terça-feira, 10 de março de 2009

Um tiro na noite

Não fui um militar convicto. As fardas, a obediência cega, mesmo a ordens sem sentido, nunca foram coisas que casassem com a minha maneira de ser. Cumpria as regras. Afinal, estava ali de passagem e criar problemas não me parecia uma atitude inteligente. Particularmente detestável foi o tempo de instrução, não obstante considerar que era sempre útil aprender fosse o que fosse. Dizia o meu pai, copiando um dito popular, que o saber não ocupa lugar. Assim, captava os ensinamentos que outros transmitiam, dando especial atenção a tudo o que considerava poder vir a ser-me útil.
Respeito todos aqueles que, com honestidade, competência e alguma humildade, procuraram desempenhar o papel em que tinham sido investidos, mas irritava-me particularmente o ar autoritário e a atitude de alguns instrutores que, lá do alto do seu efémero pedestal, ensaiando uma pose bacoca de lentes que não eram, soltavam balelas e trivialidades com ares de bazófia, arrogando-se em mestres de técnicas e estratégias de uma guerra onde nunca tinham estado.
Aprendemos assim as teorias do preparar e reagir a uma emboscada, dos truques da queda na máscara e outras manobras de defesa e ataque, passando-se depois à sua aplicação prática. Os ensaios decorriam no terreno mais à mão, escolhendo-se o cenário mais adequado para repetir vezes sem conta as cambalhotas e as quedas na máscara, caindo de joelhos, ao mesmo tempo que se deixava tombar o corpo, de forma a ficar exactamente por detrás da moita (a máscara). Frequentemente acertava-se com um joelho numa pedra, a coronha da G3 partia-se, caía-se em cima da máscara ou ficávamos perigosamente afastados da dita. Se a queda corria bem, vinha a seguir a atrapalhação com a arma. Não se encontrava posição, a mira ficava fora da vista, não se sabia para onde apontar e normalmente não se conseguia descortinar o inimigo.
- Seus lerdos
Berrava o instrutor.
- Se fosse a sério, com essa lentidão, já estavam todos mortos.
Sentenciava.
Felizmente, nesta guerra de brincar, não era preciso disparar, pelo menos com bala real. Lembro-me que, certa vez, um alferes, pequenino, com ares de atleta e postura de guerreiro, quis fazer uma demonstração. Carregou a G3 com munições de salva, tomou pose de ataque, atirou-se para o chão via cambalhota em frente seguida de uma meia queda na máscara e começou a rebolar para um lado e para o outro, como se evitasse ser atingido pelas balas do inimigo imaginário, ao mesmo tempo que disparava sempre que entendia tê-lo na mira.
Assisti boquiaberto àquela cena. Tenho a certeza que em momento algum, o destemido militar sabia para onde estava a disparar. Se a arma estivesse carregada com bala real, tinha acertado em si mesmo umas duas ou três vezes e nenhuma, no que quer que pudesse ser considerado inimigo.
- Filmes a mais! Pensei.
Mas muita coisa valeu a pena, especialmente se tivermos em atenção que, quer quiséssemos quer não, estávamos a ser treinados para a guerra. A preparação física era uma delas, o manuseio das armas era outra, complementada com o conhecimento específico das suas manias e truques.
Detestava particularmente o salto do Unimog em andamento. Tinha que ser feito segurando a arma com as duas mãos. Ao atingir o solo, era projectado e nunca conseguia controlar a queda. Magoava-me quase sempre.
A verdade é que, durante os 26 meses que andei por terras africanas, nunca tive necessidade de fazer a queda na máscara, de dar uma cambalhota, rastejar ou outra qualquer das habilidades que pratiquei com tanto denodo. Excepção para o salto da viatura. Executei-o uma única vez. Uma excepção.
Assim, de entre as estratégias definidas para a missão da companhia, contava-se a importância em manter uma presença em toda a área. Tínhamos de nos tornar visíveis. Mostrar que não nos quedávamos pelo conforto do aquartelamento. Para além do mais, era importante manter as picadas abertas, reabrir as que as chuvas faziam desaparecer, abrir outras e mostrar à população a nossa presença.
Numa dessas missões, fui incumbido de percorrer um determinado itinerário. Comandaria um grupo de dez homens (dois condutores incluídos) montado em dois pequenos Unimogs 411. Importava principalmente cobrir a zona de picada que ligava o Demba ao Caxoxo. Havia-nos sido dito que a companhia anterior nunca por ali passara e era necessário verificar o estado da picada. Reavivá-la, se fosse caso disso.
O Demba era o último dos Kimbos no trajecto que vinha da Neriquinha e por isso, visitado amiúde pelas colunas de reabastecimento. O Caxoxo ficava no términus da picada que daqui seguia para o interior e só era visitado em missão de patrulhamento ou de passagem para as zonas de caça, mas normalmente seguindo a picada que o ligava directamente ao Rivungo, nunca por ali.
Os dois Unimogs, apelidados carinhosamente de “burros do mato”, venceram penosamente o percurso até ao Demba, numa marcha saltitante e desconfortável, com paragens frequentes para abastecer os radiadores, única forma de compensar o aquecimento excessivo dos motores.
O percurso até ao Caxoxo foi mais fácil. Com efeito, em alguns sítios a picada quase desaparecera. A areia reocupara os sulcos que a definiam, implicando um menor esforço das viaturas. Foi possível rodar em 2ª e em alguns troços conseguiu-se engrenar a terceira velocidade. A picada ia assim ficando para trás, como que reavivada. Contudo, seria preciso passar por ali mais vezes. O peso dos Unimogs não era suficiente para definir um sulco que não desaparecesse com a próxima chuvada.
A noite já se anunciava quando nos despedimos dos PSP’s do Caxoxo e iniciámos a última etapa, agora já de regresso a casa. Era uma picada que já conhecíamos, sinuosa, percorrendo uma área arborizada de terreno arenoso, bem visível na profundidade do sulco marcado pelos rodados das viaturas, impondo um andamento lento, por entre a densa noite sem luar que cobria totalmente a mata circundante.
As viaturas seguiam, uma atrás da outra com um razoável intervalo de segurança. Eu seguia na da frente, na que era conduzida pelo Comandos. Magro, mas de porte atlético, o Figueiredo ganhara a alcunha de o Comandos pelo facto de, na instrução, ter andado por Lamego, em cujo quartel se formavam as tropas especiais. Era um militar muito activo e sempre disponível para uma missão, especialmente se se tratasse de uma incursão de caça. Conduzia com mestria quer a corta mato quer pelas difíceis picadas de areia, conseguindo obter maior rendimento dos pequenos Unimogs, minimizando com oportunos aconchegos de travão, o desconforto dos contínuos saltos que a precária suspensão da viatura agravava.
Do segundo Unimog, apenas se divisava, lá mais atrás, a luz saltitante dos faróis, ora mais intensa ora desaparecendo ao sabor dos meandros caprichosos da picada.
Seguíamos assim descontraídos, embora, por hábito, as armas estivessem a postos, bem agarradas, com excepção da do condutor. A arma do Comandos seguia presa a um dispositivo para o efeito montado na frente, no local onde normalmente estaria o pára-brisas, que ali não se usava. Era um dispositivo engenhoso e ao alcance do condutor. Prendia a G3 sob pressão, bastando puxá-la com força para se soltar.
De repente, no meio da noite, inesperadamente, soou um tiro. Isolado, seco, perturbador. No segundo seguinte, ainda o som do disparo ecoava nos meus ouvidos, dei por mim deitado no chão, arma aperrada, apontando o negrume da noite. Olhei à volta. Todos estavam igualmente deitados no chão, em pose defensiva.
O Comandos também. De uma forma que nem o próprio conseguiu explicar depois, quase foi mais rápido que eu. Num ápice, apagou os faróis, desligou o motor, sacou a arma da geringonça e atirou-se para o chão. Tenho a certeza que se se tivesse tratado de um exercício, não teria sido tão rápido. Efectivamente, o instinto de preservação leva-nos a fazer coisas de que nunca pensaríamos ser capazes. Pelo menos nunca ensaiáramos nada parecido.
Perscrutámos em redor trespassando com o olhar a parede negra da noite à procura de qualquer movimento, sondando o silêncio à caça de um restolhar. Nada aconteceu. Nem um som ou movimento. Nada, ninguém. Decididamente não se tratava de uma emboscada.
- Será que atacaram a outra viatura? Pensei.
Procurámos na escuridão, projectando a vista através da espessa noite. Ao longe, o som familiar do motor do Unimog em esforço, acompanhava o risco de luz dos faróis dançando por entre as sombras do arvoredo. Aproximaram-se.
- A viatura foi abaixo?
Atreveu-se a perguntar um dos soldados.
- Não, ouvimos um tiro e desliguei o motor.
Respondeu o Comandos com simplicidade.
- Foram vocês que dispararam? Perguntei.
- Sim, vimos uma cabra do mato, mas não lhe acertámos.
Respondeu um deles.
Não me deu para ralhar. Afinal, era hábito atirar-se à caça. Na noite, os seus olhos pareciam pequenas luzinhas e se tivessem acertado, teríamos mais um petisco do Máquina em perspectiva - cabra do mato no forno.
Afinal, não fora uma emboscada, nenhum ataque ou acção de um qualquer sniper. Apenas um susto. Creio no entanto que a solitária cabrinha do mato terá apanhado um susto maior.
Enquanto se vencia a escassa meia hora de caminho que faltava até ao Rivungo, matutava sobre a nossa reacção. Uma tropa de elite não teria reagido melhor. Tanto joelho esfolado na instrução e afinal nada do que nos ensinaram foi ali aplicado. Lembro-me bem. Os Unimogs usados na instrução não possuíam aquele dispositivo para segurar a arma do condutor e nunca ninguém me disse que o motor deveria estar em silêncio. Creio que também nunca alguém se lembrou da conveniência em desligar faróis. É que, todos os exercícios haviam sido executados em plena luz do dia e o condutor não fazia parte deles.
Ainda assim, não posso censurar os autores dos manuais. Não me parece que os mesmos pudessem prever que uma cabra do mato seria capaz de pôr à prova o instinto de sobrevivência de um ser humano.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O PALÚDICO

Durante toda a fase de instrução militar que antecedeu a mobilização para África, fomos sendo sistematicamente injectados com uma variedade de antídotos contra doenças e outras maleitas. Bem barafustávamos, especialmente naquele fim-de-semana prolongado totalmente estragado em consequência da ressaca resultante da inoculação da dose, chamada de cavalar que, não se sabendo exactamente o que era, se dizia constituir um cocktail de drogas que nos imunizaria contra todas as pragas.
Na fase que antecedeu o embarque para África, o reforço da vacinação visava tornar-nos imunes às conhecidas doenças tropicais, especialmente a doença do sono e a temível malária (ali chamada de paludismo) combate este que continuou, uma vez instalados nas Terras do Fim do Mundo. A doença do sono era prevenida com inoculações trimestrais, enquanto o paludismo obrigava à ingestão diária de comprimidos de resoquina.
Quanto à doença do sono e não obstante a região ser abundante em mosca tsé-tsé (principal veiculo de transmissão da doença) a verdade é que ninguém da companhia foi infectado. Já quanto ao paludismo a história é diferente. A resoquina apenas se revelou eficaz para muito poucos. A maioria apanhou a doença e muitos deles mais do que uma vez. Creio que a grande abundância de mosquitos conseguia inocular o vírus a um ritmo superior à capacidade de combate do medicamento. Provocando febres altas, castigava o corpo, levando ao delírio e incapacitando gente na força da idade, debilitando-os por largos períodos de tempo.
Eu, ou porque mais resistente ou porque em mim o medicamento era eficaz ou talvez porque o tomava sempre, nunca fui contagiado, não obstante a quantidade de vezes que era picado. No aquartelamento, estávamos mais ou menos protegidos pelas redes mosquiteiras, montadas em todas as portas e janelas e individualmente em cada cama, numa imitação grosseira de dossel. Na mata, à noite, a falta da rede protectora deixava-nos à mercê de hordas de mosquitos gulosos e anafados que, provavelmente fartos da pele tostada, ressequida e dura dos ganguelas, se banqueteavam sugando-nos o sangue, indiferentes aos cremes repelentes com que nos besuntávamos.
O Duarte era uma vítima especial, ficando de cama com mais frequência do que qualquer outro. Não porque se expusesse mais ao mosquitame, mas provavelmente porque era mais vulnerável ou então, imune à droga.
Pouco dado às regras militares, o Duarte era daqueles furriéis que não agradava às hierarquias. O Alferes Fausto, cumpridor das normas, disciplinado e disciplinador, talvez por ter um grande coração e dose cavalar de bom senso, não criava conflito, gerindo a bandalheira do Duarte com bonomia. Preferia ignorar, até porque o Duarte não era indisciplinado ou rezingão. Era talvez preguiçoso e pouco dado aos atavios que apelidava de “merdas da tropa”.
Apreciava cerveja, fumava muito, talvez em excesso e tinha uma predilecção por rock, dando preferência aos rebeldes da música americana de então. Idolatrava especialmente Jim Morrison e Janis Joplin e escarnecia de todos os que não considerava dignos de serem integrados no grupo dos iluminados. Exagerando a caricatura, cantarolava com voz de falsete as canções proscritas, encenando poses ridículas e caretas de bobo, para dar maior dimensão ao desprezo que lhes votava.
Certo dia, na Neriquinha, na camarata dos furriéis, completamente toldado pelo álcool, deu-lhe para o melodrama. Passava então na rádio uma das canções da Janis Joplin. Uma daquelas conhecidas … Me and Bobby McGee ... ou talvez outra, a puxar mais ao sentimento, provavelmente A Woman Left Lonely. Não me lembro exactamente. Mas a nostalgia bateu-lhe forte e despertou sentimentos. Lançou então, numa voz entaramelada e chorosa, um lamento lancinante que ainda hoje é recordado:
- Oh, Janis, Janis … porque morrestes?
Sem jeito para a tropa, sem jeito para cumprir ordens e menos jeito ainda para as dar, o Duarte era, no entanto, um receptáculo de doenças. Poucos acreditavam que ele sofresse de facto de algumas delas. Contudo, era certo que, se levasse a mão à testa e entendesse que estava com febre, nada o demovia da ideia. Se não estivesse, a ansiedade que gerava enquanto percorria a distância que levava à enfermaria, era suficiente para lhe subir a temperatura. Quando acabava de chuchar no termómetro, este marcava quase sempre 39º. Mas se não lhe ocorria sentir que estava doente, passava tempos sem que a febre por encomenda surgisse. De qualquer forma, a frequência com que a febre subia, fosse ou não culpa do paludismo, marcou-o para sempre. Foi apelidado de “O Palúdico” e creio que ainda hoje é recordado como tal.
Certo dia, no Rivungo, queixou-se. Nessa altura com fundamento. Apanhara paludismo, de verdade. E o termómetro confirmou-o. Creio que o facto de estar no Rivungo (só havia médico na Neriquinha) gerou pânico na sua cabeça, contribuindo para agravar mais ainda o seu estado de saúde. Sim o Duarte era hipocondríaco. Em último grau. Mesmo em excesso. Eu, pelo menos, nunca conhecera alguém assim.
O enfermeiro, que costumava dormir sozinho na enfermaria, diagnosticou que o seu estado recomendava cuidados. Entendeu assim ser preferível que o Duarte dormisse na enfermaria. Ali sempre estaria sob sua vigilância. Arrependeu-se. O palúdico não o deixou dormir cinco minutos seguidos. Durante toda a noite foi desfiando o catálogo das doenças que conhecia. Sempre que sentia um arrepio, uma dor, mesmo que pequena, associava sempre a sintomas de doenças que retirava do fundo do seu arquivo de maleitas. Um tremor ou uma contracção muscular, era tétano, um bocejo foi associado a doença do sono e uma batida mais forte do coração era um ataque cardíaco. Até sentiu que os ossos tinham perdido a rigidez, atribuindo isso a outra doença grave.
- Franqueira! Ajuda-me ... estou em delirium tremis!
Gemia, implorando os cuidados do enfermeiro.
Só não nomeou coisas pequenas como mau-olhado, panarícios ou pêlos encravados.
Quando a manhã nasceu, com olheiras de meter medo, o enfermeiro maldizia a ideia que teve em o transferir para a enfermaria.
- Este cabrão até nomeou doenças de que eu nunca tinha ouvido falar.
Lamentou-se.
O Duarte cumpriu a primeira comissão de três meses no Rivungo e ainda se manteve durante outros tantos na Neriquinha. Contudo, ou porque já não tinha defesas ou porque já era receptivo à doença, o paludismo visitava-o amiúde. Acabou por ser evacuado para o Cuito Cuanavale e não mais regressou, cumprindo o resto da comissão junto do comando de batalhão.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A perseguição

... continuação da história anterior
A chegada da tropa ao Mugamba, embora demasiadas horas depois do ataque, descontraiu os agentes da PSP. Respiraram fundo. E a população também. Pelo menos foi o que me pareceu, não obstante o drama visível nos queixumes e no sobressalto que pairava no ar.
Fizeram-se os necessários reconhecimentos. O monte de cápsulas vazias por detrás da vedação do curro, denunciava a trincheira improvisada dos atacantes. Não havia vestígios de sangue. Um leve acidente de terreno formara uma protecção natural contra as balas da guarnição sitiada.
O Alferes retirou do bolso o mapa do terreno. Desdobrou-o, identificou na carta o ponto onde estávamos e procurou adivinhar o percurso da fuga. Cofiou o ralo bigode, coçou a cabeça por sob o quico, aconselhou-se com os dois polícias e conferenciou com os furriéis. Urgia dar início à perseguição, contudo, não seria aconselhável embrenharmo-nos naquela mata apenas confiados no mapa da região. Por ali apenas existiam carreiros que conduziam às zonas agrícolas disseminadas pelas redondezas. O mapa indicava um ou outro e não era certo que ainda existissem. Mesmo que assim fosse, o mais provável era já não seguirem a direcção traçada no mapa. As chuvadas tropicais eram intensas e apagavam facilmente qualquer pequeno carreiro sobre a areia solta. Assim, a opção mais segura e obviamente mais sensata, era levar um guia. Alguém que conhecesse bem as matas e soubesse orientar-se por métodos diferentes daqueles que aprendêramos.
Metemo-nos a caminho atravessando a aldeia por entre as cubatas, em direcção ao trilho que se divisava à entrada da mata, no outro lado do pequeno descampado que separava a zona arborizada do perímetro do aldeamento.
Durante algum tempo seguimos o trilho arenoso que serpenteava por entre as árvores, óbvio caminho utilizado diariamente pela população nas suas deslocações para os seus afazeres diários. A princípio, em ritmo acelerado mas esmorecendo pouco a pouco, à medida que o cansaço baralhava os músculos e descoordenava a respiração, já de si dificultada pelo intenso calor.
A ideia era seguir as pistas deixadas pelos guerrilheiros. Contudo, não me pareceu que aqueles sinais fossem claros a esse ponto. O terreno era de areia solta, fofa, cansativa, cedendo facilmente sob os pés. A vegetação escassa e as árvores espaçadas. Não havia morros, pedras ou acidentes de terreno e até as plantas rasteiras eram tão resistentes que nem se ressentiam ao serem pisadas. Na verdade, cheguei a pensar que aquele carreiro não era mais do que o rasto deixado pelos que iam na frente. A certa altura, a linha que seguíamos desapareceu totalmente e com ela as pistas.
Dez minutos de descanso, apenas o tempo suficiente para retomar o fôlego, reiniciando-se a marcha, perseguindo uma direcção indefinida. Os cenários sucediam-se, iguais aos anteriores. As mesmas árvores, a mesma vegetação, as mesmas chanas, a mesma planura, o mesmo sol, as mesmas moscas, pequeninas como mosquitos, quais satélites à volta da nossa cabeça, atascando-se no copioso suor, entrando pelas narinas, sugadas pelo respirar ofegante, ou descendo até à garganta juntamente com o fino pó levantado pelo arrastar penoso dos pés sobre o terreno ressequido. Apenas as costas do guia pareciam constituir um ponto a alcançar, sempre a fugir à nossa frente, num ritmo imparável, impossível de secundar. Só o Alferes Fausto, qual locomotiva, como que rebocando os seus homens, parecia conseguir acompanhá-lo.
A ordem para parar caiu que nem uma bênção. As pernas trôpegas, inconscientes, com os músculos desobedecendo às ordens do cérebro, já mal podiam com o corpo. O saco com as rações de combate, não obstante já aliviado das latas do almoço, parecia ter aumentado de peso. O cinturão, carregado com o peso do cantil, cartucheiras e granadas, massacrava a anca, tornando-a dorida. Apenas a G3 parecia não pesar. Encostei-me a uma árvore e deixei-me escorregar deslizando as costas pela casca rugosa até o rabo encontrar o chão. Deixei-me ficar, procurando recobrar o fôlego enquanto maquinalmente levava o cantil à boca, sorvendo um pouco da água que ainda restava.
Espojados por aqui e por ali, estendidos ou recostados nos troncos das árvores, aproveitando a escassa sombra das poucas copas mais densas, lutando contra o bando de insectos que não nos largavam, procurávamos recobrar o fôlego e retemperar forças.
Dei por mim a cogitar sobre as capacidades físicas daqueles homens para uma perseguição tão desigual. Brancos, europeus, a desafiarem a inclemência de um clima a que não estavam habituados, em locais inóspitos, desconhecidos, anormais, perseguindo um bando de gente que ali nasceu e nunca conheceu outros ambientes. Para eles, calor, areia, sol, chuva, noite ou dia, era tudo o que conheciam. E isso era visível na resistência e ágil desenvoltura do guia, deambulando de cá para lá, fresco, sem ponta de cansaço. Apenas o suor a escorrer-lhe da testa evidenciava o efeito do calor e do esforço, em nítido contraste com uma tropa esfrangalhada, morta de cansaço. Para mim isso era a prova de que o inimigo já estava longe, não tendo a tropa condições físicas para os perseguir. Se naquele momento nos caíssem em cima, riam-se primeiro e dizimavam-nos depois. Olhei à volta, desconfiado. Contudo, não divisei nada de suspeito por detrás dos escassos arbustos circundantes.
Entretanto, caíra a noite. O local não fora escolhido de propósito. Abancámos ali porque de noite não era possível avançar. Ordens sussurrantes definiram as escalas de sentinela, cada um se ajeitou o melhor que pôde e engoliu a ração feita jantar. A maioria adormeceu na posição em que estava. Estiquei-me no chão, cobri-me com o poncho. O calor apenas apertava de dia. Adormeci quase de imediato embalado por um coro de ruídos apenas audíveis no meio do silêncio da noite que pintara de escuro denso a mata até então luminosa.
Acordei. Não sei bem se por efeito de um qualquer barulho, ou se com a luz do sol que prometia outro dia infernal. O meu relógio ainda não marcava 5 horas da manhã. Por ali o sol nascia cedo, madrugando, como se tivesse pressa ou com muito que fazer. Uma lata de leite com chocolate acompanhado de duas ou três bolachas compuseram um pequeno-almoço que aliviou o peso do saco sobre os ombros. Apertei o cinturão e preparei-me para iniciar a marcha.
Entretanto, o guia descobrira, escondidas debaixo de uma folhagem rasteira, umas bagas amarelas, pequenas, pouco maiores que ervilhas, porém doces, saborosas. Mais além um arbusto, carregado de frutos avermelhados. Pareciam abrunhos, mas o arbusto não. Sabiam bem, embora ácidos, talvez em demasia, mas matavam a sede. Intrigou-me uma árvore enorme, semelhante a todas as outras. Esta, contudo, exibia frutos reluzentes. Pareciam laranjas, quer na cor quer no tamanho. Porém, a casca, lisa, era rija, diria lenhosa. Partida, como se de um coco se tratasse, deixava ver, no seu interior, uma polpa castanha envolvendo sementes do tamanho de avelãs. Era extremamente doce e agradável ao paladar.
- Maboco! Explicou o guia partindo um com ajuda da catana.
Fiquei cliente, até porque permitiu desenjoar das rações enlatadas que transportava.
Seguíamos agora em direcção ao Rivungo, a corta mato, numa marcha cada vez mais sofrida, aniquilando as forças, diminuindo o ritmo e retardando a marcha. A cada nova pergunta, o guia respondia: - É já ali.
Procurávamos o ali, alongando o olhar por entre as árvores, na vã esperança de divisar ao longe a silhueta familiar do aquartelamento. Acelerava-se o passo, num esforço roubado às últimas reservas de energia. Mas o já ali, repetido pelo incansável guia, não aparecia.
Passava do meio-dia. O calor tórrido associava-se ao cansaço, vencendo a última resistência de uma tropa à beira do esgotamento e desidratação. Mais uma paragem, desta feita mais longa. Aproveitámos para comer. O Rivungo era já ali, mas havia que retemperar o corpo. Debalde, a paragem arrefeceu os músculos e alguns (eu incluído) não conseguiram arranjar forças para avançar.
Os mais resistentes (ou mais bem preparados) continuaram. Os outros ficaram ali, esticados sob as ténues sombras de copas tímidas, aguardando que uma viatura os viesse resgatar. Fiquei a ver o grupo desaparecer por entre a mata, rebocado pelo Alferes Fausto, cuja capacidade de resistência me impressionava. Nunca o vi soçobrar perante aquele clima hostil.
O familiar ruído do motor do unimog começou a ouvir-se ao longe. Levantámo-nos. A viatura avançava a corta-mato, contornando as árvores numa lenta gincana. O guia, braço esticado para a frente, sentado sobre a estrutura da carroçaria, pés sobre o assento ao lado do condutor, indicava o caminho. Não errara o local onde nos deixara. Ainda hoje continuo a não perceber como conseguiam orientar-se com tal precisão, num terreno sem pontos de referência.
A tarde ia a meio quando, já recuperados mas com os músculos todos doridos, chegámos ao Rivungo. Vesti uns calções, agarrei no sabonete e mergulhei no rio, uma, duas, três vezes, passando sabonete até sentir que toda a sujidade entranhada saíra.
Nessa noite, mesmo estando no fim do mundo, não obstante a enxerga militar e a precariedade das instalações, experimentei pela primeira vez uma sensação inesperada de conforto e segurança. Após dois dias deambulando e dormindo na mata, um tecto, uma cama e dois lençóis, personificavam o aconchego doce do lar.

domingo, 11 de janeiro de 2009

O ataque ao Mugamba

O dia amanheceu sem novidades. Na verdade, pouca coisa acontecia no Rivungo, para além dos dias se sucederem às noites e estas aos dias. Cada novo dia era igual ao anterior, pastoso, quente, com a temperatura a ultrapassar os 40 graus. As fartas chuvadas, gotas grossas que se evaporavam ao primeiro contacto com o chão sobreaquecido, constituíam uma bênção que apaziguava o efeito das escaldantes ferroadas dos agressivos raios solares. As cantáridas, exibindo a sua cintilante cor verde metálica, quase preto, abundantes na época das chuvas, vagueavam sobre a areia endurecida pela borrasca, aproveitando a fresquidão momentânea do solo, acasalando num indolente e quase estático ritual, permanecendo o macho por longo tempo sobre a fêmea, fazendo jus ao poder que se dizia possuírem. Constava que as suas asas, secas e transformadas em pó, constituíam um afrodisíaco poderoso. Contudo, nunca me apercebi que alguém tivesse sequer tentado experimentar. Por um lado, era perigoso. O pequeno escaravelho segregava um líquido corrosivo que provocava uma queimadura na pele, difícil de sarar. Por outro lado, afastados da civilização e já só retendo uma imagem remota do que era uma mulher branca, a última coisa de que se necessitava era de algo com tal efeito estimulante. Tanto mais que o agradável perfume de mulher, era ali substituído por um odor anti-afrodisíaco que refreava o ímpeto e aconselhava ao recato.
A calma reinante foi abruptamente interrompida pela chegada apressada do Chefe França. Vinha acompanhado do administrador Litenda e de um elemento da população, nitidamente ofegante. Era um mensageiro enviado pelos agentes da Polícia de Segurança Pública destacados no Mugamba, com a missão de comunicar que o Kimbo tinha sido atacado por um grupo de turras.
Nestes casos, competia à tropa sair em perseguição dos atacantes.
- Dar-lhes caça … aniquilá-los!
Sentenciou o Litenda.
No meu ainda pouco conhecimento dos meandros da guerra, pensei para comigo que pouco ou nada haveria a fazer. O mensageiro só saíra do Mugamba quando a sarrafusca acabou, a distância era considerável e o percurso a pé demorado. Mesmo considerando a resistência daquela gente e a facilidade com que percorriam a pé grandes distâncias, era claro que já havia decorrido muito tempo.
- O mais certo é já estarem bem longe!
Alvitrou o chefe França.
No entanto, a estratégia da perseguição teria de ser cumprida. Era preciso que o inimigo soubesse que não podia repetir a graça. Dar-lhes caça e mostrar que estávamos ali, era o mínimo que se podia fazer, caso contrário, tornavam-se atrevidos e ainda acabavam por nos bater à porta.
Em menos de um nada, encontrava-me em cima de um unimog, que acelerava roufenho e saltitante pela arenosa e sinuosa picada que levava ao Mugamba, na vã tentativa de recuperar o imenso tempo que já decorrera desde o ataque. Comandados pelo próprio alferes Fausto, seguia mais de metade do efectivo militar do Rivungo. Haviam sido distribuídas, à pressa, rações de combate para dois dias, o alferes munira-se de um conjunto de cartas militares do terreno, carregáramos o armamento disponível e assim nos lançámos no encalço do inimigo que se atrevera a quebrar a monotonia de um dia que amanhecera quente, mas sossegado.
Levámos mais de uma hora a percorrer a distância que separava o Rivungo do Mugamba, um pequeno kimbo, no meio da mata, cujo isolamento apenas fora minorado porque a picada que vinha da Neriquinha, forçada a um desvio, obrigava as colunas de reabastecimento a por ali passarem. Era constituído por uma escassa dezena e meia de cubatas de capim, dispostas de forma irregular num descampado, cuja população, maioritariamente de etnia ganguela, se dedicava a actividades de subsistência – agricultura rudimentar, criação de meia dúzia de vacas e caça artesanal.
A protegê-las (o termo parecia-me um pouco exagerado), dois agentes da PSP, que por ali sobreviviam, sem terem para onde ir e sem nada para fazer, para além de assistirem ao indolente passar do tempo, tarefa bem mais monótona e menos interessante do que a da tropa. Pensava eu que, tal como nós, estavam ali porque para ali tinham sido enviados. Destacados em missão de soberania. Apercebi-me depois que, muitos deles eram voluntários. Razões económicas ditavam a opção. O vencimento era significativamente superior ao que auferiam na cidade. Logo, se ali estavam, é porque consideravam valer a pena o sacrifício.
O posto da PSP, residência e sede da autoridade, não era mais do que uma cubata de capim, paredes de paus a pique e chão de terra batida, maior do que as demais, mas apenas possuindo uma ampla divisão, onde jaziam duas pequenas enxergas cobertas por uma rede mosquiteira, ornamento fundamental para que um ser humano ali pudesse dormir sem ser devorado pela chusma de mosquitos. A um canto, uma pequena mesa onde descansavam alguns tachos e um petromax para iluminar as noites.
A construção era protegida por uma barreira de terra com cerca de um metro de altura e meio metro de espessura, amparada por duas fileiras de troncos enterrados na vertical, constituindo uma espécie de muralha artesanal a rodear a frágil barraca. A passagem para o interior fazia-se por uma única entrada, a lembrar burladeros em praça de toiros. A sua eficácia ficou demonstrada ao confirmar-se que um tiro de G3, disparado a curta distância, não trespassava a barreira.
Foi esta rudimentar fortificação que, a meio da noite, foi atacada, tendo estado debaixo de fogo durante duas horas, apenas defendida pelos dois elementos da PSP secundados por três ou quatro auxiliares, recrutados entre a população local, ripostando ao fogo inimigo com o escasso armamento disponível: duas G3 e algumas espingardas Mauser.
Resguardados atrás da frágil, mas eficaz muralha, disparavam sobre os atacantes, com comedimento, apontando para um alvo indefinido, apenas orientados pelos fogachos dos disparos inimigos. A reserva de munições não era grande e não era fácil avaliar quantos eram os atacantes, nem até onde estariam dispostos a ir. Ripostavam tiro a tiro, não obstante as G3 permitirem rajadas curtas, o mesmo não se podendo dizer das Mauser que, não sendo armas automáticas, por aí se ficavam. Cada tiro dado implicava a preparação manual para o próximo, naquele repetitivo movimento de culatra atrás, culatra à frente, enquanto houvesse munições.
Aos primeiros alvores da madrugada cessou a fuzilaria. Ou porque se lhes esgotou as munições, ou porque a escuridão deixara de os proteger, os atacantes desapareceram tão de repente como haviam chegado, deixando ilesos os até então sitiados.
Com as devidas cautelas, saíram da fortificação, procurando avaliar o resultado da escaramuça num reconhecimento pelos arredores. Os atacantes haviam-se entrincheirado atrás da cerca onde a população, durante a noite, guardava a sua reduzida manada de gado. Os animais estavam mortos. Apanhadas entre dois fogos, foram dizimadas pelas balas dos beligerantes, tanto de um lado como do outro.
A contenda não vitimou ninguém. Nem um único arranhão em quem quer que fosse. Também não visou a população. Contudo, foi esta que sofreu o maior prejuízo. Ficou sem o seu mais valioso bem patrimonial e principal símbolo de riqueza. As vacas.
Quanto aos dois agentes da PSP, fomos encontrá-los abalados e com a moral em baixo. Descontraíram com a nossa chegada, mas nunca mais dormiram tranquilos durante o resto do tempo que durou a sua missão naquele pedaço esquecido de fim de mundo.

...Continua em "A perseguição"...

domingo, 14 de dezembro de 2008

Natal no Rivungo

O mês de Novembro daquele ano de 1971 ia já avançado quando aportámos àquelas paragens. Na Metrópole (carinhosamente apelidada de Puto) dali até ao Natal seria um saltinho. Naquele fim de mundo, a quadra festiva aproximava-se ao ritmo indolente da calmaria, andamento já de si retardado pela contagem decrescente dos dias, alimentando o desejo sofrido de ver chegado o distante dia do regresso, dando maior dimensão ao longo caminho que ainda havia a percorrer.
Em boa verdade, não creio que alguém se preocupasse com o Natal. Por ali, nada o fazia lembrar e a população local não sabia o que isso era. Sempre associei a quadra ao frio e isso era coisa que ali não havia. Também não havia ruas iluminadas, nem lojas, nem pais natais, cânticos natalícios ou jingle bells. Apenas um dia a seguir ao outro, com a noite de permeio, num território inóspito e desconhecido, infestado de mosquitos gulosos, de tamanho desmesurado, que se engalfinhavam logo que caía a noite, sugando o sangue a quem não se resguardasse por detrás de uma qualquer rede mosquiteira.
Por estas alturas, o exército costumava abrir os cordões à bolsa e recomendava rancho melhorado. Contudo, não se esperava bacalhau para a consoada. Menos ainda rabanadas, bolo-rei, fios d’ovos ou outros acepipes com que, por tradição, nos empanturramos na quadra natalícia.
É estranho! Passei três natais em África, mas apenas me lembro deste, o primeiro e único passado no Rivungo. Dos restantes, não retenho sequer uma pequena recordação, lembrança ou imagem, muito provavelmente porque eram dias normais, iguais a todos os outros. São os desígnios do tempo, que tendem a esconder nos recônditos inacessíveis da memória, factos, histórias e imagens da nossa vida, apenas deixando à superfície flashes isolados que permitem reconstituir, mais uns do que outros, alguns episódios, sem que, muitas vezes, se perceba os critérios selectivos dos neurónios em funcionamento.
Não havendo como festejar, atamancou-se uma solução para cada um dos três principais dias festivos e que passava por reunir toda a comunidade de deslocados num almoço de confraternização que tinha lugar, à vez, nas instalações de cada força. Naquele ano, ficara decidido que o almoço do dia de Natal seria na tropa, o de Ano Novo na Marinha e finalmente, o do dia de Reis, na PSP. Os dois agentes da DGS não tinham condições para o fazer, o mesmo se dizendo do Administrador e do Camassango, pelo que eram sempre, apenas convidados.
O rancho melhorado no dia de Natal, bem se pode dizer que foi obra do Máquina que, sendo uma espécie de ajudante de cozinha, foi, neste caso, ajudado pelo cozinheiro do destacamento, numa autêntica inversão de funções. Não obstante já nos termos apercebido dos dotes culinários do homem, ainda assim, todos se admiravam das suas habilidades. Aquele arroz de frango (digno substituto de um qualquer manjar de Natal) estava divinal.
A frugalidade da comezaina era limitada pela pouca variedade e escassa disponibilidade do depósito de géneros, valendo o almoço pela companhia devidamente animada com o vinho de péssima qualidade, único de que se dispunha e que era fornecido em bidões de 200 litros. Após a abertura do bidão, tinha de ser consumido em poucos dias, já que azedava a uma velocidade imparável, transformando-se rapidamente em ácido acético impróprio para o que quer que fosse. Por mim sempre preferi a cerveja. Era fresca e saborosa, indo melhor com o calor. Por outro lado, ao contrário do vinho, não tinha tempo de azedar. Esvaziada uma, havia logo outra, sempre à mão.
De qualquer forma, o Natal resumiu-se a esta espécie de evento, sem missa do galo ou noite de consoada. A rotina apenas foi alterada no reforço das sentinelas e das rondas nocturnas, não fossem os amigos turras quererem fazer-nos uma visita em tempo de maior descontracção.
No ano novo, o almoço ficou a cargo da marinha e, creiam-me, os rapazes capricharam. Especialmente no acompanhamento alcoólico. O dia coincide com o do meu aniversário e toda a gente sabia disso. Assim, fui transformado numa espécie de dono da festa e todos, tanto dum lado como do outro, fizeram jus à arte de bem receber, pugnando para que nada faltasse à minha frente. As cervejas sucediam-se e a sobremesa foi devidamente acompanhada com meia dúzia de whiskies, mais não sei quê, igualmente alcoólico, que me foram pondo à frente. A mistura, cumpriu o seu dever, dando-me conta disso quando, no fim do repasto, as pernas não obedeceram ao tentar levantar-me.
A tarde ainda ia a meio e, não obstante ninguém estivesse verdadeiramente sóbrio (excepção para o Silva que julgo apenas ter quebrado a abstinência para não fazer a desfeita) entendeu-se que o novo ano merecia outra comemoração. O Tenente, bem bebido, tal como os demais, achou que era engraçado dar uma volta pelas redondezas. Sentou-se ao volante do Land Rover da marinha e fez carregar uma grade de cerveja. Outros três ou quatro bêbados (eu incluído) tomaram também assento e lá rumámos à Missão, não sei bem para quê, já que ali não existia nada que justificasse o raid.
A viagem acabou, pelo menos para mim, na Mahínha, pequeno kimbo que distava do Rivungo uma meia dúzia de quilómetros por uma picada de areia, numa espécie de visita sem motivo, de que apenas recordo ter-me espalhado ao comprido ao tentar apear-me, verdadeiro corolário do excesso de bebida, transformada em cocktail pelas sacudidelas da curta viagem.
Não me recordo do regresso. Acordei, no dia seguinte, com o Alferes Fausto a perguntar pela bandeira. Eram horas de a içar e não estava no lugar do costume. Estremunhado, com a memória entupida, raciocínio atascado e sem vontade de me levantar, balbuciei qualquer coisa. Foi quando, ao virar-me na cama, reparei que estava embrulhado na bandeira nacional. Segundo contaram, no dia anterior, no meio da barafunda, carregaram-me às costas e atiraram-me para cima da cama. Provavelmente, porque a sobriedade não era muita, alguém agarrou no que estava mais à mão, acabando a bandeira verde rubra a fazer de lençol.
No almoço do dia de Reis, servido na PSP, a comezaina decorreu sem incidentes. A recordação de tão insólita festa de aniversário levou-me a beber apenas duas cervejas, em evidente contraste com o anfitrião - o chefe França - que, como não podia deixar de ser, se encarregou da animação, regando-a generosamente.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O Máquina

A imagem preconcebida que todos levávamos das Terras do Fim do Mundo, provavelmente condicionada pelas inúmeras paisagens africanas vistas e revistas em muitos filmes holliwoodescos, compunha cenários de um ambiente selvagem, não apenas no que concerne à fauna e à flora, mas também quanto às gentes que por ali viviam. A realidade encontrada e que aos poucos fomos conhecendo, revelou-se distante da ficção. Era bem mais selvagem.
A maioria autóctone que habitava tão remotas paragens (o povo Ganguela) vivia numa quase pré-história, facto que os rotulara de raça mais atrasada de entre as múltiplas etnias do continente africano.
A chegada da tropa àquelas longínquas terras, veio conspurcar o seu simples modo de vida com tiques de alguma civilização e hábitos europeus que nada diziam àquela gente, para quem, um qualquer pequeno trapo que permitisse improvisar uma tanga, era vestimenta mais do que suficiente. De facto, o frio era pouco e a chuva apenas água que refrescava e lavava corpos seminus sem necessidade de abrigo, o que explicava as simples e acanhadas cubatas de capim e paus aconchegados de lama, que quase só eram utilizadas para os abrigar das frias noites do cacimbo ou quando a chuva, teimando em cair de noite, arrefecia os corpos que não estivessem debaixo de qualquer coisa.
Os hábitos alimentares não primavam por grande variedade. Os frutos silvestres e algumas raízes eram consumidos no local onde eram colhidas e a agricultura apenas se quedava pela produção de milho (talvez a mais vulgar) e massango, uma variedade de sorgo muito popular em África. As correspondentes sementeiras decorriam durante a época húmida, em lavras espalhadas por lugares específicos da mata, normalmente localizados a distâncias razoáveis dos aldeamentos, para onde migravam as mulheres (a mão de obra principal) aí assentando arraiais por longos períodos, cuidando das plantas que cresciam naturalmente, apenas regadas pelas abundantes e frequentes chuvadas tropicais.
Estes dois cereais, uma vez transformados em farinha, representavam a base da alimentação de boa parte da população africana. A tarefa era, uma vez mais, cometida às mulheres, que passavam algumas horas do dia a bater de forma cadenciada, com um grosso pau, as sementes colocadas no fundo de um pilão a lembrar uma espécie de almofariz gigante, obtendo assim uma farinha grosseira, com a qual cozinhavam uma papa dura a que chamavam pirão, que ingeriam a seco, ou então acompanhada de quando em vez por alguns bocados de carne seca. Para além disso, com a fermentação de sementes de massango, produziam ainda uma beberragem alcoólica, com aspecto acastanhado, que não parecia ser muito agradável, pelo menos à vista.
Era uma sociedade patriarcal e poligâmica, na qual a mulher era força de trabalho. A posse, que definia a riqueza de cada um, apenas respeitava aos homens e era medida pelo número de mulheres e de vacas que cada um possuía. Aliás, para além de definir a riqueza, as vacas serviam para comprar mulheres, pelo que, em boa verdade, um homem era tanto mais rico quanto mais mulheres possuísse, já que isso também significava que tinha vacas para a troca. Era a que cuidava da casa, a que cuidava dos filhos, a que cuidava da lavra, as que cuidavam das vacas, etc.. As terras, essas não tinham propriedade. Não sendo de ninguém, eram de todos.
Nesta sociedade machista, a caça era a única tarefa cometida aos homens. Deslocavam-se em grupo para as zonas de caça e por lá andavam por longos períodos. Do que caçavam, comiam no local o que podiam e secavam a parte restante, armazenando reservas mal cheirosas que, no fim da temporada, transportavam para casa, constituindo as escassas proteínas da dieta alimentar daquelas gentes, dieta essa que, ditada pelos costumes, constituía, a meu ver, a razão principal para a inexistência de obesidade entre os Ganguelas.
Foi no seio desta comunidade que o Máquina, nado e criado no Rivungo, se aculturou. Era apenas mais um nativo, com todas as características culturais, sociológicas e fisiológicas dos Ganguelas, até na sua compleição franzina e pele escura, quase carvão, como o era a maioria da população. Muito popular na zona, expressava-se em bom português num discurso desenvolto e nitidamente mais culto, contrastando com os demais, que apenas dominavam dois ou três dialectos locais. O nome, ganhara-o pelo facto de possuir uma velha máquina de costura portátil com a qual, ora costurava as vestes simples daquela gente, ora remendava os rasgões de fardas de tropas, marinheiros ou polícias. O seu atelier resumia-se a uma pequena mesa que instalava sob o alpendre, em frente à porta da enfermaria, sobre a qual colocava, com mil cuidados, aquela maravilha da técnica, dando à manivela com uma mão, enquanto com a outra segurava o pano mantendo-o alinhado debaixo da agulha da geringonça, num sincronizado movimento de artesanal mestre-alfaiate.
Mas a verdadeira habilidade do Máquina era na cozinha. E também na arte da panificação, ficando explicado o pão que, no primeiro dia, apareceu na mesa ao pequeno-almoço. O Máquina, juntamente com um outro da sua raça, mas ainda rapaz, compunham uma dupla de especialistas da panificação que, com a ajuda imprescindível de um forno artesanal, garantiam pão fresco todos os dias, contribuindo para esta particularidade dos hábitos alimentares europeus, num evidente contraste com as rotinas gastronómicas dos Ganguelas.
Mas estas, contudo, não eram as únicas habilidades deste homem para as coisas da cozinha. Na verdade, para quem nunca saíra do Rivungo, os seus dotes culinários, para nossa felicidade e prazer, superavam os do Lourenço que se iniciava na difícil tarefa de alimentar soldados habituados a refilar da confecção, não obstante o curso que a tropa lhe ministrara.
Não sei se os ares africanos me abriam ou não o apetite, mas ainda tenho na memória o fabuloso arroz de frango que o homem preparava. Ou ainda, a deliciosa cabra do mato que, previamente temperada com requintes de chef pelo Máquina, era assada inteira no forno de pão.
Ainda hoje me cresce água na boca perante a lembrança do petisco, contribuindo para elevar as virtudes culinárias desta espécie de costureiro-cozinheiro ao patamar do mistério, se tivermos em consideração que o homem nunca se afastara do Rivungo mais do que as escassas dezenas de quilómetros que separavam a localidade dos kimbos próximos.
Deixei de ver o Máquina.
As comissões no Rivungo duravam três meses, pelo que, passado esse tempo, o meu grupo regressou à Neriquinha, sendo substituído por outro.
Quando ali voltámos, passado mais de um ano, para cumprir outros três meses de comissão, já não pudemos contar com as suas habilidades culinárias. Da pequena máquina de costura também não ficou rasto.
Parece que a PIDE desconfiou do à vontade com que se movimentava por entre a tropa e a marinha. Levou-o para um interrogatório e nunca mais foi visto. Disseram-nos apenas que tinha sido levado para Serpa Pinto.
Ainda hoje não sei exactamente o que motivou as desconfianças da PIDE, mas não me admirava nada que estivessem relacionadas com a evidente diferença cultural que o distinguia dos demais.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O Rivungo

Acordei estremunhado, com a desagradável sensação de que acabara de adormecer. O vozeirão do Silva serviu de despertador e o Alferes exigia o cumprimento dos horários militares. Saltei da cama. Era necessário içar a bandeira e o corneteiro Rogério já estava a postos. A bandeira lá subiu ao poste plantado no canteiro em frente, devagar, como mandam as regras, ao som roufenho da corneta, que o Rogério não era músico e como todos ali, também ele aprendera a sua especialidade em tempo recorde. Creio que foi a primeira e última vez que a solenidade do acto foi cumprida ao som da corneta. O alferes Fausto era homem exigente, disciplinador e cumpridor das regras, mas o seu bom senso sobrepunha-se a tudo. A partir daí, não obstante a bandeira tenha sido içada todos os dias, o acto foi sempre cumprido silenciosamente por quem estivesse à mão, respeitando o horário mas sem aquele rigor austero que caracterizava o formalismo.
A verdade é que a bandeira nacional subiu sempre ao poste, a horas adequadas e nunca lá ficou para além do pôr-do-sol. A corneta, essa, foi doravante deixada em descanso.
O pequeno-almoço estava na mesa. Um cântaro de café, pão e uma fatia de goiabada - compota de goiaba semelhante à marmelada - tudo servido silenciosamente pelo moço da messe, um negrinho local armado em serviçal que herdáramos da companhia anterior e que tinha também a seu cargo o arrumo dos quartos, a lavagem da roupa, a limpeza do espaço e ainda garantir que o bidão da casa de banho estivesse sempre cheio de água que recolhia de um remanso do rio Cuando localizado nas traseiras. Como paga, recebia de cada um de nós uma importância em dinheiro, cujo montante não recordo, usufruindo ainda de refeições gratuitas. Enfim, um luxo, como se costumava dizer. Para ele, a comida era um autêntico manjar quando comparada com o que tinha disponível na cubata que habitava. Quanto ao dinheiro, servia para muito pouco. A lojeca, à beira da picada, na entrada da localidade, propriedade de um velhote já em fim de estação, vendia uns panos e algumas tralhas apenas úteis à população local, mas sem interesse para os miúdos, o que significa que não havia onde gastar o dinheiro.
Não obstante a noite mal dormida e a devastadora jornada dos dias anteriores, os deveres militares e as tarefas do dia a dia obrigaram a um lançar urgente de mãos à obra. Não estávamos ali de férias e a missão de um exército em tempo de guerra tinha as suas exigências. Havia que fazer o reconhecimento do local, definir estratégias, distribuir tarefas e assegurar a preparação do almoço. Por outro lado, a cantina tinha de ser aberta, já que a cerveja e o cigarro eram quase tão importantes como a comida ou a água. Para quase tudo, o alferes Fausto demonstrou que ele era o comandante e não deixou os seus préstimos por mãos alheias. Nomeei o cabo Almeida responsável pela cantina, dei instruções sobre os preços a praticar com base na listagem passada pelos velhinhos, definiram-se as horas em que estaria aberta e assim se iniciou uma nova etapa das nossas vidas, recheada de novidades e sujeita a muitos improvisos, adaptações e ajustamentos frequentes.
A curiosidade em explorar o local sobrepôs-se ao cansaço e à necessidade de dormir, lançando-me decididamente ao reconhecimento das instalações e arredores. O edifício, construído sobre o comprido, incluía, para além da messe, com os seus quatro pequenos quartos (um autêntico luxo naquelas paragens) a cantina, no topo norte, constituída por um pequeno alpendre dotado de um improvisado balcão e a enfermaria, uma divisão estreita, equipada com três camas, uma das quais, a do próprio enfermeiro e outras duas, em beliche, para os doentes que exigissem vigilância mais apertada.
A caserna dos praças e o refeitório, constituindo uma estrutura mais baixa, rematava o edifício, denunciando uma construção posterior encostada ao corpo principal. Separada deste bloco, uma pequena construção, mais recente, albergava o posto de transmissões, onde o Vilela, cabo radiotelegrafista, transmitia e recebia mensagens, utilizando com mestria o velho sistema Morse. Este equipamento era a nossa única ligação com a Neriquinha e com o mundo exterior. Por ali se recebiam ordens e notícias e por ali se pediam instruções e ajuda, se fosse o caso. Na verdade era o único elo de ligação rápido com tudo aquilo que ultrapassasse o perímetro da povoação. Finalmente, um pequeno paiol guardava diversos tipos de granadas e vários cunhetes de munições.
A curiosidade espicaçada pelo aviso feito na noite anterior relativamente ao perigo de queda ao rio, levou-me às traseiras. Afinal, havia alguma razão para tal recomendação, se bem que, exagerada. A cozinha ficava a poucos metros do barranco que caía abruptamente sobre uma espécie de mini praia que se formava na borda de um pequeno lago de águas quietas, ali deixadas em sossego pelo caudal do Cuando, na sua passagem serpenteante por entre os caniçais da chana de alguns quilómetros de largura, terra de ninguém que definia a fronteira entre o território angolano e a Zâmbia, na outra margem. Apenas à noite, se divisava, muito ao longe, umas trémulas luzinhas da pequena povoação zambiana (Shangombo), que se pressupunha albergar o inimigo. A cozinha parecia ser o que restava de algo que, algures no passado, tinha sido improvisado para desenrascar umas refeições, como que a atestar que os arquitectos (militares?) que gizaram o edifício, se esqueceram de a incluir no projecto. Uns paus ao alto, arrumados contra a parede traseira das instalações, suportavam as folhas de zinco que cobriam o espaço, protegendo-o do sol e da chuva. Um murete de suporte aos tachos e panelas permitia enfiar a lenha por debaixo, único material de queima disponível e abundante na mata próxima. Ao lado, um pequeno forno artesanal, explicava o pão que comera ao pequeno-almoço, se bem que não tenha percebido quem o preparou, já que o Lourenço era cozinheiro de fracos recursos e da arte da panificação não percebia mesmo nada.
Não foi preciso sair dali para conhecer as forças vivas que constituíam aquela micro sociedade. Aos poucos, foram chegando para as apresentações: o Administrador, o chefe da PSP, os dois agentes da Pide DGS, o pessoal da marinha e o Camassango. Não levei muito tempo a perceber a importância do bom relacionamento entre estes representantes daquela comunidade e da prontidão com que se apresentaram. O local era pequeno e todos constituíam uma família sui generis, no seio da qual se criaram e desenvolveram amizades verdadeiramente importantes para mitigar o isolamento e compensar a ausência dos amigos e entes queridos. Por outro lado, a união faz a força e todos juntos valiam mais do que cada um de per si.
O primeiro a chegar foi o Administrador do Rivungo, uma figura que faria as delícias de qualquer caricaturista. Magro, talvez de mais, usando uma farda cor de caqui, calça apertada, realçando os genitais, justa pelos artelhos, alongando o sapato e salientando ainda mais a magreza. Pele tisnada pela exposição ao sol, mais escuro que um mulato, embora os traços fisionómicos não confirmassem a miscigenação de raças. Idade indefinida, talvez rondando a casa dos 60. Tinha um olho de vidro, rapidamente identificável e exibia uma careca luzidia que lhe deu o nome pelo qual era conhecido - Litenda - vocábulo que, no dialecto local, significava careca. Acho que nunca soube o seu verdadeiro nome. Na sua presença, tratávamo-lo sempre por Sr. Administrador. Quando ausente, era o Litenda. Na sua apresentação, sem formalismos ou salamaleques, o Litenda mostrou-se um homem vaidoso, muito orgulhoso do seu saber africano e dos costumes e defeitos da populaça que parecia não respeitar muito. Na altura, atribuí a pose a uma encenação para impressionar europeus recém chegados do “puto”. Sempre acompanhado pelo fiel Sipaio, espécie de funcionário administrativo recrutado entre a população autóctone, que o seguia dois respeitosos passos atrás, habitava uma das casas no outro lado do campo de futebol, construído alguns metros à frente das instalações militares.
No Rivungo havia apenas dois arremedos de ruas, semelhantes a picadas (até na sua consistência arenosa) mas bastante mais largas. Uma, que começava em frente às instalações da Marinha, à entrada da localidade, era ladeada à esquerda pelo campo de futebol e à direita por 3 casas, uma das quais a do Administrador, estando desabitada pelo menos uma das restantes. A outra, no topo, correndo na perpendicular a esta, terminava abruptamente na periferia da mata. Dotada de separador central, talvez fruto de ideias megalómanas de quem a projectou, estava permanentemente atolada de areia. Albergava de um lado as instalações da PSP e da DGS e do outro a residência do Camassango, um funciónário para as questões agrícolas, cujas atribuições nunca cheguei a perceber. Mulato, vivia sozinho, mas tinha uma grande facilidade em fazer amizades, pelo que era mais fácil encontrá-lo junto da tropa ou da marinha ou a cavaquear com os elementos da PSP.
As únicas estruturas pré-fabricadas, com evidente aspecto de provisório, eram exactamente a casa do Camassango e em frente, no outro lado da rua, as instalações da PSP. Eram também as últimas estruturas da rua, fazendo directamente fronteira com a orla da mata. A missão da PSP, quer ali, quer em qualquer pequena localidade do interior profundo do território, não era a de patrulhar as ruas. As duas que ali existiam não tinham trânsito; eram apenas acessos. Menos ainda garantir a ordem; o movimento era inexistente e os desacatos que pudessem surgir teriam de ser resolvidos pelas hierarquias (militares ou civis). O posto era apenas a base logística. Os seus agentes estavam distribuídos pelos Kimbos dali dependentes, dois em cada um. Eram comandados por uma personagem muito especial - O Chefe França. Fisicamente, uma fraca figura, o que conferia maior visibilidade ao farto bigode de pontas retorcidas que adornava uma cara esguia marcada pela longa exposição ao sol africano. A sua personalidade era oposta à ideia que se costuma fazer de um polícia.
Era um verdadeiro compincha, o protótipo do pândego e do gajo porreiro, sempre com uma laracha pronta a sair, acompanhada de uma gargalhada a propósito de tudo e de pouca coisa. Passe o exagero, creio que, no primeiro dia, ficou amigo de todos os recém chegados. Por companhia permanente, uma cerveja na mão, dando razão à fama de inveterado bebedor que o perseguia, ilustrada por histórias como as que se contavam da parceria que fazia com o sargento Rodrigues da marinha. O sargento Rodrigues tinha fama de grande bebedor. E físico também. Dotado de uma barriga proeminente e corpo volumoso, ninguém o batia quer na quantidade quer na rapidez com que, de um só trago, engolia cerveja após cerveja. O único que lhe conseguia dar luta era o chefe França. Contava-se que um dia, no Mugamba, ao pequeno-almoço, os dois, sentados sobre um banco, comeram trinta ovos estrelados e beberam duas grades de cerveja (o equivalente a 48 garrafas). Não consta que tenham sofrido qualquer indigestão ou perdido o apetite para o almoço, mas ficou demonstrado que o corpo franzino do França pedia meças a qualquer alarve encartado.
A delegação da omnipresente DGS era constituída apenas por dois agentes que ocupavam uma casa próxima do kimbo dos "flechas", no mesmo lado da PSP. Chocava-me a qualidade da “vivenda” dos pides que, por comparação, transformava as instalações da PSP num barracão de lata. Os Pides, com quem não foi difícil conviver, tinham uma actividade invisível. Muitas vezes me perguntei o que faziam ali aqueles dois elementos, para além de desaparecerem, de quando em vez, dentro de casa, por largas horas. Provavelmente apenas gozavam a sesta, fugindo ao calor tórrido. Contudo, diziam alguns, que a casa possuía umas catacumbas onde se dedicariam a actividades ultra secretas, histórias em que nunca acreditei, por me parecer inverosímil a existência de catacumbas. Creio que o resultado das suas investigações seguia secretamente para Serpa Pinto, retornando, via Cuito Cuanavale e desaguando em Mavinga e Neriquinha, até chegarem às bases sobre a forma de operações que a tropa tinha de cumprir, na demanda do inimigo que não se deixava ver.
Junto à entrada do Rivungo, no cimo de um suave declive que levava ao rio, estavam implantadas as instalações do Destacamento de Marinha do Cuando. Nunca imaginei que pudessem existir marinheiros onde não havia mar. Mas assim era. Mais ou menos uma dúzia, parte dos quais fuzileiros navais, logo tropa especial. Comandados por um tenente, o grupo incluía ainda um sargento e um cabo. Tinham por missão patrulhar o Rio numa extensão que podia ir desde a Neriquinha Velha até ao Luiana, seguindo o caudal preguiçosamente sinuoso do Cuando. Para o efeito, dispunham de uma LDP (Lancha de Desembarque Pequena) que para ali fora transportada aos bocados e montada no local. As LDP’s são lanchas de desembarque, de fundo chato, possibilitando a navegação em águas pouco profundas, o que, não sendo o caso do Cuando, sempre facilitava o acesso a zonas fora do caudal principal. Para isso, a proa era basculante, permitindo o desembarque de tropas numa acostagem de frente para as margens. Esta, talvez por erro dos soldadores ou decisão de natureza táctica, não tinha essa funcionalidade. Na operação de junção das partes, soldaram também a rampa de desembarque. Dispunham ainda de um pequeno bote a motor que permitia pequenas incursões militares e que se utilizava para alguns passeios até à Missão ou para percorrer os labirínticos recantos do Cuando. O local não fora escolhido por acaso. Era um ponto estratégico em que o caudal principal do Rio abandonava o seu território pantanoso e tocava terreno firme. Aí ficavam amarrados, a LDP e o bote. Aquela curva do rio permitiu também a montagem de uma tábua, fazendo a vez de prancha de salto. Ali tomávamos banho, com um ritual simples. Mergulhava-se, nadava-se para a margem para passar demoradamente sabonete pelo corpo. Um segundo mergulho retirava o sabão e só depois é que se desfrutava daquela espécie de resort, dando umas braçadas, mas procurando não desafiar a corrente que, a alguns metros da margem, tinha força mais do que suficiente para vencer a nossa resistência de nadadores amadores.
E assim, todos os dias, fato de banho vestido, toalha sobre os ombros e chinelos nos pés, percorríamos a distância que nos separava das instalações da marinha, para o banho diário, dispensando-se a utilidade do balde que equipava a casa de banho.
A verdadeira população do Rivundo, era a que habitava os dois Kimbos. Um deles, o que se espraiava em frente à marinha e constituído por palhotas alinhadas, albergava a população Ganguela, a maioria autóctone daquelas paragens. O outro, que exibia umas cubatas desalinhadas e improvisadas, era habitado exclusivamente por uma das etnias mais características do sul de Angola e ocupava o espaço por detrás da sede da DGS. Os Bosquímanos (corruptela da palavra inglesa Bushmen) gente pequena, com aspecto de garotos e idade impossível de adivinhar, congregavam um povo essencialmente nómada, que a guerra obrigou à sedentarização. A Pide-DGS, aproveitou o seu espírito guerreiro, recrutando as suas tropas (os Flechas) entre os homens deste povo que comunicavam entre si usando um dialecto impossível de imitar e de perceber. Falavam por estalidos produzidos pela língua, como os garotos a brincar.
A apresentação da localidade não ficaria completa sem a referência ao aeródromo e à Missão. Relativamente ao aeródromo ou pista (qualquer dos termos é exagerado) não passava de um espaço, no meio do mato, afastado cerca de 2 km do Rivungo, que se procurava manter desarborizado. Ali aterrava duas vezes por semana (terças e quintas) um pequenino avião da TASA (Transportes Aéreos do Sul de Angola) que nos trazia o que de mais precioso tínhamos para receber - o correio. Iria decorrer mais de um ano até que fosse construída uma pista a sério. De terra batida sim, mas extensa e logo ali, no limite do Kimbo. Até lá manteve-se a correria, em cima de um pequeno Unimog que acelerava saltitante pela picada, procurando chegar à pista antes da aterragem. Era necessário garantir a segurança da pista e receber notícias de casa. Quanto à Missão, pouco mais era do que uns restos de ruínas de umas instalações de missionários, cuja memória se perdera no tempo. De qualquer forma, o local aprazível, localizado na margem do Rio, a cerca de 2 ou 3 km, convidava a uma visita. Ali não havia nada, mas se alguma vez decidisse fazer vida de Robinson Crusoé, seria aquele o local onde assentaria arraiais.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A Savana - da Neriquinha ao Rivungo


Não houve tempo para explorar a Neriquinha. Para o meu grupo de combate, incumbido de render o grupo destacado no Rivungo, a viagem ainda não terminara. Comandado pelo alferes Fausto e coadjuvado por três furriéis (eu, o Duarte e o Silva) estava já preparado para partir, devidamente reforçado com os necessários especialistas: um cozinheiro, um enfermeiro, um radiotelegrafista, um transmissões, dois condutores e um corneteiro, somando o conjunto, cerca de 30 homens.
Engoli o almoço à pressa, apertei o cinturão, convenientemente apetrechado com cartucheiras, cantil e demais equipamento, agarrei na G3, atirei o saco com as tralhas para cima da berliet, tomei assento ao lado do Duarte, que já se instalara junto ao condutor e sob um sol inclemente, iniciámos a marcha em direcção à clareira que, parecendo dar continuidade à pista, apontava para sul.
As duas berliets rolavam uma atrás da outra, arrastando-se bamboleantes, numa marcha lenta, com os motores em esforço, lutando contra a falta de consistência do terreno arenoso que cedia facilmente sob o seu peso, vencendo penosamente cada metro de picada e sacudindo a sua carga, por efeito das irregularidades do terreno, que a dureza da suspensão não compensava, ameaçando cuspir quem não se agarrasse com firmeza. A picada, nome dado às únicas estradas que por ali existiam, reduzia-se a dois sulcos profundos, abertos pelos rodados das viaturas, num percurso sinuoso pela savana, ora penetrando na mata de árvores de pequeno porte, ora bordejando a zona não arborizada, normalmente alagada, a que os locais chamavam de chana.
Era o primeiro encontro com a temível picada e todo o conjunto envolvente, verdadeira materialização do teatro de operações que, até então, se limitara a uma antevisão imaginária de densas e perigosas matas, onde deveríamos aplicar as técnicas militares aprendidas, desde o rastejar à queda na máscara, passando da cambalhota em frente ao salto de peixe e toda a panóplia de artes destinadas a baralhar o inimigo. A realidade presente revelava-se diferente, onde cada momento, cada troço daquele cenário, constituía uma sucessão de quadros, desenrolando-se à nossa volta e trazendo novas sensações, novidades, temores, êxtase, certezas e incertezas de um mundo desconhecido que, dentro de algum tempo, se tornaria familiar. Nada se parecia com a tenebrosa mata que imaginara, cerrada, ameaçadora, escondendo mil e um perigos. Pelo contrário! Ali, tudo era plano. Nem a mais pequena elevação de terreno, morro ou encosta que pudesse acoitar o inimigo. Quanto à mata, o tipo de arvoredo deixava ver nitidamente a uma distância razoável para o seu interior, reduzindo os meus temores. Apenas o capim me preocupava. Esta vulgar erva africana crescia viçosamente por todo o terreno como seara verde, atingindo com frequência altura superior à de um homem, podendo perfeitamente esconder um mundo de gente sem que se desse por isso.
Esquadrinhava cada pormenor, num misto de curiosidade e apreensão, procurando, por um lado, identificar a eventual ameaça e por outro, desfrutar de um cenário sem igual. Ora tenso, ora descontraído, embora não pensando seriamente na iminência de um ataque, agarrava firmemente a G3, bala na câmara, pronta a disparar, não fosse o diabo tecê-las. Ao meu lado, o Duarte não ia mais descontraído. Pelo menos agarrava a arma com convicção idêntica, muito embora não se vissem condições, no acidentado do terreno, que fizessem lembrar as características que, durante a instrução, aprendêramos a identificar como as que poderiam esconder uma emboscada.
A região, encalacrada entre dois grandes desertos africanos (o Kalaari de um lado e o de Moçâmedes do outro) era marcada pelas suas influências. O terreno, para além de plano, era irritantemente arenoso, definindo uma paisagem de savana que se impunha de forma evidente. Por ali, nem sequer um seixo do tamanho de um caroço de azeitona podia ser encontrado. Quanto ao resto, imperava o clima tropical, caracterizado por ter duas estações no ano: a das chuvas, quente e húmida e a do cacimbo, nome herdado da neblina que, na época seca, invadia a região e que durante a noite, especialmente sobre a madrugada, fazia baixar a temperatura ao ponto de congelar as gotas do orvalho. Aliás, as gélidas noites do cacimbo, contrastando com a canícula que se fazia sentir durante todo o dia, desde a aurora até para lá do ocaso, determinavam amplitudes térmicas impensáveis, próprias dos desertos africanos.
Castigados pelo sol inclemente, empapados em suor, ao qual se colava o pó fininho e escuro que nos envolvia, já levávamos mais de duas horas de sacudidelas por uma picada paralela à chana que, espraiando-se à nossa direita, definia os limites do domínio do rio Cúbia, cujo caudal, disfarçado no meio da vegetação, alimentava o assomo de pântano à sua volta.
As pontes do Cúbia, ponto de referência no trajecto entre a Neriquinha e o Rivungo, constituindo o único local de passagem para a outra margem, não era mais do que um amontoado de terra despejada sobre a zona alagada, formando uma espécie de barreira, no topo da qual, o tempo deixou que se formasse uma picada irregular. Ponte propriamente dita, apenas dois curtos e estreitos pontões em cimento, construídos sobre a única parte em que o Cúbia deixava ver o seu tímido caudal, cujo volume crescia significativamente na época das chuvas. Era a existência destes dois tabuleiros, construídos alguns meses antes,que justificava o facto de o local ser conhecido por pontes do Cúbia, no plural.
Por razões de segurança, (na altura, não descortinei se da ponte, se nossa em caso de ataque) a passagem por este caminho tinha de ser feita a pé. As viaturas passariam vazias e sempre devagar.
A chana do Cúbia, aumentada na sua extensão e povoada aqui e ali de manadas de animais semelhantes a grandes gazelas que pastavam saltitando dentro de água, alargava-se agora do lado esquerdo da picada.
- São songs.
Gritou o condutor, procurando sobrepor a sua voz ao barulho da berliet.
- A sua carne é excelente.
Acrescentou, para de seguida concluir.
- O pior é que só as podemos atingir no meio da água e é quase impossível ir lá buscá-las.
- Há por aqui muita caça?
Perguntei, apenas movido pela curiosidade.
- Sim, muita e variada, mas nesta altura do ano, está enfiada na mata.
- Não percebo!
Retorqui.
- Com as chuvas, há muita erva no interior da mata e os animais não precisam vir comer às chanas, onde normalmente há pasto todo ao ano.
Esclareceu.
Estávamos em Novembro, época das chuvas, não demorando muito até que começasse a chover, assim, de repente, sem aviso prévio e sem pedir licença, uma chuva diluviana, intensa, como se baldes de água fossem continuamente despejados do céu, criando uma cortina de água que apenas deixava ver alguns metros adiante. Em África é assim; num momento, impera um sol abrasador e no momento seguinte, chove a cântaros. Para nos proteger, apenas o poncho, já que, por ali, as viaturas não tinham nem pára-brisas nem tejadilho e até o capô, sobre o motor, tinha sido retirado, como forma de minimizar o seu aquecimento, levado ao máximo pelo esforço necessário para vencer a resistência daquele terreno de areia.
O Duarte, a meu lado, desabafava agastado, por não conseguir acender o cigarro que insistia em não largar mesmo debaixo daquele mundo de água. Até então, fumara cigarro após cigarro, sem os tirar da boca. As mãos, mantinha-as ocupadas a segurar a G3. Quanto ao poncho, um impermeável militar eficaz, apenas nos protegia da cintura para cima. Com a água a escorrer por todos os lados, era como se estivéssemos sentados sobre um charco. Mas isso não era o pior. A água que se ia acumulando no sulco trilhado pelas viaturas, misturada com a areia e lama da picada, era impelida para cima por acção do chapinhar dos pneus e acto contínuo, aspergida contra a nossa cara pelas pás da ventoinha, borrifando-nos generosamente com uma espécie de polme lamacento, com uma frequência irritante.
Caiu a noite, ainda mal vencêramos metade do percurso, transformando a paisagem, num escuro pesado, adensado pela persistente chuva, apenas deixando ver fugidias sombras projectadas pelos faróis.
- Uma emboscada agora, tramava-nos.
Atirou o Duarte, deixando talvez sair o temor que lhe ia na alma.
- Não creio, os turras têm medo da chuva.
Respondi, tentando gracejar.
- Achas? A esta velocidade, basta apontarem um pouco acima dos faróis e acertam-nos.
Insistiu.
- O que eu acho é que, se nós não vemos nada nesta escuridão, eles também não.
Referi, procurando justificar o meu ponto de vista.
- Tanto mais que o Castanheira e os condutores, que já cá andam há muito, parecem perfeitamente descontraídos.
Rematei.
O Castanheira era o Furriel da outra companhia, que fora incumbido de nos levar ao destino e claro, ao volante, estavam condutores dos velhinhos. Na volta, era necessário trazer o pessoal que estava no Rivungo e os nossos ainda não conheciam os itinerários.
Mais ou menos para lá de metade do percurso, uma breve paragem para uma apresentação dos agentes da PSP que, para surpresa minha, tinham por missão a defesa e apoio das populações autóctones que habitavam os três Kimbos por ali localizados: o Liahona, no outro extremo de uma extensa chana alagada, seguido, a uma distância razoável, do Mugamba e finalmente o Demba, pequenos aldeamentos constituídos por aglomerados de cubatas de capim, isolados no meio do mato. A noite, que entretanto caíra, não deixara perceber a insegurança e precariedade em que viviam aqueles agentes da autoridade (dois em cada kimbo) já que a população, vivendo no seu meio e não conhecendo outro mundo, negava-se a dali sair.
Apresentações feitas e concluída a rápida conversa de circunstância, seguiu-se viagem pela picada sinuosa, trilhada pelas berliets que pareciam conhecer o caminho, alcançando-se finalmente o Rivungo já a noite se instalara havia tempo, decorridas cerca de oito horas após a saída da Neriquinha e percorridos pouco mais de 120 Km.
A impaciência, não disfarçada, de quem aguardou o dia inteiro pela nossa chegada, apressou os formalismos da passagem de testemunho e da responsabilidade por tudo o que por ali havia. O alferes encarregou-se de receber o material de guerra, equipamento de transmissões e outras coisas. O Silva conferiu e recebeu todo o equipamento de cozinha e géneros alimentícios armazenados. O Duarte, não me lembro, provavelmente deambulou por ali. Eu fiquei com a cantina, algo surpreendido por verificar que o grosso da existência era constituído por pilhas de grades de cerveja e caixas com tabaco. Tudo o mais se resumia a meia dúzia de artigos e o frigorífico alimentado a petróleo, cuja transferência incluía uma rápida explicação do seu funcionamento e manutenção, que procurei perceber.
- E é se quiseres ter cerveja fresca! Avisaram.
Os velhinhos tinham pressa em partir, não parecendo incomodados, nem com a hora tardia, nem com o tempo ou dureza do percurso, tal era o desejo de sair dali. Conferi a lista pelos artigos que compunham o stock da cantina, assinei a guia de entrega e só algumas semanas depois é que verifiquei que a soma estava propositadamente aumentada em 1000 escudos. Era um truque muito usado nestas passagens de responsabilidade e para as quais não tinha sido alertado. Afinal, eu era um simples atirador de infantaria e não estava previsto ter de me responsabilizar pelo funcionamento de uma cantina onde se vendia tabaco, cerveja e outras guloseimas, para além de alguns artigos de higiene pessoal.
As berliets partiram, engolidas pela noite, levando de volta o grupo rendido, ao mesmo tempo que a algazarra ia esmorecendo, aos poucos, até restar um silêncio absoluto, que me deixou a estranha sensação de ter sido abandonado algures no fim do mundo. A realidade visível, pouco mais era do que um barracão comprido, coberto a folhas de zinco que abarcavam parte do estreito terreiro fracamente iluminado, onde desembocavam as portas que davam acesso à messe, cantina, caserna do pessoal e refeitório.
A escuridão não deixava ver mais. Pela minha parte, não tinha noção do que ficava à direita ou à esquerda, para que lado era o norte ou o sul. Apenas sabia que nas traseiras, para lá da cozinha, corria o rio Cuando. Os velhinhos avisaram para não nos aventurarmos por lá, no escuro. Corríamos o risco de cair pelo barranco e sermos apresentados a algum dos jacarés que habitavam o rio. Pelo sim pelo não e dado o adiantado da hora, ficámo-nos pela exploração da nossa nova residência. Três pequenos quartos, mais um, à entrada, com uma mesa ao centro, servindo de posto de comando, sala de jantar e local de ocupação das horas de ócio daquele improvisado estado-maior. A um canto, uma minúscula casa de banho bem equipada: uma sanita, um lavatório e um bidão de 200 litros cheio de água. Ah… e um balde. Ali não havia água canalizada e a utilidade do balde era óbvia. Servia para retirar água do bidão e despejá-la onde fosse necessário: na sanita, no lavatório ou por cima de nós próprios, numa espécie de chuveiro em cascata, o que cada um fez, à vez, antes de nos esticarmos em cima das camas, iguais a todas as enxergas que conheci na tropa, convencido de que, com o cansaço de tão longa viagem, adormeceria de imediato.
Não foi assim. Era a primeira vez que dormia no teatro de operações e ninguém me tirava da cabeça que a guerra estava ali ao lado. Discutíramos a defesa, distribuíram-se as sentinelas, ordens e instruções foram dadas numa improvisação de defesa e segurança do pessoal e das instalações, agora ocupadas por militares inexperientes e desconhecedores do terreno.
Procurei dormir. Contudo, a cabeça cheia de temores, incertezas, raciocínios e recapitulações da vertigem dos últimos dias e talvez o estranhar da cama, não o permitiam, não obstante o cansaço a isso aconselhar. Revolvendo-me na cama à procura da melhor posição, tentava em vão esvaziar a cabeça que persistia em imaginar cenários de ataque ao aquartelamento, sem me decidir sobre qual o lado de onde seria mais provável o inimigo atacar: se do rio, se da esquerda, se da direita. E se tal acontecesse, como deveríamos reagir? Instintivamente tacteei a arma, para me certificar que continuava ali, bem ao lado, junto à cabeceira, onde dormia e dormiria sempre, durante os longos meses que por ali andei. Adormeci finalmente, vencido pelo cansaço, já com a madrugada prestes a anunciar o amanhecer.