sexta-feira, 16 de julho de 2010

Saída para a mata

A saída para a mata, implicava um quase ritual de preparação.
Eram as últimas instruções, a revisão do plano, a verificação do equipamento, do armamento, o arrumo das latas da ração de combate e finalmente subir para as berliets e partir.
Estas imagens recordam um desses momentos. Neste caso, o 4º pelotão partia para mais uma missão. Não recordo o nome da maioria e até algumas caras já me parecem estranhas, mas reconheço o Alferes Aranha, o furriel Mota, o cabo enfermeiro Chiquinho e ainda o soldado Duarte que, bem se pode dizer, foi o responsável pelo início dos reencontros anuais da companhia que se mantêm há muitos anos.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A resistência de um GE

Na guerra colonial em qualquer dos territórios das antigas províncias ultramarinas, o exército português contou sempre com o apoio de grupos recrutados entre a população nativa.
O objectivo era óbvio. Envolver as populações no esforço de guerra e dar-lhes importância eram formas de arregimentar homens que, a não ser assim, poderiam engrossar as hostes dos guerrilheiros.
Para nós, que andávamos no terreno, a importância destes grupos não se esgotava na vertente política e de acção psicológica; era mais do que isso. Não sendo militares formados com o rigor de um exército, apresentavam fragilidades ao nível operacional, mas constituíam uma mais valia importante, designadamente porque conheciam o terreno, movimentavam-se na mata com desenvoltura por largos dias e eram quase auto-suficientes. Conhecedores dos segredos da savana, sabiam onde arranjar alimento, quase dispensando a ração de combate e eram capazes de, com muito menos esforço, vencer distâncias em menos de metade do tempo do que as nossas tropas.
Na verdade, a sua existência era primordial. Poupavam-nos a uma parte das operações esgotantes, aliviando o nosso esforço e constituíam guias de confiança no meio de um terreno isento de pontos de referência onde era fácil perdermo-nos.
Aos elementos destes grupos, denominados GE’s, (Grupos Especiais) era atribuído um ordenado, disponibilizado fardamento e entregue armamento o que, naqueles locais, constituía por si só, razão suficiente para convencer elementos da população a integrarem estas tropas por tempo indefinido.
O grupo da Neriquinha não era muito numeroso. No todo, talvez o equivalente a um pelotão, mas eram suficientes para levarem a cabo missões militares com alguma importância.
Fulai Monjuto era o seu comandante, incumbência que levava muito a sério, impondo aos seus homens disciplina e padrões de comportamento que considerava adequados a tropas. Para além disso, era pessoa de quem se gostava. Fiel ao seu ideal, optara pelo nosso lado por convicção própria, creio, e não porque um qualquer discurso mais bem elaborado o convencera. Acima de tudo era alguém em quem se podia confiar.
No outro lado da barricada um grupo de guerrilheiros movia-se entre território angolano e as suas estruturas de suporte na Zâmbia, atravessando a fronteira através de caminhos que cruzavam a chana do Cuando e que procurávamos controlar. Operavam algures na savana imensa da Quirongosa lá para os lados de Mavinga, em bases móveis suficientemente afastadas e difíceis de localizar. O seu comandante, dizia-se, dava pelo nome de Kuenho e constava que seria um irmão, ou meio-irmão, do Fulai.
Contudo esse parentesco nada representava em termos de afinidade ou afectividade. Por ali, os guerrilheiros consideravam os GE’s traidores à causa e falava-se do ódio visceral que nutriam uns pelos outros.
O Kuenho e os seus homens já tinham sido acossados por diversas vezes em operações levadas a cabo por grupos de comandos, chegando a constar que o seu comandante tinha sido abatido numa das incursões feita pelo capitão Vítor Alves quando comandou a Companhia da Neriquinha, um par de anos antes de nós. Mas não havia certezas de que isso fosse verdade.
Parece que o grupo se tornou mais activo do que seria de desejar, facto que terá determinado a preparação de uma grande operação visando controlar os seus movimentos e anular a operacionalidade que vinha manifestando.
Dessa demanda não conheço pormenores, já que as justificações para as operações e forma como eram preparadas ficavam sempre nos segredos dos gabinetes das altas patentes. A nós, apenas competia executá-las sem refilar e sem fazer perguntas e normalmente sem se saber ao que íamos.
A verdade é que foi preparada uma operação envolvendo parte significativa dos efectivos das companhias da Neriquinha e Mavinga incluindo os respectivos grupos de GE’s, operação levada a cabo com grande aparato e estratégia meticulosa de progressão no terreno que deveria bater parte da imensa savana da Quirongosa e um largo troço das margens do rio Toss. Assim, a força foi dividida em dois grupos: um, constituído pelos GE’s e outro, pelo conjunto do pessoal da 3441 e da companhia de Mavinga. O objectivo seria bater o máximo de área possível, encontrar infra-estruturas do inimigo, destruí-las e pelo caminho recolher indícios da sua actividade.
Parece que esse desiderato não foi atingido, já que nem sinais dos guerrilheiros, o que não constituía surpresa. Numa área tão imensa e incaracterística, tinham toda a vantagem a começar pela sua resistência passando pelo conhecimento do terreno e acabando nas suas aptidões inatas de subsistência e sobrevivência.
Mas não andavam longe. Pelos vistos resolveram ignorar a tropa e, sem se fazerem notar, seguir na peugada dos GE’s. Ou então a descontracção e excesso de confiança dos GE’s, talvez resultante dos muitos anos que levavam naquelas andanças sem que tivessem sofrido dissabores graves, deixava-os descontraídos, talvez de mais. Ao fim da tarde, aportaram à chana que ladeava o rio que por ali corria. Já o conheciam como um lugar aprazível, ideal para descansar e pernoitar.
Largaram os equipamentos por aqui e por ali, abandonaram as armas pelo chão ou encostadas às árvores, descalçaram-se, despiram-se e correram para a fresquidão da água para se livrarem do pó que se colara ao suor do corpo.
O grupo do Kuenho esperou pela melhor oportunidade e no exacto momento em que a descontracção era total, despejaram todo o seu poder de fogo sobre os GE’s que, estando em campo aberto e sem o que quer que seja onde se pudessem proteger, foram caindo um após outro sob o fogo intenso do inimigo sem a mínima oportunidade de chegarem às armas abandonadas a escassos metros.
A tarde calma tornou-se rapidamente num inferno cruzado por balas vindas de todos os lados contra GE’s seminus e descontraídos. Encurralados, desorientados e desarmados, procuraram a fuga sem sentido ou lógica por entre a impiedosa metralha. Correram pela mata sem olhar para trás. Os primeiros chegaram a Mavinga algumas horas depois, sem roupa, sem ânimo, sem nada, quase mortos de cansaço, derrotados até ao mais profundo dos seus sentimentos. Para trás, prostrados no terreno, ficaram os corpos dos que não conseguiram escapar.
No dia seguinte, uma missão de resgate, com ajuda da força área, contou treze mortos. Quatro eram do grupo da Neriquinha entre os quais o do seu comandante. O corpo de Fulai Monjuto jazia, crivado de balas, muito mal tratado, a evidenciar a fúria, a raiva vingativa e o ajuste de contas dos seus conterrâneos que militavam no outro lado da barricada.
Mas havia um quinto elemento do grupo do Fulai. Seminu, ensanguentado, apresentava feridas de bala por quase todo o corpo. Pelos vistos nenhuma atingira um órgão vital. Inanimado terá sido dado como morto pelo inimigo. Sobre a madrugada, o frio do cacimbo despertou-o, mas estava demasiadamente ferido para se mover. Um helicóptero levou-o para Serpa Pinto, sem grandes esperanças. Na altura parecia impossível ainda estar vivo. Mas, contra todas as previsões, recuperou.
Falei com ele quando regressou à Neriquinha passada a fase da convalescença. Falava pouco. Como resposta às nossas perguntas apenas sorria e despia a camisa para mostrar as cicatrizes. Era impressionante a forma como o seu corpo ficou marcado. Mesmo que não tenha sido atingido num órgão vital, o que só por si parecia impossível, não era crível que um ser humano pudesse ter resistido a tanto. O GE tinha certamente uma estrelinha protectora ou então um anjo-da-guarda muito influente.
Quanto ao Kuenho, soube-se mais tarde que uma operação mais bem sucedida, levada a cabo já depois de termos saído do Cuando Cubango, logrou abatê-lo. Parece que hoje é um herói angolano. Dizem que existem várias escolas e alguns monumentos que foram baptizados com o nome “Comandante Kuenho”. Creio que apenas o pessoal da 3441 se recorda do Fulai Monjuto. Boas recordações certamente. Contudo, nenhum se lembrará sequer onde foi sepultado. Onde quer que tenha sido, para lá ficou sem epitáfio, honrarias ou reconhecimento por parte da causa que serviu.

sábado, 19 de junho de 2010

A HORTA

Num simples rectângulo de terra correndo lateralmente pela periferia do arame farpado, logo ali junto à pista ao lado do barracão que albergava os dois cabos da força aérea, se fez uma horta.
Inicialmente mais parecia não passar de um entretém que ocupava diariamente o cabo Coelho. Nem a área nos parecia suficiente nem a aridez envolvente prometiam grandes colheitas, pelo menos algo que valesse a pena.
Sim, seria mais uma forma de nos aproximar dos costumes lusos, dando corpo à máxima de que onde haja um bocado de terreno o português faz uma horta.
Mas naquele lugar nada pode ser comparado ao nosso rectângulo à beira mar plantado. O que quer que se lançasse à terra crescia desmesuradamente e a uma velocidade inesperada. Um poço com poucos metros de profundidade escavado ao lado fornecia água em abundância. Uma alavanca com um balde na ponta e alguma força braçal faziam correr pelo terreno, sempre que fosse preciso, a água necessária para a rega. Isso, o conhecimento do ofício por parte do cabo Coelho e o trabalho dos dois ajudantes, jovens assalariados recrutados na população, muito sol e chuvas abundantes, era tudo o que era necessário,
Feijão verde, alfaces e pimentos com o dobro do tamanho dos que conhecia, permitiam compor a ementa do cozinheiro. Umas sementes de tomate, creio que vindas do Algarve por intermédio do capitão (algarvio de gema) transformaram-se rapidamente em plantas enormes, garantindo uma colheita diária de tomate fresco e adocicado. As saladas eram bem vindas e a quantidade deu em certa altura para servir salada a toda a companhia. Até amendoim se semeou.
A evidente fertilidade daquelas terras inspirou o capitão. Um dia decidiu que se faria uma horta para a população local. Com tão poucos recursos disponíveis, uma produção hortícola logo ali ao lado, seria certamente um bom aconchego a estômagos habituados a pouca coisa.
Envolveu os GE’s, o Soba e os Séculos, constituiu uma equipa, escolheu-se o local e metemos mão à obra.
Limpou-se uma área considerada suficiente, deu-se início à abertura do buraco à procura de água, ali disponível a pouco mais de meio metro de profundidade, e tudo ficou pronto para a sementeira.
Creio que nunca ali foi plantado o que quer que fosse e rapidamente o capim tomou conta do espaço. A população não estava habituada a comer tomates, pimentos alfaces ou feijões e obviamente não deu seguimento ao projecto. A sua agricultura, naturalmente de subsistência, reduzia-se ao milho e ao massango que as mulheres semeavam no início da época das chuvas em pequenas áreas espalhadas pela mata. As abundantes chuvas que regavam a região durante mais de metade do ano eram mais do que suficientes para dessedentar culturas tão pouco exigentes. Depois era esperar pela altura das colheitas, transportar as espigas para o Kimbo, mais uma vez pelas mulheres, ou então com a ajuda das nossas viaturas. O grão era por fim guardado em celeiros artesanais com cobertura de capim e empoleirados em paus que os elevavam acima do solo.
Lembrei-me várias vezes do meu pai. Madeirense, habituado desde sempre a ver cada insignificante leira de terra aproveitada para o plantio de tudo o que era necessário, acharia estranho aqueles imensos baldios a perder de vista, totalmente desaproveitados. Ainda por cima uma terra macia, fácil de trabalhar e com água em abundância.












terça-feira, 1 de junho de 2010

O pôr-do-sol na savana

África, na sua inexplorada imensidão, é um mundo selvagem e hostil. Os seus grandes desertos não são locais que sirvam para dar abrigo ao ser humano. Dos poucos que por ali vivem apenas recordo os pequenos e irrequietos bosquímanes que desenvolveram o seu metabolismo adequando-o às exigências de tão inóspito lugar.
O bocado de fim de mundo que constitui a província angolana do Cuando Cubango, é composto na sua maior parte por uma savana encalacrada entre os dois grandes desertos africanos: o imenso Kalahari e o caseiro deserto de Moçâmedes.
Dois dos maiores rios angolanos deram o nome à província: o Cubango que nascendo no centro do território delimita a província a oeste, estabelece boa parte da fronteira com a Namíbia e acaba por morrer fundindo-se no enorme pântano do Okavango depois de percorrer cerca de 1.600 quilómetros e o Cuando que empresta parte do seu curso para definir a linha de fronteira com a Zâmbia, indo desaguar no Zambeze depois de atravessar a Faixa de Caprivi, território namibiano que constitui um dos mais conhecidos "cabo de frigideira" (panhandle) da geografia mundial.
A Neriquinha e toda a área de actuação da 3441 confinavam a leste com as margens deste rio e seus inúmeros afluentes, parecendo-nos o local mais remoto de todo o imenso território angolano. Por alguma razão alguém apelidou o Cuando Cubango de Terras do Fim do Mundo, como ainda hoje é conhecido.
Era um ambiente hostil que intimidava quem por ali aportava e só aos poucos e poucos, à medida que cada troço de picada, cada chana, cada recanto mais escondido se ia tornando familiar, fomos sendo capazes de apreciar a beleza selvagem e indescritível que todos os dias se exibia provocadora perante intrusos que dificilmente aceitariam ali viver de livre vontade.
Ainda assim, mesmo passado mais de um ano de por ali deambular nas frequentes operações de controlo do inimigo, sentia sempre um certo desconforto toda a vez que uma nova missão me levava para além das zonas já conhecidas, não obstante a semelhança entre cada recanto percorrido.
Uma noite de chuva diluviana ou um dia atormentado por trovoadas aterradoras acompanhadas de relâmpagos que se anunciavam como disparos de roketes, rachando árvores como se abertas de uma assentada por gigantescos machados invisíveis, compunham visões feéricas que pareciam querer amedrontar quem ousava profanar aquelas paisagens apenas molestadas pelas forças da natureza.
No entanto, todo aquele mundo de ninguém tinha a sua faceta simpática. Não era difícil olhar para tudo o que nos rodeava e encontrar pormenores de beleza indescritível, desde a imponência real da grande palanca preta, da elegância das gazelas passando pela ferocidade de búfalos com cara de poucos amigos até ao desajeitado galope dos gnus para só falar de alguns dos elementos que compunham a rica fauna que diariamente desfilava perante os nossos olhos.
Dependendo da sensibilidade de cada um, até o colorido da mais pequena flor que se abria ao sol depois das primeiras chuvas, pincelando de cores múltiplas a paisagem agreste, no meio de capim verdejante, oferecia um contraste de beleza no meio daquela imensidão de mato que, durante a época seca, alimentava queimadas gigantescas num afã destruidor de tudo transformar em negro até as primeiras chuvas voltarem a pintar de verde toda a paisagem.
Contudo, o grande actor, imponente e castigador que por ali se exibia durante todo o ano, era o sol. Depois de infernizar a vida de todo o ser vivente que se atrevesse a pisar o seu palco, recolhia-se ao fim de cada dia em espectáculos impossíveis de descrever, numa autêntica explosão de cor, pintando quadros diferentes sempre que se recolhia, desaparecendo de seguida como se se enterrasse na linha do horizonte.
É verdade, o pôr-do-sol na savana era sempre um espectáculo que me deslumbrava a cada fim de dia.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

SENTINELAS

Naquelas paragens havia uma importante preocupação diária - a segurança.
A hipótese de um ataque ao aquartelamento não era ficção e não podia nunca ser encarada com leviandade. Aliás, o ideal seria pautar o nosso comportamento considerando como altamente provável a ocorrência de um ataque. Erro seria admitir o contrário, mesmo sabendo que isso não acontecera com as companhias que nos antecederam. E todos levavam isso a sério como ficou demonstrado certa vez, por alturas da visita do segundo comandante do Batalhão, episódio já anteriormente descrito pelo Cabrita.
Assim, era imperioso que uns se encarregassem da segurança dos outros, especialmente enquanto dormiam. Sim, alguém tinha de ficar permanentemente acordado, tarefa que competia, em primeira linha, aos praças de acordo com a escala de serviço. Em segunda linha, ao sargento-de-dia, cuja missão era velar por quase tudo o que se passava no aquartelamento no espaço de 24 horas, incluindo as rondas nocturnas por todos os postos de sentinela procurando garantir que ninguém dormia no posto.
Relativamente ao serviço de sargento-de-dia e considerando que éramos cerca de uma dúzia, a tarefa era mais suave. Doze dias de intervalo entre cada serviço garantiam pelo menos onze noites de sono sem interrupções. Mas no que toca aos praças, a coisa era bem mais penosa.
Ao longo dos quatro lados que definiam o perímetro da cerca de arame farpado que delimitava o local, haviam sido construídos frágeis postos de sentinela empoleirados sobre quatro paus e protegidos por chapa ondulada. Não me recordo de quantos eram. Só sei que garantiam a vigilância em todas as direcções.
Durante o dia, apenas eram escaladas duas sentinelas, uma cobrindo o lado da pista e outra garantindo segurança à parte de trás que confinava com a mata que, por razões de segurança se procurava manter desbastada de forma a garantir uma faixa desmatada de cerca de 100 metros, mais coisa menos coisa, entre limite do arame farpado e a orla da mata.
Durante o dia, o calor intenso transformava em martírio as duas horas de cada quarto de sentinela, fazendo com que alguns procurassem um pouco de sombra no chão por debaixo do posto.
Contudo, à noite era muito mais penoso. O frio no tempo do cacimbo, o desconforto de um homem só no meio da escuridão enquanto outros dormiam e o desejo do conforto de uma enxerga, tornava quase em castigo o trabalho de garantir a segurança dos demais. Ainda para mais, durante a noite, era preciso reforçar a vigilância colocando um homem em cada um dos postos existentes. E como a rendição ocorria a cada duas horas, por cada posto eram necessários homens suficientes para garantir o reforço desde as oito horas da noite até às oito da manhã do dia seguinte. Ou seja, seria necessário a quase totalidade do efectivo de um grupo de combate para assegurar a vigília.
Ora uma companhia apenas tem quatro grupos de combate e como um estava em permanência no destacamento do Rivungo, isso significava que em média cada homem teria de estar de sentinela, à noite, pelo menos de três em três dias.
O pior era quando um dos grupos era destacado para uma das frequentes operações que constituíam a nossa principal missão naquelas bandas, passando dois, três e por vezes quatro dias a deambular pela mata.
Os que ficavam teriam de garantir a segurança, agora mais premente, dada a redução dos efectivos. Feitas as contas, era quase certo que os que ficavam tinham garantido um quarto de sentinela, noite sim, noite sim, pelo menos enquanto durasse a operação.
Numa dessas alturas, competindo a segurança ao meu grupo de combate e tendo eu acabado de afixar a escala de sentinelas que elaborara com muito cuidado, sou interpelado por um dos soldados que, tendo estado de reforço na noite anterior se revoltava ao ver o seu nome de novo na escala para a noite seguinte.
Procurei explicar que, estando quase dois pelotões na mata, isso iria acontecer também no dia seguinte e que o mesmo se passava com os outros. Não havia alternativa, conforme parecia claro de acordo com as listas constantes da folha de papel que exibia.
Mas nada o convencia. Que não podia ser! Alguém estaria de certeza a ser beneficiado e isso só poderia significar que eu tinha qualquer mala-pata contra ele.
Tentei acalmar o homem, expliquei que não, mostrei as escalas anteriores e procurei que percebesse que não havia solução.
Não convencido e com ar nitidamente agastado, virou costas e com um gesto de resignação, desabafou.
- O meu furriel é que sabe ... você é que leu os livros!
E, retirou-se remoendo impropérios, não sei se a mim, se à sua sorte.

sábado, 1 de maio de 2010

O NOSSO PRIMEIRO

Creio que não será difícil imaginar a quantidade de problemas administrativos que uma companhia, ou qualquer outra unidade militar, enfrenta no dia-a-dia. Imagine-se agora essa companhia num teatro de guerra e acrescentem-se as dificuldades inerentes. Condimente-se o bolo com a ausência de vias e meios de comunicação e ao facto de me estar a reportar a um tempo em que o computador era peça de ficção.
Aposto que a grande maioria do pessoal da 3441, incluindo oficiais, sargentos e praças, nunca chegou a aperceber-se plenamente da complexidade e dimensão das minudências de natureza administrativa e financeira que em cada dia tinham de ser resolvidas.
Para tudo havia uma dotação, um limite financeiro, uma verba com a correspondente burocracia plasmada à saciedade nas NEP’s, nos códigos, regulamentos, circulares, ordens e instruções produzidas na retaguarda pelos guerreiros do ar condicionado.
Para tudo havia um impresso, um modelo, um formulário um relatório. E tudo tinha de bater certo, ao centavo, o débito igual ao crédito. Até as munições eram contadas, sendo exigidos relatórios rigorosos a justificar cada bala disparada. Um mundo de burocracia capaz de dar cabo dos nervos e fazer a cabeça em água a qualquer um.
Para dar conta de tudo isso, só os profissionais da tropa, que sabiam decorado de trás para a frente e salteado, todas as regras, todos os prazos e datas-limite. Conheciam os impressos, o número de vias e respectivas cores. Sabiam quando e para onde deviam ser remetidos: era uma exemplar disto para o comando no Cuito Cuanavale, um exemplar daquilo para o comando da Zona Militar Leste, outro para a manutenção militar no Luso, um original de qualquer coisa para o quartel General, a requisição de qualquer peça para o serviço de material. Enfim o paraíso da burocracia.
Eram tarefas com que o Capitão teria de lidar. Ele era o responsável máximo pela ordem e cumprimento daquele mundo de confusão. Só que o nosso pertencia à primeira leva de capitães milicianos, comandantes que o exército recrutou à pressa esgotado que estava o quadro dos formados na academia. O nosso capitão era, assim, um perfeito ignorante (sem ofensa) dessas andanças sobre as quais, quanto muito, teria aprendido umas luzes durante o pouco tempo que levava de tropa. E isso punha-o à mercê do primeiro-sargento que lhe calhasse. Numa companhia, o primeiro-sargento era uma espécie de chefe de secretaria, contabilista, tesoureiro e escriturário-mor, autêntico mangas-de-alpaca que dominava esse mundo de papéis e burocracia. E isso não era muito bom. Os sargentos, profissionais da tropa, não tinham lá muito boa fama. Eram conhecidos na gíria por, chicos. Aliás, chico era todo aquele que, uma vez acabado o serviço militar obrigatório resolvia ficar, continuando agarrado à farda e às exigências da disciplina militar. Dizia-se então que:
- Meteu o chico.
Um chico, naquele tempo, era sempre alguém que trazia colado à pele um acervo de epítetos mais ou menos soezes, ou pelo menos, maledicentes. O chico era um lateiro, um retrógrado boçal, agarrado ao dinheiro, capaz da maior das vilanias por meia dúzia de tostões. Se o rancho não agradava, a culpa era do sargento que, para poder gamar algum, cortava na carne (mais cara) e aumentava a quantidade de massa e feijões (mais baratos).
O chico, naturalmente mal-humorado, fazia exigências só para chatear, para compensar o seu complexo de inferioridade. Por oposição, era um autêntico lambe-botas, excessivamente subserviente perante qualquer um que tivesse patente superior à sua.
O sargento chico era, em suma, alguém que, se não tinha o proveito, da fama não se livrava. Se ficou na tropa era porque se queria encher, enriquecer à custa dos outros. Era como se exibisse um estigma, um rótulo colado à pele que catalogava a classe, embora durante o tempo em que fui militar (três anos e uns mesitos) tenha encontrado muitos que não encaixavam nesta definição.
Imagino assim os temores que o capitão Cabrita terá sentido no princípio da sua espinhosa missão, ao concluir que estaria nas mãos do primeiro-sargento, ainda sem saber se lhe saíra em sorte um dos bons ou dos outros.
Mas o Cabrita devia ter uma estrelinha cintilante que o amparou durante a sua efémera missão de garante do cumprimento das mil e uma normas do injuntivo regulamento militar. Coube-lhe em sorte um dos bons, direi mais, dos melhores.
Não foi preciso muito tempo para todos perceberem que nos saiu na rifa um dos melhores sargentos do exército português. Ao nosso Primeiro, de seu nome Manuel António Pinto, não se aplicava nenhuma das características condenáveis que se costumavam apontar aos chicos:
Desde logo ficara demonstrado que não era lateiro. É certo que não costumava achar que o rancho era sempre bom. Mas comia e não barafustava, talvez porque, lá no íntimo, tivesse consciência que os escassos vinte e dois escudos e meio por dia que o vagomestre dispunha para alimentar cada homem, compunham um magro orçamento que não permitia lautas refeições, Acredito, contudo que, se assim não fosse, o seu profissionalismo não lhe permitiria a veleidade de refilar da qualidade do que lhe punham no prato.
Comia naturalmente do rancho como todos os outros, ocupando um qualquer lugar na mesa corrida da messe de sargentos, em amena cavaqueira com os jovens que na altura integravam o grupo de furriéis da companhia.
Por outro lado e em evidente contradição com a maledicência, era uma pessoa pacífica culta e educada, para além de bem-humorado. Todos o respeitavam, não por temor, ou porque o exigisse. Respeito, merecia-o naturalmente e todos lho reconheciam.
Era um homem maduro, na casa dos quarenta anos, mais ou menos o dobro da idade da maioria dos furriéis que compunham o corpo de sargentos da companhia. Sendo apenas o camarada mais velho e sem querer exagerar, era como se fosse nosso pai, ou se se quiser, um irmão mais velho, bem mais velho.
Sábio, sabedor, ponderado e dotado de bom senso em quantidade generosa, a sua opinião avisada foi, aos poucos, sendo considerada importante, necessária, quase obrigatória.
- Oh meu primeiro! O que me aconselha…?
Perante a pergunta, respondia sempre com voz pausada, carregando nos esses a denunciar a sua origem nas frias terras altas da Guarda.
Se entendia que não deveria aconselhar, recomendava:
- Você é que tem de decidir.
E rematava com o seu sotaque beirão:
- Pense bem que há-de encontrar a resposta.
Passava o dia na secretaria, tratando da papelada, controlando os orçamentos e dali apenas saía para o almoço e no fim do expediente, percorrendo, no seu passo lento e seguro, o caminho de tabuinhas que separava a secretaria da messe. Ao fim do dia, sentava-se junto a nós entrando na conversa e contando estórias antigas. Ria-se com gosto das brejeirices que apimentavam factos passados da sua juventude e partilhava connosco as suas alegrias, pelo menos algumas. Lembro-me do seu indisfarçável contentamento ao divulgar, entusiasmado, após o regresso de férias, que tinha comprado um carro novo. Para ele o modesto Citroën Ami 8 que comprara era um carrinho muito bom, uma maravilha. Ficava assim demonstrada a sua natural e não cultivada modéstia.
Não obstante o Cuando Cubango ser abundante em caça, nunca vi o primeiro-sargento sair para a mata com esse objectivo, muito embora, por uma questão de necessidade se fizessem frequentes incursões de caça. Contudo, fazia questão de integrar um pequeno grupo que, incluindo o capitão, o médico e mais um ou outro, se entretinha, após o jantar e a coberto da noite, a apanhar uns quantos coelhos que habitavam no terreno tangencial à pista no lado norte.
Utilizando um velho Jeep Willis de três velocidades e que consumia cinquenta litros aos cem, percorriam a pista até ao fim, trazendo no regresso quatro ou cinco coelhos que, encadeados pelos faróis, se deixavam apanhar. O petisco que com eles se fazia e a que o primeiro não resistia, era um autêntico regalo para papilas gustativas adormecidas pela comida sensaborona do rancho.
E assim, durante algum tempo, quatro ou cinco coelhos eram diariamente sacrificados, até que, não sei se porque deixou de ter piada, se porque a ninhada se mudou para outras paragens ou se foi simplesmente dizimada, foi dado por findo o entretém.
Quanto ao mais e como é bom de ver, o Primeiro era um homem rigoroso no cumprimento dos seus deveres. Mas não era apenas exigente consigo. Sem que alguém alguma vez o tenha ouvido reclamar ou exigir rigor no comportamento, sabíamos que gostava que todos se comportassem com zelo e lealdade, de acordo com as regras. Disso se apercebeu o furriel das transmissões, que fora designado para gerir a cantina.
Foi demitido dessas funções, simplesmente porque as contas apresentadas, ou não o convenciam ou não estavam de acordo com os procedimentos que ele considerava os correctos. Nunca soube exactamente o que terá feito o furriel para assim ser demitido, já que a lisura profissional do primeiro-sargento Pinto nunca lhe permitiu divulgar. Simplesmente me comunicou que tinha proposto ao capitão que, a partir daquele momento, seria eu a lidar com as coisas da cantina.
Das razões de facto, provavelmente só o capitão teria sido informado. Homem leal, discreto, solidário e íntegro, o capitão podia ter a certeza que se houvesse algo que só a ele devia ser dado conhecimento, mais ninguém o saberia.
Era também um bom coração, um amigo que se preocupava com os sentimentos dos outros. Ainda hoje recordo a forma cuidada que usou para me comunicar o desfecho trágico do acidente que matou o Gonçalves. Demonstrando que a sua perspicácia não se confinava às coisas da secretaria, apercebera-se que a relação de amizade que me unia ao Gonçalves era forte. É claro que sabia sermos conterrâneos mas, ainda assim, saberia que essa não seria a principal razão que nos tornara amigos. Sendo um dos primeiros a ter tido acesso à mensagem que, transmitida via rádio a partir do Rivungo, anunciara a desgraça, aprestou-se, pessoalmente, a comunicar-me, com cuidado mas sem grandes rodeios, que não mais veria o meu amigo e companheiro.
Na altura não medi bem o alcance do gesto. Tomei-o como sendo apenas o mensageiro da desgraça. Só mais tarde me dei conta que isso revelara muito da sua personalidade de ser humano. Preocupado com os sentimentos dos outros, fez questão de me pôr ao corrente do facto antes que a notícia corresse os quatro cantos do aquartelamento como sussurro funesto ameaçando a tranquilidade e os sentimentos de cada um.
É notório. Eu gostava do nosso primeiro. Ainda hoje gosto. É sempre com indisfarçável alegria que o revejo ano após ano por ocasião dos nossos encontros anuais. Comparece sempre que pode, especialmente se o local do encontro não for muito longe. A idade já não lhe permite grandes caminhadas. Mas gostamos de o encontrar de boa saúde. Tenho a certeza que esse é o sentimento de todos.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Encontro do Batalhão - Fátima

Como provavelmente a maior parte já se deu conta, este ano gerou-se um conflito de organização de encontros, que estamos a procurar resolver a contento de todas as partes.
O companheiro João Águas, da C. Caç. 3442, vinha manifestando há mais de um ano o propósito de promover um encontro a nível do Batalhão. Uma organização complexa, mas que o J. Águas se propôs levar em frente.
Ocorre que, por motivos que não importam agora avaliar, não foi possível promover uma conciliação de propósitos de modo juntarmo-nos ao evento organizado pelo João Águas. Por esse motivo, todos terão recebido duas cartas: uma para Chaves e outra, mais recente, para Fátima.
Assim e para atalhar caminhos, importa agora informar que se tentou resolver o impasse, mas sem sucesso.
Assim; mantém-se marcado o evento para Chaves.

Mas, se alguém quizer ir a Fátima, o evento vai permitir, pela primeira vez a reunião das quatro companhias do batalhão 3857 onde estará o 2º comandante do batalhão, Ex- Major Caetano (hoje general).

O encontro será no dia 29 de Maio no Largo da Cruz Grande (lado direito do Santuário de Fátima) onde será celebrada missa por alma dos falecidos do batalhão.

O almoço terá lugar no restaurante TRUÃO, a 5 Km na estrada de Minde.

As inscrições para o encontro deverão ser feitas até ao dia 15 de Maio:

- Por SMS para o 96 582 34 91 – com o seguinte texto: “C.Caç. 3441 – Nome do participante (x pessoas)”
- Directamente para os telefones: 96 582 34 91 (João Águas de Faro) ou 96 793 56 48 (Carlos Almeida de Vila Real)
- Por email – mailto:joaoaguas@gmail.com ou carlosacalmeida@hotmail.com - indicando sempre o Nome, Companhia e nº de pessoas.

Contamos com a vossa presença

terça-feira, 20 de abril de 2010

A BARBEARIA

Se outra coisa não houvesse, as rígidas regras do atavio militar obrigariam à existência de uma barbearia. Na Neriquinha havia uma, logo ali nas traseiras do depósito de medicamentos localizado ao lado da messe de oficiais.
E tendo de haver uma barbearia, também teria de haver um barbeiro, mas alguém que na vida civil já tivesse exercido a profissão, já que, se bem me lembro, esta especialidade não era ensinada na tropa.
O problema é que, com vinte anos, a experiência de quem quer que tivesse sido profissional da arte, seria pouca ou nenhuma no manuseio de ferramentas mecânicas de cortar cabelo, já que ainda não tinham sido inventadas as movidas a electricidade. E, se as houvesse, de pouco serviriam, já que, electricidade era um bem raro que apenas estava disponível do cair da noite até à hora do recolher e, ainda assim, sujeito aos humores e achaques do pequeno gerador.
Recordo, contudo, que nem toda a gente recorria aos préstimos do barbeiro encartado, cuja especialidade oficial era a de corneteiro, arte para a qual também não revelava jeito especial. Era uma situação igual a tantas outras na tropa. Os estrategas escolhiam quem bem entendiam para o desempenho de ofícios vários sem se preocuparem se os seleccionados tinham vocação ou não. Mas enfim, tudo se passava sem grandes problemas, recorrendo-se amiúde à arte maior do desenrasca. Apenas se barafustava quando o cozinheiro feito à força se revelasse um clamoroso erro de casting o que, para nossa desgraça, acontecia mais vezes do que seria de desejar.
Bem, voltando à barbearia, a verdade é que, ao fim de algum tempo, muitos se aperceberam que o corneteiro, para além de não ter jeito para a corneta, também não tinha para cortar cabelo, transformando a ida à barbearia em sacrifício, agravado pelas mal afiadas ferramentas, rombas de tanto mau trato.
Mas o problema haveria de ser minimizado pelo cabo Vilela. Radiotelegrafista, com jeito para muita coisa, viu-se transformado no homem dos sete ofícios capaz de tudo concertar. Revelando um jeito muito especial para convencer o gerador a não fazer birras, também dava uma perninha em coisas tão díspares como sejam, a arte da fotografia e, está bem de ver, a de cortador de cabelo.
E é assim que a barbearia, pelas mãos do Vilela, saiu do seu cubículo escondido atrás do armazém de medicamentos e instalou-se ao ar livre, perto do balneário, com uma crescente clientela a entregar-se nas mãos do improvisado artista que não perdia a oportunidade de inventar cortes da moda, muito apreciados pelas hierarquias militares.
Como ferramentas, apenas uma tesoura (arranjada não sei onde) e um pente.

sábado, 10 de abril de 2010

Almoço anual de confraternização

Tal como tem vindo a acontecer nos últimos 18 anos, vamos realizar o almoço anual de confraternização dos ex-militares da 3441. É sempre no último sábado do mês de Maio.

Este ano a organização ficou a cargo do João de Sousa (ex- 2º sargento) e por isso será em Chaves.

Local:
Albergaria Borges
(vê na Internet)
Estrada Nacional nº 2
Outeiro Jusão
Chaves

Dia: 29-Maio-2010
Hora: 13 horas

Ementa:

Entradas:
Paté da casa, azeitonas, bolos de bacalhau, rissóis, presunto, camarão.
Carne:
Misto de cabrito e vitela assada no forno e feijoada à transmontana
Sobremesas:
Sobremesas variadas da casa, frutas laminadas (buffet)
Bebidas:
Vinhos maduros e verdes reserva da casa (brancos e tintos), refrigerantes variados, água
Café.

Preço: 25,00€ por pessoa
Para quem quizer ficar em Chaves e dar uma volta pelas redondezas pode pernoitar na Albergaria. O preço do Alojamento é de 40,00€ por casal, com pequeno almoço incluído.

Importante:
Confirmar a presença até ao dia 12 de Maio, para:

João de Sousa
Telefone: 276 327 367
Móvel: 939 577 970

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Férias - O contraste com a civilização


Incontidos desejos e saudades de quase tudo o que deixara para trás impeliam-me a uma fuga da Neriquinha. Mais de nove meses haviam passado desde que, sem data de regresso agendada, fui largado no meio daquela terra de ninguém para onde não confluíam estradas e aonde ninguém estava interessado em ir a não ser que a isso fosse obrigado. E nem o facto de partilhar aquela autêntica viagem à pré-história com mais 140 homens evitou que, de quando em vez, me sentisse na pele de Robinson Crusoé. Não estávamos numa ilha, mas a ausência de tudo e a inexistência de contacto com o mundo exterior quase me convencia do contrário. Um pequenino avião trazendo correio duas vezes por semana, o Nord Atlas às terças-feiras com os frescos e o MVL uma vez por mês com o reabastecimento de tudo o que não era perecível, eram as únicas visitas a que tínhamos direito.
A nossa vida estava confinada a um singelo quadrado delimitado por uma tosca cerca de arame farpado, onde pouco mais de uma centena de homens fardados ou quase, faziam companhia uns aos outros à medida que o calendário se arrastava penosamente na contagem lenta dos dias. À volta, apenas mata, atravessada aqui e ali por picadas formadas pelos rodados das viaturas que, saindo daquela espécie de acampamento, levavam a lugar nenhum.
Vivíamos assim no meio da natureza selvagem, na sua maior parte nunca tocada e sem nada de permeio. Nem muros nem amarras. Apenas uma frágil cerca de arame farpado nos separava da savana imensa. Sair do perímetro e trilhar aqueles caminhos, implicava riscos a exigir cuidados especiais, obrigando a carregar equipamento de combate, nem que a saída se destinasse apenas a recolher, a pouco mais de dois ou três quilómetros, a lenha necessária para a cozinha ou para aquecer o artesanal forno de pão.
Vivia-se assim uma espécie de claustrofobia em campo aberto que alimentava o tédio e condicionava os comportamentos. Sem terem para onde ir, alguns procuravam enganar o juízo vestindo a inútil roupa civil guardada no fundo das malas e passeavam-se enterrando os sapatos na areia para percorrer os escassos 50 metros que separavam a caserna do barracão onde funcionava a cantina. Tudo apenas pelo prazer de beber umas cervejas com indumentária colorida, em busca de memórias das esplanadas da grande cidade.
Por ali não havia mais nada. As localidades mais próximas resumiam-se ao Rivungo e a Mavinga. Mas estas, ficavam a cerca de 7 horas de viagem por picadas empoeiradas e pouco mais tinham do que meia dúzia de barracões cobertos a folhas de zinco onduladas em tudo idênticos aos da Neriquinha. Tirando isso, as cidades mais próximas eram quase inacessíveis; o Luso, a cerca de uma hora e meia de avião e o Cuito Cuanavale, a três ou quatro dias por picada e que ninguém estava interessado em visitar. Mais longe, a cidade de Serpa Pinto, de onde provinha o MVL.
Ao fim de algum tempo, já ninguém se lembrava que, lá longe, existiam lojas, restaurantes, esplanadas e imaginem lá, café … cremoso, tirado à pressão. As saudades que eu tinha de saborear uma bica bem tirada. E um bife na Portugália empapado em molho de mostarda … e … e tudo o mais.
- Será que em Belém ainda fabricam pastéis de nata? Interrogava-me em diálogo com os meus botões.
- E na Trindade, ainda serviriam búzios? E pregos no pão?
O facto é que na Neriquinha não havia nada disto.
Também não havia ruas, nem carros. Logo, trânsito era coisa de ficção. E o mesmo se podia dizer das regras de trânsito. Prioridades, pisca-piscas, ultrapassagens e tudo o mais, eram coisas inúteis. As três berliets e os quatro ou cinco unimogs que constituíam a frota da 3441 andavam por onde fosse preciso, seguindo as direcções que os condutores entendiam ser as melhores, sem preocupações com regras de trânsito. Aliás pensar nisso até seria ridículo.
Assim, o dia-a-dia, monocórdico e quente, não variava. Dormia-se numa camarata, sempre com as mesmas pessoas por companhia. Já se conheciam os diversos timbres do ressonar de cada um e familiares os seus tiques e manias.
- Lembram-se que o Viola dormia de boca aberta?
Um dia, alguém, não me lembro quem, espremeu para dentro da boca do Viola um tubo inteiro de pasta de dentes. Foi uma risada geral quando, engasgado, acordou estremunhado cuspindo violentamente e raispartando contra todos.
Nas andanças de cá para lá, percorrendo os passadiços de tabuinhas construídos para evitar a areia, cruzávamo-nos sempre com as mesmas pessoas.
Ao almoço e ao jantar, ocupava-se o mesmo lugar, sempre na mesma mesa corrida, com as mesmas conversas e tendo por companhia os mesmos companheiros de pernoita.
Discutiam-se futilidades, que ali as novidades não chegavam ou só vinham de quando em vez nas linhas de um aerograma ou ouvidas num rádio roufenho em emissões para entreter militares, insistindo nas velhas cançonetas do Paco Bandeira:
- Lá longe, onde o sol castiga mais …..
Ocupava-se o tempo, com jogos de cartas ou bebendo cerveja directamente da garrafa, que o copo anulava a tímida fresquidão conseguida ao fim de muitas horas dentro do frigorífico alimentado a petróleo e sem capacidade para o ritmo a que eram esvaziadas.
Alguns dedicavam-se à leitura de revistas retardadas, fora de prazo, enviadas pelo Movimento Nacional Feminino que as recolhia nos monos que entupiam os armazéns da Agência Portuguesa de Revistas. Eram revistas de mexericos ou de fotonovelas que ilustravam foleiros contos de amores e desamores da desgraçadinha do costume.
Jornais, ali não chegavam. Certo dia, não sei donde, nem como, uma edição retardada, com mais de 15 dias, do jornal “A BOLA” aportou àquelas bandas. Andou de mão em mão até ficar amarfanhado, roto, amarelecido, sujo e com nódoas de gordura. Creio que não ficou nada por ler. Ninguém se atreveu a atirá-lo para o lixo, acabando abandonado num canto, ali ficando por muito tempo.
Eu tinha que sair dali. Precisava de respirar outros ares e o mês de férias a que tinha direito vinha mesmo a calhar. O Gabriel regressara há pouco tempo depois de um prolongado mês de férias. Pelo menos foi o que nos pareceu, que a ele passou num quase piscar de olhos. Trazia novas do Puto. Um novo filme que contava a história inédita de um tal de Trinitá e do seu cavalo amestrado. E as novas tendências musicais a anunciar o fim da era dourada da década de sessenta.
O Gabriel parecia empolgado e contagiava toda a gente aniquilando a réstia de indecisão que ainda pairava na minha cabeça. Deram-me o contacto de uma agência de viagens em Luanda que tratava de tudo. Volvidas duas semanas, recebi a resposta. Estava tudo tratado e com viagens marcadas. Agora já não podia voltar atrás. Nem queria. Estava demasiado empolgado para pensar em desistir. Na verdade, creio que se não fosse o cansaço não teria conseguido dormir nas noites que faltavam para a partida. A excitação não deixava.
Só era preciso sair dali, já que a Agência apenas garantia a viagem a partir do Luso. Para lá chegar era preciso contar com a boleia do Nord da Força Aérea, às terças.
E assim foi. Em pouco mais de uma hora de viagem, o Barriga de Jinguba deixou-me às portas da civilização, despejando-me no aeroporto do Luso.
Reservei quarto na Pensão Central, que a viagem para Luanda só seria no dia seguinte e percorri as ruas da vila, sentindo-me na pele do saloio que vem à cidade pela primeira vez.
Sentei-me na esplanada do café e pedi uma bica. Mais de nove meses haviam passado desde que bebera a última. Degustei o café em pequenos sorvos de prazer à medida que, mais parecendo um cata-vento, seguia com o olhar tudo o que bulia. Cheguei a recear ser interpelado por alguém que se sentisse ofendido pelo meu ar embasbacado. Fixava qualquer mulher que passasse seguindo-a de longe até a perder de vista e reagia com sobressalto a qualquer buzinadela mais intensa. Na verdade, sentia-me num mundo novo, não obstante o movimento da pequena vila do Leste de Angola ser inferior ao de qualquer cidade de província. Era um facto, já não estava habituado ao bulício urbano.
Um velho Friendship da TAAG, fazendo escala em Nova Lisboa, levou-me até ao bulício de Luanda, deixando-me no aeroporto mais morto que vivo em consequência da atribulada viagem.
Bonita e aprazível, Luanda era uma grande cidade. Cosmopolita e movimentada, quente e luminosa, com muitas esplanadas e cafés, gente, mulheres, de mini-saia, já que o calor e a moda criada pela bendita Mary Quant puxavam as saias bem acima dos joelhos.
A fome levou-me à esplanada do Amazonas onde matei saudades saboreando uns camarões e um suculento prego no pão, mal passado, como eu gosto e bem acompanhado por umas quantas imperiais, fresquinhas, fervilhantes, acabadinhas de tirar.
Ah! O prazer que foi beber a bica, sentado na Versalhes, lendo o jornal do dia. E a volta pela cidade, sem destino ou rumo, apenas pelo prazer de deambular no meio do frenesim citadino.
Percebi que quem vive na cidade e nunca dela saiu, não tem como perceber o que é viver dia após dia no meio de coisa nenhuma.
Não é assim de admirar que a chegada a Lisboa já não tivesse tido aquele impacto. Apenas estranhei a cor acinzentada da cidade, a luz mortiça e a temperatura amena, quase fria, do mês de Setembro. Em África havia calor, luz, cor, espaço.
Sabem! O tempo deve ter passado mesmo a correr naquele mês de férias. Tirando o facto de ter tirado a barriga de misérias e de me embriagar no perfume de mulher, lembro-me de pouco mais. Retenho contudo o facto de no dia do regresso, ter vestido uma camisola de lã de gola alta. O frio do mês de Outubro em Lisboa, impôs essa indumentária.
Desembarquei assim em Luanda com roupa de Inverno e recordo que me senti sufocar de calor quando saí do avião. O trajecto do aeroporto de regresso à Pensão dos Coqueiros foi infernal. Só desejava que o táxi acelerasse. A camisola fazia comichão pelo corpo todo e o suor escorria copiosamente. Não havia dúvida, estava de novo em África.
Fazia agora o caminho em sentido inverso, sobrevoando aquele imenso território com a sensação de que apenas estivera ausente por muito pouco tempo.
A Neriquinha estava no mesmo sítio. Pelo menos o Nord não teve dificuldades em encontrá-la, aterrando na velha e conhecida pista poeirenta com a desenvoltura do costume.
Desapertei o cinto que me prendia ao assento de lona, agarrei no saco de viagem e assomei à porta preparando-me para descer. Lá fora, as mesmas caras e a azáfama do costume. Nada mudara durante a minha ausência.
Desci os pequenos degraus e olhei em volta como a certificar-me da realidade. A cerca de arame farpado lá estava, no mesmo sítio. As duas pequenas construções que ladeavam a porta de armas continuavam desocupadas. Creio que nunca tiveram serventia. A chana mantinha ainda a mesma cor e a mata circundante parecia olhar-me como se, reconhecendo-me, me desse as boas vindas. Respirei fundo sorvendo o perfume selvagem da savana e caminhei decidido em direcção à camarata onde a minha cama me aguardava, já mentalizado de que ali era o meu lugar. Pelo menos durante mais os próximos meses aquela continuaria a ser a minha morada … o meu canto perdido no meio da imensidão agreste.
Uma semana depois já quase não me lembrava da civilização. Na verdade, sentia-me como se dali nunca tivesse saído. Mulheres brancas, movimento, bicas, pastéis de nata, restaurantes, ruas, casas, prédios, bulício citadino, televisão, jornais, viraram rapidamente coisas de ficção.