terça-feira, 1 de março de 2011

O unimog da PSP caiu ao Rio

Já o disse várias vezes: o Rivungo era uma circunscrição com Administrador, PSP, tropa, marinha e um rio caudaloso. Pode parecer pouca coisa, mas marcava a fronteira entre, digamos, um buraco e um local onde se poderia viver. Era uma localidade com população civil própria, autóctone, mas própria, enquanto a Neriquinha não passava de um acampamento militar cujas tendas haviam sido substituídas por barracões, um par de anos antes, atraindo uma população mais ou menos nómada que se fixou logo ali, a seguir ao arame farpado, beneficiando de alguma segurança (se é que dela precisavam) e das facilidades propiciadas pela logística militar. Entre elas, a água canalizada a partir de um depósito metálico encavalitado numa estrutura de ferro e uma pista de terra batida onde, de quando em quando, aterravam aviões que faziam a ligação ao mundo exterior.
No Rivungo não havia pista, pelo menos coisa que fosse digna desse nome. Apenas uma pequena clareira no meio da mata a cerca de dois ou três quilómetros da periferia, permitia a aterragem dos pequenos puxa-empurra que nos traziam o correio e pouco mais. Era uma chatice, já que, sempre que estava para chegar o avião, era destacada para a necessária segurança uma equipa composta por quatro militares, chefiados por um furriel. É verdade, todas as terças e quintas e sempre que qualquer pequena aeronave por ali aportasse, a equipa de prevenção encavalitava-se no pequeno unimog que acelerava pela picada irregular procurando chegar ao local de aterragem antes da aproximação do avião, postando-se aí em formação defensiva para que aterrasse em segurança. Na verdade, nunca me pareceu que protegesse grande coisa. Eram apenas quatro homens que só conseguiam cobrir a zona onde o avião se imobilizava, ficando todo o comprimento da pista desprotegido. De qualquer forma, se nos atrasássemos, o Barros não aterrava, voando em círculos até que chegássemos ao local. Noutras alturas, aterrava mesmo assim.
A sorte era haver sempre voluntários. Desejosos de tocar o correio metido dentro do saco cinzento que o piloto entregava ao furriel, estavam sempre prontos. Mal chegava a mensagem via rádio, agarravam na G3 e corriam para o pequeno unimog. Ali chegados e sempre no local onde se sabia que sistematicamente o avião parava, dispunham-se os escassos homens dos dois lados do campo e esperava-se com alguma impaciência a chegado do Cessna. Toda a manobra de aterragem, entrega do correio e levantar voo de novo, não demorava mais de cinco minutos; noutro ponto, outros aguardavam ansiosos a chegada das preciosas notícias. Assim, mal o avião ganhava velocidade, subia-se para a viatura aí se aguardando que o avião se elevasse no ar, iniciando-se de imediato o regresso, no máximo da velocidade permitida pela picada esburacada em direcção ao aquartelamento, com pressa de ler as notícias.
Até que um dia chegaram ao Rivungo vários camiões transportando máquinas, escavadoras, niveladoras, pás basculantes, um cilindro e homens para trabalhar. Uma equipa de construtores e toda uma parafernália de geringonças que começaram, logo ali ao lado do Kimbo, na orla da mata, a deitar abaixo árvores, limpar e aplanar o terreno livrando-o de tudo o que pudesse atrapalhar. Enfim, um corrupio e uma azáfama nunca vistos por aquelas bandas.
É verdade, fora decidido construir uma pista de aviação a sério, grande, e ali pertinho, o que iria dispensar a correria pela mata em direcção à clareira isolada. Sim, uma pista de terra, mas nova, bem construída, de propósito e não uma simples clareira que tinha de ser capinada sempre que as ervas, regadas pelas abundantes chuvas, se atreviam a brotar com maior viço.
No Rivungo, também não havia água canalizada. Provavelmente a proximidade do rio e a abundância de água fresca, potável e acessível, não motivou ninguém a exigir a construção de um qualquer sistema que permitisse esse luxo e as autoridades administrativas, por seu turno, também nunca tomaram a iniciativa. Nem sequer um simples depósito, por mais artesanal que fosse. O da Neriquinha não era lá grande coisa, mas servia na perfeição.
Água no Rivungo tinha de ser retirada do rio, em baldes e transferida para bidões estrategicamente colocados onde fosse necessário. Se a memória não me atraiçoa, nas nossas instalações havia uns três e chegavam para o gasto. A proximidade do Rio facilitava o seu enchimento feito a poder de trabalho braçal do garoto da messe e ajudantes da cozinha num vai e vem, encosta abaixo, encosta acima.
A tropa, porque instalada mesmo à beira do rio, tinha o acesso facilitado, mas a PSP, não. Costumavam abastecer-se nas cercanias do ancoradouro da Lancha, dentro do perímetro da marinha, no local que elegemos como a nossa estância de veraneio privativa. Ali tomava-se banho, nadava-se e mergulhava-se de uma prancha de saltos improvisada. O caudal era forte e garantia a recolha de água não estagnada, muito embora, a pujança do Cuando trouxesse em permanência água fresca sempre renovada a qualquer ponto da sua passagem serpenteante.
Utilizavam quatro ou cinco bidões de 200 litros que carregavam, vazios, na pequena carroçaria do unimog que descia em marcha-atrás pelo declive até à babugem. Aí, com recurso a baldes e ajuda dos serviçais, iam lentamente enchendo os bidões até ficarem a transbordar. Depois, com o motor na sua máxima força, arrancavam lentamente encosta acima, transportando o precioso líquido para as suas instalações no outro lado da localidade.
Naquele dia, as coisas não correram bem ao condutor, um PSP negro e corpulento, espécie de amanuense, com funções de cozinheiro que se encarregava das tarefas com características mais domésticas.
Por razões que as leis da física poderiam explicar, a estrutura da viatura foi cedendo à medida que o aumento gradual do peso da água foi exercendo pressão sobre o velho unimog.
De repente, os travões cederam e o unimog moveu-se, desequilibrando os bidões que rolaram sobre a carroçaria precipitando-os no rio e obrigando a viatura a descair até os rodados traseiros galgarem o degrau barrento da margem. Só não capotou, porque a queda de dois ou três dos bidões aliviou o esforço da viatura que ficou em equilíbrio instável quase na vertical, com um rodado da frente no ar e os dois traseiros dentro de água, assentes na espécie de plataforma com cerca de 20 cm de água que antecedia a profundeza do leito do rio.
Do sítio onde estava, já não sairia pelos seus próprios meios e a posição em que ficou piorava as coisas. Sá havia uma solução: o recurso às máquinas de serviço às obras da nova pista. Felizmente que estavam ali, à mão, e qualquer delas com força suficiente para resgatar do rio o velho unimog.
Para o efeito, foi escolhida uma caterpillar, de pá basculante e pneus enormes, estacionada logo acima, junto com algumas das demais. Era fim do dia, os trabalhos tinham sido interrompidos e as máquinas deixadas em descanso. O manobrador, chamado para a prestação de auxílio, se calhar habituado a operar a máquina nas infindáveis planuras do Cuando Cubango, esqueceu-se que naquele local o terreno não era plano nem arenoso como tudo o resto e que os travões a ar precisavam de algum tempo para ficarem operacionais. E o pior é que estivera parada durante todo o dia, provavelmente por não ter sido necessária.
Ligou a máquina, elevou a pá, manobrou-a e dirigiu-se às arrecuas em direcção ao rio. Mal começou a descida, ganhou velocidade e no momento em que precisou dos travões, não tinha. A máquina descontrolada ganhou vida própria, saltando e balouçando perigosamente a cada acidente do percurso, perante o ar assustado do homem que, carregando desenfreadamente do pedal do travão, nada podia fazer para a deter.
Cá em baixo, no intervalo de um mergulho, apercebemo-nos que a máquina não iria parar. A velocidade cada vez maior e o ar de desespero do manobrador eram disso sinal evidente. Na dúvida, cada um fugiu para seu lado, procurando adivinhar a trajectória da besta, deixando-lhe caminho livre.
Excepto o infeliz Unimog. Impossibilitado de sair dali, foi abandonado à sua sorte. Ainda assim, valeu-lhe alguma perícia do manobrador da máquina que, no último momento, com um golpe no volante, evitou o abalroamento.
Mas não foi suficiente. Um dos grandes rodados atingiu de raspão o unimog e a pá, no seu balanço descoordenado, deu-lhe um último safanão empurrando-o perigosamente para a água.
Não sei como, mas a verdade é que, no momento em que toda a gente pensava ver a máquina no fundo do rio, esta imobilizou-se, beneficiando talvez da ajuda, sabe-se lá como, oferecida pela resistência do vulnerável unimog, que travou de alguma forma a sua marcha desenfreada, acabando por ficar perigosamente semi-submersa, com o motor a resfolegar ofegante como que a refazer-se do susto.
Foi preciso uma segunda máquina, esta de lagartas que, oferecendo a segurança de se sentir bem em qualquer terreno, desceu lentamente o declive e rebocou as viaturas acidentadas, retirando-as da sua posição incómoda: primeiro a máquina antes que o rio a levasse e depois o unimog.
Não me lembro como o pessoal da PSP se desenrascou naquele dia sem água, mas sei que os bidões que caíram lá ficaram, submersos, na parte mais funda do leito do rio e de onde nunca mais saíram. Se calhar ainda lá estão.

15 comentários:

Anónimo disse...

O Rivungo (que não conheci) o rio Quando, muito belo muito bonito, paisagens paradisíacas, a estância balnear da companhia da NRiquinha. Foi ali que a 1ª Comp 5012, se confrontou com a sua única baixa mortal. O auxiliar de cozinheiro ali destacado e num daqueles dias de banhos (em tudo concerteza identicos aos aqui representados pelas v/fotos) naquele rio belo de água limpida, mas também traiçoeiro, devido às suas correntes, se afogou. Foi à guerra mas não morreu dela. O que aliás, infelizmente aconteceu a bastantes camaradas que pela guerra colonial passaram.
Continuação de parabéns, Cardoso, por mais uma, das mais de mil histórias que tem daqueles sítios, arrecadadas na sua memória.
Fernando Simões - Ex furriel milº da 1ª Comp. Cac. 5012 - a tal que vos rendeu. Abraço.

Egidio Cardoso disse...

Pois é Fernando. Ter estado tanto tempo na Neriquinha e nunca ter ido ao Rivungo,é uma falha imperdoável. Não era lá grande coisa, mas era bem melhor que a Neriquinha.
Quanto ao Cuando (ou Kuando) não era um rio traiçoeiro. Mas a sua corrente era forte, de forma que se alguém se deixasse apanhar por ela, não sabendo nadar, seria perigoso. Foi provavelmente o que aconteceu ao vosso cozinheiro.

Um abraço

Paulo Coelho disse...

Boa noite a todos. Vim aqui dar, à conta do livro Capitães do Vento de Pedro Cabrita. Quero aqui dar os meus parabéns, tanto ao autor do livro, como aos autores do blog por com as vossas palavras, conseguirem transportar-nos para paragens e memórias tão distantes, mas tão vívidas.

Egidio Cardoso disse...

Caro Paulo.
Sabe, a Neriquinha, hoje apenas umas ruinas abandonadas nos confins das terras-do-fim-do-mundo. Era um local tão inóspito e isolado que nos marcou a todos; a ponto de ainda hoje nos lembrarmos destes episódios, autênticas aventuras vividas no meio de uma população escassa que nunca conhecera outra realidade.
Já são mais de três anos a contar histórias. Se quizer fazer uma passagem por elas, verá que, da guerra, falamos pouco, dedicamo-nos mais às emoções, à vivências, às pessoas ... enfim, faça você mesmo o seu juízo.

Um abraço
E.C.

Paulo Coelho disse...

O meu juízo é exactamente esse. As pessoas são sempre mais importantes que os acontecimentos.

Um abraço

Luis disse...

Amigos,
Bela descrição dos tempos aí passados. Enquanto aí desempenhei as funções de Coandante Distrital da PSP no Cuando-Cubango nas minhas visitas aos postos passei muitas vezes pela Nerriquinha e Rivungo onde confraternizava com o pessoal aí aquartelado. O Rivungo pela proximidade do rio era bem mais agradável que a Nerriquinha e o pessoal sentia-se mais agradado também. No meu tempo a PSP tinha só um Land Rover com o qual fazia rondas pelos quimbos próximos e por vezes ia até a Nerriquinha. Apesar de tudo lembro esses tempos com alguma saudade. Nessas viagens o Barros era um bom companheiro. e bom conhecedor do terreno que sobrevoava.
Um forte abraço muito amigo.

Gil Milheiriço disse...

Estive em Neriquinha no primeiro trimestre de 1971, era especialista da FAP, operador de comunicações, o meu nome é Gil, recordo-me de um furriel Pato (ou Patinho) e do dr. Gil. É bom falar de uma terra no fim do mundo. Nessa altura com a ajuda de alguns camaradas do Exército, mais conhecedores da agricultura, que eu, conseguimos fazer uma horta em que a minha modesta ajuda foi conseguir as sementes via Luso (Moxico). Quando o Nord por qualquer motivo não ia uma semana a horta dava uma bela ajuda. Um abraço amigo

Egidio Cardoso disse...

O furriel Patinho pertencia à companhia que foi rendida por nós na Neriquinha. Só ali chegámos em Novembro de 1971.
Mas, ainda assim, convido-o a dar uma espreitadela pelas histórias que aqui contamos. Uma vez ou outra falamos dos especialistas da FAP que por ali passaram. O problema é que não consigo recordar-me do nome de nenhum deles.
No post "GASTRONOMIA", publicado em Junho último estão duas fotografias onde aparecem cabos da FAP.
Abraço

Gil Milheiriço disse...

Não deu para identificar ninguém. Há dias, no facebook, cruzei-me com um alf. mil. do Bat. de Caçadores 5012 que esteve em Neriquinha de Abr. de 1973 a Ago. de 1974, provavelmente que vos foi render e a conversa rodou à volta da horta que eu penso começou em Jan/Fev. 1971. Inicialmente a horta era ao lado do edifício da FAP no sentido da porta de armas. Na vossa foto não deu para identificar bem o local, mas vocês não brincaram e até um poço abriram. Pode ser que através do nosso site de especialistas da FAP que pertenciam ao AB4, Henrique de Carvalho de que o destacamento de Neriquinha fazia parte encontre os especialistas que fala. Vou-lhe deixar aqui o endereço: www.facebook.com/group.php?gid=126509240699332
Um abraço

Gil Milheiriço disse...

Por acaso não se recorda qual o nome do batalhão que vocês foram render em Novembro de 1971?
Obrigado

Egidio Cardoso disse...

Descobri agora. A companhia que nos atecedeu era a C.Caç. 2778 conhecida por "Águias Negras"

Anónimo disse...

Obrigado, pela seu tempo e atenção,

Um abraço

Anónimo disse...

A Companhia de Caçadores 2778 pertencia ao Batalhão de Caçadores 2926.
Abraço.

Anónimo disse...

Olá companheiros que passaram pela N'riquinha.
Fiz agora aqui uma visita a este "magnifico local" de contactos e recordações. Quanto á referência a horta ao lado das instalações da FA, informo que foi iniciada pela equipa da "ferrugem" dos Águias Negras da qual eu era o responsável. Tenho por aí umas fotos de um unimog a puxar uma charrua que havia no Kimbo e eu a conduzir (rabiar) a dita charrua.
As primeiras sementeiras que fizemos, por volta de Nov1970, apesar de terem brotado muito rapidamente foram brutalmente levadas pelas constantes chuvadas.
Depois nas idas ao Rivungo, carregamos o estrume das vacas que ficavam num cerco dum dos Kimbos no percurso e a partir daí a horta progrediu duma forma fantástica.
Recordo que no primeiro dia que tivemos nabiças para adicionar á sopa, o panelão da dita ficou limpinho. E nesse dia o n/ Vago mestre ( Fur. Morais Ferreira), protestou comigo, porque a sopa não chegou ao prato dos ajudantes de cozinha.
Nota: logo que possível enviarei algumas dessas fotos que tenho em papel.
Gostei de ver uso das fotos que coloquei no Google Earth.
Meu Caro Egídio Cardoso e Gabriel Costa, os meus parabéns por manterem este "interessante local" de contactos e recordações.
J. R. Ferreira - Ex furriel Mec. Auto Da 2778

Fausto Ferreira Araújo disse...

Dei uma vista de olhos a todas as historias contadas e fiquei com meu coração cheio de alegria
ao saber que houveram pessoas que souberam guardar a memoria intacta das peripécias ocorridas nas terras do fim do mundo . N arrriquinha e Rivungo . Pertenci a companhia de cça 2778 Os Aguias Negras. do Batalhão 2926 Excelente e Valoroso. 1º cabo at: (O velhinho) destacado em Mavinga. Fausto Ferreira Araújo. O meu muito obrigado ás pessoas que deram inicio a esta maravilhosa historia.
Um grande abraço A todos ex combatentes.