sexta-feira, 24 de setembro de 2010

NERIQUINHA - Vista aérea

Durante uma das muitas operações apoiadas pela Força Aérea da África do Sul, foi possível registar uma imagem aérea da Neriquinha.
Para que se perceba bem a insignificância do local face à imensidão da savana envolvente, fica aqui a fotografia tirada a bordo de um helicóptero pelo Gabriel Costa no ano de 1972.

domingo, 19 de setembro de 2010

O REFEITÓRIO

O refeitório, plantado a meio caminho entre a cozinha e o depósito de géneros, era um espaço com evidente aspecto de provisório que se transformou em definitivo.
É verdade que apenas era ocupado pelo curto espaço de tempo que dura uma refeição. Mas ainda assim, muito precário e por vezes impróprio para servir refeições. Desprovido de paredes, não era mais do que um tosca estrutura de barrotes de madeira coberta de chapa ondulada retorcida e ferrugenta.
Quando a chuva vinha tocada a vento, era como se se estivesse na rua. No tempo do cacimbo, o pó cinzento e avermelhado das cercanias era empurrado por qualquer brisa mais animada para cima da comida, codimentando-a com especiarias indesejadas.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Disparos acidentais


Manipular armas, por si só, acarreta riscos. E o risco é ainda maior se estivermos a falar de armas de guerra. Foram feitas para matar e delas não podemos esperar misericórdia ou complacência. Lidar com armas exige respeito, disciplina e muitas cautelas. Mas, assustava-me especialmente a falta de jeito que muitos tinham para o seu manuseio. É verdade, os desajeitados quando andam com uma arma nas mãos, são duplamente perigosos.
E o mesmo é válido para os nabos. Quanto a estes, o perigo resulta exactamente da ignorância. Durante a minha curta vida militar, encontrei uma mão cheia deles. Incapazes de perceber particularidades importantes do funcionamento de uma espingarda, agiam inconscientemente e cometiam erros por vezes fatais.
Havia ainda os que tinham pavor a armas. Olhavam-nas como se estas lhes mordessem e entravam em pânico só de pensar que teriam de fazer fogo. Descontrolavam-se com os estampidos e o cheiro a pólvora e o medo levava-os a disparar sem sentido. Fechavam os olhos e premiam o gatilho contorcendo-se em caretas de horror. O tiro, esse saía para onde calhasse.
Durante a instrução, os procedimentos e as regras de segurança eram repetidos vezes sem conta. Uma delas, considerada a regra das regras, dizia: nunca se aponta uma arma a ninguém, mesmo que se tenha a certeza de que está descarregada. Nunca. Nem a sério nem a brincar. E isto não era um conselho, era uma ordem. E na tropa, ordens são para serem cumpridas.
Contudo, tal rigor não obstou a que, bem cedo, tenha sentido um arrepio, ao ser confrontado com o flagrante esquecimento de regras tão elementares. Durante a primeira instrução de tiro aos recrutas que me saíram em sorte, a G3 de um deles encravou. Sei lá, não disparava. Ignorando as recomendações que, pouco antes, repetira por mais de um par de vezes, virou-se para mim com a arma em riste e gritou por entre o barulho dos disparos de instrução:
- Encravou! … não dispara!
E pressionava insistentemente o gatilho mantendo a arma apontada para mim como a querer confirmar o óbvio.
A minha sorte é que, daquela vez, a arma, por qualquer mau funcionamento ou sorte minha, encravara de facto. Por vezes, quando o problema era apenas da percussão, o disparo dava-se à segunda ou terceira insistência. Não o foi daquela vez, caso contrário não estaria aqui a contar este episódio.
Mas ainda me lembro que desviei a arma com um golpe brusco, mimoseei-o com um chorrilho de asneiras que atingiu a sua inocente progenitora e provavelmente mais uns quantos membros da sua família e encerrei a questão com um valente pontapé que acertou em cheio no rabo do recruta.
Ainda não refeito do inusitado episódio, dedo em riste apontado ao nariz do infeliz, mas com vontade de partir para o estaladão, voltei a repetir, com voz nitidamente enervada e quase gritada, o aviso feito escassos minutos antes do início da instrução de tiro:
- Não se aponta a arma a ninguém, mesmo que se tenha a certeza que está descarregada.
Coçando o fundilho das calças procurando amenizar o ardor causado pelo impacto da bota, balbuciou à laia de justificação:
- Não disparava!
Fica assim demonstrado que, não obstante o rigor e solenidade postos no seu ensinamento, as regras de segurança eram frequentemente esquecidas ou ignoradas e muitas vezes não compreendidas por gente sem vocação ou jeito para as lides militares, e com consequências funestas. Uns entendiam que eram tretas, teorias da tropa, outros nunca chegaram a perceber o seu significado. Mas a verdade é que, durante o tempo que durou a guerra do ultramar, muitos morreram em consequência do desleixo e do seu não cumprimento e em quase todas, nem sequer foi precisa a intervenção do inimigo.
Numa altura em que até os quase cegos e os semi-aleijados eram obrigados a cumprir serviço militar, era visível, a olho nu, a falta de vocação de muitos, tropeçando-se frequentemente com um bando de desastrados irresponsáveis, autênticas ameaças para quantos andassem por perto.
Esta realidade obrigava a redobrar os cuidados postos no ensino da arte da guerra, repetindo-se até à exaustão instruções papagueadas, recomendações redobradas, avisos solenes complementados com ameaças de severos castigos ao desastrado prevaricador. Insistia-se na explicação do funcionamento de cada espingarda, das dezenas de peças que as compunham, sua função, particularidades, manias, pontos fracos e pontos fortes. Limpava-se e oleava-se cada peça, uma e outra vez, mesmo que já não restasse ponta de sujidade nem se vislumbrasse sinal de ferrugem. Escarafunchava-se cada ranhura, cada molinha, cavilha ou pinchavelho. Montava-se e desmontava-se a arma vezes sem conta, por rotina ou em testes de destreza, para ver quem o fazia mais depressa. Premiavam-se os mais capazes e mantinha-se vigilância apertada sobre os inábeis. Explicavam-se as consequências nefastas do incumprimento das regras, falava-se do azar que perseguia os mais desleixados e da sorte que acompanhava os zelosos.
Mas, acabara o tempo de instrução e do faz de conta onde tudo era teoria, simulação e encenação. No teatro de operações era a sério: as balas eram reais, as granadas explodiam de facto e o inimigo era verdadeiro. Experimentávamos o medo, de braço dado com o stress gerado pela expectativa torturante do ataque. Sim, agora o deslize, a distracção, o acidente, estavam sempre à espreita, à vez ou todos ao mesmo tempo, conluiando-se em cabalas de morte, como aquela que nos levou o Gonçalves, um furriel dos bons, amigo e camarada, dos nossos. Morreu de forma violenta atingido em cheio pelo cone de fogo provocado por disparo acidental de um lança-granadas quando, como mero espectador, espreitava a azáfama de uma simples e inofensiva acção de verificação do estado do armamento e munições.
De nada lhe valeu o saber do escrupuloso cumprimento das medidas de segurança, das rotinas e cuidados com o manuseamento das armas, com a sua manutenção ou com as cavilhas de segurança. Aquela granada nem chegou a explodir. Nem sequer fora descavilhada. Enterrou-se inofensiva no lodaçal do Rio Cuando, não sem antes deixar um bafo quente de morte atrás de si, provocado pela labareda do disparo.
A verdade é que, parte substancial destes procedimentos e cuidados era preocupação de cada dia. Cumpriam-se especialmente quando se saía e quando se regressava das operações.
Especialmente nas chegadas. Por regra, logo ali onde as viaturas nos largavam, no limite inferior da parada poeirenta e antes do desejado duche, cumpria-se o mesmo ritual. Arma apontada para cima, culatra puxada atrás, pressionava-se o gatilho uma e outra vez e repetia-se tudo de novo procurando garantir que nenhuma munição ficava na câmara. Só depois cada um ia à sua vida. Matar a sede, livrar-se do sarro e descansar da estafa.
Mas, ainda assim, e porque há sempre uma excepção, todos os cuidados eram poucos. Afinal estamos a falar de acidentes e, por muitas cautelas que se tenham, os acidentes acontecem.
Corria a tarde, quente, com um efeito paralisante sobre os corpos. Caminhar exigia um esforço para além do habitual e havia pouco que fazer. A maior parte dormitava por aqui e por ali. Outros, simplesmente jaziam espojados. Alguns preguiçavam à sombra enquanto uns quantos se entretinham em jogos de bisca lambida ou monótonas partidas de sueca matando a sede com a cerveja semi-fresca saída de frigoríficos alimentados a petróleo sem força para vencer a canícula. Com excepção da área da cozinha onde o tilintar de tachos anunciava o início da preparação do jantar, o silêncio imperava. A imperceptível brisa, intimidada pelo calor grosso e implacável, era incapaz de tirar as duas ou três árvores da quietude a que se haviam remetido. Nem o mais pequeno murmurejar se ouvia por entre o cansado movimento das suas folhas amolecidas pelo sol escaldante.
O Cabral, por qualquer razão que não retenho, resolveu entreter-se com a arma. Provavelmente achou que precisava de ser limpa ou então preparada para uma qualquer saída e não encontrou melhor lugar para o fazer do que a caserna, ali, sentado na beira da cama. O Silva, que ocupava a cama de cima - as camas estavam dispostas em beliche, duas a duas – preparava-se para escrever à namorada, ou à família, tanto faz. No dia seguinte passava o avião do correio e no outro lado do mar havia gente ansiosa aguardando notícias. Como de costume, sentara-se na cama, colocara a mala à frente dos joelhos em jeito de mesa, dispôs sobre a mesma a folha de papel e concentrou-se. Podia ter escolhido o refeitório, mais a jeito e com espaço para dar e vender. Mas o seu canto era aquele. Ali dormia e ali sonhava, por vezes acordado. Nã… escrever à miúda exigia recato, inspiração e tempo. E ali o seu cantinho oferecia a intimidade necessária. Para além do mais, dentro da mala de viagem que usava como escrivaninha, guardava a caneta, as folhinhas amarelas de aerogramas ainda virgens e, mais importante, as cartas recebidas a que importava responder.
Na cama de baixo, às voltas com a G3, o Cabral, talvez para confirmar que o mecanismo estava bem oleado, premiu o gatilho. O disparo deu-se, inesperado, com estrondo. Seguindo a orientação do cano, a bala passou pelo colchão da cama por cima da sua, trespassou a mala feita escrivaninha, assobiou aos ouvidos do Silva, perfurou a chapa de zinco ondulada do telhado e desapareceu no azul do céu.
O Silva levou um susto de todo o tamanho largando a caneta num gesto brusco, mais em consequência do estrondo inopinado do que da bala que quase lhe roçara a cabeça. Na verdade nem dera por ela e só mais tarde se lembrou que ouvira um ruído sibilante.
O susto do Cabral não foi menor e com o coração a cento e vinte batidas por segundo, não reagiu. Ficou-se a olhar a arma como que a tentar compreender o que sucedeu, surpreso por descobrir, da pior forma, que havia uma bala na câmara pronta a disparar. Infringira uma das tais regras elementares e não sei se terá chegado a tomar consciência do que ia acontecendo, pelo menos no momento. É que, a percepção efectiva da desgraça, só deverá ter atingido as consciências mais tarde, talvez com maior intensidade à noite, na quietude silenciosa que antecede o adormecer.
A desgraça batera à porta mas, felizmente, não quis entrar. Como sinal da sua passagem, apenas restou uma mala de cartão furada e um buraco no tecto da caserna.
Ficou mais uma vez demonstrado que as regras repetidas durante a instrução não eram treta. Resultavam de experiências que, pela frequência com que ocorriam, foram conferindo validade aos avisos. À regra de nunca se aponta uma arma a ninguém, havia que acrescentar-se: nem se carrega no gatilho a menos que seja necessário.
Não me admiro nada que, naquele fim de tarde, muitos tenham ido verificar a sua arma. Com a consciência tranquila dorme-se melhor e sempre mais vale prevenir que remediar.

domingo, 1 de agosto de 2010

O Furriel NETO

A companhia estava desfalcada de furriéis. A morte do Gonçalves, para além da saudade imensa, deixara uma vaga que demorava a preencher e havia tempos que o Duarte (o palúdico) em consequência da sua permanente luta contra o paludismo, tinha sido transferido para o Cuito Cuanavale.
Na verdade, menos dois furriéis pode parecer coisa de somenos importância, mas contando que o segundo-sargento Sousa não participava na actividade operacional e que o P. Costa, queixando-se de asma, fora confinado a actividades que não iam além do perímetro do arame farpado, a sobrecarga sobre os demais começava a fazer-se sentir. Ao fim e ao cabo isso significava que as actividades mais desgastantes e de maior risco que em princípio seriam repartidas por uma dúzia de furriéis, estavam a ser garantidas por apenas oito. E menos quatro elementos, por si só, mais do que justificava a expectativa de ver chegarem reforços.
Os comandos e respectivas estruturas de recursos humanos estavam ao corrente, mas a reposição do quadro de sargentos da companhia tardava. Relegados para os confins das terras do fim do mundo quase nos convencíamos que o assunto estava esquecido e por isso, teríamos de nos aguentar até ao fim, já que refilar não adiantava.
Até um dia. Quando já ninguém pensava no assunto, o esperado reforço desceu pelas estreitas escadinhas do Nord que acabara de aterrar na pista de terra vermelha para mais um reabastecimento semanal.
Parou e olhou em volta como que se avaliasse o local. Não disse nada, mas não seria de estranhar que no seu íntimo se sentisse como se tivesse sido largado no fim do mundo. Pelo menos achei que o seu semblante parecia maldizer a sua sorte. Provavelmente questionava-se em silêncio, à medida que, carregando as suas coisas, caminhava em direcção à camarata.
- Que mal fiz eu para vir aqui parar?
Na verdade, Angola teria certamente, espalhados pelo seu vasto território, muitos locais distantes e isolados. Mas a Neriquinha estaria certamente entre os mais remotos e inóspitos.
A chegada deste desconhecido constituiu uma surpresa e em dose dupla; uma, porque chegou sem aviso, outra pela cor da pele. Quando se esperava um maçarico, vindo directamente do puto, sai-nos na rifa um furriel negro, africano de nascença e angolano de gema. Com efeito, nestes casos, era costume o recurso a rendição individual, recaindo a escolha em alguém que já pensava escapar a uma mobilização. Mas não. Parece que optaram por quem estava mais à mão.
Na verdade, o Neto fora mandado para a Neriquinha pela disciplina militar em consequência do seu mau comportamento. É verdade, fora punido militarmente. Como se dizia na tropa, levou uma porrada de todo o tamanho e como se isso não bastasse, juntaram à pena uma guia de marcha para os confins da savana, o limite mais afastado do território.
Levei algum tempo a digerir este facto. Afinal, sem que ao longo da nossa ainda curta carreira militar, tivéssemos feito algo de censurável ou que justificasse uma punição, fôramos colocados num local para onde, pelos vistos, a título de pena acessória, eram enviados militares mal comportados.
Nunca soube exactamente o que raio teria feito de tão grave para ser punido de forma tão severa. Se bem me lembro, nos primeiros tempos, desconhecíamos esse facto e o seu comportamento reservado em tudo o que se relacionasse com a sua vida pessoal não o permitia descobrir.
Inicialmente apenas se revelou dependente do álcool, mas com um sentido de humor extremamente apurado. Até na forma como segurava a garrafa de cerveja que fazia questão de manter como companhia permanente. E permanente significa mesmo isso. Começava a beber logo de manhã, assim que se levantava e continuava noite dentro, mesmo depois de deitado, das luzes apagadas e da maioria já estar a dormir profundamente. No meio do silêncio da noite, ouvia-se, de vez em quando o glu de mais um gole ou o clock anunciando a abertura da derradeira garrafa da noite.
O efeito de tanta cerveja manifestava-se de várias formas: na voz entaramelada, no andar cambaleante, nos olhos mortiços amarelados e algo raiados de sangue, no gesto lento e desajeitado como levava a garrafa à boca, ou na forma como lidava com o cigarro que nunca largava. Para que não caísse, segurava-o espremendo-o fortemente entre os dedos. Esquecendo-se frequentemente que o tinha aceso, deixava o morrão de cinza alongar-se até cair naturalmente onde quer que fosse, ou sacudia-o violentamente quando a proximidade da incandescência lhe queimava os dedos. Certa vez, a anestesia alcoólica impediu-o de se dar conta disso; a queimadura provocou duas grandes bolhas entre os dedos indicador e médio, a que não pareceu dar importância.
As tonturas que o assolavam deram origem a uma das suas máximas mais recordadas. No silêncio da noite, às voltas com as duas últimas cervejas, o desconforto da vertigem provocada pelo excesso de álcool tornou-se óbvio. Remexendo-se na cama ao meu lado, soltou mais uma das suas saídas humorísticas; como se delicadamente culpasse a cama do desconforto, balbuciou num lamento quase suplicante:
- Dona cama, por favor, deixe de ser rotativa.
Creio que adormeceu pouco depois. A respiração pausada e profunda assim o fazia supor.
Mas o Neto não lutava apenas com a cerveja. Declarara guerra aos mosquitos e parecia óbvio a toda a gente que as melgas estavam a ganhar. Ainda assim, insistia em dispensar a rede mosquiteira e como normalmente tinha dificuldade em se despir, era frequente adormecer vestido, esticado sobre a cama. A verdade é que não me lembro de o ver armar a indispensável rede que nos protegia dos vorazes insectos.
- Se me picarem, embebedam-se.
Brincava, consciente da elevada quantidade de álcool que circulava no seu sangue.
Outras vezes, insistia que as melgas eram naturalmente afastadas pelos vapores alcoólicos que exalava.
Um dia, talvez vencido pela bebedeira, deixou-se cair na cama de qualquer forma. Adormeceu do avesso que é como quem diz, com os pés para a cabeceira e a cabeça para os pés. Acordou na manhã seguinte, eufórico, rindo-se sozinho. Sem que percebêssemos de imediato o que se passava, exclamou:
- Ah! Ah! Ah! Enganei-as!
E insistia referindo-se às melgas.
- Enganei as gajas! Queriam picar-me a cabeça, mas apenas encontraram os pés.
Certa noite, um grilo resolveu assentar arraiais no nosso dormitório não deixando ninguém dormir com o seu cantar estridente. O Neto deu-lhe caça, jurando comê-lo mal o tivesse a jeito. Com persistência e alguma paciência, conseguiu por fim apanhá-lo. Era um bicho enorme, de cor esbranquiçada em contraste com o negritude normal de qualquer grilo. Mirou e remirou a estranha criatura e, encenando uma espécie de reprimenda, sentenciou:
- P´ra cantares tão mal, tinhas que ser branco!
O Neto era assim; ao mesmo tempo que brincava com a sua dependência alcoólica e consequentes gafes, insistia em desafiar a ferocidade do mosquitame e surpreendia-nos com o seu humor inteligente. Mesmo na mata, durante as operações, a cerveja continuava presente. Chegou a pagar do seu bolso a carregadores para lhe transportarem a cerveja que considerava não poder dispensar.
Mas havia períodos de lucidez, não obstante estes se confinarem à primeira metade da manhã e pouco mais, ou então durante o tempo em que estivesse fora, participando em operações e por isso, com acesso limitado à cerveja. Aliás, tudo dependia da quantidade de álcool que ingeria e é preciso ter em atenção que, para o Neto, meia dúzia de cervejas era coisa pouca.
Aos poucos fomos descobrindo as diversas facetas da sua rica personalidade. Para surpresa de alguns, o Neto revelava-se acima da média, estejamos a falar do ponto de vista cultural ou intelectual. O seu jeito para a escrita e os visíveis conhecimentos literários e não só, eram disso sinais mais do que evidentes.
A tudo isso juntava a sua fértil imaginação, animando os dias pastosos e monótonos onde só de vez em quando acontecia alguma coisa diferente. Ficou na memória de todos o jornal de parede que criou. E o mais interessante é que apenas ele escrevia, desempenhando o papel de jornalista solitário.
Fosse como fosse, a verdade é que se criou o hábito de diariamente não se dispensar a leitura das notícias, movidos mais pela curiosidade de descobrir, em cada dia, os acontecimentos sensaborões que haviam merecido a atenção jornalística do Neto. Interessante era ver a forma inteligente como coloria com textos bem conseguidos os corriqueiros momentos a que não dávamos importância e que, na sua maior parte, passavam despercebidos à maioria.
O tempo que o Neto esteve connosco constituiu um marco e impôs naturalmente uma etapa bem delimitada na nossa estada por aquelas bandas, marcando pontos e ganhando amizades. Aquele negro que nos saiu na rifa passou a ser o principal centro de interesse, contribuindo para colorir e apimentar a monotonia dos nossos dias. E pelas melhores razões.
Da sua faceta de indisciplinado, não vimos sinal, a menos que se tivesse regenerado na sequência da porrada que levou, hipótese que não me parece adequada. Não me parecia fácil dobrar o Neto por essa via. Mas na verdade, nunca o vi sequer refilar quando era incumbido de qualquer tarefa ou missão, por mais desagradável que fosse. Dessa sua tendência para o incumprimento da rígida disciplina militar, apenas sobressaía o seu sarcasmo à mistura com a forma desleixada como misturava o fardamento com peças de roupa desalinhada, compondo, com uma barba mal semeada e nunca tratada, o ramalhete da informalidade e do pouco cuidado que dispensava à sua figura.
Já não nos acompanhou quando nos mudaram para as Mabubas. Ao comandante da companhia, fora remetido pelas instâncias militares, um conjunto de documentos oficiais que ditavam a sorte que a disciplina militar lhe reservou. Afinal o que quer que tenha feito, lá no sítio de onde veio, deveria ter sido mesmo grave. A pena aplicada, para além da sua transferência para a Neriquinha, incluía a despromoção a soldado raso, o que trouxe mais um problema administrativo ao nosso primeiro - pelos vistos, a despromoção parecia ter sido aplicada com efeitos retroactivos o que implicava ter de devolver os ordenados que já recebera como furriel.
Não sei se o fez, ou como fez, apenas me lembro de o ver partir, carregando as suas coisas, mas já sem divisas sobre os ombros.
O soldado raso, ex-furriel Neto, abandonava-nos definitivamente. Nunca mais soubemos dele, mas as histórias das suas máximas, dos seus tiques e meneios, do seu humor inteligente, sarcástico e mordaz, foram recordadas, contadas e recontadas até à saciedade. Ainda hoje são relembradas.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Saída para a mata

A saída para a mata, implicava um quase ritual de preparação.
Eram as últimas instruções, a revisão do plano, a verificação do equipamento, do armamento, o arrumo das latas da ração de combate e finalmente subir para as berliets e partir.
Estas imagens recordam um desses momentos. Neste caso, o 4º pelotão partia para mais uma missão. Não recordo o nome da maioria e até algumas caras já me parecem estranhas, mas reconheço o Alferes Aranha, o furriel Mota, o cabo enfermeiro Chiquinho e ainda o soldado Duarte que, bem se pode dizer, foi o responsável pelo início dos reencontros anuais da companhia que se mantêm há muitos anos.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A resistência de um GE

Na guerra colonial em qualquer dos territórios das antigas províncias ultramarinas, o exército português contou sempre com o apoio de grupos recrutados entre a população nativa.
O objectivo era óbvio. Envolver as populações no esforço de guerra e dar-lhes importância eram formas de arregimentar homens que, a não ser assim, poderiam engrossar as hostes dos guerrilheiros.
Para nós, que andávamos no terreno, a importância destes grupos não se esgotava na vertente política e de acção psicológica; era mais do que isso. Não sendo militares formados com o rigor de um exército, apresentavam fragilidades ao nível operacional, mas constituíam uma mais valia importante, designadamente porque conheciam o terreno, movimentavam-se na mata com desenvoltura por largos dias e eram quase auto-suficientes. Conhecedores dos segredos da savana, sabiam onde arranjar alimento, quase dispensando a ração de combate e eram capazes de, com muito menos esforço, vencer distâncias em menos de metade do tempo do que as nossas tropas.
Na verdade, a sua existência era primordial. Poupavam-nos a uma parte das operações esgotantes, aliviando o nosso esforço e constituíam guias de confiança no meio de um terreno isento de pontos de referência onde era fácil perdermo-nos.
Aos elementos destes grupos, denominados GE’s, (Grupos Especiais) era atribuído um ordenado, disponibilizado fardamento e entregue armamento o que, naqueles locais, constituía por si só, razão suficiente para convencer elementos da população a integrarem estas tropas por tempo indefinido.
O grupo da Neriquinha não era muito numeroso. No todo, talvez o equivalente a um pelotão, mas eram suficientes para levarem a cabo missões militares com alguma importância.
Fulai Monjuto era o seu comandante, incumbência que levava muito a sério, impondo aos seus homens disciplina e padrões de comportamento que considerava adequados a tropas. Para além disso, era pessoa de quem se gostava. Fiel ao seu ideal, optara pelo nosso lado por convicção própria, creio, e não porque um qualquer discurso mais bem elaborado o convencera. Acima de tudo era alguém em quem se podia confiar.
No outro lado da barricada um grupo de guerrilheiros movia-se entre território angolano e as suas estruturas de suporte na Zâmbia, atravessando a fronteira através de caminhos que cruzavam a chana do Cuando e que procurávamos controlar. Operavam algures na savana imensa da Quirongosa lá para os lados de Mavinga, em bases móveis suficientemente afastadas e difíceis de localizar. O seu comandante, dizia-se, dava pelo nome de Kuenho e constava que seria um irmão, ou meio-irmão, do Fulai.
Contudo esse parentesco nada representava em termos de afinidade ou afectividade. Por ali, os guerrilheiros consideravam os GE’s traidores à causa e falava-se do ódio visceral que nutriam uns pelos outros.
O Kuenho e os seus homens já tinham sido acossados por diversas vezes em operações levadas a cabo por grupos de comandos, chegando a constar que o seu comandante tinha sido abatido numa das incursões feita pelo capitão Vítor Alves quando comandou a Companhia da Neriquinha, um par de anos antes de nós. Mas não havia certezas de que isso fosse verdade.
Parece que o grupo se tornou mais activo do que seria de desejar, facto que terá determinado a preparação de uma grande operação visando controlar os seus movimentos e anular a operacionalidade que vinha manifestando.
Dessa demanda não conheço pormenores, já que as justificações para as operações e forma como eram preparadas ficavam sempre nos segredos dos gabinetes das altas patentes. A nós, apenas competia executá-las sem refilar e sem fazer perguntas e normalmente sem se saber ao que íamos.
A verdade é que foi preparada uma operação envolvendo parte significativa dos efectivos das companhias da Neriquinha e Mavinga incluindo os respectivos grupos de GE’s, operação levada a cabo com grande aparato e estratégia meticulosa de progressão no terreno que deveria bater parte da imensa savana da Quirongosa e um largo troço das margens do rio Toss. Assim, a força foi dividida em dois grupos: um, constituído pelos GE’s e outro, pelo conjunto do pessoal da 3441 e da companhia de Mavinga. O objectivo seria bater o máximo de área possível, encontrar infra-estruturas do inimigo, destruí-las e pelo caminho recolher indícios da sua actividade.
Parece que esse desiderato não foi atingido, já que nem sinais dos guerrilheiros, o que não constituía surpresa. Numa área tão imensa e incaracterística, tinham toda a vantagem a começar pela sua resistência passando pelo conhecimento do terreno e acabando nas suas aptidões inatas de subsistência e sobrevivência.
Mas não andavam longe. Pelos vistos resolveram ignorar a tropa e, sem se fazerem notar, seguir na peugada dos GE’s. Ou então a descontracção e excesso de confiança dos GE’s, talvez resultante dos muitos anos que levavam naquelas andanças sem que tivessem sofrido dissabores graves, deixava-os descontraídos, talvez de mais. Ao fim da tarde, aportaram à chana que ladeava o rio que por ali corria. Já o conheciam como um lugar aprazível, ideal para descansar e pernoitar.
Largaram os equipamentos por aqui e por ali, abandonaram as armas pelo chão ou encostadas às árvores, descalçaram-se, despiram-se e correram para a fresquidão da água para se livrarem do pó que se colara ao suor do corpo.
O grupo do Kuenho esperou pela melhor oportunidade e no exacto momento em que a descontracção era total, despejaram todo o seu poder de fogo sobre os GE’s que, estando em campo aberto e sem o que quer que seja onde se pudessem proteger, foram caindo um após outro sob o fogo intenso do inimigo sem a mínima oportunidade de chegarem às armas abandonadas a escassos metros.
A tarde calma tornou-se rapidamente num inferno cruzado por balas vindas de todos os lados contra GE’s seminus e descontraídos. Encurralados, desorientados e desarmados, procuraram a fuga sem sentido ou lógica por entre a impiedosa metralha. Correram pela mata sem olhar para trás. Os primeiros chegaram a Mavinga algumas horas depois, sem roupa, sem ânimo, sem nada, quase mortos de cansaço, derrotados até ao mais profundo dos seus sentimentos. Para trás, prostrados no terreno, ficaram os corpos dos que não conseguiram escapar.
No dia seguinte, uma missão de resgate, com ajuda da força área, contou treze mortos. Quatro eram do grupo da Neriquinha entre os quais o do seu comandante. O corpo de Fulai Monjuto jazia, crivado de balas, muito mal tratado, a evidenciar a fúria, a raiva vingativa e o ajuste de contas dos seus conterrâneos que militavam no outro lado da barricada.
Mas havia um quinto elemento do grupo do Fulai. Seminu, ensanguentado, apresentava feridas de bala por quase todo o corpo. Pelos vistos nenhuma atingira um órgão vital. Inanimado terá sido dado como morto pelo inimigo. Sobre a madrugada, o frio do cacimbo despertou-o, mas estava demasiadamente ferido para se mover. Um helicóptero levou-o para Serpa Pinto, sem grandes esperanças. Na altura parecia impossível ainda estar vivo. Mas, contra todas as previsões, recuperou.
Falei com ele quando regressou à Neriquinha passada a fase da convalescença. Falava pouco. Como resposta às nossas perguntas apenas sorria e despia a camisa para mostrar as cicatrizes. Era impressionante a forma como o seu corpo ficou marcado. Mesmo que não tenha sido atingido num órgão vital, o que só por si parecia impossível, não era crível que um ser humano pudesse ter resistido a tanto. O GE tinha certamente uma estrelinha protectora ou então um anjo-da-guarda muito influente.
Quanto ao Kuenho, soube-se mais tarde que uma operação mais bem sucedida, levada a cabo já depois de termos saído do Cuando Cubango, logrou abatê-lo. Parece que hoje é um herói angolano. Dizem que existem várias escolas e alguns monumentos que foram baptizados com o nome “Comandante Kuenho”. Creio que apenas o pessoal da 3441 se recorda do Fulai Monjuto. Boas recordações certamente. Contudo, nenhum se lembrará sequer onde foi sepultado. Onde quer que tenha sido, para lá ficou sem epitáfio, honrarias ou reconhecimento por parte da causa que serviu.

sábado, 19 de junho de 2010

A HORTA

Num simples rectângulo de terra correndo lateralmente pela periferia do arame farpado, logo ali junto à pista ao lado do barracão que albergava os dois cabos da força aérea, se fez uma horta.
Inicialmente mais parecia não passar de um entretém que ocupava diariamente o cabo Coelho. Nem a área nos parecia suficiente nem a aridez envolvente prometiam grandes colheitas, pelo menos algo que valesse a pena.
Sim, seria mais uma forma de nos aproximar dos costumes lusos, dando corpo à máxima de que onde haja um bocado de terreno o português faz uma horta.
Mas naquele lugar nada pode ser comparado ao nosso rectângulo à beira mar plantado. O que quer que se lançasse à terra crescia desmesuradamente e a uma velocidade inesperada. Um poço com poucos metros de profundidade escavado ao lado fornecia água em abundância. Uma alavanca com um balde na ponta e alguma força braçal faziam correr pelo terreno, sempre que fosse preciso, a água necessária para a rega. Isso, o conhecimento do ofício por parte do cabo Coelho e o trabalho dos dois ajudantes, jovens assalariados recrutados na população, muito sol e chuvas abundantes, era tudo o que era necessário,
Feijão verde, alfaces e pimentos com o dobro do tamanho dos que conhecia, permitiam compor a ementa do cozinheiro. Umas sementes de tomate, creio que vindas do Algarve por intermédio do capitão (algarvio de gema) transformaram-se rapidamente em plantas enormes, garantindo uma colheita diária de tomate fresco e adocicado. As saladas eram bem vindas e a quantidade deu em certa altura para servir salada a toda a companhia. Até amendoim se semeou.
A evidente fertilidade daquelas terras inspirou o capitão. Um dia decidiu que se faria uma horta para a população local. Com tão poucos recursos disponíveis, uma produção hortícola logo ali ao lado, seria certamente um bom aconchego a estômagos habituados a pouca coisa.
Envolveu os GE’s, o Soba e os Séculos, constituiu uma equipa, escolheu-se o local e metemos mão à obra.
Limpou-se uma área considerada suficiente, deu-se início à abertura do buraco à procura de água, ali disponível a pouco mais de meio metro de profundidade, e tudo ficou pronto para a sementeira.
Creio que nunca ali foi plantado o que quer que fosse e rapidamente o capim tomou conta do espaço. A população não estava habituada a comer tomates, pimentos alfaces ou feijões e obviamente não deu seguimento ao projecto. A sua agricultura, naturalmente de subsistência, reduzia-se ao milho e ao massango que as mulheres semeavam no início da época das chuvas em pequenas áreas espalhadas pela mata. As abundantes chuvas que regavam a região durante mais de metade do ano eram mais do que suficientes para dessedentar culturas tão pouco exigentes. Depois era esperar pela altura das colheitas, transportar as espigas para o Kimbo, mais uma vez pelas mulheres, ou então com a ajuda das nossas viaturas. O grão era por fim guardado em celeiros artesanais com cobertura de capim e empoleirados em paus que os elevavam acima do solo.
Lembrei-me várias vezes do meu pai. Madeirense, habituado desde sempre a ver cada insignificante leira de terra aproveitada para o plantio de tudo o que era necessário, acharia estranho aqueles imensos baldios a perder de vista, totalmente desaproveitados. Ainda por cima uma terra macia, fácil de trabalhar e com água em abundância.












terça-feira, 1 de junho de 2010

O pôr-do-sol na savana

África, na sua inexplorada imensidão, é um mundo selvagem e hostil. Os seus grandes desertos não são locais que sirvam para dar abrigo ao ser humano. Dos poucos que por ali vivem apenas recordo os pequenos e irrequietos bosquímanes que desenvolveram o seu metabolismo adequando-o às exigências de tão inóspito lugar.
O bocado de fim de mundo que constitui a província angolana do Cuando Cubango, é composto na sua maior parte por uma savana encalacrada entre os dois grandes desertos africanos: o imenso Kalahari e o caseiro deserto de Moçâmedes.
Dois dos maiores rios angolanos deram o nome à província: o Cubango que nascendo no centro do território delimita a província a oeste, estabelece boa parte da fronteira com a Namíbia e acaba por morrer fundindo-se no enorme pântano do Okavango depois de percorrer cerca de 1.600 quilómetros e o Cuando que empresta parte do seu curso para definir a linha de fronteira com a Zâmbia, indo desaguar no Zambeze depois de atravessar a Faixa de Caprivi, território namibiano que constitui um dos mais conhecidos "cabo de frigideira" (panhandle) da geografia mundial.
A Neriquinha e toda a área de actuação da 3441 confinavam a leste com as margens deste rio e seus inúmeros afluentes, parecendo-nos o local mais remoto de todo o imenso território angolano. Por alguma razão alguém apelidou o Cuando Cubango de Terras do Fim do Mundo, como ainda hoje é conhecido.
Era um ambiente hostil que intimidava quem por ali aportava e só aos poucos e poucos, à medida que cada troço de picada, cada chana, cada recanto mais escondido se ia tornando familiar, fomos sendo capazes de apreciar a beleza selvagem e indescritível que todos os dias se exibia provocadora perante intrusos que dificilmente aceitariam ali viver de livre vontade.
Ainda assim, mesmo passado mais de um ano de por ali deambular nas frequentes operações de controlo do inimigo, sentia sempre um certo desconforto toda a vez que uma nova missão me levava para além das zonas já conhecidas, não obstante a semelhança entre cada recanto percorrido.
Uma noite de chuva diluviana ou um dia atormentado por trovoadas aterradoras acompanhadas de relâmpagos que se anunciavam como disparos de roketes, rachando árvores como se abertas de uma assentada por gigantescos machados invisíveis, compunham visões feéricas que pareciam querer amedrontar quem ousava profanar aquelas paisagens apenas molestadas pelas forças da natureza.
No entanto, todo aquele mundo de ninguém tinha a sua faceta simpática. Não era difícil olhar para tudo o que nos rodeava e encontrar pormenores de beleza indescritível, desde a imponência real da grande palanca preta, da elegância das gazelas passando pela ferocidade de búfalos com cara de poucos amigos até ao desajeitado galope dos gnus para só falar de alguns dos elementos que compunham a rica fauna que diariamente desfilava perante os nossos olhos.
Dependendo da sensibilidade de cada um, até o colorido da mais pequena flor que se abria ao sol depois das primeiras chuvas, pincelando de cores múltiplas a paisagem agreste, no meio de capim verdejante, oferecia um contraste de beleza no meio daquela imensidão de mato que, durante a época seca, alimentava queimadas gigantescas num afã destruidor de tudo transformar em negro até as primeiras chuvas voltarem a pintar de verde toda a paisagem.
Contudo, o grande actor, imponente e castigador que por ali se exibia durante todo o ano, era o sol. Depois de infernizar a vida de todo o ser vivente que se atrevesse a pisar o seu palco, recolhia-se ao fim de cada dia em espectáculos impossíveis de descrever, numa autêntica explosão de cor, pintando quadros diferentes sempre que se recolhia, desaparecendo de seguida como se se enterrasse na linha do horizonte.
É verdade, o pôr-do-sol na savana era sempre um espectáculo que me deslumbrava a cada fim de dia.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

SENTINELAS

Naquelas paragens havia uma importante preocupação diária - a segurança.
A hipótese de um ataque ao aquartelamento não era ficção e não podia nunca ser encarada com leviandade. Aliás, o ideal seria pautar o nosso comportamento considerando como altamente provável a ocorrência de um ataque. Erro seria admitir o contrário, mesmo sabendo que isso não acontecera com as companhias que nos antecederam. E todos levavam isso a sério como ficou demonstrado certa vez, por alturas da visita do segundo comandante do Batalhão, episódio já anteriormente descrito pelo Cabrita.
Assim, era imperioso que uns se encarregassem da segurança dos outros, especialmente enquanto dormiam. Sim, alguém tinha de ficar permanentemente acordado, tarefa que competia, em primeira linha, aos praças de acordo com a escala de serviço. Em segunda linha, ao sargento-de-dia, cuja missão era velar por quase tudo o que se passava no aquartelamento no espaço de 24 horas, incluindo as rondas nocturnas por todos os postos de sentinela procurando garantir que ninguém dormia no posto.
Relativamente ao serviço de sargento-de-dia e considerando que éramos cerca de uma dúzia, a tarefa era mais suave. Doze dias de intervalo entre cada serviço garantiam pelo menos onze noites de sono sem interrupções. Mas no que toca aos praças, a coisa era bem mais penosa.
Ao longo dos quatro lados que definiam o perímetro da cerca de arame farpado que delimitava o local, haviam sido construídos frágeis postos de sentinela empoleirados sobre quatro paus e protegidos por chapa ondulada. Não me recordo de quantos eram. Só sei que garantiam a vigilância em todas as direcções.
Durante o dia, apenas eram escaladas duas sentinelas, uma cobrindo o lado da pista e outra garantindo segurança à parte de trás que confinava com a mata que, por razões de segurança se procurava manter desbastada de forma a garantir uma faixa desmatada de cerca de 100 metros, mais coisa menos coisa, entre limite do arame farpado e a orla da mata.
Durante o dia, o calor intenso transformava em martírio as duas horas de cada quarto de sentinela, fazendo com que alguns procurassem um pouco de sombra no chão por debaixo do posto.
Contudo, à noite era muito mais penoso. O frio no tempo do cacimbo, o desconforto de um homem só no meio da escuridão enquanto outros dormiam e o desejo do conforto de uma enxerga, tornava quase em castigo o trabalho de garantir a segurança dos demais. Ainda para mais, durante a noite, era preciso reforçar a vigilância colocando um homem em cada um dos postos existentes. E como a rendição ocorria a cada duas horas, por cada posto eram necessários homens suficientes para garantir o reforço desde as oito horas da noite até às oito da manhã do dia seguinte. Ou seja, seria necessário a quase totalidade do efectivo de um grupo de combate para assegurar a vigília.
Ora uma companhia apenas tem quatro grupos de combate e como um estava em permanência no destacamento do Rivungo, isso significava que em média cada homem teria de estar de sentinela, à noite, pelo menos de três em três dias.
O pior era quando um dos grupos era destacado para uma das frequentes operações que constituíam a nossa principal missão naquelas bandas, passando dois, três e por vezes quatro dias a deambular pela mata.
Os que ficavam teriam de garantir a segurança, agora mais premente, dada a redução dos efectivos. Feitas as contas, era quase certo que os que ficavam tinham garantido um quarto de sentinela, noite sim, noite sim, pelo menos enquanto durasse a operação.
Numa dessas alturas, competindo a segurança ao meu grupo de combate e tendo eu acabado de afixar a escala de sentinelas que elaborara com muito cuidado, sou interpelado por um dos soldados que, tendo estado de reforço na noite anterior se revoltava ao ver o seu nome de novo na escala para a noite seguinte.
Procurei explicar que, estando quase dois pelotões na mata, isso iria acontecer também no dia seguinte e que o mesmo se passava com os outros. Não havia alternativa, conforme parecia claro de acordo com as listas constantes da folha de papel que exibia.
Mas nada o convencia. Que não podia ser! Alguém estaria de certeza a ser beneficiado e isso só poderia significar que eu tinha qualquer mala-pata contra ele.
Tentei acalmar o homem, expliquei que não, mostrei as escalas anteriores e procurei que percebesse que não havia solução.
Não convencido e com ar nitidamente agastado, virou costas e com um gesto de resignação, desabafou.
- O meu furriel é que sabe ... você é que leu os livros!
E, retirou-se remoendo impropérios, não sei se a mim, se à sua sorte.

sábado, 1 de maio de 2010

O NOSSO PRIMEIRO

Creio que não será difícil imaginar a quantidade de problemas administrativos que uma companhia, ou qualquer outra unidade militar, enfrenta no dia-a-dia. Imagine-se agora essa companhia num teatro de guerra e acrescentem-se as dificuldades inerentes. Condimente-se o bolo com a ausência de vias e meios de comunicação e ao facto de me estar a reportar a um tempo em que o computador era peça de ficção.
Aposto que a grande maioria do pessoal da 3441, incluindo oficiais, sargentos e praças, nunca chegou a aperceber-se plenamente da complexidade e dimensão das minudências de natureza administrativa e financeira que em cada dia tinham de ser resolvidas.
Para tudo havia uma dotação, um limite financeiro, uma verba com a correspondente burocracia plasmada à saciedade nas NEP’s, nos códigos, regulamentos, circulares, ordens e instruções produzidas na retaguarda pelos guerreiros do ar condicionado.
Para tudo havia um impresso, um modelo, um formulário um relatório. E tudo tinha de bater certo, ao centavo, o débito igual ao crédito. Até as munições eram contadas, sendo exigidos relatórios rigorosos a justificar cada bala disparada. Um mundo de burocracia capaz de dar cabo dos nervos e fazer a cabeça em água a qualquer um.
Para dar conta de tudo isso, só os profissionais da tropa, que sabiam decorado de trás para a frente e salteado, todas as regras, todos os prazos e datas-limite. Conheciam os impressos, o número de vias e respectivas cores. Sabiam quando e para onde deviam ser remetidos: era uma exemplar disto para o comando no Cuito Cuanavale, um exemplar daquilo para o comando da Zona Militar Leste, outro para a manutenção militar no Luso, um original de qualquer coisa para o quartel General, a requisição de qualquer peça para o serviço de material. Enfim o paraíso da burocracia.
Eram tarefas com que o Capitão teria de lidar. Ele era o responsável máximo pela ordem e cumprimento daquele mundo de confusão. Só que o nosso pertencia à primeira leva de capitães milicianos, comandantes que o exército recrutou à pressa esgotado que estava o quadro dos formados na academia. O nosso capitão era, assim, um perfeito ignorante (sem ofensa) dessas andanças sobre as quais, quanto muito, teria aprendido umas luzes durante o pouco tempo que levava de tropa. E isso punha-o à mercê do primeiro-sargento que lhe calhasse. Numa companhia, o primeiro-sargento era uma espécie de chefe de secretaria, contabilista, tesoureiro e escriturário-mor, autêntico mangas-de-alpaca que dominava esse mundo de papéis e burocracia. E isso não era muito bom. Os sargentos, profissionais da tropa, não tinham lá muito boa fama. Eram conhecidos na gíria por, chicos. Aliás, chico era todo aquele que, uma vez acabado o serviço militar obrigatório resolvia ficar, continuando agarrado à farda e às exigências da disciplina militar. Dizia-se então que:
- Meteu o chico.
Um chico, naquele tempo, era sempre alguém que trazia colado à pele um acervo de epítetos mais ou menos soezes, ou pelo menos, maledicentes. O chico era um lateiro, um retrógrado boçal, agarrado ao dinheiro, capaz da maior das vilanias por meia dúzia de tostões. Se o rancho não agradava, a culpa era do sargento que, para poder gamar algum, cortava na carne (mais cara) e aumentava a quantidade de massa e feijões (mais baratos).
O chico, naturalmente mal-humorado, fazia exigências só para chatear, para compensar o seu complexo de inferioridade. Por oposição, era um autêntico lambe-botas, excessivamente subserviente perante qualquer um que tivesse patente superior à sua.
O sargento chico era, em suma, alguém que, se não tinha o proveito, da fama não se livrava. Se ficou na tropa era porque se queria encher, enriquecer à custa dos outros. Era como se exibisse um estigma, um rótulo colado à pele que catalogava a classe, embora durante o tempo em que fui militar (três anos e uns mesitos) tenha encontrado muitos que não encaixavam nesta definição.
Imagino assim os temores que o capitão Cabrita terá sentido no princípio da sua espinhosa missão, ao concluir que estaria nas mãos do primeiro-sargento, ainda sem saber se lhe saíra em sorte um dos bons ou dos outros.
Mas o Cabrita devia ter uma estrelinha cintilante que o amparou durante a sua efémera missão de garante do cumprimento das mil e uma normas do injuntivo regulamento militar. Coube-lhe em sorte um dos bons, direi mais, dos melhores.
Não foi preciso muito tempo para todos perceberem que nos saiu na rifa um dos melhores sargentos do exército português. Ao nosso Primeiro, de seu nome Manuel António Pinto, não se aplicava nenhuma das características condenáveis que se costumavam apontar aos chicos:
Desde logo ficara demonstrado que não era lateiro. É certo que não costumava achar que o rancho era sempre bom. Mas comia e não barafustava, talvez porque, lá no íntimo, tivesse consciência que os escassos vinte e dois escudos e meio por dia que o vagomestre dispunha para alimentar cada homem, compunham um magro orçamento que não permitia lautas refeições, Acredito, contudo que, se assim não fosse, o seu profissionalismo não lhe permitiria a veleidade de refilar da qualidade do que lhe punham no prato.
Comia naturalmente do rancho como todos os outros, ocupando um qualquer lugar na mesa corrida da messe de sargentos, em amena cavaqueira com os jovens que na altura integravam o grupo de furriéis da companhia.
Por outro lado e em evidente contradição com a maledicência, era uma pessoa pacífica culta e educada, para além de bem-humorado. Todos o respeitavam, não por temor, ou porque o exigisse. Respeito, merecia-o naturalmente e todos lho reconheciam.
Era um homem maduro, na casa dos quarenta anos, mais ou menos o dobro da idade da maioria dos furriéis que compunham o corpo de sargentos da companhia. Sendo apenas o camarada mais velho e sem querer exagerar, era como se fosse nosso pai, ou se se quiser, um irmão mais velho, bem mais velho.
Sábio, sabedor, ponderado e dotado de bom senso em quantidade generosa, a sua opinião avisada foi, aos poucos, sendo considerada importante, necessária, quase obrigatória.
- Oh meu primeiro! O que me aconselha…?
Perante a pergunta, respondia sempre com voz pausada, carregando nos esses a denunciar a sua origem nas frias terras altas da Guarda.
Se entendia que não deveria aconselhar, recomendava:
- Você é que tem de decidir.
E rematava com o seu sotaque beirão:
- Pense bem que há-de encontrar a resposta.
Passava o dia na secretaria, tratando da papelada, controlando os orçamentos e dali apenas saía para o almoço e no fim do expediente, percorrendo, no seu passo lento e seguro, o caminho de tabuinhas que separava a secretaria da messe. Ao fim do dia, sentava-se junto a nós entrando na conversa e contando estórias antigas. Ria-se com gosto das brejeirices que apimentavam factos passados da sua juventude e partilhava connosco as suas alegrias, pelo menos algumas. Lembro-me do seu indisfarçável contentamento ao divulgar, entusiasmado, após o regresso de férias, que tinha comprado um carro novo. Para ele o modesto Citroën Ami 8 que comprara era um carrinho muito bom, uma maravilha. Ficava assim demonstrada a sua natural e não cultivada modéstia.
Não obstante o Cuando Cubango ser abundante em caça, nunca vi o primeiro-sargento sair para a mata com esse objectivo, muito embora, por uma questão de necessidade se fizessem frequentes incursões de caça. Contudo, fazia questão de integrar um pequeno grupo que, incluindo o capitão, o médico e mais um ou outro, se entretinha, após o jantar e a coberto da noite, a apanhar uns quantos coelhos que habitavam no terreno tangencial à pista no lado norte.
Utilizando um velho Jeep Willis de três velocidades e que consumia cinquenta litros aos cem, percorriam a pista até ao fim, trazendo no regresso quatro ou cinco coelhos que, encadeados pelos faróis, se deixavam apanhar. O petisco que com eles se fazia e a que o primeiro não resistia, era um autêntico regalo para papilas gustativas adormecidas pela comida sensaborona do rancho.
E assim, durante algum tempo, quatro ou cinco coelhos eram diariamente sacrificados, até que, não sei se porque deixou de ter piada, se porque a ninhada se mudou para outras paragens ou se foi simplesmente dizimada, foi dado por findo o entretém.
Quanto ao mais e como é bom de ver, o Primeiro era um homem rigoroso no cumprimento dos seus deveres. Mas não era apenas exigente consigo. Sem que alguém alguma vez o tenha ouvido reclamar ou exigir rigor no comportamento, sabíamos que gostava que todos se comportassem com zelo e lealdade, de acordo com as regras. Disso se apercebeu o furriel das transmissões, que fora designado para gerir a cantina.
Foi demitido dessas funções, simplesmente porque as contas apresentadas, ou não o convenciam ou não estavam de acordo com os procedimentos que ele considerava os correctos. Nunca soube exactamente o que terá feito o furriel para assim ser demitido, já que a lisura profissional do primeiro-sargento Pinto nunca lhe permitiu divulgar. Simplesmente me comunicou que tinha proposto ao capitão que, a partir daquele momento, seria eu a lidar com as coisas da cantina.
Das razões de facto, provavelmente só o capitão teria sido informado. Homem leal, discreto, solidário e íntegro, o capitão podia ter a certeza que se houvesse algo que só a ele devia ser dado conhecimento, mais ninguém o saberia.
Era também um bom coração, um amigo que se preocupava com os sentimentos dos outros. Ainda hoje recordo a forma cuidada que usou para me comunicar o desfecho trágico do acidente que matou o Gonçalves. Demonstrando que a sua perspicácia não se confinava às coisas da secretaria, apercebera-se que a relação de amizade que me unia ao Gonçalves era forte. É claro que sabia sermos conterrâneos mas, ainda assim, saberia que essa não seria a principal razão que nos tornara amigos. Sendo um dos primeiros a ter tido acesso à mensagem que, transmitida via rádio a partir do Rivungo, anunciara a desgraça, aprestou-se, pessoalmente, a comunicar-me, com cuidado mas sem grandes rodeios, que não mais veria o meu amigo e companheiro.
Na altura não medi bem o alcance do gesto. Tomei-o como sendo apenas o mensageiro da desgraça. Só mais tarde me dei conta que isso revelara muito da sua personalidade de ser humano. Preocupado com os sentimentos dos outros, fez questão de me pôr ao corrente do facto antes que a notícia corresse os quatro cantos do aquartelamento como sussurro funesto ameaçando a tranquilidade e os sentimentos de cada um.
É notório. Eu gostava do nosso primeiro. Ainda hoje gosto. É sempre com indisfarçável alegria que o revejo ano após ano por ocasião dos nossos encontros anuais. Comparece sempre que pode, especialmente se o local do encontro não for muito longe. A idade já não lhe permite grandes caminhadas. Mas gostamos de o encontrar de boa saúde. Tenho a certeza que esse é o sentimento de todos.