sexta-feira, 1 de março de 2013

As Pontes do Cúbia

As vastas savanas do Cuando Cubango deixaram marcas indeléveis no meu sistema cognitivo; aquelas inóspitas paisagens, de beleza selvagem, porém feérica e de personalidade forte, tiveram em mim um efeito devastador. Gravadas pela força dos sentimentos, permanecem vivas e bem arrumadinhas nos ficheiros da memória, cujas gavetas vou abrindo aqui e ali à cata das lembranças que vão alimentando estes meus escritos. Não… não é saudosismo; apenas recordações que, de tão marcantes, não consigo apagar … e já lá vão mais de quarenta anos.
Descrever as infinitas paisagens da savana não é exercício fácil. Se por um lado se apresentam como uma monótona sucessão de grandes espaços matizados de cores intensas que vão do ocre carregado da época seca ao verde luxuriante do tempo das chuvas, a verdade é que, ainda que sem outros tons a definir contrastes, não deixavam de ser deslumbrantes à vista. Talvez a sensação de liberdade que emanava das grandes clareiras a perder de vista, adornadas aqui e ali por tufos de vegetação rasteira e entrecortadas por espaços de dimensão indefinida, ocupados por árvores raquíticas no porte e isentas de personalidade que nem sombras conseguiam projectar, compusesse um cenário próprio, sem grandes laivos ou características que conferissem beleza especial.
Para nós, que calcorreámos quilómetros e quilómetros daquela savana imensa, a paisagem já não nos dizia grande coisa. E mesmo quando, por imperativo de ordens superiores penetrávamos bem para o interior daquele mundo de ninguém no cumprimento de mais uma missão, a paisagem parecia continuar a não variar. Por onde quer que se andasse, as chanas assemelhavam-se umas às outras, não mudava muito o aspecto dos charcos, mantinha-se a pouca densidade do arvoredo e as clareiras sucediam-se com a mesma inconstância. Quanto muito, aqui e ali, um contorno mais pronunciado, umas quantas árvores de copa um pouco mais densa e uma ou outra característica sem importãncia poderiam marcar alguma diferença dos locais que já conhecíamos.
Contudo, o efeito psicológico da insegurança que se sente quando se pisa terreno desconhecido era mais forte. Qualquer chana que se encontrasse fora dos nossos percursos de rotina parecia sempre diferente por muito semelhante que pudesse ser. E, quer se queira quer não, à vista do desconhecido, sobrepunha-se sempre aquele desagradável sentimento de insegurança de quem se encontra perdido no meio de nada.
As pontes do Cúbia constituíam uma espécie de fronteira, um portal para esse mundo inseguro, inexplorado e selvagem. Construídas pouco tempo antes de ali chegarmos, o seu objectivo era óbvio: permitir a ligação à outra margem do rio Cúbia. E o local escolhido não podia ser mais apropriado, ali mesmo onde o Luengue se encontra com o Cúbia, engrossando as águas do seu tímido curso que, preguiçoso e indolente caminhava, por vezes escondido entre a vegetação, desde as profundezas da mata da Kirongosa até se encontrar com o grosso e serpenteante caudal do rio Cuando onde pacificamente se diluía no meio de uma planície pantanosa a perder de vista.
As pontes, essas, assim chamadas por integrarem dois pequenos pontões em cimento, ligavam o aterro feito a partir das duas margens de forma a permitir ultrapassar toda aquela planura alagadiça e simultaneamente garantir a passagem das águas que apenas engrossavam no pico da época das chuvas. Sem esta pequena obra de engenharia seria praticamente impossível vencer as grandes chanas do rio e francamente, sem ela, não vejo como seria possível estabelecer a ligação entre a Neriquinha e o Rivungo.
Para mim e creio que também para os meus companheiros de aventura, as pontes do Cúbia representavam o limite da nossa zona de conforto; a fronteira entre o cá e o lá. E essa característica transformou aquele local numa espécie de marco icónico que separava a proximidade de casa da longínqua terra de ninguém. Distavam pouco mais de trinta quilómetros da Neriquinha, percurso que se fazia ao longo de uma sinuosa picada que atravessava uma zona que se considerava nossa conhecida; não obstante tratar-se de uma distância considerável, era como se fosse uma extensão alargada do nosso quintal. Trinta quilómetros por aquelas picadas sinuosas era distância que representava mais de hora e meia de caminho, se tudo corresse bem. Mas era assim; até às pontes, era como se apenas tivéssemos ido ali para logo voltar, a partir daí, imperava o efeito psicológico de quem se sente longe de casa. Era a substituição do precário conforto da caserna pela exposição à intempérie, ao calor sufocante da savana e às noites ao relento à mercê de hordas de mosquitos vorazes.
É claro que não contam as idas às chanas que se seguiam às pontes, logo ali, quando se virava à esquerda tomando o caminho que levava ao Rivungo, único sítio em toda aquela imensa região onde se podiam encontrar pedras. E, como é fácil de entender, as pedras são necessárias para muita coisa e no Cuando Cubango não há pedras, apenas areia e mais areia isenta do mais pequeno seixo. Mas ali, nas chanas do Cúbia, havia um autêntico jazigo de ferro, logo à superfície. Com uma picareta arrancavam-se pesadas lascas do minério em bruto que, fazendo a vez de pedras, se utilizavam em tudo o que era preciso. Compreende-se assim que aquele local, não obstante estar  do outro lado das pontes, era-nos muito familiar; passava-se por ali amiúde, ou de propósito para carregar mais umas quantas pedras ou porque era lugar de passagem obrigatória nas nossas frequentes idas e vindas ao Rivungo.
Foi à vista das fotografias daquele local publicadas pelo José Rodrigues Ferreira da companhia que ali nos antecedeu, que me recordei do conforto que sentia quando, de regresso de uma qualquer missão, após dias na mata e horas intermináveis da viagem de regresso, avistávamos as pontes do Cúbia. Chegar ali, era como se o pior já tivesse passado. É verdade que faltavam quase duas horas de caminho mas, para nós, com os corpos amassados da viagem, empapados em suor e cobertos de pó, era como se fosse já ali.
- Estamos quase em casa. Desabafava-se.
É que, já nem se pensava na eventualidade de uma viatura poder atascar ou até parar por efeito de uma qualquer avaria. A partir dali, se disso houvesse necessidade, o socorro viria rápido. Só era preciso que o estupor do rádio funcionasse, o que, diga-se em abono da verdade, nem sempre estava garantido. Mas isso só aconteceu uma ou outra vez. Creio que até as viaturas, como que pressentindo a proximidade de casa, tudo faziam para não se deixarem ir abaixo.
Hoje, quando, usando as facilidades do Google Earth se visita o local, fica a ideia de que as pontes já não são utilizadas. É perfeitamente visível que desapareceu a picada que, na margem esquerda, dava continuidade ao caminho que levava à Neriquinha, não obstante o risco amarelo no mapa do Google insinuar a sua existência. Parece que toda aquela zona deixou de ter interesse, após a desactivação das instalações que nos serviram de morada enquanto por ali andámos. Hoje são apenas ruinas.
Contudo, quando vistos de cima, são ainda bem visíveis os dois pontões sobre a chana. As fotografias, tiradas em Agosto de 1971 pelo José Rodrigues Ferreira, mostram o seu verdadeiro aspecto, vistas de cá de baixo. Vou atrever-me a publicá-las aqui, deixando bem clara a sua autoria. Espero que o Ferreira não leve a mal.

9 comentários:

Pedro Cabrita disse...

Belo texto.
Sentei-me nas palavras e voltei a fazer a viagem.
Eram cerca de sete horas e meia.
Desta vez nem dei pelo pó, nem calor, nem solavancos.
E foi rápida a viagem.
A memória, essa, é que mais uma vez me alisou os cabelos brancos e me inundou daquela amálgama de cheiros intensos exalados tão densamente da savana.

Sempre África, a misteriosa África.
Estivemos lá. E como sabemos quão densos e inexplicáveis são os seus mistérios.

O meu abraço e o agradecimento ao nosso cronista nato pela intensidade das suas descrições e mérito em manter-nos presos às terras de N'riquinha.

P.C.

Antº Rosinha disse...

Estas pontes das terras do fim do mundo, já eram muitas quando se deu o 25 de Abril.

Davam para passar um Camião, enquanto o outro esperava do outro lado.

Faziam parte de um projecto da Junta Autónoma de Estradas de Angola, para zonas com pouco trânsito e e estradas de baixa velocidade.

Foram estudadas pela UNESCO, para paises em vias de desenvolvimento, fáceis de construir, um pedreiro experiente com equipamento apropriado, com uma dúzia de contratados in loco, resolvia o problema, fosse qual fosse o comprimento da ponte.

Era fácil de alargar para o dobro caso o tráfego o exigisse.

E como os pilares eram em estacas de ferro cravadas no rio, em lanços de 6 metros, os que fossem necessários para cobrir o rio, os turras não causavam muito prejuizo caso as dinamitassem.

Embora a última que vi fazer, no 25 de Abril, na fronteira da Namíbia, com mais 40 metros, em construção clássica, está numa foto do Google Earth, partida ao meio.

Mas aí já era a guerra de aviões e carros de combate dos Cubanos e Sul Africanos.

Gostei de ver essa ponte,

Andámos nós a fazer essas pontesinhas, com os tostões contados, e agora aquela gente está a ameaçar zangada que não querem comprar mais bancos portugueses.

Cumprimentos

Anónimo disse...

Parabéns pela forma como conseguiste imprimir a esta narrativa a emoção de quem, a esta distância, não esquece aquelas paragens.

Recordo a minha primeira passagem, ainda em Novembro/71, quando numa viagem de quase doze horas, (por inexperiência dos nossos condutores) fomos orientar o arranque dos serviços no Rivungo (alimentação, enfermagem, transmissões e mecânica).
A coluna era comandada pelo comandante da companhia que, mandou apear o pessoal e encarregou o Mota (acho eu...) de, com meia dúzia de homens, fazer uma travessia até ao final da ponte, de armas aperradas. Feito o reconhecimento, atravessamos faseadamente. Quando terminei o primeiro pontão trepei para a primeira viatura e registei em foto o episódio. Vê-se a ponte com três homens de cada lado, de armas viradas para o exterior e ao fundo a outra viatura. Vou digitalizá-la e, se quizeres e puderes, pode ilustrar este texto. Se não for possível, fica a descrição.

Voltei a passar as pontes no regresso e aquando de uma ou outra caçada e ainda uma viagem para carregar o minério de ferro, referido no texto.

Abraço,

O. Morais

Egidio Cardoso disse...

Olá Morais:

A fotografia que mencionas é preciosa: Agradeço que a digitalizes e ma remetas. Publicá-la-ei de seguida junto desta história.

Quanto à cena que descreves, estava capaz de apostar que foi herança da malta da companhia anterior. Se bem te lembras, eu e o meu grupo, fomos os primeiros a atravessar as pontes para render o Rivungo.

Ao volante das berliets iam condutores dos velhinhos chefiados por um Furriel da companhia anterior (creio que era o Castanheira ). Quando ali chegámos, obrigou toda a gente a apear-se e passamos as pontes a pé. Só quando chegámos ao outro lado é que as viaturas avançaram, apenas com os condutores.

Ainda hoje estou para saber se não foi praxe aos maçaricos. É que nunca mais se fez tal coisa E nunca sofremos um ataque nem qualquer viatura caiu ao rio.

Anónimo disse...

Olá Egídio

O Castanheira serviu-nos de guia, mas o procedimento seguido foi da iniciativa do "nosso maior", se bem me lembro. Se sugerido por aquele não posso garantir. Talvez outros intervenientes (alô Gabriel) possam acrescentar ou corrigir detalhes a esta viagem.

Tenho ainda a ideia que, no regresso, atravessámos a ponte sem aquele aparato todo, porque o "nosso maior" já não nos teria acompanhado. O ambiente era bastante mais descontraído, tendo até permitido o abate de uma peça de caça (um antílope grande ou um gnu(?)).

O Castanheira, que permaneceu alguns dias após a rendição, foi crucial para a nossa adaptação às "terras do fim do mundo".

Só mais um "flash back" da ida para o Rivungo: Ainda recordo o mais sensacional pequeno almoço da minha vida que nos foi servido pelos dois polícias destacados no primeiro aldeamento (Mugamba(?)). Bifes de caça acompanhados por cerveja saída do "frigorífico da chana", um mimo!!!.

A foto já seguiu.

O.Morais

Gabriel Costa disse...

A primeira vez que fui ao Rivungo (para verificar as viaturas do destacamento???), cerca de 1 mês depois de aterrarmos na N´Riquinha, foi uma aventura e tanto:
Atravessámos as pontes a pé
Houve festa da grossa na Polícia com o Chefe França
Passeámos á noite (encharcadíssimos) de Berliet pelo kimbo
Viemos carregados de civis a pedido da Administração
No regresso, feito á noite, parei á entrada das pontes e fui caçar
Mandei apear toda a gente e fomos com 1 Berliet, 4 ou 5 para a chana do Cúbia
O Joãozinho, cabo verdeano, ficou a chorar que nem uma Madalena com medo
De manhã tomámos banho no rio e seguimos com 2 ou 3 nunces para o almoço.
Não me recordo quem ía a comandar a coluna, mas quem era, não gostou muito da graça.
Porra! Que tempos!
Dentro de dias irei ao Kuando Kubango mas não sei se poderei passar nos nossos lados, desta vez.
Por aqui, está um calor infernal, ao contrário do "puto". Abraço

Egidio Cardoso disse...

Morais

Se a fotografia seguiu, eu não a recebi.

Confirma o endereço

egicardo@gmail.com

Anónimo disse...

Meu Caro Egídio
Já há bastante tempo que não visitava este blog.
Mas hoje gostei de ver o uso que fez das fotos das pontes do Cúbia.
A primeira foto que tem a margem esquerda descolorida, é a foto nº1 do primeiro rolo de Diapositivos que usei para fotografia.
Foi nesta ocasião que comecei a usar os diapositivos (slides), por influência dum "Alferes Estagiário" para o curso de capitães que permaneceu connosco cerca de 3 meses em "on job operacional".
No aterro de acesso a estas pontes no sentido Norte tivemos nós um acidente em que uma Berliet ficou de rodas para cima. Eu viajava na cabine posição central ao meu lado direito o Alcides (soldado corneteiro) e a conduzir o Valentim.
Só eu consegui fazer um salto á vara apoiado na G3...
Para retirar o Alcides já sem vida e o Valentim todo partido da cintura para baixo.
As Berliets já circulavam sem cabine e sem capots. No dia seguinte retirei todas as portas das Berliets.
Também tenho por aí umas fotos a preto e branco desse fatídico dia...
J.R. Ferreira Ex fur. mec da 2778
Jrferreira@tap.pt

Egidio Cardoso disse...

Caro Ferreira:
Temos algumas fotografias das pontes do Cúbia, mas nenhuma tão boa com estas.
Pelo menos para mim era de facto um local especial, tal como tento transmitir na história. Por isso tenho espreitadao aquele local através do Google Earth.
E isso permitiu-me encontrar a razão pela qual aquela passagem deixou de ser utilizada: É visível que o pontão mais pequeno caiu, não está lá.
Agora, para ir para o Rivungo, seguem directamente de Mavinga pelo outro lado do Rio Cúbia, passando entre o Rio Matungo e o Luengue.
Pelos vistos as mortes por ali eram sempre por acidente. Da nossa companhia morreu um Furriel no Rivungo (acidente com um lança granadas), da companhia que nos sucedeu, morreu no Rivungo o cozinheiro (afogado no Rio - não sabia nadar)