sábado, 1 de agosto de 2009

Mascotes

Provavelmente é próprio do homem a mania de se rodear de mascotes. Umas vezes por superstição, outras, simplesmente porque sim e outras ainda, sabe-se lá porquê. E não falo apenas da simples tendência para adoptar animais domésticos, sejam eles cães, gatos, periquitos ou papagaios. Refiro-me às mascotes, àqueles que, para além de animais de estimação, têm um significado especial. Uma espécie de superstição. Que dão sorte.
O Matias, por exemplo, encontrou, algures no meio da mata, um pequeno macaco. Perdera-se da mãe (ou perdera a mãe). A verdade é que ganhou afeição ao pequeno símio e este parecia corresponder. Acompanhava-o para todo o lado, tendo facilmente criado o hábito de se encavalitar no seu ombro, mordiscando pedacitos de guloseimas que este lhe ia dando. O Matias, com os seus óculos de aros grossos pesando-lhe sobre o nariz, ignorava os comentários brejeiros da malta. Revoltava-se de quando em vez ou porque a paciência se esgotava ou porque entendia que a brejeirice ultrapassava os seus limites. Mais preocupante parecia ser o caso de um dos cabos da Força Aérea. Ou porque já afectado pelo cacimbo ou, mais provável, condicionado na sua razoabilidade pelos charros de liamba, adoptou uma galinha. A sua imaginação foi ao ponto de levar o galináceo a passear por entre as palhotas do kimbo, atada pelo pescoço com um cordel a que chamava de trela, como se passeasse um caniche pelas ruas da cidade. Encorajava o animal com suaves toques de uma improvisada vergasta incitando-o com voz meiga:
- Anda bicha, anda.
Após algumas voltas sobre a areia solta do Kimbo, metia-a debaixo do duche. Não que lhe quisesse dar banho. Simplesmente descobriu que a galinha, provavelmente porque confundia o duche com a chuva, aquietava-se naquele genético e característico empinar do corpo para facilitar o escorrer da água sobre as penas.
- Assim, ela não foge.
Concluía o cabo, sem conseguir convencer alguém sobre o seu temor pela fuga da galinha. Na verdade, o bicho nunca se afastou para além do perímetro do arame farpado, como acontecia com a criação da população que deambulava por entre as palhotas. Galinhas são animais domésticos e naturalmente, não se distanciam muito do local onde lhes é fornecido alimento
Mascote era também o camaleão que vivia junto ao pequeno jardim frente à messe. Pacífico e pachorrento, era mimado por todos, passeando frequentemente aos ombros de uns e de outros, numa pose de verdadeiro animal doméstico, mudando de cor em função do padrão do tecido onde se agarrava com firmeza. Após o passeio, depositavam-no sempre sobre as plantas do jardim, passando de ramo para ramo no seu passo hesitante de câmara lenta, alimentando-se de mosquitos e outros insectos. Aliás, qualquer animal que fosse considerado predador de mosquitos era sempre bem-vindo. Até as osgas que se alapavam na parede, por serem especialistas na caça ao mosquito, eram estimadas e não me lembro que alguém, alguma vez, se tivesse atrevido a molestá-las, não obstante a repugnância manifestada por alguns.
Detestados, apenas os percevejos que usurpavam as nossas camas, infernizavam o sono e provocavam erupções na pele seguidas de comichão que se agravava com o inevitável coçar.
Os ratos eram igualmente indesejados, pelo que, foi com alguma preocupação que alguém encontrou, algures pelo aquartelamento, uma ninhada. Eram ainda muito pequenos e indefesos, mas tinham de ser eliminados, já que uma praga de roedores era certamente coisa a evitar.
Assim, três ou quatro cacimbados ofereceram-se como voluntários para a tarefa, transformando o acto de extermínio dos bicharocos num passatempo. Um risco no chão passou a simbolizar uma fronteira. Largavam um ratito num dos lados e sentenciavam: - Se passares o risco, lixas-te.
O animal vagueava, perdido, sem se decidir por onde avançar, intimidado pelo bulício à sua volta. A aproximação do risco criava um suspense. Enquanto uns incitavam, outros gritavam em excitação pela iminência da passagem da fronteira.
- Ooooohhh…bolas!
Exclamavam em coro de desapontamento, quando, no último momento, o atarantado murganho inflectia a marcha e adiava o cruzar da linha fatal.
Quanto finalmente ultrapassava o risco, o rato era eliminado e imediatamente substituído por outro, sucedendo-se a cena até não restar nenhum.
Mas, ninhadas de ratos não se encontravam com frequência pelo que, outras vezes, uma ou outra barata menos lesta na fuga, foi utilizada na brincadeira até o jogo perder a graça e ser substituído por outro entretém para matar o tempo.
Porém, a mais mimada, era a cadelita Riquinha que trouxéramos do Rivungo. Sendo a mascote do meu pelotão, tornou-se rapidamente no centro das atenções. Atrevida e simpática, assenhorou-se das atenções, do espaço, da camarata, das messes e alargou paulatinamente o perímetro do seu território de brincadeira. Tomava banho amiúde, usufruindo dos nossos duches, não fosse ser acometida por alguma praga de pulgas a juntar à de percevejos existente.
Foi crescendo, lentamente, embora se visse de imediato ser um animal de fraca estatura.
Havia ainda dois cães, o Tigre e o Cúbia. Corpulentos, embora não em excesso, eram de raça indefinida, ou então, o meu fraco conhecimento da matéria não a permitiu identificar. Haviam sido herdados da companhia anterior que por sua vez também os herdara da que os antecedeu. Um, era acastanhado e o outro, de cor escura matizada. Não sei exactamente qual era o Tigre e qual o Cúbia. Andavam sempre juntos e quando se chamava um, vinham os dois. Quanto aos nomes, admito que o Tigre tenha sido escolhido porque, naquela altura, a maioria dos cães respondia pelo nome de Tigre ou Leão. O do outro, provavelmente em homenagem ao rio do mesmo nome, afluente do Cuando, cujas margens éramos obrigados a calcorrear com frequência, especialmente porque alinhava o caminho para o Rivungo.
Esta parceria canina, fazia-me sempre lembrar dois rios ligados à história da civilização antiga: o Tigre e o Eufrates, um pelo nome e obviamente o outro por ser nome de rio. Enfim, reminiscências de estudante habituado a decorar o que não podia ser assimilado pela compreensão.
Havia quem dissesse que eram cães treinados para a guerra, animais que seriam capazes de dar luta a qualquer turra que se atrevesse a invadir o recinto e por isso sentinelas eficazes. Mas isso não era verdade. Cresceram habituados às fardas militares, mostrando-se indiferentes a quem a usasse e manifestavam, de quando em vez, alguma animosidade para com o aspecto seminu que definia o trajar da população. Contudo, nunca houve notícia de que tivessem alguma vez atacado ou mordido alguém, sendo mais pacíficos do que o seu aspecto aparentava.
A Riquinha, no natural atrevimento de canídeos novos, infernizava a o dia a dia do Tigre e do Cúbia. Estes, a princípio, ignoravam-na, não dando importância às suas brincadeiras atrevidas, designadamente quando, em atitude provocatória, mordiscava a orelha de um ou puxava a pata do outro. Não demorou muito para que passassem a ser vistos juntos com maior frequência.
Ou porque a cadela era oferecida ou porque os cães não olham a idades, pareceu-nos que a brincadeira passou a ter outro interesse. Digamos que lhe acrescentaram sensualidade ou lascívia canina. Mas não. Creio que os cães reagem a tais impulsos por instinto, não se podendo colocar maldade no que a natureza comanda. Fosse como fosse, passado algum tempo, tornou-se notório o aumento de volume do ventre do animal. A Riquinha estava prenha.
- Não pode ser! Exclamavam uns.
- A cadela é muito nova! Acrescentavam outros.
Mas era um facto. A cadela estava mesmo prenha e bem cedo deu sinais de ainda não estar fisicamente preparada para a tarefa. Tropeçava frequentemente como se não pudesse com o peso, perdeu o apetite e parecia lamentar-se num silêncio de culpa.
- Prenha coisa nenhuma, isso só pode ser doença. Sentenciou alguém.
Acabou por morrer antes de dar à luz, sem que se tivesse descoberto, afinal, qual tinha sido o responsável. Se o Tigre, se o Cúbia.
Os dois canzarrões não mostraram preocupação, lamento ou dor pelo desfecho.
Continuaram na sua ocupação ociosa: esticados debaixo de uma qualquer sombra, indiferentes ao desaparecimento da malograda mascote.

sábado, 4 de julho de 2009

Neriquinha. Nova etapa


Não me lembro de pormenores da viagem de regresso à Neriquinha. Provavelmente correu sem incidentes.
Percorremos assim o mesmo trajecto feito três meses antes, mas agora em sentido inverso, passando de novo pelo Demba, Mugamba e Lihaona, seguindo-se o inevitável pontão de cimento das pontes do Cúbia e finalmente o itinerário sinuoso que conduzia à pista de terra avermelhada, companheira inseparável da cerca de arame farpado que limitava a fortificação desprovida de muros ou ameias.
Os cerca de 120 quilómetros que separavam a Neriquinha do Rivungo deverão ter levado as costumeiras sete ou oito horas a percorrer, já que apenas uma ou outra vez se conseguiu, em condições excepcionais, bater o recorde de seis horas. E isso foi em dia bom, sem furos, atascansos, avarias das berliets e muita ousadia na condução.
Cansado, moído da viagem, coberto de pó escuro riscado pela escorrência do suor, apeei-me da berliet, carreguei a trouxa atravessei a parada bordejada pela simbologia que recordava as companhias anteriores e dirigi-me ao barracão comprido que, plantado em frente, incluía a camarata dos furriéis, a respectiva messe e bar, a dos oficiais (que na tropa não havia misturas) e ainda o armazém de medicamentos, no topo que rematava a espécie de L que o edifício formava.
A construção, feita de tijolo e pintada de um branco já escurecido pelo tempo, era encimada por um telhado de folhas de zinco em terceira ou quarta mão, com todo o ar de já não serem novas quando ali foram pregadas. Nunca cheguei a perceber esta mania de utilizar zinco na cobertura dos edifícios, numa terra em que o sol imperava inclemente durante todo o ano, elevando as temperaturas acima dos quarenta graus. As chapas de zinco sobreaquecidas transformavam o interior das instalações num forno e de pouco ou nada valia o arejamento que separava a cobertura do topo da parede, nem as arejadas janelas de rede mosquiteira em lugar de vidraça.
No seu interior, sobre o comprido, uma dúzia de camas, arrumadas em duas filas contra as paredes, deixava um estreito corredor ao centro. Escolhi uma das vazias, larguei o saco, desfiz-me da farda, com cuidado para não espalhar o pó, agarrei no sabonete que arrumara algures entre as tralhas e dirigi-me aos balneários.
Havia duche, um autêntico luxo. Mesmo frio, era melhor que no Rivungo. Pelo menos não tinha que percorrer a distância que separava o aquartelamento do Rio, ao fundo das instalações da Marinha.
Enfiei-me debaixo do frouxo, porém abundante jorro de água, sentindo a fresquidão saborosa que, escorrendo pelo corpo, decapava a primeira camada de sarro resultante do suor peganhento amassado com terra e se transformava numa pequena torrente escura que desaparecia apressadamente pelo ralo a um canto.
Passei sabonete, várias vezes, à medida que ia inspeccionando o espaço. Os duches, instalados em quatro pequenas divisões tinham, arrumadas na frente, a pouco mais de meio metro, quatro sanitas de louça, em forma de funil, implantadas sobre uma plataforma de cimento, formando um recanto comunitário de higiene. Quem tomava duche podia desfrutar do espectáculo de quem ali estivesse acocorado em esgares de esforço. Inversamente esse perdia, por vezes, a necessária concentração para vencer a prisão de ventre, perante a forma mais ou menos artística com que cada um se esfregava debaixo do duche.
Explicaram-me depois que os duches só funcionavam há pouco tempo. Na Neriquinha havia um depósito metálico, encavalitado sobre uma estrutura, também ela metálica, alimentado por água sugada de um furo que ali fora aberto. Em toda aquela região plana, havia água a escassos metros de profundidade, não obstante o ambiente agreste à superfície. Mas, quando a companhia chegou, a bomba que a extraía e a levava ao depósito, estava avariada. O comandante da companhia anterior era um tanto ou quanto relaxado ou pouco dado a chatices. Ou, então, limitou-se a deixar a resolução do problema para outros.
A verdade é que, durante os primeiros meses, a água era recolhida a alguns quilómetros dali e transportada em bidões mal amanhados. Nunca cheguei a perceber como toda a companhia tomou banho durante todo esse tempo. Provavelmente iam, à vez, à Neriqinha Velha, restos da antiga povoação outrora chamada de Nova Riquinha, junto às margens do Rio Cuando e distando cerca de 15 quilómetros, onde ainda existiam umas paredes em ruínas a testemunhar as poucas casas que outrora albergaram colonos aventureiros. Sim, porque ninguém que não tivesse espírito de explorador se atreveria a viver em local tão ermo e selvagem longe de qualquer civilização, numa terra pouco amistosa e sem vias de comunicação. Creio que a guerra, desalojou os aventureiros atrevidos.
Parece que a existência da pista de aviação foi determinante para a construção das instalações militares naquele local, apropriando-se do nome e abreviando-o para N’Riquinha. Com o tempo, perdeu o apóstrofo, acabando na grafia ainda hoje usada: Neriquinha.
A construção do aquartelamento militar acabou por atrair a população autóctone que ancorou as suas cubatas ao abrigo da tropa, logo ali, junto ao arame farpado.
Quanto à Nova Riquinha, continuou a ser local de pastagens do gado e das lavras da população. Contudo, envelheceu. Quando ali chegámos já lhe chamavam Neriquinha Velha, uma espécie de contradição que apelidava de velho o que se dizia novo.
Já recuperado e liberto do incómodo da viagem, saí para o pátio, à porta da camarata. Na frente, no outro lado da parada, quase junto à cerca de arame farpado, as instalações da força aérea, numa construção mais recente e bem acabada, contrastando com a evidente precariedade das nossas. Apenas albergavam dois cabos telegrafistas, mas eram maiores e mais cómodas.
À direita, um estreito caminho de tabuinhas, estrutura precária semelhante à existente nas praias para poupar o esforço de caminhar sobre a areia, conduzia ao edifício que albergava a secretaria, a enfermaria e o gabinete do capitão. No topo deste edifício, uns metros mais à frente, qual sentinela, o depósito de água enganchado em cima da estrutura que o segurava.
Por momentos, senti saudades do Rivungo. Seria necessário criar novas rotinas ou adaptar-me às que por ali já se haviam instalado. A cadelita riquinha parecia enfrentar o mesmo problema. Aproximou-se abanando o rabo. Julguei perceber, no seu menear, um pedido de amparo enroscando-se aos meus pés enquanto, sentado numa tosca cadeira, procurava mitigar a sede com uma cerveja. Por ali, a água com o seu intenso sabor a ferro, era desagradável e não parecia matar a sede.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O regresso à Neriquinha

Após três meses de estada no Rivungo, chegou a vez de nos mudarmos para a Neriquinha. A regra vigente determinava que cada grupo de combate ali passasse 3 meses. Decorrido esse tempo, seria rendido por outro, este por sua vez pelo seguinte e assim sucessivamente. Só o primeiro pelotão não entrava no contrato. O respectivo alferes era, por inerência, o segundo comandante da companhia. Daí que o alferes Torres fosse o substituto do capitão Cabrita nas suas faltas, ausências e impedimentos. Só não se percebia porque teria de ser exactamente o alferes mais novo em idade e também em antiguidade na tropa. Penso que isso se devia ao facto de o Torres ser o oficial de operações especiais, pressupondo-se ser entendimento de quem definia as regras, que a passagem por Lamego (onde se formavam as tropas especiais) conferia o discernimento e as capacidades que garantiam as necessárias qualidades de comando.
Era mais ou menos óbvio que o Cabrita confiava muito mais no alferes Fausto do que em qualquer outro dos quatro alferes da companhia. Aliás, teria sido essa a razão pela qual o meu pelotão foi escolhido para a primeira comissão no Rivungo. Ficava distante da Neriquinha e importava que ali estivesse alguém de confiança e com capacidade de liderança e o Fausto demonstrara bastas vezes que as possuía todas, ou quase.
Na verdade, não creio que, por ser o pelotão dos homens das operações especiais (o alferes Torres e o furriel Peixoto) fosse justificação para a sua permanência a tempo inteiro junto do comando da Companhia. Nunca me apercebi da existência de razões especiais que justificassem a atribuição da responsabilidade desta ou daquela operação a este ou àquele grupo e consequentemente a este ou àquele alferes, pelo facto de ser ou não especialista em operações especiais. Cada um alinhava de acordo com as ordens do Capitão ou segundo uma escala que se regia pelo seguinte princípio:
- Da última vez fui eu, agora vais tu.
De qualquer forma, também não me recordo de alguma vez alguém ter questionado a regra ou a ordem de marcha para o destacamento. Aliás, na tropa, não era aconselhável discutir decisões superiores e parece-me que, por esta ou por aquela razão e ainda por mais aqueloutra, quase todos preferiam o Rivungo à Neriquinha.
A outrora Santa Cruz do Cuando oferecia vários atractivos a que se podia acrescentar a vantagem de haver pouca probabilidade do Comandante de Batalhão aparecer por ali, o que não era razão de somenos importância. É que, o comandante Mendonça não era flor que se cheirasse e não me lembro de ter ouvido, em toda a comissão, uma única palavra de lisonja ao homem. Por ali apenas uma vez ou outra aparecia o comandante da companhia. Mas o capitão Cabrita não era homem de chatear sem motivo e não me parece que a notícia da sua visita fosse razão para pôr o pessoal em alvoroço.
O facto é que criei ali amizades e algum apego ao local. As agruras da missão eram suavizadas pelas rotinas criadas e a tendência para as quebrar apimentava a monotonia. Ao fim e ao cabo, tudo contribuía para que os dias passassem sem contratempos, relegando a angústia para segundo plano.
Na verdade, a transição de cada dia para o seguinte, era muitas vezes suavizada por ninharias.
Uma partida de Monopólio planeada para as instalações da Marinha, era suficiente para, muitas das vezes, contribuir para uma noite bem passada, onde uma equipa de jogadores, numa espécie de vício saudável e usando dinheiro de brincar, se desunhava pela compra de mais um prédio na Avenida da Liberdade ou na dos Aliados, seguindo-se a construção de mais um hotel virtual numa das ruas linearmente desenhadas sobre a cartolina, ali transformada em urbanização de ficção.
Certa noite, por ocasião da sua visita de acompanhamento religioso das tropas do batalhão, o alferes Capelão integrou um grupo de gente adulta e responsável (eu, o alferes Fausto, o tenente da Marinha e o Silva) que se manteve entretido até altas horas da Madrugada, num empolgante jogo de monopólio onde cada um procurava enriquecer o mais possível, levando os outros à falência. O vencedor só veio a ser declarado já sobre a madrugada, sem que alguém tenha dado pelo tempo passar ou se tenha sequer preocupado com isso. Não havendo nada de especial planeado para o dia seguinte, o tempo não contava. Desde que passasse sem se dar por ele, tudo estava bem.
Mas o Rivungo tinha ainda outras coisas. Por exemplo, o Rio Cuando. Ter tanta abundância de água, mesmo ali à mão, num sítio que não dispunha de água canalizada, não era propriamente algo a que não se desse importância. Para além do mais, podíamos mergulhar, dar uns passeios de bote e aventurarmo-nos em incursões nocturnas pelos seus meandros à caça de jacarés bebés. Com cuidado porque, mesmo minúsculos, se conseguissem apanhar um dedo entre os seus afiados dentes, não o deixavam em boas condições.
Enfim, aventuras que a juventude transformava em excitação, relegando privações para segundo plano.
Também não posso esquecer a sempre bem-vinda companhia do chefe França com a sua permanente boa disposição e laracha na ponta da língua. E o administrador Litenda, com mais uma história serôdia de feitos africanos, ou descrições de grandes caçadas e de explorações pelos recantos da savana profunda, onde não faltava a referência à sua especial destreza para conduzir por caminhos inexplorados ou impossíveis. Coisas difíceis para condutores normais. Não para ele.
- Nunca tive um acidente. Alardeava com frequência.
É verdade! Ainda não partira e já começava a sentir saudades. Mas apenas porque o destino era a Neriquinha. Se a opção fosse o regresso ao puto, tudo seria diferente e como mais tarde ficou demonstrado, a saudade daquele lugar foi mandada às urtigas. Hoje são apenas recordações.
Havia ainda a preocupação com a cadelita que adoptámos como mascote. Déramos-lhe o nome de Riquinha, numa espécie de alusão à sede da companhia. Era ainda pequenita, tropeçando amiúde, em resultado do pouco domínio que tinha das tenras patas. Rebolava por aqui e por ali e entretinha-se mordiscando as botas de cada um, ou saltitando à procura de um afago.
- Levamo-la connosco! Sentenciou o alferes Fausto.
Pela hora do almoço, ou pouco antes, chegaram duas berliets vindas da Neriquinha. Carregavam mantimentos, cerveja, tabaco e o grupo que nos renderia, exactamente aquele a que pertencia o meu amigo Gonçalves.
Seguiu-se a transferência das responsabilidades, dos stocks e equipamentos, fizeram-se as apresentações, incluíram-se recomendações, avisos e indicações de quem já dominava o espaço e arredores. Um último mergulho no rio e de novo com as poucas tralhas pessoais a tiracolo, rumámos de volta à sede da companhia, encavalitados no desconforto das berliets. Connosco seguia a cadelita, fazendo a maior viagem da sua vida.
Nem olhei para trás. Francamente, não me pareceu um adeus. Afinal, para além de não ter havido tempo de criar raízes, as saudades daqueles sítios não faziam parte dos nossos sentimentos. De qualquer forma, haveria de ali voltar, muitas vezes e mais uma comissão de três meses. Sim, regressava à Neriquinha, mas continuava a preferir o Rivungo.
Só não me passou pela cabeça que só voltaria a ver o Zé Maria, fugazmente, apenas mais umas duas ou três vezes.

terça-feira, 19 de maio de 2009

ANGOLA - A Guerra e a sede.

…/… Há dois dias que andamos sem encontrar água.
Dois longos dias sem inimigo nem água, sendo que o primeiro não nos faz falta nenhuma. O sol não dá tréguas e continua a derramar ondas de calor chamejante desde que nasce até se esconder no horizonte vermelho, num presságio de promessa de novo inferno para o dia seguinte.
As reservas de água carregadas no rio há dois dias atrás estão esgotadas há muito. Vem-nos à memória, em jeito de miragem de uma onda de frescura, a malfadada travessia do rio dias atrás às sete da manhã. Há quem verta um resto de água quente na tampa do cantil para molhar apenas os lábios, voltando a guardar religiosamente as gotas que restaram, como se de ouro ou uma relíquia se tratasse. Há quem se atire para o chão e jure que não sai mais dali, para logo mudar de ideias mal a coluna preguiçosa se põe de novo em marcha em busca de um oásis que ninguém promete.
A língua fica pastosa e dificulta o falar. A saliva é praticamente inexistente. É como se viéssemos a mastigar cola. Os lábios ásperos e gretados ouvem-se roçar um no outro e queimam.
- Água! Ouve-se na frente.
- Água!
Passos apressados, um ânimo que parece renascer não se sabe donde, um ir destapando um cantil que ferve à cintura vazio e seco.
- ... água?
A “água” é um charco pestilento calcado por dezenas de pegadas de animais, mistura de lodo e algum líquido que borbulha à superfície, onde pululam uns bichinhos minúsculos de pouco mais de meio centímetro, movimentando-se num saracotear de corpo todo – que em pequeno costumava ver nas valetas de água parada da minha aldeia misturados com os girinos – a que se dava o nome de saltitões.
Muitos não resistem. Procuram uma zona de maior profundidade, três a quatro dedos, inclinam o cantil e enchem-no até onde é possível, procurando enxotar as pequenas jangadas de porcaria pestilenta que se precipitam em direcção à boca do cantil. Com uma bola de algodão tapam o bocal do outro cantil e vertem-lhe aquele líquido meio espesso que vai deixando o algodão empapado de lama e saltitões que se debatem como nós pela sobrevivência.
Juntam-lhe um daqueles comprimidos militares que garantem destruir a maior parte das doenças (além do fígado e dos rins) que pululam nas águas podres – teoria jamais comprovada, mas que ajudava a beber qualquer porcaria para não morrer de sede – e agitam o cantil com grande intensidade procurando aumentar o efeito do químico. Alguns nem dão tempo sequer a que se derreta e apazigúe alguns dos milhentos micróbios que se preparam para ajudar o IN, devorando-nos a nós.
O sabor é horrível mas só param depois da quarta ou quinta golada, não vá o saborear antecipado corromper a vontade de matar a sede. Alguns resistentes parecem preferir o risco de morrerem à sede, mas têm algumas armas escondidas em que confiam e que hão-de utilizar na hora certa e no momento apropriado.
Cai a noite estrelada e fresca. O desânimo é enorme. No silêncio murmuram-se maldições.
- Agora só faltava os turras atacarem, ouve-se.
- Se trouxerem água até a G3 lhes dou, carago. Que puta de vida. Que mal fiz eu a Deus? Andou a minha mãe a criar-me com tanto carinho para isto.
Ninguém tem vontade de comer. A sede tira qualquer vontade de mastigar ou engolir o que quer que seja. No mato morre-se de sede. Dificilmente se morre de fome. A água até a fome engana.
A boca tem um sabor estranho, o raciocínio imobiliza-se, o pensamento tem um único sentido: chuva, rios, mar, vinho, cerveja, água, água, água …
Na escuridão que já nos envolveu há duas ou três horas, vislumbro três vultos que deslizam em silêncio saindo duma tenda afastando-se ligeiramente da zona de concentração, sendo claro o cuidado que põem em não fazer o menor ruído para não serem vistos. Tanto quanto me é dado a perceber, um pouco mais além agacham-se os três e ficam imóveis. A situação desperta inicialmente a minha curiosidade. Há militares que ficam de sentinela de noite guardando o sono dos companheiros que dormem. Mas não assim. Normalmente são quatro que se dispõem formando um quadrado, alguns metros para lá das tendas dispostas em círculo. Admito uma segunda circunstância relacionada com a satisfação de necessidades fisiológicas, cujo uso tinha regras. Mas em grupo não me parecia apropriado. E para outras, … essas sim de grupo... o momento não me parecia o mais oportuno...
Desligo-me da situação porque nem me apetece indagar. Disponho-me a tentar dormir.
Cinco minutos depois.
- Meu Alferes, meu Alferes! Já viu? Sussurra-me o furriel “Montijo” entrando de cócoras na tenda em grande agitação.
- O quê? Pergunto, sem me mexer nem abrir os olhos. Achei que na altura me podiam até atacar que a vontade de me mexer seria nula.
- O Serrano, o “Galinhas” e o Gama estão ali atrás das tendas de joelhos a rezar para que chova. O meu Alferes já viu o que é que a merda da falta de água faz? Os gajos piraram. Têm os miolos cozidos do sol.
- Não me parece “Montijo”. Na hora do aperto a fé é a última arma para algumas pessoas. Você não acredita em Deus? Disse, continuando de olhos fechados perguntando-me a mim próprio por que carga de água trazia eu aquele tema para a conversa numa altura daquelas.
- Nunca fui de ir à missa, meu Alferes. Só me lembrei de Deus quando estive quase a patinar naquele acidente em que me ia partindo todo contra um poste. Ia lá deixando os dentes todos. Já lhe contei essa, não contei? Depois curei-me e olhe, nunca mais me lembrei disso outra vez.
- Pois é “Montijo”; quando a vida começa a andar para trás é que as pessoas se lembram de Deus. É assim como quando faz trovões. Depois, passa a tempestade e só se voltam a lembrar quando trovejar de novo.
- Não tinha que morrer. Senão tinha morrido mesmo, não acha? Eu só me lembrei. Mas não pedi nada. Eu nunca acreditei em Deus. O que tiver que ser é... e seja o que Deus quiser...
- Claro, “... e seja o que Deus quiser “Montijo”… ”.
- Vamos mas é dormir ó “Montijo”, porque assim nem sentimos a sede. Amanhã à noite estamos em casa.
O “Montijo” acomoda-se na tenda virando-se de costas para mim enquanto abafa um riso fungado que se lhe escapa pelos dedos que comprimem o nariz.
- Meu Alferes! Tenho a impressão que já está a pingar...
- Não goze “Montijo”, não goze.
- Os gajos piraram. O “Galinhas” então, mesmo sem sede já é marado.
Na mata às sete horas já se dorme. Naquela noite seriam umas nove quando nos dispusemos a tentar descansar, perturbados como estávamos com a falta de água que nos martirizava de uma forma difícil de traduzir por palavras. Os tormentos da sede confundem-nos de tal forma o raciocínio e os sentimentos que o que fica na memória é uma espécie de dor vazia de imagens, cuja recordação traz mal-estar e um enorme desejo de não lembrar.
Duas da madrugada. Em enorme sobressalto agarro-me à espingarda com o “Montijo” em grande alvoroço dentro da tenda.
- Meu Alferes, meu Alferes; porra chove para caraças; o cantil, o cantil!
Uma das características do clima de África é a alternância brusca entre um sol radioso ou uma noite estrelada e uma chuvada diluviana em menos de uma hora, para logo depois tudo serenar.
O alvoroço era indescritível. Inventavam-se mil e uma maneiras de apanhar a água que caía generosamente do céu. Fizemos uma goteira a partir do bico dos ponchos que formavam a tenda e a água corria a fio ali mesmo à nossa frente. Alguns soldados dançavam em grande algazarra à chuva agarrados uns aos outros, perante a escamação do Alferes Chagas que lembrava em vão a necessidade de observância do silêncio e das normas de segurança.
- Eu quero que os turras se f....
Era o tipo de resposta que invariavelmente se conseguia ouvir, numa perfeita loucura que subvertia os conceitos e preconceitos, comandos e hierarquias, que no escuro de uma noite de chuva intensa sofregamente abençoada se misturavam e confundiam.
A água sabia à borracha dos ponchos e trazia um leve travo salobro do suor que se lhe entranhava durante o dia quando transportado às costas dobrado e atado ao saco. E tudo porque ninguém se atreveu a perder as primeiras gotas que caíram e o lavaram de três dias de poeira e transpiração transbordante. A chuva podia terminar de um momento para o outro. O céu escuro não deixava adivinhar a dimensão da chuvada.
Choveu toda a noite. Foram bebedeiras de água e de pragas devolvidas ao sossego dos espíritos saciados da guerra da sede. Qual alambique destilando o melhor álcool, cada cantil sabia melhor que o anterior, depois de bem lavados os telhados da tenda que nos abrigava. Ninguém mais dormiu. Não só porque todos queriam beber até não poder mais, mas também porque a chuva inesperada encharcou tudo, entrando pelas tendas adentro.
Meditativo, o “Montijo” está sentado à porta da tenda de pernas cruzadas e olhar fixo no fio de água que escorre para dentro do cantil.
- Porra meu Alferes! E choveu mesmo. Diz sem tirar os olhos da água que corre límpida para dentro do terceiro ou quarto cantil que enche.
- Agora é que você começa a ir à missa ó “Montijo”.
- Náh! O meu primo era um beato do caraças que até ajudava à missa. Mesmo assim não deixou de se enfiar por uma ribanceira abaixo com uma bebedeira que nem queira saber. Olhe, ainda ficou com menos dentes do que eu.
- Mas ó “Montijo”; isso foi da bebedeira.
- Ó meu Alferes; e Deus naquela altura também estava distraído ou com os copos, não? Ao que consta, Deus não dorme... nem bebe. Só que... sei lá…
Pronto. E assim se tresmalhou mais uma ovelha que se admitiria poder constituir-se num sério candidato ao rebanho de Deus, passada que foi aquela provação de tão grande aperto e sofrimento.
Talvez na próxima, quando Deus e os homens ousarem desafiar as convicções de um “Montijo” que entende que a chuva nem sempre cai quando Deus quer ou manda…/…

P. Cabrita
Excerto do livro “Capitães do Vento” Dezembro de 1970, algures nos Dembos – Norte de Angola

sábado, 16 de maio de 2009

Perdidos na noite

Decorria uma operação. Comandada pelo Silva, visava bater uma área distante, mesmo nos limites da zona operacional da companhia, lá bem para o interior, afastada de tudo e sem qualquer kimbo nas redondezas.
De certeza que ali não seria encontrada população. Ficava fora do limite de segurança definido. Qualquer elemento que ali fosse encontrado seria considerado guerrilheiro ou simpatizante. Não creio que a tropa tivesse por ali passado nos últimos anos. Na melhor das hipóteses talvez só os Flechas, que esses, nunca se sabia por onde andavam. Quando eram lançados numa operação, recebiam da tropa a ração de combate, enterravam-na à saída do kimbo e passavam uma semana ou mais em perseguição dos guerrilheiros. O resultado quase nunca se conhecia. Constava que os perseguiam dia e noite sem serem detectados até que, no momento mais oportuno, atacavam e não deixavam ninguém vivo para contar. Nunca consegui confirmar se isso era verdade. Fazia parte dos segredos da pide.
Verdade era andarem pelo mato durante semanas. Quando regressavam, desenterravam as latas da ração e entregavam-nas à família. Eram recrutados pela pide entre a população de etnia bosquimane, um povo tradicionalmente nómada e auto-suficiente, que sobrevivia naturalmente do que a mata dava. Aliás, contava-se que o ódio que tinham aos guerrilheiros, radicava no facto de a guerra lhes ter imposto uma vida sedentária, alterando-lhes os costumes, em total contradição com o seu ancestral modo de vida. E isso era visível nas cubatas que construíam. Mal atamancadas, com ar de provisório.
O plano para a missão do Silva previa a recolha do grupo três dias depois, num determinado local devidamente assinalado no mapa, exactamente onde findava o risco que definia a picada, sinal óbvio que dali para diante, apenas existia a profundeza da mata africana, virgem, intocada, como parte de um território imenso e selvagem.
A operação de resgate ficara à minha responsabilidade. Dispunha para isso de uma viatura Berliet, vinda de propósito da Neriquinha, já que, no Rivungo, apenas se dispunha de dois Unimogs, dos pequenos.
Ainda assim, dada a dimensão do grupo a recolher, era certo que apenas a Berliet não chegava. A ajuda veio da PSP que dispensou o seu velho Unimog, maior e em melhor estado que os nossos. Partimos por volta da meia-noite. O plano era fazer a viagem durante a noite, de forma a chegar ao local previsto pela manhã do dia seguinte.
Seguimos em direcção a sul, por um percurso já nosso conhecido, do qual saímos, algumas horas depois, virando à direita e penetrando numa zona desconhecida por uma picada pouco marcada, sumida em alguns troços, sinal de que há muito a tropa por ali não andava.
Chovia desalmadamente. O tempo arrefecera e as roupas molhadas aumentavam o desconforto. A noite, densa, enegrecida pela ausência de lua que parecia ter-se mudado para outras paragens, conferia ao ambiente um toque dramático. Só a picada, pouco batida, permitindo um andamento mais ou menos suave, poupava os ossos aos agressivos solavancos.
A berliet seguia na frente, por um troço de picada que corria pelo meio de uma chana não alagada. Atrás, a alguma distância, o pequeno Unimog da PSP saltitava sem se distanciar muito. Camuflada pela noite, uma pequena manada de palancas foi denunciada pela luminosidade dos faróis. Os seus olhos, quando atingidos pela luz, brilhavam tão intensamente no escuro que quase os podíamos contar. De noite, não podiam correr. Quando encadeados, ficavam estáticos e a luz intensa dos faróis baralhava-os.
Dois tiros certeiros deitaram por terra dois dos animais. Mandei avançar a berliet para os carregar. Contudo, a altura considerável da carroçaria e o seu peso exigiram maior força braçal, obrigando a que o unimog que aguardava imóvel na picada se aproximasse. Foram precisos seis homens para conseguir carregar os bichos.
Demos meia volta e avançámos de retorno à picada, procurando adivinhar a sua direcção. Esta, contudo, não aparecia. Mandei avançar mais um pouco. Nada.
Pensei:
- Será que aqui a picada desapareceu?
Podíamos perfeitamente estar num troço em que o rasto antigo tivesse desaparecido, engolido pela vegetação.
Questionei o guia. Mas a noite parecia tê-lo baralhado. Limitou-se a estender a mão e apontar uma direcção. Seguimos a indicação. Contudo, da picada, nada.
A chuva, intensa, continuava a cair, impiedosa, persistente, grossa, incomodativa.
Parámos. Raciocinámos. Não podia ser. Apenas nos tínhamos afastado uns escassos metros. A picada não podia estar tão longe. Era por ali, algures, perto.
Insisti junto do guia. Avançamos mais um pouco, sem rumo definido.
- Perdemo-nos! Concluí.
A luz dos faróis iluminou, por entre as bátegas grossas, um rasto de pneus, fresco.
- Finalmente! Pensei.
- Este deve ser o rasto que deixámos ao sair da picada para recolher a caça!
Deduzi, esperançoso. Agora era só segui-lo e logo estaríamos de novo no caminho certo.
Estranhei as árvores, tão perto. Quando avançámos pela chana, estavam mais afastadas. Mesmo assim, continuámos.
Rapidamente me apercebi que seguíamos em círculo. O rasto fora feito pouquíssimo tempo atrás. Que sensação estranha. Era como se andássemos atrás de nós mesmos, mas com o nós sempre a fugir, como o cão procurando alcançar a cauda.
Olhei o guia. Até então não soltara palavra. Estava nitidamente desorientado. Perdido.
A chuva aumentara de intensidade. Parecia que o céu se abriu e cismou de nos castigar, mantendo-nos bem encharcados. Sentia a água a escorrer pelas costas. Entrava abundantemente pela gola do camuflado, por debaixo da aba do quico. O poncho deixou de funcionar como impermeável. Apenas nos mantinha quentes.
- Dormimos aqui.
Decidi.
- Continuar nestas condições pode significar estarmo-nos a embrenhar cada vez mais na mata ... andar sem rumo.
Justifiquei.
Cada um se aconchegou onde pôde, procurando abrigo da chuva. Uns inutilmente debaixo da berliet, já que a carroçaria esburacada não oferecia protecção. Açoitado pelas bátegas intensas, sentei-me encostado a uma árvore procurando minimizar o efeito do dilúvio. Inútil. Acabei por me esticar ao comprido no pequeno declive formado pelo terreno à volta do tronco. Dada a inclinação, a água escorria livremente por debaixo do corpo. Sempre era melhor que dormir numa poça.
Por estranho que possa parecer, adormeci.
Acordei pouco depois. O dia nascia por entre os ramos das árvores. Parara de chover, sinal que dentro de pouco tempo os abrasadores raios solares que sistematicamente se seguiam a grandes borrascas, secariam a roupa, a pele, a boca, a mata, tudo.
As duas peças de caça, responsáveis pela situação, jaziam no fundo da berliet. O calor provavelmente se encarregaria de nos estragar o petisco. Tudo dependeria do tempo que levaríamos a chegar a casa. Abriram-se as palancas e retiraram-se as vísceras. Retardaria a decomposição e durariam mais tempo.
Com o romper da aurora o guia encontrou rapidamente o seu rumo. Afinal apenas estávamos a cinco minutos da picada. Ali tão perto, porém tão longe. Afastada da nossa vista pela escuridão, de nada valeu o estar ali ao lado.
Retomámos o caminho, agora mais endurecido pela chuva e liberto da esgotante e incomodativa poeira, o que permitiu aumentar a velocidade. Chegámos ao destino mais cedo do que esperávamos. A picada foi-se sumindo progressivamente até desaparecer como se fosse água de riacho em areias desérticas.
Conferia com o mapa, deveria ser ali o ponto de encontro.
Mas o Silva não estava. Ninguém estava à nossa espera.
- Será que chegámos muito cedo? Alvitrou alguém.
Mandei avançar mais um pouco, a picada podia ter desaparecido ali mas continuar um pouco mais à frente. Avançámos mais dois quilómetros seguindo a direcção que presumivelmente seria a continuação da picada. Mas nada. Quem a marcou (as picadas não se constroem) ficara-se mesmo por ali. Dali para a frente nunca ninguém passara, certamente.
Esperámos.
- Pode ser que venham a caminho.
Mas nada. Nem sinal. Tentámos o rádio. Sintonizou-se a frequência. Como resposta apenas o irritante barulho de frigideira ao lume.
E agora?
Tentámos o contacto com a base. Não conseguimos ligação. Provavelmente era distância a mais para o moderno Racal TR 28. Aos insistentes “base, base, charlie chama” apenas se obtinha como resposta, o silêncio.
Que fazer? Esperar? Regressar sem o pessoal?
- Será que o doido do Silva levou a missão para além do previsto?
- Se calhar, foram atacados e na sequência da escaramuça, perderam-se.
Resmungou alguém.
- Não, perdidos não!
Lembrei que, com um guia como o velho António, ninguém se perdia. Era homem de confiança e que conhecia a região como a palma da sua mão.
O meio-dia aproximava-se. Conferenciámos. Esperar mais era inútil. Pura perda de tempo.
Iniciou-se o regresso ainda com a esperança que o António levasse o grupo até à picada que nos trouxera ali. Se assim fosse, encontrá-los-íamos pelo caminho. A hipótese fez-nos acelerar a marcha com a ajuda do terreno pouco batido.
Mas nada. Do Silva e do seu grupo não se encontrou sinal. Voltámos ao Rivungo de mãos a abanar.
E agora?
O Alferes Fausto contactou a Neriquinha. Chamar a Força Aérea para a busca era uma hipótese.
Que não. Não se justificava. Ainda era cedo para isso.
Era preferível seguir outra estratégia. Voltar ao local foi a opção
Resultou, o grupo foi encontrado já na picada nossa conhecida, muito acima do local inicialmente combinado. Provavelmente se eu tivesse por ali ficado mais umas horas, tê-los-ia encontrado no caminho de regresso.
O Silva, de facto, por razões que desconheço, avançou mais no terreno do que o previsto. O António, conhecedor da região, concluiu ser preferível progredir para a bifurcação das picadas, mais a norte, já em direcção ao Rivungo e em sentido contrário ao do planeado. Caminhar para o local previamente definido, seria voltar para trás.
Falhara o timing e a bateria do TR 28 que, ao pifar, inviabilizou a comunicação.
Na chegada ao Rivungo o Silva não culpava ninguém. Para ele tudo correra normalmente. Apenas um pequeno percalço deixara os seus homens à beira do esgotamento e com os cantis vazios. Salvara-os as fortes chuvadas que possibilitaram matar a sede com recurso a palhinhas feitas de capim, por onde sorviam a água que se acumulava aqui e ali.
Olhei para o António.
- Então Homem! Pensei que se tivesse perdido!
- Não Furrié, isso comigo nunca aconteceria.
Respondeu, com um ar muito sério.
Confidenciou-me depois, como se fosse um segredo, que seria incapaz de pôr em risco a vida dos seus amigos.
Recordo o velho António como um homem bom. Alguém para quem se olha como se fosse um pai. Alguém em quem se confia. Cegamente.
Não. Com ele, certamente ninguém se podia perder.
Quanto às duas palancas, foi um festim para a população. Para quem estava habituado a secar a carne ao sol, eram mantimentos frescos.
Só a tropa não se atreveu a provar.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

MABUBAS


Não, ainda não é tempo de começar a contar histórias sobre as Mabubas. Essa é a parte final da saga.
Mas, ando a acompanhar um blog, mantido diariamente por um engenheiro que actualmente trabalha em Angola. Não é do nosso tempo, anda ainda na casa dos 30, mas escreve histórias do quotidiano de Angola. Algumas delas trazem recordações que levam a pedaços da nossa passagem por aquelas paragens.
Um certo dia, o Afonso Loureiro, contou sobre um passeio que fez à Barra do Dande.
Não resisti e num comentário feito nessa história, desafiei-o a andar um pouco mais e ir até às Mabubas.
Fez-me uma surpresa. Foi lá, tirou fotografias, contou a história do que viu e publicou tudo.
Recomendo a leitura. E também, o comentário do Pedro Cabrita que explica por que desapareceu a água da barragem.
O endereço da história é:

http://afonsoloureiro.net/blog/?p=2410

E para quem quiser ver a desolação total, está disponível no Google Earth. Vejam:

http://maps.google.com/maps?q=-8.532+13.696+(Mabubas)&t=k&hl=en&ie=UTF8&ll=-8.534351,13.697698&spn=0.00452,0.006609&z=17&iwloc=addr


sábado, 25 de abril de 2009

Homenagem à memória de JOAQUIM DA SILVA SOUSA

Excerto retirado do livro "Memórias de um Combatente".

Trabalho publicado em livro pelo nosso companheiro
Joaquim da Silva Sousa, recentemente desaparecido.

Nasceu a 25 de Fevereiro de 1950, em Fazendas de Almeirim.

Mobilizado para Angola: 22 de Maio de 1972.

O 1º Cabo SOUSA preparava a edição deste livro
quando foi surpreendido pela morte.
Em cerimónia simples, mas carregada de emoção e significado,
este livro foi apresentado no último encontro da
C.Caç 3441 e publicado por determinação dos filhos.

Na impossibilidade de lhe prestar melhor homenagem,
transcrevo o I Canto da lírica de J. S. Sousa

MEMÓRIAS DE UM COMBATENTE
Canto I

22 de Maio de 1972.
1

Que sofrimento meu Deus ser pai de dois rebentos
Que eu amo tanto e vou ter que deixar,
Ao mando de um governo que me vai fazer lutar,
Cegos pelo poder, e de conservadores sedentos,
De um Portugal que está para além do mar.

2

Mas que mal fiz eu oh Deus tu fala-me!
Se eu em ti confio do teu amor careço,
Se for obrigado a matar quem nem conheço!
E não me fez mal algum, então tu cala-me,
Pois isto seria castigo que eu de ti não mereço.

3

Pois quem defende aquilo que é seu
Que condenação lhe estão movendo?
Diz-me tu, porque eu não estou sabendo!
Que o mesmo eu faria pelo que é meu,
Assim me ensinaste e eu assim o entendo.

4

E que culpa é que têm duas filhas que deixo?
Que vão passar mal sem necessidade nenhuma,
Mas que história é esta que à guerra me ruma?
Que só por amor a elas deste mal eu me queixo,
Que vejo a minha vontade sem vida nenhuma.

5

Angola, que para tão longe me levas,
Deixando os amores de mulher e filhos,
Com este mandar que me tira dos trilhos,
Que uma arma me dão para mandar ás trevas
A quem não quiser andar por antigos carrilhos.

6

Mas que mal eu fiz? Quem me fez mal?
E contra quem é que eu vou lutar?
Mas quem é que me fez mal para eu ter de matar?
Que me estás tu a fazer oh meu Portugal,
Que me ordenas a morte em vez de amar.

7

Porque não divulgas aos teus filhos a razão,
A razão de fazeres do africano o filho enteado?
Que português se tornou após colonizado,
Para que de ti fosse filho e de mim irmão,
E hoje ainda ser de ti escravo alforriado.

8

E com que mentiras é que nos manténs
Ás glórias de séculos que este povo fez?
E que altares prometes tu ao povo português.
Para deixar mulheres, filhos, pais e mães,
Que só depois na ausência quer saber os porquês.

9

Como eu hoje pergunto pedindo a verdade
Que sabendo isto pela história alguma vontade
Através dos séculos o conquistar deste povo,
Mas, se já em tempos de reis se fez um Brasil feliz,
Porque se não faz de cada colónia outro país?

10

Não vos fazei de burro o já velho estado novo,
Para não dares mais mortes a tantos inocentes,
E ainda nos dares mais miséria, aquilo que já se vê!
Nem sufoques mais lá e cá as nossas gentes
Que por ti se sentem escravos ainda sem saber porquê.

J.S. Sousa

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Sub-Chefe da PSP do Chipundo

Saíra muito cedo com a incumbência de recolher no Chipundo o acidentado Land Rover da PSP daquele posto. Para a missão, dispunha de uma velha berliet e meia dúzia de homens (eu e o condutor incluídos). Uma pequena depressão no terreno, a ajuda dos taipais laterais a fazerem a vez de rampa, alguma imaginação e trabalho braçal, resolveram o problema de carregar sobre a berliet a viatura estropiada que jazia morta, inútil e exposta às intempéries, nas imediações das instalações da PSP, autêntica imagem de um trágico desastre, dificilmente compreendido.
Percorríamos agora o caminho de regresso, avançando cautelosamente pela picada irregular, já que o Land Rover, movendo-se constantemente numa dança instável, ameaçava fugir da boleia, obrigando a uma paragem para reforçar as improvisadas amarras que, através dos buracos do fundo da carroçaria, o prendiam à estrutura da berliet.
Aquele troço, já nosso conhecido, serpenteava ao longo de uma zona desarborizada no meio da qual, dois sulcos desenhavam uma picada riscada no verde da paisagem, compondo uma espécie de corredor apontando em direcção a norte. A mata, de ambos os lados, aparecia um pouco mais ao longe, definida por uma linha de árvores feitas sentinelas à entrada de uma terra de ninguém de onde emergia uma manada de imponentes búfalos pastando indolentes. No outro lado, um grupo de pequenos macacos saltitando de árvore em árvore, grunhiam atrevidos como que provocando aqueles intrusos montados numa geringonça barulhenta por ali vista apenas de quando em vez.
O Chipundo era o último reduto, espécie de fronteira mais a sul daquilo que se poderia chamar área de actuação da CCaç 3441 e distava cerca de 3 a 5 horas a partir do Rivungo. Naquelas paragens, a distância dependia sempre da época do ano, do estado da picada, das condições climatéricas e muitas vezes das birras da viatura que se utilizasse, fazendo com que algumas dezenas de quilómetros parecessem centenas.
Era uma espécie de subdivisão do círculo administrativo do Rivungo e assimilava-se, em quase tudo, a um Kimbo, só que maior, mais populoso e claro, mais importante. Ficava situado no bocado de terreno que compunha o interior do cotovelo formado por uma curva apertada do Rio Cuando, lugar aprazível que propiciava, entre outras coisas, o ensejo de se poder tomar banho no rio, coisa não propriamente despicienda numa região onde não existiam duches e as temperaturas podiam subir aos 45º durante a maior parte do ano. Quanto ao mais, dir-se-ia que o Rivungo, comparativamente, nos parecia estar no limiar da civilização.
A maior dimensão do Chipundo e porque não, importância, face aos restantes Kimbos, determinava maior efectivo policial, ali composto por três ou quatro polícias e outros tantos ajudantes. Para os comandar fora nomeado um Sub-Chefe que chegara de Serpa Pinto, passando pelo Rivungo e transferindo-se para o Chipundo no velho Land Rover do posto, conduzido pelo experiente motorista, conhecedor da viatura, do trajecto e correspondentes redondezas.
Era um homem jovial, alegre, de riso fácil e vivacidade contagiante, estabelecendo de imediato uma empatia com toda a gente. O seu estilo desinibido permitiu-lhe ganhar amigos rapidamente, tornando-se popular e conhecido
Aprendemos a conhecê-lo. Aparecia de quando em vez no Rivungo, quando ali se deslocava para tratar dos assuntos a que a função obrigava ou, quando em missão para aqueles lados, parávamos pelo Chipundo.
Uma vez chegado ao seu novo posto de comando, tratou de reconhecer a zona. A sua missão de proteger as populações obrigava a que conhecesse bem o terreno circundante. Num local onde a mata começa a escassos metros do limite da aldeia e nada existe a separar, é muito difícil ficar-se confinado ao perímetro das cubatas, especialmente para um homem com as características do Sub-Chefe, que tirava o máximo proveito do que a natureza tinha para oferecer.
Tratava-se de uma região imensa, absolutamente plana e muito pouco povoada, já que a guerra empurrara para pequenos aglomerados uma população essencialmente nómada. A natureza propiciava uma certa abundância natural em frutos selvagens, algumas raízes e fundamentalmente em caça. Num local tão distante, onde não havia supermercados e os géneros chegavam a conta gotas trazidos pela tropa em reabastecimentos conduzidos por uma logística de guerra, a caça, abundante e variada, era sem dúvida um recurso não negligenciável e a juventude e voluntarismo do Sub-chefe, levava-o a aventurar-se em incursões pela mata, com o objectivo de arranjar algo de fresco para o jantar e, muitas vezes, para alimentar as populações.
Numa destas incursões, por excesso de confiança à mistura com outro tanto de incúria e desrespeito pelas mais elementares regras de segurança, o sub-chefe, sabe-se lá porquê ou para quê, colocou no porta-luvas do Land-Rover uma granada.
Não é difícil imaginar o que acontece a uma viatura destas, ao percorrer aqueles itinerários acidentados, numa altura em que a tecnologia de conforto na construção automóvel ainda não atingira o grau de sofisticação actual, especialmente quando se fala de um veículo já com seis dígitos no conta-quilómetros. Tudo o que se encontra dentro no habitáculo salta num frenesim constante e violento.
A granada, solta dentro do porta-luvas, saltava perigosamente com os constantes solavancos. O bater continuado nas paredes do minúsculo espaço a que fora confinada, fez com que a cavilha de segurança se fosse soltando lentamente. Para ajudar, o compartimento não tinha porta. Esta, há muito desaparecera com os anos de uso da viatura. Na verdade creio que nunca existiu.
A granada acabou por saltar do minúsculo porta-luvas, caindo aos pés do sub-chefe. A cavilha de segurança, já praticamente fora do orifício, acabou por se soltar totalmente ao embater no fundo da viatura, libertando a alavanca e espoletando o mecanismo que acciona a explosão.
Não se sabe se o malogrado polícia chegou a aperceber-se da queda da granada. Decorridos quatro segundos, tempo que leva a consumir o pequeno rastilho que liga a espoleta ao detonador, a explosão, violenta e assassina, projectou um sopro de morte, carregado de estilhaços, que retalhou o corpo do sub-chefe, roubando-lhe a vida e abrindo um rombo no tejadilho metálico da viatura.
No dia seguinte, o corpo foi transportado para o Rivungo, aguardando, numa das casas vazias, os necessários preparos para a trasladação. Tive a infeliz oportunidade de ver o efeito devastador que aquele engenho de morte provoca num corpo humano. É que, fui destacado para ajudar o técnico que, vindo de Serpa Pinto, procedeu à selagem da urna de chumbo já que, o estado lastimoso em que se encontrava o corpo impedia que um homem só desse conta do recado. Ainda hoje, por vezes, associo a mortos o cheiro de chumbo derretido.
Por ironia do destino e passado algum tempo sobre o acontecido, também me coube a tarefa de recolher a viatura acidentada. O Land Rover viajava agora sobre a Berliet, balançando ao ritmo bamboleante da picada, como se de um corpo morto se tratasse.
Saí da letargia em que a recordação me mergulhara. O silêncio era apenas violentado pelo motor da berliet que, indiferente a tudo, vencia o resto do troço que levava ao Rivungo.

domingo, 29 de março de 2009

N'riquinha - Um E.T.D. sem retorno...

Jamais consegui explicar a razão da minha afeição às gentes do aldeamento da N´riquinha.
Porque fiz quase minhas as dores daquela gente e porque sofri na partida, quando era uma incontida alegria que me deveria inundar por finalmente abandonar aquele autêntico “buraco” onde nos amarraram longos dezoito meses e meio.
Porque interiorizei o sofrimento daquela gente e, nesse sentido, quanto martirizei a “minha tropa” em apoios, transportes e protecção de uma população que não tinha que me dizer nada, porque eu estava ali para fazer a guerra e não para me sensibilizar com o sofrimento escorrido dos nossos 500 anos de ocupação, em que nem a língua materna fomos capazes de lhes transmitir.
Talvez a minha origem humilde possa explicar este acolhimento insensato para um “guerreiro” armado para fazer a guerra. Talvez se tenham enganado os Senhores da Guerra quando me descortinaram engenho e chama para a beligerância a que me destinaram; ou, quem sabe, nem tenham tido tempo para perceberem que a peça não era muito talhada para a função almejada.
Talvez a comunhão sempre viva no dia-a-dia da minha aldeia tenha permitido e incentivado esta minha extensão às agruras das gentes das Terras do Fim do Mundo que nos calharam em sorte e em tempo de guerra.
Talvez “a minha tropa” nunca venha a entender porque os obriguei a tanto tempo extra em devoção a gente tão despida de valores materiais, mas tão rica na nobreza de nos aceitarem com 500 anos de soberania prepotente, tempo aparentemente insuficiente para lhes termos dispensado uma réstia de dignidade que nunca fomos capazes de lhes proporcionar.
Quem sabe se não me pesaram na consciência esses 500 anos de ostracismo e desdém com que brindámos o seu consentimento em deixar-se ser portugueses sem o pedirem.
A partida de N’riquinha foi dos momentos mais doridos de entre todos os 1400 dias de serviço militar a que me vi obrigado a cumprir.
Não encontro melhor forma de vos fazer compreender o meu sentimento por aquela gente senão transcrevendo-vos como o vivi.
Apenas referir que este escrito tem cerca de nove anos. Li-o uma única vez depois de publicado. Não consegui voltar a lê-lo.
Não será hoje que o faço. Transcrevo-o apenas.

“…A grande viagem vai começar. N’riquinha-Luanda.
Dois mil quilómetros em linha recta. Bastantes mais pelas picadas e asfaltos que nos esperavam.

As despedidas estão feitas. Cerca de 140 militares distribuem-se por não sei quantos camiões civis, sentando-se sobre as caixas, malas e múltiplas embalagens, que albergam uma mistura de espólios de guerra com esbulhos de uma civilidade havia muito perdida e encaixotada, e que agora cortejavam a esperança de poderem voltar a florescer, depois de vencido o bafio e a poeira do tempo.
A primeira viatura faz-se preguiçosa e indolente à porta de saída. Soam os primeiros gritos de alegria de despedida de um inferno que por fim se extinguia. Em pé os soldados, enfardados num camuflado desbotado dos tombos da guerra, erguem a G3 como se acabados de conseguir a maior vitória das suas vidas. Os putos, menos doridos e molestados pelos sentimentos de proximidade e pieguice dos adultos, saltitavam em bandos ao lado das primeiras viaturas, alegremente contagiados pela alegria que explodia em cada uma delas.
Ao fundo, comedidamente à distância, na beira do kimbo defronte da picada por onde iríamos passar, aglomera-se um magote de gente silenciosa e mortalmente imóvel. Mulheres com crianças às costas, velhos que se vergam à frente apoiados em paus longos, raparigas adolescentes de braços cruzados que mordem uma ponta do pano que lhes envolve o corpo esguio, mulheres idosas, que se ficam mais atrás apoiando-se na última cubata, com a mão sobranceira aos olhos protegendo-se do sol.
Um kimbo inteiro.
Um kimbo inteiro veio despedir-se da tropa matchiririca que chegou um dia para fazer a guerra com armas que matam e acabou por se consumir noutras batalhas tão indesejáveis e perversas quanto aquela. Uma luta pela dignidade da vida dos que nada tinham e uma autêntica guerra contra o isolamento e as agruras duma fome ignóbil de comunidade perdida nos confins de África, uma autêntica tribo de índios ainda perdida nos confins duma Amazónia deserta, também esta em vias de extinção por via do progresso e de causas justas.
A coluna já se forma lá fora do aquartelamento iniciando preguiçosa uma caminhada de serpente, marcada por nuvens de poeira que se vão elevar nos céus assinalando a sua passagem. A picada segue inicialmente a linha da pista de aviação em direcção a Mavinga, correndo paralela ao quartel e ao kimbo.
Agitam-se lenços, braços e gritos. Uns quantos não resistem e correm até junto da picada. Crianças, adolescentes e mulheres, algumas com crianças às costas. O movimento das viaturas induz-lhes o acompanhamento destas.
Correm. Num impulso contagiante, mais gente vem descendo por entre tufos de capim seco que saltam com destreza. Já há uma pequena multidão que corre paralela à coluna acenando e gritando palavras que continuo sem entender o significado mas que desta vez dispenso tradução. Alguns correm apenas e nada dizem, nada fazem. Apenas querem correr e ficar mais um pouco junto de nós. Uma derradeira companhia, um último momento de uma despedida que já levava dias. Apenas o prolongar um pouco mais da agonia do fim de uma amizade fraterna que a proximidade confortava e induzia um pouco mais de segurança, bem-estar e protecção.
Centenas de metros percorridos e quase ninguém desiste. Corações ao alto, corações ofegantes, corações que persistem numa corrida sem fim nem proveito. Uma corrida quase suicida de ir até ao fim, de ir até cair.
Estou sentado ao lado do condutor que sorri meio estupefacto e me diz.
- Nunca vi nada disto.
Mando abrandar.
Que raio de ideia. Retemperam-se do esforço e dispõem-se a ir muito mais longe.
Mando acelerar e deixo de olhar. Fecho os olhos naufragados numa comoção que transcende aquilo que se espera de um comandante de guerra. Esqueceram-se que um militar nasce militar, não se fabrica por conveniência. Sinto que aceleramos e deixo passar mais uns metros seguros de não ver mais aquela espécie de loucura, de suicídio colectivo, um mar de baleias que dão à costa e se matam com um sorriso de prazer inexplicável recusando voltar atrás, que nos sobreleva o entendimento ou nos desvirtua a propalada razão e superioridade humana.
Por entre um marejar turvo de imagens desfocadas consigo perceber que há ainda um resistente que ao nosso lado se mantém firme de olhos em frente e um sufoco estampado no rosto. Traz vestida uma pequena tanga que esvoaça e denuncia os restos de um camuflado há muito esquartejado, que disfarça agora a sua nudez e sufoca o que resta de uma dignidade que recusa perder.
Fecho os olhos em definitivo e recosto-me no banco. Passo as costas da mão pela testa em busca de um suor que não existe e prolongo o gesto pelos cantos dos olhos, onde estrangulo uma dor que se me escorre de dentro sem que se entenda bem onde nasce. Preciso urgentemente de me explicar quando percebo que o condutor me olha de soslaio e desvia a atenção da picada.
- ... Esta poeirada...!
- ...?!
Mantenho-me assim por dez minutos e percorro em sentido inverso aqueles dois, três quilómetros já percorridos. Tento entender e não consigo. Ficamos sempre com uma imagem de um determinado bem que se faz, de umas migalhas que se oferecem e nos deixam alguma paz de espírito que nos conforta o sentimento de bem-estar connosco próprios. De acordo com as circunstâncias em que ali fomos vivendo todo aquele tempo, atribuímos um determinado significado às coisas, sempre parco quando o comparamos com os nossos padrões de vida, os nossos hábitos e anseios. Esquecemo-nos que o pouco que por vezes se oferece tem um significado tão intenso e duradouro quanto miserável é o significado das suas vidas e quão vulneráveis ficam os seus corações a gestos de pouca monta, mas tesouros de riqueza desmedida que retribuem com as únicas moedas que possuem: a solidariedade e o reconhecimento.
O condutor não pára de olhar pelo retrovisor.
- Parece que já ficaram para trás, diz espreitando dos dois lados como que receando que se tivessem passado para o outro lado.
Não arrisco a abrir os olhos para confirmar. No fundo, talvez eu quisesse guardar aquela imagem lá bem no meu íntimo. Uma prenda simbólica que nos cinzela a memória corroída por inutilidades. Uma fenda esculpida a marteladas de vida que nos deixa marcas que perduram pela vida fora e nos humedece ainda os olhos, trazendo à mente uma catadupa de sons e imagens de significado imenso e de tão grata recordação.
- Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga...
Diz-me ainda o condutor, mais preocupado com aquela perseguição tenaz, que com o trilho baço de poeira da viatura da frente.
Não! Virão atrás de nós muito para lá de Mavinga. Virão atrás de nós todo o tempo que eu viver e for capaz de me lembrar deles, da sua simplicidade, dos seus corações abertos, dos seus hábitos e tradições, da sua inocência de fazer casa grande para captão e mulher do Puto, de acreditarem numa pátria que nunca viram nem sentiram como sua, de serem capazes de acreditar todos os dias em qualquer coisa sem terem nada em que acreditar.
Abro por fim os olhos. Agora sim mergulhados num verdadeiro tormento de poeira, uma extensão daquele escuro de nuvem confusa que me faz perder o norte e me baralha a mente com pensamentos descoordenados que me desalinham a recentíssima alegria de partir.
Não me sinto.
Não sei se venho. Não sei que partes de mim vêm. Não sei o que trago. Não sei o que deixo. Não sei o que perco.
Mas sei o que ganho.
E que me dói já a certeza de jamais poder com eles usufruir do que bebi dessas lições de vida sentida e dorida, trituradas a golpes magoados de pilão e sublimadas a bálsamos de batucadas ardentes vencidas pela noite dentro, até que a dor morresse e um novo dia de fé ausente nascesse.
Já não ouço vozes. Só corações soçobrando num adeus derradeiro que se extingue num último suspiro sem sinais de revolta.
Agitam-me os tombos da picada. Agitam-me os meus pensamentos desarrumados. Agitam-se-me revoltas de sentimentos de impotência e remorsos de me vir embora quase feliz. De deixar para trás um fosso com gente dentro que chegou a acreditar que tinha chegado a hora de fugir daquele gueto de guerra e poder morar livre como o vento no mato longínquo e seguro das terras do Cuando-Cubango.
- Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga… (120 Km)
De soslaio vou dando miradas pelo espelho retrovisor, não sei se na esperança de ainda ver alguém, se de não ver. Mas se vir, garanto a mim próprio que mando parar a coluna e o abraço longamente até sentir que o seu coração se acalma e se me ensurdecem os gritos de despedida que ainda ouço.
Convenço-me por fim que já não vêm. Convenço o condutor a olhar apenas em frente porque é por ali que passa o futuro. Tenho pela frente quatro dias de comer quilómetros de poeira que embaciam um céu limpo sem nuvens. Um circo em movimento que se move em busca de outros públicos e os mesmos aplausos dos que querem continuar donos e senhores da terra que, para muitos, os viu nascer.
Mavinga, de passagem. Quase sem tempo para uma cerveja refrescante que nos lave estômago e a bexiga dos primeiros 120 km de um pó eterno que mastigávamos já com naturalidade, quando o sentíamos ranger entre dentes ou lacrimejar turvo que escorria pelo canto do olho levado pelo vento que nos temperava das ondas tórridas de um calor sempre sufocante.
Andar, andar. Está no andar. Dali para fora. Com calor, com sufoco, com gosto ou desgosto.
Um último relance pelo fim da picada que vinha de N’riquinha. Um último sossego de caminho vazio onde a poeira fina ainda paira no ar como cacimbo seco e colorido obstinado em ficar por ali tingindo as árvores da cor da picada.
- Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga… – ainda me ressoa perturbador como vaga que me quer engolir e atirar de encontro ao rochedo do meu medo de olhar para trás…”


Pedro Cabrita

N´riquinha – Entregar, peça por peça, um quartel vazio de gente e de almas…

Tinha deixado a promessa de por aqui passar com mais regularidade, deixando uma ou outra intervenção que ecoasse a nossa memória colectiva daqueles anos 71/73. Não que não tenham buscado e rebuscado uma ou outra história ainda “secreta” que valesse a pena trazer ao conhecimento dos nossos cabelos brancos e olhos ávidos de lembranças de uma mocidade que nos calhou viver em comunhão e em sofrimento.

Mas a verdade é que, para já, não encontrei senão episódios dispersos a que acabei por não dar relevo.

Prometo continuar a procurar. A memória já não é o que era; mas aquela daqueles anos ficou como marca indelével, que se nos vai avivando em cada ano em que matamos saudades nos encontros que o Duarte em boa hora empreendeu.

Mas este vazio de reconstrução de histórias novas também tem uma outra justificação que se prende a uma ou outra aventura literária em que me fui metendo, acabando por quase esgotar o manancial de narrativas passíveis de reproduzir agora e de novo.

Entendo, no entanto, que este lugar nos deve merecer um inusitado carinho, louvando, desde já, o Egídio Cardoso pelas belas prosas e fotos com que nos tem brindado. Pela minha parte farei o possível.

Deste modo, e perdoem-me a falta de originalidade, achei que talvez não fosse despropositado trazer um ou outro eco de trechos que já escrevi noutros sítios, na certeza de que muitos dos nossos companheiros ainda os não terão lido e outros nem tenham lá chegado, se porventura se aventuraram a lê-los.

Escolhi duas situações. Esta que aqui vos vou deixar e uma outra que transcreverei noutra folha.

Especialmente para a malta do “arame” (para os leigos, não confundir com “malta do dinheiro”… O “arame” aqui era o arame farpado, querendo referir os militares especialistas que faziam a sua actividade militar no aquartelamento, logo, dentro do arame farpado); dizia então que, para estes, e não só, deixava a recordação da entrega do aquartelamento à Companhia que nos foi render e os milhares de apetrechos e artefactos que foram necessários contabilizar e conferir, numa saga inimaginável, ou só admissível numa instituição como a militar. Também para muitos outros que não fará a mínima ideia de como aquilo era.

Então foi mais ou menos assim que eu senti aqueles três ou quatro dias em que cheguei a ter cãibras na mão direita de tanto assinar papel:

“… Por fim a trouxa militar está entregue. As mais de mil e quinhentas assinaturas estão rabiscadas noutros tantos formulários e modelos militares garantindo a passagem de testemunho, consubstanciado em milhares de peças e pecinhas com os mais variados tamanhos e funções.

Garfos, quase conferidos dente a dente para verificar da sua operacionalidade, colheres, casas, pré-fabricados com telhas de zinco que voam nas tempestades mas param submissas a cinquenta metros de distância e aguardam que as tragam de volta vezes sem conta, como crianças que se obstinam em fugir ao controlo dos progenitores; máquinas de escrever, que por vezes escreviam; mapas, que falavam mas nada diziam e por vezes mentiam; cadeiras, secretárias (de madeira…), chaves de fenda, de cruzeta, de boca, sem boca, com dentes, sem dentes; motores que trabalhavam, outros que se reformavam, e ainda os que morreram há muito e já não respiram, mas continuam pertença e tesouro da República; retretes que fediam, camas que gemiam, colchões sem edredões; passeios de tabuinhas cruzados por milhões de viagens nos dois sentidos e sem sentido; arame farpado com bicos que ameaçavam rasgar a carne aos que queriam entrar, mas também dos que queriam sair; holofotes com luz, sem luz, antenas, bombas de água que nos bombeavam a paciência, geradores que muitas vezes trabalhavam; câmaras frigoríficas a funcionar, avariadas, inutilizadas, obsoletas, mas ainda zelosamente à carga, não fosse desertarem para as bandas do inimigo; camiões, unimogs, jipes, uns a andar, outros parados, vandalizados, canibalizados; uma prisão com telhado de capim, paredes de barro (espesso…!) e grades de vento; areia, muita areia, pedrinhas pintadas de branco que faziam de ruas que não levavam a lado nenhum e davam uma ilusão de ordem que apontava um caminho que não existia; uma taberna travestida com o eufemismo de cantina; bidões de gasóleo, cunhetes de munições contadas caixinha a caixinha, cunhetes de cerveja contadas na garganta duas a duas; janelas com rede mosquiteira, quartos com mosquitos, panelas de 50 litros e tachos de 30 que tresandam a um aroma de gordura militar que se esvai três dias depois da fome nos ter dizimado as resistências do olfacto e o último furo do cinto; um Chiado (vazio) onde em época alta se pode encontrar o último grito de sabão azul cortado em fatia fina com faca de queijo; um clima variado (de 45º a – 3º), noites escuras, de solidão, de desespero, de medo, blenorragias, pagas em moeda corrente ou géneros de primeira necessidade; (“… furrié é bom p’ra mim; furrié dá sapato, dá pano, dá dinhêro p’ra comprá cérvêja lá nos cantina…”); paludismos distribuídos gratuitamente a febres de 41º repartidas por 15 dias de férias em cama fresca de abundante suor; vacinas contra a mosca do sono (1cm3 por cada 10 kg inoculados por agulhas de 8cm enterradas na alva nádega sem dó nem piedade); medicamentos, para as doenças e para afugentar o medo das balas; um milhar de bugigangas agrupadas em pacotes de função, outro milhar dividido em função de pacotes, ainda um outro sem pacote nem função, e, por fim..., um kimbo com gente viva dentro, porque se mexia; uma bandeira num mastro altaneiro que se esfalfa todos os dias para afirmar a nossa autoridade naquele lugar e uma guerra; uma guerra que começa à porta de armas e termina nas margens de um rio Cuando majestoso e indiferente, que nos separa da soberania do povo do lado de lá, mas que os do kimbo não entendem porque os apartam dos família do outro lado de um rio sem paredes nem muralhas, feito apenas de água que corre límpida e sem raivas em ambas as margens.

Ficam de fora, com o consentimento das NEP’s (normas da coisa militar que nos orientavam em tudo, por vezes até os gestos e os desejos) depois de demorada consulta para esse efeito, a gata (a “chaninha” para os mais íntimos, companheira inseparável das noites de insónia em que nos achávamos a fazer de ratos para a gata brincar); uma cabra bebé, poupada a um tiro de G3 num intervalo da guerra, passando a fazer parte da carga da Companhia (até que um dia a fome ditasse um outro destino) e… o Dango (depois Dango Cabrita), a peça de guerra mais representativa que foi possível achar, depois de capturada ao inimigo nas terras do Cuando-Cubango.

Tudo contado, conferido e entregue, soa um batuque fúnebre que carpirá noite dentro uma dor cíclica de perder quase para sempre, e de uma só vez, um amontoado de amigos trazidos pela guerra e pela guerra levados.

Tropa matchiririca parte amanhã bem cedo…”

Pedro Cabrita