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sábado, 8 de novembro de 2014

Barragem das MABUBAS, 2014


















Estas fotografias, são do actual estado da Barragem das Mabubas, recuperada pelos chineses e em cujas margens vão ser implantados alguns complexos turísticos. 2014.

sábado, 1 de novembro de 2014

Caçada nocturna

Já por diversas vezes me referi à riqueza da fauna que me habituei a ver deambular pelas imensas planuras do Cuando Cubango. A flora era escassa, o que se compreende; no meio daquele quase deserto matizado de chanas alagadiças, pouca coisa medrava. Contudo, era um verdadeiro paraíso para os animais de grande porte, a julgar pela quantidade e variedade que por ali havia. Aquele bocado de savana, definido pela faixa que vai do Rio Cuando até à chanas do Utembo, terreno maninho e semi-pantanoso que aprendi a conhecer por corresponder à área de actuação da companhia, era habitado por manadas de búfalos, de songues, de gungas, de guelengues e outras espécies onde se contavam as elegantes palancas, os simpáticos antílopes de várias espécies, os rezingões porcos do mato sempre de rabo no ar como se uma antena se tratasse e até coelhos, para só falar de alguns.
Bastava percorrer alguns quilómetros que mais cedo ou tarde os encontraríamos, especialmente nas imediações das chanas húmidas onde a erva permanecia verde e fresca mesmo quando a ausência de chuva transformava tudo em volta num imenso mar de palha seca. Assim, para compensar o magro orçamento que não permitia refeições de bifes de carne de vaca, faziam-se incursões periódicas à caça de carne fresca. Abatiam-se dois ou três animais que a perícia do Ferreira reduzia a bifes, bastando acrescentar-lhes os temperos e correspondente acompanhamento para o Morais compor o rancho, compensando assim a insuficiência de verba. Mas isso era no Cuando Cubango onde a pasmaceira reinante por falta do que fazer, tornava interessante palmilhar a imensa savana à caça da melhor peça. A gunga, por exemplo, espécie de antílope de grande porte, permitia fazer uns bifes que em nada ficavam a dever à melhor vitela.
Mas, nas Mabubas, nunca poderia ser assim. Desde logo porque a variedade não era tanta e o acidentado do terreno não motivava ninguém a aventuras de caça, não conseguindo ser alternativa à vida regrada que a animação social ia propiciando. Havendo muito por onde entreter o tempo a sedentarização ganhou espaço, os dias de pasmo deram lugar a uma intensa vida social e a aventura deixou de interessar. Mas, ainda assim, sabia-se que a mata que bordejava a imensa albufeira da barragem albergava algumas famílias de pacaças, bovídeo corpulento cuja carne se dizia não ser desagradável.
Ora, pacaça era bicho que ninguém da companhia alguma vez tinha visto e isso espicaçou a curiosidade. Isso e provavelmente as recordações das grandes aventuras em que se tornavam as idas à caça na grande savana de onde viemos. A ajudar, tínhamos à carga um barco zebro, destinado ao patrulhamento da barragem, com dimensão suficiente para transportar uma equipa de caça e trazer na volta os bichos que se deixassem apanhar.
Assim sendo, certa noite, reuniu-se um pequeno grupo decidido a aventurar-se na escuridão dos meandros da albufeira e que, tanto quanto me lembro, integrava o Capitão, o Gabriel - que para além do seu mais que demonstrado gosto por aquele tipo de aventuras era o responsável pela manutenção do zebro – e ainda, porque era preciso alguém que conhecesse os segredos daquela imensidão de água, o Sr. Tomé responsável pela barragem e o seu ajudante, o Gasolina, negro corpulento que conhecia tudo por ali.
Carregaram uma bateria a que ligaram firmemente um projector e lançaram-se à aventura fazendo o zebro deslizar devagar rasgando as águas adormecidas da barragem. O Gabriel levava a G3 aperrada, o Gasolina segurava a bateria garantindo alimentação permanente do farolim com o qual o Sr. Tomé ia varrendo a mata circundante, esquadrinhando cada recanto com o foco luminoso do improvisado projector. Não demorou muito até que a luz intensa, perfurando a noite, descobrisse os olhos brilhantes de duas pacaças que encadeadas pela intensidade da luz nem se moveram tornando-se em alvo fácil que dois tiros certeiros deitaram ao chão.
O problema agora era carregar os animais corpulentos no Zebro, coisa que não parecia ser fácil. Apontaram à margem e aceleram a fundo para que a proa do barco galgasse a margem rampante na esperança de que ali se imobilizasse. O zebro ganhou velocidade seguindo o túnel luminoso do farolim e exactamente quando se aproximava da margem, embateu violentamente num tronco submerso escondido na escuridão das águas, logo abaixo da superfície. O barco estacou repentinamente travado pelo inesperado obstáculo. Abanou violentamente desequilibrando os passageiros que, agarrando-se conforme puderam, evitaram cair à água.
Todos, excepto o Gasolina que, talvez entendendo que era importante não largar a bateria, a agarrou firmemente ficando sem hipótese de se segurar. Desequilibrou-se e caiu borda fora levando consigo a bateria cujo peso o empurrou para o fundo da barragem. Momentaneamente, no meio da escuridão, apenas deram pela falta do Negro sem que, no meio da confusão, alguém soubesse exactamente onde caíra. Fizeram incidir o halo de Luz do projector sobre a superfície das águas abruptamente tiradas da sua quietude, esperando que a todo o instante emergisse. Mas, pelos vistos, não foi isso que aconteceu embora o farolim continuasse aceso.
Foi então que o Sr. Tomé, como que inspirado na lenda de Ariadne, trazendo para realidade a fantasia mitológica, seguiu o fio que desaparecia nas escuras águas. Debruçou-se sobre a borda, esticou os braços, agarrou o seu ajudante pelo cabelo e puxou-o vigorosamente para a superfície. O Gasolina emergiu, sorvendo sofregamente o ar e, nunca largando a bateria, esperou que o ajudassem a subir para bordo, escorrendo água e arengando qualquer coisa à laia de justificação.
Com muito custo e permanente adornar do barco, carregaram as duas pacaças de cujo destino pouco recordo. Sei apenas que uma foi direitinha para o refeitório enquanto a outra foi transformada em petisco. Creio que, nas Mabubas, toda a gente comeu um bocado do churrasco em que se transformou aquela massa enorme de carne fresca.

sábado, 1 de março de 2014

Os crocodilos da barragem

Continuo a não resistir à tentação de comparar as terras-do-fim-do-mundo com o quase paraíso que era agora a nossa nova morada. Naquele fim de mundo, era a aridez da savana que afogava a Neriquinha em calor, pó e muito de coisa nenhuma em contraponto com o lenitivo deste pequeno recanto abraçado à civilização e temperado pelas águas mansas da sua imensa barragem. E como se isso não bastasse, lá faltava tudo e até a água tinha de ser sugada de um furo dependente dos humores do pequeno gerador, enquanto aqui, disfrutava-se da abundância de água canalizada, com abastecimento garantido pela inesgotável albufeira de água cristalina. No degredo da savana, a electricidade vinha aos empurrões saída de geradores cansados, movidos a gasolina, enquanto aqui havia energia com fartura garantida permanentemente pela força das turbinas mantidas em funcionamento por um inesgotável manancial de água que, submissa, se aquietava acima do paredão.
A existência das Mabubas deve-se, seguramente, à barragem. Construída no exacto local onde o rio Dande estreitava espremido no fundo de uma garganta rochosa, aprisionou as águas que rapidamente encheram a grande albufeira, cobrindo toda uma extensa área de mato que desapareceu submerso naquela imensidão de água que invadiu cada pequeno recanto, cada vale ou simples depressão, trepando pela encosta, engolindo árvores, empurrando a fauna encosta acima, ao mesmo tempo que, formando um novo habitat, passou a acolher uma grande variedade de criaturas aquáticas onde se incluiam crocodilos que aos poucos, embora não se deixassem ver, se foram instalando. Simultaneamente, as cascatas que, segundo se diz, por ali existiam e que terão dado nome ao local – mabubas, é o termo em quimbundo que significa isso mesmo - desapareceram abafadas naquela imensidão líquida.
Nunca me deu para explorar a albufeira ou então andei distraído e não soube aproveitar uma das muitas oportunidades para o fazer. Sei, porque se dizia e quem conhecia garantia, que a viagem de bote, seguindo a direito desde o paredão até à embocadura do rio, levava bem mais de uma hora e explorar todos os recantos, enseadas e recortes era tarefa para levar dias, dependendo das voltas que se dessem. Do meu ponto de vista, os verdadeiros conhecedores, aqueles que dominavam todos os segredos, todos os recantos, meandros e esconderijos daquele imenso lago artificial, seriam certamente o Sr. Tomé e o Gasolina, seu homem de confiança. O Sr. Tomé tinha um barquito, uma pequena canoa a que eufemisticamente dera o nome de “Foz do Arelho”, certamente em memória da sua terra natal onde ainda vive segundo julgo saber. Era no “Foz do Arelho” que fazia as inspecções à barragem, que se aventurava em caçadas nocturnas às pacaças e se dedicava à pesca, lançando as suas redes onde, certa vez, um crocodilo se deixou enlear morrendo afogado. É verdade, os crocodilos podem morrer afogados se forem impedidos de emergir.
Crocodilos, como se sabe, era bicho que abundava nas chanas do Cuando, lá para os lados do Rivungo. Mas aí, eram conhecidos por jacarés. Aos que habitavam a barragem, chamavam crocodilos. É verdade que crocodilos não são jacarés e estes não podem ser chamados de crocodilos, sendo certo que nunca me deu para tentar perceber a diferença. Seja como for, o facto é que me habituei à ideia de que, fossem eles elegantes crocodilos ou poderosos jacarés, uns e outros, abundavam onde houvesse água e isso era coisa que não faltava num lado e no outro. Aqui, aprisionada pelo amplexo da barragem; lá longe, livre e pachorrenta, passeando-se pelos sinuosos meandros do grande rio, espraiando-se pelas chanas pantanosas, apoderando-se de grandes extensões daquelas imensas planuras, cortando caminhos e picadas mas pincelando de verde aquelas paisagens agrestes. Quanto aos ditos bichos, ainda hoje não sei se os do Cuando, chamados de jacarés, o eram de facto ou se estou a cometer uma gafe aceitando que os da barragem eram crocodilos. Por mim, prefiro outras companhias, já que aqueles que conheci nas chanas pantanosas do Rivungo nunca me pareceram amistosos.
De qualquer forma, esse mundo selvagem, hostil mas de beleza feérica, ficara para trás, lá bem longe, perdido na savana e era certo que nunca mais para lá voltaríamos.
A realidade agora era a paz das Mabubas com todo aquele fulgente lençol de água a perder de vista: era fresca, tinha peixe que permitia um entretém relaxante, verdadeiro refrigério de ressacas ou maus humores, um passatempo para quem não tinha com que se entreter. Até eu, que nunca consegui arranjar paciência para a pesca, cheguei a munir-me de uma cana improvisada, atei-lhe uma linha e num domingo à tarde, sem nada para fazer, lancei umas duas ou três vezes o anzol e fui dando que fazer à paciência por umas horas. Não pesquei coisa nenhuma, verdade seja dita e apenas a cavaqueira com os parceiros de ocasião acabou por ser o único proveito que obtive.
Dos crocodilos das Mabubas pouco se sabia e creio que muitos nem se aperceberam de que os havia. Mas o ZIP ficou com a certeza de que tais bichos andavam por ali e de tal forma que, creio, nunca mais se esqueceu disso. O Marcelino era um soldado condutor, baixote, um tanto ou quanto franzino, a quem, por razões que não retenho, todos chamavam de Zip Zip, epíteto que se lhe colou de tal forma à pele que, ainda hoje, mais de quarenta anos volvidos, continua a sobrepor-se ao seu nome de baptismo do qual poucos se lembrarão.
Pois bem, o Zip inscreveu-se e participou numa prova de natação integrada num conjunto de eventos que preparámos para comemorar o aniversário da companhia. Não sei se se dispôs a ganhar a prova, mas o facto é que se aplicou, num esforço estrénuo, em braçadas vigorosas, rodando a cabeça ao ritmo das braçadas, de um lado para o outro, num estilo próprio de quem aprendeu a manter-se à tona deixando a técnica para depois. E naquele afã de quem procura medir a distância e avaliar quanto faltava para a meta, descortinou algures lá para trás a cabeça de um crocodilo aflorando a superfície reluzente da água.
O redobrado vigor que imprimiu às braçadas não deixou margem para dúvidas: o Zip deduziu que o bicho o perseguia. Provavelmente imaginando-se a ser abocanhado, reuniu as forças que lhe restavam, sacou do seu melhor crawl e num ápice alcançou a margem. Ofegante com os bofes a saltarem pela boca, mas na segurança de terra firme, olhou para trás como a querer certificar-se se de facto fora mais rápido que o bicho. Mas este desparecera.
Ainda hoje, desconfio que o crocodilo nem chegou a esboçar qualquer ataque. O bulício circundante afugentara-o naturalmente e submergiu desaparecendo nas frescas águas. Se calhar, nem deu pela presença do Zip; ou então, terá decidido que era coisa que não justificava um esforço.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Brincadeiras de miúdos

A nossa estada nas Mabubas corria de feição. Na verdade corria tudo tão bem que quase já ninguém se lembrava das agruras passadas na Neriquinha e na aridez da savana que a circundava. Mas isso era apenas ilusão. Aqueles tempos marcaram-nos, colaram-se-nos à pele, encafuaram-se nos escaninhos da memória de forma tão intensa que bastava qualquer coisa insignificante, mesmo que nada tivesse a ver com aquilo, para que as imagens daquelas areias escaldantes e daquelas gentes, saltassem do patamar mais fundo do baú de memórias para a superfície, desembrulhando-se em imagens coloridas que, sobrepondo-se à nossa quotidiana vontade, impunham a sua presença.
Nas Mabubas havia miúdos, como em qualquer lugar. Uns pretos, outros brancos, uns quantos mais reguilas que outros, uns mais pequenos e outros mais crescidotes, mas todos alegres, vivaços, umas vezes rindo outras chorando, mas felizes e irrequietos como naturalmente são os miúdos. Perante a sua natural algaraviada, veio-me instintivamente à memória a imagem dos putos da Neriquinha: todos eles pretos, nus, descalços, sujos, ranhosos e deserdados da sorte, mas igualmente alegres, irrequietos e felizes com a vida que tinham, até porque não conheciam outra.
Qualquer coisa lhes servia para preencher o seu imaginário mundo de fantasia, os seus entreténs e brincadeiras; os da Neriquinha com meios mais limitados e estes, os das Mabubas, naturalmente com acesso a outras coisas, variando os passatempos em função do que, quer uns quer outros, conseguissem arranjar. Aqueles, lá nos confins da savana, via-os brincar com as pequenas coisas que encontravam na mata, aos quais, aos poucos, foram juntando os artefactos que, com a chegada da tropa, foram aparecendo como novidades a que naturalmente não resistiam. Em contraponto, estes, os das Mabubas, embora não desdenhando coisas semelhantes, acrescentavam-lhe os brinquedos comprados nas lojas a que tinham acesso e que, lá nos confins do território, não existiam.
Mas vamos ao que interessa. Para um miúdo, qualquer coisa, mesmo que insignificante ou inútil, serve os propósitos de uma brincadeira: de uma meia fazem uma bola, uma lata dará um potente carro, a imaginação fará de um qualquer pau uma poderosa excalibur e uma simples caixa de cartão pode perfeitamente fazer a vez de um castelo. Nas Mabubas, um dos putos entre os demais, resolveu fazer isso mesmo. Encontrou uma caixa de cartão suficientemente grande, imaginou-a o seu castelo e meteu-se lá dentro entretendo-se, no seu mundo de fantasia, a congeminar planos de governo e estratégias de defesa de torreões virtuais.
Não sei se apenas se meteu dentro da caixa no exacto lugar onde a encontrou ou se decidiu ser aquele o melhor local para instalar a fortaleza, ali, mesmo no meio da rua, mais ou menos antes da curva que antecedia o último troço que levava ao paredão da barragem, por alturas das oficinas auto.
O trânsito era raro, quase inexistente. Os carros, militares ou civis, apenas eram utilizadas quando fosse estritamente necessário, onde não se incluía cirandar pelo povoado e, talvez por isso, a natural irresponsabilidade infantil daquela como de todas as crianças, não encerrava, naquele caso, um perigo iminente. O mais certo era fartar-se da brincadeira e, mais cedo do que se poderia pensar, abandonaria a fortaleza de cartão antes que um carro, por qualquer razão inesperada, por ali circulasse. E mesmo que tal viesse a acontecer, o tamanho da caixa era suficientemente grande para poder ser avistada ao longe por qualquer condutor. De facto, estar a brincar no meio da rua, naquela rua, não era perigo que causasse alarme ou preocupação de maior.
Mas, (há sempre um mas) as coisas não correram assim. Sendo o trânsito quase inexistente, contudo, havia viaturas nas Mabubas e não apenas as da tropa como acontecia na Neriquinha. E circulavam, pouco, mas circulavam. Cada família tinha o seu carro e havia ainda o Land Rover que diariamente o senhor Tomé, responsável pela Barragem, utilizava sempre que descia à central localizada a jusante do paredão, até porque, para lá chegar, haveria que percorrer um íngreme caminho que, descendo pela encosta, morria frente ao edifício da central construído à beira do rio que ali recebia as águas que, chutadas pelas pás das turbinas, eram de novo devolvidas ao rio que as acolhia num marulhar de boas vindas.
Naquele fim de dia, ao volante do Land Rover, o senhor Tomé regressava exactamente da central depois de lá ter passado toda a tarde na sua função de responsável máximo pelo perfeito funcionamento de toda aquela maquinaria. Subiu a encosta, atravessou o paredão e sem pressa, que o tempo não urgia, galgou o pedaço de rua que subia até à curva onde o miúdo se entretinha fora das vistas de quem por ali passasse.
Para o senhor Tomé, aquilo que se lhe deparou não passava de uma simples caixa de cartão, um pouco grande, mas não mais do que isso. Mentalmente questionou-se sobre o local pouco próprio para alguém largar tal coisa. Certamente estaria vazia, terá pensado, admitindo, por simples razão de lógica, que qualquer coisa a empurrara para ali. Provavelmente o vento, não obstante não se lembrar de o ter sentido soprar em todo aquele tórrido dia que nenhuma aragem fizera refrescar.
Continuou a direito decidido a passar-lhe por cima. Era de cartão, o Land Rover facilmente a esmagaria e, assim sendo, mesmo que continuasse no meio da rua já não seria obstáculo. Encarregaria depois o Gasolina, um negro taludo, seu subordinado, um pouco o faz tudo por ali, de a ir retirar. Afinal, que importância tinha uma simples caixa de cartão? Avançou, sempre a direito, naquele vagar embalado pelo som rítmico e indolente do motor do Land Rover, pensando mais num quase nada de tudo e menos naquela caixa que inexplicavelmente se mantinha imóvel à sua frente.
Contudo, quase no último momento, quando faltava para aí uma escassa meia dúzia de metros para o embate, uma espécie de sexto sentido, um sinal, um quase impulso gritado silenciosamente pelo seu bom senso, fê-lo rodar ligeiramente o volante levando a carripana a passar de lado quase roçando a caixa, mas sem lhe tocar.
Quando ficou lado a lado, olhou instintivamente para dentro da caixa. O miúdo, sentado lá no fundo, entretido com as suas brincadeiras, mirou-o com um sorriso gaiato como se lhe dissesse: - gostas do meu castelo?
O sangue, como que se lhe gelou nas veias, o coração quase parou para de seguida sair disparado num bater alucinado de quem acaba de apanhar o maior susto da sua vida. Parou perto de nós, saiu do carro lívido e com voz trémula, titubeou: - Quase matava o miúdo!
Não foi nada comigo, mas ainda hoje, evito passar por cima de qualquer coisa que me apareça no meio da estrada.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Descobrindo as Mabubas

Quando retornei à minha novel e confortável acomodação, depois daquele jantar de reconciliação com a civilização, estendi-me ao comprido e só acordei no dia seguinte o sol ia já bem alto. Dormi que nem um justo que é como quem diz, com força. O corpo assim o exigiu e nem sequer esbocei o mínimo gesto para o contrariar. E para quê fazê-lo se o efeito devastador dos últimos cinco dias passados naquela interminável e esgotante viagem à torreira do sol, sem ter dormido de jeito uma só noite, exigia reparação adequada? O banho revigorante, o lauto jantar e o conforto fofo da cama compuseram o lenitivo final. Se a tudo isto juntarmos o sossego e o recato do quarto que as portadas das janelas fechadas protegiam da luminosidade daquele sol sempre madrugador e a ausência do normal reboliço de uma camarata, compreende-se melhor o despertar tardio, pelo menos fora daquilo que era suposto serem os horários militares. O facto é que, sem nada que viesse interromper o sono, o descanso acabou por se prolongar para além da hora regulamentar. Na Neriquinha isso seria impossível; dormindo todos na exígua camarata, acordar cedo era coisa perfeitamente natural e inevitável, por oposição a estas novas instalações que, localizadas fora do núcleo central da urbe, garantiam sossego total.
Levantei-me, fresco e quase recuperado. Vesti a farda de serviço, passei pela messe, engoli um naco de qualquer coisa a título de pequeno-almoço e cuidei de saber das ordens que regeriam o novo dia das nossas vidas. Coisa inútil e desnecessária, já que, na tropa, espera-se que alguém dê as ordens, não se anda, feito otário, à procura delas. Mas, como é óbvio, precisava saber se tinha ou não liberdade para matar a curiosidade e descobrir tudo o que por ali havia, especialmente a barragem de que tanto ouvira falar.
Mabubas era assim como um bocadinho do céu no meio daquele imenso território. Existia e crescera por efeito da barragem hidroeléctrica que dominava tudo o que antes fora uma parte do extenso vale do rio Dande e albergava ainda a Companhia de Cerâmica de Angola (CCA). A primeira, produzia electricidade e a segunda, loiça sanitária, fábrica que, se não era a única do género, era seguramente a maior da então província de Angola. Consequentemente, a maioria dos habitantes daquela interessante comunidade ou eram funcionários da barragem ou técnicos e operários da fábrica de cerâmica e correspondentes famílias. Um restaurante, uma mercearia e uma sala de cinema, compunham o resto, coisas que, onde vive gente, acabam sempre por aparecer.
A parte interessante foi confirmar que ali não havia quartel. Pelo menos daqueles a que sempre nos habituámos, muralhados e dotados de guaritas e porta de armas com sentinela e tudo, como era o caso do quartel do Caxito ali bem pertinho, cuja fortificação me chamara a atenção quando por lá passámos no dia anterior a caminho deste nosso novo recanto. Estranhei de facto e não era para menos, até então, habituara-me a que a tropa, estivesse onde estivesse, ficava sempre confinada a uma área específica, normalmente delimitada por muros ou arame farpado. Mas não ali, nas Mabubas, as instalações da tropa estavam dispersas por toda a localidade à mistura com tudo o resto, ocupando as casas, os barracões, as arrecadações e armazéns disponíveis.
Da estrada que, proveniente do Caxito, seguia para norte em direcção a Quicabo e a Nambuangongo, nascia o troço de estrada descendente que penetrava localidade adentro. Interrompido à entrada por uma cancela basculante, espécie de checkpoint para controlo de quem chegava, transformava-se, a partir daí, na rua central que, dividindo a urbe ao meio se prolongava até morrer à entrada do paredão da barragem. Quem entrava, logo a seguir ao posto de controlo, encontrava, do lado esquerdo, o barracão do cinema e logo abaixo, à direita, o bar restaurante. A partir daí, uma correnteza de casas de cada lado dava aquele ar aconchegante e familiar de aldeia. Do lado direito, construídas ao comprido, acompanhando a rua e com telhado comum, contavam-se quatro casas cada uma com o seu alpendre; a primeira era, de facto, a residência de um trabalhador da cerâmica e sua família. Contudo, entre esta e a do Sr. Almeida, funcionário da barragem, ficava a messe de sargentos, ali metida no meio. A messe de oficiais ocupava a quarta e última da correnteza, com vista para a parada, frente ao edifício do comando. No lado esquerdo da rua, emparceirando com as outras, quatro casas idênticas compunham a moradia de outras tantas famílias.
Esta agradável anarquia, contrária ao rigor e organização de todas as instalações militares que conheci, verificava-se em tudo o mais; frente ao edifício do comando, no outro lado da praça, nascia uma escadaria que levava à cantina e, nas imediações, a camarata dos soldados, a cozinha e o refeitório. Noutro espaço, do lado esquerdo quem desce, ocupando outro barracão, ficavam as oficinas auto e no lado direito, o posto médico dava início a uma correnteza de moradias, uma das quais passou a ser residência do capitão e outra a do médico, conferindo dignidade às correspondentes funções. Finalmente, depois de uma curva e ao fim de uma suave descida a rua terminava dando lugar à passagem sobre o paredão da barragem, que levava ao outro lado.
Venci os últimos metros da rua e sem pressa atravessei o paredão admirando aquele enorme lençol d´água. Instintivamente dirigi-me para o pequeno miradouro que, no outro lado, prometendo uma vista privilegiada sobre a paisagem, parecia chamar quem chegava.
Subi, e de lá de cima estendi a vista sobre a paisagem envolvente. A montante, a enorme albufeira reflectia, qual espelho, os raios do sol faiscando múltiplas cores na superfície reluzente. A jusante, lá ao fundo, após se despenharem pelo declive do paredão, as águas corriam saltitantes ao longo do vale, aquietando-se hesitantes aqui e ali, para depois seguirem o curso natural do rio numa obediência submissa em direcção ao mar.
Fiquei por ali sem consciência do tempo e esquecido de tudo o mais. Apostei comigo mesmo que os maus bocados tinham definitivamente ficado nas terras-do-fim-do-mundo. Naquele momento, convenci-me de que, por fim, a sorte nos sorria; as Mabubas podiam não ser o paraíso na terra, mas perante a lembrança do degredo da Neriquinha, quase o parecia.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Caça

Durante a comissão na N'Riquinha, das coisas que mais me agradavam, uma delas era a caça. Largas dezenas de noites à caça, sem contar com os dias carregados de sol e chuva, permitiram-me passar o tempo de uma forma mais agradável e sem as chatices de estar fechado no quartel à espera do amanhã, que nunca mais chegava. O que eu queria era...rua!
Na verdade, tais surtidas, permitiram variar e aumentar as doses de carne a que cada um tinha direito. Palancas, (reais...que crime!) Nunces, Cabras do Mato, Gungas, Gnus, Caixotes e outras variedades de animais cujos nomes hoje me passam, serviram para ajudar nas contas do Furriel Vago-Mestre Morais e o 1º Sargento Pinto.
Uma vez, já nas Mabubas, na bacia da Barragem, saí à caça no barco, um Zebro com capacidade para uma dúzia de militares, que a Companhia tinha para patrulhar o Rio Dange. Com um civil, o Sr. Tomé, responsável pela Barragem das Mabubas, a farolinar, o Gasolina (encarregado de abastecer os motores e viaturas da SONEFE) com a bateria ao colo, o Lobato ao leme, o padeiro e o Zip no apoio, lá saímos ao cair da tarde.
Foi um dia de sorte: matei duas Pacaças enormes, com três tiros apenas.
O pior foi depois. Uma, a que estava à beirinha, foi carregada de imediato para dentro barco, com muita dificuldade, já que este tendia a afastar-se da margem em consequência dos empurrões ao bicho para galgar a amurada. A outra, porque se encontrava um pouco mais afastada e era maior, exigia que o barco ficasse meio apoiado em terra para facilitar o carregamento. Para isso, o melhor era dar-lhe alguma distância da margem e ganhar velocidade, colocando-o meio na água meio na terra. O pior é que, por debaixo da superfície da água e invisível aos nossos olhos, estava um tronco de árvore escondido onde a quilha do barco bateu com grande estrondo. Com aquela paragem violenta, para além de todos ficarmos estendidos no chão do Zebro, o Gasolina caiu à água, arrastando a bateria que tinha ao colo e que alimentava o farolim que nos permitia ver naquela escuridão. Desapareceu, por ali abaixo. O Sr. Tomé, sem largar o farolim da mão, acompanhou a descida lenta do Gasolina em direcção ao fundo e com o corpo já meio dentro da água, apanhou-o pelos cabelos e puxou-o, com a ajuda do Lobato, até ter a cabeça fora da água. Içámo-lo para dentro do barco e tudo se normalizou. O Gasolina, apesar da queda, nunca largou a bateria e nunca o farolim ficou sem energia. Foi o herói do dia!
Quanto às Pacaças: uma foi para a cozinha da Companhia e lá se foi comendo. A outra, derreteu-se numa farra no largo da casa do Capitão, com os civis das Mabubas.
Foi uma forma de homenagearmos a Esposa do Capitão Cabrita que, de férias na Metrópole, tinha ido passar uns dias a Angola.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

MABUBAS


Não, ainda não é tempo de começar a contar histórias sobre as Mabubas. Essa é a parte final da saga.
Mas, ando a acompanhar um blog, mantido diariamente por um engenheiro que actualmente trabalha em Angola. Não é do nosso tempo, anda ainda na casa dos 30, mas escreve histórias do quotidiano de Angola. Algumas delas trazem recordações que levam a pedaços da nossa passagem por aquelas paragens.
Um certo dia, o Afonso Loureiro, contou sobre um passeio que fez à Barra do Dande.
Não resisti e num comentário feito nessa história, desafiei-o a andar um pouco mais e ir até às Mabubas.
Fez-me uma surpresa. Foi lá, tirou fotografias, contou a história do que viu e publicou tudo.
Recomendo a leitura. E também, o comentário do Pedro Cabrita que explica por que desapareceu a água da barragem.
O endereço da história é:

http://afonsoloureiro.net/blog/?p=2410

E para quem quiser ver a desolação total, está disponível no Google Earth. Vejam:

http://maps.google.com/maps?q=-8.532+13.696+(Mabubas)&t=k&hl=en&ie=UTF8&ll=-8.534351,13.697698&spn=0.00452,0.006609&z=17&iwloc=addr