sábado, 1 de abril de 2017

A VISITA DO GENERAL

O nosso comandante de batalhão era homem pequeno. Velhaco, não será o termo mais adequado para o definir, mas era homem acerca de quem nunca se ouviram dizer coisas boas. Mais temido que respeitado, exagerava na prepotência talvez como forma de garantir obediência. Um ser pouco amistoso, insensível e azedo de quem era conveniente guardar distância se se queria evitar dissabores. Lá diz o povo que só pica a abelha a quem trata com ela e, digo eu, esta nem mel dava que compensasse o risco.
E foi logo no primeiro dos três natais passados em Angola, quando ainda nem dois meses haviam decorrido desde que nos despejaram no ermo inóspito da savana arenosa da Neriquinha que o nosso ilustríssimo comandante, dando um ar da sua graça, começou por se revelar. Tendo eu passado esse Natal no destacamento do Rivungo, por sinal o único de que me recordo, só conheço o episódio de ouvir contar e, por isso, será desculpável qualquer imprecisão.
Naquele ano, o general comandante da zona militar leste, e por isso, o maior entre os maiores de tudo o que era tropa por ali, decidiu passar o dia de Natal junto de uma das companhias que estivesse colocada num dos locais menos aprazíveis da zona. Terá entendido ser essa uma forma de se solidarizar com os homens que aguentavam com o ostracizante isolamento a que estavam votadas algumas das unidades militares sob o seu comando.
A Neriquinha foi a escolhida o que, bem vistas as coisas, constituía o reconhecimento oficial de que tínhamos sido de facto desterrados para os cus de judas, verdadeiro fim de mundo perdido nas imensas planícies areentas de uma região já de si apelidada de Terras-do-Fim-do-Mundo.
Assim, era certo que o senhor general sairia do conforto do seu gabinete, lá na cidade, para passar uma parte do dia na nossa companhia, respirar os odores da mata e, provavelmente, almoçar no cubículo que fazia a vez de messe dos oficiais, comendo do rancho feito no panelão geral, que ali não havia cozinhas separadas, mas que, naquele dia festivo, se dizia melhorado, epíteto que conferia grandeza e pomposidade à estravagância da mirrada posta de bacalhau excepcionalmente introduzida na ementa pobre e rotineira do pouco diversificado menu a que já nos habituáramos.
A notícia correu célere, que o homem não recomendou sigilo, até porque era necessário preparar a recepção que as regras militares impunham. Receber a visita de um general era coisa pouco frequente e ter o privilégio da sua companhia para o almoço, uma verdadeira excentricidade, para mais num ermo daqueles. Por mim, garanto que, enquanto fui tropa, nunca estive próximo de nenhum, pelo menos a uma distância suficiente para poder reter as suas feições.
Como impunham as regras, o nosso comandante de batalhão foi devidamente informado. E não demorou muito até que, de lá do seu curul no Cuito Cuanavale, enviasse as ordens estritas que instruíam o capitão sobre o que teria de ser feito para receber o maioral. Eram ordens desconcertantes e inesperadas, porém peremptórias e inquestionáveis, a não deixar espaço a quaisquer objecções ou alternativas. O nosso general teria de ser recebido com toda a pompa e circunstância, com palanque e desfile como se se estivesse a comemorar o 10 de Junho na Praça do Império.
Para além da construção do palanque, para onde era suposto o general subir, a ordem escrita determinava que se requisitasse ao serviço de material, em Luanda, o fornecimento de luvas brancas e atacadores da mesma cor. Tudo como deve ser para sobressair nas botas pretas que teriam de estar convenientemente engraxadas. O atavio teria de ser isento de máculas e as laçadas dos atacadores, apertadas com aquelas complicadas voltinhas de cerimónia a enfeitar os canos das botas da guarda de honra, que teria de se apresentar aprumada e marchar com garbo. Só não exigiu charanga, que isso já era demais, mas creio que o corneteiro não foi dispensado. O desfile da guarda de honra evoluiria ao som da corneta.
Na Nequirinha, permanentemente afogueada de poeira, atascada em areia e envolta numa poalha avermelhada sempre que soprava um qualquer ventinho ou aterrava um avião, a manutenção de botas engraxadas era uma total impossibilidade. Aliás, as botas de lona, consideradas adequadas para caminhar naquele mar de areia, usavam-se quase sempre sem atacadores; refrescava os pés e era mais fácil sacudir a areia que teimava em entrar e agarrar-se às meias empapadas em suor.
Estava-se mesmo a ver que, bom senso era coisa que não fazia parte dos atributos e preocupações do nosso digníssimo comandante. Ou então, porque ainda não se dignara visitar as unidades que comandava, desconhecia que, naquele lugar, botas engraxadas, para mais ornamentadas de branco, era algo absolutamente incompatível com o meio envolvente. Engraxar botas naquele sítio, era inútil; bastava sair da caserna para que as botas, enterrando-se na areia, se cobrissem imediatamente de poeira, ofuscando o fugaz brilho da graxa.
Mas disso, aquele emproado e prepotente homenzinho não queria saber. Provavelmente, perante a eventual veleidade de uma proposta alternativa, terá dito:
- Faça-se como se ordena.
A requisição das luvas e dos atacadores lá seguiu e deu-se início à construção do palanque, com os materiais que foi possível encontrar, tudo à custa do engenho e arte do pessoal que, com o esmero possível e muita imaginação, fintando as dificuldades decorrentes da falta de materiais, lá construiu uma improvisada, tosca e desarmónica tribuna, que outra coisa não podia nascer da imbecilidade de uma ordem idiota.
E foi assim que, naquele dia de Natal, à hora aprazada, se viu aterrar, resfolegante, no meio de um frenesim de poeira ocre e folhas esvoaçantes, o avião da força aérea que transportou desde o seu quartel-general o ilustre visitante. O avião aquietou-se, diminuiu a chinfrineira, silenciaram-se os motores, abriu-se a portinhola da aeronave à qual assomou um elemento da tripulação e pouco tempo depois lá desceu o general que caminhou decidido em direcção à tropa perfilada, afastando-se do avião ainda envolto num resto de poeira que não tivera tempo de assentar.
Olhou em volta, curioso, como se se certificasse do ermo em que aterrara, reparou na tosca tribuna, virou-se para o capitão e, com um ligeiro movimento de cabeça em direcção à improvisada estrutura, perguntou a meia voz:
- O que é aquilo?
- Ordens do nosso comandante, meu general, retorquiu de imediato o capitão alijando responsabilidades.
Não disse nada, mirou a estrutura de alto abaixo e, de forma quase imperceptível, abanou a cabeça deixando transparecer um certo agastamento. Decididamente, até o general parecia achar despropositada a encenação da pompa em que o nosso comandante quis transformar a sua passagem por aquele buraco. Mandou desfilar a guarda de honra e, sem mais delongas, encaminhou-se para o interior do aquartelamento seguido dos oficiais, sem que tivesse dado uso ao inútil e ridículo esqueleto que por ali ficou por mais uns dias.
Quanto às luvas brancas, mais os atacadores, nunca chegaram à Neriquinha. Parece que a requisição se perdeu nos corredores das arrecadações de material, possibilidade que me parece pouco verosímil. Cá para mim, devem ter pensado que se tratava de uma brincadeira e não ligaram à coisa. Ou então, terão considerado que o nosso capitão não estaria bom da cabeça. Coitado, com tão puco tempo de mata e já afectado pelo cacimbo.
No final, tais adornos deixaram de importar; o general regressara à cidade, a nossa vida voltou à rotina do costume e, muito provavelmente, o nosso comandante de batalhão nunca mais pensou no assunto.

8 comentários:

Oscar Morais disse...

Este texto vem juntar-se ao que de melhor se escreveu neste "blog"! Parabéns.

A minha memória já pouco guardava do episódio, mas tenho ideia de que algures e, não há muito tempo, vi uma foto com uma "ilustre visita" que, podia, ser o referido visitante rodeado de malta da 3441.

Abraço

Morais

Gabriel Costa disse...

A velhice tem destas coisas: apagou a minha memória - selectivamente, acho eu! Eu passei esse Natal na N´Riquinha e não há nada nela que me permita vislumbrar qualquer vista desse género. Decididamente, estou velho!

Oscar Morais disse...

Da correspondência que enviei para o "Puto" retirei a informação de que a visita do general aconteceu na passagem de ano. É só para acrescentar algum rigor histórico a um texto de que gostei muito.

Já agora... a ementa do dia de natal foi leitão assado no forno e "bolo-rei a dar com um pau", menu que repetimos no jantar da passagem de ano.

O leitão que vamos degustar no próximo convívio na "Metinha dos leitões" será, seguramente, estratosfericamente mais saboroso.

Morais

Gabriel Costa disse...

É o que eu digo: estou caquético!
Espero que o leitão da Mealhada me reavive a memória.

Pedro Cabrita disse...

Apenas algumas achegas de pormenor a mais uma postagem do nosso escrivão-mor, não sem me congratular por este reaparecimento em grande forma. Claro que já tínhamos saudades.
Alguns detalhes que podem ajudar a compor a descrição feita pelo Egídio Cardoso, a qual está rigorosa, o que salienta a boa memória para apreender com fidelidade coisas novas com sabor quase ancestral.
O General (Bettencourt Rodrigues, já desaparecido) decidiu passar o ano de 71/72 na Companhia instalada no maior buraco da Zona Militar Leste que comandava. O General B. Rodrigues foi dos poucos militares de alta patente com quem lidámos durante toda a Guerra Colonial que se nos revelou de alta estirpe militar e de uma afabilidade e competência inexcedíveis. E disso demos conta em alguma literatura que fomos deixando ao longo destes tempos
Com a devida antecedência fomos informados desta intenção e massacrados pelo nosso Comandante no rigor com que deveríamos receber tão ilustre visitante. A listagem de procedimentos era longa e lá vinha inscrito, entre outros, o desfile de um Grupo de Combate diante de um palanque a instalar, devidamente ataviado de luva branca e cordoamento de botas igualmente em cor branca, “enfeites” que deveriam ser solicitados a Luanda com urgência.
O pedido foi feito e a resposta foi célere:
- Informe se não há engano no pedido e, se não há, para que fim pretendem o material solicitado.
Claro que no QG de Luanda devem ter ido rapidamente verificar quanto tempo tinha a Companhia de N’riquinha para avaliarem do grau de “Cacimbo” que nos estaria a afetar os neurónios. Verificados os cerca de dois meses de comissão a perplexidade deve ter sido bem maior. Informados da ordem superior para o fornecimento do inusitado material a resposta foi curta e incisiva:
- Material solicitado indisponível…
Melhor dizendo, não havia paciência para dar forma a tão aberrante solicitação.
O General chegou num pequeno avião depois do almoço, certamente para nos aliviar de mais uma refeição. Saiu da aeronave seguido de um séquito de 5 oficiais; coronéis e tenentes-coronéis. Recordo apenas duas figuras: o coronel Franco Charais, mais tarde interveniente ativo no 25 de Abril e um coronel Ajudante de Campo que não vou nomear por motivos que a seguir se entenderão. Nunca o fiz até hoje e não será agora que o irei fazer.
A saída ocorreu apenas após esperar alguns minutos que o pó cor-de-laranja finíssimo se dissipasse, sendo que parte dele se depositou no grupo de Combate em grande pose ao fundo da placa da pista, aprestado para um garboso desfile num 31 de Dezembro em N’riquinha, Cuando-Cubango, Terras do Fim do Mundo.
Á porta de armas do aquartelamento (nessa altura ainda sem a Casa de Armas que viria a ser construída posteriormente em fina construção de barro revestido num branco imaculado, onde se salientava um telhado do mais fino capim da região) já se encontravam os três Alferes, o 1º e o 2º Sargentos e o Comandante da Companhia, tudo de nº 2 imaculadamente engomados na lavandaria do Kimbo.
O General saiu, dirigiu-se para a porta de armas onde nos encontrávamos, e durante o percurso não tirava os olhos do palanque que imponente mais parecia uma pequena ilha perdida num imenso oceano, no caso, de um mar laranja.
O palanque, tanto quanto a minha memória ainda escorre, foi montado com grades de cerveja invertidas e atadas com uma corda a fim de não se desconjuntarem e atirarem o General ao chão. Depois o bloco foi envolvido com um cobertor cinzento, na falta de um vermelho mais condizente com o momento, (que iria ser usado no tempo do cacimbo quando aqueles 4º negativos nos aliviavam o padecimento e a memória dos 42º positivos do resto do ano), sendo dobradas as suas bainhas para debaixo das grades a fim de camuflar a sua verdadeira e aconchegante função.

.../...
Cont.

Pedro Cabrita disse...

.../...

Aproximando-se fizeram-se as devidas apresentações. Findas as mesmas o General continuava obcecado com o palanque e também com a tropa alinhada lá ao fundo da pista. Chegou-se ao pé de mim e de esguelha com o polegar apontando para o lado, perguntou-me:
- O que é aquilo…?
- O Grupo de Combate vai desfilar diante do palanque onde o meu General, se assim o entender, deverá postar-se para as devidas honras.
O General passou os olhos pela cena, depois pelo seu séquito que não proferiu palavra, alguns baixaram os olhos, e por ali ficou por momentos em alguma indecisão.
Compreendi que era eu que estava a ficar ali entalado. Apressei-me a sacudir a água do capote:
- Ordens do nosso Comandante…!
O General decidido caminhou em direção ao palanque e ostensivamente postou-se bem à frente dele menosprezando claramente a sua intenção. A tropa lá desfilou garbosamente, sem luva branca nem cordão imaculado, mas com um fino pó laranja que uniformizava a indumentária e lá se ouviu um troante “Olhaaaar Direittttttt…!”, desaparecendo posteriormente no aquartelamento, regressando às casernas.
Como bem alguns se lembram, poucos pelos vistos, a visita correu bem. Os visitantes alojaram-se nos quartos dos Alferes e do Capitão que se amontoaram na messe.
De salientar apenas um pormenor. Todo o chão do aquartelamento era areia solta e tinha chovido. Os quartos haviam sido limpos com algum esmero, o extremo possível na N´riquinha, e ainda me lembro de ver o ex-alferes Celso Correia de vassoura na mão a dar um último retoque no meu quarto onde iria ficar o general.
Quando o General entrou no quarto naturalmente levou alguma areia nas botas que se espalhou em algumas zonas à entrada do quarto. O pressuroso Coronel Ajudante de Campo, numa vistoria breve após a entrada o General para arrumar as suas coisas detetou o facto. Terminada a visita no dia seguinte, a comitiva seguiu para a sede do Batalhão no Cuito Cuanavale. Logo que lá chegados, e mal chegados, o nosso Ajudante de Campo foi de imediato bufar ao Comandante que o quarto do General na N’riquinha “… tinha até areia no chão…”
Dias depois chegou-me uma carta do Comandante com um invetiva, quase uma “porrada”… por tão indesculpável falha de rigor no asseio para com o nosso General.
Só que logo no dia a seguir à visita do General este enviou uma mensagem dirigida à Companhia onde “… agradecia e se congratulava com a forma exemplar e inexcedível com que tinha sido recebido na N’riquinha, tendo ainda em conta os constrangimentos com que a Companhia se debatia quanto a condições de alojamento e outros. Quase pedia desculpa por ter obrigado os oficiais a cederem as suas instalações durante aquela noite.”
O General ostensivamente enviou a mensagem apenas para a Companhia não dando dela conhecimento ao Batalhão, afastando assim o nosso Comandante daquele agradecimento que quis circunscrever apenas à Companhia. Uma breve bofetada sem mão.
Claro que copiei o teor da mensagem e enviei-a por carta ao nosso Comandante.
Não voltou a tocar no assunto e o mesmo morreu ali mesmo.
Breve nota.
A foto que acompanha a postagem do Egídio é interessante. Não se trata do arranque de um Nord Atlas que às terças nos abastecia, mas de um PV-2, possivelmente pilotado pelo Capitão Pêpe, quando das buscas do Cessna que caiu nas proximidades do Rio Cúbia, zona do Esquadrão, cujos ocupantes foram exatamente localizados pelo PV-2. Tive também o privilégio de estar a bordo desse PV-2 quando da localização dos ocupantes do Cessna. Fui convidado pelo Cap. Pêpe “… para dar sorte…!”. Creio que terá sido a primeira e última vez que terei proporcionada assim “tanta sorte…”. A localização deu-se cerca de 5 minutos após a descolagem.
A nuvem de poeira é bastante ilustrativa.

P. Cabrita

Egidio Cardoso disse...

Apenas me cumpre acrescentar que o Sr. General Bettencourt Rodrigues era meu conterrâneo. Nasceu no Funchal em 1918. Não é isso que faz a diferença, até porque sou dos que entendem que o carácter das pessoas não tem nada a ver com o local onde nascem.
Mas...

Pedro Cabrita disse...

Caro Egídio.
Não sabia... mas assim não me admira nada...!

Abraço.

P Cabrita