quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O célebre cilindro...


Afinal tinha cá o célebre cilindro. Espero que o nosso amigo Rosinha passe por aqui para identificar o artefacto.
Revisitei os meus slides.
Esta é uma primeira experiência para ver como fica de nitidez. Se resultar... tenho umas dezenas para ir salpicando o blogue de imagens com história. A nossa história. Espero que não se torne cansativo.

P. Cabrita

Berlliet's atoladas - Relembrar

Berlliet atolada a oeste do Rivungo. Uma especialidade de um dos nossos alferes, que não nomeio para não melindrar mais a auto-estima...
Levámos cerca de 3 horas para tirar a viatura que estava assente nos semi-eixos, mesmo utilizando mais duas berlliet's e respectivos guinchos.
Só uma ideia meio louca e desesperada resolveu o problema. Trata-se de uma ideia bem guardada porque está por patentear... É apenas uma questão de oportunidade...

P. Cabrita

2ª Liga - Jornada única

A qualidade das fotos é péssima, mas não resisti a publicá-las.
Não sei se alguém se recorda disto. Mas se avaliarem alguns dos atletas talvez se recordem.
Primeiro reparar que se tratava de um jogo de alto nível. A presença do Soba assim o indica. Foi o convidado especial e teve a honra de dar o pontapé de saída.
O jogo foi arbitrado por juiz devidamente equipado (o nosso furriel Fielas devidamente fardado no seu garboso camuflado...) e não me lembro do resultado; acho que nem golos terão ocorrido, embora o campo tenha ficado bastante maltratado.
Para os que não se recordam, este jogo foi realizado numa comemoração qualquer. Talvez um ano de comissão, ou algo parecido.
A ideia foi juntar duas equipas de jogadores que nunca tivesse dado um pontapé de jeito numa bola de futebol. E então, estes foram os eleitos. Ainda me lembro de alguns lances que me ficaram na retina para todo o sempre...
Um jogo fantástico... e não é preciso acrescentar mais nada...

Notas:
1- A salientar o penteado primoroso (já com gel na altura) do nosso alferes Aranha; jogou a médio ala pela direita... mas percorreu o campo inteiro. Perguntado no final do encontro, referiu que teve necessidade de percorrer todo o campo porque em determinada altura suspeitou que ninguém lhe passava a bola ... Vai daí, decidiu ir em busca dela... sem resultados...

2- De registar também o chapéu do Araújo. Compreende-se. Eram 5 horas da tarde, fazia algum calor e o nosso Araújo (meu guarda-costas nas operações) tinha que ter alguns cuidados tendo em conta a alvura da sua pele nórdica...

3- O Braguinha que não encontrou outro lugar para se posicionar na foto senão ao lado de outro baixinho, o Araújo... Se não é o dobro da altura, anda lá perto. Bem; que lhe fazia uma boa sombra, fazia...!

PS
Já agora o porquê do Araújo me servir de guarda-costas nas operações. É que, com aquele tamanho, havia sempre a possibilidade de um qualquer tiro encalhar primeiro nele...

P. Cabrita

GE's


Alguns dos nossos GE's. Julgo que quase todos comandantes de secção.
Agora; três deles usam óculos. Alguém me explica onde era o oftalmologista no kimbo que nunca dei por ele...?
Ou será que se tratou de mais uma negociata do Lupale com uma importação fora do controlo das entidades administrativas...?
Alguém que explique isto. Julgo que quando chegámos à N'riquinha eles já usavam óculos. Logo, foram adquiridos antes de nós.
Mais um mistério...

Ainda o DANGO

Nesta altura o Dango tinha dias de permanência na Companhia. Ainda faltavam os sapatos, um utensílio a que ele nunca achou muita piada. Talvez razão pela qual os primeiros que calçou não tenham durado mais de 3 semanas... Os seguintes também não duraram muito mais.
Em determinada altura achei que ele os emprestava aos outros miúdos do kimbo que também os queriam experimentar. Ao fim e ao cabo, sapato na N'riquinha era uma novidade e ... um luxo.
Na outra foto, já mais crescidinho, com par de calças com pouco mais de 2 semanas de "trabalho" e camisa na mão para mostrar os efeitos da jornada...
Tenho alguma fé que ainda vamos encontrar o Dango um dia



terça-feira, 17 de novembro de 2009

A Cerimónia

As fotografias que se seguem, são uma pequena parte de uma série que diz respeito a uma cerimónia levada a cabo na N'Riquinha, para afugentar a doença do corpo de uma paciente.
Ao aproximar-me, para fotografar o que eu pensava ser uma festa indígena, já que o batuque, ao invés do normal, começara pela manhã, fui avisado pelo João Cassumbi e pelo Vicente - dois miúdos negros curiosos da mecânica automóvel e condutores para os pequenos serviços dentro da Companhia - que não me era permitido assistir à cerimónia. Portanto, armei-me com uma Vivitar de 200 mm e, com a minha velhinha Cannon F1, lá fui, de longe e circulando de palhota em palhota, fotografando a cena.
Basicamente, o embalo ritmado e hipnótico do batuque e os movimentos simples da dança repetidos milhares de vezes, colocaram a paciente em êxtase e, depois de morta uma galinha, foi aspergida com o sangue da ave e esfregada com sal grosso. As duas curandeiras de serviço, ora se sentavam no meio de um vasto grupo feminino que entoava uma canção de sons baixos e roucos, ora se levantavam e rodeando a doente, repetiam uma lengalenga monocórdica, abanando uns guizos, feitos com uma lata de salsichas cheia de pedrinhas, ao mesmo tempo que lhes percorriam com as mãos, o corpo de cima a baixo. Os mais novos assistiam calados, observadores e com um ar respeitoso.
A cerimónia durou horas e, no final, quase todos os intervenientes estavam possuídos pelo ritmo dos tambores.
Terminou quando, exausta, caiu sem sentidos no chão.











O Dango

O Dango era um miúdo com cerca dois anitos quando, na operação que a nossa Companhia fez ao "Esquadrão", acampamento de guerrilheiros na área onde hoje se identifica a Jamba, foi deixado para trás pelo pai. Na sua fuga, pela chana, á tropa portuguesa, abandonou-o junto à mata.
O Furriel Leitão desceu da Berliet, que eu conduzia em substituição do condutor Gouveia, que adoecera à última hora. O pobre garotito chorava sem parar e, como não se vislumbrasse ninguém nas cercanias, para ali não ficar só, foi, então, entregue a um elemento feminino da população que connosco fazia a viagem de regresso (não me lembro como apareceu junto de nós nem donde viera).
Mamando no peito da sua conterrânea, calou-se e lá seguimos, sendo criado com carinho entre brancos e negros e passando a ser o ai-Jesus da Companhia.
Na hora do regresso à Metrópole, se a memória não me falha, foi entregue em Salazar numa organização religiosa que o acolheu, tendo o Capitão Pedro Cabrita tomado a seu cargo toda a trabalheira necessária para ali ser recebido o Dango. O nosso Dango!

domingo, 15 de novembro de 2009

O Kimbo da Neriquinha

Um aglomerado de cubatas de capim encardido pelo tempo, plantadas logo ali, no lado de lá do arame farpado, aparentando um alinhamento ordeiro, sinal de que alguém havia coordenado a sua implantação no terreno.

Normalmente os Ganguelas não se preocupavam com a geometria, quando construíam os seus abrigos. Era onde calhava ou onde desse mais jeito. Apenas servia para se abrigarem à noite, já que toda a lide doméstica era feita no espaço circundante.

O Capitão entendeu que a situação precária de muitas das cubatas e a anarquia das ruas do Kimbo justificavam uma intervenção urbanística. Incumbiu-me de fazer o levantamento e identificar as que necessitavam de renovação, as que deveriam ser totalmente reconstruídas e alinhadas e ainda equacionar o eventual alargamento da aldeia.

Fiz qualquer coisa, mas a adesão da população não foi muito entusiástica. Para quê tanta trabalheira se o que existia era suficiente?
O calor era intenso e as poucas sombras convidavam ao descanso. Mas, uma coisa ou outra foi renovada. Por exemplo, um celeiro novo foi construído. Contudo, não me pareceu que isso tivesse resultado da iniciativa do Capitão.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Golpe de Estado na Zâmbia.

Sem aviso, o comandante aterrou um dia na N´riquinha dirigindo-se de imediato ao Alferes Fausto, que comandava a Companhia naquela altura. Eu estava de férias.
Sem mais delongas e prescindindo das honrarias militares da praxe – o que não deixava de ser surpreendente no nosso comandante, a par de não avisar que iria chegar – pegou no alferes pelo braço e levou-o de imediato para o meu quarto vazio, o local mais recatado e isolado de hipotéticos ouvidos furtivos que se podia descortinar por ali e para aquelas circunstâncias que se adivinhavam de enorme transcendência.
O Fausto viria a contar-me mais tarde que nem se lembra de ter pensado em nada de concreto que se configurasse com tamanho aparato e secretismo. Tão embasbacado ficou que se limitou a ser autenticamente levado pelo comandante e a encostar-se à parede, depois deste o ter mandado fechar a porta de entrada e a do meu quarto, e ter verificado que não havia mais ninguém por perto.
De dedo em riste apontado ao atónito Fausto disse por fim com ar solene:
- A partir deste momento esta Companhia está envolvida num golpe de estado na Zâmbia!
O pobre Fausto ainda terá franzido um sobrolho... ou mesmo os dois, embora sem conseguir balbuciar palavra. O comandante também nem permitia que falasse. Em três tempos tecia o cenário político que se conhecia, que era o do apoio que o regime vigente na Zâmbia dava à guerrilha que combatia em Angola. A PIDE conseguira, no entanto, penetrar na sociedade política da Zâmbia e, em resumo, disponibilizara-se para apoiar a oposição num golpe de estado que invertesse o sentido político do regime. Ou seja, apoiar a criação de um novo governo que deixasse de apoiar a guerrilha.
Todo o apoio seria dado aos conspiradores e a nós era cometida uma missão específica. Caso as coisas dessem para o torto e os intervenientes no golpe tivessem que fugir, era pela nossa zona que entrariam em território angolano, sendo recebidos e protegidos por nós. O golpe estava iminente e o que era necessário era preparar desde já uma operação que patrulhasse a fronteira (mais de duzentos quilómetros...). Havia até uma senha que os conspiradores teriam que nos exibir, caso os viéssemos a encontrar:
- “ I come to see the moon!”.
Tratava-se duma frase que os identificava como tal e obteria da nossa parte toda a protecção por terra, mar e ar. O mar ali era representado pelo rio.
Tão rápido quanto chegou, o comandante partiu deixando o Fausto sem saber o que fazer naquela enorme confusão e trapalhada. Eu chegaria poucos dias depois, no meio de um enorme alvoroço e nervosismo, onde ninguém conseguia prever as consequências daquela aventura desesperada de interferir na alteração da ordem política de um país estrangeiro. Lembrar que estávamos a cerca de 20 Km da fronteira, isolados e distantes de quaisquer apoios aéreos ou terrestres.
O PAO (Plano de Actividade Operacional) foi alterado por completo e durante quinze dias outra coisa não fizemos que patrulhar a zona fronteiriça abaixo e acima, incidindo os patrulhamentos nas zonas que entendíamos como as mais prováveis para a entrada dos golpistas. O esforço operacional já era enorme e só nos faltava mais aquela aventura de efeitos pouco previsíveis para nos enfeitar os dias de sofrimento e sacrifício que levávamos. Naqueles dias de tensão eu imaginava todos os quadros possíveis. Se de facto entrassem viriam certamente perseguidos e era connosco que os perseguidores se teriam de confrontar. Um confronto com a guerrilha tinha as consequências previsíveis mais ou menos conhecidas. Um embate com tropa regular de outro país, por certo enquadrada de forma mais organizada e apoiada por meios aéreos, era um cenário que nos inquietava e dificultava mais ainda o sono nas noites mal dormidas à beira do rio Cuando, onde se acoitavam milhões de mosquitos que nos atacavam todas as noites, bem antes dos militares zambianos.
Naquele panorama esperava-se que o golpe, a ter lugar, soasse e Luanda soubesse como correriam as coisas. Nesse sentido, esperava-se que, no caso de falha, e a perspectiva de acolhimento ganhasse forma, tivéssemos também nós um reforço de segurança para o previsível embate que pudesse ocorrer. Esta esperança não colhia, no entanto, grandes confortos de alma. O isolamento da região e a distância dos meios de apoio aéreo faziam pensar que, no caso de necessidade, era muito provável que ficássemos a perder no confronto e entregues a nós próprios. Qualquer apoio terrestre nunca chegaria menos de vinte horas depois de ser solicitado. Tempo mais que suficiente para termos pouco que contar quando este chegasse. O apoio aéreo, sem bases de reabastecimento próximas, mal chegassem do Luso ou Gago Coutinho, ficariam alguns minutos e regressariam apenas com o combustível necessário para voltar à base.
E foi no meio deste turbilhão de pensamentos que vogámos durante aqueles quinze dias abaixo e acima perscrutando o rio, no desejo obstinado de o ver correr límpido e imperturbável, sem golpistas aflitos em busca de salvaguarda e de melhores dias para "to see the moon..."
Aos vinte dias o panorama desanuviou um pouco. Fomos mandados recolher, embora ficando em alerta, o que nos deu algum tempo de repouso. Como tínhamos que ficar vigilantes o PAO foi interrompido, permitindo algum tempo para respirar fundo. O golpe não chegou a ser desencadeado porque os revoltosos não encontraram os apoios necessários e suficientes à sua consumação, para grande desespero do regime e da PIDE, que tinham investido grandes esperanças naquela arremetida. Para nós um alívio e o retorno à rotina das nossas guerras internas que já nos bastavam para preencher os ideais e ambições de sobrevivência, que alimentávamos desde o primeiro dia.
Tudo não passou de um susto e de mais uma aventura política desesperada do regime, que procurava apoiar todas as acções e medidas que lhe permitissem acalentar algumas crenças de sobrevivência naquela guerra absurda e sem perspectivas de vitória à vista.

(Excerto do livro "Capitães do Vento" Editora Roma-Editores)

P.C.

domingo, 1 de novembro de 2009

Raid ao Chiúme

Por: Egídio Cardoso

Um a um, os helicópteros levantaram voo, arrancando da pista um remoinho de pó vermelho. A meia dúzia de Alouette III que constituía a esquadrilha que a Força Aérea Sul-africana disponibilizara para a operação, seguiu em formação rumando a norte num voo suave sobre a savana a uma altura que permitia ver com nitidez o terreno que estava acostumado a pisar.
Sobrevoar a savana era, para mim, uma novidade, um deslumbramento que contribuiu para rapidamente anular o azedume pelo desaguisado com o comandante, não obstante continuar a parecer-me ridículo o episódio do camuflado.
Quilómetros de terrenos arenosos e chanas semi-pantanosas, pejadas de mosquitos, que lá em baixo levavam dias a vencer, eram galgadas num ápice dando uma ideia diferente da imensidão plana das Terras do Fim do Mundo.
A planura daquelas terras ganhava maior dimensão vista do alto. Até onde a vista alcançava apenas se divisava um horizonte longínquo, qual mar de cor verde seco entremeado de clareiras amareladas matizadas aqui e ali de um verde mais intenso assinalando o serpentear de rios e afluentes alimentados pelas águas das últimas chuvas. O barulho das pás dos Alouette atormentava manadas de palancas ou gazelas que, assustadas, encetavam uma correria desenfreada, fugindo daquelas coisas estranhas e barulhentas que ousavam perturbar a calma e o silêncio do seu inexplorado habitat.
Após uma viagem aparentemente curta, os helicópteros baixaram, no seu característico planar, aproximando-se da orla da mata, no outro lado de uma extensa chana, pousando sobre o terreno coberto de capim rasteiro. No ar, volteando sobre a área, apenas permaneceu o helicanhão zelando pela segurança dos aparelhos no solo. Cada esquadrilha integrava um, equipado com uma metralhadora de vinte milímetros montada transversalmente e que, em caso de ataque, despejava sobre o solo saraivadas de metralha capaz de dizimar quem se atrevesse a atacar.
Saltei sem dificuldade, não obstante o peso do equipamento que transportava, lembrando-me das vezes que, ainda em Santa Margarida, exercitei a manobra. Contudo, aí, o helicóptero pairava a alguns metros do solo, levando a entorses perante o salto para um solo irregular. Agora, em pleno cenário real, não havia razão para tal. Pousar, largar as tropas e levantar de novo, era coisa de instantes e evitava hesitações de um ou outro menos afoito que se atemorizasse perante a altura ou incerteza do solo onde aterraria.
Afastámo-nos rapidamente do local procurando protecção na orla da mata, aguardando pela segunda leva que completaria o efectivo destacado para tão importante operação.
A forma meticulosa como fora preparada, o empenho directo do comandante de batalhão, o armamento que se transportava, o envolvimento de uma esquadrilha de helicópteros vinda de propósito da vizinha Africa do Sul e o facto der ser comandada pelo próprio comandante da companhia, eram sinais mais do que suficientes para nos convencermos da sua importância.
Devia ser coisa em grande. Pelos vistos, tinha sido detectada uma grande base do inimigo, lá para os lados do Chiúme, mas ainda dentro da nossa área de actuação e falava-se à boca pequena que os altos comandos em Luanda, haviam pensado executar a acção com recurso a tropas de elite integrando forças dos comandos e unidades de pára-quedistas.
Ao que parece o Ruizinho encheu o peito de ar e atreveu-se a contrariar tão experientes estrategos.
- Quais tropas de elite qual quê! De elite eram os homens sob o seu comando, que muito melhor dariam conta do recado. Com um pouco de sorte até poderia haver feridos, ou mortos … sabe-se lá, o que a acontecer aumentaria a heroicidade da acção e o reconhecimento das altas patentes.
O grupo espalhou-se, procurando a sombra das árvores que bordejavam a chana, enquanto o capitão Cabrita conferenciava com os alferes à volta da carta militar do terreno.
Cogitando com os meus botões, à medida que, regressando, os helicópteros desapareciam ao longe, assaltou-me uma dúvida. Para mim, visto do alto, o terreno era todo igual. Pelo menos as chanas não se diferenciavam. Quem me garantia que era aquela e não outra? Como sabiam os sul-africanos que aquele era o local exacto? Podia ser a chana seguinte, outro ponto mais a norte, ou outro mais a sul.
Mas parece que o sítio era mesmo aquele, já que as ordens para o início da caminhada foram dadas sem hesitação e o carreiro por onde metemos parecia corresponder ao indicado no mapa.
Não havia tempo a perder. Era necessário chegar ao objectivo dentro dos tempos planeados, impondo-se uma progressão em ritmo vivo e esgotante, por um percurso arenoso, por vezes acidentado e irregular. As ordens vinham da frente por monossílabos. As paragens eram escassas. Parecia que o capitão Cabrita tinha fôlego de gato. Só demonstrava cansaço quando o resto do pessoal, já em dificuldade, se arrastava como que rebocado pelos da frente.
Excepto o carregador. Mais uma vez a resistência daquela gente me surpreendia. Contratado apenas para carregar as tralhas do enfermeiro e do homem das transmissões, acabou por ir aceitando carregar, a troco de algum dinheiro, os sacos de uns tantos. Como a procura era muita, improvisou uma vara, prendeu nas pontas todos os sacos que negociara, equilibrou o peso de um lado e outro e carregou-a aos ombros. O pau vergou sob o peso, mas o homem, não.
O sol aproximava-se lentamente da linha do horizonte, aliviando os corpos cansados das suas ferroadas. A ordem para parar caiu como uma bênção. Mas foi sol de pouca dura. Logo que a noite tomou conta da mata, novas ordens, dadas em surdina, puseram de novo o grupo em marcha. Só após um curto percurso em silêncio e às cegas pela mata e que pareceu durar uma eternidade, se decidiu o local de pernoita. Um sítio qualquer de contornos diluídos na densa noite. Tratava-se de uma medida de segurança visando evitar que o inimigo desse conta do sítio exacto onde dormíamos, anulando a possibilidade de ataque durante o sono.
Metido dentro de uma farda molhada de suor, acomodei-me no chão irregular o melhor que pude. Tacteei dentro do saco, escolhi uma lata de ração, abri-a em silêncio com a ajuda da faca de mato e engoli o seu conteúdo de sabor atípico. Recostei-me e adormeci vencido pelo cansaço.
O dia seguinte revelou-se demolidor. Os pés não resistiram à dura textura das botas. As costuras das calças do camuflado cederam ponto a ponto, transformando-se num pano que esvoaçava ao vento. O percurso ora irregular, ora de areia solta, fazia do caminhar martírio, tudo condimentado com um calor sufocante.
Maldizia o comandante. Não se gostando do homem, tudo o que não corria bem era culpa dele. É que, parece ter partido dele a informação de que haveria minas na zona, atoarda que determinou a opção pelas botas de cabedal, mais resistentes, em vez das de lona, mais confortáveis e adequadas ao terreno arenoso da savana.
Andar, tornou-se doloroso. As bolhas eram tantas que já não as conseguia contar. Andar descalço, com as meias a fazer de sapatos foi a melhor opção. As botas, presas uma à outra pelos atacadores, eram transportadas ao pescoço, pendentes sobre o peito, uma para cada lado.
Era imperioso continuar e encontrar o objectivo ou o que quer que nos trouxera ali. A missão teria de ser cumprida dentro dos timings e o Major de operações, sobrevoando a área na pequena Dornier, controlava os nossos passos.
O capitão, agarrado ao pequeno AVP1, comunicava lá para o alto informando da situação e recebendo no retorno, ordens, directivas e informações. Consultava os mapas e conferenciava com os alferes. Até então, nada havia sido encontrado que permitisse adivinhar a proximidade de instalações inimigas e menos ainda se estariam ou não à nossa espera, se iriam dar luta, aquietar-se ou fugir. Parece que, lá de cima, da pequena avioneta, também nada era visto. Àquela altura nem nos devia enxergar.
A proximidade do Cuando revelou sinais do que teria sido uma horta ou coisa parecida. Contudo, era óbvio que há muitos anos ali não era plantado ou colhido o que quer que fosse. Um raquítico limoeiro, enfermo pela falta de cuidados, com dois ou três limões ainda do tamanho de bolotas, fazendo companhia a uma bananeira enfezada que timidamente deixava ver por entre as tenras folhas um minúsculo cacho a desabrochar, era tudo o que restava da horta.
Contornámos o perímetro, penetrámos na mata, voltámos ao rio sem que se tivesse encontrado qualquer trilho ou sinal de vida. Interrogávamo-nos se estaríamos ou não no local certo ou se as informações que estiveram na origem de tão importante operação militar eram ou não correctas. Com o pessoal à beira do esgotamento, quase sem ração de combate e já sem saber onde procurar mais, o Capitão deu ordem de regresso. Ainda havia um longo caminho a percorrer até ao local combinado para a recolha e o tempo urgia.
A decisão, para além de bem-vinda, animou a malta, pelo menos a princípio. Mas o cansaço foi tolhendo os movimentos e atrasando a marcha. As paragens passaram a ser mais frequentes progredindo-se muito pouco.
Era um facto que não seria possível chegar ao ponto definido dentro do tempo programado. Um último esforço levou-nos a um descampado, no meio da mata a menos de meio caminho. Era uma área de vegetação rasteira e sem árvores. Apenas uns paus secos ao alto, espécie de carcaças de árvores mortas, emergiam aqui e ali por entre os arbustos. Era a solução que acabaria com o sofrimento. Bastaria limpar a área de um pau ou outro, cortar os arbustos mais viçosos e teríamos um improvisado heliporto. Era só comunicar o novo local de recolha via rádio e em dois tempos estaríamos em casa.
O homem das transmissões agarrou-se ao rádio, estabeleceu o contacto e em poucos minutos a anuência foi obtida. Numa espécie de energia renascida, cada um se precipitou sobre o que quer fosse considerado obstáculo ao pouso dos helicópteros. Facas de mato substituíram foices e machados. Os troncos secos não resistiram tombando vencidos pela força braçal que os empurrava.
Foi com alvoroço que vimos os Alouette pousar, um a um, por entre um esvoaçar de folhas e retirar-se com a primeira leva em direcção ao aconchego da Neriquinha, tão inóspita e simultaneamente tão acolhedora.
Afinal, de pouco valera o esforço. As bolhas dos pés tinham sido um sacrifício em vão. Com a garganta ressequida pelo pó, desci do helicóptero para a consistência avermelhada da pista e coxeei até à camarata. De momento, o que mais desejava era sentir a fresquidão do duche e esticar-me ao comprido. Quanto às bolhas, sararam depressa, mas durante uma semana andei de chinelos.