Memórias das aventuras e desventuras de 140 militares que, em Novembro de 1971, armados de G3, foram largados num ermo algures no meio das remotas savanas das terras-do-fim-do-mundo nos confins de Angola
domingo, 29 de março de 2009
N'riquinha - Um E.T.D. sem retorno...
Porque fiz quase minhas as dores daquela gente e porque sofri na partida, quando era uma incontida alegria que me deveria inundar por finalmente abandonar aquele autêntico “buraco” onde nos amarraram longos dezoito meses e meio.
Porque interiorizei o sofrimento daquela gente e, nesse sentido, quanto martirizei a “minha tropa” em apoios, transportes e protecção de uma população que não tinha que me dizer nada, porque eu estava ali para fazer a guerra e não para me sensibilizar com o sofrimento escorrido dos nossos 500 anos de ocupação, em que nem a língua materna fomos capazes de lhes transmitir.
Talvez a minha origem humilde possa explicar este acolhimento insensato para um “guerreiro” armado para fazer a guerra. Talvez se tenham enganado os Senhores da Guerra quando me descortinaram engenho e chama para a beligerância a que me destinaram; ou, quem sabe, nem tenham tido tempo para perceberem que a peça não era muito talhada para a função almejada.
Talvez a comunhão sempre viva no dia-a-dia da minha aldeia tenha permitido e incentivado esta minha extensão às agruras das gentes das Terras do Fim do Mundo que nos calharam em sorte e em tempo de guerra.
Talvez “a minha tropa” nunca venha a entender porque os obriguei a tanto tempo extra em devoção a gente tão despida de valores materiais, mas tão rica na nobreza de nos aceitarem com 500 anos de soberania prepotente, tempo aparentemente insuficiente para lhes termos dispensado uma réstia de dignidade que nunca fomos capazes de lhes proporcionar.
Quem sabe se não me pesaram na consciência esses 500 anos de ostracismo e desdém com que brindámos o seu consentimento em deixar-se ser portugueses sem o pedirem.
A partida de N’riquinha foi dos momentos mais doridos de entre todos os 1400 dias de serviço militar a que me vi obrigado a cumprir.
Não encontro melhor forma de vos fazer compreender o meu sentimento por aquela gente senão transcrevendo-vos como o vivi.
Apenas referir que este escrito tem cerca de nove anos. Li-o uma única vez depois de publicado. Não consegui voltar a lê-lo.
Não será hoje que o faço. Transcrevo-o apenas.
“…A grande viagem vai começar. N’riquinha-Luanda.
Dois mil quilómetros em linha recta. Bastantes mais pelas picadas e asfaltos que nos esperavam.
As despedidas estão feitas. Cerca de 140 militares distribuem-se por não sei quantos camiões civis, sentando-se sobre as caixas, malas e múltiplas embalagens, que albergam uma mistura de espólios de guerra com esbulhos de uma civilidade havia muito perdida e encaixotada, e que agora cortejavam a esperança de poderem voltar a florescer, depois de vencido o bafio e a poeira do tempo.
A primeira viatura faz-se preguiçosa e indolente à porta de saída. Soam os primeiros gritos de alegria de despedida de um inferno que por fim se extinguia. Em pé os soldados, enfardados num camuflado desbotado dos tombos da guerra, erguem a G3 como se acabados de conseguir a maior vitória das suas vidas. Os putos, menos doridos e molestados pelos sentimentos de proximidade e pieguice dos adultos, saltitavam em bandos ao lado das primeiras viaturas, alegremente contagiados pela alegria que explodia em cada uma delas.
Ao fundo, comedidamente à distância, na beira do kimbo defronte da picada por onde iríamos passar, aglomera-se um magote de gente silenciosa e mortalmente imóvel. Mulheres com crianças às costas, velhos que se vergam à frente apoiados em paus longos, raparigas adolescentes de braços cruzados que mordem uma ponta do pano que lhes envolve o corpo esguio, mulheres idosas, que se ficam mais atrás apoiando-se na última cubata, com a mão sobranceira aos olhos protegendo-se do sol.
Um kimbo inteiro.
Um kimbo inteiro veio despedir-se da tropa matchiririca que chegou um dia para fazer a guerra com armas que matam e acabou por se consumir noutras batalhas tão indesejáveis e perversas quanto aquela. Uma luta pela dignidade da vida dos que nada tinham e uma autêntica guerra contra o isolamento e as agruras duma fome ignóbil de comunidade perdida nos confins de África, uma autêntica tribo de índios ainda perdida nos confins duma Amazónia deserta, também esta em vias de extinção por via do progresso e de causas justas.
A coluna já se forma lá fora do aquartelamento iniciando preguiçosa uma caminhada de serpente, marcada por nuvens de poeira que se vão elevar nos céus assinalando a sua passagem. A picada segue inicialmente a linha da pista de aviação em direcção a Mavinga, correndo paralela ao quartel e ao kimbo.
Agitam-se lenços, braços e gritos. Uns quantos não resistem e correm até junto da picada. Crianças, adolescentes e mulheres, algumas com crianças às costas. O movimento das viaturas induz-lhes o acompanhamento destas.
Correm. Num impulso contagiante, mais gente vem descendo por entre tufos de capim seco que saltam com destreza. Já há uma pequena multidão que corre paralela à coluna acenando e gritando palavras que continuo sem entender o significado mas que desta vez dispenso tradução. Alguns correm apenas e nada dizem, nada fazem. Apenas querem correr e ficar mais um pouco junto de nós. Uma derradeira companhia, um último momento de uma despedida que já levava dias. Apenas o prolongar um pouco mais da agonia do fim de uma amizade fraterna que a proximidade confortava e induzia um pouco mais de segurança, bem-estar e protecção.
Centenas de metros percorridos e quase ninguém desiste. Corações ao alto, corações ofegantes, corações que persistem numa corrida sem fim nem proveito. Uma corrida quase suicida de ir até ao fim, de ir até cair.
Estou sentado ao lado do condutor que sorri meio estupefacto e me diz.
- Nunca vi nada disto.
Mando abrandar.
Que raio de ideia. Retemperam-se do esforço e dispõem-se a ir muito mais longe.
Mando acelerar e deixo de olhar. Fecho os olhos naufragados numa comoção que transcende aquilo que se espera de um comandante de guerra. Esqueceram-se que um militar nasce militar, não se fabrica por conveniência. Sinto que aceleramos e deixo passar mais uns metros seguros de não ver mais aquela espécie de loucura, de suicídio colectivo, um mar de baleias que dão à costa e se matam com um sorriso de prazer inexplicável recusando voltar atrás, que nos sobreleva o entendimento ou nos desvirtua a propalada razão e superioridade humana.
Por entre um marejar turvo de imagens desfocadas consigo perceber que há ainda um resistente que ao nosso lado se mantém firme de olhos em frente e um sufoco estampado no rosto. Traz vestida uma pequena tanga que esvoaça e denuncia os restos de um camuflado há muito esquartejado, que disfarça agora a sua nudez e sufoca o que resta de uma dignidade que recusa perder.
Fecho os olhos em definitivo e recosto-me no banco. Passo as costas da mão pela testa em busca de um suor que não existe e prolongo o gesto pelos cantos dos olhos, onde estrangulo uma dor que se me escorre de dentro sem que se entenda bem onde nasce. Preciso urgentemente de me explicar quando percebo que o condutor me olha de soslaio e desvia a atenção da picada.
- ... Esta poeirada...!
- ...?!
Mantenho-me assim por dez minutos e percorro em sentido inverso aqueles dois, três quilómetros já percorridos. Tento entender e não consigo. Ficamos sempre com uma imagem de um determinado bem que se faz, de umas migalhas que se oferecem e nos deixam alguma paz de espírito que nos conforta o sentimento de bem-estar connosco próprios. De acordo com as circunstâncias em que ali fomos vivendo todo aquele tempo, atribuímos um determinado significado às coisas, sempre parco quando o comparamos com os nossos padrões de vida, os nossos hábitos e anseios. Esquecemo-nos que o pouco que por vezes se oferece tem um significado tão intenso e duradouro quanto miserável é o significado das suas vidas e quão vulneráveis ficam os seus corações a gestos de pouca monta, mas tesouros de riqueza desmedida que retribuem com as únicas moedas que possuem: a solidariedade e o reconhecimento.
O condutor não pára de olhar pelo retrovisor.
- Parece que já ficaram para trás, diz espreitando dos dois lados como que receando que se tivessem passado para o outro lado.
Não arrisco a abrir os olhos para confirmar. No fundo, talvez eu quisesse guardar aquela imagem lá bem no meu íntimo. Uma prenda simbólica que nos cinzela a memória corroída por inutilidades. Uma fenda esculpida a marteladas de vida que nos deixa marcas que perduram pela vida fora e nos humedece ainda os olhos, trazendo à mente uma catadupa de sons e imagens de significado imenso e de tão grata recordação.
- Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga...
Diz-me ainda o condutor, mais preocupado com aquela perseguição tenaz, que com o trilho baço de poeira da viatura da frente.
Não! Virão atrás de nós muito para lá de Mavinga. Virão atrás de nós todo o tempo que eu viver e for capaz de me lembrar deles, da sua simplicidade, dos seus corações abertos, dos seus hábitos e tradições, da sua inocência de fazer casa grande para captão e mulher do Puto, de acreditarem numa pátria que nunca viram nem sentiram como sua, de serem capazes de acreditar todos os dias em qualquer coisa sem terem nada em que acreditar.
Abro por fim os olhos. Agora sim mergulhados num verdadeiro tormento de poeira, uma extensão daquele escuro de nuvem confusa que me faz perder o norte e me baralha a mente com pensamentos descoordenados que me desalinham a recentíssima alegria de partir.
Não me sinto.
Não sei se venho. Não sei que partes de mim vêm. Não sei o que trago. Não sei o que deixo. Não sei o que perco.
Mas sei o que ganho.
E que me dói já a certeza de jamais poder com eles usufruir do que bebi dessas lições de vida sentida e dorida, trituradas a golpes magoados de pilão e sublimadas a bálsamos de batucadas ardentes vencidas pela noite dentro, até que a dor morresse e um novo dia de fé ausente nascesse.
Já não ouço vozes. Só corações soçobrando num adeus derradeiro que se extingue num último suspiro sem sinais de revolta.
Agitam-me os tombos da picada. Agitam-me os meus pensamentos desarrumados. Agitam-se-me revoltas de sentimentos de impotência e remorsos de me vir embora quase feliz. De deixar para trás um fosso com gente dentro que chegou a acreditar que tinha chegado a hora de fugir daquele gueto de guerra e poder morar livre como o vento no mato longínquo e seguro das terras do Cuando-Cubango.
- Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga… (120 Km)
De soslaio vou dando miradas pelo espelho retrovisor, não sei se na esperança de ainda ver alguém, se de não ver. Mas se vir, garanto a mim próprio que mando parar a coluna e o abraço longamente até sentir que o seu coração se acalma e se me ensurdecem os gritos de despedida que ainda ouço.
Convenço-me por fim que já não vêm. Convenço o condutor a olhar apenas em frente porque é por ali que passa o futuro. Tenho pela frente quatro dias de comer quilómetros de poeira que embaciam um céu limpo sem nuvens. Um circo em movimento que se move em busca de outros públicos e os mesmos aplausos dos que querem continuar donos e senhores da terra que, para muitos, os viu nascer.
Mavinga, de passagem. Quase sem tempo para uma cerveja refrescante que nos lave estômago e a bexiga dos primeiros 120 km de um pó eterno que mastigávamos já com naturalidade, quando o sentíamos ranger entre dentes ou lacrimejar turvo que escorria pelo canto do olho levado pelo vento que nos temperava das ondas tórridas de um calor sempre sufocante.
Andar, andar. Está no andar. Dali para fora. Com calor, com sufoco, com gosto ou desgosto.
Um último relance pelo fim da picada que vinha de N’riquinha. Um último sossego de caminho vazio onde a poeira fina ainda paira no ar como cacimbo seco e colorido obstinado em ficar por ali tingindo as árvores da cor da picada.
- Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga… – ainda me ressoa perturbador como vaga que me quer engolir e atirar de encontro ao rochedo do meu medo de olhar para trás…”
Pedro Cabrita
N´riquinha – Entregar, peça por peça, um quartel vazio de gente e de almas…
Tinha deixado a promessa de por aqui passar com mais regularidade, deixando uma ou outra intervenção que ecoasse a nossa memória colectiva daqueles anos 71/73. Não que não tenham buscado e rebuscado uma ou outra história ainda “secreta” que valesse a pena trazer ao conhecimento dos nossos cabelos brancos e olhos ávidos de lembranças de uma mocidade que nos calhou viver em comunhão e em sofrimento.
Mas a verdade é que, para já, não encontrei senão episódios dispersos a que acabei por não dar relevo.
Prometo continuar a procurar. A memória já não é o que era; mas aquela daqueles anos ficou como marca indelével, que se nos vai avivando em cada ano em que matamos saudades nos encontros que o Duarte em boa hora empreendeu.
Mas este vazio de reconstrução de histórias novas também tem uma outra justificação que se prende a uma ou outra aventura literária em que me fui metendo, acabando por quase esgotar o manancial de narrativas passíveis de reproduzir agora e de novo.
Entendo, no entanto, que este lugar nos deve merecer um inusitado carinho, louvando, desde já, o Egídio Cardoso pelas belas prosas e fotos com que nos tem brindado. Pela minha parte farei o possível.
Deste modo, e perdoem-me a falta de originalidade, achei que talvez não fosse despropositado trazer um ou outro eco de trechos que já escrevi noutros sítios, na certeza de que muitos dos nossos companheiros ainda os não terão lido e outros nem tenham lá chegado, se porventura se aventuraram a lê-los.
Escolhi duas situações. Esta que aqui vos vou deixar e uma outra que transcreverei noutra folha.
Especialmente para a malta do “arame” (para os leigos, não confundir com “malta do dinheiro”… O “arame” aqui era o arame farpado, querendo referir os militares especialistas que faziam a sua actividade militar no aquartelamento, logo, dentro do arame farpado); dizia então que, para estes, e não só, deixava a recordação da entrega do aquartelamento à Companhia que nos foi render e os milhares de apetrechos e artefactos que foram necessários contabilizar e conferir, numa saga inimaginável, ou só admissível numa instituição como a militar. Também para muitos outros que não fará a mínima ideia de como aquilo era.
Então foi mais ou menos assim que eu senti aqueles três ou quatro dias em que cheguei a ter cãibras na mão direita de tanto assinar papel:
“… Por fim a trouxa militar está entregue. As mais de mil e quinhentas assinaturas estão rabiscadas noutros tantos formulários e modelos militares garantindo a passagem de testemunho, consubstanciado em milhares de peças e pecinhas com os mais variados tamanhos e funções.
Garfos, quase conferidos dente a dente para verificar da sua operacionalidade, colheres, casas, pré-fabricados com telhas de zinco que voam nas tempestades mas param submissas a cinquenta metros de distância e aguardam que as tragam de volta vezes sem conta, como crianças que se obstinam em fugir ao controlo dos progenitores; máquinas de escrever, que por vezes escreviam; mapas, que falavam mas nada diziam e por vezes mentiam; cadeiras, secretárias (de madeira…), chaves de fenda, de cruzeta, de boca, sem boca, com dentes, sem dentes; motores que trabalhavam, outros que se reformavam, e ainda os que morreram há muito e já não respiram, mas continuam pertença e tesouro da República; retretes que fediam, camas que gemiam, colchões sem edredões; passeios de tabuinhas cruzados por milhões de viagens nos dois sentidos e sem sentido; arame farpado com bicos que ameaçavam rasgar a carne aos que queriam entrar, mas também dos que queriam sair; holofotes com luz, sem luz, antenas, bombas de água que nos bombeavam a paciência, geradores que muitas vezes trabalhavam; câmaras frigoríficas a funcionar, avariadas, inutilizadas, obsoletas, mas ainda zelosamente à carga, não fosse desertarem para as bandas do inimigo; camiões, unimogs, jipes, uns a andar, outros parados, vandalizados, canibalizados; uma prisão com telhado de capim, paredes de barro (espesso…!) e grades de vento; areia, muita areia, pedrinhas pintadas de branco que faziam de ruas que não levavam a lado nenhum e davam uma ilusão de ordem que apontava um caminho que não existia; uma taberna travestida com o eufemismo de cantina; bidões de gasóleo, cunhetes de munições contadas caixinha a caixinha, cunhetes de cerveja contadas na garganta duas a duas; janelas com rede mosquiteira, quartos com mosquitos, panelas de 50 litros e tachos de 30 que tresandam a um aroma de gordura militar que se esvai três dias depois da fome nos ter dizimado as resistências do olfacto e o último furo do cinto; um Chiado (vazio) onde em época alta se pode encontrar o último grito de sabão azul cortado em fatia fina com faca de queijo; um clima variado (de 45º a – 3º), noites escuras, de solidão, de desespero, de medo, blenorragias, pagas em moeda corrente ou géneros de primeira necessidade; (“… furrié é bom p’ra mim; furrié dá sapato, dá pano, dá dinhêro p’ra comprá cérvêja lá nos cantina…”); paludismos distribuídos gratuitamente a febres de 41º repartidas por 15 dias de férias em cama fresca de abundante suor; vacinas contra a mosca do sono (1cm3 por cada 10 kg inoculados por agulhas de 8cm enterradas na alva nádega sem dó nem piedade); medicamentos, para as doenças e para afugentar o medo das balas; um milhar de bugigangas agrupadas em pacotes de função, outro milhar dividido em função de pacotes, ainda um outro sem pacote nem função, e, por fim..., um kimbo com gente viva dentro, porque se mexia; uma bandeira num mastro altaneiro que se esfalfa todos os dias para afirmar a nossa autoridade naquele lugar e uma guerra; uma guerra que começa à porta de armas e termina nas margens de um rio Cuando majestoso e indiferente, que nos separa da soberania do povo do lado de lá, mas que os do kimbo não entendem porque os apartam dos família do outro lado de um rio sem paredes nem muralhas, feito apenas de água que corre límpida e sem raivas em ambas as margens.
Ficam de fora, com o consentimento das NEP’s (normas da coisa militar que nos orientavam em tudo, por vezes até os gestos e os desejos) depois de demorada consulta para esse efeito, a gata (a “chaninha” para os mais íntimos, companheira inseparável das noites de insónia em que nos achávamos a fazer de ratos para a gata brincar); uma cabra bebé, poupada a um tiro de G3 num intervalo da guerra, passando a fazer parte da carga da Companhia (até que um dia a fome ditasse um outro destino) e… o Dango (depois Dango Cabrita), a peça de guerra mais representativa que foi possível achar, depois de capturada ao inimigo nas terras do Cuando-Cubango.
Tudo contado, conferido e entregue, soa um batuque fúnebre que carpirá noite dentro uma dor cíclica de perder quase para sempre, e de uma só vez, um amontoado de amigos trazidos pela guerra e pela guerra levados.
Tropa matchiririca parte amanhã bem cedo…”
Pedro Cabrita
terça-feira, 10 de março de 2009
Um tiro na noite
Respeito todos aqueles que, com honestidade, competência e alguma humildade, procuraram desempenhar o papel em que tinham sido investidos, mas irritava-me particularmente o ar autoritário e a atitude de alguns instrutores que, lá do alto do seu efémero pedestal, ensaiando uma pose bacoca de lentes que não eram, soltavam balelas e trivialidades com ares de bazófia, arrogando-se em mestres de técnicas e estratégias de uma guerra onde nunca tinham estado.
Aprendemos assim as teorias do preparar e reagir a uma emboscada, dos truques da queda na máscara e outras manobras de defesa e ataque, passando-se depois à sua aplicação prática. Os ensaios decorriam no terreno mais à mão, escolhendo-se o cenário mais adequado para repetir vezes sem conta as cambalhotas e as quedas na máscara, caindo de joelhos, ao mesmo tempo que se deixava tombar o corpo, de forma a ficar exactamente por detrás da moita (a máscara). Frequentemente acertava-se com um joelho numa pedra, a coronha da G3 partia-se, caía-se em cima da máscara ou ficávamos perigosamente afastados da dita. Se a queda corria bem, vinha a seguir a atrapalhação com a arma. Não se encontrava posição, a mira ficava fora da vista, não se sabia para onde apontar e normalmente não se conseguia descortinar o inimigo.
- Seus lerdos
Berrava o instrutor.
- Se fosse a sério, com essa lentidão, já estavam todos mortos.
Sentenciava.
Felizmente, nesta guerra de brincar, não era preciso disparar, pelo menos com bala real. Lembro-me que, certa vez, um alferes, pequenino, com ares de atleta e postura de guerreiro, quis fazer uma demonstração. Carregou a G3 com munições de salva, tomou pose de ataque, atirou-se para o chão via cambalhota em frente seguida de uma meia queda na máscara e começou a rebolar para um lado e para o outro, como se evitasse ser atingido pelas balas do inimigo imaginário, ao mesmo tempo que disparava sempre que entendia tê-lo na mira.
Assisti boquiaberto àquela cena. Tenho a certeza que em momento algum, o destemido militar sabia para onde estava a disparar. Se a arma estivesse carregada com bala real, tinha acertado em si mesmo umas duas ou três vezes e nenhuma, no que quer que pudesse ser considerado inimigo.
- Filmes a mais! Pensei.
Mas muita coisa valeu a pena, especialmente se tivermos em atenção que, quer quiséssemos quer não, estávamos a ser treinados para a guerra. A preparação física era uma delas, o manuseio das armas era outra, complementada com o conhecimento específico das suas manias e truques.
Detestava particularmente o salto do Unimog em andamento. Tinha que ser feito segurando a arma com as duas mãos. Ao atingir o solo, era projectado e nunca conseguia controlar a queda. Magoava-me quase sempre.
A verdade é que, durante os 26 meses que andei por terras africanas, nunca tive necessidade de fazer a queda na máscara, de dar uma cambalhota, rastejar ou outra qualquer das habilidades que pratiquei com tanto denodo. Excepção para o salto da viatura. Executei-o uma única vez. Uma excepção.
Assim, de entre as estratégias definidas para a missão da companhia, contava-se a importância em manter uma presença em toda a área. Tínhamos de nos tornar visíveis. Mostrar que não nos quedávamos pelo conforto do aquartelamento. Para além do mais, era importante manter as picadas abertas, reabrir as que as chuvas faziam desaparecer, abrir outras e mostrar à população a nossa presença.
O Demba era o último dos Kimbos no trajecto que vinha da Neriquinha e por isso, visitado amiúde pelas colunas de reabastecimento. O Caxoxo ficava no términus da picada que daqui seguia para o interior e só era visitado em missão de patrulhamento ou de passagem para as zonas de caça, mas normalmente seguindo a picada que o ligava directamente ao Rivungo, nunca por ali.
Os dois Unimogs, apelidados carinhosamente de “burros do mato”, venceram penosamente o percurso até ao Demba, numa marcha saltitante e desconfortável, com paragens frequentes para abastecer os radiadores, única forma de compensar o aquecimento excessivo dos motores.
O percurso até ao Caxoxo foi mais fácil. Com efeito, em alguns sítios a picada quase desaparecera. A areia reocupara os sulcos que a definiam, implicando um menor esforço das viaturas. Foi possível rodar em 2ª e em alguns troços conseguiu-se engrenar a terceira velocidade. A picada ia assim ficando para trás, como que reavivada. Contudo, seria preciso passar por ali mais vezes. O peso dos Unimogs não era suficiente para definir um sulco que não desaparecesse com a próxima chuvada.
A noite já se anunciava quando nos despedimos dos PSP’s do Caxoxo e iniciámos a última etapa, agora já de regresso a casa. Era uma picada que já conhecíamos, sinuosa, percorrendo uma área arborizada de terreno arenoso, bem visível na profundidade do sulco marcado pelos rodados das viaturas, impondo um andamento lento, por entre a densa noite sem luar que cobria totalmente a mata circundante.
As viaturas seguiam, uma atrás da outra com um razoável intervalo de segurança. Eu seguia na da frente, na que era conduzida pelo Comandos. Magro, mas de porte atlético, o Figueiredo ganhara a alcunha de o Comandos pelo facto de, na instrução, ter andado por Lamego, em cujo quartel se formavam as tropas especiais. Era um militar muito activo e sempre disponível para uma missão, especialmente se se tratasse de uma incursão de caça. Conduzia com mestria quer a corta mato quer pelas difíceis picadas de areia, conseguindo obter maior rendimento dos pequenos Unimogs, minimizando com oportunos aconchegos de travão, o desconforto dos contínuos saltos que a precária suspensão da viatura agravava.
Do segundo Unimog, apenas se divisava, lá mais atrás, a luz saltitante dos faróis, ora mais intensa ora desaparecendo ao sabor dos meandros caprichosos da picada.
Seguíamos assim descontraídos, embora, por hábito, as armas estivessem a postos, bem agarradas, com excepção da do condutor. A arma do Comandos seguia presa a um dispositivo para o efeito montado na frente, no local onde normalmente estaria o pára-brisas, que ali não se usava. Era um dispositivo engenhoso e ao alcance do condutor. Prendia a G3 sob pressão, bastando puxá-la com força para se soltar.
De repente, no meio da noite, inesperadamente, soou um tiro. Isolado, seco, perturbador. No segundo seguinte, ainda o som do disparo ecoava nos meus ouvidos, dei por mim deitado no chão, arma aperrada, apontando o negrume da noite. Olhei à volta. Todos estavam igualmente deitados no chão, em pose defensiva.

O Comandos também. De uma forma que nem o próprio conseguiu explicar depois, quase foi mais rápido que eu. Num ápice, apagou os faróis, desligou o motor, sacou a arma da geringonça e atirou-se para o chão. Tenho a certeza que se se tivesse tratado de um exercício, não teria sido tão rápido. Efectivamente, o instinto de preservação leva-nos a fazer coisas de que nunca pensaríamos ser capazes. Pelo menos nunca ensaiáramos nada parecido.
Perscrutámos em redor trespassando com o olhar a parede negra da noite à procura de qualquer movimento, sondando o silêncio à caça de um restolhar. Nada aconteceu. Nem um som ou movimento. Nada, ninguém. Decididamente não se tratava de uma emboscada.
- Será que atacaram a outra viatura? Pensei.
Procurámos na escuridão, projectando a vista através da espessa noite. Ao longe, o som familiar do motor do Unimog em esforço, acompanhava o risco de luz dos faróis dançando por entre as sombras do arvoredo. Aproximaram-se.
- A viatura foi abaixo?
Atreveu-se a perguntar um dos soldados.
- Não, ouvimos um tiro e desliguei o motor.
Respondeu o Comandos com simplicidade.
- Foram vocês que dispararam? Perguntei.
- Sim, vimos uma cabra do mato, mas não lhe acertámos.
Respondeu um deles.
Não me deu para ralhar. Afinal, era hábito atirar-se à caça. Na noite, os seus olhos pareciam pequenas luzinhas e se tivessem acertado, teríamos mais um petisco do Máquina em perspectiva - cabra do mato no forno.
Afinal, não fora uma emboscada, nenhum ataque ou acção de um qualquer sniper. Apenas um susto. Creio no entanto que a solitária cabrinha do mato terá apanhado um susto maior.
Enquanto se vencia a escassa meia hora de caminho que faltava até ao Rivungo, matutava sobre a nossa reacção. Uma tropa de elite não teria reagido melhor. Tanto joelho esfolado na instrução e afinal nada do que nos ensinaram foi ali aplicado. Lembro-me bem. Os Unimogs usados na instrução não possuíam aquele dispositivo para segurar a arma do condutor e nunca ninguém me disse que o motor deveria estar em silêncio. Creio que também nunca alguém se lembrou da conveniência em desligar faróis. É que, todos os exercícios haviam sido executados em plena luz do dia e o condutor não fazia parte deles.
Ainda assim, não posso censurar os autores dos manuais. Não me parece que os mesmos pudessem prever que uma cabra do mato seria capaz de pôr à prova o instinto de sobrevivência de um ser humano.
sábado, 21 de fevereiro de 2009
O PALÚDICO
Na fase que antecedeu o embarque para África, o reforço da vacinação visava tornar-nos imunes às conhecidas doenças tropicais, especialmente a doença do sono e a temível malária (ali chamada de paludismo) combate este que continuou, uma vez instalados nas Terras do Fim do Mundo. A doença do sono era prevenida com inoculações trimestrais, enquanto o paludismo obrigava à ingestão diária de comprimidos de resoquina.
Quanto à doença do sono e não obstante a região ser abundante em mosca tsé-tsé
(principal veiculo de transmissão da doença) a verdade é que ninguém da companhia foi infectado. Já quanto ao paludismo a história é diferente. A resoquina apenas se revelou eficaz para muito poucos. A maioria apanhou a doença e muitos deles mais do que uma vez. Creio que a grande abundância de mosquitos conseguia inocular o vírus a um ritmo superior à capacidade de combate do medicamento. Provocando febres altas, castigava o corpo, levando ao delírio e incapacitando gente na força da idade, debilitando-os por largos períodos de tempo.Eu, ou porque mais resistente ou porque em mim o medicamento era eficaz ou talvez porque o tomava sempre, nunca fui contagiado, não obstante a quantidade de vezes que era picado. No
aquartelamento, estávamos mais ou menos protegidos pelas redes mosquiteiras, montadas em todas as portas e janelas e individualmente em cada cama, numa imitação grosseira de dossel. Na mata, à noite, a falta da rede protectora deixava-nos à mercê de hordas de mosquitos gulosos e anafados que, provavelmente fartos da pele tostada, ressequida e dura dos ganguelas, se banqueteavam sugando-nos o sangue, indiferentes aos cremes repelent
es com que nos besuntávamos.O Duarte era uma vítima especial, ficando de cama com mais frequência do que qualquer outro. Não porque se expusesse mais ao mosquitame, mas provavelmente porque era mais vulnerável ou então, imune à droga.
Pouco dado às regras militares, o Duarte era daqueles furriéis que não agradava às hierarquias. O Alferes Fausto, cumpridor das normas, disciplinado e disciplinador, talvez por ter um grande coração e dose cavalar de bom senso, não criava conflito, gerindo a bandalheira do Duarte com bonomia. Preferia ignorar, até porque o Duarte não era indisciplinado ou rezingão. Era talvez preguiçoso e pouco dado aos atavios que apelidava de “merdas da tropa”.
Apreciava cerveja, fumava muito, talvez em excesso e tinha uma predilecção por rock, dando preferência aos rebeldes da música americana de então. Idolatrava especialmente Jim Morrison e Janis Joplin e escarnecia de todos os que não considerava dignos de serem integrados no grupo dos iluminados. Exagerando a caricatura, cantarolava com voz de falsete as canções proscritas, encenando poses ridículas e caretas de bobo, para dar maior dimensão ao desprezo que lhes votava.
Certo dia, na Neriquinha, na camarata dos furriéis, completamente toldado pelo álcool, deu-lhe para o melodrama. Passava então na rádio uma das canções da Janis Joplin. Uma daquelas conhecidas … Me and Bobby McGee ... ou talvez outra, a puxar mais ao sentimento, provavelmente A Woman Left Lonely. Não me lembro exactamente. Mas a nostalgia bateu-lhe forte e despertou sentimentos. Lançou então, numa voz entaramelada e chorosa, um lamento lancinante que ainda hoje é recordado:
- Oh, Janis, Janis … porque morrestes?
Sem jeito para a tropa, sem jeito para cumprir ordens e menos jeito ainda para as dar, o Duarte era, no entanto, um receptáculo de doenças. Poucos acreditavam que ele sofresse de facto de algumas delas. Contudo, era certo que, se levasse a mão à testa e entendesse que estava com febre, nada o demovia da ideia. Se não estivesse, a ansiedade que gerava enquanto percorria a distância que levava à enfermaria, era suficiente para lhe subir a temperatura. Quando acabava de chuchar no termómetro, este marcava quase sempre 39º. Mas se não lhe ocorria sentir que estava doente, passava tempos sem que a febre por encomenda surgisse. De qualquer forma, a frequência com que a febre subia, fosse ou não culpa do paludismo, marcou-o para sempre. Foi apelidado de “O Palúdico” e creio que ainda hoje é recordado como tal.
Certo dia, no Rivungo, queixou-se. Nessa altura com fundamento. Apanhara paludismo, de verdade. E o termómetro confirmou-o. Creio que o facto de estar no Rivungo (só havia médico na Neriquinha) gerou pânico na sua cabeça, contribuindo para agravar mais ainda o seu estado de saúde. Sim o Duarte era hipocondríaco. Em último grau. Mesmo em excesso. Eu, pelo menos, nunca conhecera alguém assim.
O enfermeiro, que costumava dormir sozinho na enfermaria, diagnosticou que o seu estado recomendava cuidados. Entendeu assim ser preferível que o Duarte dormisse na enfermaria. Ali sempre estaria sob sua vigilância. Arrependeu-se. O palúdico não o deixou dormir cinco minutos seguidos. Durante toda a noite foi desfiando o catálogo das doenças que conhecia. Sempre que sentia um arrepio, uma dor, mesmo que pequena, associava sempre a sintomas de doenças que retirava do fundo do seu arquivo de maleitas. Um tremor ou uma contracção muscular, era tétano, um bocejo foi associado a doença do sono e uma batida mais forte do coração era um ataque cardíaco. Até sentiu que os ossos tinham perdido a rigidez, atribuindo isso a outra doença grave.
- Franqueira! Ajuda-me ... estou em delirium tremis!
Gemia, implorando os cuidados do enfermeiro.
Só não nomeou coisas pequenas como mau-olhado, panarícios ou pêlos encravados.
Quando a manhã nasceu, com olheiras de meter medo, o enfermeiro maldizia a ideia que teve em o transferir para a enfermaria.
- Este cabrão até nomeou doenças de que eu nunca tinha ouvido falar.
Lamentou-se.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
A perseguição
A chegada da tropa ao Mugamba, embora demasiadas horas depois do ataque, descontraiu os agentes da PSP. Respiraram fundo. E a população também. Pelo menos foi o que me pareceu, não obstante o drama visível nos queixumes e no sobressalto que pairava no ar.Fizeram-se os necessários reconhecimentos. O monte de cápsulas vazias por detrás da vedação do curro, denunciava a trincheira improvisada dos atacantes. Não havia vestígios de sangue. Um leve acidente de terreno formara uma protecção natural contra as balas da guarnição sitiada.
O Alferes retirou do bolso o mapa do terreno. Desdobrou-o, identificou na carta o ponto onde estávamos e procurou adivinhar o percurso da fuga. Cofiou o ralo bigode, coçou a cabeça por sob o quico, aconselhou-se com os dois polícias e conferenciou com os furriéis. Urgia dar início à perseguição, contudo, não seria aconselhável embrenharmo-nos naquela mata apenas confiados no mapa da região. Por ali apenas existiam carreiros que conduziam às zonas agrícolas disseminadas pelas redondezas. O mapa indicava um ou outro e não era certo que ainda existissem. Mesmo que assim fosse, o mais provável era já não seguirem a direcção traçada no mapa. As chuvadas tropicais eram intensas e apagavam facilmente qualquer pequeno carreiro sobre a areia solta. Assim, a opção mais segura e obviamente mais sensata, era levar um guia. Alguém que conhecesse bem as matas e soubesse orientar-se por métodos diferentes daqueles que aprendêramos.
Metemo-nos a caminho atravessando a aldeia por entre as cubatas, em direcção ao trilho que se divisava à entrada da mata, no outro lado do pequeno descampado que separava a zona arborizada do perímetro do aldeamento.
Durante algum tempo seguimos o trilho arenoso que serpenteava por entre as árvores, óbvio caminho utilizado diariamente pela população nas suas deslocações para os seus afazeres diários. A princípio, em ritmo acelerado mas esmorecendo pouco a pouco, à medida que o cansaço baralhava os músculos e descoordenava a respiração, já de si dificultada pelo intenso calor.
A ideia era seguir as pistas deixadas pelos guerrilheiros. Contudo, não me pareceu que aqueles sinais fossem claros a esse ponto. O terreno era de areia solta, fofa, cansativa, cedendo facilmente sob os pés. A vegetação escassa e as árvores espaçadas. Não havia morros, pedras ou acidentes de terreno e até as plantas rasteiras eram tão resistentes que nem se ressentiam ao serem pisadas. Na verdade, cheguei a pensar que aquele carreiro não era mais do que o rasto deixado pelos que iam na frente. A certa altura, a linha que seguíamos desapareceu totalmente e com ela as pistas.
Dez minutos de descanso, apenas o tempo suficiente para retomar o fôlego, reiniciando-se a marcha, perseguindo uma direcção indefinida. Os cenários sucediam-se, iguais aos anteriores. As mesmas árvores, a mesma vegetação, as mesmas chanas, a mesma planura, o mesmo sol, as mesmas moscas, pequeninas como mosquitos, quais satélites à volta da nossa cabeça, atascando-se no copioso suor, entrando pelas narinas, sugadas pelo respirar ofegante, ou descendo até à garganta juntamente com o fino pó levantado pelo arrastar penoso dos pés sobre o terreno ressequido. Apenas as costas do guia pareciam constituir um ponto a alcançar, sempre a fugir à nossa frente, num ritmo imparável, impossível de secundar. Só o Alferes Fausto, qual locomotiva, como que rebocando os seus homens, parecia conseguir acompanhá-lo.
A ordem para parar caiu que nem uma bênção. As pernas trôpegas, inconscientes, com os músculos desobedecendo às ordens do cérebro, já mal podiam com o corpo. O saco com as rações de combate, não obstante já aliviado das latas do almoço, parecia ter aumentado de peso. O cinturão, carregado com o peso do cantil, cartucheiras e granadas, massacrava a anca, tornando-a dorida. Apenas a G3 parecia não pesar. Encostei-me a uma árvore e deixei-me escorregar deslizando as costas pela casca rugosa até o rabo encontrar o chão. Deixei-me ficar, procurando recobrar o fôlego enquanto maquinalmente levava o cantil à boca, sorvendo um pouco da água que ainda restava.
Espojados por aqui e por ali, estendidos ou recostados nos troncos das árvores, aproveitando a escassa sombra das poucas copas mais densas, lutando contra o bando de insectos que não nos largavam, procurávamos recobrar o fôlego e retemperar forças.
Dei por mim a cogitar sobre as capacidades físicas daqueles homens para uma perseguição tão desigual. Brancos, europeus, a desafiarem a inclemência de um clima a que não estavam habituados, em locais inóspitos, desconhecidos, anormais, perseguindo um bando de gente que ali nasceu e nunca conheceu outros ambientes. Para eles, calor, areia, sol, chuva, noite ou dia, era tudo o que conheciam. E isso era visível na resistência e ágil desenvoltura do guia, deambulando de cá para lá, fresco, sem ponta de cansaço. Apenas o suor a escorrer-lhe da testa evidenciava o efeito do calor e do esforço, em nítido contraste com uma tropa esfrangalhada, morta de cansaço. Para mim isso era a prova de que o inimigo já estava longe, não tendo a tropa condições físicas para os perseguir. Se naquele momento nos caíssem em cima, riam-se primeiro e dizimavam-nos depois. Olhei à volta, desconfiado. Contudo, não divisei nada de suspeito por detrás dos escassos arbustos circundantes.
Entretanto, caíra a noite. O local não fora escolhido de propósito. Abancámos ali porque de noite não era possível avançar. Ordens sussurrantes definiram as escalas de sentinela, cada um se ajeitou o melhor que pôde e engoliu a ração feita jantar. A maioria adormeceu na posição em que estava. Estiquei-me no chão, cobri-me com o poncho. O calor apenas apertava de dia. Adormeci quase de imediato embalado por um coro de ruídos apenas audíveis no meio do silêncio da noite que pintara de escuro denso a mata até então luminosa.
Acordei. Não sei bem se por efeito de um qualquer barulho, ou se com a luz do sol que prometia outro dia infernal. O meu relógio ainda não marcava 5 horas da manhã. Por ali o sol nascia cedo, madrugando, como se tivesse pressa ou com muito que fazer. Uma lata de leite com chocolate acompanhado de duas ou três bolachas compuseram um pequeno-almoço que aliviou o peso do saco sobre os ombros. Apertei o cinturão e preparei-me para iniciar a marcha.
- Maboco! Explicou o guia partindo um com ajuda da catana.
Fiquei cliente, até porque permitiu desenjoar das rações enlatadas que transportava.Seguíamos agora em direcção ao Rivungo, a corta mato, numa marcha cada vez mais sofrida, aniquilando as forças, diminuindo o ritmo e retardando a marcha. A cada nova pergunta, o guia respondia: - É já ali.
Procurávamos o ali, alongando o olhar por entre as árvores, na vã esperança de divisar ao longe a silhueta familiar do aquartelamento. Acelerava-se o passo, num esforço roubado às últimas reservas de energia. Mas o já ali, repetido pelo incansável guia, não aparecia.
Passava do meio-dia. O calor tórrido associava-se ao cansaço, vencendo a última resistência de uma tropa à beira do esgotamento e desidratação. Mais uma paragem, desta feita mais longa. Aproveitámos para comer. O Rivungo era já ali, mas havia que retemperar o corpo. Debalde, a paragem arrefeceu os músculos e alguns (eu incluído) não conseguiram arranjar forças para avançar.
Os mais resistentes (ou mais bem preparados) continuaram. Os outros ficaram ali, esticados sob as ténues sombras de copas tímidas, aguardando que uma viatura os viesse resgatar. Fiquei a ver o grupo desaparecer por entre a mata, rebocado pelo Alferes Fausto, cuja capacidade de resistência me impressionava. Nunca o vi soçobrar perante aquele clima hostil.
O familiar ruído do motor do unimog começou a ouvir-se ao longe. Levantámo-nos. A viatura avançava a corta-mato, contornando as árvores numa lenta gincana. O guia, braço esticado para a frente, sentado sobre a estrutura da carroçaria, pés sobre o assento ao lado do condutor, indicava o caminho. Não errara o local onde nos deixara. Ainda hoje continuo a não perceber como conseguiam orientar-se com tal precisão, num terreno sem pontos de referência.
A tarde ia a meio quando, já recuperados mas com os músculos todos doridos, chegámos ao Rivungo. Vesti uns calções, agarrei no sabonete e mergulhei no rio, uma, duas, três vezes, passando sabonete até sentir que toda a sujidade entranhada saíra.
domingo, 11 de janeiro de 2009
O ataque ao Mugamba
jus ao poder que se dizia possuírem. Constava que as suas asas, secas e transformadas em pó, constituíam um afrodisíaco poderoso. Contudo, nunca me apercebi que alguém tivesse sequer tentado experimentar. Por um lado, era perigoso. O pequeno escaravelho segregava um líquido
corrosivo que provocava uma queimadura na pele, difícil de sarar. Por outro lado, afastados da civilização e já só retendo uma imagem remota do que era uma mulher branca, a última coisa de que se necessitava era de algo com tal efeito estimulante. Tanto mais que o agradável perfume de mulher, era ali substituído por um odor anti-afrodisíaco que refreava o ímpeto e aconselhava ao recato.A calma reinante foi abruptamente interrompida pela chegada apressada do Chefe França. Vinha acompanhado do administrador Litenda e de um elemento da população, nitidamente ofegante. Era um mensageiro enviado pelos agentes da Polícia de Segurança Pública destacados no Mugamba, com a missão de comunicar que o Kimbo tinha sido atacado por um grupo de turras.
Nestes casos, competia à tropa sair em perseguição dos atacantes.
- Dar-lhes caça … aniquilá-los!
Sentenciou o Litenda.
No meu ainda pouco conhecimento dos meandros da guerra, pensei para comigo que pouco ou nada haveria a fazer. O mensageiro só saíra do Mugamba quando a sarrafusca acabou, a distância era considerável e o percurso a pé demorado. Mesmo considerando a resistência daquela gente e a facilidade com que percorriam a pé grandes distâncias, era claro que já havia decorrido muito tempo.
- O mais certo é já estarem bem longe!
Alvitrou o chefe França.
No entanto, a estratégia da perseguição teria de ser cumprida. Era preciso que o inimigo soubesse que não podia repetir a graça. Dar-lhes caça e mostrar que estávamos ali, era o mínimo que se podia fazer, caso contrário, tornavam-se atrevidos e ainda acabavam por nos bater à porta.
Em menos de um nada, encontrava-me em cima de um unimog, que acelerava roufenho e saltitante pela arenosa e sinuosa picada que levava ao Mugamba, na vã tentativa de recuperar o imenso tempo que já decorrera desde o ataque. Comandados pelo próprio alferes Fausto, seguia mais de metade do efectivo militar do Rivungo. Haviam sido distribuídas, à pressa, rações de combate para dois dias, o alferes munira-se de um conjunto de cartas militares do terreno, carregáramos o armamento disponível e assim nos lançámos no encalço do inimigo que se atrevera a quebrar a monotonia de um dia que amanhecera quente, mas sossegado.
Levámos mais de uma hora a percorrer a distância que separava o Rivungo do Mugamba, um pequeno kimbo, no meio da mata, cujo isolamento apenas fora minorado porque a picada que vinha da Neriquinha, forçada a um desvio, obrigava as colunas de reabastecimento
a por ali passarem. Era constituído por uma escassa dezena e meia de cubatas de capim, dispostas de forma irregular num descampado, cuja população, maioritariamente de etnia ganguela, se dedicava a actividades de subsistência – agricultura rudimentar, criação de meia dúzia de vacas e caça artesanal.A protegê-las (o termo parecia-me um pouco exagerado), dois agentes da PSP, que por ali sobreviviam, sem terem para onde ir e sem nada para fazer, para além de assistirem ao indolente passar do tempo, tarefa bem mais monótona e menos interessante do que a da tropa. Pensava eu que, tal como nós, estavam ali porque para ali tinham sido enviados. Destacados em missão de soberania. Apercebi-me depois que, muitos deles eram voluntários. Razões económicas ditavam a opção. O vencimento era significativamente superior ao que auferiam na cidade. Logo, se ali estavam, é porque consideravam valer a pena o sacrifício.
O posto da PSP, residência e sede da autoridade, não era mais do que uma cubata de capim, paredes de paus a pique e chão de terra batida, maior do que as demais, mas apenas possuindo uma ampla divisão, onde jaziam duas pequenas enxergas cobertas por uma rede mosquiteira, ornamento fundamental para que um ser humano ali pudesse dormir sem ser devorado pela chusma de mosquitos. A um canto, uma pequena mesa onde descansavam alguns tachos e um petromax para iluminar as noites.
A construção era protegida por uma barreira de terra com cerca de um metro de altura e meio metro de espessura, amparada por duas fileiras de troncos enterrados na vertical, constituindo uma espécie de muralha artesanal a rodear a frágil barraca. A passagem para o interior fazia-se por uma única entrada, a lembrar burladeros em praça de toiros. A sua eficácia ficou demonstrada ao confirmar-se que um tiro de G3, disparado a curta distância, não trespassava a barreira.
Foi esta rudimentar fortificação que, a meio da noite, foi atacada, tendo estado debaixo de fogo durante duas
horas, apenas defendida pelos dois elementos da PSP secundados por três ou quatro auxiliares, recrutados entre a população local, ripostando ao fogo inimigo com o escasso armamento disponível: duas G3 e algumas espingardas
Mauser.Resguardados atrás da frágil, mas eficaz muralha, disparavam sobre os atacantes, com comedimento, apontando para um alvo indefinido, apenas orientados pelos fogachos dos disparos inimigos. A reserva de munições não era grande e não era fácil avaliar quantos eram os atacantes, nem até onde estariam dispostos a ir. Ripostavam tiro a tiro, não obstante as G3 permitirem rajadas curtas, o mesmo não se podendo dizer das Mauser que, não sendo armas automáticas, por aí se ficavam. Cada tiro dado implicava a preparação manual para o próximo, naquele repetitivo movimento de culatra atrás, culatra à frente, enquanto houvesse munições.
Aos primeiros alvores da madrugada cessou a fuzilaria. Ou porque se lhes esgotou as munições, ou porque a escuridão deixara de os proteger, os atacantes desapareceram tão de repente como haviam chegado, deixando ilesos os até então sitiados.
Com as devidas cautelas, saíram da fortificação, procurando avaliar o resultado da escaramuça num reconhecimento pelos arredores. Os atacantes haviam-se entrincheirado atrás da cerca onde a população, durante a noite, guardava a sua reduzida manada de gado. Os animais estavam mortos. Apanhadas entre dois fogos, foram dizimadas pelas balas dos beligerantes, tanto de um lado como do outro.
A contenda não vitimou ninguém. Nem um único arranhão em quem quer que fosse. Também não visou a população. Contudo, foi esta que sofreu o maior prejuízo. Ficou sem o seu mais valioso bem patrimonial e principal símbolo de riqueza. As vacas.
Quanto aos dois agentes da PSP, fomos encontrá-los abalados e com a moral em baixo. Descontraíram com a nossa chegada, mas nunca mais dormiram tranquilos durante o resto do tempo que durou a sua missão naquele pedaço esquecido de fim de mundo.
...Continua em "A perseguição"...
domingo, 14 de dezembro de 2008
Natal no Rivungo
O mês de Novembro daquele ano de 1971 ia já avançado quando aportámos àquelas paragens. Na Metrópole (carinhosamente apelidada de Puto) dali até ao Natal seria um saltinho. Naquele fim de mundo, a quadra festiva aproximava-se ao ritmo indolente da calmaria, andamento já de si retardado pela contagem decrescente dos dias, alimentando o desejo sofrido de ver chegado o distante dia do regresso, dando maior dimensão ao longo caminho que ainda havia a percorrer.Em boa verdade, não creio que alguém se preocupasse com o Natal. Por ali, nada o fazia lembrar e a população local não sabia o que isso era. Sempre associei a quadra ao frio e isso era coisa que ali não havia. Também não havia ruas iluminadas, nem lojas, nem pais natais, cânticos natalícios ou jingle bells.
Apenas um dia a seguir ao outro, com a noite de permeio, num território inóspito e desconhecido, infestado de mosquitos gulosos, de tamanho desmesurado, que se engalfinhavam logo que caía a noite, sugando o sangue a quem não se resguardasse por detrás de uma qualquer rede mosquiteira.Por estas alturas, o exército costumava abrir os cordões à bolsa e recomendava rancho melhorado. Contudo, não se esperava bacalhau para a consoada. Menos ainda rabanadas, bolo-rei, fios d’ovos ou outros acepipes com que, por tradição, nos empanturramos na quadra natalícia.
É estranho! Passei três natais em África, mas apenas me lembro deste, o primeiro e único passado no Rivungo. Dos restantes, não retenho sequer uma pequena recordação, lembrança ou imagem, muito provavelmente porque eram dias normais, iguais a todos os outros. São os desígnios do tempo, que tendem a esconder nos recônditos inacessíveis da memória, factos, histórias e imagens da nossa vida, apenas deixando à superfície flashes isolados que permitem reconstituir, mais uns do que outros, alguns episódios, sem que, muitas vezes, se perceba os critérios selectivos dos neurónios em funcionamento.
Não havendo como festejar, atamancou-se uma solução para cada um dos três principais dias festivos e que passava por reunir toda a comunidade de deslocados num almoço de confraternização que tinha lugar, à vez, nas instalações de cada força. Naquele ano, ficara decidido que o almoço do dia de Natal seria na tropa, o de Ano Novo na Marinha e finalmente, o do dia de Reis, na PSP. Os dois agentes da DGS não tinham condições para o fazer, o mesmo se dizendo do Administrador e do Camassango, pelo que eram sempre, apenas convidados.
O rancho melhorado no dia de Natal, bem se pode dizer que foi obra do Máquina que, sendo uma espécie de ajudante de cozinha, foi, neste caso, ajudado pelo cozinheiro do destacamento, numa autêntica inversão de funções. Não obstante já nos termos apercebido dos dotes culinários do homem, ainda assim, todos se admiravam das suas habilidades. Aquele arroz de frango (digno substituto de um qualquer manjar de Natal) estava divinal.
A frugalidade da comezaina era limitada pela pouca variedade e escassa disponibilidade do depósito de géneros, valendo o almoço pela companhia devidamente animada com o vinho de péssima qualidade, único de que se dispunha e que era fornecido em bidões de 200 litros. Após a abertura do bidão, tinha de ser consumido em poucos dias, já que azedava a uma velocidade imparável, transformando-se rapidamente em ácido acético impróprio para o que quer que fosse. Por mim sempre preferi a cerveja. Era fresca e saborosa, indo melhor com o calor. Por outro lado, ao contrário do vinho, não tinha tempo de azedar. Esvaziada uma, havia logo outra, sempre à mão.
De qualquer forma, o Natal resumiu-se a esta espécie de evento, sem missa do galo ou noite de consoada. A rotina apenas foi alterada no reforço das sentinelas e das rondas nocturnas, não fossem os amigos turras quererem fazer-nos uma visita em tempo de maior descontracção.
No ano novo, o almoço ficou a cargo da marinha e, creiam-me, os rapazes capricharam. Especialmente no acompanhamento alcoólico. O dia coincide com o do meu aniversário e toda a gente sabia disso. Assim, fui transformado numa espécie de dono da festa e todos, tanto dum lado como do outro, fizeram jus à arte de bem receber, pugnando para que nada faltasse à minha frente. As cervejas sucediam-se e a sobremesa foi devidamente acompanhada com meia dúzia de whiskies, mais não sei quê, igualmente alcoólico, que me foram pondo à frente. A mistura, cumpriu o seu dever, dando-me conta disso quando, no fim do repasto, as pernas não obedeceram ao tentar levantar-me.
A tarde ainda ia a meio e, não obstante ninguém estivesse verdadeiramente sóbrio (excepção para o Silva que julgo apenas ter quebrado a abstinência para não fazer a desfeita) entendeu-se que o novo ano merecia outra comemoração. O Tenente, bem bebido, tal como os demais, achou que era engraçado dar uma volta pelas redondezas. Sentou-se ao volante do Land Rover da marinha e fez carregar uma grade de cerveja. Outros três ou quatro bêbados (eu incluído) tomaram também assento e lá rumámos à Missão, não sei bem para quê, já que ali não existia nada que justificasse o raid.
A viagem acabou, pelo menos para mim, na Mahínha, pequeno kimbo que distava do Rivungo uma meia dúzia de quilómetros por uma picada de areia, numa espécie de visita sem motivo, de que apenas recordo ter-me espalhado ao comprido ao tentar apear-me, verdadeiro corolário do excesso de bebida, transformada em cocktail pelas sacudidelas da curta viagem.
Não me recordo do regresso. Acordei, no dia seguinte, com o Alferes Fausto a perguntar pela bandeira. Eram horas de a içar e não estava no lugar do costume. Estremunhado, com a memória entupida, raciocínio atascado e sem vontade de me levantar, balbuciei qualquer coisa. Foi quando, ao virar-me na cama, reparei que estava embrulhado na bandeira nacional. Segundo contaram, no dia anterior, no meio da barafunda, carregaram-me às costas e atiraram-me para cima da cama. Provavelmente, porque a sobriedade não era muita, alguém agarrou no que estava mais à mão, acabando a bandeira verde rubra a fazer de lençol.
No almoço do dia de Reis, servido na PSP, a comezaina decorreu sem incidentes. A recordação de tão insólita festa de aniversário levou-me a beber apenas duas cervejas, em evidente contraste com o anfitrião - o chefe França - que, como não podia deixar de ser, se encarregou da animação, regando-a generosamente.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
O Máquina
A chegada da tropa àquelas longínquas terras, veio conspurcar o seu simples modo de vida com tiques de alguma civilização e hábitos europeus que nada diziam àquela gente, para quem, um qualquer pequeno trapo que permitisse improvisar uma tanga, era vestimenta mais do que suficiente. De facto, o frio era pouco e a chuva apenas água que refrescava e lavava corpos seminus sem necessidade de abrigo, o que explicava as simples e acanhadas cubatas de capim e paus aconchegados de lama, que quase só eram utilizadas para os abrigar das frias noites do cacimbo ou quando a chuva, teimando em cair de noite, arrefecia os corpos que não estivessem debaixo de qualquer coisa.
Os hábitos alimentares não primavam por grande variedade. Os frutos silvestres e algumas raízes eram consumidos no local onde eram colhidas e a agricultura apenas se quedava pela produção de milho (talvez a mais vulgar) e massango, uma variedade de sorgo muito popular em África. As correspondentes sementeiras decorriam durante a época húmida, em lavras espalhadas por lugares específicos da mata, normalmente localizados a distâncias razoáveis dos aldeamentos, para onde migravam as mulheres (a mão de obra principal) aí assentando arraiais por longos períodos, cuidando das plantas que cresciam naturalmente, apenas regadas pelas abundantes e frequentes chuvadas tropicais.Estes dois cereais, uma vez transformados em farinha, representavam a base da alimentação de boa parte da população africana. A tarefa era, uma vez mais, cometida às mulheres, que passavam algumas horas do dia a bater de forma cadenciada, com um grosso pau, as sementes colocadas no fundo de um pilão a lembrar uma espécie de almofariz gigante, obtendo assim uma farinha grosseira,
com a qual cozinhavam uma papa dura a que chamavam pirão, que ingeriam a seco, ou então acompanhada de quando em vez por alguns bocados de carne seca. Para além disso, com a fermentação de sementes de massango, produziam ainda uma beberragem alcoólica, com aspecto acastanhado, que não parecia ser muito agradável, pelo menos à vista.Era uma sociedade patriarcal e poligâmica, na qual a mulher era força de trabalho. A posse, que definia a riqueza de cada um, apenas respeitava aos homens e era medida pelo número de mulheres e de vacas que cada um possuía. Aliás, para além de definir a riqueza, as vacas serviam para comprar mulheres, pelo que, em boa verdade, um homem era tanto mais rico quanto mais mulheres possuísse, já que isso também significava que tinha vacas para a troca. Era a que cuidava da casa, a que cuidava dos filhos, a que cuidava da lavra, as que cuidavam das vacas, etc.. As terras, essas não tinham propriedade.
Não sendo de ninguém, eram de todos.Nesta sociedade machista, a caça era a única tarefa cometida aos homens. Deslocavam-se em grupo para as zonas de caça e por lá andavam por longos períodos. Do que caçavam, comiam no local o que podiam e secavam a parte restante, armazenando reservas mal cheirosas que, no fim da temporada, transportavam para casa, constituindo as escassas proteínas da dieta alimentar daquelas gentes, dieta essa que, ditada pelos costumes, constituía, a meu ver, a razão principal para a inexistência de obesidade entre os Ganguelas.
Foi no seio desta comunidade que o Máquina, nado e criado no Rivungo, se aculturou. Era apenas mais um nativo, com todas as características culturais, sociológicas e fisiológicas dos Ganguelas, até na sua compleição franzina e pele escura, quase carvão, como o era a maioria da população. Muito popular na zona, expressava-se em bom português num discurso desenvolto e nitidamente mais culto, contrastando com os demais, que apenas dominavam dois ou três dialectos locais. O nome, ganhara-o pelo facto de possuir uma velha máquina de costura portátil com a qual, ora costurava as vestes simples daquela gente, ora remendava os rasgões de fardas de tropas, marinheiros ou polícias. O seu atelier resumia-se a uma pequena mesa que instalava sob o alpendre, em frente à porta da enfermaria, sobre a qual colocava, com mil cuidados, aquela maravilha da técnica, dando à manivela com uma mão, enquanto com a outra segurava o pano mantendo-o alinhado debaixo da agulha da geringonça, num sincronizado movimento de artesanal mestre-alfaiate.
Mas a verdadeira habilidade do Máquina era na cozinha. E também na arte da panificação, ficando explicado o pão que, no primeiro dia, apareceu na mesa ao pequeno-almoço. O Máquina, juntamente com um outro da sua raça, mas ainda rapaz, compunham uma dupla de especialistas da panificação que, com a ajuda imprescindível de um forno artesanal, garantiam pão fresco todos os dias, contribuindo para esta particularidade dos hábitos alimentares europeus, num evidente contraste com as rotinas gastronómicas dos Ganguelas.
Mas estas, contudo, não eram as únicas habilidades deste homem para as coisas da cozinha. Na verdade, para quem nunca saíra do Rivungo, os seus dotes culinários, para nossa felicidade e prazer, superavam os do Lourenço que se iniciava na difícil tarefa de alimentar soldados habituados a refilar da confecção, não obstante o curso que a tropa lhe ministrara.
Não sei se os ares africanos me abriam ou não o apetite, mas ainda tenho na memória o fabuloso arroz de frango que o homem preparava. Ou ainda, a deliciosa cabra do mato que, previamente temperada com requintes de chef pelo Máquina, era assada inteira no forno de pão.
Ainda hoje me cresce água na boca perante a lembrança do petisco, contribuindo para elevar as virtudes culinárias desta espécie de costureiro-cozinheiro ao patamar do mistério, se tivermos em consideração que o homem nunca se afastara do Rivungo mais do que as escassas dezenas de quilómetros que separavam a localidade dos kimbos próximos.
Deixei de ver o Máquina.
As comissões no Rivungo duravam três meses, pelo que, passado esse tempo, o meu grupo regressou à Neriquinha, sendo substituído por outro.
Quando ali voltámos, passado mais de um ano, para cumprir outros três meses de comissão, já não pudemos contar com as suas habilidades culinárias. Da pequena máquina de costura também não ficou rasto.
Parece que a PIDE desconfiou do à vontade com que se movimentava por entre a tropa e a marinha. Levou-o para um interrogatório e nunca mais foi visto. Disseram-nos apenas que tinha sido levado para Serpa Pinto.
Ainda hoje não sei exactamente o que motivou as desconfianças da PIDE, mas não me admirava nada que estivessem relacionadas com a evidente diferença cultural que o distinguia dos demais.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
O Rivungo
Acordei estremunhado, com a desagradável sensação de que acabara de adormecer. O vozeirão do Silva serviu de despertador e o Alferes exigia o cumprimento dos horários militares. Saltei da cama. Era necessário içar a bandeira e o corneteiro Rogério já estava a postos. A bandeira lá subiu ao poste plantado no canteiro em frente, devagar, como mandam as regras, ao som roufenho da corneta, que o Rogério não era músico e como todos ali, também ele aprendera a sua especialidade em tempo recorde. Creio que foi a primeira e última vez que a solenidade do acto foi cumprida ao som da corneta. O alferes Fausto era homem exigente, disciplinador e cumpridor das regras, mas o seu bom senso sobrepunha-se a tudo. A partir daí, não obstante a bandeira tenha sido içada todos os dias, o acto foi sempre cumprido silenciosamente por quem estivesse à mão, respeitando o horário mas sem aquele rigor austero que caracterizava o formalismo.A verdade é que a bandeira nacional subiu sempre ao poste, a horas adequadas e nunca lá ficou para além do pôr-do-sol. A corneta, essa, foi doravante deixada em descanso.
O pequeno-almoço estava na mesa. Um cântaro de café, pão e uma fatia de goiabada - compota de goiaba semelhante à marmelada - tudo servido silenciosamente pelo moço da messe, um negrinho local armado em serviçal que herdáramos da companhia anterior e que tinha também a seu cargo o arrumo dos quartos, a lavagem da roupa, a limpeza do espaço e ainda garantir que o bidão da casa de banho estivesse sempre cheio de água que recolhia de um remanso do rio Cuando localizado nas traseiras. Como paga, recebia de cada um de nós uma importância em dinheiro, cujo montante não recordo, usufruindo ainda de refeições gratuitas. Enfim, um luxo, como se costumava dizer. Para ele, a comida era um autêntico manjar quando comparada com o que tinha disponível na cubata que habitava. Quanto ao dinheiro, servia para muito pouco. A lojeca, à beira da picada, na entrada da localidade, propriedade de um velhote já em fim de estação, vendia uns panos e algumas tralhas apenas úteis à população local, mas sem interesse para os miúdos, o que significa que não havia onde gastar o dinheiro.
Não obstante a noite mal dormida e a devastadora jornada dos dias anteriores, os deveres militares e as tarefas do dia a dia obrigaram a um lançar urgente de mãos à obra. Não estávamos ali de férias e a missão de um exército em tempo de guerra tinha as suas exigências. Havia que fazer o reconhecimento do local, definir estratégias, distribuir tarefas e assegurar a preparação do almoço. Por outro lado, a cantina tinha de ser aberta, já que a cerveja e o cigarro eram quase tão importantes como a comida ou a água. Para quase tudo, o alferes Fausto demonstrou que ele era o comandante e não deixou os seus préstimos por mãos alheias. Nomeei o cabo Almeida responsável pela cantina, dei instruções sobre os preços a praticar com base na listagem passada pelos velhinhos, definiram-se as horas em que estaria aberta e assim se iniciou uma nova etapa das nossas vidas, recheada de novidades e sujeita a muitos improvisos, adaptações e ajustamentos frequentes.
A curiosidade em explorar o local sobrepôs-se ao cansaço e à necessidade de dormir, lançando-me decididamente ao reconhecimento das instalações e arredores. O edifício, construído sobre o comprido, incluía, para além da messe, com os seus quatro pequenos quartos (um autêntico luxo naquelas paragens) a cantina, no topo norte, constituída por um pequeno alpendre dotado de um improvisado balcão e a enfermaria, uma divisão estreita, equipada com três camas, uma das quais, a do próprio enfermeiro e outras duas, em beliche, para os doentes que exigissem vigilância mais apertada.
A caserna dos praças e o refeitório, constituindo uma estrutura mais baixa, rematava o edifício, denunciando uma construção posterior encostada ao corpo principal. Separada deste bloco, uma pequena construção, mais recente, albergava o posto de transmissões, onde o Vilela, cabo radiotelegrafista, transmitia e recebia mensagens, utilizando com mestria o velho sistema Morse. Este equipamento era a nossa única ligação com a Neriquinha e com o mundo exterior. Por ali se recebiam ordens e notícias e por ali se pediam instruções e ajuda, se fosse o caso. Na verdade era o único elo de ligação rápido com tudo aquilo que ultrapassasse o perímetro da povoação. Finalmente, um pequeno paiol guardava diversos tipos de granadas e vários cunhetes de munições.
A curiosidade espicaçada pelo aviso feito na noite anterior relativamente ao
perigo de queda ao rio, levou-me às traseiras. Afinal, havia alguma razão para tal recomendação, se bem que, exagerada. A cozinha ficava a poucos metros do barranco que caía abruptamente sobre uma espécie de mini praia que se formava na borda de um pequeno lago de águas quietas, ali deixadas em sossego pelo caudal do Cuando, na sua passagem serpenteante por entre os caniçais da chana de alguns quilómetros de largura, terra de ninguém que definia a fronteira entre o território angolano e a Zâmbia, na outra margem. Apenas à noite, se divisava, muito ao longe, umas trémulas luzinhas da pequena povoação zambiana (Shangombo), que se pressupunha albergar o inimigo. A cozinha parecia ser o que restava de algo que, algures no passado, tinha sido
improvisado para desenrascar umas refeições, como que a atestar que os arquitectos (militares?) que gizaram o edifício, se esqueceram de a incluir no projecto. Uns paus ao alto, arrumados contra a parede traseira das instalações, suportavam as folhas de zinco que cobriam o espaço, protegendo-o do sol e da chuva. Um murete de suporte aos tachos e panelas permitia enfiar a lenha por debaixo, único material de queima disponível e abundante na mata próxima. Ao lado, um pequeno forno artesanal, explicava o pão que comera ao pequeno-almoço, se bem que não tenha percebido quem o preparou, já que o Lourenço era cozinheiro de fracos recursos e da arte da panificação não percebia mesmo nada.Não foi preciso sair dali para conhecer as forças vivas que constituíam aquela micro sociedade. Aos poucos, foram chegando para as apresentações: o Administrador, o chefe da PSP, os dois agentes da Pide DGS, o pessoal da marinha e o Camassango. Não levei muito tempo a perceber a importância do bom relacionamento entre estes representantes daquela comunidade e da prontidão com que se apresentaram. O local era pequeno e todos constituíam uma família sui generis, no seio da qual se criaram e desenvolveram amizades verdadeiramente importantes para mitigar o isolamento e compensar a ausência dos amigos e entes queridos. Por outro lado, a união faz a força e todos juntos valiam mais do que cada um de per si.
O primeiro a chegar foi o Administrador do Rivungo, uma figura que faria as delícias de qualquer caricaturista. Magro, talvez de mais, usando uma farda cor de caqui, calça apertada, realçando os genitais, justa pelos artelhos, alongando o sapato e salientando ainda mais a magreza. Pele tisnada pela exposição ao sol, mais escuro que um mulato, embora os traços fisionómicos não confirmassem a miscigenação de raças. Idade indefinida, talvez rondando a casa dos 60. Tinha um olho de vidro, rapidamente identificável e exibia uma careca luzidia que lhe deu o nome pelo qual era conhecido - Litenda - vocábulo que, no dialecto local, significava careca. Acho que nunca soube o seu verdadeiro nome. Na sua presença, tratávamo-lo sempre por Sr. Administrador. Quando ausente, era o Litenda. Na sua apresentação, sem formalismos ou salamaleques, o Litenda mostrou-se um homem vaidoso, muito orgulhoso do seu saber africano e dos costumes e defeitos da populaça que parecia não respeitar muito. Na altura, atribuí a pose a uma encenação para impressionar europeus recém chegados do “puto”. Sempre acompanhado pelo fiel Sipaio, espécie de funcionário administrativo recrutado entre a população autóctone, que o seguia dois respeitosos passos atrás, habitava uma das casas no outro lado do campo de futebol, construído alguns metros à frente das instalações militares.
No Rivungo havia apenas dois arremedos de ruas, semelhantes a picadas (até na sua consistência arenosa) mas bastante mais largas. Uma, que começava em frente às instalações da Marinha, à entrada da localidade, era
ladeada à esquerda pelo campo de futebol e à direita por 3 casas, uma das quais a do Administrador, estando desabitada pelo menos uma das restantes. A outra, no topo, correndo na perpendicular a esta, terminava abruptamente na periferia da mata. Dotada de separador central, talvez fruto de ideias megalómanas de quem a projectou, estava permanentemente atolada de areia. Albergava de um lado as instalações da PSP e da DGS e do outro a residência do Camassango, um funciónário para as questões agrícolas, cujas atribuições nunca cheguei a perceber. Mulato, vivia sozinho, mas tinha uma grande facilidade em fazer amizades, pelo que era mais fácil encontrá-lo junto da tropa ou da marinha ou a cavaquear com os elementos da PSP.As únicas estruturas pré-fabricadas, com evidente aspecto de provisório, eram exactamente a casa do Camassango e em frente, no outro lado da rua, as instalações da PSP. Eram também as últimas estruturas da rua, fazendo directamente fronteira com a orla da mata. A missão da PSP, quer ali, quer em qualquer pequena localidade do interior profundo do território, não era a de patrulhar as ruas. As duas que ali existiam não tinham trânsito; eram apenas acessos. Menos ainda garantir a ordem; o movimento era inexistente e os desacatos que pudessem surgir teriam de ser resolvidos pelas hierarquias (militares ou civis). O posto era apenas a base logística. Os seus agentes estavam distribuídos pelos Kimbos dali dependentes, dois em cada um. Eram comandados por uma personagem muito especial - O Chefe França. Fisicamente, uma fraca figura, o que conferia maior visibilidade ao farto bigode de pontas retorcidas que adornava uma cara esguia marcada pela longa exposição ao sol africano. A sua personalidade era oposta à ideia que se costuma fazer de um polícia.
Era um verdadeiro compincha, o protótipo do pândego e do gajo porreiro, sempre com uma laracha pronta a sair, acompanhada de uma gargalhada a propósito de tudo e de pouca coisa. Passe o exagero, creio que, no primeiro dia, ficou amigo de todos os recém chegados. Por companhia permanente, uma cerveja na mão, dando razão à fama de inveterado bebedor que o perseguia, ilustrada por histórias como as que se contavam da parceria que fazia com o sargento Rodrigues da marinha. O sargento Rodrigues tinha fama de grande bebedor. E físico também. Dotado de uma barriga proeminente e corpo volumoso, ninguém o batia quer na quantidade quer na rapidez com que, de um só trago, engolia cerveja após cerveja. O único que lhe conseguia dar luta era o chefe França. Contava-se que um dia, no Mugamba, ao pequeno-almoço, os dois, sentados sobre um banco, comeram trinta ovos estrelados e beberam duas grades de cerveja (o equivalente a 48 garrafas). Não consta que tenham sofrido qualquer indigestão ou perdido o apetite para o almoço, mas ficou demonstrado que o corpo franzino do França pedia meças a qualquer alarve encartado.
A delegação da omnipresente DGS era constituída apenas por dois agentes que ocupavam uma casa próxima do kimbo dos "flechas", no mesmo lado da PSP. Chocava-me a qualidade da “vivenda” dos pides que, por comparação, transformava as instalações da PSP num barracão de lata. Os Pides, com quem não foi difícil conviver, tinham uma actividade invisível. Muitas vezes me perguntei o que faziam ali aqueles dois elementos, para além de desaparecerem, de quando em vez, dentro de casa, por largas horas. Provavelmente apenas gozavam a sesta, fugindo ao calor tórrido. Contudo, diziam alguns, que a casa possuía umas catacumbas onde se dedicariam a actividades ultra secretas, histórias em que nunca acreditei, por me parecer inverosímil a existência de catacumbas. Creio que o resultado das suas investigações seguia secretamente para Serpa Pinto, retornando, via Cuito Cuanavale e desaguando em Mavinga e Neriquinha, até chegarem às bases sobre a forma de operações que a tropa tinha de cumprir, na demanda do inimigo que não se deixava ver.
Junto à entrada do Rivungo, no cimo de um suave declive que levava ao rio, estavam implantadas as instalações do Destacamento de Marinha do Cuando. Nunca imaginei que pudessem existir marinheiros onde não havia mar. Mas assim era. Mais ou menos uma dúzia, parte dos quais fuzileiros navais, logo tropa especial. Comandados por um tenente, o grupo incluía ainda um sargento e um cabo. Tinham por missão patrulhar o Rio numa extensão que podia ir desde a Neriquinha Velha até ao Luiana, seguindo o caudal preguiçosamente sinuoso do Cuando. Para o efeito, dispunham de uma LDP (Lancha de Desembarque Pequena) que para ali fora transportada aos bocados e montada no local. As LDP’s são lanchas de desembarque, de fundo chato, possibilitando a navegação em águas pouco profundas, o que, não sendo o caso do Cuando, sempre facilitava o acesso a zonas fora do caudal principal. Para isso, a proa era basculante, permitindo o desembarque de tropas numa acostagem de frente para as margens. Esta, talvez por erro dos soldadores ou decisão de natureza táctica, não tinha essa funcionalidade. Na operação de junção das partes, soldaram também a rampa de desembarque.
Dispunham ainda de um pequeno bote a motor que permitia pequenas incursões militares e que se utilizava para alguns passeios até à Missão ou para percorrer os labirínticos recantos do Cuando. O local não fora escolhido por acaso. Era um ponto estratégico em que o
caudal principal do Rio abandonava o seu território pantanoso e tocava terreno firme. Aí ficavam amarrados, a LDP e o bote. Aquela curva do rio permitiu também a montagem de uma tábua, fazendo a vez de prancha de salto. Ali tomávamos banho, com um ritual simples. Mergulhava-se, nadava-se para a margem para passar demoradamente sabonete pelo corpo. Um segundo mergulho retirava o sabão e só depois é que se desfrutava daquela espécie de resort, dando umas braçadas, mas procurando não desafiar a corrente que, a alguns metros da margem, tinha força mais do que suficiente para vencer a nossa resistência de nadadores amadores.E assim, todos os dias, fato de banho vestido, toalha sobre os ombros e chinelos nos pés, percorríamos a distância que nos separava das instalações da marinha, para o banho diário, dispensando-se a utilidade do balde que equipava a casa de banho.
A verdadeira população do Rivundo, era a que habitava os dois Kimbos. Um deles, o que se espraiava em frente à marinha e constituído por palhotas alinhadas, albergava a população Ganguela, a maioria autóctone daquelas paragens. O outro, que exibia umas cubatas desalinhadas e improvisadas, era habitado exclusivamente por uma das etnias mais características do sul de Angola e ocupava o espaço por detrás da sede da DGS. Os Bosquímanos (corruptela da palavra inglesa Bushmen) gente pequena, com aspecto de garotos e idade impossível de adivinhar, congregavam um povo essencialmente nómada, que a guerra obrigou à sedentarização. A Pide-DGS, aproveitou o seu espírito guerreiro, recrutando as suas tropas (os Flechas) entre os homens deste povo que comunicavam entre si usando um dialecto impossível de imitar e de perceber. Falavam por estalidos produzidos pela língua, como os garotos a brincar.
A apresentação da localidade não ficaria completa sem a referência ao aeródromo e à Missão. Relativamente ao aeródromo ou pista (qualquer dos termos é exagerado) não passava de um espaço, no meio do mato, afastado cerca de 2 km do Rivungo, que se procurava manter desarborizado. Ali aterrava duas vezes por semana (terças e quintas) um pequenino avião da TASA (Transportes Aéreos do Sul de Angola) que nos trazia o que de mais precioso tínhamos para receber - o correio. Iria decorrer mais de um ano até que fosse construída uma pista a sério. De terra batida sim, mas extensa e logo ali, no limite do Kimbo. Até lá manteve-se a correria, em cima de um pequeno Unimog que acelerava saltitante pela picada, procurando chegar à pista antes da aterragem. Era necessário garantir a segurança da pista e receber notícias de casa. Quanto à Missão, pouco mais era do que uns restos de ruínas de umas instalações de missionários, cuja memória se perdera no tempo. De qualquer forma, o local aprazível, localizado na margem do Rio, a cerca de 2 ou 3 km, convidava a uma visita. Ali não havia nada, mas se alguma vez decidisse fazer vida de Robinson Crusoé, seria aquele o local onde assentaria arraiais.

