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sábado, 1 de janeiro de 2011

O RETORNO do MARINHEIRO ou o amor em tempo de guerra

Durante os longos dezoito meses que andei por terras do Cuando Cubango, dei-me conta que o dia do regresso, aquele em que dali sairíamos, era uma espécie de assunto recorrente, quase uma mania que, com frequência, ocupava as nossas conversas e pensamentos. Era tema a que se voltava de quando em vez, especialmente se a saudade batia à porta. Na verdade, era o dia mais desejado a seguir ao de “São Correio”. Só que este era certo e vinha duas vezes por semana, enquanto aquele não passava de uma miragem distante, algures no difuso horizonte das nossas vidas.
Era de facto o dia mais esperado e isso era tão importante que justificava a manutenção de calendários onde, em contagem decrescente, se ia marcando o tempo já passado e controlando o restante. Quanto mais os dias riscados, mais próximo o tão almejado dia. A cada pôr-do-sol, rejubilava-se:
- um dia a menos! E quando se completou um ano de Neriquinha, o desabafo foi substituído por um resignado: - já faltou mais!
O pior é que ninguém sabia quando isso iria acontecer. A companhia anterior saiu dali passado um ano e parece que teria sido sempre assim. O lugar era tão mau que justificava a preocupação das hierarquias militares em proteger a sanidade mental de quem tivesse tido o azar de para ali ter sido despachado, procurando encurtar tanto quanto possível a comissão naquele oásis improvisado. Assumia-se, por isso, ser mais ou menos certo que, passado um ano de degredo, haveria rotação para um lugar mais aprazível.
Mas não tivemos essa sorte. Passados doze meses comecei a alimentar a esperança que seria mais dia, menos dia. E como esse dia nunca mais chegava, assumi que seria mais semana menos semana, depois que talvez fosse daí a um mês, até que por volta do décimo quinto mês de Neriquinha e Rivungo deixei de pensar no assunto e já só me contentava com a certeza de que algum dia haveria de ser, nem que fosse no fim dos dois anos de comissão. Ia assim enganando a consciência com o facto de os meses já passados serem mais do que os que ainda faltavam.
– Já não falta tudo. Concluía na tentativa de amenizar a expectativa.
Com o pessoal da marinha, as coisas não eram muito diferentes. Quando ali chegavam tinham uma vaga ideia do dia em que tudo terminaria, sendo atormentados pelos mesmos sentimentos. Na verdade, tropas ou marinheiros, polícias ou civis, fosse quem fosse que ali estivesse no cumprimento de um missão por tempo limitado, todos tinham no pensamento o dia em que finalmente deixariam para trás as Terras-do-Fim-do-Mundo, diriam adeus às águas do Cuando, respectivos afluentes e chanas, aos kimbos, aos irritantes trajectos por picadas de areia poeirenta e à falta de quase tudo.
Mas não era apenas a imposição de uma missão indesejada, num local impensável, longe de tudo e de todos, que nos atormentava o espírito e alimentava o desejo de ver chegado o dia do regresso. As saudades do que deixáramos para trás eram ampliadas pelos riscos da missão, pelo desterro a que fôramos votados e pela vida miserável e difícil que tínhamos de levar. E a falta de mulher, mulher branca, de seios redondos e rijos, de pele delicada, cheirosa e doce, ocupava o pensamento, atormentava os sentimentos, fazia doer a alma e trazia à memória prazeres já gozados que agora pareciam apenas privilégios inacessíveis.
Enfim, necessidades que cada um procurava mitigar com os parcos recursos locais, satisfazendo fugazmente apetites lascivos que se esfumavam em rapidinhas incursões nocturnas mas que não conseguiam apagar o desejo incontido.
Alguns, talvez menos resistentes, ou possivelmente mais carentes, não se contentavam com visitas esporádicas a alcovas desconfortáveis habitadas por fêmeas sem jeito e desprovidas de atractivos. Esses, ao fim de algum tempo, acabavam por se fixar num kafeco, que passavam a considerar sua a tempo inteiro, adquirindo-a em troca do alambamento cujo preço o pai fixava, passando a ser dono da rapariga que lá ia cumprindo a sua função, toda vaidosa porque agora pertencia a um branquela que, de quando em vez, a presenteava com um agrado insignificante. Sim que as mulheres ganguelas não eram muito exigentes e qualquer pano colorido era suficiente para as fazer felizes. Não imaginam os favores que se conseguiam comprar com um simples maço de tabaco.
Na 3441 e tanto quanto me lembro, apenas o furriel das transmissões comprou mulher. A Regina Preta, como era conhecida, era uma mulher da savana, negra de um escuro intenso, de pele áspera e peitos volumosos mas flácidos e caídos. Não devia nada à beleza, mas passou a ter homem branco só para si, por sinal ciumento e que a procurava guardar o melhor que podia das investidas dos demais que, apenas por pirraça e a troco de meia dúzia de tostões, usufruíam da propriedade adquirida. E como isso não era fácil, que o furrfiel não facilitava, cada vitória era saboreada mais por isso do que pelos poucos minutos de prazer, já que a arte do amor não era exactamente a especialidade daquelas mulheres. Ou então era a falta de empenho ou de competência de homens habituados a coisa diferente, não conseguindo obter mais do que uns inábeis e mecânicos meneios da função por ali designada de ginga ginga.
Por tudo isto, livrar-se de um nada e correr para o tudo que se deixara para trás, era, assim, um desejo que não nos saía da cabeça. E foi isso que eu imaginei terem sentido os nossos companheiros da marinha quando, finalizada a comissão no Cuando, regressaram a Luanda e provavelmente daí para o Puto. E a alegria teria sido mais efusiva não fora o facto de ainda estarem a recuperar da perda do Ruço e das mazelas resultantes do ataque que a lancha sofrera pouco tempo antes.
De facto, só não pensavam sair dali os que ali nasceram e não conheciam outro mundo. Todos os demais apenas permaneciam pelo tempo imposto pela comissão, desde o Administrador da Circunscrição, aos agentes da PSP, da DGS, tropa, marinha e um ou outro funcionário administrativo. Enfim, todos estavam de passagem, alimentando o desejo de regressar o mais depressa possível.
Compreende-se assim a minha surpresa e espanto ao ver, por detrás do balcão da única lojeca existente no Rivungo, o Godinho, marinheiro que, há uns meses atrás eu vira despedir-se e que presumi contente por ter concluído aquela comissão num local para onde, por vezes, eram destacados, a título de punição, marinheiros com a folha de serviço suja por algum mau comportamento, pelo menos para o padrão de exigência do regulamento de disciplina militar que, por mim, nunca vi em qualquer deles comportamentos que justificassem censura.
É verdade, aquele marinheiro regressara ao Rivungo e pelos vistos de forma voluntária, para ali ficar e criar raízes. Comprara por um preço em conta a única loja existente num raio de algumas centenas de quilómetros, já que, entre o Chipundo e Mavinga, apenas na Neriquinha, num tosco barracão gerido pela tropa, se vendiam algumas tralhas à população local – chamávamos-lhe pomposamente “O Chiado”.
A rudimentar barraca de paredes de barro e cobertura de capim onde aquele marinheiro aplicou o seu investimento, fora, durante muito tempo, o negócio de um velhote que conhecemos quando ali chegámos, em Novembro de 1971. Apenas me lembro que era um homem só, de poucas palavras e que se calhar já não fazia ideia do que era uma cidade. Deve ter-se fartado e certamente largou o negócio por pouca coisa. A loja, dotada de um pequeno balcão muito rudimentar, raramente tinha clientes. De facto, os artigos que vendia - uns panos coloridos, umas missangas, uns paus de sabão e alguns utensílios - apenas interessavam à população local. E como o dinheiro não era coisa que os ganguelas tivessem ou lhes fizesse falta, a clientela escasseava. Na loja do velhote, estrategicamente situada à entrada da povoação mesmo em frente ao Kimbo, apenas um ou outro procurava trocar os magros tostões que ia arrecadando por algo que lhes interessasse ou que considerasse de utilidade.
Logo que pude, fui fazer-lhe uma visita. Recebeu-me com um sorriso aberto, mantendo-se no seu novel posto, de pé, por detrás do pequeno balcão. Se bem me lembro não deu justificações para o seu regresso e nem lhas pedi. No momento, não encontrei lógica na decisão que tomara, mas a verdade era aquela; o marinheiro voltara para junto do rio, lá para os confins das terras-do-fim-do-mundo, o mais longe possível do mar e do mundo onde cresceu. Se calhar, o facto de ter passado tanto tempo longe da civilização, tornara insuportável, para ele, o bulício citadino, passando a preferir a calma e o silêncio. Para mim, o Rivungo, era apenas um lugar um pouco melhor que tudo o mais que o rodeava, ficando a minha paixão pelo local, reduzida ao desmedido desejo de sair dali logo que tivesse autorização para isso.
Assim, não me pareceu que tão inopinada paixão por uma terra que não tinha nada para dar a um europeu habituado a outras mordomias, fosse a razão que levou aquele marinheiro a dedicar-se à exploração de um negócio sem futuro, num local para onde não confluem caminhos. Ali não havia nada e tudo o que fosse preciso estava demasiado longe, quase inacessível. Nem médico ou sequer um posto médico. Para tratar da saúde, numa aflição, apenas a enfermaria da marinha ou da tropa, servidas por enfermeiros formados à pressa.
Ninguém me tira da cabeça que a oportunidade do negócio não passou de uma espécie de pretexto, ou justificação para a decisão que tomara. Com efeito, apercebi-me mais tarde, porque alguém me abriu os olhos, que havia outra razão forte a justificar o retorno. O homem ficara preso à mulher de quem se serviu - ou que o serviu, tanto faz - enquanto cumpria ali a sua missão.
De facto, sabia-se que passava muitas noites numa certa cubata algures no meio das outras do pequeno kimbo do Rivungo. Seria mais um daqueles que não se contentava com visitas esporádicas. Mas, pelos vistos, terá ficado preso aos encantos de uma mulher que, sem atributos físicos, pouco mais sabia do que aquilo que a vida de mulher da savana lhe ensinara.
Mesmo assim, ainda hoje, continuo sem saber se o seu retorno ao Rivungo foi uma aposta no negócio, paixão pela savana ou o impulso irresistível de se anichar nos braços de uma mulher, negra, sem perfume, sem beleza, mas com os encantos necessários para o prender. A ponto de o fazer voltar a um lugar impensável.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O Ataque à LDP

Por: Egídio Cardoso
Os três meses passados no Rivungo amenizaram de alguma forma o desconforto de uma comissão a levar a cabo num local que nos parecia o mais remoto à face da terra. A sensação de abandono que senti quando ali aportei foi sendo mitigada pelos poucos atractivos que fui descobrindo.
A proximidade do rio, as amizades que se foram cimentando e a habituação paulatina ao local, construíram um novo modo de vida que minimizava as agruras da missão espinhosa que nos atirou para aquele pedaço inóspito da imensa África selvagem.
Hoje, passado tanto tempo, continuo convencido de que as privações por que passei integram certamente uma parte importante das razões que me levaram a dar valor a pequenas insignificâncias, fossem elas as que resultavam das histórias do Administrador Litenda ou dos misteriosos silêncios dos dois agentes da DGS, passando pela boa disposição do Chefe França, acompanhando o sargento Rodrigues da Marinha na sua interminável luta com a cerveja. Depois, eram as partidas de futebol, os serões ocupados em renhidas disputas de monopólio ou intermináveis jogos de king e tudo o mais que se inventava para passar o tempo.
Até um arremedo de programa radiofónico se ensaiou, com recurso a duas pequenas colunas de som que o Vilela desencantou não sei onde e que a sua habilidade para a electrónica fez com que funcionassem. Reparou ainda um velho gira discos avariado que se encontrou nas instalações da marinha e durante algum tempo difundiu-se música pelo aquartelamento. O disco é que era sempre o mesmo que ali não havia onde comprar outros.
A relação com o pessoal do Destacamento de Marinha preenchia boa parte dos momentos agradáveis, a começar pela forma como cada um dos seus elementos se relacionou com a tropa recém-chegada. Foi uma agradável convivência que despertou e fortaleceu amizades, a começar no seu comandante e acabando no marinheiro mais novo - o Ruço - que, com a sua cara de menino, ganhara a alcunha devido à farta e desalinhada cabeleira loura.
Com esta malta, passei algumas aventuras inesquecíveis, desde as incursões de caça, levadas a cabo por quatro inconscientes armados em aventureiros: eu, o Silva, um dos marinheiros (de quem infelizmente não recordo o nome) e o condutor Comandos com um jeito muito especial para fazer coisas impensáveis ao volante do Unimog. Ainda hoje me arrepio quando me lembro de algumas.
Saíamos sempre muito cedo em direcção às chanas do Caxoxo. Aí, quando o sol ainda mal despontava no horizonte, recrutava-se um guia e partíamos à aventura, avançando muito para além de onde terminava a picada, perseguindo a caça numa correria louca através da terra de ninguém.
No fim, com duas ou três peças de caça carregadas, procurava-se o caminho de regresso sem saber para que lado seguir. Era aí que a importância do guia se revelava crucial. Como se tivesse um mapa genético acoplado, avaliava o local, determinava o rumo e com a mão esticada ia indicando o caminho que nos levava direitinhos ao Caxoxo.
Mas também eram aventuras as explorações que se faziam aos meandros do Rio Cuando e aos seus recantos labirínticos, montados no pequeno bote utilizado nos patrulhamentos mais curtos.
Só não deu para andar na lancha. A LDP 210 do Rivungo, de fundo chato e proa basculante, como todas as Lanchas de Desembarque, era a razão da existência de marinheiros em local tão impróprio. Equipada com uma velha metralhadora pesada OERLIKON, tinha por missão o patrulhamento rio abaixo até às imediações do Luiana.
Mas, a manutenção desta simbiose de laços de amizade e rotinas de vivência começou a ser ameaçada.
Primeiro, a comissão do sargento Rodrigues chegou ao fim e regressou a Luanda, deixando o Chefe França sem competidor à altura. Depois, o meu grupo voltou à Neriquinha sendo substituído pelo do Alferes Correia. O Tenente da Marinha foi substituído pelo guarda-marinha Valério que, desde logo, se incompatibilizou com os homens que se supunha dever comandar.
Quando, algum tempo depois, voltei ao Rivungo em missão de reabastecimento, as guerras entre o pessoal da Marinha e o seu novo comandante, tinham atingido o ponto de ruptura, degradando irremediavelmente o ambiente de camaradagem e os tempos bem passados que conhecia.
Mas parece que a quezília não iria durar. Diziam-me que a comissão da maior parte do grupo estava no fim. Dentro de pouco tempo regressariam a Luanda e o Valério que se entendesse com a nova guarnição que estava para chegar.
Não presenciei a história. Os poucos pormenores chegaram-me à Neriquinha, já um pouco requentados. Parece que o Valério, num arremedo de fúria e quando já pouco faltava para o fim da comissão daquele punhado de homens, decidiu levar a cabo uma operação de patrulhamento até ao limite sul da área navegável do Rio.
- Foi só para chatear. Disseram.
Começaram os preparativos, afinaram o motor, abasteceram de combustível, reuniram as rações de combate, olearam e limparam as armas, carregaram munições e o Jorge tratou com desvelo da eficaz Oerlikon. Parece que os turras temiam os efeitos devastadores da metralhadora. Disparava rajadas de projécteis de grosso calibre que explodiam por impacto, varrendo tudo o que aparecesse pela frente.
Com tudo a postos e com uma guarnição contrariada, a LDP começou a descer o Rio, lentamente, em marcha ziguezagueante, aproveitando a corrente, seguindo o curso do rio no seu passeio pela chana imensa até desaparecer das vistas engolida pelos caniçais.
A progressão sinuosa seguiu, navegando lentamente, que mais depressa não podia ser, até onde o Valério entendeu, bem lá para baixo, até que decidiu ordenar as manobras que deram início à viagem de regresso, encetando o mesmo percurso, mas agora rio acima, exigindo um maior esforço do motor para vencer a resistência da corrente.
Durante todo o percurso, havia um único local onde se formava uma espécie de ravina sobre o Rio. Talvez o único barranco em toda aquela região. Era um sítio perigoso, propício a uma emboscada.
Nada aconteceu aquando da ida. Mas, no regresso, de repente, naquele exacto local, caiu sobre a lancha uma saraivada de balas disparadas em rajadas contínuas por um grupo de guerrilheiros emboscado entre as árvores, exactamente por cima do local onde a lancha navegava. Provavelmente já ali estavam, à coca, quando ainda desciam o rio, mas disso ninguém se apercebera.
No meio da confusão, enquanto cada um procurava reagir, teria sido o Ruço, de arma em punho, o primeiro a sair para o convés.
Foi apanhado pelo fogo inimigo que o projectou borda fora, ao mesmo tempo que o Jorge fazia a Oerlikon cumprir a sua missão dirigindo uma resposta eficaz aos atacantes. O efeito devastador das balas explosivas da velha metralhadora, pôs de imediato os turras em debandada, cessando a fuzilaria.
Gerou-se um silêncio pesado e por algum tempo ninguém saiu do local onde estava, ao mesmo tempo que iam tomando consciência do acontecido. Fora tudo tão rápido que nem se aperceberam que, com maior ou menor gravidade, quase todos haviam sofrido mazelas: balas de raspão, arranhões da refrega, uma ou outra entorse, umas quantas nódoas negras, enfim, ferimentos uns mais ligeiros do que outros, mas sem incapacitar ninguém. Apenas o Jorge, por qualquer razão, nem um arranhão sofreu.
Contudo, o Ruço não aparecia. Alguém disse que o vira ser atingido pela rajada e cuspido borda fora.
Enquanto o Jorge agarrado à Orlikon mantendo-a apontada à mata, não tirava os olhos do que quer que se movesse, os outros deitaram-se à procura do companheiro desaparecido. Voltaram para trás, navegaram para jusante depois para montante, revolveram desesperadamente os caniços de um lado e outro. Mas o corpo não aparecia em lado nenhum.
Chamaram, gritaram, podia ter nadado para a margem, ficado atascado na chana pantanosa. Revolveram de novo as margens. Mas nada, em vão. Do Ruço nem sinal.
Interrogaram-se:
Que fazer?
Continuar ali?
Mergulhar?
Mas onde?
E para ver o quê no meio das escuras águas?
Conferenciaram, discutiram, praguejaram e decidiram:
Sair dali nunca! O Ruço, ou o seu corpo, teria de aparecer.
Durante algumas horas por ali andaram. Podia ser que estivesse inconsciente e quando voltasse a si responderia aos chamamentos incessantes.
Não sei quanto tempo por ali andaram. Penso que passaram a noite no local e voltaram às buscas no dia seguinte. Mas o facto é que o Ruço nunca apareceu.
Regressaram cabisbaixos, desolados, amargurados, derrotados, revoltados com o Valério. No momento, foi quem levou com a culpa toda. Afinal fora ele que forçara a operação.
Só falei com eles algum tempo depois, aquando da sua passagem pela Neriqinha a caminho de Luanda, finda a comissão no Cuando.
Aquele grupo de fuzileiros navais que eu conhecera activo, alegre e brincalhão, caminhava cabisbaixo, atravessando a parada em direcção à messe, uns enfaixados, um ou dois de muletas, outros apenas com uns pensos na cabeça, nos braços ou nas pernas, alguns de chinelas, que o pé ferido não tolerava sapatos. Enfim, um cenário desolador.
Ainda hoje retenho a imagem de um grupo que fez parte de alguns bons momentos que passei no Rivungo. Com ar de derrotados, pouco falavam e recusavam dar pormenores sobre a tragédia. Se calhar não tinham pormenores para contar ou então a tristeza misturada com a revolta impedia-os de falar.
Claramente o Ruço fazia ali falta.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O regresso à Neriquinha

Após três meses de estada no Rivungo, chegou a vez de nos mudarmos para a Neriquinha. A regra vigente determinava que cada grupo de combate ali passasse 3 meses. Decorrido esse tempo, seria rendido por outro, este por sua vez pelo seguinte e assim sucessivamente. Só o primeiro pelotão não entrava no contrato. O respectivo alferes era, por inerência, o segundo comandante da companhia. Daí que o alferes Torres fosse o substituto do capitão Cabrita nas suas faltas, ausências e impedimentos. Só não se percebia porque teria de ser exactamente o alferes mais novo em idade e também em antiguidade na tropa. Penso que isso se devia ao facto de o Torres ser o oficial de operações especiais, pressupondo-se ser entendimento de quem definia as regras, que a passagem por Lamego (onde se formavam as tropas especiais) conferia o discernimento e as capacidades que garantiam as necessárias qualidades de comando.
Era mais ou menos óbvio que o Cabrita confiava muito mais no alferes Fausto do que em qualquer outro dos quatro alferes da companhia. Aliás, teria sido essa a razão pela qual o meu pelotão foi escolhido para a primeira comissão no Rivungo. Ficava distante da Neriquinha e importava que ali estivesse alguém de confiança e com capacidade de liderança e o Fausto demonstrara bastas vezes que as possuía todas, ou quase.
Na verdade, não creio que, por ser o pelotão dos homens das operações especiais (o alferes Torres e o furriel Peixoto) fosse justificação para a sua permanência a tempo inteiro junto do comando da Companhia. Nunca me apercebi da existência de razões especiais que justificassem a atribuição da responsabilidade desta ou daquela operação a este ou àquele grupo e consequentemente a este ou àquele alferes, pelo facto de ser ou não especialista em operações especiais. Cada um alinhava de acordo com as ordens do Capitão ou segundo uma escala que se regia pelo seguinte princípio:
- Da última vez fui eu, agora vais tu.
De qualquer forma, também não me recordo de alguma vez alguém ter questionado a regra ou a ordem de marcha para o destacamento. Aliás, na tropa, não era aconselhável discutir decisões superiores e parece-me que, por esta ou por aquela razão e ainda por mais aqueloutra, quase todos preferiam o Rivungo à Neriquinha.
A outrora Santa Cruz do Cuando oferecia vários atractivos a que se podia acrescentar a vantagem de haver pouca probabilidade do Comandante de Batalhão aparecer por ali, o que não era razão de somenos importância. É que, o comandante Mendonça não era flor que se cheirasse e não me lembro de ter ouvido, em toda a comissão, uma única palavra de lisonja ao homem. Por ali apenas uma vez ou outra aparecia o comandante da companhia. Mas o capitão Cabrita não era homem de chatear sem motivo e não me parece que a notícia da sua visita fosse razão para pôr o pessoal em alvoroço.
O facto é que criei ali amizades e algum apego ao local. As agruras da missão eram suavizadas pelas rotinas criadas e a tendência para as quebrar apimentava a monotonia. Ao fim e ao cabo, tudo contribuía para que os dias passassem sem contratempos, relegando a angústia para segundo plano.
Na verdade, a transição de cada dia para o seguinte, era muitas vezes suavizada por ninharias.
Uma partida de Monopólio planeada para as instalações da Marinha, era suficiente para, muitas das vezes, contribuir para uma noite bem passada, onde uma equipa de jogadores, numa espécie de vício saudável e usando dinheiro de brincar, se desunhava pela compra de mais um prédio na Avenida da Liberdade ou na dos Aliados, seguindo-se a construção de mais um hotel virtual numa das ruas linearmente desenhadas sobre a cartolina, ali transformada em urbanização de ficção.
Certa noite, por ocasião da sua visita de acompanhamento religioso das tropas do batalhão, o alferes Capelão integrou um grupo de gente adulta e responsável (eu, o alferes Fausto, o tenente da Marinha e o Silva) que se manteve entretido até altas horas da Madrugada, num empolgante jogo de monopólio onde cada um procurava enriquecer o mais possível, levando os outros à falência. O vencedor só veio a ser declarado já sobre a madrugada, sem que alguém tenha dado pelo tempo passar ou se tenha sequer preocupado com isso. Não havendo nada de especial planeado para o dia seguinte, o tempo não contava. Desde que passasse sem se dar por ele, tudo estava bem.
Mas o Rivungo tinha ainda outras coisas. Por exemplo, o Rio Cuando. Ter tanta abundância de água, mesmo ali à mão, num sítio que não dispunha de água canalizada, não era propriamente algo a que não se desse importância. Para além do mais, podíamos mergulhar, dar uns passeios de bote e aventurarmo-nos em incursões nocturnas pelos seus meandros à caça de jacarés bebés. Com cuidado porque, mesmo minúsculos, se conseguissem apanhar um dedo entre os seus afiados dentes, não o deixavam em boas condições.
Enfim, aventuras que a juventude transformava em excitação, relegando privações para segundo plano.
Também não posso esquecer a sempre bem-vinda companhia do chefe França com a sua permanente boa disposição e laracha na ponta da língua. E o administrador Litenda, com mais uma história serôdia de feitos africanos, ou descrições de grandes caçadas e de explorações pelos recantos da savana profunda, onde não faltava a referência à sua especial destreza para conduzir por caminhos inexplorados ou impossíveis. Coisas difíceis para condutores normais. Não para ele.
- Nunca tive um acidente. Alardeava com frequência.
É verdade! Ainda não partira e já começava a sentir saudades. Mas apenas porque o destino era a Neriquinha. Se a opção fosse o regresso ao puto, tudo seria diferente e como mais tarde ficou demonstrado, a saudade daquele lugar foi mandada às urtigas. Hoje são apenas recordações.
Havia ainda a preocupação com a cadelita que adoptámos como mascote. Déramos-lhe o nome de Riquinha, numa espécie de alusão à sede da companhia. Era ainda pequenita, tropeçando amiúde, em resultado do pouco domínio que tinha das tenras patas. Rebolava por aqui e por ali e entretinha-se mordiscando as botas de cada um, ou saltitando à procura de um afago.
- Levamo-la connosco! Sentenciou o alferes Fausto.
Pela hora do almoço, ou pouco antes, chegaram duas berliets vindas da Neriquinha. Carregavam mantimentos, cerveja, tabaco e o grupo que nos renderia, exactamente aquele a que pertencia o meu amigo Gonçalves.
Seguiu-se a transferência das responsabilidades, dos stocks e equipamentos, fizeram-se as apresentações, incluíram-se recomendações, avisos e indicações de quem já dominava o espaço e arredores. Um último mergulho no rio e de novo com as poucas tralhas pessoais a tiracolo, rumámos de volta à sede da companhia, encavalitados no desconforto das berliets. Connosco seguia a cadelita, fazendo a maior viagem da sua vida.
Nem olhei para trás. Francamente, não me pareceu um adeus. Afinal, para além de não ter havido tempo de criar raízes, as saudades daqueles sítios não faziam parte dos nossos sentimentos. De qualquer forma, haveria de ali voltar, muitas vezes e mais uma comissão de três meses. Sim, regressava à Neriquinha, mas continuava a preferir o Rivungo.
Só não me passou pela cabeça que só voltaria a ver o Zé Maria, fugazmente, apenas mais umas duas ou três vezes.