sábado, 5 de julho de 2008

A TRAVESSIA

Das andanças da companhia na sua jornada em direcção a Angola, apenas restavam as escassas centenas de metros que distavam da Estação de Santa Apolónia até ao cais de embarque. A coluna de viaturas militares que se encarregou do transbordo, ocupando parte substancial da avenida 24 de Julho, virou à esquerda sobre a passagem de nível que levava ao porto, deixando ver, a pouca distância, a silhueta amarelo-esverdeada do Vera Cruz, firmemente agarrado aos pontos de amarração do Cais da Rocha Conde de Óbidos, aguardando imóvel por mais um punhado de gente trajando de igual, que em breve sobrelotaria a espécie de quartel flutuante em que fora transformado.
Outrora um dos símbolos da importante frota da marinha mercante portuguesa, passeara-se imponente pelas águas dos grandes oceanos, calcorreando as rotas migratórias portuguesas para o Brasil e América Central, no transporte de gente à procura de vida melhor, episódio da diáspora, na qual desempenhou um papel fundamental. Estava agora confinado à humilde tarefa de transportar tropas de e para África, soltando sem timidez o seu sonoro apito, num prolongado chinfrim que condizia com a sua altaneira figura. Pouco tempo depois, despediu-se dessas lides: Em 1973 foi vendido à Formosa onde acabou os seus dias.
A chegada ao cais deu lugar a um frenético corrupio, qual cenário teatral que se repetia sistematicamente há duas décadas e a que eu nunca assistira - são ambientes onde eu só poderia estar por ser um dos figurantes por imposição. Reinava uma espécie de confusão organizada, em que cada um procurava acomodar-se e às suas tralhas, no lugar do navio que lhe havia sido destinado: os soldados e cabos nos porões, em beliches improvisados de seis camas umas sobre as outras e os sargentos e oficiais, nos camarotes disponíveis, tudo numa correria de impaciência, na vã tentativa de esticar os derradeiros minutos, para os gastar no último adeus a familiares e amores que compunham a pequena multidão que se formara para as despedidas.
Cumprido o ritual, o Vera Cruz separou-se do paredão. Liberto das amarras que o prendiam, afastou-se lentamente, deixando para trás um esvoaçar de lenços e braços, no meio de um soluçar colectivo humedecido pelo rolar de lágrimas não contidas. Para a maioria, iriam decorrer mais de dois anos até que se reencontrassem.
À medida que, lentamente, iam ficando para trás, a Ponte Salazar, os Jerónimos, Torre de Belém e finalmente o Bugio, ainda retinha na lembrança o perfume e o quente sabor do último beijo da namoradita engatada na vizinhança do quarto que, enquanto estudante, ocupara em Lisboa, derradeira oportunidade para o apetecido contacto feminino que, durante os treze meses que já levava de vida militar, se limitara a encontros fugazes e esporádicos. Obrigado a interromper o curso para ingressar no exército, o namoro ficara sujeito a um jejum intermitente, entrecortado de quando em vez, ao ritmo das raras escapadelas a Lisboa, conseguidas ao sabor de uma boleia de ocasião, já que a viagem de comboio consumia parte substancial do fim de semana e o dinheiro do bilhete fazia falta.
Assim, a despedida feita reencontro justificava o maior calor e entusiasmo postos nos beijos de adeus. Foram também os últimos. É que, o namoro acabou quando ainda não estava cumprida metade da comissão. Na minha ausência, alguém ocupara o lugar, sinal de que a relação não tinha pés para andar - apenas foi boa enquanto durou. Via eu assim uma vantagem onde outros carpiam mágoas, não obstante a notícia ter-me feito ingerir, durante alguns dias, uma quantidade de álcool, para além da que seria razoável.
A silhueta escura das primeiras escarpas da costa Madeirense, que ao longe se desenhava, anunciava o fim da primeira etapa da viagem que duraria nove longos dias. O embarque de uma companhia independente formada na Madeira obrigara a uma escala no Funchal, propiciando, a mim e ao Gonçalves, um regresso à terra, ainda que fugaz, enquanto que, para uma grande parte daqueles turistas à força, constituiu a primeira e única oportunidade de conhecer a tão badalada pérola do atlântico.
Recostados na amurada, comentávamos a ironia do estar de volta, quando apenas tinham decorrido escassos dias desde que dali saíramos uma vez esgotadas as curtas férias de mobilização. Naquela curta estada, o Gonçalves tinha finalmente conseguido conquistar os amores da rapariga que, havia meses, pintava de cor-de-rosa os seus sonhos.
O Zé Maria, (tratava-o pelo nome próprio) não era de se gabar das suas conquistas, mas o sim que recebera, na sequência da ousadia de se declarar e a relação de amizade que nos unia – éramos os únicos madeirenses entre os cento e sessenta homens da companhia - soltou-lhe a língua, nomeando-me confidente. Quando se está feliz, não se resiste a contar e a aproximação da Madeira trouxe ao de cima recordações que a iminência do reencontro obrigou a exteriorizar, numa não disfarçada, porém contida euforia, bem visível no brilho dos olhos e entusiasmo posto nas palavras.
E não era para menos. Eu conhecia a razão de tão óbvia felicidade, como aliás, quase toda a gente na Madeira. A sua amada tinha sido recentemente eleita a mulher mais bonita da ilha, num concurso de misses muito popular na altura. Imagina-se, assim, o que ia na alma e na cabeça do Gonçalves, raispartando contra o andamento do navio, que a ansiedade retardava, pouco valendo ter-lhe feito compreender que a velocidade era superior ao que parecia.
Quatro horas, foi muito pouco tempo para quem acabara de chegar e já tinha de partir, mas suficiente para umas quantas despedidas. Para mim, a oportunidade para, num saltinho a casa, dar um último beijo à mãe - surpreendida porque já me fazia em terras angolanas - e ouvir o meu pai repetir mais uma e outra vez: “vê lá, tem cuidado”. O meu pai não era muito efusivo nem dado a dramas. Apenas quem o conhecia bem, perceberia, por detrás daquele simples conselho, o desgosto que lhe ia na alma.
Para o Gonçalves, a certeza de que o amor era coisa boa. Nunca cheguei a saber se isso tornou a viagem mais leve ou mais penosa. Por mim, inclino-me para a segunda hipótese, que isto de ser obrigado a deixar à mercê de uns quantos galifões, uma beleza daquelas, não é coisa fácil de superar e, honestamente, não se faz a ninguém. Com efeito, tal como aconteceu comigo, também alguém ocupou a vaga deixada pelo Zé Maria, quando ainda apenas tinham decorrido alguns meses. Não sei se isso lhe causou alguma mossa ou desgosto. Morreu num acidente inexplicável, lá para os lados do Rivungo, antes de ter tido tempo de me contar.
A aproximação da hora do jantar precipitou o regresso a bordo, caindo a noite quando se retomou a viagem, não demorando muito até que, da costa madeirense, apenas restasse uma sombra difusa no horizonte, dissolvendo-se lentamente na noite até desaparecer como num passe de mágica, à medida que nos afastávamos em direcção ao desconhecido, mergulhados numa escuridão que não deixava ver, nem o que nos rodeava, nem para onde seguíamos.
Com o amanhecer, mantinha-se o desnorte. Apenas o escuro da noite fora substituído por aquela imensidão de água, monótona, sempre igual, como se tivéssemos sido largados no meio de um nada rasgado pela proa do navio que, apontando uma direcção indefinida, mais parecia lutar contra forças invisíveis, escoltado por cardumes de peixes voadores que emergiam da superfície do oceano para logo desaparecerem, como se, após terem sido cuspidos pelo mar, teimassem em regressar apressadamente à fresquidão da água, fugindo ao calor.
A falta de pontos de referência dava a sensação de que não se saía do mesmo sítio, num vai e vem balouçante, que desequilibrava o andar e fazia nascer um enjoo, convidando ao vómito e condicionando o apetite, à medida que o agradável frio europeu do início de Novembro ia sendo gradualmente substituído por um calor insuportável, que aumentava de dia para dia, surgindo de braço dado com uma humidade espessa e persistente, que nos untava a pele de um não sei quê de gorduroso que só desaparecia com uns mergulhos na piscina em formato de tanque metálico, mas apetecivelmente cheia de água fresca sugada ao mar.
Nove dias, uns monótonos, outros nem tanto, um episódio aqui outro acolá, a chatice das inúteis formaturas no convés, marcadas para horas impróprias, limitadas a uma espécie de ensino teórico, baseado em recomendações sem sentido, que faziam ricochete na indiferença, visível no bocejo incontido, numa mal disfarçada ansiedade pela ordem de destroçar que, qual bênção, desencadeava uma correria à procura de uns momentos de lazer bem mais apreciados.
As noites eram preenchidas com jogatinas de lerpa ou king, jogos de cartas que muitas vezes se prolongavam pela madrugada, ou então com os inenarráveis serões, animados pelo grupo musical de bordo, tocando modinhas da época. Entre os seus membros, uma espécie de caricatura, semelhante a uma barbie com mais de sessenta anos, era o único elemento feminino a bordo. Com óbvios sinais de já ter ultrapassado o prazo de validade, exibia uma rala cabeleira loira, colocada sobre uma máscara de rímel, onde sobressaía uma boca desenhada a baton vermelho vivo, nitidamente esborratado nos cantos, encimando um corpo esquelético que se contorcia ao ritmo das batidas nas teclas do piano colocado estrategicamente à sua frente. O grupo esforçava-se por fazer com que a música convidasse à dança, onde a falta do elemento feminino, não obstava a que alguns foliões, ou porque toldados pelo álcool ou porque a galhofa a isso levava, arrancassem gargalhadas da geral, com as teatralizações improvisadas de danças de salão, com uns a tentar fazer de damas desajeitadas e outros de cavalheiros abusadores.
Magicando com os meus botões, perguntava-me, o que fazia ali aquela mulher, sozinha, no meio de um mar de tropas semi-alcoolizados, que despejavam um permanente chorrilho de palavrões. É que, na tropa, não se falava de outra maneira. Naquele ambiente, a forma mais educada de alguém se dirigir a outro, começava sempre por, "Oh seu cabrão...!"
A passagem do equador, anunciou-se sob a forma de um aumento do calor e da humidade do ar, sem que a tão falada linha mítica se deixasse ver, continuando a paisagem rigorosamente igual, quer em cor quer em textura, à medida que se povoava a imaginação de cenários de uma África desconhecida, numa tentativa de antecipação virtual das paisagens que nos aguardavam.
Os primeiros sinais de terra precipitaram uma correria à amurada, à vista da silhueta que, lentamente, em esboço, começou a desenhar-se na linha do horizonte, enquanto a monotonia azul aquática foi dando lugar a uma mancha difusa e acinzentada. A costa africana ganhava nitidez e cor a cada minuto que passava, até se transformar num castanho avermelhado, pincelado de verde, mas ainda insuficiente para satisfazer a curiosidade que nos assolava.
Luanda descobriu-se bem diferente dos cenários que virtualmente foram sendo desenhados no nosso imaginário. Por um lado, a inegável beleza dos contornos da baía, atapetada de água de um azul cristalino, numa quietude contagiante. Por outro lado, o multicolorido das típicas vestes africanas, à mistura com um trajar europeu a passar de moda, no meio de uma dominante cor de caqui, que caracterizava a indumentária do europeu transformado em africano. A temperatura, essa, continuava elevada, mas agradavelmente liberta daquela humidade irritante que nos acompanhou durante toda a viagem, como que a confirmar que, naquelas paragens, Novembro é verão e faz parte do trio de meses mais quentes do ano. Perceberíamos, mais tarde, que é também a época das chuvas diluvianas, criando um contraste climatérico até então desconhecido. Esta primeira impressão era estranha.
Pisar terreno africano pareceu-me surreal, assaltando-me um turbilhão de sentimentos, odores, cores e sons, que atropelavam os cinco sentidos, impedindo o fluir do pensamento e condicionando o raciocínio. Não era exactamente o que esperava mas, estranhamente, gostava, sem saber bem porquê, como numa espécie de amor à primeira vista que confirmava um lugar comum: ninguém fica indiferente a África. Com o tempo, confirmou-se que assim é. A relação com África foi sempre muito intensa e, como se demonstra, dificilmente se esquece.

3 comentários:

Fernando Vouga disse...

Parabéns por este belíssimo texto. Uma viagem ao passado escrtia de forma magistral.
Também embarquei no Vera Cruz, rumo a Moçambique, mais propriamente, para Mocímboa da Praia.
Ao ler esta excelente peça literária, quase que senti aquele cheiro onde a maresia se misturava com os odores mais variados, vindos das máquinas, das cozinhas, da pintura, dos porões superlotados,...

Ana disse...

É impossível ficar-se indiferente a este texto. O tom realista e emocionante agarra-nos do princípio ao fim e rendemo-nos, completamente, à sua leitura. Quando se chega ao fim...quer-se mais!

Egidio Cardoso disse...

O mundo é pequeno. De facto.
Um actual colega de serviço, telefonou-me, há dias. Para surpresa minha, estava a almoçar com o irmão mais novo do Gonçalves. Tinham estado juntos na tropa.
Já tinha recebido informação que a familía ficou em alvorouço ao ter de lidar de novo com recordações tristes. Parece que todos leram o que se escreveu no Blogg. Mas, ao falar ao telefone com o António Gonçalves, fui contagiado pela emoção familiar.
António, saiba que o Zé Maria só tinha amigos naquele grupo de cerca de 160 homens.
A singela homenagem que aqui faço e que o Gabriel Costa faz no “post” anterior, é autêntica, sentida e mais do que merecida.
É sempre difícil perder um camarada, mais ainda um amigo e pior do que tudo, naquelas circunstâncias. Não quero pedir meças à família, que sei ter sofrido e ainda sofre com a perda. Mas a verdade é que ainda guardo, com mágua, a imagem daquele dia em que tive a sensação de que o mundo desabava à minha volta.
Zé Maria, … a gente um dia vê-se … mas continuas no nosso coração. O tempo não conseguiu apagar nada, apenas mitigou a dor.
Ao António, irmão caçula, apenas garantir que espero um dia destes conversar pessoalmente consigo, apenas para recordar alguns bons momentos passados.