terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O albino

Na N'Riquinha, havia um albino. Ao que sei, era um albino completo pois toda a sua pele era branca pela falta de melanina, tinha dificuldades de visão durante o dia, pois, possuía uns olhos muito claros e todo o cabelo era branco.
Nunca soube o nome dele e duvido que alguém da companhia o soubesse: era, simplesmente, o Albino.
Dada a sua condição, era raro ver-se durante o dia e, quando isso acontecia, estava sempre recolhido à sombra de forma a evitar as queimaduras que a exposição ao sol lhe causava na pele bastante sensível .
Recordo-me, no entanto, de o ver passar à noite a deslocar-se como um gato, pois os seus olhos bastante claros, carregados de bastonetes, permitiam-lhe uma soberba visão nocturna. Pelo que fui percebendo, não era segregado pela população, mas, pelo contrário, respeitavam a sua condição e era bem tratado.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os Velhos...ou a sabedoria!

Sempre me fascinou a serenidade dos rostos dos velhos da N'Riquinha.
Austeros nos sorrisos mas sempre amigáveis, nunca subservientes mas atentos e respeitadores, irradiavam simpatia e bondade no contacto com a tropa. A sua dependência diária em relação a nós raramente era visível, se bem que necessária por força das circunstâncias. Sabiam - com a sabedoria que 500 anos de colonialismo lhes tinha ensinado - distinguir e separar das suas vidas pessoais e comunitárias a obrigação e a necessidade de connosco conviver.
Dotados de conhecimentos extraordinários, empiricamente acumulados durante milénios, no campo da sobrevivência, da medicina natural e da natureza, obrigavam-nos e impunham-nos um respeito natural que, felizmente, a Companhia sempre soube observar.
Contudo, o que me fascinava, era os seus olhos, vivos, brilhantes e matreiros que luziam no meio dos rostos cobertos de rugas que os anos e a inclemência da natureza lhes gravaram na pele.






sábado, 1 de janeiro de 2011

O RETORNO do MARINHEIRO ou o amor em tempo de guerra

Durante os longos dezoito meses que andei por terras do Cuando Cubango, dei-me conta que o dia do regresso, aquele em que dali sairíamos, era uma espécie de assunto recorrente, quase uma mania que, com frequência, ocupava as nossas conversas e pensamentos. Era tema a que se voltava de quando em vez, especialmente se a saudade batia à porta. Na verdade, era o dia mais desejado a seguir ao de “São Correio”. Só que este era certo e vinha duas vezes por semana, enquanto aquele não passava de uma miragem distante, algures no difuso horizonte das nossas vidas.
Era de facto o dia mais esperado e isso era tão importante que justificava a manutenção de calendários onde, em contagem decrescente, se ia marcando o tempo já passado e controlando o restante. Quanto mais os dias riscados, mais próximo o tão almejado dia. A cada pôr-do-sol, rejubilava-se:
- um dia a menos! E quando se completou um ano de Neriquinha, o desabafo foi substituído por um resignado: - já faltou mais!
O pior é que ninguém sabia quando isso iria acontecer. A companhia anterior saiu dali passado um ano e parece que teria sido sempre assim. O lugar era tão mau que justificava a preocupação das hierarquias militares em proteger a sanidade mental de quem tivesse tido o azar de para ali ter sido despachado, procurando encurtar tanto quanto possível a comissão naquele oásis improvisado. Assumia-se, por isso, ser mais ou menos certo que, passado um ano de degredo, haveria rotação para um lugar mais aprazível.
Mas não tivemos essa sorte. Passados doze meses comecei a alimentar a esperança que seria mais dia, menos dia. E como esse dia nunca mais chegava, assumi que seria mais semana menos semana, depois que talvez fosse daí a um mês, até que por volta do décimo quinto mês de Neriquinha e Rivungo deixei de pensar no assunto e já só me contentava com a certeza de que algum dia haveria de ser, nem que fosse no fim dos dois anos de comissão. Ia assim enganando a consciência com o facto de os meses já passados serem mais do que os que ainda faltavam.
– Já não falta tudo. Concluía na tentativa de amenizar a expectativa.
Com o pessoal da marinha, as coisas não eram muito diferentes. Quando ali chegavam tinham uma vaga ideia do dia em que tudo terminaria, sendo atormentados pelos mesmos sentimentos. Na verdade, tropas ou marinheiros, polícias ou civis, fosse quem fosse que ali estivesse no cumprimento de um missão por tempo limitado, todos tinham no pensamento o dia em que finalmente deixariam para trás as Terras-do-Fim-do-Mundo, diriam adeus às águas do Cuando, respectivos afluentes e chanas, aos kimbos, aos irritantes trajectos por picadas de areia poeirenta e à falta de quase tudo.
Mas não era apenas a imposição de uma missão indesejada, num local impensável, longe de tudo e de todos, que nos atormentava o espírito e alimentava o desejo de ver chegado o dia do regresso. As saudades do que deixáramos para trás eram ampliadas pelos riscos da missão, pelo desterro a que fôramos votados e pela vida miserável e difícil que tínhamos de levar. E a falta de mulher, mulher branca, de seios redondos e rijos, de pele delicada, cheirosa e doce, ocupava o pensamento, atormentava os sentimentos, fazia doer a alma e trazia à memória prazeres já gozados que agora pareciam apenas privilégios inacessíveis.
Enfim, necessidades que cada um procurava mitigar com os parcos recursos locais, satisfazendo fugazmente apetites lascivos que se esfumavam em rapidinhas incursões nocturnas mas que não conseguiam apagar o desejo incontido.
Alguns, talvez menos resistentes, ou possivelmente mais carentes, não se contentavam com visitas esporádicas a alcovas desconfortáveis habitadas por fêmeas sem jeito e desprovidas de atractivos. Esses, ao fim de algum tempo, acabavam por se fixar num kafeco, que passavam a considerar sua a tempo inteiro, adquirindo-a em troca do alambamento cujo preço o pai fixava, passando a ser dono da rapariga que lá ia cumprindo a sua função, toda vaidosa porque agora pertencia a um branquela que, de quando em vez, a presenteava com um agrado insignificante. Sim que as mulheres ganguelas não eram muito exigentes e qualquer pano colorido era suficiente para as fazer felizes. Não imaginam os favores que se conseguiam comprar com um simples maço de tabaco.
Na 3441 e tanto quanto me lembro, apenas o furriel das transmissões comprou mulher. A Regina Preta, como era conhecida, era uma mulher da savana, negra de um escuro intenso, de pele áspera e peitos volumosos mas flácidos e caídos. Não devia nada à beleza, mas passou a ter homem branco só para si, por sinal ciumento e que a procurava guardar o melhor que podia das investidas dos demais que, apenas por pirraça e a troco de meia dúzia de tostões, usufruíam da propriedade adquirida. E como isso não era fácil, que o furrfiel não facilitava, cada vitória era saboreada mais por isso do que pelos poucos minutos de prazer, já que a arte do amor não era exactamente a especialidade daquelas mulheres. Ou então era a falta de empenho ou de competência de homens habituados a coisa diferente, não conseguindo obter mais do que uns inábeis e mecânicos meneios da função por ali designada de ginga ginga.
Por tudo isto, livrar-se de um nada e correr para o tudo que se deixara para trás, era, assim, um desejo que não nos saía da cabeça. E foi isso que eu imaginei terem sentido os nossos companheiros da marinha quando, finalizada a comissão no Cuando, regressaram a Luanda e provavelmente daí para o Puto. E a alegria teria sido mais efusiva não fora o facto de ainda estarem a recuperar da perda do Ruço e das mazelas resultantes do ataque que a lancha sofrera pouco tempo antes.
De facto, só não pensavam sair dali os que ali nasceram e não conheciam outro mundo. Todos os demais apenas permaneciam pelo tempo imposto pela comissão, desde o Administrador da Circunscrição, aos agentes da PSP, da DGS, tropa, marinha e um ou outro funcionário administrativo. Enfim, todos estavam de passagem, alimentando o desejo de regressar o mais depressa possível.
Compreende-se assim a minha surpresa e espanto ao ver, por detrás do balcão da única lojeca existente no Rivungo, o Godinho, marinheiro que, há uns meses atrás eu vira despedir-se e que presumi contente por ter concluído aquela comissão num local para onde, por vezes, eram destacados, a título de punição, marinheiros com a folha de serviço suja por algum mau comportamento, pelo menos para o padrão de exigência do regulamento de disciplina militar que, por mim, nunca vi em qualquer deles comportamentos que justificassem censura.
É verdade, aquele marinheiro regressara ao Rivungo e pelos vistos de forma voluntária, para ali ficar e criar raízes. Comprara por um preço em conta a única loja existente num raio de algumas centenas de quilómetros, já que, entre o Chipundo e Mavinga, apenas na Neriquinha, num tosco barracão gerido pela tropa, se vendiam algumas tralhas à população local – chamávamos-lhe pomposamente “O Chiado”.
A rudimentar barraca de paredes de barro e cobertura de capim onde aquele marinheiro aplicou o seu investimento, fora, durante muito tempo, o negócio de um velhote que conhecemos quando ali chegámos, em Novembro de 1971. Apenas me lembro que era um homem só, de poucas palavras e que se calhar já não fazia ideia do que era uma cidade. Deve ter-se fartado e certamente largou o negócio por pouca coisa. A loja, dotada de um pequeno balcão muito rudimentar, raramente tinha clientes. De facto, os artigos que vendia - uns panos coloridos, umas missangas, uns paus de sabão e alguns utensílios - apenas interessavam à população local. E como o dinheiro não era coisa que os ganguelas tivessem ou lhes fizesse falta, a clientela escasseava. Na loja do velhote, estrategicamente situada à entrada da povoação mesmo em frente ao Kimbo, apenas um ou outro procurava trocar os magros tostões que ia arrecadando por algo que lhes interessasse ou que considerasse de utilidade.
Logo que pude, fui fazer-lhe uma visita. Recebeu-me com um sorriso aberto, mantendo-se no seu novel posto, de pé, por detrás do pequeno balcão. Se bem me lembro não deu justificações para o seu regresso e nem lhas pedi. No momento, não encontrei lógica na decisão que tomara, mas a verdade era aquela; o marinheiro voltara para junto do rio, lá para os confins das terras-do-fim-do-mundo, o mais longe possível do mar e do mundo onde cresceu. Se calhar, o facto de ter passado tanto tempo longe da civilização, tornara insuportável, para ele, o bulício citadino, passando a preferir a calma e o silêncio. Para mim, o Rivungo, era apenas um lugar um pouco melhor que tudo o mais que o rodeava, ficando a minha paixão pelo local, reduzida ao desmedido desejo de sair dali logo que tivesse autorização para isso.
Assim, não me pareceu que tão inopinada paixão por uma terra que não tinha nada para dar a um europeu habituado a outras mordomias, fosse a razão que levou aquele marinheiro a dedicar-se à exploração de um negócio sem futuro, num local para onde não confluem caminhos. Ali não havia nada e tudo o que fosse preciso estava demasiado longe, quase inacessível. Nem médico ou sequer um posto médico. Para tratar da saúde, numa aflição, apenas a enfermaria da marinha ou da tropa, servidas por enfermeiros formados à pressa.
Ninguém me tira da cabeça que a oportunidade do negócio não passou de uma espécie de pretexto, ou justificação para a decisão que tomara. Com efeito, apercebi-me mais tarde, porque alguém me abriu os olhos, que havia outra razão forte a justificar o retorno. O homem ficara preso à mulher de quem se serviu - ou que o serviu, tanto faz - enquanto cumpria ali a sua missão.
De facto, sabia-se que passava muitas noites numa certa cubata algures no meio das outras do pequeno kimbo do Rivungo. Seria mais um daqueles que não se contentava com visitas esporádicas. Mas, pelos vistos, terá ficado preso aos encantos de uma mulher que, sem atributos físicos, pouco mais sabia do que aquilo que a vida de mulher da savana lhe ensinara.
Mesmo assim, ainda hoje, continuo sem saber se o seu retorno ao Rivungo foi uma aposta no negócio, paixão pela savana ou o impulso irresistível de se anichar nos braços de uma mulher, negra, sem perfume, sem beleza, mas com os encantos necessários para o prender. A ponto de o fazer voltar a um lugar impensável.

sábado, 18 de dezembro de 2010

OS PUTOS

Putos, há-os em todo o lado. E na Neriquinha havia-os às dúzias e de todas as idades.






















Eram engraçados, como aliás são os putos de qualquer raça ou credo.
Pequenitos, de olhos vivos a brilharem nas suas caras escuras.
E também corriam, gritavam, riam e brincavam como todos os outros. E choravam como se compreende.













Geralmente nus ou quase, com o corpo normalmente coberto de sujidade, visível em desenhos aleatórios riscados na sua pele baça de pó.













Alguns de barriga proeminente, sinal evidente de alimentação deficiente. Mas, a maioria já não apresentava tal característica. A proximidade da tropa garantia-lhes uma alimentação diferente daquela a que os seus pais se habituaram.
Era vê-los a rondar a cozinha, especialmente no fim do almoço.
Enfim, miúdos nascidos na savana mas que cresceram habituados à proximidade de tropas. Um dia dei por mim a pensar que, se calhar, na cabeça daqueles garotos um homem branco era alguém de pele clara, vestindo por regra uma farda camuflada e sempre com um barrete esquisito na cabeça.
Como em qualquer comunidade, eram todos diferentes e ao mesmo tempo todos iguais. Lembro-me que cheguei a perguntar-me como é que as respectivas mães reconheciam os seus. Seria por isso que andavam permanentemente com os mais pequenitos encafuados em bolsas de panos num imaginativa criação de alcofas portáteis? É que nunca os largavam.
Mas era apenas uma estupidez minha, de primeira impressão. Como é bom de ver, são todos diferentes uns dos outros, como quaisquer outras crianças.
Mas havia um que se distinguia dos demais. Era a prova, o sinal evidente da passagem da tropa por ali. As mulheres Ganguelas não eram esquisitas e pelos vistos os brancos, também não. Especialmente os loiros.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

De volta ao Rivungo

Muito lentamente, é verdade, mas de forma inexorável o tempo ia passando. Cada dia se sucedia ao anterior numa repetição monocórdica que ia deixando aquela sensação de contínuo voltar ao ponto de partida, embora os ponteiros do relógio seguissem paulatinamente o seu ritmo. Assim, como quem não quer a coisa, já levávamos um ano de Neriquinha.
Para nós, a savana já não tinha segredos. Conhecíamos as armadilhas da chana, sabíamos dos melhores lugares para caçar, identificávamos ao longe qualquer animal da rica e variada fauna, desde a gigantesca gunga à pequenina cabra do mato, tratavam-se os mosquitos por tu e percebemos finalmente que a única forma de correr com os percevejos da cama era regá-la com gasolina e deitar-lhe fogo.
Entretanto, já todos os grupos de combate tinham passado pelo destacamento do Rivungo. Com excepção do primeiro, mas como este não entrava na rotação, a volta estava completa e chegava de novo a nossa vez. Mais uma missão comandada pelo alferes Fausto Oliveira, secundado por três furriéis: eu, o Silva e o Ramires que, já lá estando, continuaria a comissão em substituição do Palúdico que fora evacuado para o Cuito Cuanavale. A fraca resistência do Duarte ao paludismo teria determinado da sua colocação na sede do batalhão, se bem que eu nunca tivesse conseguido ver qual a diferença entre a Neriquinha e o Cuito no que toca à maior ou menor exposição às picadas das fêmeas dos mosquitos transmissores da doença.
É verdade, apenas as fêmeas do Anopheles eram portadoras da doença e como nunca fui infectado, só posso concluir que não queriam nada comigo. Razão tinha eu para as detestar; fêmeas promíscuas, infectadas e ainda por cima não gostavam de mim. Ou seria ao contrário?
Mas, adiante. Embora todos concordassem que estar no Rivungo era sempre mais agradável que na Neriquinha, lembro-me de não fazer muita questão. Para mim era indiferente. Já criara a rotina e conformei os meus hábitos com a monotonia diária, quebrada de quando em vez por este ou aquele episódio que nos desviava a atenção da paisagem circundante. Sempre a mesma, embora mudasse para um verde luxuriante com a chegada das chuvas e voltasse ao amarelo ocre e poeirento com o avanço do cacimbo.
A verdade é que, não podendo sair dali, tanto se me dava um sítio como o outro se bem que o Rivungo, mais aprazível, acabasse por ganhar a preferência e vencer a minha frágil e aparente indiferença.
Empacotei as poucas tralhas, acomodei-me na berliet com o resto do pessoal e metemo-nos a caminho, seguindo o mesmo itinerário que fizera quando ali cheguei. Só que agora a picada era sobejamente conhecida, as chanas não tinham segredos e sabíamos mais ou menos o que vinha a seguir a cada curva. Aqui um buraco feito no último atascanço, ali um troço de picada a evitar, acolá onde se poderia apanhar alguma peça de caça, mas sempre sob o mesmo calor tórrido acompanhado dos irritantes insectos indiferentes ao pó que nos entrava pelas narinas e a que já não se dava importância. Aquele era agora o nosso mundo e a viagem era igual a tantas outras que já fizéramos. Na verdade, sentia-me perfeitamente adaptado, autêntico alter-ego nascido naquela terra de ninguém, indiferente à dureza dos elementos e capaz de aproveitar o que de melhor se pudesse tirar daquela natureza inóspita e agreste.
A viagem correu sem incidentes, pela picada sinuosa, passando pelas bem conhecidas pontes do Cúbia, seguindo-se a chana extensa que abraça o rio do mesmo nome e despontando umas horas depois na charca semi-pantanosa que antecedia o Liahona. Desta vez o Alexandre já não nos esperava de cerveja na mão e sorriso franco. O Liahana estava agora deserto, restando apenas cubatas envelhecidas, abandonadas pela população. As autoridades administrativas haviam decidido mudar a localização do kimbo para perto das margens do Rio Cuando. Aí foram construídas novas cubatas, fazendo nascer um kimbo novo em folha. Diziam que ficava mais perto das zonas agrícolas que a população utilizava.
Contudo, ficava fora do trajecto normal que ligava a Neriquinha e o Rivungo. Ir lá, implicava fazer um desvio ou deslocação propositada, coisa que não fizemos, nem daquela nem de outra vez. Preferimos o caminho do costume que seguia em frente passando pelo Mugamba e pelo Demba aproveitando-se para amenizar um pouco o isolamento monótono dos dois polícias ali destacados numa vida de miséria, no cumprimento de uma missão espinhosa: garantir algum apoio às populações já que, falar de segurança era exagero, dada a sua fraca capacidade de resistência a qualquer incursão que os turras pudessem fazer. A sorte é que, pelo menos enquanto por ali estivemos, apenas o Mugamba foi atacado uma vez e mesmo essa, só para chatear.
Chegámos ao Rivungo dentro do previsto, após sete horas de solavancos e sacudidelas pela picada caprichosa que mudava frequentemente de aspecto, consistência e traçado. Umas vezes sinuosa, outras correndo a direito, nuns sítios mergulhando em terrenos pantanosos, noutros plana e transitável para de seguida se transformar inopinadamente em regos arenosos onde as berliets se enterravam escoiceando para se livrarem da armadilha.
Confesso que na altura já considerava tudo isso, normal; o longo tempo do percurso, o desconforto da estrada, a paisagem variada, ora monótona ora extasiante, o silêncio circundante apenas perturbado pelo roncar dos motores, os animais que surgiam aqui e ali, ora mirando-nos indiferentes ora fugindo num galope desordenado, os bandos de rolas debandando por sobre as árvores, as infernais moscas minúsculas que não nos largavam e sempre aquele sol implacável, ferindo os olhos, queimando a pele e desidratando os corpos.
A chegada, após as costumeiras mais de sete horas de viagem, pareceu-me uma espécie de retorno a um local familiar. Tão diferente de quando ali aportei pela primeira vez. Nessa altura, o temor pelo desconhecido e a surpresa do inesperado deixaram um certo amargo de boca. Agora não. Conhecia as pessoas, os recantos, até alguns da população. O Administrador Litenda apareceu logo a dar-nos as boas vindas e com pressa de apresentar o seu substituto que a idade já ia avançada e a reforma estava à vista. O Chefe França da PSP continuava com o seu bom humor e o aspecto seráfico dos dois pides não se alterara; ainda assim continuavam simpáticos se assim se pode dizer. O Camassango já se tinha ido, com um fim de comissão atribulado. O pequeno avião que, numa boleia de ocasião, utilizou para deixar aquele local remoto onde tinha sido colocado, cairia algum tempo depois de levantar voo, num local qualquer perdido na savana. Decorreram 3 ou quatro dias antes que uma equipe de busca da Força Aérea os encontrasse, famintos e quase a soçobrar.
Lá estava o destacamento da Marinha, mas agora exibindo um posto de vigia, bem alto, construído com paus cortados na mata e encimado por um nicho coberto de capim. Era de facto um bom posto de sentinela e que propiciava uma vista privilegiada sobre as redondezas. A lancha, encostada e ainda incapacitada pelo ataque que sofrera, quedava-se imóvel no pequeno ancoradouro escavado na margem do rio, aguardando que de Luanda viessem as peças e os técnicos para a necessária reparação. Na verdade nunca mais a vi navegar. Sei apenas que foi reparada mais tarde quando já andávamos por outras paragens.
Muitos dos fuzileiros que conheci, nos meus primeiros três meses de Rivungo, já tinham dali saído uma vez acabada a comissão que lhes fora imposta. Mas ainda restavam alguns, entre eles, o Jorge, artilheiro da lancha.
As instalações da tropa, continuavam no mesmo local, debruçadas sobre o pequeno charco de água em tons de âmbar, com o mesmo aspecto de sempre, numa quietude serena, embora continuamente renovada pelo caudal do Rio Cuando correndo ali perto, sinuoso, tocando terra firme nos mesmos locais, para logo se afastar perdendo-se caprichoso no meio dos caniços da chana imensa como se fizesse questão de dar um salto ao outro lado da fronteira onde, difusa pela distância, a silhueta esbranquiçada das casas da vila zambiana de Shangombo, nos espiava de território inimigo.
Sentia-me bem. Era o retornar a um sítio já conhecido onde tinha passado momentos agradáveis. Larguei os meus haveres, assinei a papelada que me tornava desta vez responsável pelas coisas do depósito de géneros e da cozinha e fui mergulhar nas águas frescas do rio, dar umas braçadas e livrar-me do sarro da viagem. Já tinha saudades, na Neriquinha havia duches mas nada onde se pudesse mergulhar, nem perto nem longe. E num sítio onde as temperaturas são sempre elevadas, isso não é coisa que se possa descartar.
Naquela noite, dormi profundamente numa cama em tudo igual à da Neriquinha, só que esta não tinha percevejos. Só os mosquitos a tentar penetrar a barreira da rede mosquiteira, mas nada que me tirasse o sono como da primeira vez. O dia seguinte seria dedicado a procurar a mulher que me lavava a roupa e a rever os amigos que ali deixara.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Neriquinha vista do céu

Temos algumas fotografias que mostram a Neriquinha vista de cima, uma delas pode ser vista aqui. Mas esta mostra a verdadeira dimensão do local onde vivemos durante dezoito longos meses.
Hoje, passados cerca de 38 anos, ainda consigo reconhecer cada recanto daquele que foi o nosso pequeno mundo.
Mas olhando, assim à distância do tempo, ainda me interrogo como foi possível ali viver durante tanto tempo, tão longe de tudo o que se assemelhasse a civilização.
A fotografia foi-nos oferecida pelo Fernando Simões, furriel de transmissões da companhia que nos rendeu na primavera de 1973, a C.Caç. 5012.
Obrigado Fernando.
Continue a visitar-nos e conte-nos algumas das coisas que se passaram depois de nós.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Caça

Durante a comissão na N'Riquinha, das coisas que mais me agradavam, uma delas era a caça. Largas dezenas de noites à caça, sem contar com os dias carregados de sol e chuva, permitiram-me passar o tempo de uma forma mais agradável e sem as chatices de estar fechado no quartel à espera do amanhã, que nunca mais chegava. O que eu queria era...rua!
Na verdade, tais surtidas, permitiram variar e aumentar as doses de carne a que cada um tinha direito. Palancas, (reais...que crime!) Nunces, Cabras do Mato, Gungas, Gnus, Caixotes e outras variedades de animais cujos nomes hoje me passam, serviram para ajudar nas contas do Furriel Vago-Mestre Morais e o 1º Sargento Pinto.
Uma vez, já nas Mabubas, na bacia da Barragem, saí à caça no barco, um Zebro com capacidade para uma dúzia de militares, que a Companhia tinha para patrulhar o Rio Dange. Com um civil, o Sr. Tomé, responsável pela Barragem das Mabubas, a farolinar, o Gasolina (encarregado de abastecer os motores e viaturas da SONEFE) com a bateria ao colo, o Lobato ao leme, o padeiro e o Zip no apoio, lá saímos ao cair da tarde.
Foi um dia de sorte: matei duas Pacaças enormes, com três tiros apenas.
O pior foi depois. Uma, a que estava à beirinha, foi carregada de imediato para dentro barco, com muita dificuldade, já que este tendia a afastar-se da margem em consequência dos empurrões ao bicho para galgar a amurada. A outra, porque se encontrava um pouco mais afastada e era maior, exigia que o barco ficasse meio apoiado em terra para facilitar o carregamento. Para isso, o melhor era dar-lhe alguma distância da margem e ganhar velocidade, colocando-o meio na água meio na terra. O pior é que, por debaixo da superfície da água e invisível aos nossos olhos, estava um tronco de árvore escondido onde a quilha do barco bateu com grande estrondo. Com aquela paragem violenta, para além de todos ficarmos estendidos no chão do Zebro, o Gasolina caiu à água, arrastando a bateria que tinha ao colo e que alimentava o farolim que nos permitia ver naquela escuridão. Desapareceu, por ali abaixo. O Sr. Tomé, sem largar o farolim da mão, acompanhou a descida lenta do Gasolina em direcção ao fundo e com o corpo já meio dentro da água, apanhou-o pelos cabelos e puxou-o, com a ajuda do Lobato, até ter a cabeça fora da água. Içámo-lo para dentro do barco e tudo se normalizou. O Gasolina, apesar da queda, nunca largou a bateria e nunca o farolim ficou sem energia. Foi o herói do dia!
Quanto às Pacaças: uma foi para a cozinha da Companhia e lá se foi comendo. A outra, derreteu-se numa farra no largo da casa do Capitão, com os civis das Mabubas.
Foi uma forma de homenagearmos a Esposa do Capitão Cabrita que, de férias na Metrópole, tinha ido passar uns dias a Angola.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O ESQUADRÃO

Estou convencido que, durante os mais de dezoito meses que a 3441 esteve na Neriquinha, devemos ter andado por locais que provavelmente nunca antes tinham sido pisados por brancos, fossem eles tropas ou civis.
O esquadrão foi um desses locais.
Não retenho exactamente como surgiu o nome, mas não andarei longe da verdade se disser que foi assim baptizado por ali ter sido localizada uma base inimiga enquadrada por um grupo de guerrilheiros. Esquadrão seria provavelmente a designação atribuída à formação, já que o termo não se enquadrava na estrutura do exército português.
Como é natural, não havia picada até lá e não teria sentido que houvesse. Normalmente as bases inimigas para além de móveis, estariam em locais tão distantes e inacessíveis que passariam despercebidas e por isso a salvo das investidas das nossas tropas.
De qualquer forma, a base foi detectada. Identificada a sua posição exacta logo foi preparada uma grande operação levada a cabo pela 3441 com o objectivo de desalojar os insurrectos e destruir as respectivas instalações. A operação, de considerável dimensão, implicou o envolvimento do grosso do efectivo da nossa companhia, incluindo mais de metade do meu pelotão então estacionado no Rivungo, um reforço da companhia de Mavinga e dois T6 da Força Aérea para o bombardeamento prévio.
Foi uma operação condimentada com episódios que marcaram aqueles que nela participaram, a começar pela autêntica aventura que foi o transporte até ás imediações do local, exigindo o necessário recurso a um guia que, conhecendo bem o trajecto, levou as berliets a corta-mato através de uma mata sem picadas ou caminhos e despida de pontos de referência.
Não participei nesta operação cabendo-me a menos ingrata tarefa de, com uma guarnição reduzida, garantir a segurança das nossas instalações do Rivungo já que o Capitão não quis dispensar o contributo do alferes Fausto.
Mas contaram-me que o assalto foi comandado pelo alferes Torres, à frente de um grupo de voluntários onde se incluía o doido do furriel Silva. Consta que, dada a ordem de ataque, após o bombardeamento prévio pelos dois T6, o grupo de assalto avançou decidido contra a base inimiga. O Silva aperrou a G3, descavilhou uma granada com os dentes e desatou a correr como um doido gritando:
-Ao ataque!!
Por sorte, os guerrilheiros não teriam condições de nos fazer frente. A posição estratégica do acampamento ter-lhes-á permitido detectar a aproximação da tropa com antecedência e optaram por desaparecer das imediações sem deixar rasto ou qualquer dos equipamentos que pudessem ali ter. A verdade é que o grupo de assalto irrompeu por entre trincheiras vazias sem encontrar vivalma ou o que quer que lhes pudesse fazer frente.
Incendiaram as cubatas, destruíram o que havia para destruir, retirou-se a tropa e com ela toda a parafernália de guerra, ficando de novo o local no mais completo sossego.
Passaram-se meses sobre a grande operação. Importava agora certificarmo-nos que a base inimiga não voltara a ser ocupada e se fosse caso disso, desalojá-los de novo do local.
Para a tarefa, foram destacados dois grupos de combate: o meu, com o alferes Fausto à frente e o do Alferes Correia. Só que desta vez sem a necessidade de apoio da Força Aérea. Apenas duas berliets para o transporte.
Saímos da Neriquinha bem cedo apinhados sobre as carroçarias desconfortáveis das viaturas, em direcção às pontes do Rio Cúbia. Aí chegados, em vez de se voltar à esquerda pelo caminho que levava ao Rivungo, seguiu-se em frente penetrando bem no coração da Savana por uma picada ainda desconhecida para mim, atravessando matas e chanas, ora lavrando areia numa marcha lenta feita gincana por entre as árvores, ora enterrando-se nos troços pantanosos que bordejavam cursos de água alimentados pelas chuvas persistentes da época, largando-nos finalmente, longas horas depois, nas imediações do objectivo, mas a uma considerável distância de segurança. Por razões óbvias o resto do percurso teria de ser feito a pé, com todos os cuidados e carregando aos ombros armamento e munições onde se incluía um morteirete e as suas pesadas granadas difíceis de transportar.
Aproximámo-nos da orla da mata sem sair da camuflagem propiciada pelas árvores que bordejavam uma extensa chana que se estendia à nossa frente. Algures por ali corria o Rio Dima, designação inscrita no mapa mas cujo caudal não se divisava por entre o capim rasteiro. Na outra margem, um pouco mais a sul, escondido algures entre a mata, estaria o nosso objectivo.
Atravessar ali era impensável. Se a base inimiga estivesse de novo guarnecida, seríamos vistos à légua e bastaria fazer tiro ao alvo no meio do descampado da chana, a que acrescia o risco de nos enterrarmos no pântano formado pelo Dima, cujo caudal por mais fraco que fosse, por ali correria certamente embora não se visse onde.
Discutiu-se a melhor forma de atingir o outro lado sem sermos antecipadamente detectados. Consultando o mapa, dava para ver que o Dima era pouco extenso. A sua nascente não seria muito afastada, se bem que nascente fosse um termo demasiado pomposo para a maioria dos rios que rasgavam a savana de forma irregular e desordenada. Este seria certamente um daquelas cujo curso era alimentado pelas escorrências da água das chuvas que se infiltrava por entre as areias porosas. Era quase certo desaparecer parcialmente durante a época seca.
Fosse como fosse, a prudência aconselhava a contornar o descampado, caminhando para norte de forma a rodear a linha que limitava a chana. Avançámos procurando nunca sair da camuflagem que as árvores propiciavam, seguindo em direcção oposta ao nosso objectivo, numa caminhada que parecia não acabar. Afinal aquela linha de água tinha o seu início bem mais acima do que o mapa parecia supor.
Após contornada aquela espécie de nascente constituída pela meia-lua que iniciava a chana despida de árvores que definia os domínios do Rio Dima, descemos pela margem oposta, apenas parando muito perto do nosso objectivo, quando a noite já quase se instalara.
Acomodámo-nos o melhor possível sob o peso da proximidade da base inimiga e procurei adormecer atormentado pela dúvida sobre o que nos esperava. Teria o inimigo dado pela nossa aproximação? É verdade, que durante todo o tempo, não houve sinais do que quer que fosse que o pudesse confirmar, mas: e se estivessem à espera que adormecêssemos?
O pessoal espalhou-se o mais possível, sem contudo perder o contacto uns com os outros, no meio de um silêncio absoluto. As latas da ração foram abertas com mil cuidados, nem um tilintar se ouviu. Acendiam-se os cigarros à socapa e sorvia-se o fumo debaixo do poncho para que a chama não nos denunciasse.
O dia “D” amanheceu frio e húmido, com uma ligeira neblina que se manteve até o dia clarear. Iniciaram-se os preparativos, recapitularam-se os planos, foram dadas as últimas ordens e cada um tomou o seu lugar de acordo com a estratégia definida. O Silva, como de costume, oferecera-se para comandar o grupo de assalto, constituído por um punhado de homens que arregimentou.
Fiquei a vê-los à medida que avançavam pela mata, sem hesitação, como se soubessem exactamente para onde ir, desaparecendo rapidamente das nossas vistas confundindo-se com a vegetação em direcção ao objectivo camuflado algures por ali um pouco mais abaixo.
Posicionado estrategicamente, o restante efectivo aguardava o desenrolar da operação, pronto para entrar em acção assim que se ouvissem os primeiros tiros. Passaram-se alguns minutos que pareceram uma eternidade sem que se ouvisse o que quer que fosse. O silêncio marcava o compasso das batidas descontroladas do coração, acompanhadas de um mal disfarçado tremor aumentado pelo frio desagradável da manhã. O dia ainda não clareara totalmente e os corpos entorpecidos pela noite mal dormida ainda não tinham tido tempo de aquecer.
Mas nada aconteceu. Lá da frente vinha a informação de que o local estava tão deserto como o resto da mata em redor. O silêncio foi quebrado, os nervos serenaram, voltaram os sorrisos e ouviram-se desabafos aqui e ali. Descontraídos mas ainda assim com atenção a tudo o que nos rodeava, avançámos continuando a rodear o local não fosse estarem emboscados algures à nossa espera.
Mas não. Ninguém nos esperava, nem ali nem mais longe. Na verdade era bem visível que por ali não passara vivalma nos últimos meses. Olhei à volta. O local, instalado estrategicamente num ligeiro declive, distava uns quinhentos metros do perímetro da chana, escondido entre as árvores e suficientemente perto de uma grande lagoa de águas cristalinas. As trincheiras, se bem que parcialmente assoreadas pela areia solta, estavam distribuídas desordenadamente, mas de forma a tocaram os esqueletos das cubatas queimadas e dispersas pelo terreno. Constituíam de facto uma eficaz protecção, mesmo ali à mão.
Sentei-me sobre um tronco avaliando o local. Parecia-me estranho e de certa forma desnecessário o trabalho que tiveram em escavar aquelas valas feitas trincheiras. De facto, quando os atacámos da outra vez, debandaram com antecedência suficiente e nunca mais ali voltaram. Trabalho inútil, pensei. A não ser que apenas servissem como protecção de recurso em ataques de surpresa.
Olhei em volta e imaginei o Silva, meses antes, a correr por ali acima, feito doido, com a granada na mão e cavilha entre os dentes. Se tropeçasse ou fosse atingido, a explosão da granada seria inevitável e mataria alguns dos seus companheiros. Talvez por isso, desta vez, foi mais comedido na forma como avançou. Sem grande alarido, com cuidado mas, ainda assim, de forma decidida, como se fosse algo a que já estivesse habituado a fazer.
Saímos rapidamente dali. Permanecer seria arriscado. A posição era conhecida pelo inimigo e a possibilidade de um bombardeamento à distância não podia ser descurada.
Avançamos para sul, patrulhámos as margens do rio e procuraram-se possíveis sinais da presença dos guerrilheiros. Apenas se encontraram carreiros mas quase cobertos pelas ervas, sinal evidente que a sua utilização era nula ou então esporádica.
Parecia óbvio que o local fora totalmente abandonado. Provavelmente tinham como estratégia não voltar a ocupar instalações que tivessem sido identificados pela tropa. Se era essa a estratégia, revelavam inteligência. Da nossa parte, cumprimos a missão obrigando-os a procurar outro poiso, mais longe, ou mais bem camuflado. Contudo, ficou-me uma espécie de certeza de que todo o trabalho, todo o cuidado colocado na preparação da primeira operação e o retorno ao local meses depois, desalojou os guerrilheiros daquele local, mas provavelmente não causou qualquer embaraço na sua logística e capacidades de resistência.
Mais descontraídos, descansados e inebriados pela beleza agreste do local, encetámos o caminho de regresso ao ponto onde seríamos recolhidos pelas viaturas. Mas nunca seguindo pelo mesmo caminho, seria penoso demais. Atravessaríamos o Dima a direito, mesmo sem sabermos ainda se era possível o seu atravessamento ou não. Parecia que sim, já que naquele local apenas se via o capim rasteiro da chana. Contudo ainda nos estava reservada uma surpresa. Já quase perto da outra margem, aquela que pretendíamos alcançar, a chana plana e transitável deu lugar a uma zona totalmente alagada com uma profundidade de água considerável embora com largura não superior a dois metros e pouco. Afinal, os turras não escolheram o local à toa para a instalação da sua base. Sabiam bem que o atravessamento ali, a direito, era complicado e moroso. Chegar às imediações das improvisadas instalações, vindo do outro lado, implicava um percurso curto mas difícil de vencer ou um trajecto seco, mas longo e penoso. Quer se utilizasse um ou outro, facilmente seríamos detectados com considerável antecedência. A suficiente para decidirem se seria melhor fugir ou resistir. Foi certamente o que aconteceu da primeira vez.
A travessia naquele local, contudo, já bem perto do lado de cá, acabou por ser divertida, Arranjou-se um tronco que serviu como ponte molha-pés e alguns aproveitaram para se refrescarem, despindo-se, entrando na água e ajudando um a um na travessia. O pior veio depois. As sanguessugas, abundantes no lodaçal, agarram-se firmemente às nossas pernas, obrigando a um trabalho de paciência para as arrancar.
O regresso transformou-se numa viagem quase interminável. A chuva abundante e persistente não nos deu tréguas, arrefecendo os nossos corpos encharcados e permanentemente sacudidos pelas irregularidades do piso. Quando finalmente atingimos as já familiares pontes do Cúbia, não obstante ainda a cerca de um par de horas do aconchego da Neriquinha, a sensação de alívio era óbvia. Dali para a frente era caminho conhecido e em menos de um nada estaríamos de novo ao abrigo do arame farpado. Cada bocado das nossas vidas passado na mata, enfrentando intempéries, dormindo à chuva e ao relento, algures numa hostil terra de ninguém, contribuía cada vez mais para transformar a Neriquinha num sítio onde se podia viver. Quase aprazível.
Um duche, uma refeição quente e uma cama, eram um luxo quando comparados com o desconforto dos últimos quatro dias.