quinta-feira, 25 de março de 2010

A PADARIA

Já tive oportunidade de me referir, de alguma forma, aos hábitos gastronómicos da população da Neriquinha. Para ser sintético, apenas relembro que não têm qualquer semelhança com os nossos. É que nem sequer há um simples pormenor que se pareça com a forma como nos alimentamos, por mais pequeno que seja.
Uma das iguarias que me atrevo a considerar como fazendo parte dos hábitos alimentares de qualquer ser humano, independentemente da raça ou religião, é o pão. Pão tem que existir, seja lá onde for e a Neriquinha não era excepção.
Correndo o risco de estar a ser atraiçoado pela memória, penso que a equipe de padeiros da companhia era constituída por dois profissionais: O cabo Sousa, entretanto já falecido e o soldado Luís Santos, que actualmente faz a sua vida por terras de França.
Os dois, com ajudas de uns e outros, tinham por missão garantir pão fresco bem cedo pela manhã, havendo outra fornada para o almoço e jantar. Dispunham de um forno artesanal que, bem ou mal, desempenhava a função. Era feito de pequenos tijolos refractários que suportavam bem o calor. A massa que os unia é que não, o que implicava que periodicamente tivesse de ser desmontado e reconstruído como se de um puzzle se tratasse.
Quanto à mesa de tender, uma simples tábua ao ar livre servia muito bem.
O que importava é que a sandes de paio ao pequeno-almoço estava sempre garantida, mesmo tendo de ser empurrada com duas cervejas.

sexta-feira, 12 de março de 2010

PERDIDOS...

N´riquinha, 1 de Abril de 1972.
Sábado da Ressurreição, um dia como qualquer outro, perdida que estava já a noção da diferença dos dias, ou o sentido da invocação de alguns deles, quando era a guerra e o isolamento escaldante das Terras do Fim do Mundo que nos marcavam as horas, os dias e os meses por riscar no calendário já meio sebento pregado na parede.
Meio-dia.
Vindo dos lados da Zâmbia, o ruído longínquo de um avião tipo Cessna quebrou por momentos a monotonia daquela manhã, obrigando a um breve esforço de localização e identificação de aproximação, ou não, da aeronave. As visitas eram raras e sempre pelo ar. Mas a expectativa do aparecimento de um qualquer comandante do Batalhão, Zona Militar, ou de Sector em pouso surpresa em “teatros de guerra”, que averbasse mais um “acto de bravura” ao cadastro de um eventual candidato ao 10 de Junho, era uma possibilidade sempre presente.
Em breves segundos se percebeu que a aeronave passava a uns bons quilómetros de distância e não se dirigia à N´riquinha, onde também podia fazer escala para reabastecimento.

O Domingo de Páscoa foi transposto dissolvendo na boca as tradicionais amêndoas doces em forma de elaborados esquemas de imaginação, a que alguns juntavam o sabor distante dos folares da terra, mastigados num quase masoquismo de fantasia, cuja aliança com o sol inclemente que os fustigava de manhã à noite, permitia uma breve sensação de realidade. À noite o rancho haveria de desmontar o cenário, como quem desfaz a tenda de feira e retoma o carreiro insonso das agruras da vida.

9:30 de Segunda-feira.
Um ronco potente, que nos reportava por momentos a sons longínquos provindos dos tempos da 2ª Grande Guerra, avassalou repentinamente as cercanias do aquartelamento, desenhando no céu uma figura canhestra de um cinza baço devassado por décadas de um lustro puxado à mão pela eterna pobreza dos tempos.
Era um velhinho PV-2 Harpoon, troando os seus dois motores de 2.000 HP cada, desenhando figuras em volta do aquartelamento, antes de se enfiar à pista e rolar até à porta de armas, onde se quedava por momentos desaparecido numa nuvem de poeira ruiva e fina, da qual cada um de nós preserva ainda uma espécie de memória de estimação em alguns dos recantos menos perecíveis dos sentidos.
Motores parados, haveríamos de esperar alguns minutos até que a nuvem se dissipasse e tornasse possível a aproximação.
Um pouco inquieto apressei-me e nem esperei que a poeirada se acalmasse em definitivo.
Ainda o piloto finalizava as operações habituais de fim de voo, já eu me quedava junto à asa sorvendo o calor do motor ainda em estalidos metálicos de arrefecimento.
A presença inusitada de um avião daquele tipo na N´riquinha só podia trazer maus presságios, normalmente presentes envenenados para a tropa, para quem já chegavam todas as guerras nas quais nos haviam mergulhado.
Minutos volvidos e já descia o meu amigo Capitão Pêpe no seu impecável fato de macaco azul. A ansiedade era tal que nem entrei pelos habituais cumprimentos. Disparei de imediato na esperança meio rançosa de me enganar no prenúncio.
- Vais-me dizer que vou ser atacado e põem o que resta da Força Aérea à minha disposição…!
Logo após um abraço e alguns sorrisos pela graça, que, no fundo, pouco tinha de engraçada…
- Não. A guerra parece que é outra. É que no Sábado caiu um avião, presume-se que aqui na tua área.
- Caiu um avião? Mas que avião? Aqui só há avião a meio da semana com o correio e o Nord às Terças com os géneros.
- Parece que era um mono-motor de uma empresa de Serpa Pinto que faz transporte de passageiros. Uma espécie de táxi aéreo. As últimas informações dizem que saiu do Rivungo no Sábado para reabastecer aqui, mas desapareceu e não deu mais sinal de vida.
Dando voltas à memória recordei o tal sinal de avião de Sábado sinalizado entre a N´riquinha e a Zâmbia, que conferia com a eventual rota vinda do Rivungo.
- Vais ter que me disponibilizar cama, mesa e roupa lavada não sei por quanto tempo. Isto é coisa para demorar, acho eu. Dentro de algum tempo devem começar a chegar aviões da empresa e outros para ajudarem nas buscas. Será aconselhável que preparem combustível para os necessários reabastecimentos.
- Então vamos começar pela mesa? – alvitrei.
- Não. Olha, ainda é cedo; vou dar por aí uma volta. Tendo em conta a rota, pode ser que ele tenha caído aqui por perto por falta de combustível.
E assim foi.
Ronco poderoso assistido por uma fumarada branca a sair dos escapes dos motores e eis que o PV-2 se lança em nova correria pista afora, elevando-se pesado nos ares.
Pouco tempo depois chegam dois aviões ligeiros, conforme prenunciara o Cap. Pêpe. Aterram e solicitam reabastecimento para as buscas que haveriam de ter lugar a partir daquele momento. Trata-se do proprietário do Cessna desaparecido, que dirige ele próprio um dos aviões, e traz consigo um outro também pertença da sua empresa.
Abastecem mas não levantam, porque o comando da operação de busca estava já confiado à Força Aérea, na pessoa do Cap. Pêpe, entretanto no ar.

A operação de busca e localização desenvolve-se por três dias utilizando o PV-2 e os dois aviões ligeiros da empresa, que se foram revezando com outros, sendo que o proprietário se manteve sempre presente no envolvimento das buscas. Presente e sempre muito nervoso. Viríamos a saber mais tarde que esta débil paz de espírito se relacionava com problemas de seguro de vida do piloto desaparecido, desenhando-se o pior dos cenários, caso não fosse encontrado com vida.

Quinta-feira, quarto, e último, dia de buscas, por decisão do Cap. Pêpe, partindo do princípio de que já não seria possível encontrar sobreviventes.
Delineada uma esquadria de busca a distribuir por quatro aviões agrupados num derradeiro esforço para encontrar o avião desaparecido, cada piloto tomou lugar na sua aeronave e levantou. Pêpe foi o último. Antes de subir ao PV-2, lançou-me um desafio:
- Anda daí porque tenho a sensação que nos vais dar sorte. Além disso conheces a zona e podes dar-nos uma ou outra pista.
Eu, que nunca me dei bem com os pés fora de chão firme, fosse em mar ou ar, ainda esbocei alguns argumentos enfeitando a minha relutância.
- Levantas e daqui a meia hora vais ter que me trazer de volta, com o “gregório” em primeiro plano…
- Não. Vamos levar aqui a banheira muito direitinha e sem ondas.
Convenci-me.

Naquele ponto das buscas havia uma única perspectiva; encontrar eventuais sobreviventes. O avião era na altura secundário. No Leste de Angola era frequente a queda de aeronaves sem grandes consequências para os ocupantes, tendo em conta a planura da savana. Logo, se tivessem sobrevivido, haveriam de se movimentar em busca de socorro. Nessa perspectiva, e tendo em conta alguma experiência de sobrevivência no mato que já possuíamos, havíamos sugerido, nos briefings de fim de dia, a busca em chanas abertas com água, porque a sede de cinco dias haveria de os prender num local com água e melhor visibilidade para quem os procurasse.

Tínhamos pouco mais de cinco minutos de voo. Sentava-me num banco solitário plantado a meio do avião, que na verdade voava direitinho, como havia prometido o Pêpe. Sem que nada o fizesse prever, o avião faz uma subida abrupta, para logo de seguida cair sobre a asa esquerda apontando o bico ao chão. Pensei: pregou-me uma partida, o Pêpe. Mas que raio de altura escolhida para brincadeiras.
- Pêpeeeeeeee…! Pára lá com essa m…. – gritei cá bem de trás onde me sentava agarrado a uma pega da fuselagem do avião.
Não obtive resposta no imediato, porque o PV-2 continuava meio louco como se lhe tivesse dado um ataque de nervos. As cabriolas continuavam e eu segurava-me como podia.
Na verdade era quase um verdadeiro ataque de nervos, mas de alegria.
- OS GAJOS ESTÃO ALI…!!! – grita o Pêpe meio embriagado de exultação, abrindo a porta do cockpit e apontando-me para baixo.
Olhei pela pequena janela quando o PV-2 fez um voo rasante ao solo e apenas vislumbrei três pessoas em perfeita loucura no chão: cambalhotas, saltos, abraços, braços no ar.
O Sargento de apoio à tripulação apareceu com um bidão de água preparando-se para o atirar pela porta do avião, entretanto aberta.
- Onde é que você vai com isso? – indaguei.
- Vou atirar aos gajos. Devem estar a morrer de sede. Já passaram cinco dias.
- De sede? Os gajos estão num rio… Estão é a morrer de fome…
O Sargento olhou-me, abanou a cabeça e balbuciou:
- Está a ver, capitão. É o que dá andarmos sempre aqui no ar. Nem nos apercebemos da realidade no chão.

Comunicada a posição dos sobreviventes, o PV-2 regressou de novo sereno e pousou perfeito.
- Como vês, viemos direitinhos como prometi – disse o Pêpe da porta do cockpit entretanto aberta, com uma euforia quase menina estampada no rosto, quando o avião já rolava em movimento lento para parar.
- Pois, mas lá no sítio perdeste a cabeça.
- Encontrar sobreviventes de quedas de aeronaves é a maior alegria que um piloto pode ter. Mas deixa-me contar-te; aquele braço de rio onde os encontrámos estava fora da quadrícula de buscas. Quando cheguei à bifurcação deu-me uma pancada e enfiei o avião naquele pequeno afluente do rio. Foi a sorte deles. Estavam mesmo ali à entrada.

Por volta das 17:00 um helicóptero da F.A. haveria de resgatar os três ocupantes do avião, depois de estes já terem devorado oito rações de combate entretanto lançadas dos aviões.
A história daqueles cinco dias confrontava a simplicidade das circunstâncias com o sofrimento dos três ocupantes do Cessna.
Haviam, na verdade, saído do Rivungo com muito pouco combustível, dirigindo-se à N´riquinha para reabastecer. Um procedimento normal. O piloto, um jovem pouco experiente e desconhecedor daquela área, orientou-se pela carta – antiga e obsoleta, como todas as daquela região – e dirigiu-se à antiga N´riquinha Velha, a dezoito km de distância da actual N´riquinha, sendo aquela a única que figurava na carta.
Desconhecedor da verdadeira localização da pista, ainda não assinalada nos mapas, procurou durante perto de uma hora sem a encontrar, vindo a cair a cerca de 70 km para sul.
As peripécias dariam um pequeno livro.
Num breve resumo.
Eram três os ocupantes: o piloto, um jovem africano com cerca de 23 anos (funcionário da General Electric), que se deslocava a um determinado local para reparar uma avaria, e um outro jovem cabo-verdiano que havia pedido uma boleia no Rivungo.
O jovem africano era a terceira vez que caía de avião…, mas afirmava: “… não será por isto que vou agora começar a andar a pé…”.
Nos momentos que antecederam a queda, quando o combustível faltou, enquanto o alvoroço se instalava dentro da aeronave, especialmente por parte do jovem cabo-verdiano gritando que iam morrer todos, o experimentado técnico da G.E. tomava conta dos acontecimentos: “… Calma! Ainda não morremos. Senta e reza. Se não souber rezar, senta só e acalma…”.
O piloto tendo apontado para uma chana com mais de 1 km de largura e chão plano onde poderia ter aterrado sem grande dificuldade, entendeu que mais “suave” seria pousar no pequeno curso de água que ali corria. O avião capotou de imediato resultando um ferimento no sobrolho do piloto e a destruição parcial da aeronave.
A deslocação que decidiram empreender a partir do local, procurando encontrar uma picada ou sinais de vida, foi uma epopeia que lhes perdurará pela vida fora.
Sem reservatórios onde pudessem transportar alguma água, deitaram mão das mais incríveis opções. A namorada de um deles acabou sonegada de um perfeito perfume e água-de-colónia refrescante para as tardes de calor ardente; os frascos foram esvaziados e neles acomodados alguns decilitros da preciosa água.
A fome devassou a perspectiva de morte na queda do avião e intricou mirabolantes esquemas de sobrevivência; horas foram passadas em emboscada a um rato que se enfiara num buraco e se recusou obstinadamente a participar naquela história, que, afinal, não era a sua.
Caça em abundância à distância de um tiro de flecha – mas sobranceira a um corta-unhas perdido no fundo do bolso que jamais encontrou préstimo naqueles dias – “… pareciam rir-se de nós...", percebendo-os desarmados e vulneráveis ao fragor de um único rugido de leão a bocejar o términos de uma sesta dormitada à sombra de um embondeiro”.
A noite e o medo montaram sentinelas que incendiaram todos os minutos que o cansaço rogava por um breve repouso de corpo e alma.
As horas, depois os dias, faziam bramir um âmago com 500 anos de submissão e a suspeita de uma eterna e vil escravidão: “… os portugueses, onde estão os portugueses que não nos vêm sequer procurar. Que é feito dos portugueses? Onde estão a porra dos portugueses…?”, recalcitrava estridente o desespero do jovem africano especialista em inopinados mergulhos na selva africana.

Quinto dia de uma desesperança já assumida e aceite.
Pouco além das 9 horas da manhã.
Um ruído de avião… uma alucinação entre tantas outras… um sonho acordado fermentando um desejo.
Possante e inequivocamente vivo o PV-2 rompe os céus num ronco abrupto e desesperadamente amigo. Cabriola como criança na areia da praia; rasa-lhes as cabeças num afago terno e acolhedor. Agita as asas como que acenando uma alegria que desejava comungar desesperadamente.
Por entre as mais destemperadas manifestações de regozijo, uma voz meio submersa numa emoção de novo escravizada, refunde uma confiança perdida:

“… afinal há portugueses… Olha só os portugueses que estão chegando…! Portugueses! Portugueses…!”

P.C.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Saudades de mulher branca

Se há algo de que um homem sente saudades é de mulher. Especialmente se acabou de completar 20 anos e para mais, sendo tropa. Nestas circunstâncias, mulher é coisa que, se não se tem à mão, vira obsessão.
Se está próxima e se sente a falta, força-se o encontro, mitiga-se o desejo e a saudade não chega a aparecer. Outra coisa é ser obrigado a abandonar aquela que escolhemos (ainda por cima linda) e ser levado para o outro lado do mundo. Sem qualquer hipótese de reencontro, desejar o que deixámos para trás ganha outra dimensão.
Mas quando, para além de tudo isso, somos relegados para o cantinho mais remoto do fim do mundo, como foi o caso da Neriquinha, os desejos explodem, multiplicam-se, moem o juízo e até doem, mesmo aos mais insensíveis. E garanto que só quem passou por isso sabe verdadeiramente o que é.
Ao fim de um mês a calcorrear as areias do Cuando Cubango, qualquer burra de saias, mesmo daquelas que se parecem com uma bota da tropa, começa a parecer-se com algo susceptível de despertar secretos instintos lascivos.
Com o passar do tempo, as mulheres da população, que nada deviam à beleza, pelo menos a beleza a que estávamos habituados, começam a ter graça, não obstante a pele áspera e o cabelo tipo esfregão, para não falar do cheiro característico, capaz de anular apetites insaciados. Mas, como quando se tem fome, até pão bolorento se come, os kafecos (mulher adolescente) eram mesmo a única alternativa possível, se bem que isso obrigasse a uma prévia preparação com uma parafernália de pomadas, unguentos e anti-inflamatórios contra a praga de doenças sexualmente transmissíveis que por ali grassavam, passando obrigatoriamente, após a visita, por um demorado banho purificador.
A máxima era, cautelas e caldas de galinha nunca são de mais e ninguém queria ter de ouvir as recriminações do Dr. Lacerda:
- Eu não te disse para teres cuidado! Da próxima vez que me apareceres assim, dou-te uma porrada.
O desejo de acariciar uma pele branca e macia e enterrar as mãos em cabelos sedosos tornava-se obsessivo. Aos poucos, a imagem que se procurava reter da amada deixada no puto, ia-se endeusando, virava miragem e ganhava foros de beleza extrema, quase sobrenatural.
Cada carta recebida era lida e relida. Procuravam-se cheiros que a longa viagem da missiva dissipara. Ansiava-se por uma fotografia recente que reavivasse a memória e fizesse relembrar os contornos, as curvas, os meneios. Esperava-se, enfim, que nos trouxesse de novo o imaginário do contacto impossível, da voz sensual ... eu sei lá …!!! Sabem que havia quem recebesse cassetes gravadas?
Na verdade, tudo isso só acentuava o desejo do reencontro, contribuindo para ressacas afogadas nuns golos de whisky, quando havia.
Era um facto, o desejo de mulher branca era algo que, creio, todos sentiram intensamente. Só que uns conseguiam disfarçar a falta enquanto outros a publicitavam.
- Só gostava de ver uma … nem que fosse de longe!
Confessava-se, com nostalgia evidente.
De facto, ao fim de meia dúzia de meses, mulher branca estava para nós como algo de que se ouvira falar, como se apenas a tivéssemos visto uma vez, em sonhos, mas nunca ao vivo. Olhar a fotografia era como se olhássemos para a caderneta de cromos de estrelas de cinema procurando imaginar como seriam em carne e osso.
Lembro-me que, nove meses passados, acabado de chegar à cidade do Luso, de passagem para Luanda a caminho das férias, ia sendo atropelado no meio da rua ao ficar especado, seguindo com olhares extasiados a primeira mulher branca que via ao fim de tanto tempo de isolamento. É verdade que também contribuiu o facto de já me ter desabituado do trânsito. Na Neriquinha, não havia ruas ou estradas, nem trânsito nem automóveis, já que as duas ou três berliets e os poucos unimogs eram como gota no oceano daquela savana imensa atravessada aqui e ali por picadas irregulares.
Não foi por acaso que ao fim de muitos meses me decidi a gastar uma pipa de massa e fazer uma viagem quase interminável até Lisboa, para gozar o mês de férias a que tinha direito. O pretexto era poder sair dali e rever a família. Na verdade, creio que se fosse só pela família (que certamente me perdoará o pecado) não teria metido pés a caminho.
A viagem era cara e durava uma semana, com paragens no Luso, Nova Lisboa e uma eternidade em Luanda para cumprir um conjunto de formalidades militares no Quartel General e perante um paspalho dum Sargento-Ajudante que tinha a missão de controlar as licenças, aproveitando o ensejo para controlar também o atavio. Para lidar com aquele exemplar de militar estúpido, era preciso cuidado. A probabilidade de não se gozar as férias e termos de regressar à Neriquinha, não era hipótese a pôr de parte.
Na Verdade e bem pensadas as coisas, o que me empurrou para fora da Neriquinha foi o desejo incontido de acariciar a pele aveludada e os cabelos sedosos que deixara no Cais da Rocha à partida de Lisboa. O desejo de sentir de novo o cheiro e o hálito fresco de mulher nem me deixou pensar duas vezes e foi-me tirando o sono à medida que a data da partida se aproximava. Era como se quisesse confirmar que, afinal, ela existia, era real, de carne e osso e que eu podia tocar-lhe.
Foi sol de pouca dura. As férias passaram num ápice e em pouco mais de um nada estava de regresso à Neriquinha, com as saudades de novo a atormentar-me os sentidos.
Certo dia, um avião militar, proveniente de Luanda e tendo como destino final a base de Henrique Carvalho, apareceu nos ares da Neriquinha. Avariara-se um motor e já voava à algum tempo apenas com o outro a funcionar. Não sendo aconselhável ir mais longe aterrou ali mesmo. Afinal, a nossa pista, de terra empoeirada, era um AR (Aeródromo de Recurso).
Para nossa surpresa, o Dakota vinha praticamente lotado com militares da Força Aérea e respectivas famílias. Aliás eram mais as famílias que se dirigiam a Henrique Carvalho para aí se juntarem aos respectivos maridos, na sua maioria oficiais da força aérea.
Quando se abriu a porta do Dakota, que se imobilizara na pista em frente à porta de armas, a surpresa foi total.
Uma a uma foram saindo mulheres. Primeiro uma, depois outra e mais outra e ainda outra. Ao todo, quase uma dúzia. Bem vestidas, penteadas, cheirosas e brancas meu Deus…!!! Todas elas..!!! Umas louras, outras morenas, até ruivas havia. Usavam sapatos que se enterravam na poeira sujando os pés delicados, que por ali não havia asfalto … nem calçada. Sapatos eram coisas que as mulheres da Neriquinha desconheciam, até porque não havia modelos que se adequassem àqueles pés.
Foi um corrupio. O pessoal abandonou os seus afazeres, aperaltou-se e aproximou-se. Uns mais de perto, outros mais ao longe, com respeito, sem alarido, mas com um desejo impossível de conter: ver mulheres brancas … e tão bonitas que elas eram. De repente, as mulheres ganguelas e até as kamachis, estas mais apresentáveis que aquelas, voltaram a ser tão feias quanto as acháramos à chegada.
Foi um dia memorável. Dentro do possível fizeram-se as honras da casa oferecendo o pouco que se dispunha: uns assentos junto à messe para as visitas se sentarem, uns refrescos e muita conversa, já que um passeio turístico pelo local era coisa impensável. As senhoras não deveriam estar interessadas e o calçado que usavam não o permitiria. Por outro lado, não havia nada para ver, a não ser que se quisesse mostrar o despojamento daquele nosso mundo, coisa que nem nos passou pela cabeça. Já estávamos habituados demais ao local para achar que isso era importante.
Entretanto, o pessoal, numa atitude de basbaque, ia rondando. Feromonas à solta, provocadoras, contaminavam o ar arrancando suspiros aqui e ali. Uns faziam comentários em surdina, outros apenas olhavam em silêncio. Palavrão foi coisa que desapareceu de repente. Falava-se pouco, não fosse sair alguma inconveniência, algo que pudesse ferir ouvidos tão delicados, como decerto seriam os de senhoras tão bem apresentadas.
Creio que por algum tempo até a segurança foi descurada. Não ponho de parte a possibilidade de os sentinelas terem abandonado o posto, nem que fosse apenas pelo tempo necessário para deitarem uma olhadela.
O súbito aumento populacional daquele bocado de savana delimitado por arame farpado foi de pouca duração. Pouco tempo decorreu, pareceu-nos, até que um outro avião aterrou na pista e recolheu as ilustres visitantes, levantando voo no meio de uma nuvem de pó em direcção a norte até desaparecer, diluído no azul intenso do céu.
Na Neriquinha apenas ficou o Dakota imóvel e silencioso e uma centena e meia de homens com água na boca, tecendo comentários sobre a beleza que, com olhares gulosos, acabavam de desfrutar.
- Vistes aquela loura…? A de blusa cor-de-rosa.
Perguntava um ao parceiro do lado.
- Sim, mas a morena, a de saia azul, era bem melhor. Viste as pernas dela?
Respondeu o interlocutor, procurando a concordância do outro sobre o pormenor dos membros inferiores da senhora.
- Cá para mim eram todas a estrear!
Sentenciou alarvemente o atrevido do costume.
O avião avariado, jazendo na pista, indefeso, obrigou a um reforço das sentinelas, pelo menos durante as noites que se seguiram e contribuiu para manter a animação por mais uns tempos. Com efeito, no dia seguinte, chegou um Nord Atlas que ali deixou um motor novo e uma equipa de mecânicos, que levou mais de uma semana a retirar o motor avariado e a montar o novo, garantindo um corrupio de curiosos à sua volta seguindo com interesse o desenrolar dos trabalhos.
Finalmente, com força renovada e depois de alguns ensaios e dois voos experimentais, o Dakota disse adeus à Neriquinha, deixando por uns tempos um sabor nostálgico.
Creio que foi a primeira e talvez a única vez que por ali foram vistas mulheres brancas. Para a maioria do pessoal da 3441, foi a única oportunidade, em dezoito meses, de poderem apreciar coisa tão desejada, ainda que apenas de longe e sem lhe poderem tocar. Nem sequer cheirar.
Ficaram apenas suspiros … muitos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O CARNAVAL

Foliões, haverá sempre.
E foi graças aos foliões que, na Neriquinha, o Carnaval não passou em claro.
Mesmo naquele lugar inóspito, onde as poucas notícias que nos chegavam vinham com grande atraso, alguém se lembrou deste velho costume pagão e trouxe alguma folia e animação ao sossego fastidioso e quente das nossas vidas.
Não sei como nem onde, mas a verdade é que arranjaram umas vestimentas a preceito:
o Braga, desencantou uma maxi-saia da moda, encheu os peitos com qualquer coisa e o Seabra vestiu uma estonteante mini-saia. Colocaram um lenço na cabeça, ensaiaram uma pose provocante e durante o dia de Carnaval coloriram o ambiente e quebraram a monotonia.
À falta de outros apetrechos, o Filipe e o Leiria, colocaram na cabeça chapéus não regulamentares e disfarçaram peças do fardamento militar com o que encontraram à mão, talvez (não me lembro) fazendo a vez de acompanhantes das duas raparigas.
Por um bocado, foram as únicas mulheres brancas vistas por ali, desde que chegáramos. A chatice é que eram demasiado machões não conseguindo um só meneio minimamente feminino

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ATASCADOS


Alguns meses haviam já decorrido desde as últimas chuvas e os grandes lençóis de água que invadiam as chanas tinham recuado até ao curso principal das linhas de água escondidas no meio da vegetação.
O capim começara a amarelecer e o cacimbo tomara conta das noites, cobrindo a savana com uma neblina branca e fria que nos gelava até aos ossos, embora durante o dia se continuasse a sufocar de calor sob a acção impiedosa do sol agora liberto da acção refrescante das chuvas. Tiritava-se de frio durante a noite, destilava-se desde o nascer ao pôr-do-sol, acrescentava-se uma manta à roupa da cama e nas saídas para a mata substituía-se o poncho por umas camisolas grossas.
Começava o tempo das espectaculares trovoadas secas de onde se desprendiam faíscas que, quais cenários dantescos, riscavam o céu, ateavam gigantescas queimadas que consumiam o mato ressequido e pintavam a paisagem de negro cinza, deixando o ar impregnado com um cheiro intenso e obrigando os animais selvagens a abandonar a segurança das matas à cata da erva que apenas se mantinha verde na humidade perene das chanas.
Era o tempo dos contrastes e das suas impensáveis amplitudes térmicas que desorganizava o nosso metabolismo, condicionava o comportamento e baralhava as mentes dos mais susceptíveis.
- Passou-se!
Dizia-se, perante a descoberta do verdadeiro significado do termo cacimbado.
Na mata, os sulcos das picadas até então endurecidos pela acção das chuvas, apresentavam-se agora como regos de areia seca, solta, sem consistência, onde os pneus das viaturas se enterravam dificultando a marcha e exercendo um efeito arrasador no material. Inversamente, as picadas que corriam junto às chanas ou que as atravessavam, emergiam da lama pantanosa, secavam e endureciam tornando-se transitáveis, situação que brevemente iria experimentar já que fora incumbido de chefiar mais uma missão de reabastecimento ao Rivungo e kimbos existentes no percurso.
As duas berliets foram carregadas com cerveja, refrigerantes, tabaco, géneros alimentícios vários e outras tralhas, para além de dois bidões que tinham lugar cativo sobre cada uma das viaturas: um com gasóleo e outro com água para alimentar a sede permanente dos radiadores.
Como de costume, partimos a meio da madrugada começando o dia a clarear já por alturas das pontes do rio Cúbia, que nesta altura do ano se transformara numa espécie de charco escondido no meio do descampado entre os caniços e o capim amarelecido.
Dali até ao Liahona, a picada tinha vários traçados, uns atravessando a chana, outros serpenteando por entre as árvores. A escolha de qual seguir dependia da época do ano. Durante as chuvas, as chanas transformavam-se em zonas pantanosas, sendo mais seguro utilizar os percursos que trilhavam caminho seco. Mas no tempo do cacimbo a areia solta era um martírio para os motores sendo preferível o caminho das chanas.
Escolhemos o percurso da mata, mais lento e sinuoso, já que o convidativo trajecto pela chana ainda não nos merecia confiança. Afinal as águas só há pouco tempo haviam desaparecido e não nos pareceu que já tivesse decorrido tempo suficiente para que secassem convenientemente, ganhando a consistência necessária.
Fosse como fosse, o percurso correu sem incidentes de maior, atingindo-se o Liahona por volta de meio da manhã, sob um calor tórrido que a ausência de chuva tornava ainda mais insuportável.
O Liahona, mais ou menos a meio caminho do Rivungo, era para nós como uma espécie de entreposto. Por breves minutos descansava-se o corpo, dava-se uma folga aos motores das berliets e lavava-se o pó da garganta.
Disso se encarregava o Alexandre, um guarda da PSP ali colocado e com quem, durante o tempo em que estivera no Rivungo, consolidara uma amizade séria. Assim que divisava as viaturas a aproximarem-se na orla da mata, preparava duas cervejas e com uma em cada mão, aguardava-nos resguardado à sombra do beiral de colmo da cubata que constituía as instalações que ocupavam.
- Bom dia.
Saudou efusivamente ao mesmo tempo que me estendia uma das garrafas.
- Parece que está calor!
Brincava, perante a sofreguidão com que, de um só golo, engoli o líquido.
- Estas cervejas são as mais saborosas que alguma vez bebi.
Retorqui.
- Olhe que não as fabricamos cá … são vocês que as trazem.
Gracejou ao mesmo tempo que me entregava a segunda cerveja recebendo de volta a garrafa vazia da primeira.
De facto, nunca antes uma cerveja me soubera tão bem como aquela. Não estava nem fria, nem quente. Na circunstância, depois de horas debaixo de um calor de fornalha, a cerveja transformara-se num néctar delicioso. Simplesmente perfeita.
Naquele sítio não havia frigoríficos. O sistema de refrigeração consistia numa barrica enterrada no solo, num local à sombra, que se enchia de água e carvão vegetal, mergulhando-se ali as cervejas. Retinha o frio da noite e nunca aquecia durante o dia.
A verdade é que a cerveja caiu como uma bênção, limpando a garganta ressequida e dissolvendo a saliva pastosa que quase colava a língua ao céu-da-boca.
Enquanto se descarregavam os mantimentos encomendados, conversava com o Alexandre à sombra do avançado da cobertura de colmo da cubata, degustando a cerveja e pondo em dia as novidades.
- Como está a picada até ao Mugamba? Inquiri.
- A população que ali passa todos os dias diz que está seca. Retorquiu.
O troço da picada que antecedia o Mugamba costumava estar alagado no tempo das chuvas. Passar por ali exigia perícia e muito cuidado, já que o trilho endurecido estava submerso. Viatura que saísse do seu curso atolava. Duas berliets estiveram ali atascadas durante dez dias, tendo sido preciso meio grupo de combate, muita imaginação, perícia e trabalho árduo para as tirar dali. Mas essa é outra história.
Feitas as despedidas com um simples até amanhã – na volta passaríamos de novo por ali – seguimos caminho em direcção à picada que, não estando propriamente seca era bem visível, tendo-se chegado ao Rivungo sem problemas, no horário previsto, depois das paragens obrigatórias no Mugamba e no Demba para mais umas cervejas, um pouco de conversa e entrega dos víveres encomendados.
Mas no regresso, as coisas não iriam correr tão bem. Percorrido já mais de metade do percurso de volta e deixado o Liahona para trás, despontámos no início das planícies do Rio Cúbia por volta de meio da manhã. Dali à Neriquinha era um saltinho, esperando-se lá chegar a tempo do almoço.
A picada que corria pela chana convidava a seguir por ela, especialmente porque na ida nos convencêramos de que já estaria perfeitamente seca e transitável.
- Vamos por aqui, furriel. Anunciou o condutor.
E sem esperar anuência, tomou o caminho que evitáramos à ida, logo seguido pela segunda viatura.
A decisão pareceu acertada. Libertos da resistência da areia solta, atingimos velocidades razoáveis e coisa rara, até foi possível, uma vez ou outra, engrenar a quarta velocidade. Àquele ritmo, rapidamente estaríamos debaixo do duche e bem a tempo do almoço que sabíamos estar à nossa espera.
Mas não seria assim. De repente, uma pequena depressão surge no trilho da picada. Parecia ter sido obra de um animal, provavelmente um javali. Costumavam escavar na terra húmida das chanas.
O condutor aconchegou o travão reduzindo a velocidade e desviou-se do buraco saindo ligeiramente do percurso. Foi o suficiente. Quando retomava o trilho, uma zona menos consistente cedeu, enterrando um dos pneus da frente. Com cuidado, guinando o volante, procurou que o pneu encontrasse terreno firme. Mas a manobra não resultou enterrando-se ainda mais. Engrenou a marcha-atrás tentando sair do buraco. Sem resultado. Uma segunda tentativa agravou mais a situação.
Felizmente havia a segunda viatura e estava ali mesmo atrás. Podíamos utilizá-la como reboque e sair dali para fora.
Saltámos das viaturas, lançamos mãos à obra e lá amarrámos a viatura de trás à da frente. O condutor engrenou a marcha-atrás e iniciou a manobra soltando a embraiagem devagar, com cuidado, doseando o acelerador de forma a evitar que resvalasse. A princípio a viatura atascada abanou, mas só isso. A resistência oferecida fez com que o terreno falsamente firme começasse a ceder quase deixando, por sua vez, a segunda viatura enterrada.
Desistiu-se da opção. Agora, o mais importante era libertar a segunda viatura, o que não foi difícil. Com efeito, desatrelada da da frente e liberta da resistência que esta oferecia, a viatura arrastou-se marcha-atrás, com alguma relutância, lavrando a terra com os quatro pneus semienterrados, até conseguir alcançar terreno firme.
Avaliámos a situação, estudámos estratégias, excluímos opções e concluímos que talvez resultasse se fosse puxada pela frente. Não se podendo passar por ali, a opção possível era recuar, voltar para trás um bom par de quilómetros, rodear a chana e utilizando a picada da mata, aparecer pela frente.
Tudo parecia correr bem. Não houve problemas na manobra de recuo e rapidamente a berliet desapareceu enquanto o pessoal se agarrava às pás e picaretas, recomeçando a retirar a lama à volta do pneu enterrado enquanto outros, munidos de machados, cortavam umas quantas árvores próximas para ajudar a livrar o pneu da lama que o prendia.
Mas, para surpresa minha, e quando esperava ver surgir a viatura pela frente, uma vez rodeada a chana, vejo-a aproximar-se devagar, como se tivesse desistido de dar a volta. Com efeito, quando já tinha recuado umas duas centenas de metros, o condutor (ou um dos homens que com ele seguiam) reparou que, paralelamente à picada onde estávamos, havia uma outra, pouco batida mas que parecia ser de terreno mais firme. Pelo menos estava mais afastada da parte baixa e corria por sobre uma ligeira elevação, no cimo da qual três ou quatro pequenas árvores, fazendo sentinela ao descampado, pareciam confirmar a consistência do terreno. Assim, pensaram que se seguissem por ali, evitariam dar uma volta tão grande, poupando tempo.
A ideia não era má. Se tudo corresse bem, dentro de quinze a vinte minutos o problema estaria resolvido. Contudo, aquilo que parecia um trilho seco, revelou-se uma armadilha. Logo ali ao lado, o terreno cedeu repentinamente enterrando os quatro pneus de uma assentada.
O desalento apoderou-se de todos. Num momento em que já se contava com o desatascanso, voltámos à estaca zero e agora numa situação agravada.
Pás, picaretas e machados foram de novo chamados à liça, voltando-se agora a atenção para a primeira viatura. Afinal, esta apenas tinha um pneu enterrado e se conseguíssemos tirá-lo dali seria agora esta a rebocar a outra.
Redobrou-se o esforço, cortaram-se mais árvores e definiram-se os ângulos de ataque à lama, convencidos de que agora seria de vez. A ideia era alargar o buraco, descobrir totalmente o pneu e calçar tudo à sua volta com toros de madeira de forma a obter-se uma consistência firme.
Debalde. A berliet negava-se a sair dali e a outra nem hipóteses tinha. Escaváramos à volta dos quatro pneus e entendia-se que seria suficiente um puxão da outra para a retirar da sua prisão.
Mas a tarde foi morrendo, o lusco-fusco tomando assento, as forças desaparecendo e a fome dando sinal nos estômagos vazios de todo o grupo. A noite acabou por cair sem que se tivesse avançado no que quer que fosse, acabando aos poucos por anular a já quase inexistente força anímica. No escuro, escavava-se por instinto e já sem convicção de que o esforço valeria a pena. Felizmente que o frio do cacimbo dizimara a maioria dos mosquitos. Não fora isso, naquele local pantanoso, comer-nos-iam vivos. Mesmo assim um ou outro mais resistente, ainda se atreveu a zunir-nos aos ouvidos.
Olhei à volta. A maior parte do grupo já denotava os efeitos do cansaço, da fome e do frio, sentados aqui e ali, sem nada dizerem.
Sem solução para o problema e sem rádio para comunicar, limitei-me a aguardar, olhando de quando em vez na direcção das pontes do Cúbia. A ajuda viria dali. Naqueles trajectos, estabelecera-se um sistema de controlo simples. A saída do Rivungo era comunicada via rádio. Na Neriquinha, calculavam o tempo da viagem, davam um desconto para qualquer contratempo e quando a demora parecesse ser excessiva saíam em nosso auxílio. E foi exactamente isso que aconteceu.
Aguardámos algum tempo que nos pareceu uma eternidade, até que, de repente, ao longe, surgindo do nada, o brilho tremeluzente de faróis progredindo na nossa direcção, animou toda a gente. Largaram-se as ferramentas, suspenderam-se os trabalhos em curso e voltaram os ânimos. O auxílio vinha já ali encavalitado num Unimog.
O Gabriel trazia comida (ração de combate) meia dúzia de homens com energia, um Unimog com força para puxar as berliets da sua prisão e alento para todos.
Enquanto devorávamos a ração de combate, o pessoal deitou mãos à obra. Em menos de um nada a viatura da frente foi arrancada do buraco onde a metêramos seguindo-se a segunda. Afinal o raciocínio inicial estava certo. Puxar pela frente era a manobra acertada. O erro apenas esteve na volta mais curta que a segunda berliet deu para se colocar em posição. Tivesse dado a volta pela picada mais afastada, mesmo demorando mais uns minutos e teríamos chegado, como previsto, a tempo do almoço.
Saímos dali e em pouco mais de um par de horas avistámos, no escuro da noite, o clarão das luzes da Neriqinha, que nos trouxe uma sensação reconfortante de segurança. Dali a nada, um duche revitalizador, uma cama macia e a protecção do arame farpado, reduziriam o caso a apenas mais um episódio a juntar a tantos outros.
Contudo, situações semelhantes, iguais ou parecidas, havíamos de ter muitas. Na verdade, quando dali saí, considerava-me um especialista em resolver problemas de carros atascados … … especialmente na areia.

sábado, 16 de janeiro de 2010

O povo da N'Riquinha

A população autóctone da N’Riquinha era maioritariamente constituída por GANGUELAS. Era uma das etnias mais atrasadas de todo o território angolano, o que era visível na sua forma de vida, crenças, hábitos e temores. Tinham pavor de máquinas fotográficas. A fotografia impressa era, para eles, a alma que a máquina demoníaca lhes havia roubado.
Era uma sociedade patriarcal na qual a mulher era apenas força de trabalho e instrumento de procriação. Mas eram pacíficos, simpáticos, afáveis no trato e reconheciam a atenção que lhes dispensávamos, se bem que com muita subserviência.
À luz dos estereótipos europeus, nenhum deles podia ser considerado bonito. De acordo com os nossos padrões de beleza, a adolescente (Kafeco) mais bonita do aldeamento estava muito longe de ser considerada esbelta. O corpo das mulheres, perdia todas as curvas em pouco tempo, tornando-se rapidamente envelhecido.
Mas sabem, ao fim de algum tempo, uma meia dúzia de entre as mais novas já nos pareciam belezas de passerelle… e apetecíveis.
E não deixava de ser estranha a forma como conseguiam fazer tudo, carregando os filhos às costas. Até sexo.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O Ataque à LDP

Por: Egídio Cardoso
Os três meses passados no Rivungo amenizaram de alguma forma o desconforto de uma comissão a levar a cabo num local que nos parecia o mais remoto à face da terra. A sensação de abandono que senti quando ali aportei foi sendo mitigada pelos poucos atractivos que fui descobrindo.
A proximidade do rio, as amizades que se foram cimentando e a habituação paulatina ao local, construíram um novo modo de vida que minimizava as agruras da missão espinhosa que nos atirou para aquele pedaço inóspito da imensa África selvagem.
Hoje, passado tanto tempo, continuo convencido de que as privações por que passei integram certamente uma parte importante das razões que me levaram a dar valor a pequenas insignificâncias, fossem elas as que resultavam das histórias do Administrador Litenda ou dos misteriosos silêncios dos dois agentes da DGS, passando pela boa disposição do Chefe França, acompanhando o sargento Rodrigues da Marinha na sua interminável luta com a cerveja. Depois, eram as partidas de futebol, os serões ocupados em renhidas disputas de monopólio ou intermináveis jogos de king e tudo o mais que se inventava para passar o tempo.
Até um arremedo de programa radiofónico se ensaiou, com recurso a duas pequenas colunas de som que o Vilela desencantou não sei onde e que a sua habilidade para a electrónica fez com que funcionassem. Reparou ainda um velho gira discos avariado que se encontrou nas instalações da marinha e durante algum tempo difundiu-se música pelo aquartelamento. O disco é que era sempre o mesmo que ali não havia onde comprar outros.
A relação com o pessoal do Destacamento de Marinha preenchia boa parte dos momentos agradáveis, a começar pela forma como cada um dos seus elementos se relacionou com a tropa recém-chegada. Foi uma agradável convivência que despertou e fortaleceu amizades, a começar no seu comandante e acabando no marinheiro mais novo - o Ruço - que, com a sua cara de menino, ganhara a alcunha devido à farta e desalinhada cabeleira loura.
Com esta malta, passei algumas aventuras inesquecíveis, desde as incursões de caça, levadas a cabo por quatro inconscientes armados em aventureiros: eu, o Silva, um dos marinheiros (de quem infelizmente não recordo o nome) e o condutor Comandos com um jeito muito especial para fazer coisas impensáveis ao volante do Unimog. Ainda hoje me arrepio quando me lembro de algumas.
Saíamos sempre muito cedo em direcção às chanas do Caxoxo. Aí, quando o sol ainda mal despontava no horizonte, recrutava-se um guia e partíamos à aventura, avançando muito para além de onde terminava a picada, perseguindo a caça numa correria louca através da terra de ninguém.
No fim, com duas ou três peças de caça carregadas, procurava-se o caminho de regresso sem saber para que lado seguir. Era aí que a importância do guia se revelava crucial. Como se tivesse um mapa genético acoplado, avaliava o local, determinava o rumo e com a mão esticada ia indicando o caminho que nos levava direitinhos ao Caxoxo.
Mas também eram aventuras as explorações que se faziam aos meandros do Rio Cuando e aos seus recantos labirínticos, montados no pequeno bote utilizado nos patrulhamentos mais curtos.
Só não deu para andar na lancha. A LDP 210 do Rivungo, de fundo chato e proa basculante, como todas as Lanchas de Desembarque, era a razão da existência de marinheiros em local tão impróprio. Equipada com uma velha metralhadora pesada OERLIKON, tinha por missão o patrulhamento rio abaixo até às imediações do Luiana.
Mas, a manutenção desta simbiose de laços de amizade e rotinas de vivência começou a ser ameaçada.
Primeiro, a comissão do sargento Rodrigues chegou ao fim e regressou a Luanda, deixando o Chefe França sem competidor à altura. Depois, o meu grupo voltou à Neriquinha sendo substituído pelo do Alferes Correia. O Tenente da Marinha foi substituído pelo guarda-marinha Valério que, desde logo, se incompatibilizou com os homens que se supunha dever comandar.
Quando, algum tempo depois, voltei ao Rivungo em missão de reabastecimento, as guerras entre o pessoal da Marinha e o seu novo comandante, tinham atingido o ponto de ruptura, degradando irremediavelmente o ambiente de camaradagem e os tempos bem passados que conhecia.
Mas parece que a quezília não iria durar. Diziam-me que a comissão da maior parte do grupo estava no fim. Dentro de pouco tempo regressariam a Luanda e o Valério que se entendesse com a nova guarnição que estava para chegar.
Não presenciei a história. Os poucos pormenores chegaram-me à Neriquinha, já um pouco requentados. Parece que o Valério, num arremedo de fúria e quando já pouco faltava para o fim da comissão daquele punhado de homens, decidiu levar a cabo uma operação de patrulhamento até ao limite sul da área navegável do Rio.
- Foi só para chatear. Disseram.
Começaram os preparativos, afinaram o motor, abasteceram de combustível, reuniram as rações de combate, olearam e limparam as armas, carregaram munições e o Jorge tratou com desvelo da eficaz Oerlikon. Parece que os turras temiam os efeitos devastadores da metralhadora. Disparava rajadas de projécteis de grosso calibre que explodiam por impacto, varrendo tudo o que aparecesse pela frente.
Com tudo a postos e com uma guarnição contrariada, a LDP começou a descer o Rio, lentamente, em marcha ziguezagueante, aproveitando a corrente, seguindo o curso do rio no seu passeio pela chana imensa até desaparecer das vistas engolida pelos caniçais.
A progressão sinuosa seguiu, navegando lentamente, que mais depressa não podia ser, até onde o Valério entendeu, bem lá para baixo, até que decidiu ordenar as manobras que deram início à viagem de regresso, encetando o mesmo percurso, mas agora rio acima, exigindo um maior esforço do motor para vencer a resistência da corrente.
Durante todo o percurso, havia um único local onde se formava uma espécie de ravina sobre o Rio. Talvez o único barranco em toda aquela região. Era um sítio perigoso, propício a uma emboscada.
Nada aconteceu aquando da ida. Mas, no regresso, de repente, naquele exacto local, caiu sobre a lancha uma saraivada de balas disparadas em rajadas contínuas por um grupo de guerrilheiros emboscado entre as árvores, exactamente por cima do local onde a lancha navegava. Provavelmente já ali estavam, à coca, quando ainda desciam o rio, mas disso ninguém se apercebera.
No meio da confusão, enquanto cada um procurava reagir, teria sido o Ruço, de arma em punho, o primeiro a sair para o convés.
Foi apanhado pelo fogo inimigo que o projectou borda fora, ao mesmo tempo que o Jorge fazia a Oerlikon cumprir a sua missão dirigindo uma resposta eficaz aos atacantes. O efeito devastador das balas explosivas da velha metralhadora, pôs de imediato os turras em debandada, cessando a fuzilaria.
Gerou-se um silêncio pesado e por algum tempo ninguém saiu do local onde estava, ao mesmo tempo que iam tomando consciência do acontecido. Fora tudo tão rápido que nem se aperceberam que, com maior ou menor gravidade, quase todos haviam sofrido mazelas: balas de raspão, arranhões da refrega, uma ou outra entorse, umas quantas nódoas negras, enfim, ferimentos uns mais ligeiros do que outros, mas sem incapacitar ninguém. Apenas o Jorge, por qualquer razão, nem um arranhão sofreu.
Contudo, o Ruço não aparecia. Alguém disse que o vira ser atingido pela rajada e cuspido borda fora.
Enquanto o Jorge agarrado à Orlikon mantendo-a apontada à mata, não tirava os olhos do que quer que se movesse, os outros deitaram-se à procura do companheiro desaparecido. Voltaram para trás, navegaram para jusante depois para montante, revolveram desesperadamente os caniços de um lado e outro. Mas o corpo não aparecia em lado nenhum.
Chamaram, gritaram, podia ter nadado para a margem, ficado atascado na chana pantanosa. Revolveram de novo as margens. Mas nada, em vão. Do Ruço nem sinal.
Interrogaram-se:
Que fazer?
Continuar ali?
Mergulhar?
Mas onde?
E para ver o quê no meio das escuras águas?
Conferenciaram, discutiram, praguejaram e decidiram:
Sair dali nunca! O Ruço, ou o seu corpo, teria de aparecer.
Durante algumas horas por ali andaram. Podia ser que estivesse inconsciente e quando voltasse a si responderia aos chamamentos incessantes.
Não sei quanto tempo por ali andaram. Penso que passaram a noite no local e voltaram às buscas no dia seguinte. Mas o facto é que o Ruço nunca apareceu.
Regressaram cabisbaixos, desolados, amargurados, derrotados, revoltados com o Valério. No momento, foi quem levou com a culpa toda. Afinal fora ele que forçara a operação.
Só falei com eles algum tempo depois, aquando da sua passagem pela Neriqinha a caminho de Luanda, finda a comissão no Cuando.
Aquele grupo de fuzileiros navais que eu conhecera activo, alegre e brincalhão, caminhava cabisbaixo, atravessando a parada em direcção à messe, uns enfaixados, um ou dois de muletas, outros apenas com uns pensos na cabeça, nos braços ou nas pernas, alguns de chinelas, que o pé ferido não tolerava sapatos. Enfim, um cenário desolador.
Ainda hoje retenho a imagem de um grupo que fez parte de alguns bons momentos que passei no Rivungo. Com ar de derrotados, pouco falavam e recusavam dar pormenores sobre a tragédia. Se calhar não tinham pormenores para contar ou então a tristeza misturada com a revolta impedia-os de falar.
Claramente o Ruço fazia ali falta.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

TOQUE A INIMIGO...!

Para lá da inspecção administrativa regular, o Major Tamegão trouxe, em determinada altura, a missão de avaliar a capacidade de resposta operacional da Companhia no aquartelamento.
O Major levantava-se sempre muito cedo, por mais que eu lhe sugerisse que relaxasse enquanto estivesse por ali, longe das suas obrigações de 2º comandante do Batalhão. Que tinha tempo, quando regressasse ao Cuito-Cuanavale, de exercitar aquele hábito meio militarizado de madrugar. O corpo, no entanto, estava habituado àquela tarimba e ei-lo que, todos os dias pelas sete horas, já vagueava pelo aquartelamento de mãos atrás das costas, esperando que nos levantássemos para lhe fazermos companhia. Entretanto ia metendo o nariz aqui e ali.
Um dia, logo após o hastear da bandeira, cerimónia a que assistia todos os dias com inusitada devoção (uma espécie de missa da madrugada que elevava a fé na instituição) o nosso Major solicitou ao oficial de dia que mandasse tocar a alarme para verificar como reagia a tropa. Segundo as regras militares, ao som daquele toque, toda a Companhia se deveria dirigir aos abrigos o mais rápido possível, tomando posição de combate, postando-se em defesa do aquartelamento.
O oficial de dia, receando alguma falha, decidiu perguntar ao corneteiro se conhecia o toque, porque para ele aquilo era uma novidade.
Embaraçado o corneteiro lá consultou os seus colegas de função e lá se arranjou uma “opereta” de circunstância, que se depreendeu dever ser parecida com o que solicitara o Major. Estou em crer que, ainda que muito diferente, o nosso Major não teria ouvido suficientemente educado para exercer qualquer crítica sinfónica. Para ele qualquer coisas serviria, desde que com o efeito programado.
De permeio o corneteiro lá foi bufando pelo canto da boca a um ou outro companheiro que passava nas proximidades, que aquilo que se ia ouvir era um toque de alarme, pelo que todos se deveriam dirigir aos abrigos. Sintoma que não augurava grande crédito ao corneteiro quanto à peça melódica que iria ecoar pelos ares nas terras do fim do mundo.
Assim foi. O toque soou, com o pessoal a encaminhar-se pachorrentamente para os abrigos em amena cavaqueira e cigarrito ao canto da boca – alguns com a arma apoiada no ombro segura pelo cano – cumprindo aquela chatice de alguns terem que sair da cama mais cedo e outros a irem à caserna buscar a arma, quando já se encontravam nos trabalhos que lhes estavam destinados naquele dia. Parece que quinze minutos depois de ter soado o toque de alarme ainda havia soldados a dirigirem-se para os abrigos, quando o nosso Major, de relógio em riste, esperava que o tempo não ultrapassasse um ou dois minutos para considerar aceitável a resposta dada ao sinal de alarme.
O nosso Major ficou destroçado e incrédulo, enquanto o Alferes se mostrava incapaz de encontrar alguma justificação plausível que satisfizesse a frustração de nosso Major, perante tanta “permissividade” da tropa.
Habituado ao toque costumado do hastear da bandeira, autêntico despertador natural do mato, acordei um pouco confuso com aquela nova melodia. Levantei-me de um salto, como quem não quer perder nada da festa que parecia anunciar-se com aquele rebate matinal.
Já me dirigia para a messe quando, autenticamente “emboscado”, o Major me esperava a meio do caminho das tabuinhas, agitando frenético e nervoso os dedos das mãos atrás das costas. Eu já lhe conhecia o gesto e a partir daí comecei de imediato a desmontar a ideia de festa que me vinha animando a alvorada.
Sem mais delongas, ainda eu não tinha desfeito a continência, já ele desfiava logo ali a enorme ladainha do seu descontentamento e estupefacção pela resposta totalmente inadequada que a minha tropa tinha dado ao toque de alarme. Percebi de imediato o significado daquela estranha melodia que me tinha acordado prazenteira logo pela manhã.
Desliguei um pouco daquilo que ouvia, enquanto o Major continuava a despejar-me motivos de sobra para as minhas futuras preocupações, que deveriam concentrar-se naquele desastre de segurança para todos. Incluindo o Major, claro. Por fim encontrei algo para dizer.
- O meu Major não se importa de esperar umas horas?
- Umas horas? Mas para quê? Respondia-me sem vislumbrar o meu ponto de vista.
- Isto não pode ser. Um dia o inimigo entra-vos pelo quartel dentro e vai ter convosco à cama.
Percebi que era uma visita que o Major não desejava, pelo menos enquanto se mantivesse por ali. Julgo que terá sido o momento em que, por fim, sentiu a insegurança que todos nós vínhamos sentindo havia largos meses, por via do isolamento em que nos encontrávamos.
Contudo, após mais uma ou duas censuras lá anuiu e acalmou. Durante todo o dia não se falou mais no assunto mas sentia-se que o Major tinha ficado incomodado.
Escureceu.
Logo a seguir ao jantar, solicitei a um dos Alferes que levasse o nosso Major para junto das casernas onde os militares se acomodavam para dormir. Intrigado o Major deixou-se conduzir, sempre naquele seu ar de latifundiário com boa vida, mãos atrás das costas e passos lentos despreocupados.
No silêncio da noite fiz explodir uma granada ofensiva nas proximidades das casernas. O estrondo naquele silêncio nocturno soou demolidor.
Foi um pandemónio. O Major quase foi atropelado e teve que se proteger. Em menos de um minuto as casernas ficaram vazias e todos os soldados ocuparam os seus postos de combate. Peguei no Major e convidei-o a percorrer comigo todos os abrigos. Parte dos soldados, ou estavam em cuecas e descalços, ou em tronco nu, mas de cartucheiras à cintura e a espingarda na mão. O Major não balbuciou uma palavra, nem voltou mais a falar no assunto. Apenas me respondeu quando, perante aquele quadro, lhe disse:
- Meu Major; é que não estou propriamente à espera que o inimigo me apareça e eu tenha tempo de mandar o corneteiro tocar a alertar porque nos vão atacar...!
- Pois. Mas sempre era bom que conhecessem o toque...
- ... ?!!

In “Capitães do Vento”, Roma-editora.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O NATAL


Não consigo!
Por mais que tente, não sou capaz de recordar o que quer seja dos dois últimos natais passados em África.
Parece que as células, os neurónios ou o que quer que seja que tem por função a preservação das memórias, não terão cumprido a sua missão. Nem uma imagem, um simples lampejo, uma fotografia… nada.
Já me perguntei várias vezes o que terá acontecido no natal de 1972 - o passado na Neriquinha - para não ter ficado nada registado.
Terá sido do calor que em Dezembro calcina África?
Terá sido assim tão traumático?
Parece amnésia. É que nem tenho uma só fotografia. Mas deve ter sido com a malta e com boa disposição.
Só me recordo do primeiro Natal, o passado no Rivungo, um mês e pouco após ter ali chegado.
Do último também não retenho nenhuma lembrança. Nessa altura penso que ainda estávamos nas Mabubas.
Ou não?
Tenho a certeza que regressei a Lisboa no dia 6 de Janeiro de 1974.
Provavelmente já tínhamos sido rendidos e estávamos em Luanda à espera do transporte que nos trouxe de regresso a casa.
Provavelmente essa é a explicação. Luanda … nada de oficial para fazer, galdeirice, brincadeira, noitadas…
Sim. Disso lembro-me.
Está explicado. O natal de 1973, em Luanda, passou sem darmos conta.
Espera!
Foi nessa altura, quando já pouco havia para fazer, que um acidente estúpido nos levou o Morgado.
Estava na praia, na brincadeira. Um mergulho mal calculado e partiu o pescoço.
Não quis acreditar.
Ao fim de tudo por que passáramos?
Quando já só faltavam uns escassos dias, havia de acontecer outra desgraça!
Cada um à sua maneira já tinha travado a luta com os sentimentos, mandado as saudades às urtigas e tentado sublimar a perda irreparável do Gonçalves.
O destino, ou o que quer que seja a força que nos domina, havia de nos pregar mais uma partida. A última.
Esta minha cabeça tem destas coisas. Mais uma vez concluo não perceber como funciona a memória.
Não me lembro de um só pormenor dos dois últimos Natais em África. Mas dos dois camaradas que não regressaram, lembro-me muito bem.
Fica aqui a homenagem.
Com tristeza mitigada pelo tempo, mas com saudade reforçada.
Um bom natal para os vivos.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

ARTESANATO


A produção de artesanato era uma das ocupações diárias da população da Neriquinha.
Nunca me interessei muito pelas peças, mas perdia algum tempo a apreciar a forma como trabalhavam a madeira, com recurso a ferramentas artesanais que eles próprios construíam, socorrendo-se de pedaços de metal velho.

Fiquei perplexo com a forma engenhosa como construíram a forja com a qual aqueciam o metal.
Com a ajuda do fogo atiçado pelo soprar do par de foles artesanais, levavam ao rubro pedaços de molas das suspensões das viaturas, moldando o aço até o transformarem em utensílios.
Os machados, ali chamados de javites, eram produzidos em diversos tamanhos. Com eles esculpiam a madeira ou cortavam lenha, sem necessidade de recorrer às modernas ferramentas então existentes.
Mas também era artesanato a forma como construiam as suas habitações. Protegiam da chuva, eram quentes durante a noite e frescas sob a inclemência do sol