quinta-feira, 19 de novembro de 2009

GE's


Alguns dos nossos GE's. Julgo que quase todos comandantes de secção.
Agora; três deles usam óculos. Alguém me explica onde era o oftalmologista no kimbo que nunca dei por ele...?
Ou será que se tratou de mais uma negociata do Lupale com uma importação fora do controlo das entidades administrativas...?
Alguém que explique isto. Julgo que quando chegámos à N'riquinha eles já usavam óculos. Logo, foram adquiridos antes de nós.
Mais um mistério...

Ainda o DANGO

Nesta altura o Dango tinha dias de permanência na Companhia. Ainda faltavam os sapatos, um utensílio a que ele nunca achou muita piada. Talvez razão pela qual os primeiros que calçou não tenham durado mais de 3 semanas... Os seguintes também não duraram muito mais.
Em determinada altura achei que ele os emprestava aos outros miúdos do kimbo que também os queriam experimentar. Ao fim e ao cabo, sapato na N'riquinha era uma novidade e ... um luxo.
Na outra foto, já mais crescidinho, com par de calças com pouco mais de 2 semanas de "trabalho" e camisa na mão para mostrar os efeitos da jornada...
Tenho alguma fé que ainda vamos encontrar o Dango um dia



terça-feira, 17 de novembro de 2009

A Cerimónia

As fotografias que se seguem, são uma pequena parte de uma série que diz respeito a uma cerimónia levada a cabo na N'Riquinha, para afugentar a doença do corpo de uma paciente.
Ao aproximar-me, para fotografar o que eu pensava ser uma festa indígena, já que o batuque, ao invés do normal, começara pela manhã, fui avisado pelo João Cassumbi e pelo Vicente - dois miúdos negros curiosos da mecânica automóvel e condutores para os pequenos serviços dentro da Companhia - que não me era permitido assistir à cerimónia. Portanto, armei-me com uma Vivitar de 200 mm e, com a minha velhinha Cannon F1, lá fui, de longe e circulando de palhota em palhota, fotografando a cena.
Basicamente, o embalo ritmado e hipnótico do batuque e os movimentos simples da dança repetidos milhares de vezes, colocaram a paciente em êxtase e, depois de morta uma galinha, foi aspergida com o sangue da ave e esfregada com sal grosso. As duas curandeiras de serviço, ora se sentavam no meio de um vasto grupo feminino que entoava uma canção de sons baixos e roucos, ora se levantavam e rodeando a doente, repetiam uma lengalenga monocórdica, abanando uns guizos, feitos com uma lata de salsichas cheia de pedrinhas, ao mesmo tempo que lhes percorriam com as mãos, o corpo de cima a baixo. Os mais novos assistiam calados, observadores e com um ar respeitoso.
A cerimónia durou horas e, no final, quase todos os intervenientes estavam possuídos pelo ritmo dos tambores.
Terminou quando, exausta, caiu sem sentidos no chão.











O Dango

O Dango era um miúdo com cerca dois anitos quando, na operação que a nossa Companhia fez ao "Esquadrão", acampamento de guerrilheiros na área onde hoje se identifica a Jamba, foi deixado para trás pelo pai. Na sua fuga, pela chana, á tropa portuguesa, abandonou-o junto à mata.
O Furriel Leitão desceu da Berliet, que eu conduzia em substituição do condutor Gouveia, que adoecera à última hora. O pobre garotito chorava sem parar e, como não se vislumbrasse ninguém nas cercanias, para ali não ficar só, foi, então, entregue a um elemento feminino da população que connosco fazia a viagem de regresso (não me lembro como apareceu junto de nós nem donde viera).
Mamando no peito da sua conterrânea, calou-se e lá seguimos, sendo criado com carinho entre brancos e negros e passando a ser o ai-Jesus da Companhia.
Na hora do regresso à Metrópole, se a memória não me falha, foi entregue em Salazar numa organização religiosa que o acolheu, tendo o Capitão Pedro Cabrita tomado a seu cargo toda a trabalheira necessária para ali ser recebido o Dango. O nosso Dango!

domingo, 15 de novembro de 2009

O Kimbo da Neriquinha

Um aglomerado de cubatas de capim encardido pelo tempo, plantadas logo ali, no lado de lá do arame farpado, aparentando um alinhamento ordeiro, sinal de que alguém havia coordenado a sua implantação no terreno.

Normalmente os Ganguelas não se preocupavam com a geometria, quando construíam os seus abrigos. Era onde calhava ou onde desse mais jeito. Apenas servia para se abrigarem à noite, já que toda a lide doméstica era feita no espaço circundante.

O Capitão entendeu que a situação precária de muitas das cubatas e a anarquia das ruas do Kimbo justificavam uma intervenção urbanística. Incumbiu-me de fazer o levantamento e identificar as que necessitavam de renovação, as que deveriam ser totalmente reconstruídas e alinhadas e ainda equacionar o eventual alargamento da aldeia.

Fiz qualquer coisa, mas a adesão da população não foi muito entusiástica. Para quê tanta trabalheira se o que existia era suficiente?
O calor era intenso e as poucas sombras convidavam ao descanso. Mas, uma coisa ou outra foi renovada. Por exemplo, um celeiro novo foi construído. Contudo, não me pareceu que isso tivesse resultado da iniciativa do Capitão.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Golpe de Estado na Zâmbia.

Sem aviso, o comandante aterrou um dia na N´riquinha dirigindo-se de imediato ao Alferes Fausto, que comandava a Companhia naquela altura. Eu estava de férias.
Sem mais delongas e prescindindo das honrarias militares da praxe – o que não deixava de ser surpreendente no nosso comandante, a par de não avisar que iria chegar – pegou no alferes pelo braço e levou-o de imediato para o meu quarto vazio, o local mais recatado e isolado de hipotéticos ouvidos furtivos que se podia descortinar por ali e para aquelas circunstâncias que se adivinhavam de enorme transcendência.
O Fausto viria a contar-me mais tarde que nem se lembra de ter pensado em nada de concreto que se configurasse com tamanho aparato e secretismo. Tão embasbacado ficou que se limitou a ser autenticamente levado pelo comandante e a encostar-se à parede, depois deste o ter mandado fechar a porta de entrada e a do meu quarto, e ter verificado que não havia mais ninguém por perto.
De dedo em riste apontado ao atónito Fausto disse por fim com ar solene:
- A partir deste momento esta Companhia está envolvida num golpe de estado na Zâmbia!
O pobre Fausto ainda terá franzido um sobrolho... ou mesmo os dois, embora sem conseguir balbuciar palavra. O comandante também nem permitia que falasse. Em três tempos tecia o cenário político que se conhecia, que era o do apoio que o regime vigente na Zâmbia dava à guerrilha que combatia em Angola. A PIDE conseguira, no entanto, penetrar na sociedade política da Zâmbia e, em resumo, disponibilizara-se para apoiar a oposição num golpe de estado que invertesse o sentido político do regime. Ou seja, apoiar a criação de um novo governo que deixasse de apoiar a guerrilha.
Todo o apoio seria dado aos conspiradores e a nós era cometida uma missão específica. Caso as coisas dessem para o torto e os intervenientes no golpe tivessem que fugir, era pela nossa zona que entrariam em território angolano, sendo recebidos e protegidos por nós. O golpe estava iminente e o que era necessário era preparar desde já uma operação que patrulhasse a fronteira (mais de duzentos quilómetros...). Havia até uma senha que os conspiradores teriam que nos exibir, caso os viéssemos a encontrar:
- “ I come to see the moon!”.
Tratava-se duma frase que os identificava como tal e obteria da nossa parte toda a protecção por terra, mar e ar. O mar ali era representado pelo rio.
Tão rápido quanto chegou, o comandante partiu deixando o Fausto sem saber o que fazer naquela enorme confusão e trapalhada. Eu chegaria poucos dias depois, no meio de um enorme alvoroço e nervosismo, onde ninguém conseguia prever as consequências daquela aventura desesperada de interferir na alteração da ordem política de um país estrangeiro. Lembrar que estávamos a cerca de 20 Km da fronteira, isolados e distantes de quaisquer apoios aéreos ou terrestres.
O PAO (Plano de Actividade Operacional) foi alterado por completo e durante quinze dias outra coisa não fizemos que patrulhar a zona fronteiriça abaixo e acima, incidindo os patrulhamentos nas zonas que entendíamos como as mais prováveis para a entrada dos golpistas. O esforço operacional já era enorme e só nos faltava mais aquela aventura de efeitos pouco previsíveis para nos enfeitar os dias de sofrimento e sacrifício que levávamos. Naqueles dias de tensão eu imaginava todos os quadros possíveis. Se de facto entrassem viriam certamente perseguidos e era connosco que os perseguidores se teriam de confrontar. Um confronto com a guerrilha tinha as consequências previsíveis mais ou menos conhecidas. Um embate com tropa regular de outro país, por certo enquadrada de forma mais organizada e apoiada por meios aéreos, era um cenário que nos inquietava e dificultava mais ainda o sono nas noites mal dormidas à beira do rio Cuando, onde se acoitavam milhões de mosquitos que nos atacavam todas as noites, bem antes dos militares zambianos.
Naquele panorama esperava-se que o golpe, a ter lugar, soasse e Luanda soubesse como correriam as coisas. Nesse sentido, esperava-se que, no caso de falha, e a perspectiva de acolhimento ganhasse forma, tivéssemos também nós um reforço de segurança para o previsível embate que pudesse ocorrer. Esta esperança não colhia, no entanto, grandes confortos de alma. O isolamento da região e a distância dos meios de apoio aéreo faziam pensar que, no caso de necessidade, era muito provável que ficássemos a perder no confronto e entregues a nós próprios. Qualquer apoio terrestre nunca chegaria menos de vinte horas depois de ser solicitado. Tempo mais que suficiente para termos pouco que contar quando este chegasse. O apoio aéreo, sem bases de reabastecimento próximas, mal chegassem do Luso ou Gago Coutinho, ficariam alguns minutos e regressariam apenas com o combustível necessário para voltar à base.
E foi no meio deste turbilhão de pensamentos que vogámos durante aqueles quinze dias abaixo e acima perscrutando o rio, no desejo obstinado de o ver correr límpido e imperturbável, sem golpistas aflitos em busca de salvaguarda e de melhores dias para "to see the moon..."
Aos vinte dias o panorama desanuviou um pouco. Fomos mandados recolher, embora ficando em alerta, o que nos deu algum tempo de repouso. Como tínhamos que ficar vigilantes o PAO foi interrompido, permitindo algum tempo para respirar fundo. O golpe não chegou a ser desencadeado porque os revoltosos não encontraram os apoios necessários e suficientes à sua consumação, para grande desespero do regime e da PIDE, que tinham investido grandes esperanças naquela arremetida. Para nós um alívio e o retorno à rotina das nossas guerras internas que já nos bastavam para preencher os ideais e ambições de sobrevivência, que alimentávamos desde o primeiro dia.
Tudo não passou de um susto e de mais uma aventura política desesperada do regime, que procurava apoiar todas as acções e medidas que lhe permitissem acalentar algumas crenças de sobrevivência naquela guerra absurda e sem perspectivas de vitória à vista.

(Excerto do livro "Capitães do Vento" Editora Roma-Editores)

P.C.

domingo, 1 de novembro de 2009

Raid ao Chiúme

Por: Egídio Cardoso

Um a um, os helicópteros levantaram voo, arrancando da pista um remoinho de pó vermelho. A meia dúzia de Alouette III que constituía a esquadrilha que a Força Aérea Sul-africana disponibilizara para a operação, seguiu em formação rumando a norte num voo suave sobre a savana a uma altura que permitia ver com nitidez o terreno que estava acostumado a pisar.
Sobrevoar a savana era, para mim, uma novidade, um deslumbramento que contribuiu para rapidamente anular o azedume pelo desaguisado com o comandante, não obstante continuar a parecer-me ridículo o episódio do camuflado.
Quilómetros de terrenos arenosos e chanas semi-pantanosas, pejadas de mosquitos, que lá em baixo levavam dias a vencer, eram galgadas num ápice dando uma ideia diferente da imensidão plana das Terras do Fim do Mundo.
A planura daquelas terras ganhava maior dimensão vista do alto. Até onde a vista alcançava apenas se divisava um horizonte longínquo, qual mar de cor verde seco entremeado de clareiras amareladas matizadas aqui e ali de um verde mais intenso assinalando o serpentear de rios e afluentes alimentados pelas águas das últimas chuvas. O barulho das pás dos Alouette atormentava manadas de palancas ou gazelas que, assustadas, encetavam uma correria desenfreada, fugindo daquelas coisas estranhas e barulhentas que ousavam perturbar a calma e o silêncio do seu inexplorado habitat.
Após uma viagem aparentemente curta, os helicópteros baixaram, no seu característico planar, aproximando-se da orla da mata, no outro lado de uma extensa chana, pousando sobre o terreno coberto de capim rasteiro. No ar, volteando sobre a área, apenas permaneceu o helicanhão zelando pela segurança dos aparelhos no solo. Cada esquadrilha integrava um, equipado com uma metralhadora de vinte milímetros montada transversalmente e que, em caso de ataque, despejava sobre o solo saraivadas de metralha capaz de dizimar quem se atrevesse a atacar.
Saltei sem dificuldade, não obstante o peso do equipamento que transportava, lembrando-me das vezes que, ainda em Santa Margarida, exercitei a manobra. Contudo, aí, o helicóptero pairava a alguns metros do solo, levando a entorses perante o salto para um solo irregular. Agora, em pleno cenário real, não havia razão para tal. Pousar, largar as tropas e levantar de novo, era coisa de instantes e evitava hesitações de um ou outro menos afoito que se atemorizasse perante a altura ou incerteza do solo onde aterraria.
Afastámo-nos rapidamente do local procurando protecção na orla da mata, aguardando pela segunda leva que completaria o efectivo destacado para tão importante operação.
A forma meticulosa como fora preparada, o empenho directo do comandante de batalhão, o armamento que se transportava, o envolvimento de uma esquadrilha de helicópteros vinda de propósito da vizinha Africa do Sul e o facto der ser comandada pelo próprio comandante da companhia, eram sinais mais do que suficientes para nos convencermos da sua importância.
Devia ser coisa em grande. Pelos vistos, tinha sido detectada uma grande base do inimigo, lá para os lados do Chiúme, mas ainda dentro da nossa área de actuação e falava-se à boca pequena que os altos comandos em Luanda, haviam pensado executar a acção com recurso a tropas de elite integrando forças dos comandos e unidades de pára-quedistas.
Ao que parece o Ruizinho encheu o peito de ar e atreveu-se a contrariar tão experientes estrategos.
- Quais tropas de elite qual quê! De elite eram os homens sob o seu comando, que muito melhor dariam conta do recado. Com um pouco de sorte até poderia haver feridos, ou mortos … sabe-se lá, o que a acontecer aumentaria a heroicidade da acção e o reconhecimento das altas patentes.
O grupo espalhou-se, procurando a sombra das árvores que bordejavam a chana, enquanto o capitão Cabrita conferenciava com os alferes à volta da carta militar do terreno.
Cogitando com os meus botões, à medida que, regressando, os helicópteros desapareciam ao longe, assaltou-me uma dúvida. Para mim, visto do alto, o terreno era todo igual. Pelo menos as chanas não se diferenciavam. Quem me garantia que era aquela e não outra? Como sabiam os sul-africanos que aquele era o local exacto? Podia ser a chana seguinte, outro ponto mais a norte, ou outro mais a sul.
Mas parece que o sítio era mesmo aquele, já que as ordens para o início da caminhada foram dadas sem hesitação e o carreiro por onde metemos parecia corresponder ao indicado no mapa.
Não havia tempo a perder. Era necessário chegar ao objectivo dentro dos tempos planeados, impondo-se uma progressão em ritmo vivo e esgotante, por um percurso arenoso, por vezes acidentado e irregular. As ordens vinham da frente por monossílabos. As paragens eram escassas. Parecia que o capitão Cabrita tinha fôlego de gato. Só demonstrava cansaço quando o resto do pessoal, já em dificuldade, se arrastava como que rebocado pelos da frente.
Excepto o carregador. Mais uma vez a resistência daquela gente me surpreendia. Contratado apenas para carregar as tralhas do enfermeiro e do homem das transmissões, acabou por ir aceitando carregar, a troco de algum dinheiro, os sacos de uns tantos. Como a procura era muita, improvisou uma vara, prendeu nas pontas todos os sacos que negociara, equilibrou o peso de um lado e outro e carregou-a aos ombros. O pau vergou sob o peso, mas o homem, não.
O sol aproximava-se lentamente da linha do horizonte, aliviando os corpos cansados das suas ferroadas. A ordem para parar caiu como uma bênção. Mas foi sol de pouca dura. Logo que a noite tomou conta da mata, novas ordens, dadas em surdina, puseram de novo o grupo em marcha. Só após um curto percurso em silêncio e às cegas pela mata e que pareceu durar uma eternidade, se decidiu o local de pernoita. Um sítio qualquer de contornos diluídos na densa noite. Tratava-se de uma medida de segurança visando evitar que o inimigo desse conta do sítio exacto onde dormíamos, anulando a possibilidade de ataque durante o sono.
Metido dentro de uma farda molhada de suor, acomodei-me no chão irregular o melhor que pude. Tacteei dentro do saco, escolhi uma lata de ração, abri-a em silêncio com a ajuda da faca de mato e engoli o seu conteúdo de sabor atípico. Recostei-me e adormeci vencido pelo cansaço.
O dia seguinte revelou-se demolidor. Os pés não resistiram à dura textura das botas. As costuras das calças do camuflado cederam ponto a ponto, transformando-se num pano que esvoaçava ao vento. O percurso ora irregular, ora de areia solta, fazia do caminhar martírio, tudo condimentado com um calor sufocante.
Maldizia o comandante. Não se gostando do homem, tudo o que não corria bem era culpa dele. É que, parece ter partido dele a informação de que haveria minas na zona, atoarda que determinou a opção pelas botas de cabedal, mais resistentes, em vez das de lona, mais confortáveis e adequadas ao terreno arenoso da savana.
Andar, tornou-se doloroso. As bolhas eram tantas que já não as conseguia contar. Andar descalço, com as meias a fazer de sapatos foi a melhor opção. As botas, presas uma à outra pelos atacadores, eram transportadas ao pescoço, pendentes sobre o peito, uma para cada lado.
Era imperioso continuar e encontrar o objectivo ou o que quer que nos trouxera ali. A missão teria de ser cumprida dentro dos timings e o Major de operações, sobrevoando a área na pequena Dornier, controlava os nossos passos.
O capitão, agarrado ao pequeno AVP1, comunicava lá para o alto informando da situação e recebendo no retorno, ordens, directivas e informações. Consultava os mapas e conferenciava com os alferes. Até então, nada havia sido encontrado que permitisse adivinhar a proximidade de instalações inimigas e menos ainda se estariam ou não à nossa espera, se iriam dar luta, aquietar-se ou fugir. Parece que, lá de cima, da pequena avioneta, também nada era visto. Àquela altura nem nos devia enxergar.
A proximidade do Cuando revelou sinais do que teria sido uma horta ou coisa parecida. Contudo, era óbvio que há muitos anos ali não era plantado ou colhido o que quer que fosse. Um raquítico limoeiro, enfermo pela falta de cuidados, com dois ou três limões ainda do tamanho de bolotas, fazendo companhia a uma bananeira enfezada que timidamente deixava ver por entre as tenras folhas um minúsculo cacho a desabrochar, era tudo o que restava da horta.
Contornámos o perímetro, penetrámos na mata, voltámos ao rio sem que se tivesse encontrado qualquer trilho ou sinal de vida. Interrogávamo-nos se estaríamos ou não no local certo ou se as informações que estiveram na origem de tão importante operação militar eram ou não correctas. Com o pessoal à beira do esgotamento, quase sem ração de combate e já sem saber onde procurar mais, o Capitão deu ordem de regresso. Ainda havia um longo caminho a percorrer até ao local combinado para a recolha e o tempo urgia.
A decisão, para além de bem-vinda, animou a malta, pelo menos a princípio. Mas o cansaço foi tolhendo os movimentos e atrasando a marcha. As paragens passaram a ser mais frequentes progredindo-se muito pouco.
Era um facto que não seria possível chegar ao ponto definido dentro do tempo programado. Um último esforço levou-nos a um descampado, no meio da mata a menos de meio caminho. Era uma área de vegetação rasteira e sem árvores. Apenas uns paus secos ao alto, espécie de carcaças de árvores mortas, emergiam aqui e ali por entre os arbustos. Era a solução que acabaria com o sofrimento. Bastaria limpar a área de um pau ou outro, cortar os arbustos mais viçosos e teríamos um improvisado heliporto. Era só comunicar o novo local de recolha via rádio e em dois tempos estaríamos em casa.
O homem das transmissões agarrou-se ao rádio, estabeleceu o contacto e em poucos minutos a anuência foi obtida. Numa espécie de energia renascida, cada um se precipitou sobre o que quer fosse considerado obstáculo ao pouso dos helicópteros. Facas de mato substituíram foices e machados. Os troncos secos não resistiram tombando vencidos pela força braçal que os empurrava.
Foi com alvoroço que vimos os Alouette pousar, um a um, por entre um esvoaçar de folhas e retirar-se com a primeira leva em direcção ao aconchego da Neriquinha, tão inóspita e simultaneamente tão acolhedora.
Afinal, de pouco valera o esforço. As bolhas dos pés tinham sido um sacrifício em vão. Com a garganta ressequida pelo pó, desci do helicóptero para a consistência avermelhada da pista e coxeei até à camarata. De momento, o que mais desejava era sentir a fresquidão do duche e esticar-me ao comprido. Quanto às bolhas, sararam depressa, mas durante uma semana andei de chinelos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O campo de futebol

Equipamento importante existente em qualquer lado. Este, o da Neriquinha viu o seu piso melhorado pela utilização da terra vermelha trazida de outro lado para dar maior consistência à anhara até então usada como pista de aviação e que permitiu a sua promoção a AR (Aeródromo de Recurso).
O verde viçoso ao fundo, realçando o vermelho da pista e do campo de futebol, diz-nos que era a época das chuvas. Durante o cacimbo, a paisagem tinha a cor do deserto.

O jogo de futebol, quebrava a monotonia, reforçava a camaradagem, exercitava os músculos e abria o apetite para o jantar após um demorado duche que nos livrava do pó vermelho entranhado em tudo que era buraco ou refego e transformado em argamassa por efeito do suor.


(Fotografias retiradas da coleção do Vilela)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

TEMPESTADE NO MATO.

Em plena operação no mato.
A noite parecia calma. O sono tinha-nos vencido a todos por volta das sete, oito horas. Apenas dois militares se mantinham acordados, fazendo os habituais turnos de vigilância, resistindo como podiam à vontade de encostar a arma e fechar os olhos até que rompessem os primeiros raios de sol.
Duas horas da madrugada. Caem alguns pingos de água, antecedidos de um leve murmúrio de vento que agita os ramos das árvores onde nos abrigamos. O céu estrelado minutos antes tornou-se escuro apagando de súbito todo aquele cintilar de milhares de pontos brilhantes que nos serviam de tecto e ao mesmo tempo de uma espécie de jogo de embalar com que nos entretínhamos a esperar o sono, assistindo às estrelas cadentes riscando o céu como balas que nos passavam ao lado naquele jogo de fantasia das noites de relento. O céu no mato tem outro brilho, outro encanto. Tudo parece mais vivo e fulgurante.
A chuva foi engrossando tornando-se diluviana em poucos minutos. O meio sossego de mais uma pernoita a céu aberto foi abruptamente interrompido, obrigando a rearranjos de acomodação (por entre uma outra chuvada, mas de impropérios que amaldiçoavam tudo o que vinha à cabeça e que se nos afiguravam apropriados no aliviar da tormenta), na maior parte das vezes buscar apenas uma outra forma de não naufragar nas torrentes de água que Deus nos enviava.
Um clarão distante prenuncia um trovão, que segundos depois ecoa longínquo, sinal de que a tempestade maior há-de passar ao largo. O vento aumenta fustigando-nos com ondas de chuva que varrem o abrigo precário que nos proporcionam as árvores, destroçando algumas tendas erguidas para abrigo de algumas horas. Aquele trovão distante foi o único que se ouviu num espaço de tempo longo e suficiente para que se admitisse que ficaríamos pela chuva forte que caía e mesmo essa deveria ser breve.
Sem que nada o fizesse prever, um relâmpago fortíssimo iluminou de repente as redondezas como um flash fotográfico, tornando dia claro aquele sítio. O suficiente para tornar possível distinguir os vultos escuros dos ponchos dos militares que se abrigavam como podiam, fazendo lembrar um cacho de cogumelos luzidios nascidos junto ao tronco das árvores em busca da frescura da sombra.
O trovão estourou um ou dois segundos depois, sem o ribombar habitual dos ecos que a distância a que se encontra a tempestade proporciona. Ainda não estávamos recompostos daquele estrondo medonho que rasgava o silêncio da noite, deixando-nos vulneráveis como grãos de areia no deserto levados por uma enxurrada inesperada, e já outro ainda mais medonho rasgava de alto a baixo uma árvore secular a menos de trezentos metros de distância. Durante uma hora aquela tempestade pairou sobre nós reduzindo a cinzas algumas árvores das proximidades como se houvesse algo que a prendesse ali. A situação era bem pior que um ataque inimigo. Ao inimigo responde-se com as mesmas armas; ganha-se e perde-se. Aquele não. Agigantava-se com uma força indomável para a qual não tínhamos armas para responder nem sequer meios de defesa que nos abrigassem.
O vento amainou. A tempestade instalou-se sobre nós e parecia não querer deixar-nos enquanto não cumprisse uma espécie de desígnio que a mim me parecia um desejo claro de nos exterminar. De vez em quando distinguiamos o ruído da árvore que era atingida pelo raio como se um enorme machado a rachasse de alto a abaixo. Começa a pairar no espírito de cada um de nós um certo jogo de lotaria em que a sorte e o azar brincavam com a vida e a morte. Quando nos calharia a nossa árvore a ser pulverizada por aquela língua de fogo que nos haveria de lamber a todos, sorvendo-nos como um dragão esfaimado que nos engoliria de um golpe só?!
2:45. A distância mínima das árvores que a espaços ouvíamos reduzirem-se a pedaços de carvão continuava pelos cerca de trezentos metros. Concluo que no tal jogo de sorte e azar não temos que nos queixar muito. Cerca de sessenta espingardas agrupadas num raio que não iria para além dos vinte ou trinta metros é um tremendo volume de metal que em condições normais tinha todas as condições para atrair o desejo de qualquer um daquelas dezenas, centenas, de raios que nos fustigavam havia quarenta e cinco minutos.
Na minha cabeça fervilham outras tempestades. Dei ordem para que todos saíssem debaixo das árvores e aguardassem a uma distância segura que a tempestade passasse. Havia quem achasse que não valia a pena. Que aquilo havia de estar quase a passar. Pois, mas quando um raio se sentir atraído por esta molhada de ferro não vai por certo avisar com a devida antecedência, retrucava o Capitãozinho proveta, mais uma vez sujeito a apertos que jamais imaginara, nem estavam previstos nas NEP’s (Normas de Execução Permanente – uns calhamaços que continham a tropa toda...) ou em qualquer outra norma redigida sobre o joelho, aquando do desenvolvimento daquela ideia de loucos em que todos nós já estávamos enterrados havia mais de um ano.
Depois havia um outro problema ainda mais grave e mais susceptível de poder acontecer. Todos nós trazíamos granadas defensivas à cintura. Tínhamos aprendido que estas rebentavam por simpatia, que era um termo muito curioso. Ou seja, se houver um rebentamento próximo e suficientemente forte a granada também rebenta pelo simples impacto do estrondo. Comecei a pensar que aqueles estouros medonhos que se ouviam à nossa volta eram capazes de ter potência suficiente para se tornarem “simpáticos” com as nossas granadas. Depois se uma rebentasse, a simpatia era bem capaz de se estender às outras e a catástrofe incalculável.
Decidi-me por mandar que todos deixassem as granadas num determinado local distante e protegido por um tronco de árvore grosso, suficiente para nos proteger dos milhentos estilhaços que voariam na nossa direcção se uma detonação viesse a ter lugar.
Durante mais cerca de meia hora todos ficaram de cócoras a uma distância segura das árvores, aguardando que todo aquele pesadelo passasse. Os raios continuavam a estourar sobre nós com uma potência que nos reduzia a seres insignificantes esmagados por tanto poder e força. Uma noite de água e fogo baralhada com os dias guerra.
Por fim o silêncio, quase tão repentino quanto o da chegada da tempestade. Voltámos ao “conforto” de um chão encharcado debaixo das árvores onde os últimos pingos de água escorriam ainda das folhas e nos acabavam de ensopar após um dilúvio de mais de uma hora de chuva ininterrupta.
Passou meia hora. Algumas estrelas apareciam meio envergonhadas por entre restos de nuvens que corriam numa determinada direcção. O tempo agora era de espera pela manhã que nos traria os raios de sol retemperadores secando-nos a roupa em pouco tempo. Como de costume naquelas ocasiões, ninguém tinha condições para reformular as condições de pernoita. A regra era sentar com o poncho enfiado pela cabeça, abrigando a arma e o saco por baixo dele a fim de manter funcionais quer a arma quer os alimentos, e esperar pela manhã para retomar a caminhada. A noite de sono estava perdida. As chagas do corpo sem redenção à vista. O hábito à chuva nocturna já fazia parte das nossas rotinas de dezenas de operações no mato pelo que, muitos, habituados àquele sofrimento acabavam por adormecer mesmo assim. Eu era dos que já dormitava procurando esquecer aquele pesadelo que nos fustigara por mais de uma hora. O corpo encharcado resignava-se a tudo e dispunha-se ao descanso possível.
Um estrondo enorme sacudiu tudo de novo colocando-me em pé de um salto. Precisei de alguns segundos para compreender o que se estava a passar.
- Estamos a ser atacados? A esta hora? Não me lembro de tal.
Passa das três e meia. Um soldado pragueja ao meu lado; “F....., que filho da p... de trovão... Quase que me borrava todo! Ainda tenho o zumbido nos ouvidos.”
Em segundos chovia de novo copiosamente. Como se nascessem de um nova fornalha de incandescências pairando sobre nós, os relâmpagos fustigavam-nos de novo com a mesma ferocidade de meia hora antes. Tudo recomeçara tão de repente como da primeira vez. Desta não vamos escapar, penso. Novamente tudo para fora das árvores, granadas depositadas longe e uma lavra de cogumelos plantados de novo fora das árvores, aguardando que Deus tivesse misericórdia de nós e escutasse as rezas que não se ouviam mas que se sentiam subir aos céus e, já agora, se compadecesse dos praguejos que com elas se misturavam em crenças pouco divinas e mais de colher proventos com o fervor dos insultos do que com os favores da fé.
Tudo se repetiu como uma segunda sessão de uma mesma representação. A mesma intensidade, o mesmo fogo de artifício que quase dispensava luz artificial para que pudéssemos distinguir tudo com clareza. Aquela espera pela lotaria da sobrevivência iria durar mais meia hora.
Por fim tudo acalmou. No ar sentia-se um leve cheiro eléctrico produzido pelas descargas contínuas que fustigaram as redondezas por mais de duas horas. Aos poucos pequenos vultos movimentam-se silenciosos e errantes como que a medo em busca de lugares incertos, pairando depois em pé por largos minutos para logo depois regressarem ao mesmo sítio como se estivessem perdidos, ou à espera que algo acontecesse. Os primeiros alvores da madrugada anunciavam-se a leste por onde os últimos fulgores da tempestade ainda se perdem faiscando as nuvens com uma frequência impressionante de raios que ligavam o céu à terra.
Levantei-me ainda a medo receando que um último suspiro de tempestade me colhesse menos abrigado. Os meus olhos dirigiram-se por intuição para oeste procurando descortinar se mais alguma borrasca se desenhava no horizonte agora mais claro e descortinável. Afastei-me um pouco procurando limpar o meu campo de visão de algumas árvores que me impediam de ver mais além. O céu era já azul, embora um azul quase negro, onde bruxuleantes se apagavam já as últimas estrelas. O inferno parecia por fim apaziguado.
Olhávamo-nos ainda com ar assustado e com pouco que dizer. Alguns rematavam ainda algumas preces de reforço à protecção recebida, ou partes duma longa ladainha ainda não terminada, mas prometida e iniciada durante a hora de aperto. Um sinal da cruz feito à socapa completava o ofertório e sinalizava o fim da liquidação do benefício colhido, enquanto outros iam sacudindo o poncho e a roupa, ou descalçavam as botas procurando que o sol, que se adivinhava, secasse um pouco as meias e as vestes, que duma forma ou de outra estavam encharcadas da chuva e do suor do dia anterior.

Não apetece caminhar. Não apetece fazer a guerra. Apetece prostrar e esperar o tempo de partir, de regressar.
O tempo de tudo terminar. O tempo de quase tudo recomeçar…

P.Cabrita

(Alguém se lembra desta noite?)

Excerto do livro “Capitães do Vento”

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

OS PRIMOS


Durante a guerra colonial, em Angola, as partes beligerantes contavam com apoios vizinhos. No Sul, o exército português tinha o apoio quase incondicional da África do Sul, enquanto o MPLA contava com a Zâmbia.
A ajuda sul-africana tinha várias vertentes. Na Neriquinha víamo-la nos rótulos da ração de combate e de forma intensa na participação da sua força aérea, sempre que uma qualquer operação implicasse o envolvimento de helicópteros.
Mesmo não se estando por dentro dos meandros das negociações ou do pedido de apoio, a ideia que ficava é que não olhavam a meios. Sempre que fosse preciso, uma esquadrilha de Alouette III surgia com os aparelhos que fossem considerados necessários. Nós só entrávamos com o combustível. JP1 era coisa que não faltava na Neriquinha, e a logística militar encarregava-se de não descurar o abastecimento.
Chamávamo-los de “os primos”. Da origem do nome não conheço pormenores. Aliás, penso que o baptismo não foi da autoria da 3441. A designação já vinha de trás e era a forma como todos se referiam aos vizinhos do Sul.
- Prá semana temos cá os primos! Dizia-se sempre que se avizinhava uma operação em maior escala ou a ser levada a cabo em zonas mais afastadas e inacessíveis por terra.
Eram sempre bem-vindos. Traziam animação e quebravam a monotonia doentia do ram-ram estupidificante.
Parqueavam na pista, para lá do arame farpado, obrigando a um reforço adicional das sentinelas com mais dois ou três homens posicionados estrategicamente dia e noite, zelando pela segurança dos aparelhos. Fosse quem fosse o escalonado, barafustava sempre.
- Porra! Calha-me sempre a fava!
Para mim eram dias fantásticos. Perdia a noção do tempo seguindo todos os passos da criteriosa e quase religiosa sequência dos cuidados com a manutenção, autênticos mimos que dispensavam àquelas máquinas extraordinárias. Deliciava-me a tentar entender como funcionavam. Acessoriamente, desenferrujava o mal sabido inglês escolar.
É claro que isso só acontecia quando eu não participava na operação em curso. Nessa altura apenas os via à chegada, durante o voo e à partida. Não acompanhava o frenesim em terra mas, sendo um dos transportados, dava para ver como manobravam aquelas coisas, para além de desfrutar da sensação de um voo que não se assemelhava ao de qualquer avião. Pairava-se no ar, podia-se voar alto ou baixinho e pousar onde se quisesse. Até dava para ir à caça. Já imaginaram caçar de Helicópetro? Normalmente apanhavam-se duas peças que se transportavam dependuradas, uma em cada estribo. Assim garantiam o equilíbrio do voo.
A tripulação era sui generis. Embora simpáticos e de certa forma, compinchas, o seu comportamento denunciava os tiques da realidade política da África do Sul onde então vigorava um regime de apartheide com uma segregação racial levada a sério. A facilidade com que os portugueses conviviam com os negros era coisa estranha para o seu entendimento.
- you do like negros! Indeed.
Esta espécie de desprezo racial ficou demonstrada quando, certa noite, após o jantar, na sequência de um quase ritual alcoólico, ofereceram uma cerveja ao rapaz negro que ajudava na messe. O que a princípio parecia simpatia, não era mais do que uma atitude deliberada de o embebedar. Com a ajuda de um funil que lhe colocaram à força na boca, foram despejando cerveja após cerveja, directamente para a garganta do infeliz. Só a nossa intervenção livrou a horrorizada vítima das mãos dos três militares que o seguravam.
- Just Joking. Justificaram-se no meio das risadas.
A relação destes homens com o álcool era uma das suas imagens de marca. Durante todo o dia e enquanto durasse a sua actividade, nunca ingeriam uma simples gota de álcool. Apenas bebiam refrigerantes desde a gasosa à laranjada, mesmo às refeições, o que nos parecia estranho, já que, sendo o vinho, zurrapa, duas cervejas era o mínimo que qualquer um bebia ao almoço, com a devida excepção de um ou outro abstémico. Mas os Sul-Africanos, nem isso. Nem água bebiam. Apenas laranjadas e coisas assim, revelando a disciplina rígida de quem tinha a responsabilidade de pilotar helicópteros ou fazer a sua manutenção.
Mas, ao fim do dia, arrumados os aparelhos, feita a sua criteriosa manutenção, cobertas com lona todas as suas partes sensíveis e concluídas as tarefas de que estavam incumbidos, recolhiam aos balneários, substituam os fatos-de-macaco camuflados por roupa civil e apareciam um após outro na messe. Faziam-se acompanhar invariavelmente por garrafas de um brandy produzido na África do Sul.
O intragável brandy Richelieu deveria ser a sua bebida preferida. Traziam sempre caixas daquilo e bebiam-no desalmadamente.
Aliás, era impressionante a quantidade de álcool que aqueles odres ingeriam no bocado de noite que mediava entre o fim do jantar e a hora de recolher. Numa autêntica bagunça feita orgia alcoólica, bebiam o Richelieu puro ou misturado com cerveja em proporções iguais. Confesso que nunca pensei que se pudesse misturar brandy com cerveja e menos ainda naquelas quantidades.
Tinham técnicas eficazes para se embebedarem depressa e bem. Uma delas era a referida mistura. Outra passava por uma espécie de prova de habilidade e concentração onde também alinhávamos. Um grupo, de seis ou sete, sentava-se à roda de um mesa, cada um com uma garrafa de cerveja vazia. O objectivo era passar a garrafa ao seguinte, recolher a que nos era deixada pelo anterior e passá-la de novo ao seguinte, tudo ao ritmo de uma canção sem letra, comandada pelas batidas do fundo da garrafa na mesa. Importava ter atenção ao ritmo e ao facto de, a cada duas passagens de garrafa, não a largar, voltar atrás e depois à frente e só então largá-la para o seguinte. Quem se enganasse teria de beber uma cerveja.
Claro que, quanto mais nos enganávamos, mais se bebia e quanto mais se bebia mais nos enganávamos, num ciclo vicioso de onde só se saía caindo para o lado.
Por volta da meia-noite estavam todos tão bebidos que chegávamos a duvidar que no dia seguinte os helicópteros levantassem. Uns cambaleavam até à cama e outros eram levados pelos mais resistentes. Mas o facto é que se levantavam cedo, frescos, lúcidos e prontos para a tarefa de transportar tropas para os locais da operação, em segurança e com um sentido de responsabilidade e disciplina notáveis, como se nada tivesse acontecido no dia anterior. É que nem falavam nisso.
Na noite seguinte voltavam ao mesmo, repondo o stock de Richelieu e infligindo baixas significativas no nosso stock de cerveja.
Tudo acabava quando, cumprida a missão, carregavam tudo nos helicópteros e voavam em formação rumo a sul, prometendo voltar. Na operação seguinte voltavam. Alguns eram os mesmos, outros não. Contudo o comportamento não se alterava: refrigerantes durante o dia e excesso de álcool à noite. Até as caixas de Richelieu pareciam as mesmas.