Mostrar mensagens com a etiqueta Tentativa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tentativa. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A AÇUCAREIRA

Ali bem pertinho, um par de quilómetros a oeste do Caxito, a Fazenda Tentativa espraiava-se pelas margens férteis do Rio Dande que se passeava preguiçoso por entre hectares e hectares de plantações de cana-de-açúcar e palmeiras dendezeiras. A fazenda era propriedade da Companhia do Açúcar de Angola, que detinha ainda fazendas mais a sul, mais propriamente no Cubal e no Dombe Grande, verdadeiro império empresarial da família Sousa Lara que produzia de tudo um pouco salientando-se o açúcar de que era a maior produtora de todo o território e ainda sisal, óleo de palma e coconote entre outras coisas.
Inicialmente, eu não fazia a mínima ideia do que aquela fazenda produzia. Havíamos por lá passado na etapa final da viagem que nos trouxe das longínquas Terras-do-Fim-do-Mundo mas, na altura, nem dei pela sua existência. Albergava a sede do batalhão, o que significava proximidade do comandante e isso era o suficiente para eu querer distância dali. Das vezes que por lá passei, por imperativos de serviço, dirigi-me sempre à secretaria, o mais rápido possível e zarpava antes de qualquer encontro imediato. Ou o homem saía pouco do círculo restrito do seu gabinete ou tive sorte. O facto é que nunca dei de caras com tal pessoa. Ainda hoje recordo, numa revolta mitigada e quase esbatida pelo tempo, o raspanete imerecido que me deu em plena pista empoeirada da Neriquinha, enquanto aguardava o momento de subir para o Alouette que me levaria até às profundezas da savana para mais uma desgastante operação militar contra um inimigo que não quis medir forças connosco. Enfim, reminiscências agora temperadas pela riqueza exuberante de uma fazenda, ali quase às portas do bulício citadino de uma aprazível Luanda.
Atrevo-me a afirmar que, para mim, a Tentativa tinha uma aura especial. Tenho a certeza de que a via de forma diferente do resto do pessoal. Da baga do dendém, confesso que, até então, nunca tal tinha visto ou imaginado, mas a plantação e cultivo da cana-de-açúcar era algo que fazia parte da minha existência. Aprendi a distinguir as suas variedades, sabia escolher a mais sumarenta e mais doce e não resistia ao seu suco delicioso que saboreava chupando‑o gulosamente até não restar gota.
Nasci e cresci na Madeira absorvendo as preocupações do meu pai numa luta permanente contra as pragas que dizimavam a plantação, exigindo cuidados que nem se extinguiam na azáfama anual da colheita e seu transporte para o engenho que a transformava em branco açúcar, em espesso e escuro mel, dali saindo ainda uma aguardente explosiva que, para ser bebida, tinha ser diluída e amaciada. Esta agro-indústria, a par com a produção de vinho, representava então, umas das maiores riquezas da ilha que me viu nascer.
Por tudo isto, entende-se a compreensível atenção que eu dispensava a todo o processo, já que a única semelhança encontrada ficava-se mesmo pelo aspecto da cana; tudo o mais era diferente. Habituado à plantação alinhada em regos paralelos desenhados nas nesgas de terra empoleiradas nos socalcos das encostas madeirenses era, pelo menos para mim, uma espectacular novidade a enormidade dos canaviais espalhados pelas ricas planuras da fazenda, dessedentando-se no generoso caudal do Dande que, uma vez domado por uma ou duas represas, deixava que as águas circulassem por canais de rega estrategicamente construídos por entre os terrenos da plantação.
Ali a cana crescia livremente formando um matagal intransponível que apenas desaparecia na altura da colheita, feita a golpes de cutelo por um exército de milhares de trabalhadores. Para além dos canaviais, que se avistavam da estrada, nunca me foi dado tomar consciência da sua real extensão e capacidade produtiva. Sabia, contudo, que a cana era transportada em pequenos vagões que rolavam por carris de ferro puxados por um tractor desde o local da colheita até à fábrica.
Constava que tinha vinte quilómetros quadrados de extensão, mas isso não me permitia ter a noção do seu significado. Apenas tendo em consideração que a fábrica laborava durante todo o ano e que o ciclo de crescimento da cana era em média de doze meses, conseguia imaginar a enormidade da extensão e da capacidade produtiva daquela fazenda à qual, a linha férrea conferia maior dimensão. Não sei se era assim, mas lembro-me que, na altura, juntando todos estes elementos, me pus a concluir que havia sempre cana em condições de colher, numa espécie de carrocel sem fim: à medida que ia sendo colhida, voltava a crescer ao ritmo da capacidade de laboração das prensas que incessantemente a espremiam.
Quando, finda a comissão, por ali passei na viagem de regresso a casa, lembro-me vagamente de ter deitado uma última olhadela aos canaviais que se estendiam desde a estrada. A folhagem da cana ondulava ao sabor da fraca brisa, quase pronta para nova safra como ciclicamente acontecia desde os recuados anos vinte, altura em que foi fundada a Companhia.
Sei que, após a independência, passaram a chamá-la de “A Açucareira”. Contudo, reza a história que, alguns anos volvidos, cessou toda a produção e todo o casario da fábrica incluindo os armazéns do açúcar, se transformou em ruinas.
Não sei o que lá se planta nos dias de hoje, mas o esqueleto de toda aquela riqueza ali permanece como um fantasma que, após a morte física, se obstina em não abandonar o mundo dos vivos.
Qual terá sido o paradeiro de toda a maquinaria pesada que equipava a fábrica? E os carris de ferro? Ainda se deixarão ver?
Bem, na verdade, nem quero saber.

terça-feira, 1 de abril de 2014

A CARTA DE CONDUÇÃO

Naqueles tempos, não havia acesso aos facilitismos que caracterizam os dias de hoje e não me refiro sequer à evolução tecnológica de que quase todo o ser pensante modernamente usufrui. Para dar um exemplo comezinho, ocorre-me citar o telefone; fazer um simples telefonema de Angola para Lisboa era quase ficção, coisa difícil. Quanto muito um telegrama, via Marconi, então transmitido recorrendo aos pipiipi’s que representavam os pontos e traços do velhinho código Morse. Ou seja, comunicar com a família, só mesmo recorrendo à escrita bem arrumadinha no curto espaço disponível dum simples aerograma. Telegrama só em caso de extrema urgência e, ainda assim, era preciso poupar nas palavras e omitir os artigos definidos, os indefinidos, as preposições e outras miudezas da escrita.
Eram de facto outros tempos. E as diferenças eram muitas. Umas mais insignificantes, outras mais radicais e outras ainda diferentes por razões diversas. Veja-se, por exemplo, a carta de condução; hoje, qualquer miúdo com dezassete anos, já está habilitado com a licença adequada à condução da máquina de que mais gostar. Naqueles tempos, conduzir era coisa que ocupava os sonhos de muitos mas, simultaneamente, era algo que não estava nos planos mais imediatos da maioria. E eu não era excepção. A primeira vez que experimentei tal coisa foi ao volante de um unimog, dos pequenos, nas picadas arenosas que sulcavam os longes por onde andámos. Mas aí, a coisa era simples; desde que conseguisse engrenar uma velocidade, o pequeno pincho andava quase sozinho. A profundidade do sulco da picada mantinha-o no caminho e a ausência de trânsito dispensava o conhecimento dos artigos do código da estrada. Assim sendo, eram muito poucos os encartados da companhia. É claro que os condutores da tropa não entram na contagem. Alguns destes tinham apenas carta militar, atribuída pelo exército, após umas aulas mal-amanhadas frequentadas na escola de condução militar.
Mas, vamos ao que interessa. Ali bem pertinho, na pequena povoação do Caxito, havia uma escola de condução e isso bastou para motivar uns tantos a tirar a carta! Não fui eu, de certeza, quem primeiro se lembrou de tal coisa mas, decidi inscrever-me. E mais uns quantos também. Não recordo exactamente de quem, mas o Morais, que me acompanhou desde as primeiras lições, era um deles e, pelas razões que motivam esta história, o soldado cozinheiro Lourenço era um dos outros.
O Lourenço era um homem sui generis. Aprendi a conhecê-lo no Rivungo, quando ali cheguei pela primeira vez e me apresentei à grande chana do rio Cuando. Foi o cozinheiro que nos calhou em sorte e ainda hoje estou para saber porque raio foi o homem escolhido para, sozinho, tratar dos tachos e dar de comer à malta para ali destacada, enquanto na Neriquinha ficava toda a equipa, para mais orientada pelo Cabo Ribeiro que se sabia ser o único com experiência na função.
Para além de ser cozinheiro de fracos recursos, era um cromo. Bom tipo, certamente mas se, naqueles primeiros tempos de mata, não tivesse tido a preciosa ajuda do velho Máquina, negro ganguela nascido nas profundezas da savana, mas bastante habilidoso nos temperos, estaríamos bem tramados e creio bem que passaríamos o tempo a mastigar salsichas com massa e massa com salsichas entremeada com um ou outro acepipe gorduroso aprendido na escola de culinária militar daqueles tempos. Aquele seu trejeito fungoso à mistura com o discurso fanhoso não augurava nada de bom, pelo menos no que se refere à confecção de comida de jeito. Mas safou-se bem e tenho a certeza de que aprendeu muito com o Máquina. Isso e o facto de ser boa pessoa, talvez seja a explicação para não ter recebido, ao longo do tempo que tratou da janta do pessoal, reparos de maior. Caiu no goto da malta, é o que é. Todos o tratavam com bonomia à mistura com um ou outro apodo inspirado na sua bisonha figura e peculiares trejeitos, incluindo a forma como metia os pés para dentro ao andar. Pois bem, este homem que, para além do mais era pouco dado às coisas da cultura, também resolveu tirar carta de condução. Não sei quais seriam os seus planos para o futuro, mas foi assim que aconteceu.
As lições de condução não constituíram grande problema. Na vila do Caxito apenas havia uma rua. Em boa verdade era a estrada que, vindo de Luanda e depois de passar pela Fazenda Tentativa, atravessava a urbe em direcção a norte. O trânsito era escasso, não havia cruzamentos nem rotundas e tão pouco subidas e descidas, o que significa que as lições práticas não eram um problema para os instruendos mas, em compensação exigia muita imaginação do instrutor que procurava tudo o que pudesse ajudar no treino de todas as manobras impostas pelo regulamento. Lembro-me que, para praticar o ponto de embraiagem, dado tudo ser plano por ali, recorria-se a uma pequena rampa de terra que, em resultado do nivelamento da estrada aquando do seu asfaltamento, dava acesso à picada que, num plano inferior, dali nascia em direcção ao interior da mata. Era suave, a rampa, bastante curtinha, mas era o único declive que havia nas proximidades. Quanto ao mais, o instrutor metia dois alunos no carro, um conduzia até à Fazenda Tentativa, fazia aí a inversão de marcha e o outro fazia o percurso inverso de regresso à escola.
Assim sendo, para o Lourenço, as lições foram correndo sem grandes problemas e, aos poucos, lá foi conseguindo fazer tudo direitinho. O problema era o código. Fixar todas aquelas regras era complicado. Bem se esmerou a estudar pelo manual mas a coisa não estava fácil e isso via-se, durante as aulas teóricas, especialmente porque não conseguia encaixar na pergunta do instrutor aquilo que, com tanto denodo, estudara na noite anterior. É verdade que os manuais incluíam uma variedade considerável de perguntas e respostas correspondentes mas, ali, perante o instrutor, era difícil encaixar na pergunta a resposta certa.
Mas o Lourenço não se intimidou. Decorou o manual de ponta a ponta, afinou bem a coisa e dentro de algum tempo tinha tudo memorizado ao mais ínfimo pormenor; agora nada podia falhar. Mas, perante uma pergunta concreta, tornava-se difícil rebobinar tudo o que memorizara, acontecendo por vezes escolher a resposta destinada a pergunta diferente. Foi então que encontrou a solução radical. Para não se enganar, decorou, de forma encadeada, cada pergunta e a respectiva resposta. A partir daí nunca mais se enganou. Perante uma pergunta e independentemente de como o instrutor a formulava, o Lourenço respondia sempre da mesma forma: papagueando, repetia a pergunta tal como estava no manual e acrescentava-lhe a resposta correspondente.
Não me lembro se alguma vez, percebendo mal a questão, rebobinou a pergunta errada e se com isso, também errou a resposta. Mas sei que fez o exame e passou à primeira.