obstante a obscura fama do local, a noite decorreu em sossego, sem o mínimo percalço ou o que quer que fosse que confirmasse a perigosidade daquele ermo. Não me recordo de ter passado mal a noite. Aliás, tenho de memória que dormi sem sobressaltos e de um sono só e nem sequer me dei conta do desconforto do leito arenoso que escolhera e da precariedade do improvisado tecto.
Não me preocupei em saber como cada um se desenrascou, mas não recordo de alguém se ter queixado da pernoita. O facto é que, chegada a hora de seguir viagem e enquanto cada um ia retomando o seu lugar nas viaturas, o único que deu sinais de ter passado mal a noite, foi o Morais. Talvez por ser o vagomestre, procurou asilo na cozinha aconchegando-se a um canto resguardado da cacimba da noite. Mas teve azar. Pelos vistos, o soldado Raimundo, mais conhecido pela alcunha de Candeeiro, terá tido a mesma ideia. Pescador dos mares algarvios em quem o álcool despertava os maus fígados, provavelmente já meio bebido, como aliás era seu hábito, terá caído por ali, e não me admiro nada que a escolha tenha sido motivada pela proximidade das grades da cerveja.
O facto é que o Morais se queixava de não ter conseguido pregar olho; o Candeeiro passou a noite rangendo os dentes, o que, considerando o exíguo espaço a que estavam confinados, para além dos arrepios que provocava, era barulho bastante para tirar o sono a qualquer um.
Era ainda noite cerrada quando os motores, roncando, arrancaram da sua imobilidade as viaturas meio atascadas na areia seca, avançando lentamente pela escuridão rasgada pela luminosidade dos faróis, ficando de novo o pessoal do Dima sozinho, entregue à sua rotina.
Tínhamos pela frente a extensa Mata da Capua e era importante que fosse atravessada enquanto durasse o dia, pormenor que condicionou todo o plano da viagem, a começar na saída da Neriquinha depois do almoço, o retomar da viagem pelo meio da manhã a partir de Mavinga e a terceira etapa que agora se iniciava quando ainda faltava um par de horas para o amanhecer. É verdade que sempre se ouvira, em cada chegada do MVL, as descrições pouco animadoras das características daquela mata que, descontando a propalada proximidade das bases inimigas, escondia dificuldades e obstáculos vários responsáveis pelos atrasos do MVL nas suas idas e vindas mensais carregados com os mantimentos para a tropa aquartelada desde o Dima até ao Rivungo. Assim, importava sair cedo prevenindo-se qualquer eventualidade ou surpresa. Acima de tudo, era necessário evitar que qualquer acidente de percurso nos obrigasse a uma indesejável pernoita no meio daquela selva travestida de savana.
As viaturas avançavam seguindo a picada cujos sulcos iam sendo fracamente iluminados pelo foco saltitante dos faróis que a irregularidade do caminho impedia que se fixassem num ponto. Perscrutava-se o negro envolvente na tentativa de adivinhar os contornos da mata escondida no denso e impenetrável manto preto da noite que, como quem não quer a coisa, quase sem se dar por isso, foi sendo vencida pelo cinzento da manhã que, aos poucos foi denunciando o pó fininho que, despertado pelo rolar dos pneus, se levantava em remoinhos que iam cobrindo o ar circundante de uma poalha difusa misturada com restos de folhagem seca que, esvoaçando desordenadamente acabava por poisar hesitante até a viatura seguinte voltar a tornar tudo num reboliço irritante que incomodava quem se lhe seguia.
Aquela mata era de facto diferente. Com a mesma areia, mas de maior densidade arbórea. E isso determinou que a picada que a atravessava fosse irritantemente sinuosa, talvez em demasia. E para piorar as coisas, as raízes à superfície constituíam obstáculos que obrigavam as viaturas a um permanente escoucinhar, a uma dança frenética, um constante balanceio entremeado de saltos e ressaltos que iam massajando os corpos do pessoal que procurava a todo o custo manter o equilíbrio sobre a carroçaria desconfortável de viaturas impróprias para o transporte de gente. E tudo isto retardava o andamento deixando aquela conhecida sensação de passeio de tartaruga a conferir maior dimensão a um local onde, pensava eu, nem ratos existiriam.
A Lagoa da Capua apareceu-nos pela frente como por encanto, assim como se aquela mata incaracterística se rasgasse para, dando-lhe espaço, a acolher. Numa espécie de passe de mágica da natureza, saímos de um mundo estéril e hostil para um quase paraíso, um oásis definido por um enorme espelho de água reflectindo o intenso azul do céu, numa quietude serena contrastando com a paisagem envolvente. Os meus rudimentares conhecimentos de orografia não são suficientes para explicar como é que, no meio daquela imensa aridez e sem qualquer curso de água que a alimente, se forma uma lagoa como aquela. Provavelmente uma indelével depressão no terreno, tão subtil que nem se note, foi recebendo as águas das chuvas que, não tendo para onde ir, escorriam para ali, alimentando em permanência aquele pequeno mar de água doce que convidou a uma paragem, aproveitada para arrefecer os motores, compor o estômago, desentorpecer as pernas e apreciar aquele inusitado presente da natureza.
Mas o tempo urgia e havia ainda muita picada por vencer. Os quilómetros não eram muitos mas a dureza do caminho fazia com que a sua travessia consumisse horas em demasia. Reiniciou-se a marcha penetrando de novo naquele mundo sempre igual, cansativo e entediante que parecia não ter fim, até que, mais ou menos como previsto, a mata deu lugar de novo a uma savana aberta, igual à que aprendemos a conhecer ao longo dos últimos dezoito meses das nossas vidas. Dali até às margens do Rio Cuito foi um saltinho e lá para depois do meio da tarde, a grande chana que abraça o rio, igual a todas as chanas que palmilhámos, lá bem para baixo, no território da Neriquinha, apareceu-nos pela frente. O Rio Cuito, caudaloso e de águas mansas a lembrar o, até então, nosso Cuando, deixava-se atravessar naquele ponto por uma ponte de madeira, porém de aspecto robusto, que me deu a sensação de separar dois mundos diferentes. A picada que ali nascia e serpenteava por uma encosta de terra avermelhada e dura era obviamente diferente da consistência arenosa e esbranquiçada da savana que aprendemos a conhecer. Finalmente, ao fim de três dias a calcorrear a terra de ninguém, isso parecia ser o primeiro sinal de que as terras do fim do mundo começavam a ficar para trás.
Lentamente, a coluna foi trepando, encosta acima, em direcção ao Cuito Cuanavale que, lá no alto, nos aguardava. Ali era a sede do nosso batalhão mas aonde ainda ninguém da 3441 tinha posto os pés.
Alonguei o olhar para a imensidão da savana que, ao longe, se estendia para lá do leito sinuoso e resplandecente do rio. Senti uma sensação de alívio ao interiorizar que não mais voltaria para ali. Por agora, apenas me apetecia um bom duche que me livrasse do sarro acumulado nos últimos três dias. Tirando isso, tudo ficaria perfeito, pensei, se não encontrasse pela frente o comandante do batalhão. Tinha para mim que o homem não era pessoa de bem e por isso preferia não arriscar a eventualidade de um encontro que viesse estragar aquele fim de tarde quase perfeito.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A BARCA DE CARONTE

As viaturas que nos habituáramos ver integradas no MVL que mensalmente nos trazia o reabastecimento desde Serpa Pinto, eram agora o meio que nos libertava daquele mundo. Encabeçadas pela berliet de seis rodados que, por sistema, lhes servia de escolta, seguiam agora em coluna, umas atrás das outras, sem nenhuma ordem especial, rolando sem pressa ao longo da pista em direcção ao topo norte. A cerca de arame farpado que, pela força do hábito de a termos à nossa frente, dia após dia, quase já passava despercebida, deslizava lentamente para trás como a querer despedir-se. Pelo menos foi o que me pareceu.
Olhei de relance, pela derradeira vez, a silhueta familiar do aquartelamento que, resguardado atrás da precária segurança do arame, ia desaparecendo do campo de visão à medida que a viatura progredia em direcção à picada que, indicando o caminho à nossa frente, se perdia no meio do capim amarelecido. Sem saber bem porquê, ainda olhei, de esguelha, para as últimas palhotas do kimbo com aquela certeza de que não mais as voltaria a ver. Aquela coluna podia estar a fazer o caminho de volta, como sempre o fazia e certamente voltaria a fazer mas, para nós, não haveria retorno.
Já passara a época das grandes chuvas e havia já algum tempo que a aridez do cacimbo se instalara secando a areia que se apresentava solta e entediante, obrigando as viaturas a uma marcha lenta rodando em primeira velocidade para melhor vencerem a resistência da areia solta que, dificultando a progressão, teimava em assorear os sulcos da picada. Afinal, nada a que já não estivéssemos habituados, tanto mais que aquele percurso era nosso conhecido. Por enquanto, e até chegarmos a Mavinga, a sensação era a de que ainda se vagueava pelas areias quentes da savana, porém desta feita, com ânimo diferente. O caminho era agora sempre para diante com a garantia de que não haveria voltar atrás como sempre aconteceu nas escassas vezes que, por imperativo da nossa missão, visitáramos a malta da companhia de Mavinga.
Para quem, como eu, que ufanamente se gabava de já conhecer aquelas matas, a viagem prometia ser um simples passeio pela savana imensa. E isso foi sendo confirmado à medida que se vencia aquele primeiro troço do percurso que liga a Neriquinha a Mavinga. As extensas chanas que abraçavam o tímido caudal do rio Cúbia apresentavam-se já com aquela cor familiar de verde a tender para o seco. Dentro de pouco tempo seria pasto das chamas, naquele ritual já nosso conhecido de ciclicamente se renovar pelo fogo. Como diz Mia Couto, a savana arde para poder viver.
Sem atrasos ou contratempos, aportámos a Mavinga pelo fim da tarde. De acordo com o plano previamente definido a viagem só continuaria no dia seguinte. Por agora, haveria que aproveitar o tecto oferecido o que, ainda que sem o conforto de lençóis aconchegantes, era dádiva a não regatear. O frio, que por aquela altura tinha por hábito andar de braço dado com as noites do cacimbo, era rigoroso e não se combatia com a fragilidade da parca roupa que se levava vestida.
A noite passou sem história, pelo menos ninguém se queixou, até porque não havia de quê. Sabíamos que a viagem seria longa mas isso não incomodava ninguém. A muito pior do que isso estávamos habituados e não seria agora que isso iria incomodar alguém.
Reiniciámos a marcha, lá pelo meio da manhã, deixando para trás dois dos apêndices que trouxéramos da Neriquinha: a gazela bebé que, não se dando bem com os solavancos da viatura foi acometida de compreensíveis enjoos não restando outra solução senão largá-la algures e o puto Candela que tinha à sua espera uma promessa de vida longe das matas onde cresceu e viveu os curtos anos da sua existência: um furriel da companhia de Mavinga, natural de Sá da Bandeira, predispôs-se a adoptá-lo. Não me lembro bem dos pormenores, mas penso que já estava tudo acertado para o efeito quando abandonámos a Neriquinha.
A partir daquele ponto a picada era-nos totalmente desconhecida. Talvez por isso me parecesse estranha. Por qualquer razão que não descortinava, achei que se distinguia daquelas a que nos habituáramos. Contudo, a consistência arenosa e a profundidade dos sulcos não eram diferentes sendo a mata em redor em tudo idêntica. O facto é que a savana tem características muito próprias e naquela imensidade de terreno árido, apenas pormenores sem importância distinguem cada pedaço daquela mata estéril, o suficiente para nos convencer da incomensurável dimensão daquele inferno que agora se atravessava numa lenta progressão a caminho de lugar mais aprazível.
Mesmo nos locais mais inóspitos, sejam eles o que se quiser, somos surpreendidos por recantos que, por uma razão ou por outra, destoam da aridez circundante. O local escolhido para uma curta paragem, possibilitou algum descanso aos motores, comer qualquer coisa e disfrutar do ambiente aprazível à volta do curso do rio Lomba que, atravessando aquelas terras de ninguém, cruzando chanas e matas, acaba por desaguar no Cuando acima do Chicove algures a norte da Neriquinha, lugar que nunca chegámos a conhecer. Mas ali, naquele exacto local, onde menos se esperava, uma pequena ponte de madeira permitia passar para a outra margem por sobre um surpreendente marulhar de águas cristalinas em contraste com a quietude irritante de todos os cursos de água que vagueiam por aquela savana imensa
O nosso objectivo, naquele dia, era chegar ao Dima, um lugar com má fama, considerado o pior sítio para se estar em todo o Cuando Cubango. Constava que era atacado de quando em vez e o pessoal ali destacado, um pelotão da companhia de Mavinga que se revezava amiúde, passava as noites em sobressalto. Era exactamente ali que estava previsto pernoitarmos, dando por finda a segunda etapa daquela longa travessia.
A tarde ia avançada e o sol já começava a perder o seu fulgor quando aportámos ao Dima. Hoje conhecido como Cunjamba, o local ficava no cimo de uma elevação de terreno, cujo acesso se fazia por uma picada de areia solta e de inclinação pouco frequente por aqueles lados, totalmente em desarmonia com todos os acidentes de terreno que conhecemos em dezoito meses de andanças por aquelas planuras imensas o que, pelos vistos, não impedia que, por vezes, fosse flagelada pelas forças inimigas, coisa que nunca aconteceu à Neriquinha.
Não perdi tempo a fazer qualquer reconhecimento do local; não me interessava. Estava apenas de passagem e com a garantia de que, depois de atravessar aquele deserto infernal, não voltaria a pôr os pés nas areias daquela savana inóspita. Mas deu para perceber a exiguidade das instalações, sendo visível no topo do edifício principal um arremedo de torreão guarnecido com uma metralhadora pesada cujo modelo nem cheguei a identificar, sinal mais do que suficiente para me convencer de que os tão propalados ataques ao aquartelamento não eram invenção. Mesmo que não fossem muito frequentes seriam certamente o bastante para transformar num inferno a vida de quem tinha por missão a defesa daquele pedaço da soberania portuguesa.
Acoitei-me o melhor que pude procurando abrigo debaixo de uma das viaturas. A areia fofa e ainda quente pela exposição ao calor do dia era conforto bastante e rapidamente adormeci sob a precária protecção do camião; a pior do que isso estava habituado e não seria por falta de colchão e lençol que perderia o sono. Mas a sensação de que estava exactamente no meio do inferno passou-me pela mente antes de adormecer embalado pela certeza de que, na madrugada seguinte, retomaríamos o nosso lugar naquela espécie de barca de Caronte que nos conduzia para fora daquele imenso mundo inferior.
Ali ninguém era Orfeu e não estava em curso o resgate de uma qualquer Eurídice. Também é verdade que nenhum de nós se cruzara com Hades ou Perséfone mas, por uns momentos, imaginei-me à boleia do barqueiro Caronte no regresso de mais uma viagem ao inferno onde passei dezoito meses da minha vida. Naquele preciso momento, senti como se estivesse no centro dessa terra de ninguém, mas reconfortado pela certeza de que isso seria apenas por uma noite. Quanto aos nossos anfitriões, apostaria que, naquela noite, dormiram descansados o sono dos justos. Quase uma companhia inteira era defesa mais do que suficiente contra qualquer ataque que pudesse estar programado pelo inimigo. Mesmo que assim fosse, pensei, não se atreveriam.

domingo, 2 de junho de 2013

O seu, a seu dono!


Caro Cardoso,
 
Mataste a N´Riquinha para ressuscitares as Mabubas.
É uma boa troca.
Mais: é uma troca justa!
À N´Riquinha tudo foi contado, nada foi escondido das coisas que correm no coração dos Homens. Ficou a nu e mais bonita. Foi feita  a catarse de um tempo que se colou à nossa à alma e alimentou a amizade que ainda hoje se consolida todos os anos.
 A N´Riquinha perdeu o encanto e a magia dos grandes segredos guardados a sete chaves nos confins da nossa juventude. É hoje um ponto perdido no mapa de Angola e um paraíso distante na nossa memória. Distante, mas vivo dentro de nós. Não houve sentimentos encobertos e enganosos nesta viagem pelas Terras do Fim do Mundo.
Recordámos as cores, os cheiros, as gentes, os risos, as lágrimas, os bons e os maus momentos, e, limpámos, de vez, os olhos da imagem distante das areias do Kuando-Kubango.
A N´Riquinha, já foi! Vem aí a saga das Mabubas!
 
Caro Cardoso,
Quando iniciei esta aventura do blog, tinha por objectivo ir colando, por aqui, umas histórias sobre um período das nossas vidas, cada vez mais distante no tempo, mas ainda próximo das nossas memórias já cansadas e envelhecidas. O blog cresceu à tua sombra e tornou-se num fabuloso exercício de memória da História da C. Caçadores 3441. Há muito que deixei de tentar escrever o que quer que fosse. Tu representas a Memória Viva de todos nós, companheiros dos vinte e poucos anos. O blog é teu! Considero-me o gajo que fez os estatutos da sociedade e tu o tipo que lhe deu corpo e alma, tornando-a num hino ao nosso passado e à nossa vivência comum durante mais de 2 anos.
Obrigado por tudo.
A N´RIQUINHA MORREU! VIVAM AS MABUBAS!

sábado, 1 de junho de 2013

A RENDIÇÃO

Agora já não havia dúvidas. Ali estavam os “mikes”, novinhos, branquinhos, recém-chegados do “puto” com os camuflados ainda a cheirar a tinta fresca e prontinhos para tomar o nosso lugar. Ainda não estavam todos, apenas a primeira leva, mas já o suficiente para se fazer a festa.
Os dias que se seguiram foram de verdadeira euforia. Bem, euforia para nós, que estávamos de partida, já que o semblante dos recém-chegados tendia mais para uma circunspecta e apreensiva sisudez, denotando apreensões e preocupações que a cerveja, a correr às dúzias, ia minimizando à medida que dissolvia arrelias e angústias.
Não sei como nos arrumámos todos naquele espaço formatado para um número limitado de homens, mas o facto é que, durante quase uma semana, a convivência entre veteranos e maçaricos foi sendo comandada pela sobranceria dos velhinhos que, ancorados na experiência de dezoito meses de savana, se arvoravam em donos da quinta, em contraponto com a quase subserviência dos novatos aturdidos pela aridez hostil que nos rodeava
Camuflados descoloridos e coçados contrastavam com as cores fortes daqueloutros recém-estreados; galões, puídos pelo tempo e quase disfarçados nos ombros dos velhinhos, impunham a sua autoridade aos novinhos, em folha, exibidos por oficiais e sargentos acabadinhos de formar. A descontracção de quem há muito se fartara da tropa e conhecia o meio, em contraponto com a postura militar dos novatos que só o tempo, as agruras do clima e os espinhos da missão se encarregariam de amolecer num processo lento de distanciamento e esquecimento das regras impostas na instrução, em nítido contraste com a crua realidade do teatro de operações que, dentro de pouco tempo, haveriam de experimentar.
Os dias que se seguiram, numa simbiose entre a euforia de uns e o “lá terá que ser” de outros, foram de transição, cumprindo-se a cíclica transmissão do testemunho, numa repetição, quase fotocopiada, do que acontecera dezoito meses antes.
Nessa altura, como agora, cumprindo os formalismos impostos, foi passada a responsabilidade por aquelas instalações com tudo o que por ali havia; eram os equipamentos, as viaturas e os geradores, mais os tachos e as marmitas, sem esquecer os stocks de comes, o armazém dos bebes, os medicamentos, os unguentos e o xaropes, as caixas disto, os pacotes daquilo e toda uma multiplicidade de pinchavelhos, parafusos, insignificâncias e sei lá mais o quê. Até a responsabilidade pelas antenas de rádio exigia recibo. Só faltou fazer a entrega do ar grosso e sobreaquecido que ali se respirava. E tudo foi conferido, certificado, contado e recontado, verificado e confirmado, garantido e acertado. E de tudo foram passadas guias e recibos, tudo assinado e arquivado, em duplicado e triplicado, ficando os velhinhos livres de responsabilidades, que assim foram passadas para cima dos ombros dos maçaricos.
Paralelamente e com a mesma sintonia, decorria uma outra passagem de testemunho. Esta, de natureza declaradamente informal, ia decorrendo sem compromissos, sem guias ou recibos, ao ritmo da roda da cerveja que escorregava gargantas abaixo. Transmitiam-se conhecimentos, passavam-se experiências e recomendavam-se cuidados:
- Olha que as chanas são traiçoeiras!
Chamava-se a atenção para o poder esgotante da areia seca das picadas e suas peculiares artimanhas, explicavam-se as manias do cacimbo e a intensidade das chuvas diluvianas que se lhe opunham, falava-se da abundância de caça, da pose majestática das palancas, das características das gungas, da graciosidade dos songues e do galope desajeitado dos guelengues e dos caixotes. Explicava-se a cultura daquelas gentes, as peculiaridades dos seus múltiplos temores e superstições, as minudências e particularidades dos seus hábitos e tudo o mais que se foi aprendendo com o tempo. Tudo foi entregue, incluindo os putos que lavavam a roupa, algumas mulheres do kimbo e ainda os percevejos das camas, as moscas sarnentas e as melgas que não nos largavam por nada deste mundo.
Aos poucos, à medida que iam sendo passadas responsabilidades, cortavam-se ligações, libertavam-se tensões e alimentavam-se expectativas de melhores dias. Mentalmente dizia-se adeus a tudo aquilo que foi o nosso mundo, o nosso cantinho de aconchego precário durante aqueles meses de provações e sacrifícios. Todas as agruras daquela espinhosa missão se transformaram, num ápice, em passado e, com isso, perderam toda a sua importância e significado.
Por agora, o futuro imediato estava logo ali, ao virar da folha do calendário. Finalmente tinham chegado ao fim as caminhadas pela savana arenosa, as noites passadas ao relento e a exposição às frias noites do cacimbo. Não mais se acordaria debaixo de chuva diluviana e era certo o adeus definitivo às chanas lamacentas, aos quartos de sentinela, às rondas nocturnas e às incursões ao kimbo à procura do prazer fugaz do colo de fêmeas andrajosas e até a sempre desejada visita bissemanal do pequeno avião do Barros, deixou de interessar - o dia santo do correio perdera o seu sagrado significado na certeza de que os sempre esperados aerogramas azulinhos, trazendo notícias de casa, seguir-nos-iam para onde quer que fossemos sem terem de percorrer tanto caminho para nos encontrar. O lugarzinho que nos esperava, diziam, era bem mais aprazível e declaradamente pertinho da civilização.
Dez de maio do ano de 1973. O tão esperado dia chegou, finalmente. O almoço foi servido e engolido, mais do que degustado. A ansiedade interferia com o apetite e a aproximação da hora da partida apressava toda a gente. Foi um reboliço de carregar sacos e malas, um corre‑corre para as viaturas, como se todos tivessem medo de perder a boleia que nos haveria de tirar dali para fora. Reservei um lugar na cabine de uma MAN e arrumei as tralhas sobre a carroçaria onde muitos já se haviam acomodado.
Duas horas da tarde, mais minuto menos minuto, iniciou-se a marcha, lentamente, uma viatura atrás da outra, iam saindo daquele quadrado de areia delimitado a arame farpado. Para trás ficava tudo aquilo que fora o nosso mundo nos últimos dezoito meses da nossa existência.
De tudo o que pertencia à Neriquinha apenas levámos connosco: o Dango, puto que, encontrado na terra de ninguém lá para os lados do esquadrão, foi apadrinhado pela companhia, o Candela, um puto barrigudo que, tendo aportado à Neriquinha no último Natal na sequência de uma operação qualquer, conquistara, com a sua simpatia, o carinho de todos, a gata chaninha que ninguém quis abandonar e uma gazela bébé que, indefesa, fora apanhada na mata e imediatamente convertida em mascote.
Pela primeira vez saíamos da Neriquinha para não mais voltar. Aquela viagem teria um só sentido. Nem adeus disse. Para quê? Aquela terra não era minha. Apenas estava ali de passagem.
Finalmente deixávamos de ser metecos em terra estranha. Outros acabavam de tomar o nosso lugar.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Chegaram os maçaricos

A notícia da iminente chegada dos maçaricos provocou uma revolução na Neriquinha. Não daquelas que visam a tomada do poder ou contestar a ordem reinante, mas uma outra, de natureza mais pacífica, uma revolução que operou mudanças significativas nos comportamentos e hábitos quotidianos que ao longo do tempo foram definindo uma certa forma de estar cauterizada pela pasmaceira desgastante de um local onde as alternativas de ocupação do tempo eram escassas.
Num primeiro momento a notícia correu de boca em boca, levada a cada recanto e repetida numa sucessão de mensagens gritadas, esfuziantes, fazendo explodir por todo o lado manifestações de júbilo e correrias de um lado para o outro. Uma notícia lançada ao vento como se uma espécie de armistício estivesse a ser anunciado.
-Vêm aí os maçaricos!
A boa nova foi repetida vezes sem conta, como se uns fizessem questão de convencer outros de que o dia, há tanto tempo esperado, vinha aí.
- É verdade, não é tanga! Os maçaricos estão quase a chegar.
Insistiam uns, procurando convencer os mais incrédulos. Sim, porque, agarrando-se à máxima de que quando a esmola é muita o pobre desconfia, alguns, permanecendo na dúvida, lançavam-se na demanda de fonte mais fidedigna.
- Oh meu alferes, é verdade que vêm aí os maçaricos?
Outros, pelo contrário, não duvidando nem um pouco, partiam logo para a euforia como se a chegada fosse no dia imediato sem que alguém se tivesse lembrado sequer de perguntar qual o dia exacto da rendição. Os maçaricos vinham aí e pronto, o resto não passava de bagatelas sem interesse.
A boa nova foi como uma lufada de ar fresco. A Neriquinha ganhou vida e um frenesim nervoso apoderou-se de quase tudo. Como por magia, um arremedo de vitalidade contagiante transformou a pasmaceira do costume num corrupio, como se, de repente, todos tivessem que fazer ou o tempo urgisse, em nítido contraste com a quietude peganhenta que há muito se instalara, muito por força do calor e do pouco que fazer que, por aquelas bandas, não ia além das andanças na mata, dos quartos de sentinela e das rondas nocturnas, entre outras ocupações semelhantes. Como por magia, a notícia matou a indolência e a pasmaceira, ao mesmo tempo que o lânguido sossego de sonecas preguiçosas deu lugar a uma azáfama anormal que há muito não se via por ali.
É verdade, uma mudança repentina determinou que, de um tempo em que a ninguém apetecia fazer o que quer que fosse, passou-se para um estado de azáfama total como se a iminência de sair dali tivesse libertado a adrenalina que pôs toda a gente a fazer qualquer coisa. E não eram apenas tarefas de arrumar as coisas. O quotidiano modorrento transformou-se, num ápice, num nervoso miudinho, um fervilhar de emoções, um gesticular impaciente de gente que, ao longo de dezoito meses, se foi habituando a tratos de polé com muita resignação à mistura e uma boa dose de solidão. Sim, todos aguardavam aquele dia como se fora o limiar da partida para o paraíso na certeza de que, a partir dali, a vida passaria a ser um mar de rosas com as mordomias da civilização à mão de semear, coisa que não era de somenos importância já que, para a maioria daquelas cerca de cento e cinquenta almas seria a primeira vez em dezoito meses que punham o pé fora da Neriquinha e arredores.
Entre as coisas a fazer, estava, talvez em primeiro plano, a preparação de uma adequada recepção aos maçaricos. Tinha de ser uma coisa em grande, um espectáculo memorável, algo mais bombástico do que a recepção que os velhinhos nos armaram dezoito meses atrás. Acima de tudo, era preciso deixar aos maçaricos a sensação de que acabavam de aterrar no inferno, um local pouco amistoso, onde imperava um ambiente capaz de desatarraxar os parafusos da caixa dos miolos a qualquer um.
O facto é que, por aquela altura, já uns quantos manifestavam sintomas de terem os circuitos do raciocínio afectados pelo clima. Marados dos cornos, com o discernimento já meio baralhado em consequência da permanente exposição às agruras do clima. Cacimbados, como então se dizia.
Atarefaram-se, lançaram mãos a tudo o que pudesse contribuir para o espectáculo, esmeram-se, deram largas à imaginação e com denodado empenho construíram um cenário de doidos. Agarraram numa caixa de madeira, acoplaram-lhe, desencantadas não sei onde, duas bobinas vazias, uma à frente e outra atrás, fixaram-lhe um tosco tripé e ficou pronta uma câmara de filmar sui generis. Depois, montaram tudo em cima de um unimog, vestiram os trajes femininos que usaram no último carnaval e assim compuseram uma equipe de filmagem pronta a fazer a reportagem de tão importante evento.
Chegou finalmente o tão desejado dia “D”, o dia em que chegaria a primeira leva de maçaricos, exactamente o segundo dia daquele inesquecível mês de Maio do ano de 1972. Todos madrugaram, se calhar nem dormiram convenientemente e, mal despontou o sol, que ali nascia bem cedo, foram saindo da caserna com a certeza mais que certa de que a fuga daquele purgatório estava por dias.
Nunca como então houve tantas sentinelas mirando o céu. Todos olhavam o horizonte, com impaciência, perscrutando o azul celeste na direcção que sabiam ser aquela de onde surgiria o Nord carregando aqueles que tomariam, a partir de então, os nossos lugares naqueles terras esquecidas do mundo.
Foi uma longa espera, que a impaciência se encarregou de prolongar ainda mais. A ansiedade foi crescendo à medida que o tempo passava e o Nord tardava. A vida quase parou com todos a postos para o grande momento até que soou o primeiro alarme.
-Lá vêm eles!
O ponto negro, já visível no horizonte, foi engrandecendo à medida que se aproximava até se tornar bem nítida a silhueta familiar do Nord Atlas na sua rota descendente em direcção ao topo norte da pista onde aterrou no meio de uma nuvem de pó avermelhado, evoluindo até se imobilizar no lugar do costume, enquanto um segundo aparelho se fazia à pista com mais uns quantos.
Toda a gente se precipitou em direcção à pista incluindo a improvisada equipe de filmagem que, a cavalo do pequeno unimog, se esforçava por manter o equilíbrio da caixa de madeira ali transformada em máquina de filmar sem câmara nem fita.
Um burburinho expectante enchia o ar enquanto se abria a pequena porta da aeronave e um elemento da tripulação fazia descer a pequena escada por onde sairiam os pobres diabos que nos vinham render. E, no exacto momento em que um camuflado novinho em folha assomou à porta e meio atordoado, num movimento hesitante começou a descer os degraus, uma gritaria esfusiante tomou conta do lugar ao mesmo tempo que cada um se esforçava por parecer o mais alucinado possível num misto de loucura e contentamento.
A compor o ramalhete, o Braga, trajando uma fatiota de mulher saloia, conduzia o unimog transformado em carro de reportagem; o Comandos, de mini-saia, procurava equilibrar-se agarrado àquela coisa que pretendia simular uma máquina de filmar; a seu lado, o Campino trajava uns farrapos quaisquer mais parecendo um foragido do manicómio. À volta, misturados com a restante plateia, outros, com fatiotas femininas vindas não sei donde, animavam o ambiente num verdadeiro teatro de loucos.
No meio de toda aquela loucura, os novos habitantes da Neriquinha, alguns com o ar mais infeliz do mundo, olhando em volta sem saber para onde se dirigir, iam sendo guiados, quase empurrados, bombardeados por explicações atabalhoadas vindas de todo o lado. Toda a gente ia contando, indicando, explicando, descrevendo, pintando de negro o que, doravante, seria a vida que iriam ter naquele rincão perdido das areias quentes das Terras-do-Fim-do-Mundo.
Não o fiz de propósito, mas a coincidência aí está: amanhã, dia 2 de maio, faz exactamente 40 anos que aquele Nord aterrou na Neriquinha anunciando a boa nova. Estava por dias o fim do nosso calvário de mais de dezoito meses de privações e sofrimento.