quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Kiela no Samatamo

Dou hoje mais importância ao modus vivendi do povo Ganguela, do que no tempo em que com eles convivi no dia-a-dia. Bem vistas as coisas, embora a memória, rendida aos quarenta anos já passados, esteja cada vez mais desvanecida, a verdade é que, na altura, ligava a pouca coisa que tivesse a ver com os seus hábitos. Retenho a ideia de que era um povo afável e humilde, mas culturalmente a anos de distância daquilo que se entendia designar por civilização.
Os seus costumes eram ancestrais e pautavam-se por hábitos e crenças que, então, me pareciam mais próximos da pré-história do que dos nossos tempos e não tenho dúvidas de que os seus contactos com as modernices dos brancos só terão começado com a chegada da tropa. Até então, bastavam-se com aquilo que a imensa savana lhes oferecia e isso era mais do que suficiente para a satisfação das suas escassas necessidades. Do rio tiravam o peixe e da mata tudo o resto. Quanto à água, havia-a em abundância por todo o lado.
Bastava dar uma volta pelo kimbo para se perceber tudo isso. As cubatas rudimentares que apenas serviam para se abrigarem do desconforto da noite, a pouco variada dieta alimentar, os parcos utensílios de que se serviam, os símbolos e fetiches à porta da curandeira de serviço, são exemplos dos sinais evidentes que se encontravam a cada canto.
O temor do desconhecido e as crendices no sobrenatural ilustram perfeitamente o que quero dizer. O pavor que tinham de uma máquina fotográfica radicava na crença de que o aparelho lhes roubava a alma; saía-lhes do corpo e ficava presa no papel da fotografia.
- Xicupula não! Gritavam à vista da temida maquineta.
Exemplos semelhantes havia-os às dúzias. Já não me lembro da maior parte, mas as mezinhas com sangue de galinha, as danças para afugentar feitiços, o estrume de vaca que espalhavam na cabeça das mulheres que atingiam a puberdade compondo um artístico e mal cheiroso penteado, o ritual da perda da virgindade e mais umas tantas crendices, compunham um leque razoável de comportamentos que considerávamos estranhos.
O batuque, com o seu tum-tum-tum que chegava a durar dias, tocado a propósito de muita coisa, tanto podia servir para abrilhantar uma comemoração ou uma festa, como para conferir dramatismo ao lamento pela morte de alguém ou ainda como banda sonora de um qualquer acto exorcista para afastar feitiços. Quando começava, nunca se sabia se comemoravam ou se choravam, se exorcizavam maleitas ou se simplesmente procuravam afugentar maus espíritos. O pior é que, normalmente, preferiam fazê-lo à noite. E quando isso acontecia, ninguém conseguia dormir nas redondezas. Felizmente que ali era o capitão quem ditava as regras. O assunto resolveu-se com uma decisão que, provavelmente veio colidir com os seus hábitos: batuques, só com autorização prévia do comandante da companhia e não poderiam prolongar-se pela noite dentro.
Mas, por ser o único que estava logo ali ao lado do aquartelamento, colado á cerca de arame farpado, esta regra só valia para a população do kimbo da Neriquinha. Em todos os outros, espalhados pela mata imensa, os costumes seguiam as suas próprias regras, não havendo brancos por perto que pudessem sentir-se incomodados.
O Samatamo era um desses kimbos. Mais pequeno que os demais, localizado nas imediações das chanas do Kuando, meio perdido algures na imensa savana, ficava a sul do Rivungo, a pouco mais de uma hora por uma picada que serpenteava por entre as árvores e, ao contrário de todos os outros, nem tão pouco era enquadrado por agentes da PSP. Talvez por isso, era visitado, com alguma frequência, pela tropa. Passávamos por ali de vez em quando, numa espécie de patrulhamentos que se faziam, mais para marcar presença do que para outra coisa; contactava-se com a população e aproveita-se para vigiar as margens do rio que ali fazia fronteira com a Zâmbia. Eram missões de dois dias, pacíficas, sem grandes canseiras ou caminhadas, efectuadas a cavalo de um unimog e chefiadas por um furriel à frente de meia dúzia de homens, já que mais do que isso, não cabia na viatura.
Durante a minha permanência no destacamento do Rivungo, fui encarregue de uma dessas missões. Sem pressa, saímos a meio da manhã, tomando a picada que seguindo para sul, nos levaria ao destino. Lembro-me de que passámos pela Mahínha, um pequeno aglomerado de quatro ou cinco cubatas construídas de forma muito rudimentar e que apenas albergavam duas ou três famílias que mantinham lavras de milho e massango nas redondezas e que distava do Rivungo menos de um quarto de hora. Hoje, consultando o Google Earth parece-me estranho que o local esteja assinalado com relevo, ao contrário do Rivungo que nem é referido.
A missão correu naturalmente, sem incidentes ou o que quer que fosse que merecesse ser relatado a não ser a noite passada à beira da chana, cuja humidade alimentava um autêntico viveiro de mosquitos gulosos que infernizaram o sono. A verdade é que desta missão rotineira, praticamente insignificante face a tantas outras que me levaram a calcorrear quilómetros de savana, sobre um sol impiedoso ou chuvas diluvianas, apenas ficou um insignificante pormenor que, mesmo sem ter fotografias, permanece gravado na minha memória e ao qual só vim a dar importância muitos anos depois.
Saltámos do unimog e refugiámo-nos à sombra de uma árvore frondosa à entrada do kimbo, procurando protecção para a inclemência do sol que nos derretia as poucas gorduras, ao mesmo tempo que se acalmava a sede, sorvendo avidamente a água dos cantis. Ali ao lado e também à sombra da mesma árvore, quatro ou cinco elementos da população entretinham-se acocorados à volta de três filas de pequenas covas, equidistantes umas das outras, como que compondo um tabuleiro meticulosamente escavado na areia endurecida pela chuva da noite.
Aproximei-me curioso. Sementes redondas, pouco maiores que avelãs, estavam irregularmente distribuídas por cada covinha. À vez, cada jogador escolhia uma cova, fazia cálculos e distribuía pelas covas seguintes, uma a uma, as sementes que recolhera da cova seleccionada. Fiquei a olhar tentando perceber a lógica do jogo, mas só consegui discernir que não era indiferente a cova escolhida. Dependia da sua localização face às que se lhe seguiam e da quantidade de sementes que continha e não sei bem porquê, fez-me lembrar o jogo de gamão com que o Viola e o Ramirez costumavam entreter-se num tabuleiro existente na Neriquinha; nunca o percebi e só aqueles dois é que o sabiam jogar. Pelo menos nunca vi mais ninguém a fazê-lo.
Contudo, o avanço das peças no gamão é ditado pelo número que sair nos dados lançados no tabuleiro, enquanto que, no jogo das covinhas, a decisão é do jogador e isso implica uma estratégia e obriga a cálculos que não me pareciam simples.
Ainda hoje não sei nem as regras nem a finalidade, mas sei que é um jogo de estratégia, aparentado com o xadrez, mais conhecido pelo nome de Kiela, que leva horas a chegar ao fim e cuja complexidade transforma em inofensivas brincadeiras de crianças os jogos de cartas como a sueca ou a bisca lambida, muito populares nas casernas dos nossos soldados.
Lembrei-me deste pequeno episódio ao ler o Afonso Loureiro. No seu Blog, contou uma pequena história sobre este jogo. Ao ver a fotografia que captou (ver aqui), veio-me à memória as covinhas no chão debaixo daquela árvore no kimbo do Samatamo.
Afinal aqueles indígenas, integrando uma etnia considerada entre as mais atrasadas do continente africano e cujo modo de vida me pareceu mais próximo da pré-história, eram exímios num jogo iminentemente intelectual.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A preparação da janta

A alimentação dos ganguelas da Neriquinha era muito pobre e talvez fosse essa a razão para não haver gordos entre aquele povo.
Proteínas, apenas as que retiravam do que conseguissem caçar, uma ocupação dos homens que para o feito, deambulavam durante semanas pelas matas até apanharem alguma coisa; por sorte, a caça abundava por ali.
Também nunca os vi comer verduras e os frutos resumiam-se a algumas variedades, desconhecidas para nós e que cresciam espontaneamente nas matas.
A base da alimentação era constituída por dois cereais: o milho e o massango, com os quais cozinhavam uma papa de aspecto duvidoso.
Mas para isso, era necessário transformá-los previamente em farinha, uma tarefa demorada feita à força de trabalho braçal; bater os grãos dentro de um grande pilão com uma vara grossa e pesada, era tarefa árdua que competia às mulheres. Passavam horas em pé, batendo o cereal a um ritmo cadenciado, até conseguirem a consistência desejada.



domingo, 1 de janeiro de 2012

Delírios nocturnos

Já aqui me referi, por diversas vezes, aos meus companheiros de aventuras por terras do Cuando Cubango, especialmente os furriéis da 3441. É verdade que cada ser humano tem características próprias que o distinguem dos demais e isso torna-o de alguma forma especial. Não quero chegar ao exagero de afirmar que ali todos eram especiais, mas a verdade é que alguns se demarcavam pelas suas características e comportamentos. As diferenças notavam-se na forma de ser, nos tiques e manias, nas extravagâncias, vaidades e medos, nas bazófias de feitos passados, não obstante os poucos anos que ainda levavam de idade adulta não garantirem a experiência necessária. Uns distinguiam-se pela timidez, outros pelo atrevimento, alguns pela piada e outros pela sisudez, mas é também verdade que uns eram indubitavelmente mais cultos que outros. Vistos por outro prisma, uns tantos eram mais experientes e ledos, em contraponto com dois ou três mais reservados e tacanhos. Mau feitio, camaradagem, sensatez e bom senso, estavam mais ou menos bem distribuídos por todos de forma que, quando faltava paciência a alguém, compensava-se com o bom senso do mais apaziguador.
Era assim o corpo de furriéis da companhia, se bem que alguns, por isto ou por aquilo, tivessem deixado marcas mais profundas nas nossas memórias, como sejam as doenças do Palúdico, as diatribes do Silva ou as bebedeiras do Neto. A verdade é que, pelo menos durante os longos dezoito meses que passámos na Neriquinha, dormíamos todos na mesma camarata e, quer queiramos quer não, isso fazia com que nos conhecêssemos com algum pormenor. E isso é o mesmo que saber como cada um dormia, se ressonava ou não ou se dormia de barriga para baixo ou de papo para o ar. Ainda me lembro que o Viola tinha o hábito de dormir de boca aberta, o Fielas esparramava-se de barriga para baixo, enquanto que o Ramirez dormia de barriga para cima e ressonava. O Neto, esse, normalmente toldado pelo álcool, discutia com as melgas. O Gameiro conhecia-se pouco; passava as noites no kimbo aconchegado à Regina Preta e não me lembro de o ver a dormir na nossa camarata.
Quanto ao que se passava enquanto todos dormiam é coisa mais difícil de recordar; todos tinham o sono pesado e a canseira do dia funcionava como barbitúrico eficaz; e por isso, todos dormiam o sono dos justos. Assim, o ressonar do Ramirez não incomodava ninguém e se alguém falava durante o sono, não se dava por isso. A não ser que o pesadelo fosse de tal ordem que nos fizesse acordar, o que aconteceu algumas vezes com o Peixoto.
O Peixoto era o furriel de operações especiais da companhia - cada companhia de caçadores tinha um alferes e um furriel formados na instrução especial de Lamego. E como eram mobilizados logo que acabavam o curso, isso transformava-os nos graduados mais novos da companhia. E isso marcou o Peixoto; sendo o de menos idade entre os furriéis, foi apelidado de “o menino”, nome que ainda hoje se utiliza quando se fala dele, não obstante já ter ultrapassado, há um par de anos, a fronteira dos 60.
Pois é, “o menino” falava durante o sono e o mais engraçado é que não dava por isso. Nunca o conseguíamos convencer das asneiradas que lhe saíam da boca durante o sono e melindrava-se quando confrontado com o facto.
- Vocês estão é a gozar comigo!
Despachava, sem dar hipótese a argumentos; mesmo com as explicações mais objectivas do mundo, não se convencia. Para ele não passava de provocação.
Certa noite, o pesadelo do Peixoto foi sério. De repente, no meio do silêncio, sentou-se bruscamente na cama e esbracejando freneticamente gritava:
- Lá vêm eles … lá vêm eles!! Façam segurança à pista grande!!
E dito isto, deixou-se cair para trás retomando o sono profundo de onde nunca tinha chegado a sair.
Penso que todos acordaram estremunhados e alguns até saltaram da cama, embora sem grande susto. Já conhecíamos o Peixoto e os seus delírios e ninguém estranhou, embora eu tivesse ficado com a sensação que ele estava a gozar connosco.
Por sorte, não havia nenhuma pista grande e até hoje nunca conseguimos descobrir onde diabo foi o Menino buscar tal ideia. A Neriquinha apenas tinha uma pista, por sinal pequena, de terra batida e muita erva e nunca se ouviu dizer que alguma vez ali tivesse existido uma maior. O estranho de tudo aquilo é que o Peixoto, não sendo muito assustadiço, também nunca dera sinais de medos ou temer ataques, o que, verdade seja dita, foi coisa que nunca aconteceu e naquele exacto momento, tirando o escarcéu do Peixoto, tudo o mais permaneceu mergulhado no mais completo silêncio: não se ouviram tiros, as sentinelas não deram o alarme; tudo estava em perfeito sossego, como sempre. E assim sendo, todos retomaram o sono profundo e revigorante.
Algum tempo depois, o Peixoto voltou aos seus monólogos nocturnos, desta feita com algumas inconfidências que mais uma vez não reconheceu como tendo sido proferidas por si. Talvez pelo melindre, não foram tão abertamente pronunciadas. Não sei se em resultado de um qualquer sonho erótico, mas a verdade é que as frases saíram mais em surdina, perfeitamente audíveis mas um tanto ou quanto entarameladas, sem sequência lógica, como se verberasse impropérios contra alguém, certamente do sexo feminino. Pelos vistos, as mulheres atormentavam o sono do menino e todos se lembram de, no meio de um arrazoado sem sentido, se ouvir nitidamente algo como … puta de merda ….
A história nunca ficou esclarecida e o Peixoto nem se mostrou comprometido quando confrontado mais uma vez com os seus monólogos nocturnos. Como sempre, arrumou o assunto com um:
- Vocês tiraram o dia para gozar comigo!
E afastou-se com um gesto de desprezo, como quem em definitivo quer deixar claro que não quer mais conversas. Ainda hoje, estou para saber se não esteve todo o tempo a gozar connosco.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Artesãos da Neriquinha

Numa abordagem superficial, a produção de artesanato poderia parecer tratar-se de mera ocupação do tempo. Mas se se tiver em atenção o que produziam, facilmente se conclui que a arte de esculpir a madeira e moldar o ferro visava em primeira mão a produção de ferramentas e utensílios necessários ao dia a dia daquelas gentes. Aquela forja artesanal e curiosa, manipulada pelo Século Sarikissi, com a qual forçava sem esforço o ar até o braseiro que tornava o ferro incandescente, não fora invenção recente. Mais, não tinha por finalidade a simples produção de artesanato.
È claro que a lixeira da tropa se transformou num local onde encontravam matéria prima pronta a ser transformada: bocados de molas partidas das viaturas eram facilmente transformados em facas, machados (javites) e lanças; aduelas de barris que ali chegavam acondicionando azeitonas e outras conservas viravam cadeiras e artefactos e a abundância de madeira existente nas matas era facilmente transformada em objectos procurados pelos tropas dando lugar a um mercado em que cachimbos, cinzeiros artísticos, pequenas estatuetas, tambores e caretos constituíam uma fonte de rendimento até então inexistente.A arte de moldar o ferro e esculpir a madeira tornara-se um negócio, passando as ferramentas a serem aos poucos adquiridas no Chiado.
















quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O CHIADO

A população da Neriquinha e arredores não ligava muito ao dinheiro. Na verdade, o seu modo de vida e a satisfação das suas necessidades básicas dispensava tal modernismo; tiravam da terra quase tudo o que consumiam, fabricavam a maior parte dos utensílios que precisavam e colhiam na mata os materiais com que construíam as suas casas.
Era uma economia agrária, rudimentar e por ali não havia mercearias, supermercados, drogarias ou outras lojas que convidassem ao consumo.
A chegada da tropa a tão remotas paragens veio contaminar este despojado modo de vida. Com a tropa, vieram também coisas que rapidamente os conquistaram. O tabaco e o álcool contam-se entre as novidades a que rapidamente aderiram, especialmente as mulheres; com um simples maço de tabaco obtinha-se de uma mulher muitos favores.
Mas o álcool era talvez aquilo que mais apreciavam. Com muita frequência encontrava-se pelo kimbo mulheres totalmente embriagadas, à força de emborcarem quantidades significativas de uma mistela alcoólica de produção caseira obtida a partir da fermentação das sementes de massango. De cor castanho forte e com muito mau aspecto constituía até então a única bebida que conheciam para afogar as mágoas se é que era esse o intento.
À vista da beberragem, uma garrafa de brandy, de cor nacarada e límpida, assemelhava-se a coisa especial, inatingível; um néctar próprio dos deuses, mas de preço muito elevado para bolsas tão magras.
O produto era de facto muito apreciado e todos sabiam disso. Exactamente por isso, certa vez, no Rivungo, o cabo enfermeiro apostou que, prometendo uma garrafa de brandy a uma mulher que trazia fisgada, conseguiria uma noite de prazer sem gastar um centavo. Pegou numa garrafa vazia, encheu-a com metade de água e metade de álcool puro subtraído da enfermaria, adicionou meio frasco de complexo B para conferir uma cor amarelada à mistela, rolhou muito bem e deu-a de presente anunciando o melhor brandy do mundo. Foi dia de festa para a mulher; bebeu a garrafa numa noite e no dia seguinte queria mais:
- Brandy muito bom, nosso cabo, machiririca.
De uma assentada, elogiava a qualidade da mistela e com o machririca mimoseava o enfermeiro.
Mas não foram apenas novos produtos que a guerra levou àquelas bandas. Novos hábitos de consumo, algumas utilidades, umas quantas futilidades e algum dinheiro também ali chegaram, contribuindo para uma aculturação paulatina, que levou aquela gente a ir aderindo, uma após outra às novidades, até já não dispensarem certas modernices. Por exemplo muitas mulheres já não passavam sem o seu cigarro; compravam-nos, cravavam os militares ou então recebiam-nos em troca de um agrado. Na sua maioria, especialmente as mais velhas, fumavam introduzindo na boca o cigarro ao contrário. Depois de o acenderem, enfiavam na boca a ponta incandescente deixando de fora a boquilha e assim ficavam até o cigarro se consumir. Nunca percebi como faziam aquilo; não molhavam o cigarro, a chama não se apagava e consumiam-no até ao fim sem se queimarem.
A grande novidade que veio com a tropa foi o dinheiro o qual, como não podia deixar de ser, foi chegando às mãos daquele povo, quer como paga dos serviços que prestavam, quer como provento da venda do que pudesse interessar aos forasteiros; o sexo era uma boa fonte de rendimento perante a quantidade de homens sedentos de mulher e o variado artesanato que produziam tinha boa aceitação entre os tropas.
Depois havia o ordenado pago aos GE’s, substancialmente maior que as demais fontes de rendimento. Recebiam muito menos que qualquer soldado mas para eles era dinheiro que não tinham onde usar. E isso levava-os a gastá-lo na cantina, comprando álcool.
Por outro lado, lojas, naquele fim de mundo, abertas ao público, eram coisas escassas. Apenas no Rivungo havia uma rudimentar loja explorada pelo velho Miguel, vendendo pouca coisa e em Mavinga, tanto quanto me lembro, não haveria mais do que duas. Mas, como era preciso pelo menos dois dias de caminho para vencer a distância, tinham pouca utilidade para a população da Neriquinha e qualquer delas não vendia nem tabaco nem álcool; apenas uns panos coloridos, umas missangas, uma coisa ou outra e nada mais. Os clientes escasseavam, o dinheiro era pouco e os hábitos de consumo inexistentes. Ou seja comerciante por ali não se safava, o que confirmava a minha teoria de que o marinheiro Godinho, quando voltou para o Rivungo e ali se estabeleceu tomando de trespasse a lojeca ali existente, fê-lo certamente atraído pelas armadilhas do amor que o prenderam à negra por quem se embeiçou. Nunca mais regressou à civilização, acabando ali os seus dias volvidos alguns anos e não consta que tenha ficado rico.
Ora, a Neriquinha não era uma localidade. Como já se disse, era apenas um acampamento militar delimitado por uma cerca de arame farpado no meio da terra de ninguém. A população que ali habitava apenas se arrumou do outro lado da cerca, procurando a segurança e o conforto que a tropa propiciava. O facto é que, como se sabe, logo que findou a guerra, a tropa abandonou o local, a população zarpou, procurou outros lugares, ficando a Neriquinha a apodrecer, abandonada, até se converter em ruínas tomadas pela mata.
Mas, voltando ao tema do comércio, é claro que a lacuna tinha de ser suprida. A Neriquinha precisava de uma loja; a população que ali se juntou tinha necessidades que precisavam de ser satisfeitas e a tropa encarregou-se disso. A 3441 herdou da companhia anterior e suponho que também esta herdou da que a antecedeu, uma cubata grande, um barracão todo feito de capim já enegrecido pelo tempo, estrategicamente plantado perto da passagem que ligava o aquartelamento ao Kimbo, nas traseiras da ferrugem.
Eufemisticamente puseram-lhe o nome de “O CHIADO”. Ali se vendiam umas quantas tralhas: panos de diversos padrões e cores, ferramentas onde se incluíam as enxadas, panelas de ferro tipicamente portuguesas (daquelas com tripé) ideais para cozinhar sobre lenha, uns alguidares de plástico, uns canecos, uns pratos de lata esmaltada, facas, colheres, garfos, missangas e outros adornos e mais uns quantos artigos que se consideravam poderem interessar à população.
Para a gerência do estabelecimento foi designado o furriel P. Costa, acumulando com a coordenação da horta. Já que o capitão o dispensou da actividade operacional por alegadamente sofrer de uma qualquer doença incapacitante, ao menos tinha com que se entreter. Mas, vistas bem as coisas, a nomeação foi acertada. O P. Costa tinha jeito para o negócio, sabia lidar com aquelas gentes e pelos vistos era de confiança, já que, tanto quanto sei, o estabelecimento dava lucro.
Assim, quando os GE’s recebiam o seu ordenado, havia como gastar o dinheiro em coisas úteis, e não apenas na cantina, embora isso não impedisse que o stock de brandy sofresse baixas consideráveis nos dias que se seguiam. De facto, amor ao dinheiro era coisa que não tinham e menos ainda hábitos de poupança e também não aspiravam a nada que pudesse ser alcançado com as poucas notas que recebiam mensalmente.
Nesta ordem de ideias, e não tendo o dinheiro serventia, o normal era gastarem-no todo nos primeiros dias em bebida que ingeriam sem comedimento e isso poderia constituir um problema de ordem social e pior que isso de ordem disciplinar. GE’S bêbados por dias consecutivos não era muito auspiciante.
E foi por todas estas razões que o capitão, investido em representante da autoridade do Estado, determinou que uma parte do ordenado lhes fosse pago em espécie; exactamente em artigos à sua escolha que seriam fornecidos pelo Chiado, ficando assim garantido que, pelo menos essa parte, não se evaporaria em álcool.
O facto é que o Chiado foi cumprindo a sua missão: as mulheres começaram a andar mais vestidas, passaram a exibir adornos de missangas coloridas e as latas velhas e negras de fumo, recolhidas na lixeira da tropa e até então utilizadas na confecção das refeições, foram sendo substituídas por panelas de ferro.

O Chiado não abria todos os dias e quando abria era por pouco tempo, já que o fluxo escasso e intermitente de clientes, não obrigava ao cumprimento de horários comerciais. Quem quisesse comprar alguma coisa sabia onde estava o lojista e o P. Costa não se esquecia de manter o estabelecimento aberto nos dias que se seguiam ao recebimento das mesadas, quer se tratasse de GE’s, dos rapazes que lavavam a roupa, dos serviçais que ajudavam na enfermaria, na horta, na cozinha e na messe ou onde pudessem garantir uma fonte de rendimento.
O lucro do negócio propiciado pelo Chiado não engordou ninguém em particular. Foi usado até ao fim da comissão para compensar a escassez da verba para alimentação. Graças ao Chiado, comemos um pouco melhor durante o resto do tempo que durou a nossa missão por terras angolanas. E a população agradecia a possibilidade de adquirir algo de que precisasse em troca do dinheiro inútil. Não fora isso e provavelmente gastaria as suas parcas receitas monetárias em coisas supérfluas; talvez em álcool.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Neriquinha - Subsistência

A dieta alimentar da população da Neriquinha, era limitada.
A agricultura, meramente de subsistência, resumia-se à plantação de dois cereais: o milho e uma espécie de sorgo por ali chamada de massango. Transformados artesanalmente em farinha, cozinhavam uma papa de aspecto duvidoso que constituía uma dieta alimentar muito pobre.
Tirando isso, a mata fornecia tudo o mais.

A caça constituia a única fonte de proteínas. Mas, não obstante ser abundante na região, os métodos rudimentares de caça não garantiam muita frequência no abastecimento. Por isso, não eram esquisitos Qualquer animal que conseguissem apanhar virava refeição, como foi o caso do hipopótamo que resolveu invadir as lavras da Neriquinha Velha.Frutos silvestres não abundavam, mas as árvores do MABOCO cresciam por ali, disseminadas pela mata. Sabiam onde estava cada uma e o primeiro a chegar colhia tudo o que podia transportar

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O resgate da avioneta

O Cuando Cubango, pelo menos no espaço que vai do Kuito Cuanavale até ao Luiana, é dominado pela savana. São extensões a perder de vista de uma paisagem plana e monótona, caracterizada por uma vegetação pouco densa, onde as chanas constituem clareiras extensas, maioritariamente atravessadas pelos inúmeros cursos de água que se passeiam indolentes sem rumo definido num terreno isento de pontos de referência.
Vista de cima, cada chana parece igual a todas as demais e as poucas particularidades que as diferenciam raramente servem de orientação a quem quer que por ali se aventure. Por esse facto, sobrevoar aquele território obriga à utilização dos instrumentos necessários à orientação do voo.
Naquele tempo, o Barros, piloto da TASA, seria o único que se atrevia a dispensar essas sofisticadas modernices. Trazendo-nos o correio duas vezes por semana, conhecia a savana como a palma das suas mãos, sabia de cor e salteado as chanas que se sucediam desde o início do percurso até à ultima e mais remota localidade e era capaz de identificar exactamente quais as clareiras onde poderia aterrar o seu pequeno Cessna em segurança, se fosse caso disso.
Mas isso era o Barros. Qualquer outro que cruzasse os ares da savana tinha de saber utilizar os instrumentos de navegação, caso contrário, o risco de se perder era real. E foi isso exactamente o que aconteceu. Certo dia, não sei como nem porquê, um pequeno monomotor pertencente a uma pequena companhia de táxis aéreos de Serpa Pinto, pilotado por um novato naquelas andanças, levantou do Rivungo com destino à Neriquinha. Consigo trazia dois passageiros, um deles, o Camassango, técnico para as questões da agricultura que, finda a sua comissão no Rivungo, regressava a Serpa Pinto.
O piloto orientou o pequeno avião na direcção nor-noroeste, seguindo à vista as chanas que se sucediam, as quais, de acordo com o mapa que tinha à sua frente, indicariam a direcção da Neriquinha. Mas, por razões que desconheço, foi-se desviando pouco a pouco do rumo certo. Crê-se que por alturas do Cúbia, inclinou ligeiramente o avião em direcção a oeste e sem se dar conta do engano passou a sobrevoar uma sucessão de chanas que o foram afastando do rumo que pretendia seguir até que se viu perdido. Andando em círculos, sobrevoou o rio Uefo, passou ao Dima e acredita-se que planou desorientado sobre os rios Capembe e Matungo até que, esgotado o combustível, acabou por se despenhar nas chanas alagadas do Utembo, quase no limite da nossa área de intervenção, alguns quilómetros a sul do local que denomináramos de esquadrão, por ali ter estado instalada uma base inimiga por nós destruída alguns meses antes, numa operação de grande envergadura.
Foi pedida ajuda à Força Aérea que disponibilizou um velho PV2, a empresa proprietária do aparelho destacou duas pequenas aeronaves, assentaram as bases na Neriquinha e lançaram-se na busca dos destroços do avião sinistrado, varrendo toda a área possível e vasculhando lá dos céus cada recanto da savana.
Só ao fim do terceiro dia de buscas, o PV2 avistou os três ocupantes do pequeno avião, deambulando perdidos numa clareira e que entretanto, quase mortos de fome e cansaço, se haviam afastado bastante do sítio onde tinham caído. Foram lançadas rações de combate que os três devoraram com sofreguidão acabando por serem recolhidos pouco tempo depois por um helicóptero da Força Aérea que os trouxe para a segurança da Neriquinha.
Fui esperá-los à pista. Conhecia bem o Camassango, pelo menos o suficiente para estar preocupado. Ao menos queria saber se estava bem. Coxeava ligeiramente, tinha umas quantas nódoas negras, uns arranhões, mas não tinha nenhum osso partido nem ferimentos graves. Em boa verdade, os três, para além do grande susto, apenas foram atormentados pela fome já que, água, havia em abundância, especialmente naquela época do ano. Estavam todos sujos, a roupa mal tratada, apresentavam um ar cansado e nitidamente empalidecido. Três dias sem comer tinham deixado as suas marcas. Ao longo dos dias em que deambularam pela mata, ainda tentaram apanhar a única coisa que lhes apareceu pela frente; uma espécie de ratazana que costumava escavar pequenos túneis nas bermas das chanas e a que nunca demos importância. Pelos vistos não chegaram a apanhar nenhuma e água foi a única coisa que conseguiram ingerir ao longo de todo o tempo que andaram perdidos.
Agora, passado o pior, importava recuperar a carcaça da pequena avioneta. Não era conveniente deixá-la ali e os seus donos faziam questão de a reaver. Não ficara muito danificada e a sua reparação mais do que se justificava.
O problema residia apenas na forma de arrancar o avião do sítio onde estava e trazê-lo até à Neriquinha, tarefa que nos foi confiada. Com efeito, o local era distante e de difícil acesso mas a nossa companhia era a única que teria condições de lá chegar, não obstante o único equipamento disponível se resumir às berliet’s, sem dúvida o único meio de transporte capaz de levar a cabo a missão, embora nos parecesse serem um pouco curtas para o efeito. Transportar um avião acidentado às costas daquelas viaturas, pelos percursos sinuosos da savana, não seria pêra doce.
Para a operação foi designado o furriel Leitão à frente de um grupo de homens do seu pelotão o que o deixou furioso. Pouco tempo antes, todo o seu grupo de combate, chefiado pelo alferes Aranha, estivera envolvido numa das operações mais difíceis da companhia, levada a cabo lá para os lados do Tossi e que tivera como objectivo perseguir o grupo do Kuenho que, um dia antes, emboscara e matara doze GE’s dos grupos de Mavinga e da N’Riquinha, no qual se incluía o nosso Fulay. E, exactamente por isso, ter de alinhar de novo, não agradou ao Leitão.
Ficou furioso, perdeu a sua costumeira postura pacífica e resolveu questionar o capitão. Procurámos acalmá-lo, dissuadi-lo, apresentando argumentos, justificações, pontos de vista. Até se tentou encontrar as razões que teriam levado o capitão a escolhê-lo. Mas nada parecia acalmá-lo, ripostando irado com uma espécie de jargão muito seu, que usava quando discordava de qualquer coisa.
- Não há nem meio !
Nitidamente exaltado caminhou em direcção ao gabinete do capitão decidido a levar avante a contestação, esquecendo-se que, na tropa, ordens não se discutem. Mas de nada lhe valeu refilar. Parece que efectivamente não havia outra escolha. Conformou-se, acatou a ordem, preparou a equipa à qual foram afectos dois mecânicos, um enfermeiro e um rádio-transmissões. Carregaram duas berliets com ferramenta, cordas, dois bidões de gasóleo, lanças de reboque e tudo o mais que se pensou poder vir a ser necessário e lá partiram, determinados a trazer a carcaça acidentada, custasse o que custasse.
Saíram, bem cedo, muito antes do sol nascer, seguindo em direcção às pontes do Cúbia, tomando depois a picada por nós aberta nas idas ao esquadrão e continuando para montante ao longo do percurso irregular e sinuoso do Cúbia.
Rodaram durante todo o dia, chegaram às chanas do Dima e continuaram para sul ultrapassando os limites já nossos conhecidos e que havíamos palmilhado aquando das incursões para os lados do esquadrão, mas agora prosseguindo a corta mato, abrindo nova picada sobre as orientações do guia, até à zona mais a sul do rio Dima.
De acordo com a informação passada pela Força Aérea, sabia-se que o avião estava semi-submerso e admitia-se que esse factor viesse a dificultar a sua recuperação. Não se conhecia a zona nem os eventuais obstáculos à progressão das viaturas, sua extensão e forma de os contornar. É que, visto de cima, tudo parecia fácil e acessível. Cá em baixo, a vegetação esconde os acidentes do terreno, as armadilhas das chanas pantanosas, os lamaçais disfarçados, os acidentes de terreno que as viaturas não conseguem vencer e os pequenos cursos de água difíceis de rodear. Ali não havia pedras ou terreno consistente; apenas areia, charcos e lodaçais.
Estávamos no tempo das chuvas e as chanas estavam alagadas, perigosas, aconselhando a rodar com as devidas cautelas e distâncias. Qualquer percurso mais baixo e fora do arvoredo podia ser uma armadilha lamacenta para as viaturas. Mas, ao fim de algum tempo e, creio, alguma persistência e com os preciosos conhecimentos do guia, lá encontraram o pequeno monomotor, meio submerso numa extensa chana alagada, algures já nos domínios do rio Utembo.
Tirá-lo dali e carregá-lo sobre uma das berliets, era agora o problema a solucionar. Não sei exactamente como o fizeram, mas lembro-me do Leitão ter contado que o pessoal livrou-se de camisas e peças de roupa inúteis, entrou naquela imensidão de água acumulada pelas recentes chuvas e que o desabrochar do capim verde fazia lembrar um extenso arrozal, desmontaram as asas, puxaram o resto da carlinga à força de braços e alguma imaginação, encaixaram sobre a carroçaria os restos do avião e encetaram a viagem de regresso, seguindo em sentido inverso o mesmo percurso sinuoso de volta à Neriquinha.
Foi com algum alívio que os vimos surgir, ao longe, envoltos numa nuvem de pó por entre a erva verde que bordejava a chana. Na verdade, não os esperávamos tão cedo, já que se admitia que o desconhecimento da zona e a esperada dificuldade em chegar ao local os retardasse mais algum tempo. Pelo menos e não apenas por mera precaução, tinham carregado mantimentos para mais uns dias.
Mas pelos vistos, tudo terá corrido pelo melhor. Estavam de regresso mais cedo do que o esperado, o que significava que afinal as dificuldades encontradas não foram tantas quantas as esperadas. Ouvi o Leitão referir que encontraram rapidamente o avião, bem visível a escassas dezenas de metros da orla da mata, semi-submerso numa zona alagada mas de pouca profundidade.
A curiosidade levou-me até junto dos recém chegados que, com ar visivelmente cansado se apeavam das viaturas. Sobre uma delas, com parte da cauda suspensa a sobrar da carroçaria nitidamente mais curta, lá vinha a carlinga amarelada do pequeno avião, desmembrado e inerte, mas pouco amachucado face ao que seria de esperar. Com efeito, parece que a água amorteceu a queda e as asas, arrumadas lateralmente apenas tinham sido separadas para possibilitar o transporte. Compreendia-se agora a razão pela qual os três ocupantes não apresentavam ferimentos de monta. Na verdade foi mais o susto que outra coisa.
O pequeno avião, sem asas, ali ficou por uns tempos, arrumado a um canto, umas duas semanas ou mais, até chegar um Nord Atlas da Força Aérea que o levou. Deu algum trabalho enfiá-lo na carlinga barriguda do Nord. Disso lembro-me perfeitamente. Um avião metido dentro de outro é a curiosa imagem que retenho.
Fiquei a ver o Nord correndo pela pista até levantar voo naquele movimento pesado a que semanalmente assistíamos desde que ali chegámos. Mas desta vez, passou-me pela cabeça uma imagem a fazer lembrar uma cena de canibalismo. O barriga de ginguba levava no seu ventre outro da sua raça. Só que mais pequeno.

domingo, 16 de outubro de 2011

Paisagens mutantes

A paisagem em redor da Neriquinha era muito pouco variada, aliás, como todo o território do Cuando Cubango mais a sul. Um clima semidesértico de savana pura tem muito pouco para oferecer para além das mudanças de cor e textura que se sucediam à passagem das estações.
Quando o Nord Atlas ali nos deixou no longínquo mês de Novembro de 1971, as chuvas já se tinham instalado provocando o desabrochar do capim que pintara de verde toda a paisagem.
Com o passar dos meses, o capim foi amarelecendo,ganhando aquela cor-palha característica, até ficar totalmente ressequido.
Chegara o tempo das grandes queimadas,
Tudo ficava despedido, matizado de negro e desolado
Até que chegavam de novo as chuvas, intensas, diluvianas
No Rivungo, parte do Kimbo ficava alagado, intransitável, enquanto a paisagem voltava a ganhar o seu tom verde intenso voltando tudo ao princípio num ciclo renovador

sábado, 1 de outubro de 2011

Economia no mato

A Neriquinha não era uma localidade, o que significa que não tinha estruturas administrativas nem um poder civil instituído. O aldeamento ali existente não era mais do que um kimbo formado por população nativa que, empurrada pela guerra ali se instalou construindo as suas cubatas à sombra da segurança e conforto que a proximidade da tropa propiciava. Maioritariamente constituído pelas etnias ganguela e kamache, compunham uma sociedade que pautava a sua conduta segundo seculares regras tribais, sendo a autoridade subjacente exercida por Sobas e Sékulos, normalmente eleitos de entre os anciãos, seguindo a máxima de que a idade confere sabedoria. Na verdade, não obstante serem duas das etnias mais atrasadas de África, representavam uma sociedade que se regia pela obediência a normas de conduta que norteavam a vida em sociedade, a família, os direitos e as obrigações. As infracções eram discutidas em conselho de anciãos que aplicava penas e coimas adequadas a cada situação. Era um normativo não plasmado em livros mas cujas regras, passando de geração em geração, eram do conhecimento de todos.
Contudo, a autoridade formal era exercida pela tropa. Começando no Capitão - autoridade máxima - seguia a respectiva hierarquia percorrendo a estrutura desde os oficiais até ao soldado mais básico, cuja autoridade se sobrepunha à ancestral liderança do Soba.
E disso se deu conta o capitão Cabrita. Se alguma vez teve dúvidas de que ali era ele quem mandava, depressa se apercebeu de que a sua autoridade não se cingia apenas aos seus subordinados, mas também a tudo aquilo que respeitava aos actos, costumes, comportamentos, atitudes e ao que quer que comandasse o modo de vida daquela gente. A querela de natureza familiar que se viu compelido a dirimir, terá sido certamente uma realidade desconcertante, especialmente para si que desconhecia em absoluto os costumes daquele povo.
Subjacente àquela pequena comunidade formada pela tropa, movimentava-se uma economia sui generis. Não apenas aquela que decorria do cumprimento das rígidas regras da contabilidade militar, mas também tudo o que daí resultava. Era uma economia fechada e rudimentar, mas que envolvia alguma complexidade. Ali havia um orçamento para gerir, um comércio à volta da cantina e do chiado e a consequente circulação de moeda. Havia ainda que garantir o fornecimento de géneros à PSP e à Marinha do Rivungo, implicando a emissão de facturas e consequentes pagamentos e recebimentos.
Tudo isto era gerido pelo nosso primeiro Pinto que, qual ministro da economia e finanças daquela espécie de estado improvisado, tudo controlava com competência e saber, zelando pela execução do apertado orçamento, supervisionando o consumo de géneros, dos combustíveis, das munições, do material de guerra, das compras e vendas na cantina, para além de ser o garante do cumprimento das milhentas normas profusamente plasmadas nas NEP’s que obrigavam à elaboração de um intrincado acervo de documentos, formulários e procedimentos que só ele conhecia. Emitia ainda as facturas à PSP e à Marinha, recebia destes o valor dos géneros fornecidos e reencaminhava a receita correspondente para os serviços da manutenção militar a quem prestava contas de tudo o que esta fornecia.
A quantidade de moeda que circulava na Neriquinha era limitada. De facto, no princípio, o número de notas e moedas em circulação resumia-se às que levávamos no bolso quando ali chegámos, acrescentando-se o muito pouco que pudesse existir em poder da população local. Não havendo fluxos do exterior, a moeda que circulava era apenas essa. Se num dia, na cantina, se pagava uma cerveja com uma moeda de cinco escudos, era grande a probabilidade de a voltar a receber no dia seguinte como troco da nota de vinte para pagar o maço de tabaco. E isto começou a ser um problema; dependendo a cantina da velocidade de rotação do que cada um tinha para gastar, a determinada altura não havia trocos.
Na Neriquinha o problema não foi grande; os mais de cem homens que se serviam da cantina, garantiam um fluxo de moedas em quantidade suficiente para as necessidades diárias.
Mas no Rivungo a coisa complicava-se. Esse problema nem me passou pela cabeça quando ali cheguei e fui encarregado da gerência da pequena cantina que servia os cerca de trinta homens ali colocados. Pelo menos até o cabo Almeida vir queixar-se de que não tinha trocos para garantir as demasias. Alguém lhe entregara uma nota de vinte para pagar a cerveja e exigia o troco que não havia. A minha primeira reacção saiu quase sem pensar:
- Oh homem! Vá arranjar troco em qualquer lado!
Mas, de facto, não havia onde ir buscar moedas. O número de utentes da cantina era limitado e não havia bancos ou comércio onde pudéssemos trocar as notas.
No momento, resolvi o assunto emitindo uma pequena nota de dívida que o soldado em causa poderia apresentar a pagamento na próxima compra que fizesse.
É claro que isso só resolveu o problema daquela transacção. Durante o resto do dia e nos que se seguiram, a dificuldade subsistiu e o problema da falta de moedas agravou-se. Resolvi o assunto utilizando uns quantos papelinhos, onde inscrevi o valor das moedas de curso corrente, rabisquei uma rubrica, coloquei uma sinalefa que impedisse a sua multiplicação por contrafacção e assim pus fim à falta de trocos. Na verdade, acabara de criar moeda, uma operação que só o Estado através do Banco de Portugal podia fazer. Mas nunca fui questionado ou admoestado por ter exorbitado competências que não possuía.
Pelos vistos, os serviços administrativos e financeiros em Luanda desconheciam estes problemas. O facto é que o dinheiro mensalmente enviado para pagamento do mísero pré aos praças e dos ordenados aos oficiais e sargentos vinha sempre em cheque. Não havendo por ali bancos onde se pudesse rebater o cheque, o assunto só poderia ser resolvido utilizando a boleia semanal do Nord. Alguém ia ao Luso, trocava o cheque por dinheiro e regressava na semana seguinte com o dinheiro necessário. Mas, com o tempo, o nosso primeiro foi verificando que os magros tostões que compunham o rendimento mensal de cada soldado, mal chegavam para a cerveja, tabaco e alguma outra coisa de que precisasse. De facto, o ordenado recebido era todo gasto na cantina, voltando assim às mãos do sargento.
Não sendo novato naquelas andanças, o primeiro-sargento concluiu que o dinheiro que recebia em cheque para pagar ordenados era, mais coisa menos coisa, equivalente ao valor que tinha de remeter à manutenção militar para liquidação dos produtos vendidos na cantina e esse, mais coisa menos coisa, provinha dos ordenados que pagava.
Assim, quando recebia o cheque, endossava-o reencaminhando-o para a Manutenção Militar e pagava os ordenados com o produto do que se vendia na cantina, gerando assim um ciclo vicioso: as notas que o pessoal gastava voltavam às mãos do Primeiro, que as voltava a usar no pagamento de salários acabando de novo nas mãos do Primeiro, formando uma espécie de corrente que só acabou quando a nossa comissão na Neriquinha chegou ao fim. As notas, essas, foram ficando velhinhas, amachucadas encardidas, flácidas e muito frágeis, quase sem cor.
Por força das feridas e cicatrizes que apresentavam, algumas já eram conhecidas, identificáveis como carta marcada do baralho.
Ainda me recordo de certa nota, com uma mancha avermelhada a um canto, que veio parar à minha mão umas duas ou três vezes.