Naqueles tempos, não havia acesso aos facilitismos que caracterizam os dias de hoje e não me refiro sequer à evolução tecnológica de que quase todo o ser pensante modernamente usufrui. Para dar um exemplo comezinho, ocorre-me citar o telefone; fazer um simples telefonema de Angola para Lisboa era quase ficção, coisa difícil. Quando muito um telegrama, via Marconi, então transmitido recorrendo aos pipiipi’s que representavam os pontos e traços do velhinho código Morse. Ou seja, comunicar com a família, só mesmo recorrendo à escrita bem arrumadinha no curto espaço disponível dum simples aerograma. Telegrama só em caso de extrema urgência e, ainda assim, era preciso poupar nas palavras e omitir os artigos definidos, os indefinidos, as preposições e outras miudezas da escrita.
Eram de facto outros tempos. E as diferenças eram muitas. Umas mais insignificantes, outras mais radicais e outras ainda diferentes por razões diversas. Veja-se, por exemplo, a carta de condução; hoje, qualquer miúdo com dezassete anos, já está habilitado com a licença adequada à condução da máquina de que mais gostar. Naqueles tempos, conduzir era coisa que ocupava os sonhos de muitos mas, simultaneamente, era algo que não estava nos planos mais imediatos da maioria. E eu não era excepção. A primeira vez que experimentei tal coisa foi ao volante de um unimog, dos pequenos, nas picadas arenosas que sulcavam os longes por onde andámos. Mas aí, a coisa era simples; desde que conseguisse engrenar uma velocidade, o pequeno pincho andava quase sozinho. A profundidade do sulco da picada mantinha-o no caminho e a ausência de trânsito dispensava o conhecimento dos artigos do código da estrada. Assim sendo, eram muito poucos os encartados da companhia. É claro que os condutores da tropa não entram na contagem. Alguns destes tinham apenas carta militar, atribuída pelo exército, após umas aulas mal-amanhadas frequentadas na escola de condução militar.
Mas, vamos ao que interessa. Ali bem pertinho, na pequena povoação do Caxito, havia uma escola de condução e isso bastou para motivar uns tantos a tirar a carta! Não fui eu, de certeza, quem primeiro se lembrou de tal coisa mas, decidi inscrever-me. E mais uns quantos também. Não recordo exactamente de quem, mas o Morais, que me acompanhou desde as primeiras lições, era um deles e, pelas razões que motivam esta história, o soldado cozinheiro Lourenço era um dos outros.
O Lourenço era um homem sui generis. Aprendi a conhecê-lo no Rivungo, quando ali cheguei pela primeira vez e me apresentei à grande chana do rio Cuando. Foi o cozinheiro que nos calhou em sorte e ainda hoje estou para saber porque raio foi o homem escolhido para, sozinho, tratar dos tachos e dar de comer à malta para ali destacada, enquanto na Neriquinha ficava toda a equipa, para mais orientada pelo Cabo Ribeiro que se sabia ser o único com experiência na função.
Para além de ser cozinheiro de fracos recursos, era um cromo. Bom tipo, certamente mas se, naqueles primeiros tempos de mata, não tivesse tido a preciosa ajuda do velho Máquina, negro ganguela nascido nas profundezas da savana, mas bastante habilidoso nos temperos, estaríamos bem tramados e creio bem que passaríamos o tempo a mastigar salsichas com massa e massa com salsichas entremeada com um ou outro acepipe gorduroso aprendido na escola de culinária militar daqueles tempos. Aquele seu trejeito fungoso à mistura com o discurso fanhoso não augurava nada de bom, pelo menos no que se refere à confecção de comida de jeito. Mas safou-se bem e tenho a certeza de que aprendeu muito com o Máquina. Isso e o facto de ser boa pessoa, talvez seja a explicação para não ter recebido, ao longo do tempo que tratou da janta do pessoal, reparos de maior. Caiu no goto da malta, é o que é. Todos o tratavam com bonomia à mistura com um ou outro apodo inspirado na sua bisonha figura e peculiares trejeitos, incluindo a forma como metia os pés para dentro ao andar. Pois bem, este homem que, para além do mais era pouco dado às coisas da cultura, também resolveu tirar carta de condução. Não sei quais seriam os seus planos para o futuro, mas foi assim que aconteceu.
As lições de condução não constituíram grande problema. Na vila do Caxito apenas havia uma rua. Em boa verdade era a estrada que, vindo de Luanda e depois de passar pela Fazenda Tentativa, atravessava a urbe em direcção a norte. O trânsito era escasso, não havia cruzamentos nem rotundas e tão pouco subidas e descidas, o que significa que as lições práticas não eram um problema para os instruendos mas, em compensação exigia muita imaginação do instrutor que procurava tudo o que pudesse ajudar no treino de todas as manobras impostas pelo regulamento. Lembro-me que, para praticar o ponto de embraiagem, dado tudo ser plano por ali, recorria-se a uma pequena rampa de terra que, em resultado do nivelamento da estrada aquando do seu asfaltamento, dava acesso à picada que, num plano inferior, dali nascia em direcção ao interior da mata. Era suave, a rampa, bastante curtinha, mas era o único declive que havia nas proximidades. Quanto ao mais, o instrutor metia dois alunos no carro, um conduzia até à Fazenda Tentativa, fazia aí a inversão de marcha e o outro fazia o percurso inverso de regresso à escola.
Assim sendo, para o Lourenço, as lições foram correndo sem grandes problemas e, aos poucos, lá foi conseguindo fazer tudo direitinho. O problema era o código. Fixar todas aquelas regras era complicado. Bem se esmerou a estudar pelo manual mas a coisa não estava fácil e isso via-se, durante as aulas teóricas, especialmente porque não conseguia encaixar na pergunta do instrutor aquilo que, com tanto denodo, estudara na noite anterior. É verdade que os manuais incluíam uma variedade considerável de perguntas e respostas correspondentes mas, ali, perante o instrutor, era difícil encaixar na pergunta a resposta certa.
Mas o Lourenço não se intimidou. Decorou o manual de ponta a ponta, afinou bem a coisa e dentro de algum tempo tinha tudo memorizado ao mais ínfimo pormenor; agora nada podia falhar. Mas, perante uma pergunta concreta, tornava-se difícil rebobinar tudo o que memorizara, acontecendo por vezes escolher a resposta destinada a pergunta diferente. Foi então que encontrou a solução radical. Para não se enganar, decorou, de forma encadeada, cada pergunta e a respectiva resposta. A partir daí nunca mais se enganou. Perante uma pergunta e independentemente de como o instrutor a formulava, o Lourenço respondia sempre da mesma forma: papagueando, repetia a pergunta tal como estava no manual e acrescentava-lhe a resposta correspondente.
Não me lembro se alguma vez, percebendo mal a questão, rebobinou a pergunta errada e se com isso, também errou a resposta. Mas sei que fez o exame e passou à primeira.
Memórias das aventuras e desventuras de 140 militares que, em Novembro de 1971, armados de G3, foram largados num ermo algures no meio das remotas savanas das terras-do-fim-do-mundo nos confins de Angola
terça-feira, 1 de abril de 2014
sábado, 1 de março de 2014
Os crocodilos da barragem
Continuo a não resistir à tentação de comparar as terras-do-fim-do-mundo com o quase paraíso que era agora a nossa nova morada. Naquele fim de mundo, era a aridez da savana que afogava a Neriquinha em calor, pó e muito de coisa nenhuma em contraponto com o lenitivo deste pequeno recanto abraçado à civilização e temperado pelas águas mansas da sua imensa barragem. E como se isso não bastasse, lá faltava tudo e até a água tinha de ser sugada de um furo dependente dos humores do pequeno gerador, enquanto aqui, disfrutava-se da abundância de água canalizada, com abastecimento garantido pela inesgotável albufeira de água cristalina. No degredo da savana, a electricidade vinha aos empurrões saída de geradores cansados, movidos a gasolina, enquanto aqui havia energia com fartura garantida permanentemente pela força das turbinas mantidas em funcionamento por um inesgotável manancial de água que, submissa, se aquietava acima do paredão.
A existência das Mabubas deve-se, seguramente, à barragem. Construída no exacto local onde o rio Dande estreitava espremido no fundo de uma garganta rochosa, aprisionou as águas que rapidamente encheram a grande albufeira, cobrindo toda uma extensa área de mato que desapareceu submerso naquela imensidão de água que invadiu cada pequeno recanto, cada vale ou simples depressão, trepando pela encosta, engolindo árvores, empurrando a fauna encosta acima, ao mesmo tempo que, formando um novo habitat, passou a acolher uma grande variedade de criaturas aquáticas onde se incluiam crocodilos que aos poucos, embora não se deixassem ver, se foram instalando. Simultaneamente, as cascatas que, segundo se diz, por ali existiam e que terão dado nome ao local – mabubas, é o termo em quimbundo que significa isso mesmo - desapareceram abafadas naquela imensidão líquida.
Nunca me deu para explorar a albufeira ou então andei distraído e não soube aproveitar uma das muitas oportunidades para o fazer. Sei, porque se dizia e quem conhecia garantia, que a viagem de bote, seguindo a direito desde o paredão até à embocadura do rio, levava bem mais de uma hora e explorar todos os recantos, enseadas e recortes era tarefa para levar dias, dependendo das voltas que se dessem. Do meu ponto de vista, os verdadeiros conhecedores, aqueles que dominavam todos os segredos, todos os recantos, meandros e esconderijos daquele imenso lago artificial, seriam certamente o Sr. Tomé e o Gasolina, seu homem de confiança. O Sr. Tomé tinha um barquito, uma pequena canoa a que eufemisticamente dera o nome de “Foz do Arelho”, certamente em memória da sua terra natal onde ainda vive segundo julgo saber. Era no “Foz do Arelho” que fazia as inspecções à barragem, que se aventurava em caçadas nocturnas às pacaças e se dedicava à pesca, lançando as suas redes onde, certa vez, um crocodilo se deixou enlear morrendo afogado. É verdade, os crocodilos podem morrer afogados se forem impedidos de emergir.
Crocodilos, como se sabe, era bicho que abundava nas chanas do Cuando, lá para os lados do Rivungo. Mas aí, eram conhecidos por jacarés. Aos que habitavam a barragem, chamavam crocodilos. É verdade que crocodilos não são jacarés e estes não podem ser chamados de crocodilos, sendo certo que nunca me deu para tentar perceber a diferença. Seja como for, o facto é que me habituei à ideia de que, fossem eles elegantes crocodilos ou poderosos jacarés, uns e outros, abundavam onde houvesse água e isso era coisa que não faltava num lado e no outro. Aqui, aprisionada pelo amplexo da barragem; lá longe, livre e pachorrenta, passeando-se pelos sinuosos meandros do grande rio, espraiando-se pelas chanas pantanosas, apoderando-se de grandes extensões daquelas imensas planuras, cortando caminhos e picadas mas pincelando de verde aquelas paisagens agrestes. Quanto aos ditos bichos, ainda hoje não sei se os do Cuando, chamados de jacarés, o eram de facto ou se estou a cometer uma gafe aceitando que os da barragem eram crocodilos. Por mim, prefiro outras companhias, já que aqueles que conheci nas chanas pantanosas do Rivungo nunca me pareceram amistosos.
De qualquer forma, esse mundo selvagem, hostil mas de beleza feérica, ficara para trás, lá bem longe, perdido na savana e era certo que nunca mais para lá voltaríamos.
A realidade agora era a paz das Mabubas com todo aquele fulgente lençol de água a perder de vista: era fresca, tinha peixe que permitia um entretém relaxante, verdadeiro refrigério de ressacas ou maus humores, um passatempo para quem não tinha com que se entreter. Até eu, que nunca consegui arranjar paciência para a pesca, cheguei a munir-me de uma cana improvisada, atei-lhe uma linha e num domingo à tarde, sem nada para fazer, lancei umas duas ou três vezes o anzol e fui dando que fazer à paciência por umas horas. Não pesquei coisa nenhuma, verdade seja dita e apenas a cavaqueira com os parceiros de ocasião acabou por ser o único proveito que obtive.
Dos crocodilos das Mabubas pouco se sabia e creio que muitos nem se aperceberam de que os havia. Mas o ZIP ficou com a certeza de que tais bichos andavam por ali e de tal forma que, creio, nunca mais se esqueceu disso. O Marcelino era um soldado condutor, baixote, um tanto ou quanto franzino, a quem, por razões que não retenho, todos chamavam de Zip Zip, epíteto que se lhe colou de tal forma à pele que, ainda hoje, mais de quarenta anos volvidos, continua a sobrepor-se ao seu nome de baptismo do qual poucos se lembrarão.
Pois bem, o Zip inscreveu-se e participou numa prova de natação integrada num conjunto de eventos que preparámos para comemorar o aniversário da companhia. Não sei se se dispôs a ganhar a prova, mas o facto é que se aplicou, num esforço estrénuo, em braçadas vigorosas, rodando a cabeça ao ritmo das braçadas, de um lado para o outro, num estilo próprio de quem aprendeu a manter-se à tona deixando a técnica para depois. E naquele afã de quem procura medir a distância e avaliar quanto faltava para a meta, descortinou algures lá para trás a cabeça de um crocodilo aflorando a superfície reluzente da água.
O redobrado vigor que imprimiu às braçadas não deixou margem para dúvidas: o Zip deduziu que o bicho o perseguia. Provavelmente imaginando-se a ser abocanhado, reuniu as forças que lhe restavam, sacou do seu melhor crawl e num ápice alcançou a margem. Ofegante com os bofes a saltarem pela boca, mas na segurança de terra firme, olhou para trás como a querer certificar-se se de facto fora mais rápido que o bicho. Mas este desparecera.
Ainda hoje, desconfio que o crocodilo nem chegou a esboçar qualquer ataque. O bulício circundante afugentara-o naturalmente e submergiu desaparecendo nas frescas águas. Se calhar, nem deu pela presença do Zip; ou então, terá decidido que era coisa que não justificava um esforço.
A existência das Mabubas deve-se, seguramente, à barragem. Construída no exacto local onde o rio Dande estreitava espremido no fundo de uma garganta rochosa, aprisionou as águas que rapidamente encheram a grande albufeira, cobrindo toda uma extensa área de mato que desapareceu submerso naquela imensidão de água que invadiu cada pequeno recanto, cada vale ou simples depressão, trepando pela encosta, engolindo árvores, empurrando a fauna encosta acima, ao mesmo tempo que, formando um novo habitat, passou a acolher uma grande variedade de criaturas aquáticas onde se incluiam crocodilos que aos poucos, embora não se deixassem ver, se foram instalando. Simultaneamente, as cascatas que, segundo se diz, por ali existiam e que terão dado nome ao local – mabubas, é o termo em quimbundo que significa isso mesmo - desapareceram abafadas naquela imensidão líquida.
Nunca me deu para explorar a albufeira ou então andei distraído e não soube aproveitar uma das muitas oportunidades para o fazer. Sei, porque se dizia e quem conhecia garantia, que a viagem de bote, seguindo a direito desde o paredão até à embocadura do rio, levava bem mais de uma hora e explorar todos os recantos, enseadas e recortes era tarefa para levar dias, dependendo das voltas que se dessem. Do meu ponto de vista, os verdadeiros conhecedores, aqueles que dominavam todos os segredos, todos os recantos, meandros e esconderijos daquele imenso lago artificial, seriam certamente o Sr. Tomé e o Gasolina, seu homem de confiança. O Sr. Tomé tinha um barquito, uma pequena canoa a que eufemisticamente dera o nome de “Foz do Arelho”, certamente em memória da sua terra natal onde ainda vive segundo julgo saber. Era no “Foz do Arelho” que fazia as inspecções à barragem, que se aventurava em caçadas nocturnas às pacaças e se dedicava à pesca, lançando as suas redes onde, certa vez, um crocodilo se deixou enlear morrendo afogado. É verdade, os crocodilos podem morrer afogados se forem impedidos de emergir.
A realidade agora era a paz das Mabubas com todo aquele fulgente lençol de água a perder de vista: era fresca, tinha peixe que permitia um entretém relaxante, verdadeiro refrigério de ressacas ou maus humores, um passatempo para quem não tinha com que se entreter. Até eu, que nunca consegui arranjar paciência para a pesca, cheguei a munir-me de uma cana improvisada, atei-lhe uma linha e num domingo à tarde, sem nada para fazer, lancei umas duas ou três vezes o anzol e fui dando que fazer à paciência por umas horas. Não pesquei coisa nenhuma, verdade seja dita e apenas a cavaqueira com os parceiros de ocasião acabou por ser o único proveito que obtive.
Dos crocodilos das Mabubas pouco se sabia e creio que muitos nem se aperceberam de que os havia. Mas o ZIP ficou com a certeza de que tais bichos andavam por ali e de tal forma que, creio, nunca mais se esqueceu disso. O Marcelino era um soldado condutor, baixote, um tanto ou quanto franzino, a quem, por razões que não retenho, todos chamavam de Zip Zip, epíteto que se lhe colou de tal forma à pele que, ainda hoje, mais de quarenta anos volvidos, continua a sobrepor-se ao seu nome de baptismo do qual poucos se lembrarão.
Pois bem, o Zip inscreveu-se e participou numa prova de natação integrada num conjunto de eventos que preparámos para comemorar o aniversário da companhia. Não sei se se dispôs a ganhar a prova, mas o facto é que se aplicou, num esforço estrénuo, em braçadas vigorosas, rodando a cabeça ao ritmo das braçadas, de um lado para o outro, num estilo próprio de quem aprendeu a manter-se à tona deixando a técnica para depois. E naquele afã de quem procura medir a distância e avaliar quanto faltava para a meta, descortinou algures lá para trás a cabeça de um crocodilo aflorando a superfície reluzente da água.
O redobrado vigor que imprimiu às braçadas não deixou margem para dúvidas: o Zip deduziu que o bicho o perseguia. Provavelmente imaginando-se a ser abocanhado, reuniu as forças que lhe restavam, sacou do seu melhor crawl e num ápice alcançou a margem. Ofegante com os bofes a saltarem pela boca, mas na segurança de terra firme, olhou para trás como a querer certificar-se se de facto fora mais rápido que o bicho. Mas este desparecera.
Ainda hoje, desconfio que o crocodilo nem chegou a esboçar qualquer ataque. O bulício circundante afugentara-o naturalmente e submergiu desaparecendo nas frescas águas. Se calhar, nem deu pela presença do Zip; ou então, terá decidido que era coisa que não justificava um esforço.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Brincadeiras de miúdos
A nossa estada nas Mabubas corria de feição. Na verdade corria tudo tão bem que quase já ninguém se lembrava das agruras passadas na Neriquinha e na aridez da savana que a circundava. Mas isso era apenas ilusão. Aqueles tempos marcaram-nos, colaram-se-nos à pele, encafuaram-se nos escaninhos da memória de forma tão intensa que bastava qualquer coisa insignificante, mesmo que nada tivesse a ver com aquilo, para que as imagens daquelas areias escaldantes e daquelas gentes, saltassem do patamar mais fundo do baú de memórias para a superfície, desembrulhando-se em imagens coloridas que, sobrepondo-se à nossa quotidiana vontade, impunham a sua presença.
Nas Mabubas havia miúdos, como em qualquer lugar. Uns pretos, outros brancos, uns quantos mais reguilas que outros, uns mais pequenos e outros mais crescidotes, mas todos alegres, vivaços, umas vezes rindo outras chorando, mas felizes e irrequietos como naturalmente são os miúdos. Perante a sua natural algaraviada, veio-me instintivamente à memória a imagem dos putos da Neriquinha: todos eles pretos, nus, descalços, sujos, ranhosos e deserdados da sorte, mas igualmente alegres, irrequietos e felizes com a vida que tinham, até porque não conheciam outra.
Qualquer coisa lhes servia para preencher o seu imaginário mundo de fantasia, os seus entreténs e brincadeiras; os da Neriquinha com meios mais limitados e estes, os das Mabubas, naturalmente com acesso a outras coisas, variando os passatempos em função do que, quer uns quer outros, conseguissem arranjar. Aqueles, lá nos confins da savana, via-os brincar com as pequenas coisas que encontravam na mata, aos quais, aos poucos, foram juntando os artefactos que, com a chegada da tropa, foram aparecendo como novidades a que naturalmente não resistiam. Em contraponto, estes, os das Mabubas, embora não desdenhando coisas semelhantes, acrescentavam-lhe os brinquedos comprados nas lojas a que tinham acesso e que, lá nos confins do território, não existiam.
Mas vamos ao que interessa. Para um miúdo, qualquer coisa, mesmo que insignificante ou inútil, serve os propósitos de uma brincadeira: de uma meia fazem uma bola, uma lata dará um potente carro, a imaginação fará de um qualquer pau uma poderosa excalibur e uma simples caixa de cartão pode perfeitamente fazer a vez de um castelo. Nas Mabubas, um dos putos entre os demais, resolveu fazer isso mesmo. Encontrou uma caixa de cartão suficientemente grande, imaginou-a o seu castelo e meteu-se lá dentro entretendo-se, no seu mundo de fantasia, a congeminar planos de governo e estratégias de defesa de torreões virtuais.
Não sei se apenas se meteu dentro da caixa no exacto lugar onde a encontrou ou se decidiu ser aquele o melhor local para instalar a fortaleza, ali, mesmo no meio da rua, mais ou menos antes da curva que antecedia o último troço que levava ao paredão da barragem, por alturas das oficinas auto.
O trânsito era raro, quase inexistente. Os carros, militares ou civis, apenas eram utilizadas quando fosse estritamente necessário, onde não se incluía cirandar pelo povoado e, talvez por isso, a natural irresponsabilidade infantil daquela como de todas as crianças, não encerrava, naquele caso, um perigo iminente. O mais certo era fartar-se da brincadeira e, mais cedo do que se poderia pensar, abandonaria a fortaleza de cartão antes que um carro, por qualquer razão inesperada, por ali circulasse. E mesmo que tal viesse a acontecer, o tamanho da caixa era suficientemente grande para poder ser avistada ao longe por qualquer condutor. De facto, estar a brincar no meio da rua, naquela rua, não era perigo que causasse alarme ou preocupação de maior.
Mas, (há sempre um mas) as coisas não correram assim. Sendo o trânsito quase inexistente, contudo, havia viaturas nas Mabubas e não apenas as da tropa como acontecia na Neriquinha. E circulavam, pouco, mas circulavam. Cada família tinha o seu carro e havia ainda o Land Rover que diariamente o senhor Tomé, responsável pela Barragem, utilizava sempre que descia à central localizada a jusante do paredão, até porque, para lá chegar, haveria que percorrer um íngreme caminho que, descendo pela encosta, morria frente ao edifício da central construído à beira do rio que ali recebia as águas que, chutadas pelas pás das turbinas, eram de novo devolvidas ao rio que as acolhia num marulhar de boas vindas.
Naquele fim de dia, ao volante do Land Rover, o senhor Tomé regressava exactamente da central depois de lá ter passado toda a tarde na sua função de responsável máximo pelo perfeito funcionamento de toda aquela maquinaria. Subiu a encosta, atravessou o paredão e sem pressa, que o tempo não urgia, galgou o pedaço de rua que subia até à curva onde o miúdo se entretinha fora das vistas de quem por ali passasse.
Para o senhor Tomé, aquilo que se lhe deparou não passava de uma simples caixa de cartão, um pouco grande, mas não mais do que isso. Mentalmente questionou-se sobre o local pouco próprio para alguém largar tal coisa. Certamente estaria vazia, terá pensado, admitindo, por simples razão de lógica, que qualquer coisa a empurrara para ali. Provavelmente o vento, não obstante não se lembrar de o ter sentido soprar em todo aquele tórrido dia que nenhuma aragem fizera refrescar.
Continuou a direito decidido a passar-lhe por cima. Era de cartão, o Land Rover facilmente a esmagaria e, assim sendo, mesmo que continuasse no meio da rua já não seria obstáculo. Encarregaria depois o Gasolina, um negro taludo, seu subordinado, um pouco o faz tudo por ali, de a ir retirar. Afinal, que importância tinha uma simples caixa de cartão?
Avançou, sempre a direito, naquele vagar embalado pelo som rítmico e indolente do motor do Land Rover, pensando mais num quase nada de tudo e menos naquela caixa que inexplicavelmente se mantinha imóvel à sua frente.
Contudo, quase no último momento, quando faltava para aí uma escassa meia dúzia de metros para o embate, uma espécie de sexto sentido, um sinal, um quase impulso gritado silenciosamente pelo seu bom senso, fê-lo rodar ligeiramente o volante levando a carripana a passar de lado quase roçando a caixa, mas sem lhe tocar.
Quando ficou lado a lado, olhou instintivamente para dentro da caixa. O miúdo, sentado lá no fundo, entretido com as suas brincadeiras, mirou-o com um sorriso gaiato como se lhe dissesse: - gostas do meu castelo?
O sangue, como que se lhe gelou nas veias, o coração quase parou para de seguida sair disparado num bater alucinado de quem acaba de apanhar o maior susto da sua vida. Parou perto de nós, saiu do carro lívido e com voz trémula, titubeou: - Quase matava o miúdo!
Não foi nada comigo, mas ainda hoje, evito passar por cima de qualquer coisa que me apareça no meio da estrada.
Nas Mabubas havia miúdos, como em qualquer lugar. Uns pretos, outros brancos, uns quantos mais reguilas que outros, uns mais pequenos e outros mais crescidotes, mas todos alegres, vivaços, umas vezes rindo outras chorando, mas felizes e irrequietos como naturalmente são os miúdos. Perante a sua natural algaraviada, veio-me instintivamente à memória a imagem dos putos da Neriquinha: todos eles pretos, nus, descalços, sujos, ranhosos e deserdados da sorte, mas igualmente alegres, irrequietos e felizes com a vida que tinham, até porque não conheciam outra.
Qualquer coisa lhes servia para preencher o seu imaginário mundo de fantasia, os seus entreténs e brincadeiras; os da Neriquinha com meios mais limitados e estes, os das Mabubas, naturalmente com acesso a outras coisas, variando os passatempos em função do que, quer uns quer outros, conseguissem arranjar. Aqueles, lá nos confins da savana, via-os brincar com as pequenas coisas que encontravam na mata, aos quais, aos poucos, foram juntando os artefactos que, com a chegada da tropa, foram aparecendo como novidades a que naturalmente não resistiam. Em contraponto, estes, os das Mabubas, embora não desdenhando coisas semelhantes, acrescentavam-lhe os brinquedos comprados nas lojas a que tinham acesso e que, lá nos confins do território, não existiam.
Mas vamos ao que interessa. Para um miúdo, qualquer coisa, mesmo que insignificante ou inútil, serve os propósitos de uma brincadeira: de uma meia fazem uma bola, uma lata dará um potente carro, a imaginação fará de um qualquer pau uma poderosa excalibur e uma simples caixa de cartão pode perfeitamente fazer a vez de um castelo. Nas Mabubas, um dos putos entre os demais, resolveu fazer isso mesmo. Encontrou uma caixa de cartão suficientemente grande, imaginou-a o seu castelo e meteu-se lá dentro entretendo-se, no seu mundo de fantasia, a congeminar planos de governo e estratégias de defesa de torreões virtuais.
Não sei se apenas se meteu dentro da caixa no exacto lugar onde a encontrou ou se decidiu ser aquele o melhor local para instalar a fortaleza, ali, mesmo no meio da rua, mais ou menos antes da curva que antecedia o último troço que levava ao paredão da barragem, por alturas das oficinas auto.
O trânsito era raro, quase inexistente. Os carros, militares ou civis, apenas eram utilizadas quando fosse estritamente necessário, onde não se incluía cirandar pelo povoado e, talvez por isso, a natural irresponsabilidade infantil daquela como de todas as crianças, não encerrava, naquele caso, um perigo iminente. O mais certo era fartar-se da brincadeira e, mais cedo do que se poderia pensar, abandonaria a fortaleza de cartão antes que um carro, por qualquer razão inesperada, por ali circulasse. E mesmo que tal viesse a acontecer, o tamanho da caixa era suficientemente grande para poder ser avistada ao longe por qualquer condutor. De facto, estar a brincar no meio da rua, naquela rua, não era perigo que causasse alarme ou preocupação de maior.
Mas, (há sempre um mas) as coisas não correram assim. Sendo o trânsito quase inexistente, contudo, havia viaturas nas Mabubas e não apenas as da tropa como acontecia na Neriquinha. E circulavam, pouco, mas circulavam. Cada família tinha o seu carro e havia ainda o Land Rover que diariamente o senhor Tomé, responsável pela Barragem, utilizava sempre que descia à central localizada a jusante do paredão, até porque, para lá chegar, haveria que percorrer um íngreme caminho que, descendo pela encosta, morria frente ao edifício da central construído à beira do rio que ali recebia as águas que, chutadas pelas pás das turbinas, eram de novo devolvidas ao rio que as acolhia num marulhar de boas vindas.Naquele fim de dia, ao volante do Land Rover, o senhor Tomé regressava exactamente da central depois de lá ter passado toda a tarde na sua função de responsável máximo pelo perfeito funcionamento de toda aquela maquinaria. Subiu a encosta, atravessou o paredão e sem pressa, que o tempo não urgia, galgou o pedaço de rua que subia até à curva onde o miúdo se entretinha fora das vistas de quem por ali passasse.
Para o senhor Tomé, aquilo que se lhe deparou não passava de uma simples caixa de cartão, um pouco grande, mas não mais do que isso. Mentalmente questionou-se sobre o local pouco próprio para alguém largar tal coisa. Certamente estaria vazia, terá pensado, admitindo, por simples razão de lógica, que qualquer coisa a empurrara para ali. Provavelmente o vento, não obstante não se lembrar de o ter sentido soprar em todo aquele tórrido dia que nenhuma aragem fizera refrescar.
Continuou a direito decidido a passar-lhe por cima. Era de cartão, o Land Rover facilmente a esmagaria e, assim sendo, mesmo que continuasse no meio da rua já não seria obstáculo. Encarregaria depois o Gasolina, um negro taludo, seu subordinado, um pouco o faz tudo por ali, de a ir retirar. Afinal, que importância tinha uma simples caixa de cartão?
Avançou, sempre a direito, naquele vagar embalado pelo som rítmico e indolente do motor do Land Rover, pensando mais num quase nada de tudo e menos naquela caixa que inexplicavelmente se mantinha imóvel à sua frente.Contudo, quase no último momento, quando faltava para aí uma escassa meia dúzia de metros para o embate, uma espécie de sexto sentido, um sinal, um quase impulso gritado silenciosamente pelo seu bom senso, fê-lo rodar ligeiramente o volante levando a carripana a passar de lado quase roçando a caixa, mas sem lhe tocar.
Quando ficou lado a lado, olhou instintivamente para dentro da caixa. O miúdo, sentado lá no fundo, entretido com as suas brincadeiras, mirou-o com um sorriso gaiato como se lhe dissesse: - gostas do meu castelo?
O sangue, como que se lhe gelou nas veias, o coração quase parou para de seguida sair disparado num bater alucinado de quem acaba de apanhar o maior susto da sua vida. Parou perto de nós, saiu do carro lívido e com voz trémula, titubeou: - Quase matava o miúdo!
Não foi nada comigo, mas ainda hoje, evito passar por cima de qualquer coisa que me apareça no meio da estrada.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
A MACHAMBA DO MATACANHA
Até ao momento das minhas primícias africanas, pelo menos até tomar consciência do seu significado, tinha a ideia preconcebida de que, naquela terra, tudo medrava e crescia com inusitado vigor. Até os putos ali nascidos, dizia-se, começam a andar pouco depois de paridos. Lembro-me, até, de me ter convencido de que, se atirasse para o lado o cocuruto folhoso de um ananás acabadinho de comer, nasceria uma nova planta no local onde caísse. E isso sem a necessidade de quaisquer cavadelas ou cuidados de maior. Bastaria o calor africano e água com fartura, coisas que, naquelas paragens, o céu oferecia em abundância.
Desiludi-me perante a aridez da savana onde apenas medravam uns esquisitos frutos selvagens que nunca antes havia visto ou ouvido falar e, mesmo esses, só por uma ou outra vez os avistei. Ainda assim, a exuberância produtiva da nossa horta na Neriquinha não deixou de me causar espanto.Quando comecei a conhecer as Mabubas e arredores, acabei por acreditar que a imaginada maravilha que fazia as coisas desabrocharem e crescer com tamanho viço e espontaneidade, seria, afinal, verdadeira. Aqui e ali, nos locais mais inesperados, cresciam árvores de fruto. Certamente nasceram e cresceram, de forma espontânea, no local onde ganhou raiz a semente que para ali caíra. Veja-se a enorme mangueira carregadinha de frutos à beira do caminho frente à entrada da nossa camarata. Não me lembro de ver alguém comer uma só daquelas mangas, nem os putos. Provavelmente eram pouco doces ou demasiado pequenas, mas não creio que tenha ali sido plantada por alguém. O mesmo não se poderá dizer de uma outra, mais nova, existente nas traseiras da messe de sargentos. As mangas, visivelmente maiores e dependuradas em cachos, exibiam aquela apetecível cor rosada que prometia uma doçura superior.
A machamba do Matacanha era um dos exemplos mais expressivos da fecúndia daquela terra. Coisa pequena que nunca poderia ser chamada de fazenda, especialmente depois de se conhecer a imensidade da fazenda Alice e das suas extensões de laranjais a perder de vista. Na verdade, comparar a duas coisas seria ridículo. Ao lado da grande fazenda, pouco mais era que uma pequena horta e, por isso, o mais apropriado era mesmo chamar-lhe de machamba. O seu proprietário, mais conhecido por Matacanha, aproveitou a proximidade da água da barragem e lavrou o terreno fértil, ali plantando bananeiras e mamoeiros até ao limite possível da linha sinuosa que confinava com os recortes da albufeira.
O Matacanha era um homem singular e estranho. Velho, muito velho, pelo menos assim parecia, vivia sozinho. Não lhe conheci família e nunca o vi na companhia de mais ninguém que não fosse os seus empregados negros, poucos, que com ele tratavam da plantação. Vestia roupa de aspecto delido que parecia ser sempre a mesma, incluindo o cordel de fio de sisal com que sustinha as calças que ameaçavam querer fugir do laço apertado que fazia a vez de cinto. Calçava uns chanatos que mal cobriam a sola dos pés deixando a descoberto as calosidades gretadas por anos e anos de maus tratos, ficando sempre a dúvida se o seu vagaroso e bamboleante andar era resultado da precariedade do calçado ou consequência da idade e do reumático que parecia afligi-lo.
Deslocava-se sempre montado na sua motorizada, de aspecto tão velho quanto o do dono, uma zundap de primeira geração que só a ausência de maus tratos a mantinha a funcionar, que o Matacanha não era homem dado a velocidades, mais parecendo ser o velocípede a decidir o andamento imposto pelo indolente ronronar do cansado motor. A moteca, essa, retribuía a compreensão do dono transportando-o para onde fosse preciso, desde que a viagem não fosse além do Caxito, pequena vila ali perto que constituía a única urbe das redondezas.
De vez em quando, descia ao povoado ou, indo mais longe, deslocava-se ao Caxito, mais para receber as encomendas ou a paga da banana e dos mamões que vendia à tropa, seus clientes principais, que também se encarregavam, eles próprios, de fazer o transporte do produto, poupando ao hortelão o serviço de entregas que não tinha condições de satisfazer. E a tropa agradecia; bananas acabadinhas de colher vindas directamente do produtor até à mesa do refeitório, era luxo a que não estávamos habituados, tanto mais que o escudo cobrado por cada quilo, fosse ele de bananas ou de mamão doce e sumarento, era preço que não tinha concorrência em lugar nenhum.
Certo dia, fui à sua plantação. Decidi comprar-lhe umas bananas para, aproveitando uma ida a Luanda, oferecê-las a uns primos meus que lá residiam. Encontrei-o no meio do bananal acompanhado por dois dos seus empregados que pressurosamente faziam chegar a cada planta a água que, chupada da barragem por um motor de rega, corria com abundância por entre os regos.
- Escolha um, leve o que quiser! E apontava, brandindo um singelo pau, com uma forquilha na ponta, que nunca largava, especialmente quando andava pela machamba. Era, dizia, a sua defesa contra as cobras que por ali rastejavam. Usando a forquilha, entalava-as contra o solo até as matar, sufocando-as.
- Quanto lhe devo? Perguntei enquanto vasculhava os bolsos à procura do dinheiro.
- Isso é uma coisa de nada! Leve lá as bananas e que façam bom proveito aos seus primos.
Voltei mais vezes e de cada vez carreguei um cacho de bananas com algumas já a luzir anunciando a maturação iminente. Em todas elas, o Matacanha nunca quis receber dinheiro. Fazendo um gesto amplo com o pau anti cobras, como que querendo abarcar todo o bananal, rematava.
- Tenho muitas! Isso não é nada.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Praias, laranjais e palmeiras
Era uma espécie de predestinação a que a malta já se habituara. A partir do momento em que aterrámos nas Terras-do-Fim-do-Mundo, um montinho de gente, dos nossos, foi apartado do grupo principal e mandado guarnecer, proteger ou ocupar um posto afastado. No Cuando Cubango era o Rivungo. Um pelotão, à vez, e com rotações trimestrais, esteve sempre ali destacado, deixando a Neriquinha desfalcada de homens e materiais. Não é que a passagem pelo Rivungo fosse indesejável, mas a verdade é que, cerca de trinta homens estavam sempre separados do grupo principal. É claro que isso trazia vantagens, na medida em que permitia, com menor esforço, garantir uma melhor cobertura da imensidão de savana que nos competia calcorrear. Ali tudo era longe, estéril e hostil, não obstante a singular feeria daquelas imensas planuras a exigir temporais de trabalhos intervalados com a oferenda de bonanças fotográficas.Resgatados que fomos da savana e acolhidos por umas Mabubas bonançosas de travo doce e recebidos por gente simpática e hospitaleira, sempre se pensou que, desta vez, ficaríamos todos juntos; ou melhor, se calhar ninguém pensou nisso; habituados que estávamos a cumprir ordens, ia-se para onde nos levassem sem refilar, com aquela certeza de que qualquer outro lugar seria certamente melhor do que a nossa moradia dos últimos dezoito meses.
No que respeita a mantermo-nos todos juntos, não seria assim. Parece que uma alteração na estratégia de colocação de tropas terá determinado que o enquadramento da pequena vila do Ambriz se bastaria com um simples grupo de combate e como, pelos vistos, a nossa companhia estaria mais desafogada, foi esta a disponibilizar esse pequeno contingente. Está, então, explicada uma das vertentes da nova actividade operacional da companhia: zelar pela vila do Ambriz. Nunca lá fui e por isso, não conhecendo o local nem o que por lá se fazia, não posso adiantar nada acerca de como ocupavam o tempo. Sei, contudo que, patrulhas na mata não faziam parte das suas tarefas, sendo levado a concluir que, pelo menos nas folgas, dariam um saltinho à praia, ali à beirinha da vila. Como se vê e outra coisa não seria de esperar, muito melhor que no Rivungo.
Tirando isso, a missão da companhia, bem se pode resumir em três capítulos específicos: guarnecer a localidade, dar protecção à barragem e garantir a permanência de uma força, não uma grande força, apenas um punhado de homens, numa grande fazenda ali perto, no outro lado do rio Dande.
Guarnecer ou, se se quiser, garantir a permanência de tropas nas Mabubas, nem sequer podia ser considerado uma missão. Estar naquele simpático sítio era, por si só, um privilégio, longe da guerra e na companhia de boa gente. Para quem se habituara a viver com quase nada, isso era quase tudo.
A protecção à barragem, de facto, poderia ser uma carga de trabalhos. Bastaria olhar para a altura do paredão que retinha aquela imensidão de água e a fragilidade da localização da central hidroeléctrica, a jusante, lá em baixo, desprotegida e à mercê do que quer que a pudesse ameçar. Contudo, toda aquela zona estava bem protegida; uma tripla vedação, cada uma com três correntezas de arame farpado, sustidas por estacas sólidas de betão, constituíam uma quase intransponível barreira, tanto mais que, a fiada do meio, mais baixa que as demais, estava electrificada. A forma como ficavam esturricados os animais que, ignorando o perigo, se atreviam a passar por ali, era demonstração mais do que evidente da eficácia daquela protecção. E energia eléctrica era coisa que ali não faltava. Como se vê, podiam dispensar-se sentinelas; na Neriquinha, faltava electricidade e os quartos de sentinela, sempre cumpridos com resmoneios, eram dos trabalhos mais detestados. Só por isso, as Mabubas começaram logo por ser amadas.
Resta então, como verdadeira actividade operacional, a tarefa de zelar pela segurança da fazenda. Não ficava longe. Descia-se em direcção ao Sassa e tomava-se a estrada que levava ao Úcua e a Quibaxe, virando pouco depois para a picada que, correndo paralela ao Dande, se estendia irregular até penetrar no casario principal da fazenda. Pouco mais de quinze minutos mas nunca mais de meia hora, era o tempo necessário para percorrer a distância. Um nada quando comparado com todas aquelas horas que se levava a percorrer qualquer distância lá para os lados das savanas da Neriquinha.Da fazenda apenas retenho que era muito extensa e que ali se produziam frutos, fundamentalmente laranjas, muitas. Também ali cresciam palmeiras dendeseiras, cultura a que se dedicavam, em maior ou menor grau, todas as fazendas das redondezas. Alias, a extracção de óleo de palma ou, como é mais conhecido, óleo de dem-dem, era uma indústria que por ali florescia. Mas, de facto, o que a minha memória preservou, quase que só se resume a montanhas de laranjas, prontas para serem processadas, colhidas por bandos de negros nos extensos laranjais espalhados pelos terrenos da fazenda cuja segurança nos calhou em sorte, assegurar.
Nunca cheguei a conhecer os pormenores dos planos estratégicos que norteavam a nossa missão ali, mas isso nunca foi coisa que preocupasse ninguém. Na prática, executavam-se uns quantos patrulhamentos seguidos da preparação de emboscadas para descansar o corpo. Contudo, creio que, no fundamental, o que mais importava era marcar presença, deixar bem visível que a fazenda tinha em permanência uma força militar armada, anulando qualquer intensão ou veleidade do inimigo que nunca chegámos a conhecer e que suponho não andaria pelas redondezas.No regresso, lembro-me, deixavam-nos trazer as laranjas que quiséssemos. Escolhíamo-las de uma quase montanha delas empilhadas debaixo de um telheiro. De uma das vezes que lá fui, trouxe o bornal cheiinho. Por algum tempo o meu quarto ficou decorado a laranjas doces e sumarentas que iam desaparecendo ao ritmo da sede e da gula.
É verdade, confirmavam-se as nossas primeiras impressões: o cheiro da guerra, a solidão e as provações, tinham acabado. Por mim, quase arrumei a G3. Houve alturas em que cheguei a pensar que valeu a pena ter sofrido na pele as agruras e tormentos daquela terra selvagem para, agora, poder ser compensado com esta vida bonançosa.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Descobrindo as Mabubas
Quando retornei à minha novel e confortável acomodação,
depois daquele jantar de reconciliação com a civilização, estendi-me ao
comprido e só acordei no dia seguinte o sol ia já bem alto. Dormi que nem um justo
que é como quem diz, com força. O corpo assim o exigiu e nem sequer esbocei o
mínimo gesto para o contrariar. E para quê fazê-lo se o efeito devastador dos
últimos cinco dias passados naquela interminável e esgotante viagem à torreira
do sol, sem ter dormido de jeito uma só noite, exigia reparação adequada? O
banho revigorante, o lauto jantar e o conforto fofo da cama compuseram o
lenitivo final. Se a tudo isto juntarmos o sossego e o recato do quarto que as
portadas das janelas fechadas protegiam da luminosidade daquele sol sempre
madrugador e a ausência do normal rebuliço de uma camarata, compreende-se
melhor o despertar tardio, pelo menos fora daquilo que era suposto serem os
horários militares. O facto é que, sem nada que viesse interromper o sono, o
descanso acabou por se prolongar para além da hora regulamentar. Na Neriquinha
isso seria impossível; dormindo todos na exígua camarata, acordar cedo era
coisa perfeitamente natural e inevitável, por oposição a estas novas
instalações que, localizadas fora do núcleo central da urbe, garantiam sossego
total.
Levantei-me, fresco e quase recuperado. Vesti a farda de
serviço, passei pela messe, engoli um naco de qualquer coisa a título de
pequeno-almoço e cuidei de saber das ordens que regeriam o novo dia das nossas
vidas. Coisa inútil e desnecessária, já que, na tropa, espera-se que alguém dê
as ordens, não se anda, feito otário, à procura delas. Mas, como é óbvio,
precisava saber se tinha ou não liberdade para matar a curiosidade e descobrir tudo
o que por ali havia, especialmente a barragem de que tanto ouvira falar.
Mabubas era assim
como um bocadinho do céu no meio daquele imenso território. Existia e crescera por
efeito da barragem hidroeléctrica que dominava tudo o que antes fora uma parte
do extenso vale do rio Dande e albergava ainda a Companhia de Cerâmica de
Angola (CCA). A primeira, produzia electricidade e a segunda, loiça sanitária,
fábrica que, se não era a única do género, era seguramente a maior da então
província de Angola. Consequentemente, a maioria dos habitantes daquela
interessante comunidade ou eram funcionários da barragem ou técnicos e
operários da fábrica de cerâmica e correspondentes famílias. Um restaurante,
uma mercearia e uma sala de cinema, compunham o resto, coisas que, onde vive
gente, acabam sempre por aparecer.
A parte interessante foi confirmar que ali não havia
quartel. Pelo menos daqueles a que sempre nos habituámos, muralhados e dotados
de guaritas e porta de armas com sentinela e tudo, como era o caso do quartel
do Caxito ali bem pertinho, cuja fortificação me chamara a atenção quando por
lá passámos no dia anterior a caminho deste nosso novo recanto. Estranhei de
facto e não era para menos, até então, habituara-me a que a tropa, estivesse
onde estivesse, ficava sempre confinada a uma área específica, normalmente
delimitada por muros ou arame farpado. Mas não ali, nas Mabubas, as instalações
da tropa estavam dispersas por toda a localidade à mistura com tudo o resto, ocupando
as casas, os barracões, as arrecadações e armazéns disponíveis.
Da estrada que, proveniente do Caxito, seguia para norte em
direcção a Quicabo e a Nambuangongo, nascia o troço de estrada descendente que
penetrava localidade adentro. Interrompido à entrada por uma cancela
basculante, espécie de checkpoint para
controlo de quem chegava, transformava-se, a partir daí, na rua central que, dividindo
a urbe ao meio se prolongava até morrer à entrada do paredão da barragem. Quem entrava,
logo a seguir ao posto de controlo, encontrava, do lado esquerdo, o barracão do
cinema e logo abaixo, à direita, o bar restaurante. A partir daí, uma correnteza
de casas de cada lado dava aquele ar aconchegante e familiar de aldeia. Do lado
direito, construídas ao comprido, acompanhando a rua e com telhado comum,
contavam-se quatro casas cada uma com o seu alpendre; a primeira era, de facto,
a residência de um trabalhador da cerâmica e sua família. Contudo, entre esta e
a do Sr. Almeida, funcionário da barragem, ficava a messe de sargentos,
ali metida no meio. A messe de oficiais ocupava a quarta e última da
correnteza, com vista para a parada, frente ao edifício do comando. No lado
esquerdo da rua, emparceirando com as outras, quatro casas idênticas compunham
a moradia de outras tantas famílias.
Esta agradável anarquia, contrária ao rigor e organização de
todas as instalações militares que conheci, verificava-se em tudo o mais; frente
ao edifício do comando, no outro lado da praça, nascia uma escadaria que levava
à cantina e, nas imediações, a camarata dos soldados, a cozinha e o refeitório.
Noutro espaço, do lado esquerdo quem desce, ocupando outro barracão, ficavam as
oficinas auto e no lado direito, o posto médico dava início a uma correnteza de
moradias, uma das quais passou a ser residência do capitão e outra a do médico,
conferindo dignidade às correspondentes funções. Finalmente, depois de uma
curva e ao fim de uma suave descida a rua terminava dando lugar à passagem
sobre o paredão da barragem, que levava ao outro lado.
Venci os últimos metros da rua e sem pressa atravessei o
paredão admirando aquele enorme lençol d´água. Instintivamente dirigi-me para o
pequeno miradouro que, no outro lado, prometendo uma vista privilegiada sobre a
paisagem, parecia chamar quem chegava.
Subi, e de lá de cima estendi a vista sobre a paisagem
envolvente. A montante, a enorme albufeira reflectia, qual espelho, os raios do
sol faiscando múltiplas cores na superfície reluzente. A jusante, lá ao fundo, após
se despenharem pelo declive do paredão, as águas corriam saltitantes ao longo
do vale, aquietando-se hesitantes aqui e ali, para depois seguirem o curso
natural do rio numa obediência submissa em direcção ao mar.
Fiquei por ali sem consciência do tempo e esquecido de tudo o mais. Apostei comigo mesmo que os maus bocados tinham definitivamente ficado nas terras-do-fim-do-mundo. Naquele momento, convenci-me de que, por fim, a sorte nos sorria; as Mabubas podiam não ser o paraíso na terra, mas perante a lembrança do degredo da Neriquinha, quase o parecia.
Fiquei por ali sem consciência do tempo e esquecido de tudo o mais. Apostei comigo mesmo que os maus bocados tinham definitivamente ficado nas terras-do-fim-do-mundo. Naquele momento, convenci-me de que, por fim, a sorte nos sorria; as Mabubas podiam não ser o paraíso na terra, mas perante a lembrança do degredo da Neriquinha, quase o parecia.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Homenagem
Tentei deixar este texto nos comentários mas alonguei-me e ultrapassei a cota permitida.
Achei, por sentimento, que não deveria retirar uma única palavra.
Daí esta publicação.
Ter connosco o meu Amigo Manuel António Pinto
embarga a manifesta surpresa que nos é tão grata e desencadeia uma bem
temperada mistura de alegria, enorme respeito e admiração.
Frequentemente utilizamos estes considerandos no
limbo do lisonjeio gratuito ou de ocasião, sendo de todo pertinente que se
esclareça desde já que o que nos move a todos, quase garanto que sem excepção
no referente a este nosso Amigo, tudo é sincero e preito de gratidão.
Manuel António Pinto não foi apenas o 1º Sargento
da C.Caç. 3441.
Ele foi o verdadeiro comandante daquela Companhia.
Um homem singular que (ia dizer "agregava", mas cometia uma imprevidência; daí...) agrega a honradez, a competência e a capacidade de
trabalho, num espírito vivo e determinado em servir sempre bem uma causa e o
dever em que se determina em a cumprir com denodo.
É meu desejo extravasar esta alegria imensa de o
"rever" por aqui e de lhe deixar a minha melhor expressão de
admiração pelo seu carácter e virtuosismo que nestes 40 anos que já lá vão
nunca me cansei de propalar a amigos, quando era da guerra que se falava.
Porque a retórica das palavras pode escamotear o
senso do seu significado, é meu desejo deixar dois ou três episódios que me
parecem bem mais eloquentes daquilo que é meu desejo enaltecer.
- O 1ºdesses episódios confere ao M.A.Pinto o estatuto de
detentor de cátedra da Administração Militar.
Quer o nosso Comandante de Batalhão, quer o 2º
Comandante, sempre que se deslocavam à N´riquinha, sub-repticiamente colocavam
problemas de administração ao Pinto (problemas embrulhados que ocorriam na sede
do Batalhão...), solicitando que solução ele teria para as solucionar, caso
acontecessem com ele; quase um exame...
E o Pinto, antecedendo sempre as suas opiniões com
a proverbial… "Salvo melhor opinião...", desenvolvia o seu parecer
com uma aparente timidez mas total segurança naquilo que dizia.
Os Comandantes registavam (mentalmente...) e o nosso 2º
Comandante (Major Tamegão), numa das várias inspecções que fazia à Companhia,
lá me dizia no dia seguinte: "Ó Cabrita; você tem aqui um 1º Sargento do
caraças...!"
A meio da comissão lá veio o 1º Sargento da 3442
fazer um autêntico estágio nas Terras do Fim do Mundo...
O 2º episódio tem a ver comigo.
Se o 1º Sargento da 3442 teve que vir fazer um
estágio à N´riquinha, fácil será imaginar de quantos estágios eu precisava; eu
que frequentei um minimíssimo estágio de Administração Militar de 4 meses em
Mafra...
Um dia o nosso Pinto em trânsito de apresentação
do balanço mensal, talvez o 3º da comissão, perante certamente o meu embaraço
perante tanta conta e mais parcelas ainda, posicionou-se como que em parada e
disse, deferente como sempre: "Vossa Senhoria meu Capitão escusa de procurar
entender as contas porque se eu quiser enganá-lo engano-o mesmo...!
Propunha-lhe o seguinte: o meu Capitão trata da guerra e deixe as contas comigo!"
Nem mais. E vá lá imaginar-se porque razão eu
aceitei a proposta sem hesitar cinco segundos depois...?!
É que 3 meses já me sobravam para apreender a
competência, a honestidade e a sensibilidade do meu 1º Sargento.
Apenas acrescentar que, selado o
"acordo", as contas continuaram a ser apresentadas todos os fins de
mês, como sempre seria feito sem o "acordo". Só que eu já não as
conferia. O que ocorria é que o Pinto me trazia um problema e três soluções. E
eu apenas tinha que escolher qual delas preferia, uma vez que a escolha cabia
ao comandante de Companhia. Na maior parte das vezes fi-lo sempre com o
aconselhamento do Pinto. Uma garantia de que jamais prescindiria.
Tenho perfeita consciência da sorte que tive neste
campo, depois da menor sorte em ver-me com 23 anos de idade a comandar uma
Companhia de Caçadores. Algo que me honra mas que doeu.
- Terceiro episódio.
Um dia fui de férias. Na despedida do Pinto este disse-me: "Se passar pela 5ª Rep dê cumprimentos meus ao Major
Fulano".
E eu fui.
Cheguei, tratei do que lá me levava e terminei com
os cumprimentos do Pinto.
Garanto que o Major quase se colocou em sentido:
- "Você tem lá o 1º Sargento Manuel António Pinto?".
Sim, é o 1º
Sargento da Companhia.
- "Então fique sabendo que você tem, provavelmente, o
melhor 1º Sargento do Exército Português!" (Ipsis verbis)
O que escrevo é uma homenagem.
Sentida e justa.
E, já agora, meu Amigo
Manuel António Pinto é tempo de amenizar essa tremenda humildade com que sempre mascarou o
seu saber, arte e, acima de tudo, carácter.
Bem-haja.
O meu abraço apertado quanto a gratidão e o
reconhecimento que lhe devo.
Pedro Cabrita
ex-Capitão Miliciano
ex-Comandante da C.Caç. 3441
terça-feira, 1 de outubro de 2013
MABUBAS - Primeiras impressões
A estafa daquela quase interminável viagem que nos trouxe dos confins das terras do fim do mundo até às delícias da civilização deixou as suas marcas. Meio atordoado e fisicamente combalido, nem me dei conta, no imediato, das características do lugar onde fomos largados. Em boa verdade, nem pensei nisso, pelo menos que me recorde. Ao abandonar a viatura, após percorridos mil e tantos quilómetros com escassas paragens pelo caminho, apenas ansiava por esticar as pernas e procurar a camarata na mira de um duche frio que me refrescasse os miolos, retirasse os músculos entorpecidos da sua letargia e me libertasse daquela sensação de sujidade pegajosa acumulada pelos longos dias da viagem; descobrir as Mabubas era coisa que, no momento, não me preocupou e nem uma pontinha de curiosidade me levou a pensar no assunto. Lancei-me à cata das minhas tralhas algures perdidas e esborrachadas no meio das demais e olhei à volta à procura do quartel.
Não obstante o reboliço da chegada, deu para perceber que nada à volta se parecia com instalações militares. Considerando as casas circundantes, assumi que estaríamos no meio da povoação, uma qualquer localidade, um pequeno lugarejo que, como tantos outros, na então áfrica portuguesa, nascera ao sabor das cruas exigências de ocupação secular daquele imenso território. O quartel, esse, certamente estaria por ali. Provavelmente, deduzi, para além das traseiras do edifício do comando postado à nossa frente.
Mas não era assim. Dali a um nada descobriria que o dormitório dos furriéis, pelo menos esse, estava localizado num edifício comprido, já nos limites do casario principal mas visivelmente não enquadrado em qualquer perímetro que pudesse ser considerado quartel ou similar. É que, nem sequer tinha aspecto que se parecesse com o que quer que fosse militar. Não se viam muros, guarnições, postos de sentinela ou outros sinais que fizessem lembrar preocupações de defesa. Embora fosse suposto estarmos em guerra, não se viam sinais disso.
Abandonámos o asfalto da rua principal espremida entre uma correnteza de casas, descemos por outra, agora empedrada e metemos por um caminho de terra e piso irregular que, atravessando o campo, levava ao edifício. A paisagem envolvente, coberta de vegetação meio ressequida (a época das chuvas passara havia tempo) acompanhava as irregularidades do terreno. No outro lado do caminho uma enorme mangueira, carregadinha de pequenos mangos ainda verdes, cobria toda a parte frontal da entrada do edifício enquanto, ao longe, sobressaía a silhueta majestática e caricatural dos imbondeiros, cujas galhas, despidas e estranhas, pareciam irregularmente recortadas no intenso azul do céu. Definitivamente, nada daquilo se parecia com a Neriquinha; não havia pó, as planuras imensas desapareceram e nem a irregularidade do caminho chegava a constituir um incómodo. Na verdade, por ali tudo era novidade.
O edifício, que a partir de então passou a acomodar o grupo de sargentos da companhia, revelou-se uma agradável surpresa. Embora por fora se parecesse com um barracão ou um qualquer armazém, o seu interior era diferente, mas para melhor. Um espaçoso hall, à entrada, dava acesso a um corredor longitudinal que, correndo pelo centro do edifício distribuía à direita e à esquerda quartos espaçosos, cada um comportando duas divisões dando uma imagem singela de suíte. Duas camas, num lado, definiam a zona de dormir enquanto o outro simbolizava uma espécie de sala de estar. As camas, essas, eram iguais às da Neriquinha, mas assumi desde logo que estariam limpas de percevejos embora a rede mosquiteira que selava as janelas garantisse que os mosquitos não eram diferentes, pelo menos no que toca ao seu afã de infernizar quem se expusesse às suas picadas vorazes. Um luxo! Pensei eu provavelmente condicionado pela recordação da precariedade da nossa camarata nas terras do Cuando Cubango.
Despi o camuflado e deixei-o cair por ali. Não obstante já fragilizado e coçado pelo uso intenso de dezoito meses de mato, pareceu ter enrijado. Ganhou textura em consequência da absorção de pó amassado com o suor daqueles quatro dias de viagem. Depois, peguei na toalha, lancei mão da lâmina de barbear e do sabonete e dirigi-me às instalações sanitárias localizadas um pouco mais à frente, no outro lado do corredor.
Passei sabonete várias vezes e perdi a noção do tempo saboreando a frescura revigorante do jorro forte do duche até sentir as pontas dos dedos enrugadas. Postei-me à frente do espelho e desfiz a barba de cinco dias, com cuidado, num escanhoar meticuloso e regressei ao quarto. Estiquei-me sobre a cama deixando que uma doce elanguescência fosse tomando conta do meu corpo cansado.
Não sei quanto tempo por ali fiquei e nem tive consciência de ter adormecido. Se calhar a fome despertou-me do doce torpor. Qual reflexo condicionado, veio-me à memória o restaurante que vira quando iniciei a descida da rua a caminho do dormitório. Ou então, os últimos cinco dias a ração de combate começavam finalmente a fazer o seu efeito.
- Não! Pensei. Deve ser o relógio biológico a anunciar a hora da janta. Não é meu hábito deixar-me guiar pelas armadilhas imateriais do subconsciente.
Levantei-me, sem pressa. O lusco-fusco do fim de dia anunciava a noite que se aproximava. Vesti a melhor roupinha civil que arranjei, um bocado amarrotada pelos meses e meses que esteve encafuada no fundo da mala. Por sorte, naquela altura, usava-se bem justa e isso disfarçou as pregas da plissagem a que fora sujeita. Calcei o sapatinho preto, procurei companhia e em passo indolente, caminhámos em direcção ao restaurante.
Estrategicamente colocado no melhor sítio da rua principal à direita de quem desce, aquele restaurante pareceu-me o mais evidente sinal de civilização. Uma ampla esplanada, uma singela mas simpática sala de jantar e um balcão tipo snack-bar com bancos altos ao redor, anunciavam que a nossa vida começava a mudar para melhor. Tirar a barriga de misérias era coisa que ia começar já; descontando a compreensível falha de memória já queimada pelo tempo, apostaria que me devo ter alambazado com um grande bife com batatas fritas e ovo a cavalo. Era petisco com que sonhava frequentemente, especialmente quando, não havendo opção, o rancho na Neriquinha deixava muito a desejar.
Decididamente, os tempos de miséria chegavam ao fim e, como a seu tempo se verá, a coisa não se ficaria apenas pelos pecados da gula. Aquelas Mabubas que nos saíram em sorte prometiam uma nova vida. Ruas asfaltadas, casas, população civil e um restaurante eram amostras promissoras. Para já, tudo corria de feição à mesa daquele restaurante.
Não obstante o reboliço da chegada, deu para perceber que nada à volta se parecia com instalações militares. Considerando as casas circundantes, assumi que estaríamos no meio da povoação, uma qualquer localidade, um pequeno lugarejo que, como tantos outros, na então áfrica portuguesa, nascera ao sabor das cruas exigências de ocupação secular daquele imenso território. O quartel, esse, certamente estaria por ali. Provavelmente, deduzi, para além das traseiras do edifício do comando postado à nossa frente.
Mas não era assim. Dali a um nada descobriria que o dormitório dos furriéis, pelo menos esse, estava localizado num edifício comprido, já nos limites do casario principal mas visivelmente não enquadrado em qualquer perímetro que pudesse ser considerado quartel ou similar. É que, nem sequer tinha aspecto que se parecesse com o que quer que fosse militar. Não se viam muros, guarnições, postos de sentinela ou outros sinais que fizessem lembrar preocupações de defesa. Embora fosse suposto estarmos em guerra, não se viam sinais disso.
Abandonámos o asfalto da rua principal espremida entre uma correnteza de casas, descemos por outra, agora empedrada e metemos por um caminho de terra e piso irregular que, atravessando o campo, levava ao edifício. A paisagem envolvente, coberta de vegetação meio ressequida (a época das chuvas passara havia tempo) acompanhava as irregularidades do terreno. No outro lado do caminho uma enorme mangueira, carregadinha de pequenos mangos ainda verdes, cobria toda a parte frontal da entrada do edifício enquanto, ao longe, sobressaía a silhueta majestática e caricatural dos imbondeiros, cujas galhas, despidas e estranhas, pareciam irregularmente recortadas no intenso azul do céu. Definitivamente, nada daquilo se parecia com a Neriquinha; não havia pó, as planuras imensas desapareceram e nem a irregularidade do caminho chegava a constituir um incómodo. Na verdade, por ali tudo era novidade.
O edifício, que a partir de então passou a acomodar o grupo de sargentos da companhia, revelou-se uma agradável surpresa. Embora por fora se parecesse com um barracão ou um qualquer armazém, o seu interior era diferente, mas para melhor. Um espaçoso hall, à entrada, dava acesso a um corredor longitudinal que, correndo pelo centro do edifício distribuía à direita e à esquerda quartos espaçosos, cada um comportando duas divisões dando uma imagem singela de suíte. Duas camas, num lado, definiam a zona de dormir enquanto o outro simbolizava uma espécie de sala de estar. As camas, essas, eram iguais às da Neriquinha, mas assumi desde logo que estariam limpas de percevejos embora a rede mosquiteira que selava as janelas garantisse que os mosquitos não eram diferentes, pelo menos no que toca ao seu afã de infernizar quem se expusesse às suas picadas vorazes. Um luxo! Pensei eu provavelmente condicionado pela recordação da precariedade da nossa camarata nas terras do Cuando Cubango.Despi o camuflado e deixei-o cair por ali. Não obstante já fragilizado e coçado pelo uso intenso de dezoito meses de mato, pareceu ter enrijado. Ganhou textura em consequência da absorção de pó amassado com o suor daqueles quatro dias de viagem. Depois, peguei na toalha, lancei mão da lâmina de barbear e do sabonete e dirigi-me às instalações sanitárias localizadas um pouco mais à frente, no outro lado do corredor.
Passei sabonete várias vezes e perdi a noção do tempo saboreando a frescura revigorante do jorro forte do duche até sentir as pontas dos dedos enrugadas. Postei-me à frente do espelho e desfiz a barba de cinco dias, com cuidado, num escanhoar meticuloso e regressei ao quarto. Estiquei-me sobre a cama deixando que uma doce elanguescência fosse tomando conta do meu corpo cansado.Não sei quanto tempo por ali fiquei e nem tive consciência de ter adormecido. Se calhar a fome despertou-me do doce torpor. Qual reflexo condicionado, veio-me à memória o restaurante que vira quando iniciei a descida da rua a caminho do dormitório. Ou então, os últimos cinco dias a ração de combate começavam finalmente a fazer o seu efeito.
- Não! Pensei. Deve ser o relógio biológico a anunciar a hora da janta. Não é meu hábito deixar-me guiar pelas armadilhas imateriais do subconsciente.
Levantei-me, sem pressa. O lusco-fusco do fim de dia anunciava a noite que se aproximava. Vesti a melhor roupinha civil que arranjei, um bocado amarrotada pelos meses e meses que esteve encafuada no fundo da mala. Por sorte, naquela altura, usava-se bem justa e isso disfarçou as pregas da plissagem a que fora sujeita. Calcei o sapatinho preto, procurei companhia e em passo indolente, caminhámos em direcção ao restaurante.
Estrategicamente colocado no melhor sítio da rua principal à direita de quem desce, aquele restaurante pareceu-me o mais evidente sinal de civilização. Uma ampla esplanada, uma singela mas simpática sala de jantar e um balcão tipo snack-bar com bancos altos ao redor, anunciavam que a nossa vida começava a mudar para melhor. Tirar a barriga de misérias era coisa que ia começar já; descontando a compreensível falha de memória já queimada pelo tempo, apostaria que me devo ter alambazado com um grande bife com batatas fritas e ovo a cavalo. Era petisco com que sonhava frequentemente, especialmente quando, não havendo opção, o rancho na Neriquinha deixava muito a desejar.
Decididamente, os tempos de miséria chegavam ao fim e, como a seu tempo se verá, a coisa não se ficaria apenas pelos pecados da gula. Aquelas Mabubas que nos saíram em sorte prometiam uma nova vida. Ruas asfaltadas, casas, população civil e um restaurante eram amostras promissoras. Para já, tudo corria de feição à mesa daquele restaurante.
domingo, 1 de setembro de 2013
Do rio Cuito às Mabubas
Não retenho
grande coisa sobre o Cuito Cuanavale. Se calhar é trauma; associei-o sempre ao
comandante do batalhão e é no que dá. Imaginei sempre o local como uma espécie
de coito do comandante, feito à sua imagem, e não resistia à contraditória
mania de bem dizer o facto da Neriquinha estar bem longe, lá no interior
profundo e inóspito da savana o que, pensava eu, não convidava tão ilustre e
indesejável figura a aparecer por ali; se a minha memória não me atraiçoa, isso aconteceu uma única vez, pelo menos que
eu tivesse dado conta. E, mesmo assim, talvez por azar meu, foi o suficiente
para levar um raspanete que, por imerecido e humilhante, me deixou este trauma
que teima em não desaparecer. Logo eu, que tudo fazia para não infringir as
regras.Tirando isso, apenas retenho do Cuito Cuanavale a ideia de que o rio, lá em baixo, estabelecia a fronteira entre a terra de ninguém onde fui obrigado a viver por uns longos dezoito meses e o limiar da civilização que se foi insinuando aqui e ali através de sinais perfeitamente visíveis aos olhos de quem se habituara a planuras imensas onde as estradas se resumiam a picadas sinuosas e cansativas escavadas pelos rodados das viaturas na areia entediante da savana.
O facto é que, da passagem por aquele local, apenas recordo a estrada que dali levava a Serpa Pinto, de terra sim, mas firme, de macadame, com largura suficiente para acomodar trânsito em dois sentidos permitindo um andamento vivo que, para mim, se assemelhava a uma velocidade excessiva quando comparada com os pouco mais de cinco quilómetros por hora a que estávamos habituados. Decididamente, saíamos das terras esquecidas do fim do mundo e, em velocidade de cruzeiro, caminhávamos em direcção à civilização de cujas mordomias já quase só se retinham imagens longínquas.
Em menos de um nada, aportámos a Serpa Pinto. Aquele bocado de estrada que liga o Cuito Cuanavale à cidade foi vencido em cinco horas, uma coisa sem significado quando comparado com o tempo que gastávamos a percorrer uma centena de quilómetros por qualquer das picadas que fomos obrigados a cruzar nas nossas andanças por terras da Neriquinha.
Não nos
deram tempo de conhecer Serpa Pinto ou então, a minha memória não foi capaz de
reter nada que me faça lembrar a cidade. Não guardo nem uma imagem de um café
ou cervejaria, uma simples tasca ou algo de semelhante. Mas é verdade que
almoçámos na cidade e muito provavelmente devo ter-me lançado na demanda de uma
bica. Digo isto porque nem me passa pela cabeça imaginar que não tenha querido matar
saudades de um cafezinho tirado à pressão, bebidinha que chegámos a considerar coisa
de ficção. O facto é que, tudo o que recordo não passa de uma imagem fugaz de
um parque de viaturas isolado e que intuí localizado na periferia da cidade.Ali mudámos de meio de transporte; as viaturas, próprias para vencer terrenos arenosos, foram substituídas por outras que nos levariam dali ao destino e, para não variar, também estas mais adequadas ao transporte de carga que não de gente. Contudo, para nós, habituados a picadas irregulares e poeirentas, a suavidade do asfalto mais do que compensou o desconforto e a falta de assento enquanto que o ar, agora completamente limpo, apenas era irrespirável pela intensidade do calor.
A viagem não tem história. Os mais de mil e cem quilómetros que separavam Serpa Pinto do nosso destino prometiam uma viagem longa e monótona. Recordo a primeira metade do percurso, definido por uma estrada ondulante, sempre a direito, como se fora um carrocel que, em vez de andar à roda, seguia sempre em frente num sobe e desce sem fim que os motoristas aproveitavam para poupar combustível; desligavam o motor nas longas descidas deixando as viaturas rolar livremente até atingirem velocidade considerável, a suficiente para, ganhando embalagem, galgar parte substancial da subida que se seguia e só quando o andamento ameaçava morrer, ligavam de novo o motor para vencer o resto da subida e embalar de novo em roda livre para a depressão que antecedia a lomba seguinte.
Embora o andamento atingisse, por vezes, uma velocidade significativa, a viagem não deixou de ser monótona e cansativa através de um território imenso com paisagens a perder de vista e cheias de coisa nenhuma, cenário que nos acompanhou até ao fim do dia. O Alto Hama, mais ou menos localizado no centro do território, na província do Huambo, foi o sítio escolhido para uma paragem. Por ali ficámos umas horas que penso terem servido fundamentalmente para o descanso dos motoristas já que não é possível falar de pernoita nem de jantar. O repasto resumiu-se a uma ou duas latas da ração de combate provavelmente acompanhadas por uma cerveja adquirida num estabelecimento comercial ali existente. Dormir, de verdade, não creio que alguém o tenha conseguido. Dormitar talvez seja o termo mais adequado para definir a forma como cada um passou aquele bocado de noite; recostámo-nos por aqui e por ali, num deixar passar o tempo, à espera da hora aprazada.
Talvez por isso se tenha recomeçado a viagem bem cedo. Por volta das três horas da manhã já as viaturas rolavam através da noite sem noção exacta do sítio por onde andávamos. Por mim, aproveitei o embalo e fui dormindo, aos bocados. Desperto por um solavanco mais vivo, voltava a dormitar face a ausência do que quer que fosse que justificasse manter-me acordado. A verdade é que não me lembro de um só pormenor daquele percurso.
Sei que não passámos por Luanda. Naturalmente, por alturas de Viana, as viaturas seguiram por um atalho que nos deixou na estrada que leva ao Caxito. Passámos pela fazenda Tentativa, atravessámos o Caxito e pouco tempo depois desembocámos na rua principal das Mabubas.
Dia catorze de maio, a tarde ia a meio quando, finalmente, após quatro dias a calcorrear mais de mil e setecentos quilómetros de picadas e estradas, desde os confins das terras-do-fim-do-mundo até ao extremo oposto daquele vasto território, chegámos ao nosso destino. Era promissor o cenário que se desenrolava à nossa frente à medida que as viaturas rolavam pela rua principal até estancarem no largo que se seguia à primeira correnteza de casas, frente ao edifício do comando. A lembrança ainda bem viva do ambiente hostil e poeirento da Neriquinha deixou-me a agradável sensação de que acabáramos de entrar num local que prometia parecer-se com um bocado de paraíso ali às portas de Luanda e bem pertinho do mar.
Pode parecer contraditório mas, naquele momento, deixou de fazer sentido a sensação de conforto e segurança precária propiciada pela cerca de arame farpado da Neriquinha.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
A MATA DA CAPUA
Não obstante a obscura fama do local, a noite decorreu em sossego, sem o mínimo percalço ou o que quer que fosse que confirmasse a perigosidade daquele ermo. Não me recordo de ter passado mal a noite. Aliás, tenho de memória que dormi sem sobressaltos e de um sono só e nem sequer me dei conta do desconforto do leito arenoso que escolhera e da precariedade do improvisado tecto.O facto é que o Morais se queixava de não ter conseguido pregar olho; o Candeeiro passou a noite rangendo os dentes, o que, considerando o exíguo espaço a que estavam confinados, para além dos arrepios que provocava, era barulho bastante para tirar o sono a qualquer um.
Era ainda noite cerrada quando os motores, roncando, arrancaram da sua imobilidade as viaturas meio atascadas na areia seca, avançando lentamente pela escuridão rasgada pela luminosidade dos faróis, ficando de novo o pessoal do Dima sozinho, entregue à sua rotina.
Tínhamos pela frente a extensa Mata da Capua e era importante que fosse atravessada enquanto durasse o dia, pormenor que condicionou todo o plano da viagem, a começar na saída da Neriquinha depois do almoço, o retomar da viagem pelo meio da manhã a partir de Mavinga e a terceira etapa que agora se iniciava quando ainda faltava um par de horas para o amanhecer. É verdade que sempre se ouvira, em cada chegada do MVL, as descrições pouco animadoras das características daquela mata que, descontando a propalada proximidade das bases inimigas, escondia dificuldades e obstáculos vários responsáveis pelos atrasos do MVL nas suas idas e vindas mensais carregados com os mantimentos para a tropa aquartelada desde o Dima até ao Rivungo. Assim, importava sair cedo prevenindo-se qualquer eventualidade ou surpresa. Acima de tudo, era necessário evitar que qualquer acidente de percurso nos obrigasse a uma indesejável pernoita no meio daquela selva travestida de savana.
As viaturas avançavam seguindo a picada cujos sulcos iam sendo fracamente iluminados pelo foco saltitante dos faróis que a irregularidade do caminho impedia que se fixassem num ponto. Perscrutava-se o negro envolvente na tentativa de adivinhar os contornos da mata escondida no denso e impenetrável manto preto da noite que, como quem não quer a coisa, quase sem se dar por isso, foi sendo vencida pelo cinzento da manhã que, aos poucos foi denunciando o pó fininho que, despertado pelo rolar dos pneus, se levantava em remoinhos que iam cobrindo o ar circundante de uma poalha difusa misturada com restos de folhagem seca que, esvoaçando desordenadamente acabava por poisar hesitante até a viatura seguinte voltar a tornar tudo num reboliço irritante que incomodava quem se lhe seguia.
Aquela mata era de facto diferente. Com a mesma areia, mas de maior densidade arbórea. E isso determinou que a picada que a atravessava fosse irritantemente sinuosa, talvez em demasia. E para piorar as coisas, as raízes à superfície constituíam obstáculos que obrigavam as viaturas a um permanente escoucinhar, a uma dança frenética, um constante balanceio entremeado de saltos e ressaltos que iam massajando os corpos do pessoal que procurava a todo o custo manter o equilíbrio sobre a carroçaria desconfortável de viaturas impróprias para o transporte de gente. E tudo isto retardava o andamento deixando aquela conhecida sensação de passeio de tartaruga a conferir maior dimensão a um local onde, pensava eu, nem ratos existiriam.
A Lagoa da Capua apareceu-nos pela frente como por encanto, assim como se aquela mata incaracterística se rasgasse para, dando-lhe espaço, a acolher. Numa espécie de passe de mágica da natureza, saímos de um mundo estéril e hostil para um quase paraíso, um oásis definido por um enorme espelho de água reflectindo o intenso azul do céu, numa quietude serena contrastando com a paisagem envolvente. Os meus rudimentares conhecimentos de orografia não são suficientes para explicar como é que, no meio daquela imensa aridez e sem qualquer curso de água que a alimente, se forma uma lagoa como aquela. Provavelmente uma indelével depressão no terreno, tão subtil que nem se note, foi recebendo as águas das chuvas que, não tendo para onde ir, escorriam para ali, alimentando em permanência aquele pequeno mar de água doce que convidou a uma paragem, aproveitada para arrefecer os motores, compor o estômago, desentorpecer as pernas e apreciar aquele inusitado presente da natureza.
Mas o tempo urgia e havia ainda muita picada por vencer. Os quilómetros não eram muitos mas a dureza do caminho fazia com que a sua travessia consumisse horas em demasia. Reiniciou-se a marcha penetrando de novo naquele mundo sempre igual, cansativo e entediante que parecia não ter fim, até que, mais ou menos como previsto, a mata deu lugar de novo a uma savana aberta, igual à que aprendemos a conhecer ao longo dos últimos dezoito meses das nossas vidas. Dali até às margens do Rio Cuito foi um saltinho e lá para depois do meio da tarde, a grande chana que abraça o rio, igual a todas as chanas que palmilhámos, lá bem para baixo, no território da Neriquinha, apareceu-nos pela frente. O Rio Cuito, caudaloso e de águas mansas a lembrar o, até então, nosso Cuando, deixava-se atravessar naquele ponto por uma ponte de madeira, porém de aspecto robusto, que me deu a sensação de separar dois mundos diferentes. A picada que ali nascia e serpenteava por uma encosta de terra avermelhada e dura era obviamente diferente da consistência arenosa e esbranquiçada da savana que aprendemos a conhecer. Finalmente, ao fim de três dias a calcorrear a terra de ninguém, isso parecia ser o primeiro sinal de que as terras do fim do mundo começavam a ficar para trás.
Lentamente, a coluna foi trepando, encosta acima, em direcção ao Cuito Cuanavale que, lá no alto, nos aguardava. Ali era a sede do nosso batalhão mas aonde ainda ninguém da 3441 tinha posto os pés.Alonguei o olhar para a imensidão da savana que, ao longe, se estendia para lá do leito sinuoso e resplandecente do rio. Senti uma sensação de alívio ao interiorizar que não mais voltaria para ali. Por agora, apenas me apetecia um bom duche que me livrasse do sarro acumulado nos últimos três dias. Tirando isso, tudo ficaria perfeito, pensei, se não encontrasse pela frente o comandante do batalhão. Tinha para mim que o homem não era pessoa de bem e por isso preferia não arriscar a eventualidade de um encontro que viesse estragar aquele fim de tarde quase perfeito.
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