segunda-feira, 1 de julho de 2013

A BARCA DE CARONTE

As viaturas que nos habituáramos ver integradas no MVL que mensalmente nos trazia o reabastecimento desde Serpa Pinto, eram agora o meio que nos libertava daquele mundo. Encabeçadas pela berliet de seis rodados que, por sistema, lhes servia de escolta, seguiam agora em coluna, umas atrás das outras, sem nenhuma ordem especial, rolando sem pressa ao longo da pista em direcção ao topo norte. A cerca de arame farpado que, pela força do hábito de a termos à nossa frente, dia após dia, quase já passava despercebida, deslizava lentamente para trás como a querer despedir-se. Pelo menos foi o que me pareceu.
Olhei de relance, pela derradeira vez, a silhueta familiar do aquartelamento que, resguardado atrás da precária segurança do arame, ia desaparecendo do campo de visão à medida que a viatura progredia em direcção à picada que, indicando o caminho à nossa frente, se perdia no meio do capim amarelecido. Sem saber bem porquê, ainda olhei, de esguelha, para as últimas palhotas do kimbo com aquela certeza de que não mais as voltaria a ver. Aquela coluna podia estar a fazer o caminho de volta, como sempre o fazia e certamente voltaria a fazer mas, para nós, não haveria retorno.
Já passara a época das grandes chuvas e havia já algum tempo que a aridez do cacimbo se instalara secando a areia que se apresentava solta e entediante, obrigando as viaturas a uma marcha lenta rodando em primeira velocidade para melhor vencerem a resistência da areia solta que, dificultando a progressão, teimava em assorear os sulcos da picada. Afinal, nada a que já não estivéssemos habituados, tanto mais que aquele percurso era nosso conhecido. Por enquanto, e até chegarmos a Mavinga, a sensação era a de que ainda se vagueava pelas areias quentes da savana, porém desta feita, com ânimo diferente. O caminho era agora sempre para diante com a garantia de que não haveria voltar atrás como sempre aconteceu nas escassas vezes que, por imperativo da nossa missão, visitáramos a malta da companhia de Mavinga.
Para quem, como eu, que ufanamente se gabava de já conhecer aquelas matas, a viagem prometia ser um simples passeio pela savana imensa. E isso foi sendo confirmado à medida que se vencia aquele primeiro troço do percurso que liga a Neriquinha a Mavinga. As extensas chanas que abraçavam o tímido caudal do rio Cúbia apresentavam-se já com aquela cor familiar de verde a tender para o seco. Dentro de pouco tempo seria pasto das chamas, naquele ritual já nosso conhecido de ciclicamente se renovar pelo fogo. Como diz Mia Couto, a savana arde para poder viver.
Sem atrasos ou contratempos, aportámos a Mavinga pelo fim da tarde. De acordo com o plano previamente definido a viagem só continuaria no dia seguinte. Por agora, haveria que aproveitar o tecto oferecido o que, ainda que sem o conforto de lençóis aconchegantes, era dádiva a não regatear. O frio, que por aquela altura tinha por hábito andar de braço dado com as noites do cacimbo, era rigoroso e não se combatia com a fragilidade da parca roupa que se levava vestida.
A noite passou sem história, pelo menos ninguém se queixou, até porque não havia de quê. Sabíamos que a viagem seria longa mas isso não incomodava ninguém. A muito pior do que isso estávamos habituados e não seria agora que isso iria incomodar alguém.
Reiniciámos a marcha, lá pelo meio da manhã, deixando para trás dois dos apêndices que trouxéramos da Neriquinha: a gazela bebé que, não se dando bem com os solavancos da viatura foi acometida de compreensíveis enjoos não restando outra solução senão largá-la algures e o puto Candela que tinha à sua espera uma promessa de vida longe das matas onde cresceu e viveu os curtos anos da sua existência: um furriel da companhia de Mavinga, natural de Sá da Bandeira, predispôs-se a adoptá-lo. Não me lembro bem dos pormenores, mas penso que já estava tudo acertado para o efeito quando abandonámos a Neriquinha.
A partir daquele ponto a picada era-nos totalmente desconhecida. Talvez por isso me parecesse estranha. Por qualquer razão que não descortinava, achei que se distinguia daquelas a que nos habituáramos. Contudo, a consistência arenosa e a profundidade dos sulcos não eram diferentes sendo a mata em redor em tudo idêntica. O facto é que a savana tem características muito próprias e naquela imensidade de terreno árido, apenas pormenores sem importância distinguem cada pedaço daquela mata estéril, o suficiente para nos convencer da incomensurável dimensão daquele inferno que agora se atravessava numa lenta progressão a caminho de lugar mais aprazível.
Mesmo nos locais mais inóspitos, sejam eles o que se quiser, somos surpreendidos por recantos que, por uma razão ou por outra, destoam da aridez circundante. O local escolhido para uma curta paragem, possibilitou algum descanso aos motores, comer qualquer coisa e disfrutar do ambiente aprazível à volta do curso do rio Lomba que, atravessando aquelas terras de ninguém, cruzando chanas e matas, acaba por desaguar no Cuando acima do Chicove algures a norte da Neriquinha, lugar que nunca chegámos a conhecer. Mas ali, naquele exacto local, onde menos se esperava, uma pequena ponte de madeira permitia passar para a outra margem por sobre um surpreendente marulhar de águas cristalinas em contraste com a quietude irritante de todos os cursos de água que vagueiam por aquela savana imensa
O nosso objectivo, naquele dia, era chegar ao Dima, um lugar com má fama, considerado o pior sítio para se estar em todo o Cuando Cubango. Constava que era atacado de quando em vez e o pessoal ali destacado, um pelotão da companhia de Mavinga que se revezava amiúde, passava as noites em sobressalto. Era exactamente ali que estava previsto pernoitarmos, dando por finda a segunda etapa daquela longa travessia.
A tarde ia avançada e o sol já começava a perder o seu fulgor quando aportámos ao Dima. Hoje conhecido como Cunjamba, o local ficava no cimo de uma elevação de terreno, cujo acesso se fazia por uma picada de areia solta e de inclinação pouco frequente por aqueles lados, totalmente em desarmonia com todos os acidentes de terreno que conhecemos em dezoito meses de andanças por aquelas planuras imensas o que, pelos vistos, não impedia que, por vezes, fosse flagelada pelas forças inimigas, coisa que nunca aconteceu à Neriquinha.
Não perdi tempo a fazer qualquer reconhecimento do local; não me interessava. Estava apenas de passagem e com a garantia de que, depois de atravessar aquele deserto infernal, não voltaria a pôr os pés nas areias daquela savana inóspita. Mas deu para perceber a exiguidade das instalações, sendo visível no topo do edifício principal um arremedo de torreão guarnecido com uma metralhadora pesada cujo modelo nem cheguei a identificar, sinal mais do que suficiente para me convencer de que os tão propalados ataques ao aquartelamento não eram invenção. Mesmo que não fossem muito frequentes seriam certamente o bastante para transformar num inferno a vida de quem tinha por missão a defesa daquele pedaço da soberania portuguesa.
Acoitei-me o melhor que pude procurando abrigo debaixo de uma das viaturas. A areia fofa e ainda quente pela exposição ao calor do dia era conforto bastante e rapidamente adormeci sob a precária protecção do camião; a pior do que isso estava habituado e não seria por falta de colchão e lençol que perderia o sono. Mas a sensação de que estava exactamente no meio do inferno passou-me pela mente antes de adormecer embalado pela certeza de que, na madrugada seguinte, retomaríamos o nosso lugar naquela espécie de barca de Caronte que nos conduzia para fora daquele imenso mundo inferior.
Ali ninguém era Orfeu e não estava em curso o resgate de uma qualquer Eurídice. Também é verdade que nenhum de nós se cruzara com Hades ou Perséfone mas, por uns momentos, imaginei-me à boleia do barqueiro Caronte no regresso de mais uma viagem ao inferno onde passei dezoito meses da minha vida. Naquele preciso momento, senti como se estivesse no centro dessa terra de ninguém, mas reconfortado pela certeza de que isso seria apenas por uma noite. Quanto aos nossos anfitriões, apostaria que, naquela noite, dormiram descansados o sono dos justos. Quase uma companhia inteira era defesa mais do que suficiente contra qualquer ataque que pudesse estar programado pelo inimigo. Mesmo que assim fosse, pensei, não se atreveriam.

3 comentários:

Anónimo disse...

Caro Cardoso

Um texto bem conseguido, na linha do episódio anterior.

Abraço,

Morais

Anónimo disse...

Cardoso

Como sabes, as imagens que ilustram o texto, resultam de três rolos de "slides" que comprámos para registar a viagem. De cada vez que surgia um motivo, eram feitos três disparos, o segundo para mim, o terceiro para o Gabriel.
A penúltima foto tem um efeito pouco aparente, mas que na projecção do "slide" dá a ideia que o pessoal em cima da ponte está a urinar para o rio. Com grande desgosto meu, no exemplar que me calhou, o capim que sugeria esse comportamento ficou desalhinhado do pessoal, e perdeu-se a parte cómica da foto.

Do Dima recordo a noite mal dormida porquanto o "Candeeiro", com a "piela" que apanhou, passou a noite a ranger os dentes e obrigou-me a mudar para outro local.

Morais


Egidio Cardoso disse...

De facto, o slide que tenho, dá essa ideia, mas, quando ampliado e olhando bem, vê-se que é capim seco.

Já me tinhas falado dessa noite com o Candeeiro. Eu dormi na rua com a areia a fazer de colchão e dormi descansado a noite toda.