sexta-feira, 1 de abril de 2011

O Comandos e a fobia por injecções

África é uma terra imensa. E imensa é a parcela daquele território que continua praticamente inexplorada. Angola, como grande país de África que é, não escapa a esta realidade. Parte significativa do seu território permanece ainda hoje em estado selvagem e no tempo em que por lá andei, ainda mais. E isso não é defeito, é qualidade.
O Cuando-Cubango, sendo uma das regiões mais extensas do país, é provavelmente aquela que dispõe de maior área livre da influência humana; pelo menos era. A proximidade do deserto, a savana imensa com paisagens a perder de vista, a ausência de estradas ou outras infra-estruturas e a imensidão de planuras de areia num cenário semidesértico entremeado por sucessivas chanas pantanosas e traiçoeiras, constituem óbices ao conforto a que o ser humano se habituou.
Esta imensidão natural é assim morada de uma fauna variada e numerosa que ali habita passeando-se em manadas sem destino usufruindo da erva viçosa que cresce quer alimentada por chuvas abundantes quer, na sua ausência, subsistindo na humidade perene das chanas, longe dos olhares indiscretos de humanos predadores, impedidos de se aproximarem pelas condições naturais do seu habitat.
Contudo, enquanto que para a vida selvagem tudo são rosas, para nós, europeus destacados em missão de soberania, tudo era hostil, não só pela acção dos guerrilheiros que nos combatiam mas também pela dureza dos elementos e variadas pragas que atacavam as nossas fragilidades.
Hordas de mosquitos vorazes sugavam-nos o sangue inoculando-nos viroses e maleitas várias. Percevejos habitavam as nossas camas colando-se à pele e perturbando o sono. Um sem fim de insectos desconhecidos, uns menos inofensivos que outros, passeavam-se por entre as ensanchas da roupa, irritando a pele e muitas vezes infiltrando-se sob a derme, provocando micoses e infecções várias, por vezes graves. Bandos de moscas, umas maiores que outras, zumbiam à nossa volta não se intimidando com os safanões com que, desesperadamente, as tentávamos afugentar, entre as quais a temida tsé tsé, abundante na região, ameaçava-nos de morte com a invisível doença do sono. E tudo isto debaixo de um sol impiedoso que ampliava o sofrimento e tudo ressequia fazendo com que qualquer movimento levantasse nuvens de pó que se colava à pele suada, pegajosa e vulnerável ao mosquitame que eclodia em frenesim de milhões de larvas incubados pelas abundantes águas que impedidas de circular pela ausência de declives, se aquietavam transformando a savana em pântanos dispostos em sucessão irregular e labiríntica.
Assim, não era de estranhar que a nossa companhia tivesse direito a médico privativo.
O Dr. Lacerda era o alferes médico da companhia, integrando o seu corpo de oficiais, com a missão de olhar pela nossa saúde e, de caminho, cuidar das maleitas da população que, verdade seja dita, não acreditando em modernices, preferia a medicina tradicional, carregada de misticismo e baseada mais em crenças ancestrais do que na eficácia de alguns remédios naturais de preparação caseira. Contudo, quando estes milombos falhavam, lá se postavam à porta da enfermaria, à beira do colapso, salvas in extremis pelo antibiótico de eficácia extraordinária em corpos não habituados aos modernismos da medicina.
Sob a batuta do Dr. Lacerda, a equipa de enfermagem chefiada pelo Furriel Pinto, ia cuidando da malta, quer combatendo os males que afligiam ora uns ora outros, quer ministrando medicação preventiva. E o depósito de medicamentos estava bem fornecido, já que, pelo menos neste aspecto, o exército não olhava a meios, estando disponível um sem número de comprimidos, pomadas, tinturas e unguentos, xaropes e analgésicos, desde a morfina injectável à simples aspirina, sem esquecer os cremes repelentes os pós anti-alérgicos os aerosóis anestesiantes e os complementos vitamínicos entre outros remédios. Para mim, que nada percebia daquilo, cheguei a julgar que ali, nos confins da savana, naquela espécie de acampamento com ar de provisório, longe de tudo e de todos, existia um stock mais completo que o de farmácia em cidade.
E eram eficazes. Lembro-me que o Merthiolate tinha um efeito miraculoso em cortes, arranhões e esfoladelas. Ardia que se fartava mas anulava qualquer foco de infecção e sarava pequenas feridas de um dia para o outro; o soluto Whitefield (acho que é assim que se escreve), queimava num ápice qualquer erupção cutânea e o talco antimicótico, aplicado nas dobras da pele, fazia desaparecer as comichões e irritações que a humidade sudorífica agravava.
A medicina preventiva era preocupação do furriel enfermeiro. Todos os dias, ao almoço, o Pinto dispunha, junto ao prato de cada um, dois ou três comprimidos: O vermelhinho, que visava compensar as insuficiências vitamínicas e minerais da alimentação pobre e sensaborona; o branquinho que continha a imprescindível resoquina contra o paludismo; e mais um outro que não me lembro para quê. E até havia a dose cavalar de vitamina B11, ou lá o que era, injectável, que se dizia fornecer tudo o que o organismo precisava. Pelo menos o Palúdico, na sua permanente mania das doenças e fraquezas, era cliente assíduo.
Mas, verdade seja dita, a grande preocupação do nosso escasso e improvisado corpo clínico centrava-se no combate ao paludismo e à temível doença do sono. A luta contra o paludismo era diária através de medicação preventiva. Só em caso de contágio, quando a febre subia aos quarenta graus, se justificava a via endovenosa com a injecção de doses cavalares de resoquina. Já a doença do sono exigia a inoculação periódica de uma vacina que era pressuposto imunizar-nos contra uma ameaça invisível que se dizia extremamente perigosa, apenas se manifestando quando já era tarde de mais, o que justificava que, de tempos em tempos, o pessoal se colocasse em bicha pirilau à frente da enfermaria, obrigando os enfermeiros ao trabalho extra de todos vacinar sem excepção.
Por mim e creio que para quase todos, mais picadela, menos picadela, já não fazia diferença. Há muito que nos habituáramos a essa rotina, tanto mais que se preferia isso ao desconforto e à perigosidade da doença.
Mas não o Comandos. Se havia coisa de que tinha medo era de agulhas. E medo é pouco. Tinha pavor, coisa que me fazia confusão se se tiver em conta que o homem era um dos condutores mais destemidos da companhia. Aliás, a alcunha de comandos não foi ganha por acaso. Frequentou esse curso de tropas especiais e quem o faz não é propriamente medricas. E eu posso atestar que assim era. Com aquele homem ao volante passei momentos de pura aventura, a elevar a adrenalina ao máximo por aquelas matas desconhecidas, alguns dignos de um filme. Não, medo era coisa que, no Comandos, só existia em doses razoáveis. Humanas, para ser mais exacto. Sim, porque gente sem medo não há.
Mas o homem tinha medo de agulhas, de tal maneira que ao aperceber-se da aproximação do dia aprazado para a inoculação colectiva, entrava em stress e os suores frios não o largavam. Creio que até perdia o apetite.
Quando chegava o dia aprazado o descontrolo era total, especialmente porque tinha consciência que não havia volta a dar. Tinha que ser. Mas o que tinha que ser, no caso, parecia não o acalmar. Andava de um lado para o outro, metia-se na fila para logo dar o lugar ao que se lhe seguia. Saía da fila, sentava-se, passava a mão pela cabeça, certamente num exercício de auto mentalização. Sabia que teria de ser, agora ou mais tarde. E não era tanto pelo facto de a isso ser obrigado, porque se assim fosse, se calhar arriscaria a desobediência. Era mais porque tinha consciência de que, se não fosse vacinado, corria sério risco de contrair uma doença que o poderia matar. E isso atormentava-o ainda mais. Era como se tivesse de escolher entre cortar o dedo da mão esquerda ou o da direita. De repente, tomou a decisão:
- Agora sou eu! Exclamou aproximando-se do enfermeiro.
- Mas não quero no braço. Tem de ser no rabo. Sentenciou.
Justificava que seria menos doloroso do que no braço e ficava fora de vistas. Contudo, o problema não era a picada, nem propriamente a dor, que essa era inferior à das centenas de picadas de mosquitos que já sentira. O problema era mesmo psicológico.
Desceu os calções, esticou-se sobre o banco corrido de rabo para o ar, fechou os olhos com força, rodeou a cabeça com os braços na vã tentativa de se alhear, retesou-se todo e esperou a ferroada.
Mal sentiu o contacto frio do algodão que desinfectava a zona a picar, retesou os músculos num movimento bem visível, cerrou ainda mais os olhos até quase desaparecerem e esperou. O enfermeiro preparou a agulha, como de costume separada da seringa e num movimento brusco, procurando aliviar o tormento do Comandos, desferiu o golpe que pensou ser suficiente para penetrar o músculo em esforço.
Para espanto de todos, a agulha saltou como se tivesse atingido borracha dura. Os músculos do Comandos, tensos até ao limite, impediram que penetrasse e, ao cair no chão, perdeu as propriedades assépticas ficando inutilizada. Seria preciso outra agulha, mas o estado do homem não se alterava. Aliás parece que ficou ainda mais enervado, o que é compreensível. Contudo, não saiu da posição o que demonstrava estar efectivamente convencido que não teria opção. Tentámos acalmá-lo e o furriel Pinto fazia-lhe ver que, estando assim, seria mais doloroso, para além de transformar uma simples picada em algo complexo. Em vão, os músculos contraídos pareciam querer saltar da pele e nada o fazia acalmar. O Pinto perdeu a compostura:
- Acalme-se lá, porra! Gritou.
- Oh Comandos, pensa em gajas! Disse alguém brincando.
Perante o aparente impasse, o furriel sentenciou:
- Eu é que vou resolver isto. E, estendendo a mão para o enfermeiro, ordenou:
- Dá-me uma agulha.
Posicionou-se, pareceu avaliar o alvo, deu uma pequena palmada na nádega nua esperando conseguir alguma descontracção do apavorado soldado e num golpe violento, espetou a agulha, qual estocada em touro bravo. Encaixou a seringa e começou a empurrar o êmbolo obrigando o líquido a penetrar naquela fortaleza de músculos.
O Comandos levantou a cabeça, cerrou os dentes num verdadeiro esgar de dor e aguentou até ao fim, soprando e resfolegando sem abrir os olhos.
- Porra! Você gosta de sofrer. Desabafou o Pinto quando finalmente sacou a agulha num gesto brusco ao mesmo tempo que esfregava com algodão emudecido a nádega repentinamente descontraída.
- Não percebes que assim é que dói mesmo?
Mas o homem não queria saber disso. Levantou-se, puxou os calções e enquanto afivelava o cinto, balbuciou num suspiro:
- Pronto, já está!
E afastou-se a coxear, esfregando o rabo à procura de alívio para o ardor que sentia.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Ruinas da Neriquinha

Há muito tempo que procuro imagens actuais da Neriquinha recorrendo às facilidades que o Google Earth disponibiliza. Mas em vão. Consegui identificar o local mas a imagem não passava de um borrão que nada deixava ver. Apenas quem, como nós, por ali andou, conseguia reconhecer os sinais no meio do verde que escondia o local. Pelo menos até agora.
Finalmente o satélite da Google andou pelas imediações e embora ainda não seja absolutamente nítido, é já possível visualizar as ruínas daquilo que foi a nossa morada por uns longos dezoito meses distribuídos pelos anos de 1971 a 1973.
Vê-se nitidamente que a mata invadiu o local e tudo o que não era construção de cimento e tijolo desapareceu. Mas lá estão, nítidos, os restos do edifício da FAP, da messe, da casa dos oficiais, do depósito de géneros e transmissões e até da cozinha, sendo ainda visível o chão de cimento do refeitório e os restos da ferrugem. Tudo o mais desapareceu, incluindo o chiado, o depósito da água e naturalmente o kimbo.
Fica provado que a população apenas ali estava pela proximidade da tropa. Na verdade as suas actividades agrícolas e de caça, desenvolviam-se fora dali, nos locais das lavras, para onde parece que se deslocaram quando a tropa abandonou o local.
O Google mostra claramente o kimbo que se formou junto às margens do Rio Cuando, no local que designávamos por Neriquinha Velha. Na verdade, tratava-se da verdadeira Neriquinha, onde a população mantinha as suas lavras e criava gado.
O mais curioso é ver o que se encontra seguindo o curso do Rio Cúbia pela margem esquerda, desde as pontes até Mavinga. Nesse percurso, encontrei pelo menos três kimbos que me lembro não existirem na altura.
Pelos vistos a população voltou aos seus hábitos ancestrais, viver junto do local onde se dedicam às suas actividades de mera subsistência.
Tenho a certeza que são felizes.

terça-feira, 1 de março de 2011

O unimog da PSP caiu ao Rio

Já o disse várias vezes: o Rivungo era uma circunscrição com Administrador, PSP, tropa, marinha e um rio caudaloso. Pode parecer pouca coisa, mas marcava a fronteira entre, digamos, um buraco e um local onde se poderia viver. Era uma localidade com população civil própria, autóctone, mas própria, enquanto a Neriquinha não passava de um acampamento militar cujas tendas haviam sido substituídas por barracões, um par de anos antes, atraindo uma população mais ou menos nómada que se fixou logo ali, a seguir ao arame farpado, beneficiando de alguma segurança (se é que dela precisavam) e das facilidades propiciadas pela logística militar. Entre elas, a água canalizada a partir de um depósito metálico encavalitado numa estrutura de ferro e uma pista de terra batida onde, de quando em quando, aterravam aviões que faziam a ligação ao mundo exterior.
No Rivungo não havia pista, pelo menos coisa que fosse digna desse nome. Apenas uma pequena clareira no meio da mata a cerca de dois ou três quilómetros da periferia, permitia a aterragem dos pequenos puxa-empurra que nos traziam o correio e pouco mais. Era uma chatice, já que, sempre que estava para chegar o avião, era destacada para a necessária segurança uma equipa composta por quatro militares, chefiados por um furriel. É verdade, todas as terças e quintas e sempre que qualquer pequena aeronave por ali aportasse, a equipa de prevenção encavalitava-se no pequeno unimog que acelerava pela picada irregular procurando chegar ao local de aterragem antes da aproximação do avião, postando-se aí em formação defensiva para que aterrasse em segurança. Na verdade, nunca me pareceu que protegesse grande coisa. Eram apenas quatro homens que só conseguiam cobrir a zona onde o avião se imobilizava, ficando todo o comprimento da pista desprotegido. De qualquer forma, se nos atrasássemos, o Barros não aterrava, voando em círculos até que chegássemos ao local. Noutras alturas, aterrava mesmo assim.
A sorte era haver sempre voluntários. Desejosos de tocar o correio metido dentro do saco cinzento que o piloto entregava ao furriel, estavam sempre prontos. Mal chegava a mensagem via rádio, agarravam na G3 e corriam para o pequeno unimog. Ali chegados e sempre no local onde se sabia que sistematicamente o avião parava, dispunham-se os escassos homens dos dois lados do campo e esperava-se com alguma impaciência a chegado do Cessna. Toda a manobra de aterragem, entrega do correio e levantar voo de novo, não demorava mais de cinco minutos; noutro ponto, outros aguardavam ansiosos a chegada das preciosas notícias. Assim, mal o avião ganhava velocidade, subia-se para a viatura aí se aguardando que o avião se elevasse no ar, iniciando-se de imediato o regresso, no máximo da velocidade permitida pela picada esburacada em direcção ao aquartelamento, com pressa de ler as notícias.
Até que um dia chegaram ao Rivungo vários camiões transportando máquinas, escavadoras, niveladoras, pás basculantes, um cilindro e homens para trabalhar. Uma equipa de construtores e toda uma parafernália de geringonças que começaram, logo ali ao lado do Kimbo, na orla da mata, a deitar abaixo árvores, limpar e aplanar o terreno livrando-o de tudo o que pudesse atrapalhar. Enfim, um corrupio e uma azáfama nunca vistos por aquelas bandas.
É verdade, fora decidido construir uma pista de aviação a sério, grande, e ali pertinho, o que iria dispensar a correria pela mata em direcção à clareira isolada. Sim, uma pista de terra, mas nova, bem construída, de propósito e não uma simples clareira que tinha de ser capinada sempre que as ervas, regadas pelas abundantes chuvas, se atreviam a brotar com maior viço.
No Rivungo, também não havia água canalizada. Provavelmente a proximidade do rio e a abundância de água fresca, potável e acessível, não motivou ninguém a exigir a construção de um qualquer sistema que permitisse esse luxo e as autoridades administrativas, por seu turno, também nunca tomaram a iniciativa. Nem sequer um simples depósito, por mais artesanal que fosse. O da Neriquinha não era lá grande coisa, mas servia na perfeição.
Água no Rivungo tinha de ser retirada do rio, em baldes e transferida para bidões estrategicamente colocados onde fosse necessário. Se a memória não me atraiçoa, nas nossas instalações havia uns três e chegavam para o gasto. A proximidade do Rio facilitava o seu enchimento feito a poder de trabalho braçal do garoto da messe e ajudantes da cozinha num vai e vem, encosta abaixo, encosta acima.
A tropa, porque instalada mesmo à beira do rio, tinha o acesso facilitado, mas a PSP, não. Costumavam abastecer-se nas cercanias do ancoradouro da Lancha, dentro do perímetro da marinha, no local que elegemos como a nossa estância de veraneio privativa. Ali tomava-se banho, nadava-se e mergulhava-se de uma prancha de saltos improvisada. O caudal era forte e garantia a recolha de água não estagnada, muito embora, a pujança do Cuando trouxesse em permanência água fresca sempre renovada a qualquer ponto da sua passagem serpenteante.
Utilizavam quatro ou cinco bidões de 200 litros que carregavam, vazios, na pequena carroçaria do unimog que descia em marcha-atrás pelo declive até à babugem. Aí, com recurso a baldes e ajuda dos serviçais, iam lentamente enchendo os bidões até ficarem a transbordar. Depois, com o motor na sua máxima força, arrancavam lentamente encosta acima, transportando o precioso líquido para as suas instalações no outro lado da localidade.
Naquele dia, as coisas não correram bem ao condutor, um PSP negro e corpulento, espécie de amanuense, com funções de cozinheiro que se encarregava das tarefas com características mais domésticas.
Por razões que as leis da física poderiam explicar, a estrutura da viatura foi cedendo à medida que o aumento gradual do peso da água foi exercendo pressão sobre o velho unimog.
De repente, os travões cederam e o unimog moveu-se, desequilibrando os bidões que rolaram sobre a carroçaria precipitando-os no rio e obrigando a viatura a descair até os rodados traseiros galgarem o degrau barrento da margem. Só não capotou, porque a queda de dois ou três dos bidões aliviou o esforço da viatura que ficou em equilíbrio instável quase na vertical, com um rodado da frente no ar e os dois traseiros dentro de água, assentes na espécie de plataforma com cerca de 20 cm de água que antecedia a profundeza do leito do rio.
Do sítio onde estava, já não sairia pelos seus próprios meios e a posição em que ficou piorava as coisas. Sá havia uma solução: o recurso às máquinas de serviço às obras da nova pista. Felizmente que estavam ali, à mão, e qualquer delas com força suficiente para resgatar do rio o velho unimog.
Para o efeito, foi escolhida uma caterpillar, de pá basculante e pneus enormes, estacionada logo acima, junto com algumas das demais. Era fim do dia, os trabalhos tinham sido interrompidos e as máquinas deixadas em descanso. O manobrador, chamado para a prestação de auxílio, se calhar habituado a operar a máquina nas infindáveis planuras do Cuando Cubango, esqueceu-se que naquele local o terreno não era plano nem arenoso como tudo o resto e que os travões a ar precisavam de algum tempo para ficarem operacionais. E o pior é que estivera parada durante todo o dia, provavelmente por não ter sido necessária.
Ligou a máquina, elevou a pá, manobrou-a e dirigiu-se às arrecuas em direcção ao rio. Mal começou a descida, ganhou velocidade e no momento em que precisou dos travões, não tinha. A máquina descontrolada ganhou vida própria, saltando e balouçando perigosamente a cada acidente do percurso, perante o ar assustado do homem que, carregando desenfreadamente do pedal do travão, nada podia fazer para a deter.
Cá em baixo, no intervalo de um mergulho, apercebemo-nos que a máquina não iria parar. A velocidade cada vez maior e o ar de desespero do manobrador eram disso sinal evidente. Na dúvida, cada um fugiu para seu lado, procurando adivinhar a trajectória da besta, deixando-lhe caminho livre.
Excepto o infeliz Unimog. Impossibilitado de sair dali, foi abandonado à sua sorte. Ainda assim, valeu-lhe alguma perícia do manobrador da máquina que, no último momento, com um golpe no volante, evitou o abalroamento.
Mas não foi suficiente. Um dos grandes rodados atingiu de raspão o unimog e a pá, no seu balanço descoordenado, deu-lhe um último safanão empurrando-o perigosamente para a água.
Não sei como, mas a verdade é que, no momento em que toda a gente pensava ver a máquina no fundo do rio, esta imobilizou-se, beneficiando talvez da ajuda, sabe-se lá como, oferecida pela resistência do vulnerável unimog, que travou de alguma forma a sua marcha desenfreada, acabando por ficar perigosamente semi-submersa, com o motor a resfolegar ofegante como que a refazer-se do susto.
Foi preciso uma segunda máquina, esta de lagartas que, oferecendo a segurança de se sentir bem em qualquer terreno, desceu lentamente o declive e rebocou as viaturas acidentadas, retirando-as da sua posição incómoda: primeiro a máquina antes que o rio a levasse e depois o unimog.
Não me lembro como o pessoal da PSP se desenrascou naquele dia sem água, mas sei que os bidões que caíram lá ficaram, submersos, na parte mais funda do leito do rio e de onde nunca mais saíram. Se calhar ainda lá estão.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O Julgamento


Kimbo de N´riquinha (1973)
Julgamento por incumprimento das regras do alambamento…

Tens uns probrema grande nos Kimbo, meu captão. Uns maka por causa duns mulher que fugiu. Popração quer que captão venha nos kimbo p’ra resolver!”

É o Lupale, figura proeminente do aldeamento, que me fala, acompanhado de um ou dois secúlos, em mais uma manhã soalheira à saída do meu pequeno-almoço na messe. Era normalmente aí que me esperavam para me colocarem as questões que os atormentavam. Jamais me interrompiam no que quer que fosse. Esperavam pacientemente que eu saísse da messe, ou do gabinete, e então abordavam-me.
Procurei inteirar-me melhor da situação. O problema era bem mais complexo do que eu imaginara. Depois de ter angariado a admiração e a confiança da população, por via do enorme conforto que a Companhia lhes havia proporcionado no apoio às lavras, triplicando as áreas de sementeira, passei a ser consultado para tudo o que se constituísse "probrema" no Kimbo.

O tribunal para a resolução de questões sociais reunia à noite na rua em pleno centro do aldeamento, embora, felizmente, com sessões pouco frequentes. Em todo o tempo que lá permanecemos aquela terá sido a única sessão de que tivemos conhecimento. Uma espécie de fórum ao ar livre onde se sentavam em círculo as forças vivas do aldeamento presididas pelo soba, que, no caso, atendendo à sua avançada idade, tinha apenas uma função honorífica que todos respeitavam. Quem quisesse podia assistir mas não podia emitir opinião. Para lá dos membros daquele juízo, formado pelos secúlos e alguns velhos, apenas intervinham os implicados e seus familiares.

Era já noite cerrada quando me foram chamar à messe, conforme ficara combinado. À minha chegada fez-se um enorme silêncio, como se tivesse chegado o cacique-mor da região, ou um venerando chefe religioso cuja figura impusesse a maior deferência e veneração. (O poder da “razão” das armas sempre impôs respeito e medo e não seria ali que tal não iria acontecer)

O soba levantou-se para me dar o seu lugar, que naturalmente recusei. Sentei-me ao seu lado postando-me propositadamente um pouco atrás, como faria um observador convidado para assistir a um evento em país estrangeiro. Pareceu-me sensato que a minha presença deveria quedar-se pela circunstância de um simples observador, até porque havia todo o interesse e curiosidade da minha parte em verificar como funcionava aquela forma de tribunal.
Depois de me acomodar, continuou aquele silêncio inicial que logo percebi ter a ver com a minha presença. Compreendi que esperavam que eu tomasse qualquer iniciativa, ou indicasse qualquer novo rumo diferente daquele a que estavam habituados numa herança que tinha séculos. Era afinal lógico. Senão não me tinham convidado.
Fiquei um pouco embaraçado porque não era essa a minha intenção. Ao mesmo tempo senti que, provavelmente, ia decepcioná-los nas expectativas que lhes terei criado ao aceitar o convite que me fizeram.

Disse-lhes que vinha mais para ouvir e que se achasse que tinha alguma coisa para dizer que o faria. Os trabalhos deveriam decorrer como se eu ali não estivesse. Tudo deveria acontecer como sempre tinha acontecido.
As minhas palavras foram então traduzidas pelo Lupale, porque a maioria, sendo idosos, não dominava o português. Sucederam-se alguns murmúrios, cujo teor também não entendi porque de igual modo não foram em português. Mas foi possível perceber alguma frustração que notei com maior clareza no lado dos familiares da ré em questão, por certo pouco esperançados no sentido da justiça que os esperava. No fundo, uma pena com centenas de anos de aplicação em casos semelhantes.
- "O soba diz que sim. Tá bem mé captão." É o Lupale que me informa.
O julgamento tem então início. O Lupale fica junto de mim e funciona como meu cicerone, mas também membro activo naquele plenário. E como se de um momento para o outro se tivesse carregado num botão, desataram todos a falar ao mesmo tempo, que me parecia até impossível que se entendessem naquilo que diziam. Uma tremenda de uma confusão. O Lupale alternava a tradução que me fazia daquilo que se ia dizendo, falando em voz baixa para mim, para logo de seguida acompanhar o tom de confusão geral altercando-se com um dos muitos interlocutores que no lado oposto ao seu teria dito algo com o qual ele estaria em desacordo.

De que constava então aquela demanda. Como já foi referido, no processo de casamento havia lugar ao "alambamento", constituído por uma série de valores que eram entregues aos pais da noiva. Mas chamemos, então, as coisas pelos nomes. A noiva era comprada aos pais mediante a entrega de um determinado valor em géneros e utensílios agrícolas ou domésticos, o qual era discutido como um qualquer negócio. No caso, era o que tinha acontecido. O "alambamento" fora pago e o casamento teve lugar com a pompa tradicional. No dia da boda a noiva era untada com um produto oleoso misturado com uma substância avermelhada e enfeitada com milhares de missangas por todo o corpo, com especial relevo para o cabelo, que era trabalhado de uma forma artística brilhante, onde era difícil distinguir os produtos utilizados, por vezes estranhos e de aspecto muito pouco apelativo. Pelo menos para estranhos como nós. A noiva ficava depois exposta durante todo o dia ao aldeamento, sentada de joelhos à porta da sua cubata. O noivo não se aproximava da noiva. Era a regra. O aspecto desta também era pouco convidativo. Talvez agradável à vista mas muito pouco atraente ao tacto e olfacto…

Mas ocorrera uma outra circunstância muito pouco usual. Festejado o casamento, bastaram alguns meses para que a mulher concluísse que tinha, afinal, feito um “mau negócio”. E se se pensa que estas coisas só acontecem em sociedades civilizadas, puro engano.
Consumada a ideia de incompatibilidade, considerando o estatuto vigente de um mero objecto em que lhe estava praticamente coarctada a faculdade de pensar e contestar, a ré, ali ausente, tratou de namoriscar um jovem que passava numa coluna de viaturas e fugiu com ele para Serpa Pinto. A distância a que se situava este novo local eleito para um recomeço de vida, não foi escolhida ao acaso. Cerca de seiscentos quilómetros era suficientemente dissuasor para que o marido espoliado pusesse de parte quaisquer intuitos de recuperação do que lhe pertencia. "Espoliado" e "pertencia" são aqui os termos mais adequados à forma como aquelas coisas eram tidas por ali. Uma mulher de armas era o que me parecia ser esta ré ausente, que nunca cheguei a conhecer.

Naqueles tempos uma atitude destas era mais que corajosa e pouco comum. Na anormalidade da situação tudo parecia poder-se considerar normal. O casamento não deu, cada um vai à sua vida procurando reconstrui-la o melhor que puder e souber.
Só que ali funcionavam regras ancestrais e esse era o busílis da questão. Neste tipo de situação o "alambamento" tinha que ser devolvido, ou a mulher tinha que regressar ao seio do lar.
O regresso apresentava-se praticamente impossível e o grande imbróglio era que os familiares da ré já tinham dado fim aos valores do "alambamento", não havendo nada para devolver, nem outros bens de substituição. Coisas comuns que nos acontecem a todos quando a vida nos prega algumas partidas e lá se vão os anéis ficando os dedos.
Mas as regras não terminavam aqui.
Neste caso, considerando que não havia mulher para regressar a casa, nem "alambamento" para devolver, eram mesmo os dedos que serviam de moeda de troca. Dizia o ordenamento de penas que, no caso, a família teria que levar uma carga de pancada para suprir a falta de bens para devolução. Nem mais.
Não resisti a um sorriso interior que, com algum esforço, não permiti que me aflorasse ao rosto. A discussão divagava em torno destes parâmetros. Os familiares da ré debatiam-se entre a perspectiva de falta de meios económicos para satisfazer aquela dívida e o pouco desejo de levar uma sova. Os argumentos flutuavam entre a convicção (pouco convicta) de que a mulher haveria de regressar mais dia, menos dia, e outra, tão menos convicta quanto aquela, de que não achavam justo apanhar por uma coisa que não estava na sua mão resolver. Esta última porque sabiam que as regras, não obstante, eram assim havia séculos.

Como é costume nestas circunstâncias, qualquer que seja o ponto do planeta em que ocorra, o debate entrou numa maré repetitiva de argumentos sem que se vislumbrasse outra saída que não fosse a prevista naquele código natural das coisas, tal como sempre acontecera até então.
Nessa altura achei que era o momento de intervir. Naturalmente advoguei a defesa dos familiares da ré. Sempre com o Lupale a traduzir aquilo que eu dizia, lá fui argumentando que os familiares não podiam ser responsabilizados pelos actos da mulher, uma vez que esta era adulta (frisando bem ao Lupale que eu disse adulta e não adúltera...) sendo ela a única responsável pelos seus actos.
Lá fui desfiando uma ladainha enorme de argumentos com alguns exemplos práticos, sentindo, no entanto, que o meu discurso era capaz de me soar bonito a mim, mas não colhia lá grandes frutos na assembleia. As cabeças meneavam que sim mas era apenas um sim de entendimento daquilo que eu dizia. Lá por dentro eu vislumbrava um rotundo não, quanto ao convencimento que obtinha no seu íntimo.
Sorriam os familiares da ré abanando convictamente a cabeça, resmungavam os do marido enganado. A divisão de opiniões continuava claramente desfavorável aos primeiros. Voltei à carga mais uma ou duas vezes porque me apercebia que não conseguia lá grande coisa com todo aquele palavreado. Os resultados não melhoravam.

A lua estava a pino. Era de um brilhante prata como só em África acontece. O ambiente nocturno, sem qualquer foco de luz artificial nas proximidades, contribuía para aquela luminosidade resplandecente. Enquanto rebuscava mais uns quantos argumentos para deitar cá para fora e fazer de minha a justiça que queria ver feita, dei por mim de olhos presos na lua.
Vislumbrei-lhe um sorriso trocista, uma ironia indisfarçável que zombava de mim. Aquele ar irónico clarificou-me por fim o espírito e teve o condão de me assentar os pés no chão, naquela areia fina, suja e ainda quente àquela hora da noite. Recostei-me melhor na cadeira sem desprender o olhar. Sorri também. Compreendi por fim o disparate em que me tinha postado ao procurar que fosse o meu entendimento de justiça que deveria vingar ali. O princípio colonial de converter os gentios à nossa semelhança continuava comigo, quase quinhentos anos depois da chegada àquelas paragens dos súbditos de suas majestades os reis lusitanos, ávidos de conquistas de bens, território e escravos que fortalecessem um reino pequenino e distante, a quem deixaram o mar como única porta de saída, constatados os desentendimentos constantes com a vizinhança castelhana.

Quase à beira do ano dois mil, eu continuava a laborar no erro ancestral de procurar apagar séculos de história vincados nos hábitos e na vontade de ser assim e não de outra maneira. Por momentos deixei-me ficar de olhar pendurado na lua, enquanto um silêncio de sepulcro se ia instalando em meu redor, sem que eu tivesse dado por isso. A assembleia ficara suspensa das minhas palavras e aguardava que lhes trouxesse algo de mais palpável do que aquilo que lhes trouxera até ali.

Veio-me à memória uma outra ocorrência da guerra de África, suponho que em Moçambique, quando um senhor General se deslocou a um local longínquo para falar às populações. Falava o senhor General para um grupo numeroso de populares num aldeamento distante, havia já bastante tempo.
Falava-lhes da importância de se ser português, de ficar com a tropa e não com os turras, de trabalhar muito para não ter fome, e por aí fora. A população escutava com atenção. Como é sabido nem todos dominavam o português, o que ao fim de quinhentos anos de ocupação é obra e revelador da preocupação que tivemos em aportuguesar aquela província ultramarina.
Em determinada altura, um dos populares, que não conseguia ainda o domínio bastante da língua de Camões, perguntou ao companheiro que se encontrava ao lado, este mais esclarecido no vocabulário latino.
- O que é que ele está a dizer? Resposta pronta.
- Por enquanto ainda não disse nada! Só está a falar...

Levantei-me e disse num português mais ou menos adaptado àquele em que os ouvia todos os dias
- "Capitão não vai dar mais opinião. A justiça do Puto ser justiça diferente. Vocês ter que fazer a vossa justiça. Se ela foi boa até aqui tem que continuar a ser igual. Quando um dia acharem que ela está errada, então nesse dia mudam para outra melhor".

Como diria o poeta… “e um grande silêncio fez-se…”depois do Lupale ter traduzido aquilo que eu tinha dito. Aquele meu português meio arrevesado mesmo assim só chegava a uns quantos, os mais jovens.
Uma voz aqui outra ali, foram-se começando a ouvir murmúrios que pedi ao Lupale para me ir traduzindo. Eram vozes de lamento e desilusão. Alguns invectivavam-se mutuamente por terem “cháteado” o Capitão e agora ele ia-se embora e ficavam na mesma.
Quem mais ajudava àquela “missa” eram naturalmente os familiares da ré.
Lá procurei fazê-los compreender que não estava aborrecido com nada nem ninguém. Estava até bastante satisfeito por eles teimarem em fazer a justiça que os tinha orientado durante tantos anos. Boa ou má era a justiça que tinham e era assim que deveria ser aplicada.
Cumprimentado o soba, despedi-me de todos eles, solicitando que continuassem o julgamento e, já agora, a que me comunicassem a conclusão a que iriam chegar.
Regressei ao meu quarto ainda na maior censura daquela minha atitude de ter admitido intrometer-me na forma de vida daquele povo, especialmente a que respeitava a hábitos ancestrais que funcionam como traços de cultura inalienáveis que os vinham orientando havia séculos.

No dia seguinte, o Lupale compareceu bem cedo à porta do meu gabinete.
Já havia uma boa hora ou mesmo duas que espreitava a minha chegada, para depois aparecer tímido, silencioso e indeciso, dando-me um tempo calculado de acomodação aos meus afazeres mais prementes. O ordenança anunciou-me a sua visita.
De mãozinha fechada e dobrada pelo pulso, agarrada pela outra à altura do peito, curva-se em duas ou três vénias habituais de cumprimento e subserviência. Cumprimento-o segurando-lhe a mão dobrada pelo pulso que aponta para o chão, enquanto a outra fica ainda fechada e recolhida no peito. Quase não mexe os dedos com receio de me causar algum dano na minha mão branca de senhor, espécie de divindade edificada pelo poder das armas. Vinha anunciar-me a decisão do concílio da noite anterior. Não tinham chegado a uma decisão definitiva. Mas tudo apontava para seguirem a ideia que eu tinha deixado.
Alguns tinham-se vergado à douta sabedoria do "captão", fazendo inclinar a decisão para o lado contrário da sua história, da sua cultura, em suma, da sua secular sapiência e modo de vida que num ápice desbaratei, sempre a bem de qualquer coisa... jamais a bem da Nação…

Normalmente ficamos contentes quando as nossas ideias são aceites pelos outros. É um sinal de elevação e consideração. Naquele caso, não foi bem isso que eu senti. Que raio de ideia a minha. Mas era tarde. Restava-me apenas a consolação de se ter evitado uma sova inútil em inocentes que eram apenas vítimas da paragem do tempo que se tinha abatido sobre eles naquele local. Ou, sei lá. Quem sabe se não seriam eles que tinham razão com aquela forma de fazer justiça. Sinceramente, hoje já não sei. É que por vezes fico com a sensação que uma boa sacudidela de pelo é capaz de fazer melhor justiça que aquela que vamos tendo…

(Adaptação do livro “Capitães do Vento”)

Pedro C.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

LITENDA – O Administrador do Rivungo

Existiam diferenças entre a Neriquinha e o Rivungo e significativas, sem dúvida. Desde logo, a proximidade do rio. Na Neriquinha não corria água enquanto que o Rivungo era banhado pelas substanciais águas calmas e sinuosas do Rio Cuando. Contudo, a principal diferença residia na sua estrutura administrativa. Enquanto a Neriquinha era apenas uma espécie de acampamento militar, delimitado por uma cerca de arame farpado, à beira de um descampado em forma de pista de aviação, o Rivungo era considerado uma povoação. Em termos administrativos, uma Circunscrição. Isso significa que tinha casas e uma autoridade administrativa, para além das instalações militares que albergavam, junto ao Rio, um destacamento do exército enquadrado por um pelotão da companhia da Neriquinha e um destacamento de Marinha. Havia ainda dois agentes da DGS, que se entretinham em secretas actividades de espionagem e a PSP, cuja missão não era propriamente a manutenção da ordem pública mas a defesa das populações que habitavam os Kimbos administrativamente dependentes do Rivungo e disseminados pela mata a distâncias consideráveis: o Liahona, o Mugamba e o Demba, no enfiamento da picada que levava à Neriquinha, o Caxoxo meio perdido mais para o interior, o Samatamo à beira do Cuando a meio caminho do Chipundo, constituindo este a derradeira fronteira a sul e finalmente, ali bem pertinho, a Mahinha, pequeno kimbo com meia dúzia de cubatas, arrumado no meio das lavras mantidas pela população.
A mandar em tudo isto, o Administrador. Em tudo não, que o homem não mandava na tropa, nem na marinha e tão pouco na DGS e tenho dúvidas quanto à sua ascendência sobre a PSP. Mas era de facto a autoridade civil máxima por aquelas bandas e não deixava os seus créditos por mãos alheias. Creio que nunca cheguei a saber o seu nome de baptismo e quanto ao seu apelido, perdi-o nos recantos da memória. Formalmente, era tratado por Senhor Administrador, pelo menos era esta a forma como todos se lhe dirigiam, desde o membro mais insignificante da população até às mais altas hierarquias que por ali andavam. Tirando isso, era simplesmente conhecido pela alcunha de Litenda. Fosse em que circunstância fosse, estivesse quem estivesse, desde que o homem não andasse por perto, Litenda era o nome que se usava, mesmo em ambientes formais. E tornou-se tão vulgar que havia quem pensasse ser esse o seu nome, embora se soubesse que não gostava da alcunha, mostrando-se enfadado sempre que se apercebia que assim o tratavam.
O Litenda era um homem peculiar, de tal forma que quem quer que tivesse estado no Rivungo, nunca mais o esqueceu. E, no Cuando Cubango, mesmo quem não o tenha conhecido, certamente que dele ouvira falar. Fosse em que circunscrição fosse, o seu nome e as suas façanhas eram sobejamente conhecidas. As suas características físicas eram marcantes, quase especiais, diria únicas. Tirando os membros da população local, era certamente o mais velho habitante do Rivungo, o que é natural já que, entre os que por ali andavam em missão de soberania, poucos haveria com mais de trinta anos. Exibia uma pose estudada de jovialidade e desenvoltura, numa tentativa ensaiada de disfarçar a idade denunciada pela vasta e luzidia calvície, característica que lhe deu a alcunha: No dialecto local, Litenda significava careca e encerrava em si uma carga depreciativa.
Corpo esguio, normalmente enfiado numa farda cor de caqui, cujo corte lhe realçava a magreza, especialmente a calça estreita, quase justa pelos artelhos, a alongar o sapato que fazia questão de usar no meio daquele mundo de pó. Sobre os ombros, uns galões com aplicações avermelhadas atestavam a autoridade que o cargo lhe conferia. A pele tisnada, de um castanho carregado pela exposição ao sol acentuando o brilho da careca sem pêlo, denunciava uma vida inteira de deambulações pelas savanas e recônditos lugares das profundezas de África, acumulando histórias e aventuras que contava à medida do discorrer de memórias de tempos passados, uma das quais certamente explicaria a perda de um olho, cuja cavidade vazia era preenchida por uma esfera de vidro rapidamente identificável pela imobilidade das pálpebras envolventes. Era, enfim, o típico branco africano que parecia conhecer bem a zona, os costumes e até os hábitos dos turras. Sabia sempre de um caminho novo nos itinerários que percorria amiúde nas visitas que ia fazendo às populações espalhadas pelos kimbos da circunscrição que chefiava, sendo notória a sobranceria com que as tratava. Dando-se ares de superioridade perante populações que parecia considerar como seres inferiores, fazia alarde das receitas que possuía para os manter controlados. Como costumava dizer: - Importa é que não armem maka! Maka, termo, que por ali significava confusão, era coisa que, pelo menos no meu entender, não fazia sentido: aquele era um povo pacífico que só se preocupava com a sua subsistência e nunca os vi causar distúrbios que merecessem preocupaçao.
Sempre ao volante do seu Land Rover, autêntico parceiro de aventuras, circulava pela savana imensa, acompanhado por dois ou três Sipaios, espécie de guarda pretoriana sem condições para fazer frente a qualquer eventualidade. Armados apenas com velhinhas Mauser, totalmente desadequadas à realidade da guerra e que, já naquela altura, mais se pareciam com peças de museu, mesmo quando comparadas com o armamento dos guerrilheiros. Mas era esta a companhia do Litenda nas suas incursões pela mata, especialmente um deles que não descolava do Administrador, acompanhando-o para onde quer que fosse, como uma autêntica sombra sem nunca se lhe ouvir uma palavra ou lamento; e quando andava sozinho, levava certamente um recado a alguém em cumprimento de ordens do chefe. Arrumados nas traseiras da viatura, procurando a todo o custo não serem cuspidos pelos contínuos solavancos, saltos e piruetas a que a picada esburacada obrigava, representavam a única segurança com que o Litenda se atrevia pelas matas, como se estivesse protegido por um qualquer pacto que lhe assegurava imunidade à eventualidade de uma emboscada, coisa que, verdade seja dita, nunca lhe aconteceu, pelo menos enquanto andou por terras do Cuando Cubango.
Nas suas mãos, o Land Rover dava o máximo, que o Litenda não sabia conduzir devagar; dizia que assim evitava atascar na areia solta. Mas verdade seja dita, dentro ou fora da povoação, a velocidade era sempre a mesma. Quando nos visitava, normalmente para tratar de qualquer formalidade com o alferes, acelerava pela picada que findava junto às nossas instalações e numa manobra ensaiada e quase mecanizada pelo número de vezes que a executou, rodava o volante para a direita, inclinava o corpo para o mesmo lado como se quisesse anular o efeito da força centrífuga e num rodopio, como se intentasse fazer inversão de marcha, colocava o Land Rover numa posição perpendicular à picada, deixando-o depois descair pelo declive parqueando no terreno adjacente.
Até um dia. O alferes, talvez inspirado no sistema de defesa da Neriquinha, decidiu cavar, logo ali ao lado, um buraco rectangular onde pretendia montar o morteiro e com isso aumentar a capacidade de defesa em caso de ataque à localidade. Poucos se aperceberam do avançar da obra e o Litenda, para sua infelicidade, desconhecia-a de todo, não sabia, nem tinha sido informado. O pior, é que o sítio entendido como adequado para abrir a trincheira foi exactamente aquele onde, por hábito, o Administrador costumava largar a viatura. A agravar a situação, o pessoal destacado para a obra exagerou no tamanho do buraco. Assim, quando uma qualquer razão levou o Litenda a visitar-nos, montou-se no Land Rover, acelerou pela picada e com estilo executou com mestria a manobra do costume, deixando depois a viatura deslizar de marcha-atrás pelo declive. Não viu nem podia ver que, naquele exacto local, existia agora um buraco e de tamanho suficiente para engolir a viatura cujas rodas do seu lado esquerdo acertaram direitinhas no vazio da trincheira em construção. O Land Rover adornou, afundou-se lentamente, enrolou-se sobre si mesmo capotando e pousou no fundo da trincheira de rodas para o ar numa posição caricata, com os quatro pneus a rodar no vazio como um qualquer escaravelho que, ao tombar, não se consegue endireitar, dando às patas numa tentativa de sair da posição desconfortável.
A muito custo e ainda meio atarantado, o Litenda, esgueirou-se do interior da cabine e trepou até sair do buraco. Sacudiu-se, tentou compor a pose, ensaiou um ar irado e apontando o buraco, gritou: - Quem abriu aqui este buraco? Conteve-se, procurou acalmar-se refreando o chorrilho de asneiras que se adivinhava pronto a sair, engoliu em seco e pareceu raciocinar sobre o que lhe acabara de acontecer, à medida que tomava consciência da situação. Ao ver o ar sério e preocupado do alferes deve ter juntado dois e dois e deduzido que o culpado tinha autoridade e se calhar justificação para mandar executar a obra. Só não sabia qual. A risada mal disfarçada dos circunstantes misturou-se com a preocupação agravada pela culpa assumida - o homem podia ter-se magoado a sério. De facto, podia ter-se ali colocada uma sinalefa qualquer, avisando do perigo. Mas agora era tarde e ao alferes, apenas lhe saiu um: 
- Então, Sr. Administrador! O senhor está bem? 
Eu não resisti a olhar insistentemente para a cara do homem. O capotanço, mais parecendo uma cena em câmara lenta, não causou grande estardalhaço, mas podia ter-se magoado, partido qualquer coisa ou, lembrei-me, ter perdido o olho de vidro. Mas não, nem um arranhão. O Litenda apenas se esforçava por conter a irritação ao mesmo tempo que balbuciava. 
- Eu não tenho nada! A viatura é que deve estar toda partida! E acocorando-se, espreitava a parte visível da carroçaria procurando avaliar os estragos.
- E agora? Como vamos tirar isto daqui? Era de facto um problema a resolver. O Land Rover não estava apenas capotado, estava completamente encaixado dentro do buraco que mais parecia ter sido feito à medida. Tirá-lo dali não iria ser fácil, não obstante as sugestões, bitaites e toda a espécie de palpites por parte dos circunstantes. Por sorte, decorriam as obras de construção da nova pista de aviação havendo, por isso, maquinaria pesada capaz de desenterrar a viatura sem a amachucar mais do que já estava. No fim, pelo ridículo e embaraço da situação, a auto-estima do Litenda saiu mais amachucada da refrega do que o Land Rover acidentado.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O albino

Na N'Riquinha, havia um albino. Ao que sei, era um albino completo pois toda a sua pele era branca pela falta de melanina, tinha dificuldades de visão durante o dia, pois, possuía uns olhos muito claros e todo o cabelo era branco.
Nunca soube o nome dele e duvido que alguém da companhia o soubesse: era, simplesmente, o Albino.
Dada a sua condição, era raro ver-se durante o dia e, quando isso acontecia, estava sempre recolhido à sombra de forma a evitar as queimaduras que a exposição ao sol lhe causava na pele bastante sensível .
Recordo-me, no entanto, de o ver passar à noite a deslocar-se como um gato, pois os seus olhos bastante claros, carregados de bastonetes, permitiam-lhe uma soberba visão nocturna. Pelo que fui percebendo, não era segregado pela população, mas, pelo contrário, respeitavam a sua condição e era bem tratado.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os Velhos...ou a sabedoria!

Sempre me fascinou a serenidade dos rostos dos velhos da N'Riquinha.
Austeros nos sorrisos mas sempre amigáveis, nunca subservientes mas atentos e respeitadores, irradiavam simpatia e bondade no contacto com a tropa. A sua dependência diária em relação a nós raramente era visível, se bem que necessária por força das circunstâncias. Sabiam - com a sabedoria que 500 anos de colonialismo lhes tinha ensinado - distinguir e separar das suas vidas pessoais e comunitárias a obrigação e a necessidade de connosco conviver.
Dotados de conhecimentos extraordinários, empiricamente acumulados durante milénios, no campo da sobrevivência, da medicina natural e da natureza, obrigavam-nos e impunham-nos um respeito natural que, felizmente, a Companhia sempre soube observar.
Contudo, o que me fascinava, era os seus olhos, vivos, brilhantes e matreiros que luziam no meio dos rostos cobertos de rugas que os anos e a inclemência da natureza lhes gravaram na pele.






sábado, 1 de janeiro de 2011

O RETORNO do MARINHEIRO ou o amor em tempo de guerra

Durante os longos dezoito meses que andei por terras do Cuando Cubango, dei-me conta que o dia do regresso, aquele em que dali sairíamos, era uma espécie de assunto recorrente, quase uma mania que, com frequência, ocupava as nossas conversas e pensamentos. Era tema a que se voltava de quando em vez, especialmente se a saudade batia à porta. Na verdade, era o dia mais desejado a seguir ao de “São Correio”. Só que este era certo e vinha duas vezes por semana, enquanto aquele não passava de uma miragem distante, algures no difuso horizonte das nossas vidas.
Era de facto o dia mais esperado e isso era tão importante que justificava a manutenção de calendários onde, em contagem decrescente, se ia marcando o tempo já passado e controlando o restante. Quanto mais os dias riscados, mais próximo o tão almejado dia. A cada pôr-do-sol, rejubilava-se:
- um dia a menos! E quando se completou um ano de Neriquinha, o desabafo foi substituído por um resignado: - já faltou mais!
O pior é que ninguém sabia quando isso iria acontecer. A companhia anterior saiu dali passado um ano e parece que teria sido sempre assim. O lugar era tão mau que justificava a preocupação das hierarquias militares em proteger a sanidade mental de quem tivesse tido o azar de para ali ter sido despachado, procurando encurtar tanto quanto possível a comissão naquele oásis improvisado. Assumia-se, por isso, ser mais ou menos certo que, passado um ano de degredo, haveria rotação para um lugar mais aprazível.
Mas não tivemos essa sorte. Passados doze meses comecei a alimentar a esperança que seria mais dia, menos dia. E como esse dia nunca mais chegava, assumi que seria mais semana menos semana, depois que talvez fosse daí a um mês, até que por volta do décimo quinto mês de Neriquinha e Rivungo deixei de pensar no assunto e já só me contentava com a certeza de que algum dia haveria de ser, nem que fosse no fim dos dois anos de comissão. Ia assim enganando a consciência com o facto de os meses já passados serem mais do que os que ainda faltavam.
– Já não falta tudo. Concluía na tentativa de amenizar a expectativa.
Com o pessoal da marinha, as coisas não eram muito diferentes. Quando ali chegavam tinham uma vaga ideia do dia em que tudo terminaria, sendo atormentados pelos mesmos sentimentos. Na verdade, tropas ou marinheiros, polícias ou civis, fosse quem fosse que ali estivesse no cumprimento de um missão por tempo limitado, todos tinham no pensamento o dia em que finalmente deixariam para trás as Terras-do-Fim-do-Mundo, diriam adeus às águas do Cuando, respectivos afluentes e chanas, aos kimbos, aos irritantes trajectos por picadas de areia poeirenta e à falta de quase tudo.
Mas não era apenas a imposição de uma missão indesejada, num local impensável, longe de tudo e de todos, que nos atormentava o espírito e alimentava o desejo de ver chegado o dia do regresso. As saudades do que deixáramos para trás eram ampliadas pelos riscos da missão, pelo desterro a que fôramos votados e pela vida miserável e difícil que tínhamos de levar. E a falta de mulher, mulher branca, de seios redondos e rijos, de pele delicada, cheirosa e doce, ocupava o pensamento, atormentava os sentimentos, fazia doer a alma e trazia à memória prazeres já gozados que agora pareciam apenas privilégios inacessíveis.
Enfim, necessidades que cada um procurava mitigar com os parcos recursos locais, satisfazendo fugazmente apetites lascivos que se esfumavam em rapidinhas incursões nocturnas mas que não conseguiam apagar o desejo incontido.
Alguns, talvez menos resistentes, ou possivelmente mais carentes, não se contentavam com visitas esporádicas a alcovas desconfortáveis habitadas por fêmeas sem jeito e desprovidas de atractivos. Esses, ao fim de algum tempo, acabavam por se fixar num kafeco, que passavam a considerar sua a tempo inteiro, adquirindo-a em troca do alambamento cujo preço o pai fixava, passando a ser dono da rapariga que lá ia cumprindo a sua função, toda vaidosa porque agora pertencia a um branquela que, de quando em vez, a presenteava com um agrado insignificante. Sim que as mulheres ganguelas não eram muito exigentes e qualquer pano colorido era suficiente para as fazer felizes. Não imaginam os favores que se conseguiam comprar com um simples maço de tabaco.
Na 3441 e tanto quanto me lembro, apenas o furriel das transmissões comprou mulher. A Regina Preta, como era conhecida, era uma mulher da savana, negra de um escuro intenso, de pele áspera e peitos volumosos mas flácidos e caídos. Não devia nada à beleza, mas passou a ter homem branco só para si, por sinal ciumento e que a procurava guardar o melhor que podia das investidas dos demais que, apenas por pirraça e a troco de meia dúzia de tostões, usufruíam da propriedade adquirida. E como isso não era fácil, que o furrfiel não facilitava, cada vitória era saboreada mais por isso do que pelos poucos minutos de prazer, já que a arte do amor não era exactamente a especialidade daquelas mulheres. Ou então era a falta de empenho ou de competência de homens habituados a coisa diferente, não conseguindo obter mais do que uns inábeis e mecânicos meneios da função por ali designada de ginga ginga.
Por tudo isto, livrar-se de um nada e correr para o tudo que se deixara para trás, era, assim, um desejo que não nos saía da cabeça. E foi isso que eu imaginei terem sentido os nossos companheiros da marinha quando, finalizada a comissão no Cuando, regressaram a Luanda e provavelmente daí para o Puto. E a alegria teria sido mais efusiva não fora o facto de ainda estarem a recuperar da perda do Ruço e das mazelas resultantes do ataque que a lancha sofrera pouco tempo antes.
De facto, só não pensavam sair dali os que ali nasceram e não conheciam outro mundo. Todos os demais apenas permaneciam pelo tempo imposto pela comissão, desde o Administrador da Circunscrição, aos agentes da PSP, da DGS, tropa, marinha e um ou outro funcionário administrativo. Enfim, todos estavam de passagem, alimentando o desejo de regressar o mais depressa possível.
Compreende-se assim a minha surpresa e espanto ao ver, por detrás do balcão da única lojeca existente no Rivungo, o Godinho, marinheiro que, há uns meses atrás eu vira despedir-se e que presumi contente por ter concluído aquela comissão num local para onde, por vezes, eram destacados, a título de punição, marinheiros com a folha de serviço suja por algum mau comportamento, pelo menos para o padrão de exigência do regulamento de disciplina militar que, por mim, nunca vi em qualquer deles comportamentos que justificassem censura.
É verdade, aquele marinheiro regressara ao Rivungo e pelos vistos de forma voluntária, para ali ficar e criar raízes. Comprara por um preço em conta a única loja existente num raio de algumas centenas de quilómetros, já que, entre o Chipundo e Mavinga, apenas na Neriquinha, num tosco barracão gerido pela tropa, se vendiam algumas tralhas à população local – chamávamos-lhe pomposamente “O Chiado”.
A rudimentar barraca de paredes de barro e cobertura de capim onde aquele marinheiro aplicou o seu investimento, fora, durante muito tempo, o negócio de um velhote que conhecemos quando ali chegámos, em Novembro de 1971. Apenas me lembro que era um homem só, de poucas palavras e que se calhar já não fazia ideia do que era uma cidade. Deve ter-se fartado e certamente largou o negócio por pouca coisa. A loja, dotada de um pequeno balcão muito rudimentar, raramente tinha clientes. De facto, os artigos que vendia - uns panos coloridos, umas missangas, uns paus de sabão e alguns utensílios - apenas interessavam à população local. E como o dinheiro não era coisa que os ganguelas tivessem ou lhes fizesse falta, a clientela escasseava. Na loja do velhote, estrategicamente situada à entrada da povoação mesmo em frente ao Kimbo, apenas um ou outro procurava trocar os magros tostões que ia arrecadando por algo que lhes interessasse ou que considerasse de utilidade.
Logo que pude, fui fazer-lhe uma visita. Recebeu-me com um sorriso aberto, mantendo-se no seu novel posto, de pé, por detrás do pequeno balcão. Se bem me lembro não deu justificações para o seu regresso e nem lhas pedi. No momento, não encontrei lógica na decisão que tomara, mas a verdade era aquela; o marinheiro voltara para junto do rio, lá para os confins das terras-do-fim-do-mundo, o mais longe possível do mar e do mundo onde cresceu. Se calhar, o facto de ter passado tanto tempo longe da civilização, tornara insuportável, para ele, o bulício citadino, passando a preferir a calma e o silêncio. Para mim, o Rivungo, era apenas um lugar um pouco melhor que tudo o mais que o rodeava, ficando a minha paixão pelo local, reduzida ao desmedido desejo de sair dali logo que tivesse autorização para isso.
Assim, não me pareceu que tão inopinada paixão por uma terra que não tinha nada para dar a um europeu habituado a outras mordomias, fosse a razão que levou aquele marinheiro a dedicar-se à exploração de um negócio sem futuro, num local para onde não confluem caminhos. Ali não havia nada e tudo o que fosse preciso estava demasiado longe, quase inacessível. Nem médico ou sequer um posto médico. Para tratar da saúde, numa aflição, apenas a enfermaria da marinha ou da tropa, servidas por enfermeiros formados à pressa.
Ninguém me tira da cabeça que a oportunidade do negócio não passou de uma espécie de pretexto, ou justificação para a decisão que tomara. Com efeito, apercebi-me mais tarde, porque alguém me abriu os olhos, que havia outra razão forte a justificar o retorno. O homem ficara preso à mulher de quem se serviu - ou que o serviu, tanto faz - enquanto cumpria ali a sua missão.
De facto, sabia-se que passava muitas noites numa certa cubata algures no meio das outras do pequeno kimbo do Rivungo. Seria mais um daqueles que não se contentava com visitas esporádicas. Mas, pelos vistos, terá ficado preso aos encantos de uma mulher que, sem atributos físicos, pouco mais sabia do que aquilo que a vida de mulher da savana lhe ensinara.
Mesmo assim, ainda hoje, continuo sem saber se o seu retorno ao Rivungo foi uma aposta no negócio, paixão pela savana ou o impulso irresistível de se anichar nos braços de uma mulher, negra, sem perfume, sem beleza, mas com os encantos necessários para o prender. A ponto de o fazer voltar a um lugar impensável.

sábado, 18 de dezembro de 2010

OS PUTOS

Putos, há-os em todo o lado. E na Neriquinha havia-os às dúzias e de todas as idades.






















Eram engraçados, como aliás são os putos de qualquer raça ou credo.
Pequenitos, de olhos vivos a brilharem nas suas caras escuras.
E também corriam, gritavam, riam e brincavam como todos os outros. E choravam como se compreende.













Geralmente nus ou quase, com o corpo normalmente coberto de sujidade, visível em desenhos aleatórios riscados na sua pele baça de pó.













Alguns de barriga proeminente, sinal evidente de alimentação deficiente. Mas, a maioria já não apresentava tal característica. A proximidade da tropa garantia-lhes uma alimentação diferente daquela a que os seus pais se habituaram.
Era vê-los a rondar a cozinha, especialmente no fim do almoço.
Enfim, miúdos nascidos na savana mas que cresceram habituados à proximidade de tropas. Um dia dei por mim a pensar que, se calhar, na cabeça daqueles garotos um homem branco era alguém de pele clara, vestindo por regra uma farda camuflada e sempre com um barrete esquisito na cabeça.
Como em qualquer comunidade, eram todos diferentes e ao mesmo tempo todos iguais. Lembro-me que cheguei a perguntar-me como é que as respectivas mães reconheciam os seus. Seria por isso que andavam permanentemente com os mais pequenitos encafuados em bolsas de panos num imaginativa criação de alcofas portáteis? É que nunca os largavam.
Mas era apenas uma estupidez minha, de primeira impressão. Como é bom de ver, são todos diferentes uns dos outros, como quaisquer outras crianças.
Mas havia um que se distinguia dos demais. Era a prova, o sinal evidente da passagem da tropa por ali. As mulheres Ganguelas não eram esquisitas e pelos vistos os brancos, também não. Especialmente os loiros.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

De volta ao Rivungo

Muito lentamente, é verdade, mas de forma inexorável o tempo ia passando. Cada dia se sucedia ao anterior numa repetição monocórdica que ia deixando aquela sensação de contínuo voltar ao ponto de partida, embora os ponteiros do relógio seguissem paulatinamente o seu ritmo. Assim, como quem não quer a coisa, já levávamos um ano de Neriquinha.
Para nós, a savana já não tinha segredos. Conhecíamos as armadilhas da chana, sabíamos dos melhores lugares para caçar, identificávamos ao longe qualquer animal da rica e variada fauna, desde a gigantesca gunga à pequenina cabra do mato, tratavam-se os mosquitos por tu e percebemos finalmente que a única forma de correr com os percevejos da cama era regá-la com gasolina e deitar-lhe fogo.
Entretanto, já todos os grupos de combate tinham passado pelo destacamento do Rivungo. Com excepção do primeiro, mas como este não entrava na rotação, a volta estava completa e chegava de novo a nossa vez. Mais uma missão comandada pelo alferes Fausto Oliveira, secundado por três furriéis: eu, o Silva e o Ramires que, já lá estando, continuaria a comissão em substituição do Palúdico que fora evacuado para o Cuito Cuanavale. A fraca resistência do Duarte ao paludismo teria determinado da sua colocação na sede do batalhão, se bem que eu nunca tivesse conseguido ver qual a diferença entre a Neriquinha e o Cuito no que toca à maior ou menor exposição às picadas das fêmeas dos mosquitos transmissores da doença.
É verdade, apenas as fêmeas do Anopheles eram portadoras da doença e como nunca fui infectado, só posso concluir que não queriam nada comigo. Razão tinha eu para as detestar; fêmeas promíscuas, infectadas e ainda por cima não gostavam de mim. Ou seria ao contrário?
Mas, adiante. Embora todos concordassem que estar no Rivungo era sempre mais agradável que na Neriquinha, lembro-me de não fazer muita questão. Para mim era indiferente. Já criara a rotina e conformei os meus hábitos com a monotonia diária, quebrada de quando em vez por este ou aquele episódio que nos desviava a atenção da paisagem circundante. Sempre a mesma, embora mudasse para um verde luxuriante com a chegada das chuvas e voltasse ao amarelo ocre e poeirento com o avanço do cacimbo.
A verdade é que, não podendo sair dali, tanto se me dava um sítio como o outro se bem que o Rivungo, mais aprazível, acabasse por ganhar a preferência e vencer a minha frágil e aparente indiferença.
Empacotei as poucas tralhas, acomodei-me na berliet com o resto do pessoal e metemo-nos a caminho, seguindo o mesmo itinerário que fizera quando ali cheguei. Só que agora a picada era sobejamente conhecida, as chanas não tinham segredos e sabíamos mais ou menos o que vinha a seguir a cada curva. Aqui um buraco feito no último atascanço, ali um troço de picada a evitar, acolá onde se poderia apanhar alguma peça de caça, mas sempre sob o mesmo calor tórrido acompanhado dos irritantes insectos indiferentes ao pó que nos entrava pelas narinas e a que já não se dava importância. Aquele era agora o nosso mundo e a viagem era igual a tantas outras que já fizéramos. Na verdade, sentia-me perfeitamente adaptado, autêntico alter-ego nascido naquela terra de ninguém, indiferente à dureza dos elementos e capaz de aproveitar o que de melhor se pudesse tirar daquela natureza inóspita e agreste.
A viagem correu sem incidentes, pela picada sinuosa, passando pelas bem conhecidas pontes do Cúbia, seguindo-se a chana extensa que abraça o rio do mesmo nome e despontando umas horas depois na charca semi-pantanosa que antecedia o Liahona. Desta vez o Alexandre já não nos esperava de cerveja na mão e sorriso franco. O Liahana estava agora deserto, restando apenas cubatas envelhecidas, abandonadas pela população. As autoridades administrativas haviam decidido mudar a localização do kimbo para perto das margens do Rio Cuando. Aí foram construídas novas cubatas, fazendo nascer um kimbo novo em folha. Diziam que ficava mais perto das zonas agrícolas que a população utilizava.
Contudo, ficava fora do trajecto normal que ligava a Neriquinha e o Rivungo. Ir lá, implicava fazer um desvio ou deslocação propositada, coisa que não fizemos, nem daquela nem de outra vez. Preferimos o caminho do costume que seguia em frente passando pelo Mugamba e pelo Demba aproveitando-se para amenizar um pouco o isolamento monótono dos dois polícias ali destacados numa vida de miséria, no cumprimento de uma missão espinhosa: garantir algum apoio às populações já que, falar de segurança era exagero, dada a sua fraca capacidade de resistência a qualquer incursão que os turras pudessem fazer. A sorte é que, pelo menos enquanto por ali estivemos, apenas o Mugamba foi atacado uma vez e mesmo essa, só para chatear.
Chegámos ao Rivungo dentro do previsto, após sete horas de solavancos e sacudidelas pela picada caprichosa que mudava frequentemente de aspecto, consistência e traçado. Umas vezes sinuosa, outras correndo a direito, nuns sítios mergulhando em terrenos pantanosos, noutros plana e transitável para de seguida se transformar inopinadamente em regos arenosos onde as berliets se enterravam escoiceando para se livrarem da armadilha.
Confesso que na altura já considerava tudo isso, normal; o longo tempo do percurso, o desconforto da estrada, a paisagem variada, ora monótona ora extasiante, o silêncio circundante apenas perturbado pelo roncar dos motores, os animais que surgiam aqui e ali, ora mirando-nos indiferentes ora fugindo num galope desordenado, os bandos de rolas debandando por sobre as árvores, as infernais moscas minúsculas que não nos largavam e sempre aquele sol implacável, ferindo os olhos, queimando a pele e desidratando os corpos.
A chegada, após as costumeiras mais de sete horas de viagem, pareceu-me uma espécie de retorno a um local familiar. Tão diferente de quando ali aportei pela primeira vez. Nessa altura, o temor pelo desconhecido e a surpresa do inesperado deixaram um certo amargo de boca. Agora não. Conhecia as pessoas, os recantos, até alguns da população. O Administrador Litenda apareceu logo a dar-nos as boas vindas e com pressa de apresentar o seu substituto que a idade já ia avançada e a reforma estava à vista. O Chefe França da PSP continuava com o seu bom humor e o aspecto seráfico dos dois pides não se alterara; ainda assim continuavam simpáticos se assim se pode dizer. O Camassango já se tinha ido, com um fim de comissão atribulado. O pequeno avião que, numa boleia de ocasião, utilizou para deixar aquele local remoto onde tinha sido colocado, cairia algum tempo depois de levantar voo, num local qualquer perdido na savana. Decorreram 3 ou quatro dias antes que uma equipe de busca da Força Aérea os encontrasse, famintos e quase a soçobrar.
Lá estava o destacamento da Marinha, mas agora exibindo um posto de vigia, bem alto, construído com paus cortados na mata e encimado por um nicho coberto de capim. Era de facto um bom posto de sentinela e que propiciava uma vista privilegiada sobre as redondezas. A lancha, encostada e ainda incapacitada pelo ataque que sofrera, quedava-se imóvel no pequeno ancoradouro escavado na margem do rio, aguardando que de Luanda viessem as peças e os técnicos para a necessária reparação. Na verdade nunca mais a vi navegar. Sei apenas que foi reparada mais tarde quando já andávamos por outras paragens.
Muitos dos fuzileiros que conheci, nos meus primeiros três meses de Rivungo, já tinham dali saído uma vez acabada a comissão que lhes fora imposta. Mas ainda restavam alguns, entre eles, o Jorge, artilheiro da lancha.
As instalações da tropa, continuavam no mesmo local, debruçadas sobre o pequeno charco de água em tons de âmbar, com o mesmo aspecto de sempre, numa quietude serena, embora continuamente renovada pelo caudal do Rio Cuando correndo ali perto, sinuoso, tocando terra firme nos mesmos locais, para logo se afastar perdendo-se caprichoso no meio dos caniços da chana imensa como se fizesse questão de dar um salto ao outro lado da fronteira onde, difusa pela distância, a silhueta esbranquiçada das casas da vila zambiana de Shangombo, nos espiava de território inimigo.
Sentia-me bem. Era o retornar a um sítio já conhecido onde tinha passado momentos agradáveis. Larguei os meus haveres, assinei a papelada que me tornava desta vez responsável pelas coisas do depósito de géneros e da cozinha e fui mergulhar nas águas frescas do rio, dar umas braçadas e livrar-me do sarro da viagem. Já tinha saudades, na Neriquinha havia duches mas nada onde se pudesse mergulhar, nem perto nem longe. E num sítio onde as temperaturas são sempre elevadas, isso não é coisa que se possa descartar.
Naquela noite, dormi profundamente numa cama em tudo igual à da Neriquinha, só que esta não tinha percevejos. Só os mosquitos a tentar penetrar a barreira da rede mosquiteira, mas nada que me tirasse o sono como da primeira vez. O dia seguinte seria dedicado a procurar a mulher que me lavava a roupa e a rever os amigos que ali deixara.