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quinta-feira, 1 de março de 2012

Carraças no Demba

A savana do Cuando Cubango é uma autêntica exibição da natureza selvagem. Por um lado, inóspita, hostil e traiçoeira e por outro, deslumbrante, luminosa e exuberante, abrindo-se em espaços imensos de uma beleza muito própria e difícil de descrever. Por ali não existem montes ou vales, a vegetação é escassa e pobre e as árvores, de pequeno porte e espaçadas, parecem encolher-se aos rigores de um clima dominado por um sol inclemente que nos fritava os miolos e trespassava sem dificuldade a timidez da folhagem miudinha que apenas conseguia coar, aqui e ali, a luz forte, semeando desordenadamente alguma sombra pelas imensas planícies da savana, sem qualquer efeito apaziguador no calor dominante.
Cumprindo, então, a segunda comissão de três meses no Rivungo, fui incumbido de executar uma pequena missão de patrulhamento que visava percorrer o troço de mata de pouco mais de dezena e meia de quilómetros, que começava nas margens do Cuando, a norte da missão de Santa Cruz, e acabava no Demba, último kimbo no trajecto que ligava a Neriquinha ao Rivungo.
Para o efeito, contava com meia dúzia de homens e, como guia, um sipaio dispensado pelo administrador Litenda, ajuda preciosa e necessária, já que a zona a percorrer não tinha trilhos ou outros pontos de referência que permitissem a utilização dos mapas do terreno. E isso tornou-se óbvio logo que saltámos do Unimog num ponto indeterminado da picada que traçava uma linha serpenteante a separar a orla da mata da extensa chana do Cuando. Para mim, o desenho irregular e recortado do pantanal que definia os domínios do rio, tornava impossível traçar uma perpendicular ao seu curso que nos colocasse no rumo certo. Olhando para o mapa do terreno, parecia fácil; o percurso estava ali claramente definido pela singela linha, traçada a lápis, a ligar o rio ao Demba.
Olhei em volta. Qualquer direcção que parecesse oposta à chana era um rumo possível. Mas qual delas? Era tudo a mesma coisa, a paisagem não ajudava nada e o contorno da chana que abraça o rio tornava impossível definir uma perpendicular. Do lado da mata, as coisas também não ajudavam; tudo em volta era monotonamente repetitivo e até as árvores pareciam cópias umas das outras.
Mas não para o sipaio. A forma decidida como apontou o caminho e avançou mata adentro, deixou-me a pensar. Nunca cheguei a perceber como se orientavam. Não obstante a total ausência de trilhos ou outra qualquer referência, avançava como se um caminho invisível lhe indicasse a direcção a seguir. Olhando em volta, ainda procurei encontrar o que quer que fosse que lhe pudesse estar a servir de orientação, mas nada. Apenas areia seca matizada aqui e ali por tufos de capim rasteiro amarelecido pelo cacimbo que se instalara havia meses. Não vislumbrei qualquer carreiro, pista ou pegada que permitisse aceitar que aquele era o percurso a seguir. Na verdade, ainda hoje estou convencido que, nos últimos meses, por ali não passara ninguém, nem sequer bicho. Não era época das chuvas, coisa que não nos visitava havia tempo. Ao menos, se tivesse chovido, poderia sempre pensar que teria apagado sinais de passagem. Mas não. Por aquela altura eu já conhecia bem a mata e já calcorreara muitos carreiros e itinerários arenosos da savana. Por onde passasse gente, havia sempre sinais evidentes disso, mesmo que, durante a noite, tivesse caído uma daquelas chuvas diluvianas habituais. Mas ali não. Quer o terreno quer a vegetação ressequida estavam absolutamente intocados, virgens. Não! Por ali não passara ninguém! Ali não era percurso de guerrilheiro, nas suas andanças a caminho das improvisadas bases no interior.
À nossa frente, o homem continuava, decidido, num passo vivo e cadenciado pelo meio do descampado em direcção a lugar nenhum, como se um ponto lá à frente lhe definisse um azimute. As extensas clareiras de areia esbranquiçada, pintada pelo amarelo ocre do capim seco, matizado aqui e ali de tufos verdes da folhagem perene de ervas estranhas, sucediam-se em desenhos irregulares entrecortadas de forma desordenada por grupos de árvores de pequeno porte e tronco escurecido pelo fumo das queimadas que ciclicamente assolavam a mata e depositavam, no solo, um pó escuro e fino que se levantava pelo arrastar penoso dos pés que teimavam em enterrar-se na areia fofa da savana, atrasando a marcha e duplicando o peso das botas.
Pouco mais de meia hora, sob as ferroadas de um sol impiedoso, foi o suficiente para esgotar toda a resistência do pequeno grupo que, em esforço, procurava acompanhar a passada do guia. Exaustos, com a garganta seca, quase impedindo a respiração ofegante, deixámo-nos cair à sombra quase inútil de um pequeno grupo de árvores, na tentativa vã de fugir ao calor.
Todo o percurso foi um martírio. O tempo de marcha foi ficando cada vez mais curto, enquanto se alongavam as paragens e se mitigava a sede com pequenos golos, cuidando de fazer durar o escasso litro de água transportado no cantil. Sabendo-se que não haveria água no percurso, racionava-se a que se trazia. O guia, esse, parecia olhar-nos de soslaio, como se não compreendesse a fraca resistência da tropa.
Foi com alívio quando, lá para o fim da tarde, se divisaram as palhotas do kimbo no outro lado da clareira que de repente se abriu à nossa frente, qual oásis no meio do deserto. O pequeno aldeamento do Demba, com cerca de uma vintena de palhotas toscamente construídas e espalhadas desordenadamente num recanto da chana formada por um braço do rio Uefo, albergava uma população que se dedicava ao cultivo de milho e criação de algum gado.
O posto da PSP, visível na periferia do kimbo e a poucos metros da picada, mais se parecendo com uma espécie de missão despojada, plantada na terra de ninguém, compunha instalações precárias que serviam de morada e local de trabalho a dois agentes e outros tantos auxiliares recrutados entre a população local, cuja missão compreendia a quase impossível tarefa de defesa daquela gente.
Fomos recebidos efusivamente pelos dois agentes. Conhecia-os muito bem e demonstravam sempre que a tropa era bem-vinda. A nossa chegada amenizava o isolamento, animava a conversa e trazia segurança ao local. Para já, na noite que se aproximava, seriam praticamente desnecessários os quartos de sentinela que, religiosamente, cumpriam noite após noite, numa estratégia rudimentar de segurança precária contra a eventualidade de um ataque inimigo, coisa que, verdade seja dita, não era costume acontecer. Ali só havia população e nada de estratégico que interessasse aos guerrilheiros combater. Um ataque trazia sempre insegurança às populações e isso não era conveniente. Sabia-se que dependiam deles para muita coisa e hostilizar quem diziam defender não era boa política. Mesmo assim, o Mugamba, o kimbo mais próximo que se seguia na linha da picada que levava à Neriquinha foi, um ano antes, atacado por um pequeno grupo de guerrilheiros, mantendo os PSP’s sitiados por mais de um par de horas, sob uma fuzilaria intensa.
No momento, aquela meia dúzia de tropas recém chegada, compunha um reforço bastante significativo na segurança. Era quase garantido que, naquela noite, não haveria problemas. As instalações da PSP não passavam de uma espécie de barracão, de pau a pique, barro e capim, só se diferenciando de qualquer das palhotas do kimbo pela sua maior dimensão. Como os demais postos, estava rodeada por uma espécie de paliçada com cerca de um metro de altura e meio metro de espessura, constituindo uma frágil e rudimentar muralha de paus, porém, quase inexpugnável. Quer se queira, quer não, era a única segurança oferecida à barraca.
Um abraço e uma cerveja acompanharam a recepção quase esfuziante que aqueles dois homens me dispensaram. De repente, a sua limitada vida de Robinson Crusoé foi interrompida, ganhou outra dimensão e fez levantar os ânimos. E isso era visível no fácies de contentamento de gente que, durante semanas a fio não tinha com quem falar, a não ser os parcos diálogos entre os dois, eventualmente envolvendo os dois ajudantes e, aqui ou ali, uma conversa ou outra, necessariamente curta e de circunstância, com elementos de uma população que, para além do mais, nem português falava.
Decididamente, eramos bem-vindos. Naquele dia haveria com quem falar, histórias e novidades animariam o serão e a noite seria passada em maior sossego e segurança; pelo menos sem sobressaltos. Se calhar até as rondas seriam dispensadas. Não o entendi como paga pela segurança e sossego que trouxemos àqueles dois, mas a verdade é que, de alguma forma, fui compensado. Desde logo, as três ou quatro cervejas que saboreei, mais o convite para lhes fazer companhia ao jantar e a irrecusável oferta de pernoita no aconchego da barraca era algo não propriamente dispensável ou desvalorizável. A pequena enxerga suplente, arrumada a um canto, era para mim a cereja no cimo do bolo. Um colchão de espuma, um cobertor e um lençol macio eram um luxo perante a perspectiva de uma dormida ao relento e com uma vantagem acrescida: pelo menos dormiria sem as botas enfiadas nos pés. Pode parecer estranho mas, dormir calçado é desconfortável e muito mais do que parece. Por outro lado, era tempo do cacimbo, altura em que as noites da savana gelam até aos ossos. Por oposição, o espaço dentro daquelas rudimentares instalações, de chão de terra e sem tapetes, oferecia um conforto não descartável; O capim que as envolvia, mantinha-as frescas sob o calor intenso do dia e bastante aconchegantes quando o frio gelava a noite.
Nesse entretanto, o pessoal procurou abrigo e escolheu o melhor sítio para dormir. Serviu na perfeição um cercado, vedado a toda a volta com uma espécie de sebe que os protegeria da friagem e com cobertura de capim que os deixaria ao abrigo da cacimba. Fossem quais fossem as condições, sempre era melhor ali que no meio da mata.
Cada um escolheu um recanto, arrumaram-se, recostaram-se degustando as conhecidas surpresas enlatadas da ração de combate e, após um bocado de conversa, adormeceram vencidos pela estafa de um dia de caminhada sobre as areias secas e escaldantes da savana.
Certamente mais bem instalado, segui-lhes o exemplo. Por ali, a hora de deitar chegava com o cair da noite. Não havia luz eléctrica e nada com que passar o tempo. Dormir era a única coisa a fazer. Por mim, o cansaço não me deixou outra opção e adormeci quase de imediato.
O dia seguinte começou bem cedo. Naquelas paragens, o sol tem sempre pressa em nascer e é irritantemente madrugador. Na época do cacimbo, cinco horas da manhã já é dia claro e uma hora depois o calor já aperta. Levantei-me, saí e fui até ao local onde o pessoal se acoitara. Queria saber como estavam e decidir o que fazer enquanto o unimog que nos recolheria não chegava.
De longe, apercebi-me que um burburinho se instalara, concluindo, ao aproximar-me, que algo não correra bem durante a pernoita e não era qualquer conflito ou zanga entre eles. Estavam seminus, alguns com cara de poucos amigos e coçavam-se como se tivessem sido atacados por uma praga de sarna.
Cada um, à vez, ou acordado pelo parceiro do lado, foi-se dando conta que carraças de tamanho a que não estavam habituados, se haviam alapado à pele: uma ou outra nas costas, algumas nas virilhas e outras por aqui ou por ali. Algumas já arrancadas, outras esborrachadas e outras ainda em vias disso, deixavam claro que o grupo fora atacado, durante a noite, por um inimigo inesperado.
O local mais ou menos protegido e que, na noite anterior, parecera o lugar ideal para pernoitar, era afinal uma espécie de curral, inexplicavelmente limpo, onde a população costumava meter o gado que pastava livremente na mata próxima. E o gado, naquelas paragens, costumava estar infestado de carraças. O medo que alguns demonstravam e a confusão que se gerou, explicava-se pela real possibilidade de poderem vir a contrair uma doença que se sabia manifestar-se através de febres altas, para além do desagradável da situação, da comichão insuportável, da borbulhagem e visível intumescência avermelhada provocada pelas ferroadas dos bichos.
Melhor seria se tivessem dormido ao relento. Certamente que o desconforto teria sido bem mais desejável.

terça-feira, 1 de março de 2011

O unimog da PSP caiu ao Rio

Já o disse várias vezes: o Rivungo era uma circunscrição com Administrador, PSP, tropa, marinha e um rio caudaloso. Pode parecer pouca coisa, mas marcava a fronteira entre, digamos, um buraco e um local onde se poderia viver. Era uma localidade com população civil própria, autóctone, mas própria, enquanto a Neriquinha não passava de um acampamento militar cujas tendas haviam sido substituídas por barracões, um par de anos antes, atraindo uma população mais ou menos nómada que se fixou logo ali, a seguir ao arame farpado, beneficiando de alguma segurança (se é que dela precisavam) e das facilidades propiciadas pela logística militar. Entre elas, a água canalizada a partir de um depósito metálico encavalitado numa estrutura de ferro e uma pista de terra batida onde, de quando em quando, aterravam aviões que faziam a ligação ao mundo exterior.
No Rivungo não havia pista, pelo menos coisa que fosse digna desse nome. Apenas uma pequena clareira no meio da mata a cerca de dois ou três quilómetros da periferia, permitia a aterragem dos pequenos puxa-empurra que nos traziam o correio e pouco mais. Era uma chatice, já que, sempre que estava para chegar o avião, era destacada para a necessária segurança uma equipa composta por quatro militares, chefiados por um furriel. É verdade, todas as terças e quintas e sempre que qualquer pequena aeronave por ali aportasse, a equipa de prevenção encavalitava-se no pequeno unimog que acelerava pela picada irregular procurando chegar ao local de aterragem antes da aproximação do avião, postando-se aí em formação defensiva para que aterrasse em segurança. Na verdade, nunca me pareceu que protegesse grande coisa. Eram apenas quatro homens que só conseguiam cobrir a zona onde o avião se imobilizava, ficando todo o comprimento da pista desprotegido. De qualquer forma, se nos atrasássemos, o Barros não aterrava, voando em círculos até que chegássemos ao local. Noutras alturas, aterrava mesmo assim.
A sorte era haver sempre voluntários. Desejosos de tocar o correio metido dentro do saco cinzento que o piloto entregava ao furriel, estavam sempre prontos. Mal chegava a mensagem via rádio, agarravam na G3 e corriam para o pequeno unimog. Ali chegados e sempre no local onde se sabia que sistematicamente o avião parava, dispunham-se os escassos homens dos dois lados do campo e esperava-se com alguma impaciência a chegado do Cessna. Toda a manobra de aterragem, entrega do correio e levantar voo de novo, não demorava mais de cinco minutos; noutro ponto, outros aguardavam ansiosos a chegada das preciosas notícias. Assim, mal o avião ganhava velocidade, subia-se para a viatura aí se aguardando que o avião se elevasse no ar, iniciando-se de imediato o regresso, no máximo da velocidade permitida pela picada esburacada em direcção ao aquartelamento, com pressa de ler as notícias.
Até que um dia chegaram ao Rivungo vários camiões transportando máquinas, escavadoras, niveladoras, pás basculantes, um cilindro e homens para trabalhar. Uma equipa de construtores e toda uma parafernália de geringonças que começaram, logo ali ao lado do Kimbo, na orla da mata, a deitar abaixo árvores, limpar e aplanar o terreno livrando-o de tudo o que pudesse atrapalhar. Enfim, um corrupio e uma azáfama nunca vistos por aquelas bandas.
É verdade, fora decidido construir uma pista de aviação a sério, grande, e ali pertinho, o que iria dispensar a correria pela mata em direcção à clareira isolada. Sim, uma pista de terra, mas nova, bem construída, de propósito e não uma simples clareira que tinha de ser capinada sempre que as ervas, regadas pelas abundantes chuvas, se atreviam a brotar com maior viço.
No Rivungo, também não havia água canalizada. Provavelmente a proximidade do rio e a abundância de água fresca, potável e acessível, não motivou ninguém a exigir a construção de um qualquer sistema que permitisse esse luxo e as autoridades administrativas, por seu turno, também nunca tomaram a iniciativa. Nem sequer um simples depósito, por mais artesanal que fosse. O da Neriquinha não era lá grande coisa, mas servia na perfeição.
Água no Rivungo tinha de ser retirada do rio, em baldes e transferida para bidões estrategicamente colocados onde fosse necessário. Se a memória não me atraiçoa, nas nossas instalações havia uns três e chegavam para o gasto. A proximidade do Rio facilitava o seu enchimento feito a poder de trabalho braçal do garoto da messe e ajudantes da cozinha num vai e vem, encosta abaixo, encosta acima.
A tropa, porque instalada mesmo à beira do rio, tinha o acesso facilitado, mas a PSP, não. Costumavam abastecer-se nas cercanias do ancoradouro da Lancha, dentro do perímetro da marinha, no local que elegemos como a nossa estância de veraneio privativa. Ali tomava-se banho, nadava-se e mergulhava-se de uma prancha de saltos improvisada. O caudal era forte e garantia a recolha de água não estagnada, muito embora, a pujança do Cuando trouxesse em permanência água fresca sempre renovada a qualquer ponto da sua passagem serpenteante.
Utilizavam quatro ou cinco bidões de 200 litros que carregavam, vazios, na pequena carroçaria do unimog que descia em marcha-atrás pelo declive até à babugem. Aí, com recurso a baldes e ajuda dos serviçais, iam lentamente enchendo os bidões até ficarem a transbordar. Depois, com o motor na sua máxima força, arrancavam lentamente encosta acima, transportando o precioso líquido para as suas instalações no outro lado da localidade.
Naquele dia, as coisas não correram bem ao condutor, um PSP negro e corpulento, espécie de amanuense, com funções de cozinheiro que se encarregava das tarefas com características mais domésticas.
Por razões que as leis da física poderiam explicar, a estrutura da viatura foi cedendo à medida que o aumento gradual do peso da água foi exercendo pressão sobre o velho unimog.
De repente, os travões cederam e o unimog moveu-se, desequilibrando os bidões que rolaram sobre a carroçaria precipitando-os no rio e obrigando a viatura a descair até os rodados traseiros galgarem o degrau barrento da margem. Só não capotou, porque a queda de dois ou três dos bidões aliviou o esforço da viatura que ficou em equilíbrio instável quase na vertical, com um rodado da frente no ar e os dois traseiros dentro de água, assentes na espécie de plataforma com cerca de 20 cm de água que antecedia a profundeza do leito do rio.
Do sítio onde estava, já não sairia pelos seus próprios meios e a posição em que ficou piorava as coisas. Sá havia uma solução: o recurso às máquinas de serviço às obras da nova pista. Felizmente que estavam ali, à mão, e qualquer delas com força suficiente para resgatar do rio o velho unimog.
Para o efeito, foi escolhida uma caterpillar, de pá basculante e pneus enormes, estacionada logo acima, junto com algumas das demais. Era fim do dia, os trabalhos tinham sido interrompidos e as máquinas deixadas em descanso. O manobrador, chamado para a prestação de auxílio, se calhar habituado a operar a máquina nas infindáveis planuras do Cuando Cubango, esqueceu-se que naquele local o terreno não era plano nem arenoso como tudo o resto e que os travões a ar precisavam de algum tempo para ficarem operacionais. E o pior é que estivera parada durante todo o dia, provavelmente por não ter sido necessária.
Ligou a máquina, elevou a pá, manobrou-a e dirigiu-se às arrecuas em direcção ao rio. Mal começou a descida, ganhou velocidade e no momento em que precisou dos travões, não tinha. A máquina descontrolada ganhou vida própria, saltando e balouçando perigosamente a cada acidente do percurso, perante o ar assustado do homem que, carregando desenfreadamente do pedal do travão, nada podia fazer para a deter.
Cá em baixo, no intervalo de um mergulho, apercebemo-nos que a máquina não iria parar. A velocidade cada vez maior e o ar de desespero do manobrador eram disso sinal evidente. Na dúvida, cada um fugiu para seu lado, procurando adivinhar a trajectória da besta, deixando-lhe caminho livre.
Excepto o infeliz Unimog. Impossibilitado de sair dali, foi abandonado à sua sorte. Ainda assim, valeu-lhe alguma perícia do manobrador da máquina que, no último momento, com um golpe no volante, evitou o abalroamento.
Mas não foi suficiente. Um dos grandes rodados atingiu de raspão o unimog e a pá, no seu balanço descoordenado, deu-lhe um último safanão empurrando-o perigosamente para a água.
Não sei como, mas a verdade é que, no momento em que toda a gente pensava ver a máquina no fundo do rio, esta imobilizou-se, beneficiando talvez da ajuda, sabe-se lá como, oferecida pela resistência do vulnerável unimog, que travou de alguma forma a sua marcha desenfreada, acabando por ficar perigosamente semi-submersa, com o motor a resfolegar ofegante como que a refazer-se do susto.
Foi preciso uma segunda máquina, esta de lagartas que, oferecendo a segurança de se sentir bem em qualquer terreno, desceu lentamente o declive e rebocou as viaturas acidentadas, retirando-as da sua posição incómoda: primeiro a máquina antes que o rio a levasse e depois o unimog.
Não me lembro como o pessoal da PSP se desenrascou naquele dia sem água, mas sei que os bidões que caíram lá ficaram, submersos, na parte mais funda do leito do rio e de onde nunca mais saíram. Se calhar ainda lá estão.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Sub-Chefe da PSP do Chipundo

Saíra muito cedo com a incumbência de recolher no Chipundo o acidentado Land Rover da PSP daquele posto. Para a missão, dispunha de uma velha berliet e meia dúzia de homens (eu e o condutor incluídos). Uma pequena depressão no terreno, a ajuda dos taipais laterais a fazerem a vez de rampa, alguma imaginação e trabalho braçal, resolveram o problema de carregar sobre a berliet a viatura estropiada que jazia morta, inútil e exposta às intempéries, nas imediações das instalações da PSP, autêntica imagem de um trágico desastre, dificilmente compreendido.
Percorríamos agora o caminho de regresso, avançando cautelosamente pela picada irregular, já que o Land Rover, movendo-se constantemente numa dança instável, ameaçava fugir da boleia, obrigando a uma paragem para reforçar as improvisadas amarras que, através dos buracos do fundo da carroçaria, o prendiam à estrutura da berliet.
Aquele troço, já nosso conhecido, serpenteava ao longo de uma zona desarborizada no meio da qual, dois sulcos desenhavam uma picada riscada no verde da paisagem, compondo uma espécie de corredor apontando em direcção a norte. A mata, de ambos os lados, aparecia um pouco mais ao longe, definida por uma linha de árvores feitas sentinelas à entrada de uma terra de ninguém de onde emergia uma manada de imponentes búfalos pastando indolentes. No outro lado, um grupo de pequenos macacos saltitando de árvore em árvore, grunhiam atrevidos como que provocando aqueles intrusos montados numa geringonça barulhenta por ali vista apenas de quando em vez.
O Chipundo era o último reduto, espécie de fronteira mais a sul daquilo que se poderia chamar área de actuação da CCaç 3441 e distava cerca de 3 a 5 horas a partir do Rivungo. Naquelas paragens, a distância dependia sempre da época do ano, do estado da picada, das condições climatéricas e muitas vezes das birras da viatura que se utilizasse, fazendo com que algumas dezenas de quilómetros parecessem centenas.
Era uma espécie de subdivisão do círculo administrativo do Rivungo e assimilava-se, em quase tudo, a um Kimbo, só que maior, mais populoso e claro, mais importante. Ficava situado no bocado de terreno que compunha o interior do cotovelo formado por uma curva apertada do Rio Cuando, lugar aprazível que propiciava, entre outras coisas, o ensejo de se poder tomar banho no rio, coisa não propriamente despicienda numa região onde não existiam duches e as temperaturas podiam subir aos 45º durante a maior parte do ano. Quanto ao mais, dir-se-ia que o Rivungo, comparativamente, nos parecia estar no limiar da civilização.
A maior dimensão do Chipundo e porque não, importância, face aos restantes Kimbos, determinava maior efectivo policial, ali composto por três ou quatro polícias e outros tantos ajudantes. Para os comandar fora nomeado um Sub-Chefe que chegara de Serpa Pinto, passando pelo Rivungo e transferindo-se para o Chipundo no velho Land Rover do posto, conduzido pelo experiente motorista, conhecedor da viatura, do trajecto e correspondentes redondezas.
Era um homem jovial, alegre, de riso fácil e vivacidade contagiante, estabelecendo de imediato uma empatia com toda a gente. O seu estilo desinibido permitiu-lhe ganhar amigos rapidamente, tornando-se popular e conhecido
Aprendemos a conhecê-lo. Aparecia de quando em vez no Rivungo, quando ali se deslocava para tratar dos assuntos a que a função obrigava ou, quando em missão para aqueles lados, parávamos pelo Chipundo.
Uma vez chegado ao seu novo posto de comando, tratou de reconhecer a zona. A sua missão de proteger as populações obrigava a que conhecesse bem o terreno circundante. Num local onde a mata começa a escassos metros do limite da aldeia e nada existe a separar, é muito difícil ficar-se confinado ao perímetro das cubatas, especialmente para um homem com as características do Sub-Chefe, que tirava o máximo proveito do que a natureza tinha para oferecer.
Tratava-se de uma região imensa, absolutamente plana e muito pouco povoada, já que a guerra empurrara para pequenos aglomerados uma população essencialmente nómada. A natureza propiciava uma certa abundância natural em frutos selvagens, algumas raízes e fundamentalmente em caça. Num local tão distante, onde não havia supermercados e os géneros chegavam a conta gotas trazidos pela tropa em reabastecimentos conduzidos por uma logística de guerra, a caça, abundante e variada, era sem dúvida um recurso não negligenciável e a juventude e voluntarismo do Sub-chefe, levava-o a aventurar-se em incursões pela mata, com o objectivo de arranjar algo de fresco para o jantar e, muitas vezes, para alimentar as populações.
Numa destas incursões, por excesso de confiança à mistura com outro tanto de incúria e desrespeito pelas mais elementares regras de segurança, o sub-chefe, sabe-se lá porquê ou para quê, colocou no porta-luvas do Land-Rover uma granada.
Não é difícil imaginar o que acontece a uma viatura destas, ao percorrer aqueles itinerários acidentados, numa altura em que a tecnologia de conforto na construção automóvel ainda não atingira o grau de sofisticação actual, especialmente quando se fala de um veículo já com seis dígitos no conta-quilómetros. Tudo o que se encontra dentro no habitáculo salta num frenesim constante e violento.
A granada, solta dentro do porta-luvas, saltava perigosamente com os constantes solavancos. O bater continuado nas paredes do minúsculo espaço a que fora confinada, fez com que a cavilha de segurança se fosse soltando lentamente. Para ajudar, o compartimento não tinha porta. Esta, há muito desaparecera com os anos de uso da viatura. Na verdade creio que nunca existiu.
A granada acabou por saltar do minúsculo porta-luvas, caindo aos pés do sub-chefe. A cavilha de segurança, já praticamente fora do orifício, acabou por se soltar totalmente ao embater no fundo da viatura, libertando a alavanca e espoletando o mecanismo que acciona a explosão.
Não se sabe se o malogrado polícia chegou a aperceber-se da queda da granada. Decorridos quatro segundos, tempo que leva a consumir o pequeno rastilho que liga a espoleta ao detonador, a explosão, violenta e assassina, projectou um sopro de morte, carregado de estilhaços, que retalhou o corpo do sub-chefe, roubando-lhe a vida e abrindo um rombo no tejadilho metálico da viatura.
No dia seguinte, o corpo foi transportado para o Rivungo, aguardando, numa das casas vazias, os necessários preparos para a trasladação. Tive a infeliz oportunidade de ver o efeito devastador que aquele engenho de morte provoca num corpo humano. É que, fui destacado para ajudar o técnico que, vindo de Serpa Pinto, procedeu à selagem da urna de chumbo já que, o estado lastimoso em que se encontrava o corpo impedia que um homem só desse conta do recado. Ainda hoje, por vezes, associo a mortos o cheiro de chumbo derretido.
Por ironia do destino e passado algum tempo sobre o acontecido, também me coube a tarefa de recolher a viatura acidentada. O Land Rover viajava agora sobre a Berliet, balançando ao ritmo bamboleante da picada, como se de um corpo morto se tratasse.
Saí da letargia em que a recordação me mergulhara. O silêncio era apenas violentado pelo motor da berliet que, indiferente a tudo, vencia o resto do troço que levava ao Rivungo.

domingo, 11 de janeiro de 2009

O ataque ao Mugamba

O dia amanheceu sem novidades. Na verdade, pouca coisa acontecia no Rivungo, para além dos dias se sucederem às noites e estas aos dias. Cada novo dia era igual ao anterior, pastoso, quente, com a temperatura a ultrapassar os 40 graus. As fartas chuvadas, gotas grossas que se evaporavam ao primeiro contacto com o chão sobreaquecido, constituíam uma bênção que apaziguava o efeito das escaldantes ferroadas dos agressivos raios solares. As cantáridas, exibindo a sua cintilante cor verde metálica, quase preto, abundantes na época das chuvas, vagueavam sobre a areia endurecida pela borrasca, aproveitando a fresquidão momentânea do solo, acasalando num indolente e quase estático ritual, permanecendo o macho por longo tempo sobre a fêmea, fazendo jus ao poder que se dizia possuírem. Constava que as suas asas, secas e transformadas em pó, constituíam um afrodisíaco poderoso. Contudo, nunca me apercebi que alguém tivesse sequer tentado experimentar. Por um lado, era perigoso. O pequeno escaravelho segregava um líquido corrosivo que provocava uma queimadura na pele, difícil de sarar. Por outro lado, afastados da civilização e já só retendo uma imagem remota do que era uma mulher branca, a última coisa de que se necessitava era de algo com tal efeito estimulante. Tanto mais que o agradável perfume de mulher, era ali substituído por um odor anti-afrodisíaco que refreava o ímpeto e aconselhava ao recato.
A calma reinante foi abruptamente interrompida pela chegada apressada do Chefe França. Vinha acompanhado do administrador Litenda e de um elemento da população, nitidamente ofegante. Era um mensageiro enviado pelos agentes da Polícia de Segurança Pública destacados no Mugamba, com a missão de comunicar que o Kimbo tinha sido atacado por um grupo de turras.
Nestes casos, competia à tropa sair em perseguição dos atacantes.
- Dar-lhes caça … aniquilá-los!
Sentenciou o Litenda.
No meu ainda pouco conhecimento dos meandros da guerra, pensei para comigo que pouco ou nada haveria a fazer. O mensageiro só saíra do Mugamba quando a sarrafusca acabou, a distância era considerável e o percurso a pé demorado. Mesmo considerando a resistência daquela gente e a facilidade com que percorriam a pé grandes distâncias, era claro que já havia decorrido muito tempo.
- O mais certo é já estarem bem longe!
Alvitrou o chefe França.
No entanto, a estratégia da perseguição teria de ser cumprida. Era preciso que o inimigo soubesse que não podia repetir a graça. Dar-lhes caça e mostrar que estávamos ali, era o mínimo que se podia fazer, caso contrário, tornavam-se atrevidos e ainda acabavam por nos bater à porta.
Em menos de um nada, encontrava-me em cima de um unimog, que acelerava roufenho e saltitante pela arenosa e sinuosa picada que levava ao Mugamba, na vã tentativa de recuperar o imenso tempo que já decorrera desde o ataque. Comandados pelo próprio alferes Fausto, seguia mais de metade do efectivo militar do Rivungo. Haviam sido distribuídas, à pressa, rações de combate para dois dias, o alferes munira-se de um conjunto de cartas militares do terreno, carregáramos o armamento disponível e assim nos lançámos no encalço do inimigo que se atrevera a quebrar a monotonia de um dia que amanhecera quente, mas sossegado.
Levámos mais de uma hora a percorrer a distância que separava o Rivungo do Mugamba, um pequeno kimbo, no meio da mata, cujo isolamento apenas fora minorado porque a picada que vinha da Neriquinha, forçada a um desvio, obrigava as colunas de reabastecimento a por ali passarem. Era constituído por uma escassa dezena e meia de cubatas de capim, dispostas de forma irregular num descampado, cuja população, maioritariamente de etnia ganguela, se dedicava a actividades de subsistência – agricultura rudimentar, criação de meia dúzia de vacas e caça artesanal.
A protegê-las (o termo parecia-me um pouco exagerado), dois agentes da PSP, que por ali sobreviviam, sem terem para onde ir e sem nada para fazer, para além de assistirem ao indolente passar do tempo, tarefa bem mais monótona e menos interessante do que a da tropa. Pensava eu que, tal como nós, estavam ali porque para ali tinham sido enviados. Destacados em missão de soberania. Apercebi-me depois que, muitos deles eram voluntários. Razões económicas ditavam a opção. O vencimento era significativamente superior ao que auferiam na cidade. Logo, se ali estavam, é porque consideravam valer a pena o sacrifício.
O posto da PSP, residência e sede da autoridade, não era mais do que uma cubata de capim, paredes de paus a pique e chão de terra batida, maior do que as demais, mas apenas possuindo uma ampla divisão, onde jaziam duas pequenas enxergas cobertas por uma rede mosquiteira, ornamento fundamental para que um ser humano ali pudesse dormir sem ser devorado pela chusma de mosquitos. A um canto, uma pequena mesa onde descansavam alguns tachos e um petromax para iluminar as noites.
A construção era protegida por uma barreira de terra com cerca de um metro de altura e meio metro de espessura, amparada por duas fileiras de troncos enterrados na vertical, constituindo uma espécie de muralha artesanal a rodear a frágil barraca. A passagem para o interior fazia-se por uma única entrada, a lembrar burladeros em praça de toiros. A sua eficácia ficou demonstrada ao confirmar-se que um tiro de G3, disparado a curta distância, não trespassava a barreira.
Foi esta rudimentar fortificação que, a meio da noite, foi atacada, tendo estado debaixo de fogo durante duas horas, apenas defendida pelos dois elementos da PSP secundados por três ou quatro auxiliares, recrutados entre a população local, ripostando ao fogo inimigo com o escasso armamento disponível: duas G3 e algumas espingardas Mauser.
Resguardados atrás da frágil, mas eficaz muralha, disparavam sobre os atacantes, com comedimento, apontando para um alvo indefinido, apenas orientados pelos fogachos dos disparos inimigos. A reserva de munições não era grande e não era fácil avaliar quantos eram os atacantes, nem até onde estariam dispostos a ir. Ripostavam tiro a tiro, não obstante as G3 permitirem rajadas curtas, o mesmo não se podendo dizer das Mauser que, não sendo armas automáticas, por aí se ficavam. Cada tiro dado implicava a preparação manual para o próximo, naquele repetitivo movimento de culatra atrás, culatra à frente, enquanto houvesse munições.
Aos primeiros alvores da madrugada cessou a fuzilaria. Ou porque se lhes esgotou as munições, ou porque a escuridão deixara de os proteger, os atacantes desapareceram tão de repente como haviam chegado, deixando ilesos os até então sitiados.
Com as devidas cautelas, saíram da fortificação, procurando avaliar o resultado da escaramuça num reconhecimento pelos arredores. Os atacantes haviam-se entrincheirado atrás da cerca onde a população, durante a noite, guardava a sua reduzida manada de gado. Os animais estavam mortos. Apanhadas entre dois fogos, foram dizimadas pelas balas dos beligerantes, tanto de um lado como do outro.
A contenda não vitimou ninguém. Nem um único arranhão em quem quer que fosse. Também não visou a população. Contudo, foi esta que sofreu o maior prejuízo. Ficou sem o seu mais valioso bem patrimonial e principal símbolo de riqueza. As vacas.
Quanto aos dois agentes da PSP, fomos encontrá-los abalados e com a moral em baixo. Descontraíram com a nossa chegada, mas nunca mais dormiram tranquilos durante o resto do tempo que durou a sua missão naquele pedaço esquecido de fim de mundo.

...Continua em "A perseguição"...